Revolutionary Road – Foi Apenas Um Sonho


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Qual é a saída para as pessoas que querem mais, que fogem dos estereótipos, que não se enquadram? Talvez ir para Paris, tentar vida nova, tentar voltar a viver. Ou…? Revolutionary Road, novo filme dirigido por Sam Mendes, o homem que impressionou a muitos com sua visão àcida sobre o “american way of life” com American Beauty, eleva a um patamar muito mais refinado e potente a crítica a mediocridade e ao “politicamente correto”, ao “socialmente desejado” ou, em outras palavras, a essa fábrica de mentiras chamada sociedade moderna. Corrosivo, contundente, não é um filme apenas sobre uma tragédia cotidiana, mas especialmente uma produção sobre o quanto angustiante pode ser a vida de uma pessoa que queria mais e que não vê saída além de mentir. Se trata de uma história dura sobre a falência de um casamento, a morte de um sonho e tudo o que pode porvenir disto.

A HISTÓRIA: Os jovens April (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) se encontram em uma festa típica dos anos 50 nos Estados Unidos, regada a música, bebida e gente interessante ao redor. Eles se encontram e se apaixonam. Vários anos depois, April estréia em uma peça de teatro duvidosa e, no retorno do casal para casa, começamos a perceber o quanto eles vivem das aparências, em um permanente conflito entre o que eles gostariam de ser e aquilo em que eles se transformaram. Neste cenário instável, o casal Wheeler é admirado por pessoas como a Sra. Helen Givings (Kathy Bates), que conseguiu uma casa para eles na rua Revolutionary; pelo casal Shep (David Harbour) e Milly Campbell (Kathryn Hahn), vizinhos de April e Frank; ao mesmo tempo em que são confrontados por John Givings (Michael Shannon), o filho de Helen que passa por tratamento psicológico e que é o único que percebe o quão podre pode estar a realidade do “casal modelo” da vizinhança.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Revolutionary Road): As máscaras um dia caem. De uma maneira ou de outra, para os que têm coragem de ver tudo de frente, um dia as máscaras caem e a realidade surge na superfície. Revolutionary Road é uma crônica potente, maravilhosamente escrita, sobre a falência do sistema em que vivemos e sobre a falência dos casamentos – e/ou relacionamentos fundados na esperança de que as pessoas podem ser “melhores juntas”. O roteiro de Justin Haythe, inspirado na obra do ótimo Richard Yates, permanentemente nos mostra o jogo de aparências da sociedade norte-americana (e a de tantos outros países) e os problemas gigantescos que ela esconde por debaixo do tapete.

O filme é sobre um casal, basicamente. Mas não apenas sobre eles. Tudo o que está ao seu redor – do emprego “padrão” do pai de família até as suas amizades superficiais – acaba entrando no foco de Sam Mendes e sua equipe. Os atores principais dão um verdadeiro show, especialmente Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. Nossa, quanto eles amadureceram desde o seu último filme juntos, Titanic, há exatos 11 anos… Agora sim, eles podem ser considerados verdadeiros atores. 

Como muitos filmes desta nova safra, Revolutionary Road tem muitas camadas de interpretação. Ele pode ser visto tal qual nos é apresentado, como uma crônica sobre as aparências, ou pode ser visto como crítica a uma época e a um sistema. Porque o “american way of life” – ou o capitalismo, propriamente dito – não mudou muitos dos anos 1950 para cá. As pessoas continuam sendo empurradas a fazerem o que for preciso para “darem certo”, para ganharem dinheiro e sustentarem suas famílias – com filhos sempre sendo “bem-vindos” ou, melhor dizendo, socialmente desejáveis -, sacrificando a maioria das vezes neste caminho os seus desejos e, principalmente, seus talentos e vocações. Não importa se a pessoa realmente se sente realizada, o importante é que ela forme uma família e que crie seus filhos.

Quando fica clara a insatisfação de April com a vida que eles estão levando, para mim foi inevitável lembrar de Laura Brown, a personagem vivida por Julianne Moore no filme The Hours. O mesmo desespero, a mesma aflição vivida por uma, se repete na vida da outra. Fiquei esperando, a qualquer momento, o quarto de April ser invadido por uma inundação simbólica de água. 😉

Mas falando sério, April me lembrou muito a Laura Brown. Aquela mesma angústia em viver uma “personagem” com a qual elas não se identificam, vestir a cada dia a fantasia de “mãe-de-família-perfeita” que não suporta mais esse papel. Mas, claro, o personagem de April acaba sendo muito mais denso e completo – até porque Kate Winslet não tem que dividir o tempo do filme com outras duas personagens femininas protagonistas, como em The Hours.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, uma das maiores angústias do filme acontece quando April divaga sobre o quanto ela se achava especial – e achava especial ao futuro marido, Frank – e que, depois, ela percebeu que eles não tinham nada de especiais, que eram apenas mais “uns”, eram apenas “uns qualquer”. Uma ironia corrosiva, especialmente porque eles são sempre vistos como “casal dos sonhos”, em um matrimônio aparentemente perfeito. O contraste entre o que April sonhava para eles e da imagem que ela via no espelho antigamente (e que continua “colando” para as pessoas de fora da casa) com a que ela vê na atualidade é de matar. Eles acabaram se transformando em tudo o que eles odiavam – e não existe nada mais brochante do que isso.

Quando April insiste na idéia da família se mudar para Paris, onde ela acredita que o marido finalmente poderia encontrar a sua vocação, ficou claro para mim que esta era uma medida desesperada para que ela conseguisse salvar o casamento. Mas o que é bacana no roteiro e no filme é que esta “bomba” cai no nosso colo, de espectadores, sem conhecermos (ainda) todo o contexto. Sendo assim, inicialmente, não sabemos as reais intenções de April – assim como, inicialmente, a atitude de Frank parece do marido amoroso, atencioso, muito diferente da realidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Talvez eu esteja mal acostumada a esperar o pior das pessoas… mas juro que quando ela insistiu tanto em eles irem para Paris e, pouco depois, ela revelou estar grávida, eu pensei que a idéia de se mudar com a família era uma maneira de acobertar e/ou fugir de um relacionamento extra-conjugal. Podia apostar que ela mantinha um caso com o vizinho Shep. Ledo engano. O buraco era muito mais embaixo – e interessante.

Não é fácil olhar francamente para o espelho e se descobrir medíocre. Ou melhor, é muito duro pensar sobre a própria vida e ver como tudo o que a pessoa sonhava e planejava para si não se concretizou. Tudo bem se um sonho dos bons foi trocado por outro da mesma grandeza. O problema é quando um sonho destes foi simplesmente substituído pela “ordem da manada”, ou seja, pelos padrões que todos seguem. Para alguns, tudo bem seguir a manada e não pensar muito sobre a própria vida – para isso não falta varidade de entorpecentes para nos “iludir”. Mas para outros, os “desajustados sociais”, como April e John Givings, não é possível fechar os olhos para tudo o que está errado à sua volta. Não por acaso tantas pessoas sofrem mundo afora, no exato momento em que estou escrevendo este texto (e que você o está lendo). Para alguns é mais difícil (ou até insuportável) mentir tanto. Pois Revolutionary Road fala justamente sobre estas pessoas, as que aceitam e as que se rebelam.

Algo que achei muito interessante no filme é sobre como ele trata sobre a questão de como as aparências enganam. Afinal, até boa parte do filme você vê a Frank Wheeler como um marido amoroso, preocupado em estar sempre discutindo a relação e em saber o que a mulher pensa ou está sentindo. Até o roteirista (e nós com ele) pegar a lente de aumento e mostrar o quanto Frank é um controlador egoísta, parece que ele é o “homem perfeito”, preocupado com sua família e amoroso.

(SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). Claro que ele trai a mulher com a secretária Maureen Grube (Zoe Kazan), mas até aí… muitos acreditam que a traição faz parte do casamento e, especialmente em uma sociedade como a nossa (a brasileira), este elemento está quase socialmente aceito pela maioria. Então a traição dele não o transformar em crápula, o que acontece somente quando percebemos o quanto ele sufoca a mulher, controlando cada um dos seus movimentos e, principalmente, quando ele finge se importar – e, na verdade, apenas “discute a relação” para reafirmar seus pontos de vista e deixar claro quem está certo na relação. Frank é um louco sufocador, o que torna a vida de April insuportável – além dela ter que lidar com a frustração da realidade deles, ainda tem que conviver com um homem que está sempre querendo lhe dizer como agir ou pensar, ainda que “sutilmente”. Ele nunca, realmente nunca escuta a mulher.

Interessante também a máquina das traições neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Como acredito que ocorra em muitos casos do tipo, tanto Frank quanto April traem um ao outro em busca de sentirem algo… eles querem sair do estado letárgico e anêmico de suas vidas/relação para alcançar algum sentimento verdadeiro fora – ainda que seja um fugaz êxtase. O problema ocorre quando eles percebem que nem assim eles se sentem satisfeitos. A traição acaba sendo praticamente mecânica. Poderia ou não ter acontecido… porque no final, tudo acaba sendo igualmente sem sabor. Eles parecem incapazes de sentir paixão novamente. Frank diz amar April, ela revela odiá-lo. Mas nem um, nem outro, parecem realmente serem capazes de sentir.

Outra ironia do filme – e entramos, então, em outra camada de leitura do roteiro/da obra – é de que apenas os “desajustados” são capazes de dizer a verdade. Tanto April, que está desesperada, quanto John Givings, considerado louco, são vistos como desequilibrados. Ela, que ainda controla suas opiniões para o “grande público”, é vista como louca pelo marido. Ele, tachado como tal por todos – dos pais até os médicos. E justamente John Givings, em uma interpretação magistral de Michael Shannon, é o responsável por alguns dos momentos mais tensos e mais interessantes do filme. Os loucos realmente salvam as nossas sociedades. 😉 E, no fundo, eles são deixados de lado porque ninguém está disposto a ouvir, em todo momento, verdades que ninguém quer confrontar. É mais fácil sufocar as vozes dissonantes do que tentar agregá-las – e, com isso, mudar algo em uma situação “cômoda”.

O roteiro – e certamente a obra de Yates – é muito bem escrito. Existem frases, aqui e ali, realmente geniais. Como a que fala sobre a verdade – que é inesquecível, mesmo para os que estão acostumados a viver na mentira. Um texto realmente muito bom. Assim como as interpretações – porque não adianta de nada ter um ótimo texto e os atores encarnarem mal seus papéis. Além da dupla protagonista, chamou a atenção mais uma vez o trabalho de Michael Shannon, que se “revelou” para mim com Bug; assim como David Harbour como o vizinho apaixonado por April.

Os Wheeler têm dois filhos, que acabam aparecendo pouco (ou quase nada) na história. Eles são interpretados pelos irmãos Ryan Simpkins (Jennifer) e Ty Simpkins (Michael). Gostei também da “ponta” do ator Richard Easton, que interpreta o Sr. Howard Givings. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme). O final do filme, em que ele prefere tirar todo o volume de seu aparelho auditivo ao invés de escutar as críticas hipócritas da mulher a respeito do até há pouco “casal modelo” Wheeler, foi simplesmente genial. Não imagino um final melhor para o filme. Afinal, não existe melhor crítica do que o desprezo às pessoas como a Sra. Helen Givings, que tratam os demais como seres descartáveis: ora modelos, ora alvos a serem atacados e vilipendiados. 

Mas um dos temas principais do filme é realmente o medo (ou a covardia, para alguns) que acaba paralisando a tantas pessoas. Um medo de ousar, de arriscar e acabar perdendo. Esse medo leva Frank a preferir um emprego do qual ele não gosta, e para o qual acaba dedicando grande parte da sua vida, do que a aposta em algo incerto, na busca do caminho no qual ele se sentiria realmente desafiado e motivado. Como bem definem em certa hora do filme, ele prefere não ousar e, com isso, não fracassar. Para alguns isso é aceitável e suficiente, para outros, não.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme talvez merecesse até uma nota um pouco maior, mas resolvi dar a classificação acima porque me incomodou um pouco a neurose cíclica da histórial. Afinal, realmente eram necessários 119 minutos para contar essa relação de poder entre quatro paredes – e alguma vez extendida até o jardim, a casa do vizinho e um pouco além? Acho que o filme poderia ter ou menos tempo (uma hora e meia, talvez) ou explorar um pouco mais outras facetas desta sociedade que vive e incentiva as aparências.

Nas notas de produção do filme, comenta-se que a obra de Richard Yates lançou uma pergunta até hoje em aberto: “Podem duas pessoas romperem com a rotina sem, com isso, romper com a relação que elas têm?”. Boa pergunta. Alguns acho que conseguem romper com a rotina sem se quebrar junto com isso – individualmente e como casal -, mas, para conseguir algo assim, é preciso que individualmente as pessoas se sintam estimadas, valorizadas e, principalmente, desafiadas. Sem tesão a vida realmente não tem solução – resgatei esta do fundo do baú, hein?

Achei curioso um comentário do autor de Revolutionary Road em uma entrevista para Ploughshares em 1992. Ele diz que ele ficava decepcionado porque o seu livro era, geralmente, considerado uma obra antiburguesia. Ele dizia que a considerava mais uma denúncia contra o que classificava como o “fervor nacional pelo conformismo que existe em todo o país”, e não apenas nas zonas residenciais, ele ressaltava, mas como uma “forma de aferrarse cega e desesperadamente à segurança e a tranquilidade a qualquer preço”. Maravilhoso, não? Ele acrescentava, ainda, na mesma entrevista, que a intenção dele com a obra era “sugerir que a via revolucionária de 1776 (quando foi declarada a Independência) tinha chegado a algo muito parecido a uma gaveta sem saída nos anos 50”. 

Revolutionary Road, a obra de Richard Yates, foi lançada em 1961 e caiu como uma bomba de crítica realista na sociedade da época. Algo que se comenta e que realmente é verdadeiro: o casal caminhava “bem” até o momento em que April resgata o plano Paris… a partir daí tudo fica ainda mais conflitivo na vida deles. Por que? Simples: nesta hora fica evidente o universo que separa April e Frank. Ela quer resgatar o sonho, seus ideias e a vontade de “ser maior”. Ele, com receio de perder o que já tem, encarna o conformismo e a resistência às mudanças, preferindo agarrar-se ao que já tem ao invés de arriscar-se. Os universos de ambos colidem de forma inevitável.

Um tema que eu ia deixando de lado (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): como o aborto é tratado de maneira quase “natural” no filme. A história mostra como as mulheres da classe média na época falavam a respeito deste tema e sabiam como fazer um aborto “se ele fosse necessário” e, claro, no “aconchego de seus lares”. Ainda que o tema vire ponto de ruptura no casal – ela querendo mudanças, ele procurando ainda mais elementos para que a família ficasse “conformada” -, ele não deixa de ser tratado como um assunto a mais para falar no café da manhã (no mesmo patamar, quase, que uma decisão sobre as compras ou a contratação de um jardineiro. Mais acidez nesta história.

Curioso saber que Revolutionary Road foi a primeira obra de Yates, quando ele tinha 35 anos. E saber que ele vendeu os direitos da obra pela módica quantia de US$ 15,5 mil. Ao perceber que a versão para o cinema não se concretizava, ele tentou comprar os direitos de volta para escrever o roteiro e garantir que a adaptação ocorria, mas Yates acabou morrendo em 1992 sem conseguir isso – e nem ver a sua obra ser adaptada.

Fiquei sabendo também pelas notas de produção que o autor morreu de enfisema aos 66 anos, depois de lutar contra o alcoolismo, a depressão e a sua dificuldade de relacionar-se com as pessoas. Para muitos críticos e autores literários, Revolutionary Road é uma das obras emblemáticas do século 20. Como comentou Blake Bailey, o primeiro a escrever uma biografia de Yates, Revolutionary Road trata dos temas fundamentais do ser humano.

Devo ser a última pessoa a saber disso, mas tudo bem: Sam Mendes, o diretor do filme, é casado com Kate Winslet, a protagonista. Juro que não sabia. E um detalhe importante: depois dela receber o roteiro de Revolutionary Road é que ela sugeriu para que ele entrasse no projeto. O caminho inverso da maioria das histórias em que o diretor acaba tendo a mulher como protagonista. 

Algo muito acertado nesta produção foi a escolha de Leonardo DiCaprio como protagonista ao lado de Kate Winslet. Afinal, outro ator em seu lugar não conseguiria este “plus” na nossa cabeça no quesito ironia. Todos lembram do casal apaixonado e romanticamente idealizado de Titanic. Vê-los agora, nesta forma madura e cínica de um matrimônio, é a melhor maneira de confrontar aquela lembrança de Titanic. Mais uma forma de questionar a ilusão dos amores românticos e irreais.

Vale comentar o trabalho tecnicamente perfeito do diretor de fotografia veterano Roger Deakins e a trilha sonora do experiente (oito vezes indicado ao Oscar) Thomas Newman

Revolutionary Road têm recebido notas menores que os seus atuais concorrentes à prêmios. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,9 para o filme (achei muito baixa, ele merecia pelo menos um 9). Os críticos que têm textos divulgados pelo Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 81 críticas positivas e 39 negativas para o filme – um número considerável de textos ruins, comparado aos demais filmes da temporada.

Comercialmente falando o filme ainda não estreou para o grande público. Em cartaz apenas em um circuito estrito ele alcançou pouco mais de US$ 3,1 milhões até o momento.

Até o momento, Revolutionary Road ganhou dois prêmios – incluindo o Globo de Ouro para Kate Winslet como melhor atriz – e foi indicado a outros 13. Além do Globo de Ouro, ele recebeu o prêmio de melhor elenco no Festival Internacional de Palm Springs.

CONCLUSÃO: Adaptação da potente obra de Richard Yates que faz uma radiografia do casamento, da sociedade estadunidense pós-Segunda Guerra Mundial – em ascensão e conformista – e do conflito entre os ideais da juventude e a realidade de quem se deixa entusiasmar com as possibilidades que o dinheiro abre em uma vida dentro dos padrões estabelecidos. Conta com interpretações de tirar o chapéu, especialmente dos protagonistas, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que mostram ter amadurecido em seus ofícios. O diretor Sam Mendes, por sua vez, consegue um tom acima em sua sinfonia por criticar os “valores” da sociedade moderna – ainda que o filme seja ambientado nos anos 50. Denso, cheio de nuances e de questionamentos, é um filme para ser visto e analisado. Afinal, ele tem no DNA a densidade de um dos grandes autores norte-americanos do século passado.

PALPITE PARA O OSCAR: Revolutionary Road certamente receberá alguma – ou algumas – indicações ao próximo Oscar. Certamente Kate Winslet será indicada. Sam Mendes e Leonardo DiCaprio também podem chegar lá – assim como o roteiro de Justin Haythe. Mas para isso, eles terão que deixar outros nomes de peso para trás. DiCaprio, por exemplo, teria que deixar de fora de uma das cinco vagas algum dos “favoritos” da disputa deste ano: Sean Penn, Frank Langella (que, para mim, poderia ficar de fora da disputa), Brad Pitt, Clint Eastwood (que deveria estar entre os finalistas) e Mickey Rourke (que levou o Globo de Ouro como melhor ator). Sem contar o jovem talento de Dev Patel, que perfeitamente poderia estar entre os cinco finalistas. A tarefa de DiCaprio não é impossível… tudo vai depender do humor dos votantes da Academia.

O fato é que Revolutionary Road está concorrendo em um ano de filmes potentes. Não será fácil, ainda que o roteiro de Haythe seja muito bom, colocar o filme entre os cinco finalistas em diversas categorias. Se a Academia resolver ser “boazinha” com esta produção, ela até pode ser indicada a uns seis prêmios – além dos já citados, ela poderia entrar perfeitamente ainda nas categorias de melhor trinha sonora e direção de arte. Mas acho, sinceramente, que ele deve ser indicado a poucos prêmios. O ano realmente está sendo bem disputado. Adoro a Kate Winslet, mas acho difícil ela levar o Oscar para casa. Afinal, para isso, ela teria que derrubar as favoritas Meryl Streep (por Doubt) e Anne Hathaway (de Rachel Getting Married). Feito que conseguiu no Globo de Ouro, mas que será difícil de repetir no Oscar. Exceto por Kate Winslet, acredito que o filme não tenha chance nas demais categorias.

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15 comentários em “Revolutionary Road – Foi Apenas Um Sonho

  1. Oi Vini!

    Primeiramente, seja muito bem-vindo por aqui!

    Gostou do texto? Fico feliz.

    Espero que voltes aqui mais vezes… inclusive para dar opiniões mais extensas… gosto de saber o que as pessoas acham, sentem e pensam. 😉

    Um abraço!

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  2. Achei injusto esse filme não concorrer a nada relevante no oscar. Ele é brilhante.

    SPOILER —- SPOILER—-SPOILER —- SPOILER—-SPOILER
    Atenção para a cena de quando ela aborta e olha a janela. Aquela janela simboliza tantas coisas. simboliza sobretudo o outro. lindo lindo lindo. O desespero dela em fugir de si mesma e o desejo de todos fugirem…
    A sociedade é mesmo uma mula, na linguagem do nietzsche, ela segura os valores sociais nas costas e carrega a qq preço.
    Um filme nietzschiano? Não sei.

    Adorei!

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  3. Oi Fabio!!

    Primeiro de tudo: seja muito bem-vindo por aqui. Não é todos os dias – para falar a verdade, nunca até agora – que eu ganho um leitor que cita Nietzsche, o grande e fundamental Nietzsche. Gostei. Você já me ganhou só com isso. 😉

    Concordo contigo que foi injusto Revolutionary Road não ter sido indicado a praticamente nada no Oscar. Esqueceram do coitado – exceto por Michael Shannon, que deste era impossível não lembrar, e de algumas categorias técnicas. O certo mesmo era Kate Winslet ter ganho o Oscar por esse filme. Mas ok, coisas da Academia.

    A cena que você cita realmente é maravilhosa. Bem, toda a sequencia, né? Desde que ela toma a decisão, arruma tudo no quarto, até quando ela pára na frente da janela. Linda, linda, linda!! E tens razão sobre a sociedade “segurar o indivíduo”, algo que eu também tinha entendido como sendo uma das principais mensagens do filme – e que tinha comentado na crítica.

    Mas falando em moldar os valores e encrustá-los na nossa “alma/mente”, você já assistiu a 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile (no Brasil, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias)? Outro filme muito potente sobre este tema e sobre o aborto. Recomendo. E, por ser de quem é, aquele filme tem ainda mais o “espírito” nietzschiano que este Revolutionary Road. Bem, e sobre o desejo de fugir de si mesmo, tem muitos filmes por aí, mas gosto muito de The Hours.

    Obrigada por tua visita e pelo teu comentário. E volte sempre, viu? Um abraço.

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  4. Meu deus, como faz séculos que eu não comento! Adorei esse filme! Adoro quando falas que é quase uma continuação irônica de Titanic. Porque o que vem depois do “e viveram felizes para sempre”? Vem a rotina, a tentativa de se encaixar na sociedade, a frustração, o desejo de ser “especial”.
    Aborda o desejo de morte, a sensação de inadequação demaneira muito forte. Ainda prefiro As Horas, mas adorei.

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  5. Oi Isa!!!

    Sim, sim, fazia um século e meio que você não aparecia por aqui. 😉

    Que bom que você voltou. Seja bem-vinda, mais uma vez – e sempre.

    Revolutionary Road é um grande filme. Pena que pouca gente parece ter entendido a ironia e a densidade dele. Mas enfim… é assim mesmo. Cada pessoa está preparada para uma mensagem, em uma época, e para um nível de entendimento.

    Também adoro As Horas… bem, sou suspeita para falar deste tipo de filme, porque eles estão entre meus preferidos.

    Um grande abraço, menina, e agora vou para teus próximos comentários…

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  6. Demais essa crítica, completa! Parabéns! Foi de todas, as q mais gostei, e concordei (somos seres orgulhosos, amantes de nós mesmos, gostamos de afinidades). Gostei dessa muito dessa parte:

    “Me fale a verdade Frank, vc se lembra? Nós costumávamos viver por ela. E vc sabe o q é tão bom sobre a verdade? Td mundo sabe o que é, não importando o tempo q vivam sem ela. Ninguém esquece a verdade, Frank. Só ficam melhores na mentira”.

    Concordo q é um filme nietzschiniano, diria mais, intrinsecamente nietzschiniano, até a última gota!

    “O medo é o pai da moralidade”.

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    1. Oi Flávia!

      Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui.

      Puxa, fico feliz que tenhas gostado do texto. É sempre uma alegria quando o que eu escrevo cai no agrado de alguém – ou até possa inspirar alguma reflexão ou vontade da pessoa em também manifestar as suas opiniões.

      Sim, somos seres que dependem de afinidades… gostamos de nos identificar. Isso é uma características evolutiva e que, cá entre nós, faz bastante sentido. hehehehe

      Esse trecho que você citou é simplesmente formidável. Um dos grandes momentos do filme e do texto de Justin Haythe.

      Ah, Nietzsche… sempre ele. Fantástico! Sim, é um filme com a alma deste filósofo/pensador/crítico alemão.

      Bacanérrimo o teu comentário. Espero que voltes por este blog mais vezes, inclusive para falar de outros filmes.

      Um grande abraço!

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  7. Primeiramente, houve comigo, após assistir o filme, uma catarse. Que filme! Mas que filme verdadeiro! Mas minha interpratação não foi tanto pelo lado da “sociedade americana nos bastidores”, mas sim, como que deixamos de viver ou tentar um sonho por medo ou preferindo o cômodo (questões também citadas em sua critica), mas de qualquer forma é um filme que desperta tipos de emoções distintas nas pessoas.
    Confesso que o que me atraiu para assistir esse filme foi a dupla de protagonistas mais conhecida do cinema e me surpreendi com a atuação de ambos.
    Já está no meu top 5 de melhores filmes!

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    1. Oi Camila!

      Filme delicioso, não é mesmo?

      Também fiquei impressionada com a interpretação dos protagonistas. Acho que eles estão mais maduros e, consequentemente, melhores.

      Concordo contigo. Esta questão de não viver o que se deseja por medo ou por comodismo é um ponto muito forte no filme.

      O bacana é que este filme, como um grande filme, mexe com a gente e nos faz pensar. Para mim, os melhores filmes que eu assisti na vida tiveram esse efeito.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Curti os dois. Espero que voltes por aqui muitas vezes ainda.

      Abraços e inté!

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  8. Parabéns por evidenciar tão claramente suas percepções obtidas com a análise do filme. Sem dúvida, espetacularmente bem apresentada.

    Elegi este filme, até o presente momento, o “longa da minha vida”, tamanha profundidade com que trata o tema “zona de conforto” e “busca do desconhecido” dentro de uma linguagem realista; e, claro, não menos importante, também como abordou o sonho interceptado e plenamente obstruído pela passagem do outro “eu”, representado pela figura da sociedade, do outro com o qual convivemos, ao qual nos submetemos e reagimos quase que com a ausência de nós mesmos.

    Obrigado pela dedicação em analisá-lo paulatinamente e circunscrevê-lo com esmero. Esperando por resposta ou não, foi, como já disse alguém, muito mais completa em suas declarações que outros críticos espalhados pela rede virtual.

    Era de se esperar que o filme não rendesse comercialmente. Tal tema não há de ser absorvido com facilidade e ganhar as palmas do público que, em sua maioria, resume-se à rua Revolutionary Road, intrigado e estranhado quando vê no outro a iniciativa da mudança. O filme não faz bem ao acomodado na caverna, recluso à escuridão, angustiado com a luz transpassada pela fresta aberta quando alguém por ela se faz sair. Eu bem o sei – desconhecendo talvez -, já que moro numa “rua” tal como Revolutionary Road e “Paris” se evidencia muito longe de mim.

    Sucesso,

    Webert Gomes

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    1. Oi Webert!

      Uau, que baita comentário o teu!

      Por linhas como estas que escreveste é que eu mantenho esse espaço. São contribuições como a tua que fazem este blog valer a pena.

      Fico feliz que tenhas gostado da crítica e deste espaço.

      Concordo contigo plenamente. O filme é muito mais denso e profundo do que uma leitura ligeira ou desatenta possam sugerir. De fato, é difícil alguém tão mergulhado na “caverna” ou na “revolutionary road” perceber as nuances da história, e o quanto este espelho pode ser doloroso.

      Muito obrigada, mais uma vez. Espero que voltes por aqui mais vezes, inclusive para comentar sobre outros filmes que tenhas gostado.

      Abraços e inté!

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