The Wrestler – O Lutador


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Um filme verdadeiramente rock and roll. The Wrestler faz um exame detalhado – literalmente – do universo dos homens que fazem a luta livre ser um espetáculo de terror e, de quebra, resgata a carreira de um ator desprezado (e agora, premiado): Mickey Rourke. A produção é dirigida por Darren Aronofsky, um dos meus diretores preferidos da “nova safra”, responsável por filmes como Pi e Requiem for a Dream. Desta vez ele não economiza o recurso da câmera na mão e esboça um semi-documentário sobre a vida dos lutadores que topam quase tudo por dinheiro. Potente, é um filme com um bocado de violência – não é recomendado para qualquer pessoa – e, principalmente, uma visão sem filtros da realidade de um astro decadente.

A HISTÓRIA: Randy Robinson, mais conhecido como The Ram (Mickey Rourke) é um astro decadente da luta livre. Vinte anos depois da grande luta de sua carreira, ele continua finalizando as noites de “espetáculo” em locais de segunda categoria. Ainda que esteja longe de seu grande momento, ele se mantêm como ídolo de várias gerações, distribuindo autógrafos para fãs que passaram dos 40 na mesma medida que os distribui para crianças. Mas a rotina dele se interrompe quando ele sofre uma parada cardíaca e, sob orientação médica, para de lutar. Na busca por um sentido em sua vida, The Ram tenta um relacionamento com a stripper Cassidy (Marisa Tomei) ao mesmo tempo em que procura se reaproximar da filha Stephanie (Evan Rachel Wood).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Wrestler): O filme não é para fracos. Afinal, ele mostra algumas cenas de puro barbarismo, de violência explícita. Para os que estão acostumados aos espetáculos de luta livre, ele não deve mostrar nada demais. Ou melhor, mostra os bastidores do espetáculo, o que não é muito comum. E nestes bastidores se vê toda uma encenação que, provavelmente, os espectadores não imaginam que ocorra. 

Um dos aspectos mais interessantes para mim, nesta parte de mostrar os “bastidores” do universo da luta livre, foi o de perceber que, na verdade, os lutadores se autoflagelam. Sim, porque além deles combinarem, antes de entrarem no ringue, como vão “lutar” uns com os outros, se percebe que muitas vezes são eles mesmos que se cortam ou se furam com objetos colocados sobre o local da luta. The Ram nos mostra isso em mais de uma ocasião. 

Mickey Rourke… quem diria! O homem que arrasou corações nos anos 80 e que depois só seguiu ladeira abaixo aparece agora em uma interpretação digna de prêmios e de críticas positivas praticamente unânimes. Não imagino outro ator para o papel de The Ram – que pode significar tanto “o carneiro” quanto “o batedor”, “o bate-estacas”, e por aí vai. Rourke, que estrelou filmes como Rumble Fish (um dos meus preferidos de Francis Ford Coppola, com Matt Dillon também), Angel Heart (ótimo filme de Alan Parker) e o sucesso Nine 1/2 Weeks na década de 1980, nos anos 90 decidiu virar boxeador profissional. Junto com essa decisão veio o consequente desprezo dele a sua carreira de ator e, luta após luta, ele conseguiu uma cara deformada – que depois de várias plásticas ficou ainda mais estranha. 

A idéia de um lutador decadente que não suporta a aposentadoria “precoce” caiu como uma luva para o ex-pugilista e ator decadente Mickey Rourke. É verdade que antes de The Wrestler ele já havia “ressurgido das cinzas” por seu papel em Sin City. Ainda assim, poucos filmes conseguiram mesclar tão bem ironias da vida real de um ator com a de seu personagem – da nova safra, talvez apenas Gran Torino, de Clint Eastwood, consiga algo parecido.

The Wrestler deixa para trás os planos ambiciosos e mal explicados do ótimo Aronofsky com seu The Fountain e mergulha de cabeça no atualmente badalado estilo “semi-documentário” de direção. Com isso, quase toda a narrativa é feita com a câmera na mão do diretor, que segue seus personagens para contar suas aventuras em um plano de “proximidade”. Não faltam closes na hora dos diálogos mais importantes do filme e nem na hora de mostrar os cortes e furos na carne dos “combatentes do ringue”. 

Ainda que o filme seja mais visceral que filosófico, não se pode dizer que não existam várias interpretações da história menos óbvias. The Wrestler trata, além dos bastidores da luta livre (e toda a sua encenação e camaradagem), de algo que afeta muitas pessoas em diferentes profissões e/ou momentos da vida: a dificuldade em aceitar que não se pode fazer as mesmas coisas que outrora. A idade chega para todos, não adianta. E quanto antes as pessoas aceitam as suas limitações e dificuldades, em outras palavras, a sua condição humana, melhor. Mas existem sempre pessoas que simplesmente não estão preparadas para isto.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No filme, no caso de Randy Robinson, existe um agravante: ele não encontra em sua vida fora dos ringues sentido, porque ele simplesmente não consegue se relacionar com outras pessoas – e acaba desistindo rápido de tentar, na minha opinião. No fim, ele percebe que não consegue viver sem o gostinho de ser ovacionado, de se sentir querido – ainda que seja por uma multidão sem nome e sedenta por um espetáculo de violência. Sensações que ele acredita não conseguir na vida fora dos ringues. Acostumado por tanto tempo a ser ovacionado e a aproveitar todo tipo de excessos – de bebida e de drogas, especialmente -, ele parece ser incapaz de se enquadrar em uma vida que tenha família e um relacionamento sério como ingredientes. E essa é a triste realidade de muitas pessoas que parece não terem força – ou idéias – para se reinventarem.

Claro que é muito difícil, e disso não há dúvidas, de um sujeito como The Ram parar. Depois do ataque cardíaco ele passa a atender o público na seção de frios e carnes do mercado onde ele trabalhava apenas para descarregar produtos. Inicialmente ele até se diverte com a função, mas depois ele vai pirando com aquilo. Ali ele é um zé-ninguém como qualquer outro, e para ele isso é de matar – muito mais do qualquer ataque cardíaco. Para alguns é realmente muito mais difícil aceitar a aposentadoria. 

Em muitas partes do filme Mickey Rourke parece fazer uma interpretação esquemática, sem grandes rompantes de talento. Mas existe alguns momentos, aqui e ali, que valem realmente os prêmios que ele tem recebido. Destaco, por exemplo, o diálogo dele com a filha em um local que eles frequentavam quando ela era criança, e o momento em que ele corteja Cassidy – que prefere ser chamada por Pam – em um bar que toca músicas dos anos 80. Por ironia – e é impossível não fazer um paralelo entre as histórias decadentes do personagem e do ator que o interpreta -, neste momento do bar, Pam e Randy concordam que os anos 80 (quando o ator viveu seu auge) não deveriam ter acabado.

Gostei muito do roteiro de Robert D. Siegel. Acho que ele equilibrou muito bem os bastidores da luta livre e a história aprofundada de um de seus astros em vias de aposentadoria. Mesmos os momentos “feitos para chorar” foram bem escritos, sem cair no melodrama. 

Além de Mickey Rourke, estão muito bem em seus respectivos papéis Marisa Tomei (em impressionante forma e beleza aos 44 anos) e Evan Rachel Wood. Marisa Tomei, aliás, poderia perfeitamente ser indicada como atriz coadjuvante por este filme no próximo Oscar. Para mim, ela finalmente mostra porque um dia foi premiada com uma estatueta dourada.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não sabia, mas por pouco Mickey Rourke não entrou em The Wrestler. Ele não era a primeira escolha do diretor e produtor Darren Aronofsky – que agora deve estar agradecendo os caminhos tortos do destino. O primeiro nome apontado para o papel era o de Nicolas Cage, que acabou desistindo do projeto – o que permitiu a entrada de Rourke. Sem dúvida foi uma sorte para o filme.

Mickey Rourke só se ferrou ao apostar no boxe. Primeiro, sofreu nas lutas lesões graves que o fizeram passar por várias cirurgias plásticas. No Festival de Veneza, que consagrou The Wrestler, ele comentou para os jornalistas que seu lábio ficou tão prejudicado com as lutas que os cirurgiões tiveram que retirar carne de suas orelhas para reconstruí-los. Sem papéis de destaque no cinema e com o fracasso nos ringues, Rourke começou a aparecer na imprensa com escândalos envolvendo excesso de bebidas e drogas. “Perdi tudo, a minha casa, os meus amigos, o meu dinheiro, mas agora estou na estrada para recuperar tudo o que perdi”, comentou na ocasião do festival. O problema é que não restam muitos papéis ao estilo de The Ram.

Mas algo é fato: Mickey Rourke está conseguindo despontar em bons filmes graças a este seu ressurgimento. Está para estrear logo mais The Informers, um drama ambientado na Los Angeles de 1983 que conta como podem conviver em um mesmo ambiente executivos de cinema, estrelas do rock, um vampiro e outros personagens de moral discutível. Ao lado de Rourke estão atores como Billy Bob Thornton, Kim Basinger e Winona Ryder. Ele também está confirmado em produções que parecem interessantes, como 13, e as continuações Sin City 2 e Iron Man 2

The Wrestler ganhou até agora cinco prêmios – a maioria deles bem importantes, como os Globos de Ouro de melhor ator e melhor música (para a ótima canção de Bruce Springsteen) e o Leão de Ouro no Festival de Veneza como melhor filme. Além dos prêmios que ele ganhou, The Wrestler foi indicado a outros 12 – e deve chegar a outras indicações no Oscar.

A produção de Aronofsky é praticamente uma unanimidade da crítica. Dos 147 textos publicados pelo site Rotten Tomatoes, 144 deles são positivos para o filme. Praticamente um recorde. Os usuários do site IMDb também deram uma nota boa para o filme: 8,7 – o que o coloca na posição 52 dos melhores filmes de todos os tempos.

The Wrestler teria custado US$ 7 milhões, o que o coloca praticamente na categoria de filme independente. Até agora a produção acumulou pouco mais de US$ 2,8 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ele tem tudo para se tornar “cult” (cultuado), sem atingir uma marca expressiva de público.

CONCLUSÃO: No melhor estilo “uma câmera na mão”, o diretor Darren Aronofsky conta os bastidores do circuito alternativo da luta livre nos Estados Unidos, debruçando-se especialmente na vida de um de seus astros em vias de aposentadoria. Violento, com a exposição de várias cenas escatológicas e bizarras, o filme embalado pelo rock dos anos 80 traz um ritmo realista e com boas interpretações do elenco – especialmente de Mickey Rourke. Vale a pena para conferir o ressurgimento do diretor (depois do fracasso de The Fountain) e de Rourke.

PALPITE PARA O OSCAR: The Wrestler tem poucas chances no próximo Oscar. Especialmente porque se trata de uma produção muito independente e alternativa. Duvido muito que a violência do filme agrade aos membros da Academia. Uma coisa é ele ser premiado em festivais como o de Veneza ou por associações de críticos, outra bem diferente é receber o aval da mais tradicional academia cinematográfica de Hollywood. 

Ainda assim, acho bem possível que Mickey Rourke seja indicado como melhor ator. Ganhar será bem mais complicado – para não dizer impossível. Afinal, para isso, ele teria que derrubar alguns “queridinhos da América”, como Brad Pitt, e favoritos para o prêmio, como Sean Penn. Também podem ser indicados aos prêmios Marisa Tomei, como atriz coadjuvante, e Bruce Springsteen pela música título. Alguns até cogitam que o roteirista chegue a ser indicado – o que duvido muito, afinal, 2008 foi um ano de grandes roteiros. Para resumir, o filme pode ser indicado em algumas categorias, mas dificilmente ganhará algo.

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Um comentário em “The Wrestler – O Lutador

  1. Incrível como este filme não recebeu nenhum comentário dos leitores…até agora. Em questão de estrutura narrativa e cinematográfica, é possível compará-lo com Cisne Negro, em que há o recurso da câmera na mão que continua a “perseguir” os personagens, tentando assim devassar suas ações e reações de acordo com o andamento da trama. Por outro lado, vemos duas performances inesquecíveis, tanto de Mickey Rourke quanto de Natalie Portman, de pessoas que se destacam em suas respectivas atividades, mas não conseguem manter relacionamentos pessoais saudáveis com aqueles que os cercam. O fim, para cada um deles, também é apoteótico a sua maneira, pois os retrata no ápice de suas carreiras, de suas vida. O cinema costuma ser uma bela arte de se ver nestas horas.

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