Don’t Look Now – Inverno de Sangue em Veneza


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Para entender um pouco sobre cinema e, principalmente, assistir o que de melhor foi feito em cada gênero, é necessário olhar um pouco para a sua história. Muitos filmes que podem parecer interessantes nos cinemas atualmente são, nada mais, nada menos, que cópias baratas de grandes filmes do passado. A chamada “memória histórica” é fundamental para quem gosta de cinema na mesma medida em que ela é fundamental para quem quer entender sobre outros assuntos – política, economia, relações entre países, jornalismo, ciência, e um grande e talvez infindável etcétera. Depois desta introdução “chata” para alguns, quero comentar que ontem assisti a um dos grandes filmes de suspense e terror de todos os tempos: Don’t Look Now. Lançada na frutífera década de 1970, quando vieram à tona clássicos do gênero como The Exorcist, The Texas Chain Saw Massacre (no Brasil, O Massacre da Serra Elétrica), Jaws, Carrie, Dawn of the Dead, Halloween, Alien e Nosferatu: Phantom der Nacht, entre outros, esta produção é uma destas obras de terror psicológico que jogam com uma série de possibilidades e de expectativas do público, fazendo com que algumas de suas imagens fiquem perambulando por nossa memória muito tempo depois do filme acabar.

A HISTÓRIA: O casal John (Donald Sutherland) e Laura Baxter (Julie Christie) estão aquecidos, dentro de uma casa de campo, enquanto os filhos, Christine (Sharon Williams) e Johnny (Nicholas Salter) brincam do lado de fora, no campo. Christine caminha com um boneco e uma bola simulando uma guerra imaginária. Johnny anda acelerado de bicicleta, até que rompe um vidro no chão. Laura procura em livros uma resposta satisfatória para uma pergunta da curiosa Christine, enquanto John estuda imagens de igrejas para o seu trabalho. A calma da família termina quando John sai correndo de casa e encontra Christine afogada no lago. Pouco depois, John e Laura se mudam para Veneza, onde ele passa a dedicar boa parte de seu tempo a um projeto de restauração de uma antiga e importante igreja. O encontro de Laura com duas irmãs escocesas – uma delas, aparentemente, médium – muda a rotina do casal na mesma época em que estranhos assassinatos intrigam a polícia da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Don’t Look Now): Provavelmente o meu resumo do filme pareça confuso para muita gente… mas isso é porque vocês não viram ao filme ainda. 😉 Don’t Look Now é um dos filmes de suspense/terror mais intricados que eu vi nos últimos tempos. Cheio de idas e vindas na história, com imagens cuidadosamente escolhidas para nos lançar dúvidas e questionamentos, este filme é um exemplo de como se fazer um filme enigmático até o “grand finale”. E pelo menos isso: para os que não suportam a dúvida, Don’t Look Now nos apresenta todas as respostas no fim. Nem por isso ele desaparece da nossa memória. Não. Algumas de suas cenas, planejadas com esmero pelo diretor Nicolas Roeg, ficarão muito tempo ainda circulando na nossa memória como fantasmas.

Don’t Look Now foi o terceiro filme do inglês Nicolas Roeg, que no próximo sábado completa 81 anos e que, para surpresas de muitos, continua em atividade. Para o próximo ano está previsto o lançamento de Night Train, um suspense estrelado por Sigourney Weaver e produzido, entre outros, por Steven Soderbergh. Mas voltemos à produção que tornou Roeg famoso, em 1973: o estilo do diretor em jogar com o imaginário do espectador fica evidente logo nas primeiras sequencias do filme, como por exemplo quando vemos a Christine brincando através do reflexo da água no lago. Muitas das cenas do filme sugerem algo antes mesmo que o fato propriamente dito aconteça – afinal, um dos principais temas de Don’t Look Now é a premonição.

Este filme é um paraíso para especulações até que seu final nos apresenta todas as respostas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Don’t Look Now nos apresenta uma mesa de possibilidades: as irmãs Heather (Hilary Mason) e Wendy (Clelia Matania) seriam golpistas? ou assassinas? ou ainda estariam dizendo a verdade e teriam visto a filhinha morta dos Baxter? O misterioso Bispo Barbarrigo (Massimo Serato) teria alguma ligação com os crimes que estavam ocorrendo em Veneza? E o inspetor Longhi (Renato Scarpa), que age de forma bastante estranha, teria algo a ver com uma conspiração de crimes na cidade? John estaria alucinando ou enlouquecendo ao ter estranhas sensações e visões pelas ruas da cidade ou teria, como sugeriu Heather, um certo dom que seria também uma maldição? Pessoalmente, passei grande parte do filme tentando entender o que era conspiração, o que era loucura/fantasia… até que aquela espiral narrativa nos apresenta um desfecho de arrepiar.

Não são poucas as dúvidas plantadas pelos roteiristas Allan Scott e Chris Bryant, que se basearam em uma história escrita por Daphne Du Maurier. E a direção emblemática de Nicolas Roeg, somada a uma trilha sonora econômica e bastante pontual/dramática de Pino Donaggio, apenas tornam este filme mais angustiante e enigmático. E os atores… Julie Christie está belíssima, talvez em um de seus melhores filmes, e Donald Sutherland dá um show, mostrando as razões que o fizeram ser respeitado em um meio tão competitivo – e cheio de intérpretes geniais da mesma geração que ele. Em todo o filme os protagonistas esbanjam química entre seus personagens, mas a sequência em que eles fazem sexo – e que foi intercalada de forma genial com o avesso daquele grau de intimidade, ou seja, com cenas deles se preparando para jantar fora – é realmente emblemática. Sensual, maravilhosamente interpretada e filmada, aquela sequência rendeu muitos burburinhos na época sobre um possível envolvimento amoroso entre Christie e Sutherland.

Além do suspense que envolve crimes, paranormalidade, sanidade/loucura e a difícil tarefa de lidar com a morte de uma filha, Don’t Look Now mexe, como tema secundário, com a questão da religião, da fé, dos espíritos e do Mal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tanto que a questão de “possuída pelo demônio” é citada quando John Baxter começa a perseguir a pessoa que acredita ser sua filha. Um homem, que deixou a anã assassina escapar, comenta que ela estaria possuída. Em outros momentos do filme, o Bispo questiona sobre a fé de Laura e o próprio casal Baxter ironiza a questão religiosa. Por tratar destes temas, o filme lembra um pouco a The Exorcist, Angel Heart, e outras produções do gênero. De qualquer forma, interessante saber, no final, que John tinha a capacidade de prever acontecimentos futuros – ainda que não entendesse suas visões e acreditasse que o que ele estava vendo era real antes mesmo dos fatos acontecerem. Além de “pressentir” a morte da filha, John viu a imagem do seu próprio funeral. Muito interessante. No final também sabemos que as irmãs estavam falando a verdade e que o policial era apenas incompetente, assim como que a atitude estranha do bispo tinha relação com seu pressentimento sobre o Mal.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nicolas Roeg é o grande nome deste filme. Ele consegue extrair o melhor de seus atores e, principalmente, narrar de forma curiosa a história intricada e de suspense crescente. Roeg também conseguiu reunir, ao seu redor, os colaboradores certos. Além dos citados anteriormente, vale a pena mencionar o trabalho do diretor de fotografia Anthony B. Richmond e do editor Graeme Clifford. A edição da sequência final e as que intercalam o sexo dos protagonistas com o momento em que eles se preparam para sair do hotel é exemplar. Um grande trabalho de Clifford.

Don’t Look Now recebeu o prêmio de melhor fotografia no Prêmio BAFTA, o mais importante do cinema inglês. A produção foi indicada ainda a outros oito prêmios, mas não levou mais nenhum para casa.

Produzido com recursos do Reino Unido e da Itália, Don’t Look Now teria custado aproximadamente US$ 1,5 milhão.

O filme foi rodado em Veneza, na Itália, e na cidade de Hertfordshire, na Inglaterra.

Depois de estrear nos cinemas ingleses, estadunidenses e suecos em 1973, Don’t Look Now passou por vários países no ano seguinte e foi relançado em 2003 no Festival de Cinema de Mar del Plata, na Argentina. O filme passou ainda nos cinemas gregos em 2004 e, há cinco anos, foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Copenhagen, na Dinamarca.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,6 para Don’t Look Now – achei baixa, podia ser um pouco melhor. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95%. Coincidi com eles – mesmo sem querer. 🙂

No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, o editor Steven Jay Schneider destaca o estilo “tipicamente não linear que o diretor britânico tem de narrar histórias, no qual as elipses temporais e sequências freneticamente intercaladas servem para refletir e realçar a atmosfera já palpável de perturbação psicológica e medo”. Achei perfeito esse resumo, especialmente pela citação das elipses temporais. São elas que dão um diferencial para Don’t Look Now em relação a outras produções do gênero. Para o crítico, poucas “cenas na história do cinema se mostraram tão eficazes em gerar calafrios nos espectadores” quanto aquela que envolve John e a figura vestida de vermelho no fim do filme. Schneider também comenta que, ainda que impactante, esta cena não se tornou a mais conhecida de Don’t Look Now. “Essa honra cabe à longa cena de sexo entre John e Laura, entrecortada por rápidos planos do casal se vestindo para o jantar, impassivelmente.”

Don’t Look Now foi lançado no mesmo ano que The Exorcist, um dos filmes mais famosos de William Friedkin – e ao qual eu recomendo.

Como comentado anteriormente, Don’t Look Now foi inspirado por uma história escrita por Daphne Du Maurier. Esta escritora inglesa nascida em 1907 inspirou dois filmes do “mestre do suspense”, Alfred Hitchcock. São eles: o premiado com o Oscar Rebecca, de 1940, e The Birds, de 1963.

Uma reflexão interessante do filme – ainda que este não seja seu objetivo principal – é a maneira com que as pessoas lidam com a perda de uma pessoa próxima. John tenta lidar com o fato de forma racional, buscando seguir com a sua própria vida e reforçar os laços que tem com o trabalho e a esposa. Laura busca aceitar o que aconteceu se agarrando a qualquer sinal de perdão – afinal, ela se sente um tanto culpada pelo que aconteceu com Christine. Os dois reproduzem os estereótipos do racional/emocional que se espera de um homem e uma mulher. E cada um deles, como geralmente acontece, se agarra a seus métodos para lidar com a perda, tentando permanecer incólume ao método do parceiro. Até que os fatos fazem com que apenas uma destas crenças prevaleça. Aliás, curioso como o roteiro critica, de forma bastante leve, a busca pela fé/religião pelas pessoas como uma forma egoísta de conseguir conforto para seus próprios problemas/culpas.

CONCLUSÃO: Um filme complexo e cheio de simbologia que se tornou um clássico do terror/suspense psicológico. Dirigida pelo inglês Nicolas Roeg, esta produção deu o que falar por seu final impactante e por uma sequência de sexo bastante envolvente protagonizada por Donald Sutherland e Julie Christie. Com uma narrativa envolvente e cheia de mistério, com muitas possibilidades jogadas no ar – no melhor estilo Agatha Christie, mas com uma dose forte de religiosidade e paranormalidade -, Don’t Look Now merece ser visto como um dos bons exemplos de suspense feito na década de 1970 pelo cinema inglês.

SUGESTÕES DE LEITORES: Este clássico do cinema de terror psicológico foi indicado pelo Ingmar aqui no blog no dia 9 de dezembro do ano passado. Grande, grande indicação, Ingmar! Aliás, você anda meio sumido por aqui… Na época, o Ingmar comentava sobre o filme In Bruges, afirmando que havia visto referências explícitas a Don’t Look Now no filme dirigido por Martin McDonagh. Realmente, quando terminei de assistir a Don’t Look Now, pensei: “Será que este filme originou o pânico de muitos, como o do personagem Ray, a respeito de anões”. Pois sim… hehehehehehe. Acho que faz sentido. E concordo contigo também que a cena de perseguição de In Bruges lembra um bocado a do clássico de 1973. Te agradeço por ter indicado Don’t Look Now… sem dúvida era um destes clássicos que faltavam no meu repertório. Obrigada!!

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5 comentários em “Don’t Look Now – Inverno de Sangue em Veneza

    1. Oi Lucas!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui.

      Belo filme, não é mesmo? Também gostei muito.

      Se acaso você ler ao livro, depois volta por aqui para comentar sobre como foi a adaptação dele para o cinema, ok?

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E voltes por aqui mais vezes, ok?

      Abraços e inté!

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  1. Faz dois anos que assisti ao filme e realmente é fantástico. O que você achou da cena final? Me passou tanta coisa na cabeça que nem sei se entendi, ou talvez fosse pra não entender…
    Abraços e parabéns pela belíssima crítica!

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  2. CONCORDO COM TUDO QUE FOI DITO, MAS, CONFORME A GABRIELA, AQUELE FINAL É IMPACTANTE E DIFÍCIL DE ENTENDER. E PARECE FALTAR CORAGEM À CADA UM DE DIZER COMO O INTERPRETOU, EU TAMBÉM DEIXEI MINHA INTERPRETAÇÃO DE LE EM BRANCO POR NÃO TER CONSEGUIDO CHEGAR A UMA CONCLUSÃO…..

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