Cosas Insignificantes – Insignificant Things


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Objetos aparentemente sem grande importância abrigam, cada um deles, uma história única e instigante. Fragmentos de vidas diferentes que acabam se cruzando pelas ruas da Cidade do México. Na linha de pequenos filmes que contam histórias sobre “o-que-realmente-importa-na-vida”, Cosas Insignificantes se debruça sobre distintos problemas familiares que, basicamente, discutem a importância das relações entre pais e filhos. Filmado com esmero e cuidado, Cosas Insignificantes trabalha a noção de que são justamente os detalhes que interessam. Pequenos gestos, ações que podem custar muito ou pouco para quem as pratica, mas que significam muito para quem as recebe. O filme também chama a atenção por centrar-se em três personagens femininas fortes e insatisfeitas, cada uma a sua maneira. Um trabalho sensível, ainda que um pouco carente de força.

A HISTÓRIA: Esmeralda (Paulina Gaitan) arruma uma série de objetos que foi colecionando com o tempo em um pequeno baú, que é seu tesouro pessoal. Ela sabe que aqueles objetos contam histórias que ela nunca saberá e, talvez por isso, ela os mantenha com tanto apreço e fascínio. Depois de arrumá-los, a adolescente aparece pedalando pelas ruas do Distrito Federal mexicano, percorrendo seu caminho cotidiano até o restaurante aonde trabalha. Ali ela atende a Augusto Gabrieli (Fernando Luján), terapeuta que acaba esquecendo a carteira no local, depois de pagar a conta. Esmeralda acaba ficando com a carteira e, ao chegar em casa, coloca em seu baú de objetos “sem importância” um bilhete com o nome de uma mulher e um telefone. Através deste e de outros objetos encontrados pela garota, somos apresentados a diferentes histórias familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cosas Insignificantes): Todas as histórias deste filme giram em torno de mulheres. E todas elas, estão insatisfeitas e/ou enfrentam problemas dos grandes. Para começar, Esmeralda, que serve como elo condutor da narrativa, assim como a peça de ligação entre os diferentes protagonistas. A adolescente passa os dias em um trabalho que não gosta e vive pressionada pela responsabilidade de cuidar da avó e da irmã menor. Quando surge para ela a oportunidade de viajar para o Canadá  para fazer dinheiro, Esmeralda acaba se sentindo dividida entre a vida que ela tem no México ou a promessa de mais oportunidades que o Canadá parece oferecer.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, acompanhamos um momento decisivo também na vida de Paola (Bárbara Mori), que vive um casamento falido com Tomás (Arturo Ríos) ao mesmo tempo em que tenta reatar um caso com o médico Iván (Carmelo Gómez). Em um relacionamento estável há muitos anos, Iván têm transformado a vida da namorada, a fotógrafa Eli (Lucía Jiménez), em um martírio nos últimos tempos. O que marcou a mudança fundamental no relacionamento deles foi a descoberta por parte de Iván de que ele é o verdadeiro pai de Diego (Diego Lanzeta), um garoto esperto que acaba de ser diagnosticado com leucemia. Sem coragem para contar sobre o filho para a namorada, o médico acaba sendo pressionado por Eli a ponto de sair de casa. Paola, que já enfrentava bastante problemas na sua vida amorosa e com sua auto-estima, acaba questionamento também o seu próprio papel como mãe.

Como se pode perceber, não são poucos os problemas que as protagonistas deste filme enfrentam. Para completar este quadro, Augusto recebe a visita da ex-mulher no dia do próprio aniversário e ganha, dela, o bilhete que começa esta história. Nele, está escrito o nome e o telefone da filha do terapeuta que, por sua vez, resiste a ter contato com o pai. O bonito deste filme é que, de forma natural e muito simples, cada história destas vai se complicando e se resolvendo, em um roteiro que aposta suas fichas na capacidade de cada pessoa em buscar as soluções para seus problemas e dilemas. Depois de aceitarem o que ocorreu e saberem até que ponto cada um pode atuar para mudar o cenário de suas vidas, estas pessoas buscam a coragem necessária para decidir por seus caminhos.

Uma das reflexões mais interessantes e bonitas do mexicano Cosas Insignificantes, com produção executiva do ótimo diretor Guillerme Del Toro, é de nenhum objeto tem importância por si mesmo. Somos nós, as pessoas, quem damos a estes objetos nomes, valores e sentidos. Através de nossa visão de mundo e valores é que as “coisas” ganham um caráter simbólico, passam a ter valor e significado. Assim, enquanto alguns correm atrás de diamantes e de grandes e luxuosos carros, para exemplificar, Esmeralda se contenta com preservar fragmentos de vidas que não são a sua. Aqueles objetos aparentemente sem valor reúnem, simbolicamente, paisagens urbanas que Esmeralda não conhece, não pode tocar e nem vivenciar. Mas, ainda assim, ela respeita. Interessante.

A diretora Andrea Martínez, responsável também pelo roteiro do filme, lapidou com muito cuidado cada imagem de seu filme. Vale a pena acompanhar como ela se preocupou em focar, na maioria das vezes, o detalhe dos objetos, o melhor ângulo dos atores. Pena que, apesar destes cuidados, Cosas Insignificantes sofra com erros de continuidade. Estes erros, que não comprometem em nada a história, vale dizer, podem ser vistos em sequências como aquela em que Iván conta para Paola sobre a doença de Diego.

A história tem a peculariedade de ir e vir na linha do tempo, mostrando alguns momentos de forma repetida e fragmentada, sempre com um novo ângulo, o que exigia uma atenção maior dos continuistas. Percebe-se que a diretora preferiu gravar algumas cenas mais do que uma vez, mostrando diferentes ângulos, o que acaba provocando erros no momento da edição – como a forma diferente com que Iván embala o filho na casa de Paola. São erros um tanto primários mas que, nem por isso, prejudicam a narrativa da produção.

Cosas Insignificantes enfoca três protagonistas femininas mas, ainda assim, não deixa de ser uma grande narrativa e reflexão sobre a figura paterna. Afinal, é ela quem dita a história, seja por sua ausência no caso de Esmeralda e de sua irmã, Lina (Regina De Los Cobos), ou seja pelos problemas enfrentados por Iván e Augusto em assumir os seus papéis como pais.

Mas ainda que em conflito ou em ruptura, estes laços de família são importantes e defendidos pela história, inclusive através do contraste destas vidas retratadas e a do garoto de rua que brinca com uma arma de brinquedo, dorme em um banco na rua e, acaba ganhando, em uma certa noite, um presente especial e inesperado. Esse e outros gestos de Esmeralda, aliás, demonstram como o apego aos objetos é transitório. Ainda que eles nos remetam a pessoas e momentos importantes, eles são apenas pedaços de matéria, que podem adquirir uma importância fundamental em certo momento e, em outro, desvanecerem. Especialmente por esta questão, mais que pela superficialidade com que a história trata os problemas familiares, Cosas Insignificantes merece uma chance para ser visto.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se contabilizados seus acertos e erros, fica evidente que Cosas Insignificantes apresenta muito mais pontos positivos que negativos. Para começar, a direção de fotografia do filme é acertadíssima, mérito de Josep M. Civit. Depois, duas das três protagonistas desta produção esbajam carimas e, principalmente, beleza. São elas Lucía Jiménez e Bárbara Mori. Ainda que tenha um ar másculo no melhor estilo de Javier Bardem, digamos que o ator Carmelo Gómez tirou a sorte grande ao ser “disputado” por estas duas beldades latinas. 😉 Também gostei muito de mais este trabalho da talentosa Paulina Gaitan, uma das melhores atrizes mexicanas de sua geração.

Um dos pontos fracos do filme é a falta de força do roteiro, em muitos momentos, e um certo despreparo dos atores para viverem aquelas situações – especialmente Fernando Luján, que parece um tanto anestesiado durante todo o filme. A direção de Andrea Martínez é correta, cuidadosa, mas parece que lhe falta um pouco de experiência para ousar mais no trabalho com os atores e no registro de algumas cenas – o que se explica pelo fato de que este é apenas seu segundo trabalho como diretora.

Para os que gostam de saber sobre a trilha sonora dos filmes, Cosas Insignificantes tem sua trilha assinada por Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman.

Cosas Insignificante foi visto pela primeira vez no Festival de Cannes em maio de 2008. Depois de passar por aquele festival, esta produção mexicana e espanhola foi exibida no Festival de San Sebastián, o mais badalado da Espanha, em setembro do mesmo ano. Em abril e maio de 2009 o filme estreou nos cinemas mexicanos e espanhóis, respectivamente.

Até o momento, Cosas Insignificantes ganhou um prêmio: o da audiência do Festival Internacional de Cinema Latino-americano de Biarritz, na França, em 2008.

No site IMDb, o filme de Andrea Martínez conquistou a nota 7,5. Não há informações sobre o seu desempenho nas bilheterias, mas segundo a diretora mexicana, Cosas Insignificantes não conseguiu o sucesso esperado no México porque a produção estreou apenas uma semana antes da crise provocada no país pela gripe suína, o que provocou o fechamento de todas as salas de cinema do país.

Segundo esta reportagem do jornal espanhol ADN, a diretora Andrea Martínez procurou, com esta produção, mostrar a idéia de que “são as experiências humanas que dão valor as coisas” através de uma colagem, no filme, de “pequenos momentos da vida”. Na mesma matéria, o ator espanhol Carmelo Gómez classificou o filme como “dinâmico, universal, especial”, e afirmou ainda que o filme é destes que ele mostrará no currículo com orgulho.

Para a diretora, foi fundamental ter rodado Cosas Insignificantes na capital mexicana porque a cidade “simboliza” a idéia que ela quer transmitir com o filme, ou seja, de que a Ciudad do México pode ser “um lugar com tráfico, violência… mas também maravilhoso”. A diretora procurou escrever um roteiro que segue a linha de quebra-cabeças de diferentes histórias porque disse que lhe interessa a idéia da simultaneidade. “Um (indivíduo) vive seu drama mas, ao mesmo tempo, muitos outros vivem os seus (próprios)”, opina Martínez.

Segundo esta reportagem do jornal mexicano Informador, Andrea Martínez gostaria de trabalhar, em seu próximo projeto, com uma história familiar. Sua idéia era narrar a jornada que Arturo e Gustavo Martínez, seu pai e seu tio, fizeram de bicicleta em 1956 entre a cidade mexicana de Pachuca e o Canadá. A idéia da diretora é a de mostrar as mudanças “geográficas, econômicas e sociais” que ocorreram neste tempo. Para isso, ela contaria com um material da época, como um diário, fotografias e documentos guardados pelos familiares, e com a experiência de fazer a mesma viagem acompanhada deles agora.

CONCLUSÃO: Um filme singelo e com levada existencialista que discute as relações de comprometimento entre pais e filhos e a importância que é dada para as ações e/ou para os objetos em nossa sociedade consumista e carente de afeto. Bem dirigido, ainda que com algumas falhas de continuidade, este filme ganha pontos por mostrar um pouco da realidade e da cultura da capital do México. Ainda que as tradições daquele país não sejam o foco da história, pelo menos a realidade da menina simples que nos conduz pelo roteiro da diretora Andrea Martínez resgata parte das crenças populares daquele país – o que diferencia o filme de outros do gênero. Nunca é demais conhecer um pouco mais sobre nossos vizinhos americanos. O filme apresenta algumas reflexões interessantes, ainda que lhe falte ousadia e/ou criatividade, elementos que poderiam evitar que ele caísse em uma narrativa um tanto comum e sem emoção (verdadeira, pelo menos, porque de emoções um tanto forçadas o filme entende).

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