Arráncame la Vida – Arranca-me a Vida


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O cinema adora personagens de mulheres fortes. A superprodução mexicana Arráncame la Vida revela uma destas personagens em uma adaptação para os cinema da obra homônima premiada da escritora Ángeles Mastretta. Badalado em seu país pela crítica e pelo público – ele teve um ótimo desempenho nas bilheterias -, o filme tentou uma vaga entre os cinco finalistas para o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, mas ficou de fora da disputa. Com uma história envolvente e que apresenta algumas características importantes da história e dos costumes mexicanos, Arráncame la Vida poderia perfeitamente concorrer com o vencedor Okuribito ou com os fortes concorrentes Vals Im Bashir e Entre Les Murs. Mas em seu lugar entraram os filmes Revanche e The Baader-Meinhof Komplex. Com levada feminista e uma narrativa clássica, Arráncame la Vida conta a história de uma mulher que nos faz lembrar, até certo ponto, a mais conhecida personagem “mulher-valente” do cinema: Scarlett O’Hara. Mas diferente do clássico que este ano completa sete décadas, Arráncame la Vida não tem papas na língua para mostrar a busca de sua protagonista por prazer e independência.

A HISTÓRIA: Na cidade mexicana de Puebla, em 1932, Catalina Guzman (Ana Claudia Talancón), filha de um produtor de queijos, conhece ao general Andrés Ascencio (Daniel Giménez Cacho) na praça central do município. Sedenta por descobrir sobre o amor e para sair de sua cidade, Catalina fica fascinada pela figura mais velha, experiente e dominante de Andrés. Frente ao general, os pais de Catalina tem pouco a fazer. O general acaba levando a adolescente para conhecer o mar e, ali, eles iniciam um romance. Depois, sem perguntar a opinião da moça, Andrés decide que eles vão se casar. Através da vida de Catalina acompanhamos a ascensão do marido ao poder e alguns dos acontecimentos que ocorrem no México nas décadas de 1930 e 1940, em uma história de paixões, poder, crimes e traições.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Arráncame la Vida): Não por acaso existia uma grande expectativa sobre esta produção muito antes dela ser finalizada. A obra que a precedia havia recebido, em 1985, um dos mais importantes prêmios literários do México, o Mazatlán. A estréia de Ángeles Mastretta, uma mulher de 60 anos que nasceu em Puebla, a cidade que serve de pano-de-fundo para parte desta história, não poderia ter sido melhor. Seu livro, além de ter recebido o Mazatlán, foi publicado na Espanha e traduzido para cinco idiomas da Comunidade Européia. Mastretta conhecia bem tanto Puebla, onde havia nascido, quanto a Cidade do México, onde fez o curso universitário de jornalismo. As duas cidades servem como ambiente para o desenvolvimento de sua heroína, Catalina Guzman.

A personagem central de Arráncame la Vida, contudo, não é uma heroína qualquer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que uma das cenas finais desta produção nos remeta à cena mais emblemática de Gone With the Wind, Catalina Guzman é uma mulher muito mais liberal do que Scarlett O’Hara um dia ousou imaginar. No começo, as duas se assemelham na inocência e na vontade por conhecer a vida. Tanto Catalina quanto Scarlett também sofrem com uma figura masculina dominante, com o machismo e acabam, para se defender, sucumbindo às pressões e se submetendo aos caprichos de alguns homens. Mas, desde o início, Arráncame la Vida revela uma protagonista que não teme procurar a curandeira/cartomante da cidade para que ela lhe ensine a ter prazer, já que seu amante – Andrés ainda não era seu marido – só se preocupa com o próprio gozo. Alguém já imaginou Scarlett O’Hara em uma cena similar? Impossível.

Pois aqui começam as diferenças de Arráncame la Vida a respeito de outros filmes do gênero. A história, contada toda pela ótica de Catalina, não teme ser julgada por sua ousadia ao tratar abertamente temas como orgasmo ou traições. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para que a jovem e inexperiente protagonista perceba que seu marido é um típico machista mexicano (e que pode ser encontrado em vários outros países), que se interessa apenas por seu próprio prazer, lucro e poder. Andrés tem várias amantes e (Catalina irá descobrir com o tempo) filhos fora do casamento. Verdade que a protagonista chega a responder a essas descobertas com algumas cenas de ciúmes e cobrança mas, pouco a pouco, ela vai se jogando em romances clandestinos também. O mais importante deles com o maestro Carlos Vives (José María de Tavira).

A narrativa do filme segue a linha clássica de romances históricos – sejam eles basedos em biografias reais ou fictícias. Ou seja, o roteiro do diretor Roberto Sneider tem um desenvolvimento linear, com direito a citar, em alguns momentos, o local e a data em que a ação está ocorrendo. Contando com um orçamento invejável para os padrões do cinema mexicano – US$ 6,5 milhões -, o diretor se armou com os melhores profissionais, com destaque para o diretor de fotografia Javier Aguirresarobe. Esta dupla consegue lapidar imagens verdadeiramente muito bonitas, com inevitável atenção para a que mostra os amantes Catalina e Carlos em um campo de flores. Os atores, aliás, protagonizam muitas cenas desnudos, em uma curiosa escolha do diretor para tornar a narrativa o mais naturalista possível – o que é praticamente uma ironia em uma história tão escancaradamente literária.

A grande qualidade de Arráncame la Vida é contar, através do amadurecimento de uma mulher, a evolução também de um país. Sem medo de incomodar os puritanos, Roberto Sneider bebe da fonte revolucionária de Mastretta e preserva o caráter feminista de sua obra. O centro da história é Catalina e sua luta por liberdade e independência, utilizando para isso sua inteligência e o jogo de cintura femininos em uma luta contra o domínio de um marido autoritário e machista (e que representa a sociedade onde a escritora foi criada). Possivelmente a história, que sofre um pouco com a obviedade, não vá agradar a todos. Mas nem sempre um bom filme é feito de surpresas ou reviravoltas. Ainda que Arráncame la Vida pareça um novelão em alguns momentos, ele é um filme mais corajoso do que pode parecer em um primeiro momento.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: É fácil perceber quando um filme tem um grande orçamento por trás. Especialmente quando se trata de uma produção de época, como é o caso de Arráncame la Vida. Nestes casos, o dinheiro é fundamental para o resgate de figurinos e objetos que vão compor as cenas. Na parte técnica, Arráncame la Vida se revela uma das melhores produções do cinema mexicano dos últimos tempos. Tudo funciona bem, o que garante para o espectador uma pequena incursão nas paisagens e no tempo histórico de algumas cidades do México. Além do diretor de fotografia, se destaca entre a equipe técnica do filme a direção de arte de Rafael Mandujano. Merece uma menção especial também a trilha sonora de Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman que, de forma muito inteligente, mescla músicas clássicas e parte de um cancioneiro mexicano folclórico.

Ainda que a política e a importância dos militares na história do México não sejam os temas centrais de Arráncame la Vida, ambos jogam um papel fundamental na caracterização dos personagens e no desenvolvimento do filme. Por isso, não é demais comentar que os militares dominaram o cenário político mexicano desde a luta de independência do país em relação à Espanha. Quando o filme começa, em 1932, o México passava por um período de transição. O engenheiro agrônomo Pascual Ortiz Rubio, eleito presidente no final de 1929, decidiu demitir-se do seu cargo em setembro de 1932, depois de sobreviver a um atentando logo início do seu mandato, que começou em 1930, e alegando que seu governo sofria muitas interferências de Plutarco Elías Calles. Rubio foi substituído pelo militar Abelardo Luján Rodríguez, que governou de 1932 até 1934, sendo sucedido por outro militar, Lázaro Cárdenas del Río.

O primeiro a assumir a presidência do México sem ser um militar foi Miguel Alemán Valdés, em 1946 – mas um detalhe: ele era filho de um general que participou da Revolução Mexicana. De qualquer forma, o que nos interessa em relação ao filme é que o contexto que envolve o personagem de Andrés é  bastante realista, porque no México real eram fundamentais os jogos, conchavos e acertos pela disputa do poder envolvendo militares e seus protegidos. Tanto que o Partido de la Revolución Mexicana (PRM), depois rebatizado de Partido Revolucionário Institucional (PRI) dominou as eleições do país até o ano 2000, quando terminou o mandato do presidente Ernesto Zedillo Ponce de León.

Quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre a política e a importância dos militares na vida mexicana, recomendo a leitura destes textos: primeiro artigo, segundo, terceiro e quarto. De qualquer forma, Arráncame la Vida acaba sendo uma contribuição interessante para introduzir os interessados em parte da história, da disputa política e de forças e, principalmente, dos costumes do México.

O elenco de Arráncame la Vida, em geral, faz um bom trabalho. Mas o destaque do filme, de forma um tanto óbvia e indiscutível, é a atriz Ana Claudia Talancón. Primeiro, porque ela é a protagonista. Depois, porque o texto funciona inteiramente para que ela se destaque, conduzindo-a de uma interpretação mais “naturalista” e inocente, no início da produção, para um trabalho mais complexo moralmente e maduro conforme sua personagem vai ganhando experiência. Importante para a história, também, a força da interpretação de Daniel Giménez Cacho e o carisma de José María de Tavira (ainda que, para mim, faltou ao ator um pouco mais de segurança para interpretar o personagem de Carlos). Os demais atores ganham realmente um espaço de coadjuvantes, sem nenhum grande destaque.

Este filme ganhou dois prêmios e foi indicado ainda a um terceiro. Arráncame la Vida arrebatou os de melhor atriz para Ana Claudia Talancón na votação da Associação de Jornalistas Mexicanos especializados em Cinema; e o Prêmio Ariel de melhor direção de arte.

Além de ter contado com o melhor orçamento da história do cinema mexicano (segundo esta reportagem), Arráncame la Vida conseguiu um público excepcional em seu próprio país: levou para os cinemas 2,6 milhões de pessoas. Em apenas três dias de exibição, o filme teria arrecadado US$ 1,6 milhões de dólares – tendo estreado em impressionantes 500 salas de cinema. Em menos de uma semana, com o Feriado da Independência mexicana no meio, Arráncame la Vida tinha conseguido ultrapassar a bilheteria de US$ 2,3 milhões. Segundo este texto, a melhor bilheteria de um filme mexicano em seu país, até o filme de Sneider, tinha sido KM 31, que em 2006 conseguiu US$ 1,5 milhões em seu primeiro final de semana de exibição.

Arráncame la Vida registra a nota 7,8 na votação dos usuários do site IMDb.

CONCLUSÃO: Um filme narrado sob a ótica de uma adolescente que no México dos anos 1930 se apaixona e se casa com um general ambicioso e que, através da biografia desta jovem, conta parte da história de seu próprio país. Arráncame la Vida acerta na medida em que preserva a levada crítica, irônica e feminista do livro no qual ele é baseado, mas exagera um bocado em sua preocupação em ser aceito pelo grande público. Em outras palavras, lhe falta originalidade. Ainda que o filme lembre, em alguns momentos, uma produção feita para a televisão (ou uma novela), ele apresenta para o espectador uma história de busca pelo autoconhecimento e por independência bem amarrada e, de quebra, uma parte da história do México importante. Arráncame la Vida é o filme mais caro já produzido no México e um de seus recordistas de bilheteria. Apenas por estas credenciais, ele merece ser visto.

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2 comentários em “Arráncame la Vida – Arranca-me a Vida

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