Chugyeogja – Chaser – O Caçador


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Quem procura um bom filme de suspense e/ou terror encontra no cinema coreano uma das melhores opções do mercado. Nesta década, as produções asiáticas vêm conquistando espaço ao mostrar criatividade neste segmento, conquistando críticos e público. Chugyeogja surge para se juntar a essa boa safra. Misturando uma narrativa clássica, na maior parte do tempo linear, com um roteiro envolvente, cheio de humor, suspense, violência e alguns dilemas morais, Chugyeogja revela um grande trabalho do diretor e roteirista Hong-jin Na. Os atores desta produção, especialmente o protagonista interpretado por Yoon-suk Kim, também merecem destaque.

A HISTÓRIA: Na movimentada noite de Seul, uma bela garota dirige seu carro ao mesmo tempo em que fala ao celular. Ela busca um rapaz que ainda não conhece pessoalmente. Young-min (Jung-woo Ha) aparece e guia a garota até uma casa, em um bairro periférico da cidade. O tempo passa, e com o desaparecimento da mulher, o ex-policial e agora agenciador de garotas de programa, Jung-ho (Yoon-suk Kim), vai em busca do carro da prostituta desaparecida que trabalhava para ele. Joong-ho não vive uma boa fase. Nas últimas semanas ele perdeu duas de suas empregadas. O ex-policial acredita que elas estão fugindo ou sendo vendidas para um outro cafetão. Com poucas prostitutas a seu serviço, ele obriga a Mi-jin Kim (Young-hee Seo), que está doente em casa, a atender a um cliente. Quando volta ao escritório, Joong-ho percebe que o cliente de Mi-jin é o mesmo das garotas que desapareceram. Neste instante, o ex-policial começa a investigar o caso por sua conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chugyeogja): Eu gosto da ousadia dos diretores coreanos. Eles sabem equilibrar, como poucos hoje em dia, ação, suspense, ironia e terror em seus filmes. Chugyeogja, por exemplo, pode ser considerado um filme policial com requintes de terror. Há cenas bastante fortes – o diretor não economiza na quantidade de sangue que jorra pela tela. Mas cada cena violenta se justifica pelo roteiro, escrito por Hong-jin Na, Won-Chan Hong e Shinho Lee. E mesmo que o filme parece, inicialmente, caminhar pela mesma trilha de outras produções do gênero, a verdade é que ele surpreende por quebrar algumas tendências de um filme policial.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja parece, inicialmente, seguir a velha regra dos filmes focados na perseguição de policiais a um bandido. Mas a lógica do “gato que caça o rato” logo é quebrada, porque o suspense da perseguição ao criminoso não sustenta a história até o final. Não. Jung-ho encontra o psicopata Young-min por acidente (literalmente) no minuto 28 do filme. A partir deste ponto, o criminoso fica detido entre policiais desastrados que, mesmo com a confissão de Young-min, não conseguem encontrar provas de seus crimes. E o pior, o “experiente” Jung-ho não acredita na versão do homem que deu um sumiço nas suas garotas. Provavelmente por culpa, Joong-ho não quer admitir que, enquanto ameaçava de morte as prostitutas, ainda que por “brincadeira” devido a sua revolta, na verdade elas estavam sendo mortas por um homem com complexos sexuais.

O filme segura a atenção do espectador pela qualidade de seu roteiro mas, especialmente, pela direção ajustada de Hong-jin Na e pela edição moderna de Sun-min Kim. O diretor acerta em sua primeira incursão em longas-metragens (antes ele havia dirigido dois curtas). Atualmente, Hong-ji Na está na fase de pós-produção de seu segundo longa, The Murderer. O mais interessante de Chugyeogja é como ele insere na história questionamentos morais. Para começar, seu protagonista é um homem que desistiu da polícia para ganhar mais dinheiro no submundo da moderna Seul. Visto com desprezo por muitos ex-colegas, ele é respeitado pelo detetive Gil-woo (In-gi Jung), que continua seu amigo apesar das más escolhas que o protagonista fez.

Explorando mulheres, Joong-ho se sente culpado, especialmente, pelo sumiço de Mi-jin Kim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Essa culpa fica ainda maior quando ele descobre que a prostituta tinha uma filha – ele acaba se sentindo co-responsável pelo que pode ter ocorrido com Mi-jin. Pressionado por ter feito a garota trabalhar mesmo doente e pela versão de Young-min de que ela ainda poderia estar viva, Jung-ho tenta desesperadamente encontrar a garota. A sua busca contra o tempo – afinal, em teoria, Mi-jin está gravemente ferida e/ou a ponto de morrer – e a ineficiência da polícia em encontrar provas contra o psicopata é o que mantêm a tensão nesta história. Uma forma diferente, sem dúvida, de narrar um filme policial.

Chugyeogja é um filme policial com várias cenas macabras, mas ele não se limita apenas a isto. O filme se coloca acima da média de produções do gênero também por tocar em temas secundários interessantes, como a crítica mordaz e irônica do trabalho de investigação policial e à disputa, muitas vezes escancarada, de promotores e políticos por espaço na mídia. Esta última situação é explorada ao mostrar como o chefe da polícia se dedica em levar à fundo a investigação dos crimes de Young-min, preocupado em solucionar um caso antigo – chamado de Mapo – e, ao mesmo tempo, em destacar na imprensa um evento que ofusque o ataque que o prefeito recebeu de um cidadão indignado. No fim das contas, a disputa entre o promotor e o chefe de polícia para provar quem é mais eficiente em seu trabalho que desencadeia em um final de arrepiar (e que possivelmente não agrade a muitos, ainda que seja o mais perto da realidade possível).

Interessante perceber que, ainda que inove em alguns aspectos da história, o roteiro de Chugyeogja respeita uma regra de ouro de muitas produções: começa em uma curva ascendente, chegando a um pico narrativo para, depois, diminuir de ritmo, se aprofundando em alguns personagens até que, na reta final, começa a subir novamente a curva da tensão. O suspense se mantêm em bom ritmo até o encontro do protagonista com seu antagonista. Depois deste ponto, a história desacelera para se aprofundar no personagem do ex-policial, sua relação com o próprio passado, o sentimento de honra, justiça e o comprometimento que passa a sentir com a filha de Mi-jin Kim. Além do drama, entra em cena também o jogo psicológico protagonizado por Young-mi, tanto em relação aos policiais (com especial destaque para algumas sequências com a detetive Oh, interpretada por Hyo-ju Park) quanto em relação ao cafetão Jung-ho.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja deve convencer aos espectadores de filmes policiais e/ou de suspense/terror que gostam de uma história bem amarrada e que explica cada detalhe dos acontecimentos. Por isso mesmo, talvez alguns fiquem incomodados, como eu, no princípio, com a atitude de Jung-ho em mandar o seu empregado vasculhar todas as casas que tivessem porão e onde os celulares ficassem sem cobertura desde o início de uma extensa ladeira. Afinal, por que ele não mandou o tal empregado para as proximidades de onde estava estacionado o utilitário de Mi-jin? Tive que assitir ao filme mais uma vez para descobrar a resposta para esta pergunta.

Primeiro que Jung-ho não pede para que o funcionário procure nas casas do início daquela ladeira. Dentro do carro, em certo momento, ele chega a apontar um ponto no alto do morro, comentando que a casa deveria estar ali. Depois, ele não poderia realmente procurar apenas nas casas próximas ao carro de Mi-jin. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento do filme, quando Young-min sai com o carro do casal de amigos do proprietário da casa onde está morando e onde mata suas vítimas, é possível perceber que aquela residência está localizada duas ruas acima do local onde Mi-jin deixou o seu carro. Ainda assim, certamente, teria sido muito mais rápido começar por aquelas imediações do que por onde Jung-ho deixou o seu empregado. Como na maioria dos filmes policiais, cada fração de tempo pode ser fundamental para salvar ou perder uma vida.

NOTA: 9,2 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chugyeogja concorreu a três prêmios no Asian Films Awards deste ano, mas recebeu apenas um deles, o de melhor edição para Sun-min Kim. O trabalho do editor é fundamental para a história. Merece destaque também a direção de fotografia de Sung-je Lee e a iluminação de Chol-o Lee. Os dois conseguem, com perfeição, a luminosidade correta em todas as cenas noturnas do filme – que ocupam a maior parte da história.

No material de divulgação do filme, seus realizadores destacam o impacto que crimes em série tem na sociedade ao mesmo tempo em que questionam o comportamento extremamente individualista desta própria sociedade. O texto reflete que nestes contextos, onde as pessoas são “indiferentes aos outros e centradas nos ganhos materialistas individuais”, questões sobre quem são as vítimas de assassinos seriais e que esforços cada pessoa ou a sociedade como um todo poderiam ter feito para salvá-las nunca são levantadas.

O ponto de partida do filme, segundo o mesmo texto de divulgação, é justamente o de uma sociedade e de um indivíduo que se esforça por uma pessoa comum. Interessante essa reflexão e essa carga de “boas intenções” dos realizadores de Chugyeogja. Ainda que o filme revele que as intenções de seu “herói” passam, mais que pelo altruísmo, por sentimentos de responsabilidade e de culpa. Mesmo assim, não deixa de ser curioso o texto de apresentação do filme que destaca o esforço individual de uma pessoa frente à “uma situação absurda e um sistema social deficiente”.

O diretor Hong-jin Na escreveu um texto bem curioso sobre um vilarejo que estava ameaçado por uma inundação e que foi abandonado por seus moradores. Antes de saírem, alguns deles libertaram seus cães – outros continuaram presos com correntes. Como o vilarejo não foi inundado, as pessoas voltaram para suas casas, mas ficaram estarrecidas ao encontrarem boa parte de seus cães de estimação mortos ou mutilados. Hong-jin Na comenta que encontrou um cão branco, com a boca ensanguentada, querendo atacar outro, mas que não sabe se ele teve algo a ver com a morte ou a mutilação dos outros animais. No final deste conto, ele afirma: “este filme poderia ser a história de dois cães de uma aldeia vazia em uma noite muito chuvosa”.

No material de divulgação de Chugyeogja há ainda uma entrevista com o diretor no qual ele afirma que seu filme não critica um indivíduo, mas os problemas de uma organização, porque “quando um indivíduo entra em uma organização, ele se torna parte dela” – no caso do filme, a crítica vai para a instituição policial, é claro. Hong-jin Na responde ainda a uma série de questões envolvendo detalhes do filme, como a presença constante de crucifixos na produção e a falta de resposta sobre as motivações do assassino em série de Chugyeogja. Achei curioso (e bacana) que ele não defende Jung-ho como um herói, comentando que ele não deixa de ser um transgressor que bate em Young-min.

Chugyeogja conta com um trabalho excepcional de seus atores principais, com destaque especial para o desempenho de Yun-seok Kim.

O filme conseguiu uma boa avaliação de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, enquanto os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 15 textos positivos e apenas três negativos (o que lhe garante uma aprovação de 83%).

Para os interessados nos filmes coreanos, recomendo este texto que cita alguns de seus expoentes mais importantes, como Chan-wook Park, Ji-woon Kim, Ki-duk Kim, Joon-ho Bong e Je-gyu Kang; e este outro, que fala de uma mostra do cinema sul-coreano promovida em São Paulo este ano.

CONCLUSÃO: Um filme policial sem heróis e que segue técnicas de narrativa conhecidas ao mesmo tempo em que quebra algumas de suas regras. Tenso, potente, Chugyeogja segue a tradição recente de filmes sul-coreanos que apostam em roteiros de qualidade, uma edição moderna e a coragem de mostrar sangue em profusão. Que ninguém se engane: esta produção não alivia. Ainda assim, seu diretor e roteirista, Hong-jin Na, torna a história mais interessante que um simples filme de ação ao inserir no enredo humor e uma boa dose de crítica ao trabalho de organizações como a polícia. Chugyeogja convence com a apresentação de uma série de personagens realistas – o que torna a evolução de sua história ainda mais angustiante. Recomendado aos que não tem problemas com cenas de violência, tortura e pancadaria, e especialmente aos que têm interesse em acompanhar filmes de qualidade produzidos por diferentes nacionalidades/vertentes.

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5 comentários em “Chugyeogja – Chaser – O Caçador

  1. Roteiro genial. Sem mocinhos nem bandidos, o filme deixa você preso na cadeira sem saber o que virá na próxima cena.
    Dos últimos filmes de suspense/policial chineses, este sem dúvida pode levar o título de clássico

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  2. Oi @fabioluiz!

    Primeiramente, seja bem-vindo.

    Verdade que você achou que o filme não trabalha com a ideia de mocinho e bandido? Para mim, desde o princípio, Young-min é o bandido… certo que o policial não faz totalmente o mocinho, porque tem seus próprios “dilemas/problemas éticos” mas, ainda assim, acho que o primeiro é o malvado da história, claramente.

    Ainda assim, concordo contigo de que este é um filme com roteiro genial. Que surpreende a cada passo e prendo o espectador.

    Obrigada por tua visita e por teu comentário. Espero que ambos se repitam muitas vezes.

    Abraços!

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  3. Li a sua crítica de “The Chaser” na data de sua publicação, mas somente este ano tive a oportunidade de assisti-lo, apesar de eu ser entusiasta do cinema asiático em geral. E realmente fiquei impressionado com a sua qualidade, mesmo depois de 4 anos mais tarde. O filme impõe o senso de moral, mas não senti que é moralista. Tem até uma certa crítica social e urbana, mas ele nos fazer divertir e torcer pelo protagonista e pela pobre jovem sequestrada. A cena de choro da inocente menininha é de partir o coração.

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