Frygtelig Lykkelig – Terribly Happy


Os policiais, ultimamente, não estão passando por seus melhores momentos no cinema. Depois dos filmes coreanos Chugyeogja e Madeo, recentemente comentados por aqui no blog, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig conta uma história em que as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos derrapam em suas funções. Mas desta vez, em lugar da incompetência vista nas outras produções, nos deparamos com o descontrole e com uma rede de situações que vão piorando os primeiros erros do protagonista. Indicado pela Dinamarca para representar o país na próxima disputa por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Frygtelig Lykkelig é um policial cheio de sarcasmo ambientado em uma comunidade do interior, onde predomina a “lei” alternativa de seus habitantes.

A HISTÓRIA: A lenda sobre uma vaca que afundou na lama e desapareceu ilustra as características do vilarejo de Skarrild, situado no interior da Dinamarca, local onde o policial Robert Hansen (Jakob Cedergren) vai parar. Levado pelo chefe de polícia de Tonder (Jens Jorn Spottag), Robert é logo recepcionado pelo Dr. Zerleng (Lars Brygmann), médico forasteiro que se adaptou ao sistema dos habitantes do pequeno vilarejo e que tenta dar alguns “conselhos” para o seu novo morador. Pouco depois, Robert conhece a Ingerlise (Lene Maria Christensen), uma mulher casada que tenta se divorciar do marido, o violento e briguento Jorgen Buhl (Kim Bodnia). Sem perceber, Robert é envolvido em um triângulo amoroso e em uma situação de prestação de contas do vilarejo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frygtelig Lykkelig): O conto ilustrativo que abre o filme do diretor Henrik Ruben Genz revela uma pequena parte de toda a ironia do texto original, a obra homônima de Erling Jepsen. Seu livro, Frygtelig Lykkelig, aparentemente teve menos êxito que o filme. Genz, ao lado de Dunja Gry Jensen, adaptou o livro para o cinema e conseguiram, com seu trabalho, um resultado irregular.

Na maior parte do tempo, Frygtelig Lykkelig é um filme intricado para o seu protagonista, com um texto que flutua sempre entre o terrível e o engraçado mas que, ainda assim, se revela bastante morno. Contada de forma linear, esta história explora as peculariedades de uma comunidade interiorana da mesma forma com que revela um conto moral. Nele, é defendida a idéia de que a prática de um erro e o encobrimento deste podem tornar a vida de uma pessoa cada vez mais complicada, de uma forma crescente como a de uma bola de neve que desliza por uma encosta.

O melhor da produção, sem dúvida, é a forma com que o roteiro explora as “manias” do vilarejo para onde Robert é transferido. Todas as pessoas que moram naquele local sabem de cor os códigos de conduta e jogam seus papéis com perfeição. A pessoa que passasse um dia em Skarrild já saberia que tipo de ocorrências ocorriam ali, quem poderia ser achado em que local e as razões que faziam a filha do casal Buhl, Dorthe (Mathilde Maack) levar um carrinho de bebê para passear em muitas noites. Mais do que em outras partes, em cidades pequenas como a explorada por esta história os hábitos repetidos cotidianamente são a regra local.

Depois do conto sobre a vaca e seu bezerro demoníaco, o espectador percebe que o policial esconde algum segredo importante em seu passado. Ele participou de algum evento trágico em Copenhagem, onde morava e trabalhava anteriormente. Esse segredo será usado contra ele no ambiente cercados de regras invisíveis do vilarejo. Bonito, jovem e “urbano”, Robert não se adapta ao local e, ao mesmo tempo em que tenta conviver com seu passado, ele deve entender como funciona a pequena cidade para a qual ele foi designado. Mas, pobre Robert, ele não tem muito tempo para pensar e agir racionalmente.

Não sei vocês, mas me irritou um pouco a “inocência” do protagonista. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, ele cai como um patinho nos jogos de Ingerlise e de outros moradores locais. Claro que o filme não tem espaço para nos contar como era Robert antes de sua aparição em cena. Não sabemos se ele era um bom policial ou um desastre em sua profissão. Segundo este texto (em dinamarquês, o qual eu traduzi no Google Tradutor para entender algo) sobre a obra original, escrita por Erling Jepsen, Robert era sim um desastre. Destes homens que não conseguem viver muito longe da barra da saia da mãe e que, ao ser exposto a situações de estresse em sua profissão, chegam a vomitar pelo nervosismo. Sendo assim, se justifica a falta de preparo para o que irá acontecer no vilarejo.

Como tantas outras histórias do gênero, a situação de Robert vai piorando continuamente, pouco a pouco. Os habitantes de Skarrild, aparentemente “liderados” pelo médico, pelo padre e pelo comerciante local, tentam ensinar-lhe seus métodos. Robert faz alguns esboços para resistir, para atuar dentro da lei, mas quando ele percebe, está totalmente envolvido na história de Ingerlise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para se proteger, lentamente Robert vai se adequando ao sistema de vida local e, como sugere a melhor sequência do filme, a que envolve uma partida de cartas no final, o policial acaba vendendo sua alma ao “diabo” (representado pelo trio de jogadores). A cena em que Robert percebe que ele não passou de uma engrenagem no jogo dos outros, que ele caiu como um patinho em seus planos, é o melhor de Frygtelig Lykkelig. Até chegarmos a este ponto, o espectador deve aceitar algumas sequências pouco críveis (como a da morte de Ingerlise) e a uma produção correta, mas nada excepcional.

A lição moral de Frygtelig Lykkelig também poderia ser menos evidente. Afinal, fica escancarada a idéia do filme de que uma pessoa, para não “vender sua alma ao diabo”, não deve nunca sucumbir ao primeiro ato de maldade. Quando Robert se deixa levar por seu primeiro erro e, sem conseguir encontrar uma saída “adequada” para ele, assume uma mentira após a outra, fica impossível encontrar alguma saída para o personagem. Pouco a pouco, revela esta história, uma pessoa que sucumbe ao mal vai aceitando os atos mais absurdos (e, muitas vezes, participa deles). A reflexão sobre este tema não deixa de ser interessante, mas no roteiro de Frygtelig Lykkelig ela se apresenta de forma maniqueísta. Na vida real, normalmente, as escolhas não levam a resultados tão matemáticos.

Ainda sobre a parte interessante do filme, não deixa de ter uma grande dose de verdade toda aquela ironia com o “modo de ser” do povo do lugarejo. Em cidades pequenas, nas quais “todos se conhecem”, a vida geralmente se restringe a alguma regras bem estabelecidas e seguidas por moradores que desempenham com perfeição os seus papéis no grupo. Sempre haverá espaço para o “encrenqueiro”, para o “louco”, para o “líder”, e assim por diante. Nestas relações, claro, haverá espaço para gestos de bondade, de auxílio aos demais, mas também para bizarrices e para resoluções “coletivas” dos problemas locais. O retrato de uma comunidade assim do interior da Dinamarca é o que Frygtelig Lykkelig tem de melhor para oferecer.

NOTA: 8,1.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo no início, percebemos duas grandes qualidades deste filme: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Elas funcionam em duo com perfeição durante toda a produção. Ajuda muito também, para o caso da primeira, a “beleza rural” das paisagens dinarmarquesas. O diretor de fotografia Jorgen Johansson imprime um tom azulado/acizentado durante toda a produção, o que ressalta o tom “obscuro” da história. A trilha sonora de Kaare Bjerko, presente em momentos muito pontuais, aposta em guitarras e em uma levada moderna.

O elenco de Frygtelig Lykkelig funciona bem. Além dos atores principais já citados, vale comentar o trabalho de Anders Hove como Kobmand Moos, o comerciante local que se diverte prendendo garotos que tentam furtar algo de seu estabelecimento; Henrik Lykkegaard como o padre que aparece pouco, mas que visivelmente contribui com o tom moralista do vilarejo; Bodil Jorgensen como a mulher do bar, onde as pessoas se encontram para “confabular” sobre a vida pública local (e onde ocorre o duelo etílico entre Robert e Jorgen); e Peter Hesse Overgaard como Helmuth, um dos líderes do grupo que sempre está no bar e que “suja as mãos” para resolver os conflitos do vilarejo.

Frygtelig Lykkelig estreou em julho de 2008 no Festival de Karlovy Vary. Daquele dia para cá, o filme participou ainda de pelo menos outros seis festivais. Nesta sua trajetória, ele acumulou 19 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor filme, melhor ator para Jakob Cedergren, melhor atriz para Lene Maria Christensen, melhor ator coadjuvante para Kim Bodnia, melhor direção de fotografia e um prêmio especial para Kaare Bjerko no Prêmio Bodil, entregue em Copenhagem, na Dinamarca; melhor roteiro nos festivais internacionais de cinema de Tróia e de Valladolid; e os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor roteiro e melhor música (para Riders of the Freeway, de Kira Skov) no Robert Festival, o “Oscar do cinema dinamarquês”.

Praticamente nada comentado pela crítica internacional – o site Rotten Tomatoes, por exemplo, não abriga nenhuma crítica para o filme – Frygtelig Lykkelig registra a nota 7 pela votação dos usuários do site IMDb.

Li em algum lugar na internet – infelizmente não lembro em que site – uma comparação entre este filme e Fargo, dos irmãos Coen. A comparação tem sentido. Frygtelig Lykkelig lembra um pouco ao excelente Fargo, especialmente pelo humor “macabro” (e/ou trágico) de sua história. Mas, para o meu gosto, ele fica muito abaixo da premiada produção dos Coen.

O cartaz de Frygtelig Lykkelig sugere que o filme caminha pelo terreno das produções de suspense e/ou terror. Ainda que tenha algum crime e um clima um pouco macabro, esta produção dinamarquesa não chega nem perto do segmento de terror. Não custa alertar aos fãs do gênero que podem se interessar pelo filme graças ao seu cartaz.

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre a tentativa de um policial em reconstruir a sua vida e que, ao se deparar com as regras muito peculiares de um pequeno vilarejo, se vê envolvido em uma intricada rede de interesses e disputas. Com uma direção de fotografia muito bonita e um roteiro que segura o interesse do espectador, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig se mostra um entretenimento de qualidade. Mesclando em uma proporção de dois para um a ironia/sátira com crimes e um clima mórbido, este filme trata de traições, adultério e violência doméstica como panos de fundo para uma história sobre adaptação e comprometimento de um indivíduo em uma comunidade estranha e com seus próprios atos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Principal premiado em dois dos festivais mais importantes da Dinamarca, Frygtelig Lykkelig se credenciou para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2010. Mesmo tendo recebido tantos prêmios, não vejo nesta produção a qualidade e a força necessárias para que ela esteja entre as finalistas da mais conhecida premiação norte-americana. Seria um milagre Frygtelig Lykkelig aparecer na lista dos cinco finalistas – especialmente pelo fato de que a imprensa internacional praticamente ignorou a sua existência. De qualquer forma, mesmo que ele chegue até esta cobiçada lista de indicados, não acredito que ele possa ganhar de Un Prophète ou Das Weisse Band.

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