Oorlogswinter – Winter in Wartime


Em 2008 e 2009 uma série de filmes relembraram histórias e aspectos da 2ª Guerra Mundial. Diferentes países se lançaram em produções próprias para contar, aparentemente, seu próprio “quinhão” daquele evento. Por isso mesmo, o espectador que começa a assistir Oorlogswinter pensa que assistirá apenas “mais uma história” sobre a guerra, desta vez com as cores da bandeira holandesa. Verdade que o filme dirigido por Martin Koolhoven trata sobre a fase final da guerra em território holandês, mas a história vai muito além do foco dos conflitos e intrigas envolvendo nazistas e a resistência do país invadido. Representante da Holanda para o próximo Oscar, Oorlogswinter tem todos os elementos para se colocar entre os favoritos.

A HISTÓRIA: Em janeiro de 1945, em uma certa noite, o garoto Michiel (Martijn Lakemeier) acorda e, ao levantar-se, pega a sua pequena lanterna da cabeceira da cama. Ele escuta, ao longe, a disparos. Olhando pela janela, Michiel vê a um avião em chamas em trajetória de queda. Um soldado alemão chega próximo ao local de bicicleta. Ao fazer sua ronda de reconhecimento, ele encontra sangue, mas não é rápido o suficiente. Preso com o paraquedas em uma árvore, o soldado inglês Jack (Jamie Campbell Bower) atira no nazista. No dia seguinte, Michiel e seu melhor amigo, Theo (Jesse van Driel) se aproximam do avião para conseguir algum “brinquedinho” de guerra. O que Michiel não sabe é que logo ele deixará de brincar e, sem querer, se aproximará perigosamente do “inimigo” dos invasores de seu país, o soldado Jack.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Oorlogswinter): O filme dirigido com cuidado e atenção aos detalhes por Martin Koolhoven começa muito bem. Ainda assim, serei honesta, fiquei pensando em todos os “lugares-comum” que a história começava a abrigar. Primeiro, identifiquei o uso fundamental de uma trilha sonora potente, muitas vezes dramática, para ressaltar o drama da produção. Depois, a história baseada fundamentalmente em um personagem infanto-juvenil – ingredientes que normalmente funcionam bem juntos e garantem o apelo necessário para que uma produção agrade a público e abocanhe alguns prêmios.

Como este ano assisti a muitos filmes ambientados no período da 2ª Guerra Mundial, também admito que pensei, inicialmente, que este seria apenas “mais um”, desta vez com o olhar dos holandeses. Mas Oorlogswinter tem tantas qualidades que, pouco a pouco, vai derrubando estas idéias pré-concebidas e vai conseguindo arrebatar o espectador.

No início do filme, pensei que esta seria uma história da “guerra contada pela ótica de dois meninos”. Garotos que viam o conflito como uma aventura, na qual a tarefa mais difícil era conseguir algumas peças para suas coleções particulares. Chega a ser um pouco irritante o exagero da sequência de “fuga e perseguição” entre Michiel, Theo e os soldados alemães que estão fazendo o reconhecimento do avião inglês. Neste momento o espectador pode pensar que o filme será isso, uma “aventura” supervalorizada pela música e com pouca importância real. Ledo engano.

Michiel é um personagem muito interessante. Filho do prefeito Johan van Beusekom (Raymond Thiry), ele abomina a presença dos nazistas em seu país. Por isso, não aceita que o pai mantenha uma convivência pacífica e um tanto simpática com os invasores. Como contraponto, o garoto idolatra ao tio Ben (Yorick van Wageningen), que participaria da resistência holandesa contra os nazistas.

Observador e inteligente, Michiel fica excitado quando o irmão mais velho de Theo, Dirk (Mees Peijnenburg), lhe procura para pedir-lhe um favor. Ele pede que, se não voltar em breve, o vizinho entregue um envelope para o ferreiro Bertus (Tygo Gernandt). Michiel nem sonha o que abriga aquele envelope pardo, mas ele o guarda como se fosse o objeto mais valioso da Holanda naqueles dias.

Quando Bertus é preso e sua família ameaçada pelos nazistas, Michiel tenta entregar o envelope para Bertus. Sem conseguir, ele mesmo resolve resolver o enigma. Assim é que ele se aproxima de Jack, o soldado inglês ferido que tenta fugir daquela área de domínio nazista. Corajoso e esperto, Michiel assume o risco de ajudar a um soldado inimigo – sabendo que esta sua atitude pode ter resultados terríveis. Mas descontente com a presença alemã no país, ele sente que esta é a sua oportunidade de fazer algo contra a guerra.

Eis aí o primeiro aspecto interessante do filme: ele não apenas mostra a guerra pela ótica de um jovem garoto de família importante, mas revela o desejo de muitos holandeses (que representam simbolicamente todas as demais nacionalidades invadidas durante a guerra) em se livrar do odiado invasor.

Alguns buscavam resistir lutando em países ainda não invadidos. Outros, através de movimentos de resistência dentro de seu próprio país – essencialmente praticando atos terroristas contra arsenais de armas e meios de transporte. Mas havia uma parte considerável que apenas convivia com o invasor, tentando resistir através de um ato de sobrevivência.

O jovem Michiel admirava apenas os que lutavam diretamente, seja na guerra ou através de movimentos de resistência. Não entendia o próprio pai, que sabia que um dia o conflito iria terminar e que era necessário que o maior número de holandeses estivesse vivo para reconstruir e retomar o crescimento do país.

E neste ponto, entramos no aspecto mais interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Oorlogswinter). Esta produção holandesa discute, como poucas – e de forma muito natural e emocional – como era difícil, na época da 2ª Guerra Mundial, determinar quem eram os “mocinhos” e os “bandidos” da história. Michiel tem claro em sua cabeça as pessoas que admira e as que tem vergonha de conhecer. Só que conforme o filme se desenrola, o garoto vai aprender que sua noção de realidade estava muito distorcida. Os papéis de heróis e bandidos trocam de lado, e esta surpresa do roteiro é o que provoca a mudança fundamental na história – deixando para trás a sua carga de “dramalhão” para transformá-la no rito clássico de perda da inocência e da passagem da infância para a vida adulta.

Essa reflexão pontual do filme pode ser extendida para um terreno muito mais amplo do que o da guerra – e daquele conflito, em particular. Atualmente, muitas pessoas correm para esquematizar o mundo em “heróis” e “bandidos”, determinando quem é do bem ou do mal. O problema é que esta noção está cada vez mais difusa. E as pessoas que jogam de um lado hoje podem jogar de outro amanhã. O ser humano é complexo. Com isso, não quero (e nem pretendo) relativizar todos os acontecimentos, tirando as responsabilidades das pessoas. Não. Só quero dizer que é cada vez mais difícil colocar alguém em um papel e deixá-lo ali permanentemente.

Gostei muito da direção de Martin Koolhoven – que é responsável, ainda, pelo roteiro de Oorlogswinter. Koolhoven adaptou o romance de Jan Terlouw para o cinema ao lado de Mieke de Jong e Paul Jan Nelissen. O trio faz um belo trabalho ainda que, admito, eles calculem um pouco demais cada recurso para emocionar o espectador. Alguma vezes, quando esta tentativa fica muito evidente, o efeito acaba sendo o contrário. Mas como a história original é muito boa, mesmo os “recursos fáceis” algumas vezes utilizados em Oorlogswinter não são suficientes para estragar a história.

Um bom filme deve ser capaz de levar o espectador “pela mão”. Ou, em outras palavras, conduzí-lo pela história de tal maneira com que ele se envolva, se emocione, e esqueça todos os recursos fáceis (ou difíceis) de narrativa planejados para este fim – o de emocionar. Inicialmente Oorlogswinter não consegue isso. Ficam evidente os fios soltos de seus recursos cuidadosamente planejados para fisgar o espectador. Mas depois, Koolhoven consegue o seu propósito e arrebata ao público.

Um dos principais trunfos do diretor – e eu me arrisco a dizer que o grande responsável pelo sucesso da produção – é o desempenho do ator Martijn Lakemeier. O garoto dá um show de interpretação. Seja nos momentos de “aventura” juvenil, nos em que deixa claro seus alvos de admiração ou desprezo, Lakemeier segura a complexidade de seu personagens nas inúmeras situações em que sua interpretação é feita sem palavras, no silêncio. Emocionante o trabalho do rapaz. Junto com ele, há outros atores muito bons (dos quais comentarei em seguida), mas é Lakemeier quem rouba as cenas.

Oorlogswinter é feito para emocionar, não há dúvida. Tudo no filme é pensado para isso – especialmente a trilha sonora “grandiloquente” (e nuito bonita, devo dizer) do italiano Pino Donaggio. Mas o importante de filmes planejados desta maneira é quando ele nos apresentam uma grande história e, principalmente, conseguem o seu objetivo. Oorlogswinter é um destes exemplos, em uma produção cara e de qualidade técnica e interpretativa.

E o melhor do filme é que, mesmo depois da reviravolta pela qual passa a história, há ainda uma grande outra mensagem para o espectador – além daquelas já citadas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando a guerra termina e a Holanda se vê livre do domínio nazista, Michiel parece ser a única pessoa no país a não comemorar este feito – certamente outros também não celebraram, mesmo tendo desejado tanto que os invasores fossem embora. E a cena final, é simplesmente deslumbrante. Quando o misteriosamente desaparecido Theo reaparece para falar com seu melhor amigo e lhe oferece aquela correia que havia pego no avião inglês para brincar, Michiel (e os espectadores) redescobrem algo fantástico: que ele é, afinal de contas, pouco mais que uma criança. E, mesmo marcado por fatos tão trágicos causados pela guerra, ele terá toda a esperança e a oportunidade da vida para divertir-se e descobrir seu próprio caminho. Cena maravilhosa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jan Terlouw, o autor da obra Oorlogswinter que inspirou este filme, é um dos mais importantes e conhecidos escritores infanto-juvenis da Holanda. Apenas neste link é possível encontrar 24 livros publicados por ele. Cientista formado e especializado em física e matemática, Terlouw também seguiu a carreira política. Segundo este texto, o autor começou a sua trajetória na literatura infantil em 1970. Terlouw recebeu, em duas ocasiões, o prêmio literário Golden Slate Pencil. Teve seus livros traduzidos para 17 idiomas. Seu livro de maior êxito, Koning van Katoren (no Brasil, Sete Desafios para ser Rei) foi reimpresso na Holanda 54 vezes e vendeu, pelo menos, 350 mil cópias. Honestamente, fiquei curiosa para saber se a adaptação de Oorlogswinter é fiel e corresponde à qualidade da obra original de Terlouw.

E uma curiosidade sobre Oorlogswinter: a obra foi adaptada, anteriormente, para a televisão holandesa. Em 1975 ela foi lançada como uma minissérie, com direção de Aart Staartjes e com 5 horas e 41 minutos de duração.

Talvez motivados pelo aniversário de 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, muitos países que viveram o conflito direta ou indiretamente começaram a discutir distintos aspectos daquela época. Para os interessados, sugiro uma pesquisa aqui no blog mesmo. Há desde o alemão Das Weisse Band, que debate a formação da geração que iria permitir a ascensão nazista; até a visão “moderna” de Die Welle sobre o fascismo e os movimentos totalitaristas. Vale citar ainda Max Manus, outro concorrente a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; Good, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim; e o estadunidense Defiance. Todos comentados aqui no blog. 😉 O que interessa é que esta revisão histórica, com diferentes óticas contribuindo para o entendimento daquela época, são muito bem-vindos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emocionante, nesta história, o fato de como Michiel não sabe, exatamente, aonde está se metendo. Ele não tem a idade ou a visão necessária, ainda, para entender a complexidade da guerra e de suas relações de poder, disputas e dos diferentes interesses que estão em jogo. Daí vem a perda de sua inocência, quando ele começa a se dar conta da complexidade da guerra. Impressionante, em especial, como ele descobre, perto do final, quem era realmente o seu pai. Alguém que ele não conhecia de fato, mesmo convivendo sob o mesmo teto com ele. Bonito isso. E mais realista do que muitas pessoas gostariam de admitir.

Todos os atores escalados para Oorlogswinter fazem um belo trabalho. Além do principal nome do elenco, o já comentado Martijn Lakemeier, merecem destaque: o trabalho afinadíssimo de Raymond Thiry como o pai do garoto; Melody Klaver como Erika, a irmã mais velha de Michiel que acaba, por ser enfermeira, se envolvendo com Jack; Anneke Blok como Lia, mãe do protagonista; Dan van Husen como o comandante nazista Auer; e Ad van Kempen como Schafter, o vizinho e “colaborador” nazista que simboliza o exemplo de “homem desprezível” para Michiel.

Para as pessoas mais atentas, o filme dá uma grande pista sobre o que acontecerá perto do final muito antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando os nazistas fazem uma emboscada para Michiel e Jack na tentativa da dupla em cruzar o rio pela balsa, o espectador se pegunta: “Mas quem poderia ter dedurado os dois? Quem sabia que eles iriam fazer este cruzamente naquele dia e horário?”. Naquele momento, cheguei a duvidar de Erika – ainda que, francamente, eu não percebesse o que lhe motivaria a tal ato. Talvez ela culpasse Jack pela morte de seu pai? De qualquer forma, este é o momento decisivo em que os mais atentos percebem que há algo de errado acontecendo – e que alguém está traindo a confiança de Michiel. Dificilmente seria Schafter porque, afinal, ele não sabia nada dos planos do garoto.

Oorlogswinter estrou em novembro de 2008 na Holanda. A partir de fevereiro deste ano ele entrou na feira de cinema européia e participou, em outubro, dos festivais de Roma e o Pusan. Até o momento, Oorlogswinter ganhou 11 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Os de maior destaque foram entregues no Festival de Cinema Holandês este ano: melhor ator para Martijn Lakemeier, melhor ator coadjuvante para Raymond Thiry e melhor design de produção. A produção venceu na categoria de melhor filme em três premiações holandesas de menor porte: no Prêmio Rembrandt e no  Golden and Platin Film (que integram a programação do Festival de Cinema Holandês).

Falando em design de produção, é importante comentar que todo o filme, dos figurinos até os objetos escolhidos pela equipe da direção de arte, foi realizado com atenção aos detalhes. Da parte técnica, destaco a direção de fotografia de Guido van Gennep.

Oorlogswinter teria custado 4 milhões de euros para ser produzido. Apenas na Holanda, até abril de 2009, o filme tinha arrecadado pouco mais de 6,1 milhões de euros nas bilheterias. Mesmo sendo caro, para os padrões holandeses, o filme já conseguiu se pagar com a bilheteria apenas de seu próprio território.

Uma curiosidade sobre a produção: como fã do gênero “western spaghetti”, o diretor Martin Koolhoven fez questão de escalar o ator Dan van Husen para viver o papel do comandante nazista Auer. Foi uma forma do diretor homenagear ao ator, conhecido por participar de pouco mais de 20 produções de “western spaghetti”.

Em 2008, Oorlogswinter foi escolhido o melhor filme holandês do ano pela imprensa de seu país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Até o momento, o Rotten Tomatoes não tem nenhuma crítica publicada sobre ele.

CONCLUSÃO: Baseado em um livro voltado para o público infanto-juvenil, este filme conta a aventura de um garoto de 13 anos para sobreviver à invasão alemão ao seu país, a Holanda. Protegido pelo pai, prefeito da cidade, ele tenta entender o comportamento das pessoas frente aos nazistas. Mais que uma história de guerra contada sob a ótica de uma criança, Oorlogswinter se revela um filme envolvente sobre a perda da inocência e a difícil missão de perceber quem são os “bandidos” ou os “vilões” em uma guerra. Contado de forma sensível, linear e com uma narrativa crescente – por isso, clássica -, este filme tem como um de seus principais trunfos o trabalho de seu protagonista. Envolvente e sensível – ainda que, especialmente no trecho inicial, carregado demais de lugares-comum -, sem dúvida este é um destes filmes que merece ser visto.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: A verdade é que Oorlogswinter tem a cara do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por várias razões. Primeiro que a Academia é chegada em premiar produções envolvendo crianças. Depois, porque o tema da 2ª Guerra Mundial está muito presente no cinema atual – especialmente naquele feito por países europeus. E em terceiro lugar, Oorlogswinter abriga elementos “edificantes” e uma moral da história que Hollywood aprecia. Francamente, acho que o filme tem grandes chances de se colocar entre os cinco finalistas ao prêmio e, cá entre nós, não seria uma total surpresa se ele ganhasse o prêmio. Claro que ele é muito menos complexo que outras produções que estão na disputa. No fundo, Oorlogswinter reconstrói velhas fórmulas e conceitos envolvendo crianças e a guerra. Ainda assim, ele é um filme que convence e emociona – algo que o Oscar adora.

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