De Ofrivilliga – Involuntary – Involuntário


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Um filme bem diferente dos padrões usuais do cinema. E não apenas daquele produzido em Hollywood. De Ofrivilliga, o representante da Suécia na disputa por uma vaga no próximo Oscar, foge da obviedade do cinema médio ao apresentar uma série de histórias aparentemente desconexas. Mas, ultrapassada a barreira do visual, o espectador pode compreender a inteligência do trabalho do diretor e roteirista Ruben Östlund. Seu filme apresenta uma série de situações que refletem um bocado o comportamento de diferentes pessoas em nossa sociedade “pós-moderna”. Como a narrativa segue uma linha muito natural e propositalmente sem enquadramentos clássicos, a interpretação do que está ocorrendo fica totalmente nas mãos dos espectadores. Por esta e por várias outras razões, é o típico filme “de arte” (ou “cult”) que não deve agradar a muita gente.

A HISTÓRIA: Ao som de uma valsa, a lente da câmera vai acompanhando o trajeto de um veículo pelas ruas de uma moderna cidade da Suécia. Corta. O casal Lola (Lola Ewerlund) e Villmar (Villmar Björkman) recebem amigos em casa para celebrar o aniversário da anfitriã. Depois de um dia de celebrações, à noite, no grande momento da queima de alguns fogos no jardim, Villmar se fere ao se aproximar de uns fogos que não haviam explodido. Esta é a apenas uma das cinco histórias centrais do filme, que conta ainda a viagem de ônibus de uma conhecida atriz; o trabalho de uma professora do ensino primário e suas divergências com os colegas de trabalho; as travessuras perigosas de duas adolescentes e o reencontro de um grupo de amigos que resolve passar alguns dias apenas entre homens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Ofrivilliga): Fiquei intrigada com este filme desde a sua sequência inicial. Me chamou a atenção o “contraponto” entre a valsa, uma manifestação artística originária do século 19 (aqui algumas informações a respeito da valsa), e as imagens noturnas de uma rua de uma cidade urbana qualquer dos nossos dias. Uma curiosa escolha de repertório e imagens. Mas esta seria apenas uma introdução para o que o diretor Ruben Östlund iria nos apresentar em seguida. Durante todo o filme, ele desconstrói conceitos e surpreende o espectador com sua abordagem de “desenquadramento” (falarei mais disto no final deste texto).

As imagens, parece nos dizer Östlund durante todo o filme, tem e ao mesmo tempo não tem importância alguma. Sua câmera está sempre fixa, em algum ponto decisivo para a narrativa – ainda que, como é costume no desenquadramento, muitas vezes a ação ocorra à margem do campo visual. Esse recurso não é novo – foi utilizado inúmeras vezes anteriormente, inclusive no recente 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, do diretor Cristian Mungiu. Ainda assim, ele parece conseguir uma força ainda maior em De Ofrivilliga. Mas esta câmera estática, que muitas vezes deixa “escapar” a ação dos atores, provavelmente será um dos pontos difíceis de “engolir” pela maioria dos espectadores – afinal, estamos todos condicionados aos enquadramentos “usuais”, ou seja, no uso das câmeras para acompanhar sempre o melhor da ação.

Se o espectador conseguir vencer esta sua “resistência” a uma nova forma de narrar um filme, ele poderá, finalmente, se lançar nas histórias contadas pelo roteiro escrito por Östlund e por Erik Hemmendorff. Com um narrador “ausente” (ou “invisível”), De Ofrivilliga busca romper aquela interpretação “falsa” que toda pessoa parece assumir frente a uma câmera. Desta forma, o espectador parece “invadir” a intimidade das diferentes realidades mostradas pelo filme. Algumas vezes, esta invasão causa desconforto. Em outras, excitação. Desta forma, muito natural, Östlund vai conduzindo os espectadores por acontecimentos que fazem refletir sobre como as pessoas podem passar dos limites, de como um grupo deve sempre anular um indivíduo.

A primeira história, do casal Lola e Villmar, parece a menos “chocante” do filme. De fato, ela é a menos interessante. Ainda assim, guarda alguns aspectos curiosos – e que ajudam a reforçar a reflexão da força do “grupo” sobre o indivíduo proposta pelo diretor/roteirista. (SPOILER – não leia, a partir daqui, os próximos parágrafos se você não assistiu ao filme). Depois de um dia inteiro bebendo e confraternizando com amigos, Villmar passa dos limites e toma uma atitude totalmente “burra” ao tentar se aproximar dos fogos de artifício que não haviam explodido. Seu ato contínuo é ignorar os seus ferimentos para continuar com a festa. Afinal, o que importa é manter as aparências e ficar bem “socialmente”. Enquanto as mulheres parecem se preocupar com o anfitrião ferido, os convidados masculinos insistem em assumir a sua posição de “machos” e, assim, negar a vulnerabilidade de Villmar – e, por consequência, deles próprios.

Esta “diferença” entre homens e mulheres parece estar presente em várias histórias do filme. Para ser mais específica, na do grupo de amigos que resolve passar alguns dias juntos e na da professora que “enfrenta” o seu colega de trabalho. Mas logo falaremos destas histórias… O importante comentar é que esta “diferença” entre homens e mulheres ganha, no próprio De Ofrivilliga, um contraponto bastante curioso: o das personagens de Linnea (Linnea Cart-Lamy) e Sara (Sara Eriksson). As “barbies” adolescentes que parecem não ter limites assumem, em boa parte do filme, o papel que seria, normalmente, de rapazes de suas idades. O que pode levar a uma reflexão interessante sobre a busca de parte das mulheres por interpretar o rol dos homens na nossa sociedade “pós-moderna”.

Mas voltando aos “causos” do filme. Depois de Lola e Villmar, o espectador é apresentado a personagem de Maria (a veterana Maria Lundqvist), uma conhecida atriz que tem o “azar” de se encontrar com uma fã de seu trabalho durante uma viagem de ônibus para casa. No veículo, aliás, somos apresentados a três núcleos de personagens. Além de Maria e seu casal de fãs, o roteiro explora o “fundão” do ônibus, ocupado por um grupo de adolescentes “encrenqueiro” e, na posição oposta, na frente do veículo, ao motorista e sócio da empresa de transporte que passou recentemente por uma situação difícil após ser abandonado pela esposa. O “fundão” e a frente do ônibus acabam se enfrentando e Maria, a mulher que parece estar interpretando um papel durante todo o tempo, não tem a coragem de assumir as suas próprias responsabilidades.

Curioso o que ocorre naquele ônibus. Existe, como em praticamente todos os locais de nossa sociedade – e em diferentes histórias narradas pelo filme – um conflito entre diferentes comportamentos. Os adolescentes que ocupam o fundão do veículo tem um comportamento considerado inadequado pelos demais. Eles incomodam os passageiros adultos que, por sua vez – como no metrô, em uma sequência estrelada pelas amigas Linnea e Sara -, não se sentem confortáveis em revidar e invadir o “espaço” dos arruaceiros. Essa noção de espaço, aliás, tem peso de ouro em algumas sociedades – especialmente nas consideradas “mais desenvolvidas”. Em países como a Alemanha ou a Suécia o contato físico é restrito e o espaço de cada indivíduo, extremamente respeitado.

E a repetição deste conflito de comportamentos leva a uma estigmatização. Através dela, o motorista do ônibus, injustamente, acusa e “condena” os jovens do fundão. Eles, por sua vez, não cedem à chantagem do motorista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, a responsável pelo “ato de vandalismo” do banheiro – na verdade, um acidente – tem uma reputação a preservar. Como muitos artistas, ela veste as roupas e os trejeitos de um personagem que criou e, deste disfarce, ela não pode abrir mão. Ainda assim, fiquei chocada com a “resolução” do impasse. Infelizmente o menino que assume a culpa aprende, muito jovem, a mentir sob pressão para conseguir resolver um problema. Que lição ele terá deste evento?

Outra história explorada por De Ofrivilliga é a das amigas Linnea e Sara. Francamente, as melhores do filme. Adolescentes sem noção de perigo ou de limites, as duas “barbies” aparecem, primeiro, tirando fotos ousadas no computador. Provavelmente aquelas imagens iriam rodar o mundo, sugerindo cenas de lesbianismo – que, é quase certo, cairiam nas mãos de tarados de várias nacionalidades. Mas e quem se importa? Linnea e Sara certamente não. As meninas, junto com outros amigos e amigas, aproveitaram a ausência da mãe de Linnea para beberem muito além da medida. Primeiro em casa, depois no metrô e nas ruas.

Linnea e Sara são provocadoras e refletem o comportamento de muitos jovens nos dias atuais – de muitos mas, para nossa sorte, não de todos. A sequência no metrô, especialmente, me chamou muito a atenção. Ali, mais que em outras cenas, a dupla “dinâmica” assume o rol de rapazes de suas idades. Eu já vi garotos fazendo o mesmo que elas: bebendo álcool em garrafas improvisadas no metrô, falando alto, tentando aparecer e, se possível, provocando diretamente a algumas pessoas. Necessidade de protagonismo, certamente – efeitos, talvez, de uma sociedade onde a busca por “ser famoso” substitui a outros valores? Mas no lugar de rapazes, De Ofrivilliga nos oferece duas garotas. Interessante. Como na maioria das histórias do filme, elas ultrapassam o limite do razoável e, em certo momento, o espectador acredita que o pior está prestes a acontecer. Suspense em meio ao drama.

A quarta história explorada por Östlund é protagonizada pela professora Cecilia (a ótima Cecilia Milocco). Quando ela aparece em cena, sua turma está passando por um experimento emblemático – inclusive para se entender ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Através do exemplo da aluna que identifica a resposta correta mas que, sob a pressão da turma, orientada a sempre discordar dela, muda suas respostas escolhendo a opção errada, temos a resposta para o “enigma” desta produção. Um grupo, sempre, anula a capacidade de escolha do indivíduo – e, muitas vezes, o leva a fazer a escolha errada, mesmo quando ele sabe que poderia escolher o certo. A ironia do filme é que Cecilia acaba, em sua própria vida, tendo que sofrer as consequências de quem decide seguir a razão e fazer as escolhas certas, mesmo quando o grupo – neste caso, os outros professores – apontam para a direção contrária. Ela é, assim, uma das poucas que tem a coragem de trilhar o difícil – e muitas vezes solitário – caminho de se manter “limpa”.

O caso da professora também nos leva a refletir sobre a forma com que um grupo protege um de seus integrantes mesmo quando ele toma uma atitude errada. Neste caso, o problema reside no abuso do professor de artes Ulf contra o “aluno-problema” Axel. Como ocorre “no mundo real”, seus colegas usam argumentos para desqualificar a mãe da vítima e, assim, “justificar” o comportamento do professor. Revoltante – e, ao mesmo tempo, infelizmente, muito comum.

Finalizando as histórias apresentadas pelo filme, temos a do grupo de amigos liderado por Leif (Leif Edlund). Ainda vestindo roupas de trabalho, o grupo se encontra para passar alguns dias juntos, em um clássico “retiro de machos”. Nesta “recreação de adultos” um ingrediente fundamental é o excesso de bebidas. Permanentemente “embriados”, os amigos exageram nas brincadeiras e passam dos limites, em algumas situações, normalmente jogando com a questão sexual. Desejos reprimidos e homossexualidade são parte dos ingredientes deste conto.

Como em praticamente todos os grupos – especialmente o de homens -, há uma “estrela”. E ela, neste caso, se chama Leif. Ele é o personagem que provoca e que recebe todas as “avacalhações”. Visualmente, Leif se sente bem jogando este rol no grupo. O problema é que ele passa dos limites e abusa de um amigo, Olle (Olle Liljas) que, chocado, não sabe muito bem como reagir ao que aconteceu. As pessoas mudam com o tempo e, consequentemente, algumas amizades – e limites – também. Mas isso não parece ser passível de compreensão, especialmente para as pessoas que parecem não ter limites e que se sentem “invencíveis” dentro de um grupo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Ofrivilliga é destes filmes que vai fazendo efeito com o tempo, depois que os créditos terminam de passar frente aos nossos olhos. Inicialmente, eu não sabia muito bem o que pensar a respeito desta produção. Mas, pouco a pouco, fui refletindo sobre aquelas histórias magistralmente narradas por Ruben Östlund e seus atores. E então elas foram fazendo sentido e ganhando novos contornos. Admiro cineastas que conseguem isso, provocar o espectador a ponto dele levar a sua obra para além do tempo que dura o filme.

Que ninguém se engane com este filme: ele não tem começo e nem fim, apenas “meio”. Em outras palavras, não somos apresentados ao contexto da vida de nenhum dos vários personagens mostrados por De Ofrivilliga. Apenas acompanhamos determinados capítulos de suas vidas e, como na realidade mesma, podemos utilizar estes episódios para aprender algo (ou não, como diria o Caetano).

No início, é um pouco difícil se acostumar com a técnica do desenquadramento utilizada por Ruben Östlund. Mas depois, quando o espectador deixa de esperar que lhe sejam mostrados sempre os “melhores ângulos” do que está acontecendo, outro efeito passa a figurar nesta experiência: o do uso da imaginação. Afinal, o que acontece no espaço em que a câmera não está filmando? Cada um terá que tirar as suas próprias conclusões – o que não deixa de ser um exercício provocativo e muito interessante.

Falando em desenquadramento, vou explicar um pouco melhor do que se trata este conceito. Segundo o livro Dicionário Teórico e Crítica de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, o desenquadramento é um efeito que parece “resultar de um movimento de excentramento, rejeitando para as bordas alguns dos elementos diegéticos principais”. Esse recurso teria sido “muito produzido em pintura, depois do choque da descoberta da arte da estampa japonesa”. Aumont e Marie revelam ainda que o desenquadramento, no cinema, se apresenta como “um aspecto de uma tensão mais fundamental entre a tendência à centralização, que resulta da assimilação do enquadramento a um olhar, e a tendência para salientar as bordas do quadro, que é marcada, em alguns cineastas, no mais das vezes, a partir de uma sensibilidade pictórica”. Em outra parte do livro, os autores comentam que “existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária ou, de modo mais radical, um desenquadramento” – que é o que reflete De Ofrivilliga.

Reproduzo aqui a sinopse curiosa do material de divulgação do filme: “A influência do grupo sobre o indivíduo. O indivíduo que pensa muito sobre a sua própria imagem. O idiota que faz piadas sujas para divertir a sua galera, duas meninas que gostam de jogar, a professora zelosa que exagera com os seus colegas… justamente na hora em que decisões limites são tomadas. Um painel da sociedade sueca como você nunca poderia esperar”. E eu acrescento que o que vemos em De Ofrivilliga não reflete apenas a sociedade sueca, mas muitas outras.

No mesmo material de divulgação, há uma interessante entrevista com o diretor e roteirista Ruben Östlund. Ele comenta, por exemplo, sobre a origem da história desta produção. “No meu primeiro longa-metragem, Gitarrmongot, eu estava interessado no tema do indivíduo que está procurando o seu lugar na sociedade. Dos personagens que agem sem levar em conta o que o grupo ao seu redor vai pensar deles. No mesmo momento, eu me vi como testemunha de situações completamente opostas: o caso de pessoas que estavam desesperadas para evitar perder o seus espaços para outros. Gitarrmongot fala de sujeitos que não se importam com o que as pessoas pensam deles. De Ofrivilliga trata daqueles que são a fonte das atenções, que estão aterrorizados com a idéia de perder sua face”.

O diretor ainda cita como exemplo um caso que ficou conhecido em seu país: “Na Suécia, todos conhecem a história do engenheiro Andrea, que tentou chegar ao Pólo Norte em um balão, uma tentativa que terminou com a morte de sua tripulação. Lendo um jornal, uma reportagem revelou que ele não acreditava na viabilidade de seu projeto. Ele estava convencido a deixar esta idéia, mas este evento se tornou tão grande – quase toda a Suécia estava participando de uma forma ou de outra – que ele não podia voltar atrás. A aventura lhe levou ao desastre. Estou convencido de que os seres humanos são animais gregários. A influência do grupo sobre os indivíduos é muito forte, fundamental”.

Como eu comentei na minha crítica, o diretor também considera que a sequência da estudante que deve apontar as linhas mais longas em uma experiência de sua professora resume, na verdade, toda a idéia do filme. “Ela sintetiza a idéia de que o grupo tem um poder irresistível sobre o indivíduo, forçado a se adaptar para se integrar”, comenta Östlund. E uma curiosidade sobre esta cena: a idéia original da sequência foi inspirada na mãe do diretor/roteirista que, como professora, havia feito um experimento similar com seus alunos. No caso do filme, a garota que aparece em cena não sabia como deveria agir a respeito de suas indicações. Não estava estabelecido no roteiro que ela deveria mudar de opinião na terceira tentativa de acertar a resposta. Ainda assim, comenta Östlund, seis das 10 estudantes que participaram das filmagens-experimentos mudaram de opinião na terceira sequência de perguntas da professora.

Sobre o título do filme, “involuntário”, o diretor comenta que “estar sob a influência de um grupo pode nos privar do nosso livre-arbítrio, mas não podemos entregar para a maioria a nossa responsabilidade individual? Em cada história (do filme, ele se refere), os personagens sentem que não tem escolha, algo que é falso: eles simplesmente não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas. No melhor dos mundos, uma pessoa não deixaria de aproveitar a oportunidade de agir da melhor forma possível. Mas na realidade, isto é outra história… Estou ciente de que na maioria dos casos as pessoas dirão que sua reação a um fato terá sido “involuntária”, mas este é um fenômeno que se repete incansavelmente”.

Depois de comentar sobre o caso da cortina danificada do ônibus, o diretor opina que está cada vez mais difícil as pessoas reconhecerem suas falhas porque, em muitos casos, elas terão que admitir que mentiram. “Isso é (provocado) menos pela influência do grupo sobre o indivíduo, mas o próprio indivíduo, em sua relação com o grupo, que se sente obrigado a agir de determinada maneira”. Östlund comenta, ainda, que dentro da lógica de um grupo, onde existem “vítimas” e “culpados” em um jogo muito pré-determinado, todos os atos dos indivíduos acabam sendo “involuntários”.

Ruben Östlund também confirma, no material de divulgação, que sofreu a influência de diretores como Michael Haneke, Ulrich Seidl e Roy Anderson. “Eu estava muito influenciado por seus filmes. Como espectador, quando tomo consciência que estou participando de um “roteiro” (uma narrativa linear, imagino, na qual o diretor “conduz” o seu público pelas mãos), eu começo a me aborrecer. Se o público permanece focado em situações de seu cotidiano muito familiares como aquelas do meu filme, ele se sente desorientado, não percebe o enredo, não sabe muito bem aonde está. Quando você está confuso, tenta ver se está entendendo o que acontece, há mais concentração. (…) Como espectador, gosto de me sentir ativo, de que o diretor me deixe fazer parte de seu trabalho. Como cineasta, este engajamento é o que eu quero propor para o público. Este era um slogan durante as filmagens: fazer o espectador se tornar ativo. Encontrar uma linguagem visual que cresce continuamente ao perguntar “onde estou?”, “quem é este?”, “o que está acontecendo?”. Eu gosto do estilo voyeurista (…)”.

Aliás, esta é uma característica interessante do filme De Ofrivilliga. Quando ele termina, o espectador fica com um gostinho de “quero mais”. A mesma sensação despertada pelos “reality shows” que exploram ao máximo o nosso desejo de “invadir a vida alheia”, de “espiar” o que acontece no ambiente privado dos demais. Ou, como bem definiu o diretor, este estilo “voyeurista” de seu filme.

O limite entre ficção e realidade permeia toda a produção. Inclusive em detalhes, como o fato de que todos os atores interpretam personagens que tem o seu próprio nome e a ironia sobre a personagem da atriz Maria Lundqvist. Conhecida por participar de quase 30 produções para o cinema e para a televisão, Maria também é mãe de quatro filhos, assim como a sua personagem em De Ofrivilliga.

De Ofrivilliga foi escrito e dirigido por Ruben Östlund que, ainda, acumula a função de editor desta produção. O impecável trabalho da direção de fotografia é assinado por Marius Dybwad Brandrud (eita nominho complicado!).

O segundo drama dirigido por Östlund estreou, em maio de 2008, no Festival de Cannes. De lá para cá, De Ofrivilliga participou de vários outros festivais. Nesta sua trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado ainda a outros seis. Entre os que levou para casa estão o de melhor diretor no Geneva Cinéma Tout Ecran; o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Mar del Plata; o FIPRESCI do Festival de Cinema de Miami; uma menção especial no Festival de Cinema de Milão; e os prêmios da audiência e o de melhor roteiro do Festival de Cinema de Estocolmo.

Os usuários do site IMDb deram a 7,2 para o filme – achei um pouco baixa demais, mas algo previsível, especialmente pelo tipo de filme do qual estamos falando.

O diretor Ruben Östlund nasceu na Suécia em 1974. Amante das pistas de esquis antes de ser um apaixonado pelo cinema, Östlund teria se inspirado no tipo de filmes feitos sobre este esporte. Desta forma, lhe interessa as filmagens de longa duração, nas quais seria “impossível” dissimular qualquer ação. Seu primeiro longa-metragem de drama – antes ele havia dirigido a dois documentários -, o filme Gitarrmongot, ganhou o prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 2005.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e nada óbvio. Difícil de cair no gosto de muita gente. Mas para os que ousarem assistir a um filme que quebra o nosso costume por sermos levados “pelas mãos” dos diretores – e seus enquadramentos ágeis -, De Ofrivilliga pode surpreender por seus conceitos e por seu conteúdo crítico sobre a influência dos grupos sobre os indivíduos. Com uma câmera colocada sempre na posição de um “observador” displicente (ou seria ausente?), este filme resgata o nosso gosto pelo voyeurismo na mesma medida em que “incomoda” por não nos mostrar todos os detalhes da ação – deixando, assim, muito a cargo da imaginação do espectador. De forma muito natural e com planos longos de enquadramentos estáticos, De Ofrivilliga explora cinco histórias em que ocorrem diferentes formas de “ultrapassar os limites”. Uma produção curiosa, instigante e que passa a ter mais sentido depois que aparecem os seus créditos finais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda que De Ofrivilliga merecesse estar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar, infelizmente eu acho muito difícil este filme sueco chegar tão longe. Primeiro, porque ele não é destas produções que devem cair fácil no gosto popular. Muito pelo contrário. Consequentemente, De Ofrivilliga não foi feito para o Oscar, onde predominam os filmes que tem forte apelo comercial. Uma pena, porque pela proposta artística de Ruben Östlund ele merecia chegar entre os finalistas. Ganhar, claro, é algo impossível. Filmes como Un Prophète ou Das Weisse Band tem muito mais força que De Ofrivilliga. O que apenas comprova que, nem sempre, os melhores ganham mais espaço ou prêmios. (Dito isso, quero comentar que ainda acho Un Prophète, até o momento, o melhor filme entre os indicados).

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