El Traspatio – Backyard


Há histórias simplesmente incríveis. Como bem afirmam alguns, em certas ocasiões, a realidade consegue ser mais impressionante que a ficção. Por isso mesmo, quando uma história destas rende o roteiro de um filme, ela deve ser contada de forma igualmente extraordinária. Do contrário, ler reportagens em um jornal acaba sendo mais curioso que assistir a dita produção. Este é o caso de El Traspatio (ou Backyard, seu nome no mercado internacional), representante do México na disputa por uma vaga no Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro. Inspirado no escandaloso caso das “mortas de Juárez”, como ficou conhecido o assassinato expressivo de mulheres na cidade mexicana fronteiriça com os Estados Unidos, El Traspatio sofre com um roteiro que tenta se aprofundar em diferentes aspectos da realidade daquela região mas que, no fim das contas, consegue pouco mais que uma narrativa policial.

A HISTÓRIA: Em um campo seco, policiais fazem uma ronda próximos a cena de um crime. A policial Blanca Bravo (Ana de la Reguera) reconhece que se trata de uma mulher, entre 16 e 25 anos, que foi mutilada e morta por estrangulamento. Ela era trabalhadora da fábrica Kikay e tinha um dente com a letra K. O policial Fierro (Marco Pérez) revela, para o jornalista que está acompanhando o reconhecimento, que esta é a 29ª vítima do ano (no caso, 1996). Mas ele se recusa a responder quantos corpos de mulheres foram encontrados nos últimos 10 anos. Depois, no carro, ele revela para a recém-chegada Blanca que os números chegam a 65 (pela conta da polícia) ou 83 (pela conta dos jornalistas), registradas apenas nos últimos três anos. O número de mulheres desaparecidas também é bastante varíavel: para alguns, cerca de 100, para outros, 350. Com a ajuda da voluntária Sara (Carolina Polili), que reconhece a última vítima e que arquiva por sua conta todas as informações das mulheres mortas e desaparecidas, Blanca começará a investigar os crimes e a encontrar culpados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a El Traspatio): Este filme não deixa margem à dúvidas desde o princípio: sim, ele se baseia em histórias reais. Tudo indica também, pelos primeiros minutos da produção dirigida por Carlos Carrera, que o espectador assistirá a uma intricada trama policial. Mas o roteiro de Sabina Berman tenta “problematizar” a história, focando diferentes aspectos que compõe o cenário de Juárez: desde as questões políticas e os interesses de multinacionais, até a chegada de migrantes de outras partes do país e o desprezo dos homens locais pelas mulheres em geral. Se por um lado é interessante esta preocupação da roteirista em “contextualizar” a história, por outro algumas de suas escolhas acabam apenas diluindo a força do material que ela tem em mãos.

Para resumir, há muitas histórias paralelas para um único filme. Para dar um exemplo, a aparição de Numasaki em duas ocasiões, para exemplificar a pressão das multinacionais sobre o governador de Chihuahua (Enoc Leaño), acaba sendo desnecessária. Afinal, esse tipo de pressão de empresas – e depois de um senador dos Estados Unidos – justifica a postura do governador frente ao problema? Acredito que não. E esta vontade de Sabina Berman em involucrar a quase todos como co-responsáveis pelas mortes das mulheres de Juárez acaba desviando o foco da história.

A grande questão deste filme é uma só: o desprezo dos homens (de parte deles, claro, apenas os machistas) pelas mulheres. El Traspatio é um filme sobre mulheres subjugadas e maltratadas. Tanto pelas empresas multinacionais instaladas na cidade e que buscam cada vez mais trabalhadores que ganhem menos e que não se queixem nunca, quanto por namorados e maridos que se sentem com a liberdade de matar suas mulheres por traições ou simplesmente por não obedecê-los (inclusive em questões simples, como fazer algum serviço doméstico). Há ainda os serial killers tradicionais, que pensam que Juárez é uma terra sem lei e que, ali, eles terão a liberdade para cometer seus crimes sem passarem por investigação – muito menos uma punição.

A sociedade mexicana é muito machista. E posso dizer isso com base em conversas que tive com amigos mexicanos, que conheci em Madrid. Eles mesmos admitem que não é fácil a vida de uma mulher em seu país. Mas ainda que trate de uma realidade muito específica, El Traspatio pretende, com sua história particular, abraçar uma causa universal. Tanto isso é verdade que, no final da produção, são listados vários números de assassinatos de mulheres em crimes sexuais em diferentes países – incluindo Espanha e Estados Unidos. Por esta razão, pelo tema que El Traspatio coloca na mira das atenções, ele merece a nota abaixo.

Mas o filme, propriamente dito, infelizmente não consegue passar do lugar-comum. Ele se assemelha a tantas outras produções medianas que focam a resolução de vários crimes e que buscam “problematizar” uma história sem convencer totalmente ao espectador. El Traspatio não consegue surpreender ao seu público em momento algum. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém realmente poderia duvidar que a personagem de Juana (Asur Zágada) iria morrer na mão de algum dos homens que a cercavam? Também ficou evidente, desde a prisão do Sutão (Sayed Badreya) que o empresário Mickey Santos (Jimmy Smits) não poderia ser completamente inocente. Estes dois casos, os mais “bombásticos” do filme, não surpreendem ninguém – mas, claro está, não deixam de ser ultrajantes.

Entendo a escolha de Sabina Berman por dividir o filme em duas narrativas paralelas: a de Blanca e seus esforços em parar com a matança de mulheres em Suárez e a da jovem Juana. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história desta segunda, uma menina “inocente” que descobre na cidade fronteiriça a liberdade que não tinha sob a vigilância do pai em Cintalapa, cidade que pertence a Chiapas, tenta dar mais cores e um rosto simbólico para as vítimas dos crimes sexuais. Diferente de tantas reportagens publicadas em distintos jornais que destacam mais os números que as pessoas, El Traspatio busca com Juana demonstrar como todos aqueles números significam o fim da existência de pessoas reais, com passado, família, trabalho, paixões e sonhos.

A intenção é boa, mas pena que para um filme ela acabe servindo apenas para dividir as atenções e tirar a força da história central. Também me pareceu duvidosa a forma com que a história de Juana foi contada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Seu comportamento, talvez “libertino” demais, pode levar a uma justificação do crime praticado por seu ex-namorado, Culberto (Iván Cortés), quando, evidentemente, comportamento algum pode justificar um assassinato com vários requintes de crueldade.

A questão da corrupção policial também é pouco abordada pelo filme, se comparado, por exemplo, com a “pressão” de algumas multinacionais contra políticos como o governador de Chihuahua. Um erro, claro, porque a corrupção policial jogou um papel fundamental para que os crimes continuassem ocorrendo. El Traspatio ainda explora o papel da imprensa na divulgação dos crimes e para jogar com a pressão popular por uma resolução dos problemas. O destaque, neste quesito, fica por conta do radialista Víctor Peralta (Joaquín Cosio), o homem que faz o resumo exato da realidade de sua cidade, dos crimes que estão ocorrendo e do trabalho da polícia.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante comentar que El Traspatio começa em 1996, três anos depois que as primeiras mulheres começaram a ser encontradas mortas em Juárez. Segundo esta reportagem da BBC Mundo (em espanhol), em 10 anos os crimes na cidade não haviam ainda sido totalmente resolvidos. Para o governo, até 2006, as mortes chegariam a 93. Organismos não-governamentais, por sua vez, apontariam para um número muito maior: 300. Este outro texto, do portal mexicano Univision, afirma que a Procuradoria Geral da República mexicana apontava para 258 mortes no período de 1993 e 2003, enquanto que um informe do Instituto Chihuahuense da Mulher reporta 321 mortes e a Anistia Internacional, por sua vez, 370.

A reportagem do Univision traz ainda um comentário de Isabel Vericat, da ONG mexicana Epiqueia, que revela que muitas mortes de Juárez seguem um padrão: suas vítimas são meninas “entre 13 e 18 anos, estupradas, mutiladas e estranguladas. Algumas apresentavam cortes nos peitos, lábios ou marcas parecidas a um X nos braços, rostos ou nas costas. Outras tinham o rosto destroçado, foram esquartejadas, queimadas, e se supõe que todas, sem exceção, morreram aterrorizadas”. Um verdadeiro absurdo, não? Estas características é o que diferenciaria os crimes praticados na cidade de outros em distintas cidades mexicanas e de outros países.

Segundo a mesma reportagem, o Ministério Público do Estado de Chihuahua revelou que pelo menos 91 dos crimes registrados contra mulheres na cidade seguem outro padrão: “em sua maioria são jovens de pele morena, desempregadas, trabalhadoras de indústria ou estudantes que foram sequestradas, estupradas repetidas vezes por mais de uma pessoa, torturadas, mutiladas e assassinadas. Seus corpos são jogados em terrenos baldios”.

Até a data de publicação da reportagem da Univision, dia 15 de janeiro de 2004, apenas uma pessoa havia sido condenada por alguns destes crimes: o egípcio Abdel Latif Sharif Sharif, que foi preso em 1995 sob a acusação de ter cometido, pessoalmente, nove homicídios e de ter, ainda, sido o autor intelectual de outra dúzia deles. Em 2004, outros 16 acusados estavam presos a espera de um julgamento.

Para os interessados neste tema, deixo aqui este portal especial do Terra mexicano, que inclusive traz uma cronologia dos principais fatos envolvendo as mortes em Juárez; assim como volto a indicar a série de reportagens da Univision que podem ser acessadas a partir deste link (ao total, são sete páginas que exploram as diferentes hipóteses sobre os crimes, incluindo a de pornografia “snuff”, envolvimento de narcotraficantes ou do tráfico de orgãos).

O município mexicano de Juárez faz fronteira com a cidade de El Paso, pertencente ao Estado do Texas, nos Estados Unidos. Segundo a mesma reportagem comentada anteriormente, da BBC Mundo, o FBI criou na cidade de El Paso o serviço de uma linha telefônica específica para denúncias relacionadas com homicídios de mulheres.

Para o filme, todos os nomes dos envolvidos nos casos reais de Juárez foram modificados pela roteirista.

Segundo esta reportagem do jornal El Siglo de Torreón, a equipe envolvida em El Traspatio foi ameaçada de diferentes maneiras. Segundo o produtor Epigmenio Ibarra, as mulheres da equipe receberam ameaças telefônicas. O diretor Carlos Carrera afirmou que diariamente apareciam pessoas assassinadas nos lugares em que a produção era filmada. Deve ter sido hiper estressante tirar este filme do papel.

Carlos Carrera, que ficou conhecido por dirigir El Crimen del Padre Amaro, afirma nesta reportagem que El Traspatio é uma “radiografia do México, a partir da atmosfera tensa das investigações dos assassinatos de mulheres na Cidade Juárez: a corrupção política e policial, a falta de administração da justiça…”, define o diretor.

No mesmo material, a roteirista Sabina Berman defende o seu trabalho: “Primeiro pensei em contar os fatos relacionados com os assassinatos das mulheres. Logo, disse a mim mesma: “Isso já foi feito por alguns documentários e livros”. Então eu percebi que o que eu queria contar era, além destes fatos, o que rodeia aos assassinatos. Uma sociedade multicultural, que deriva o seu fatalismo para a indiferença. Um Estado que falha nos seus deveres mais elementares. Uma economia neoliberal e globalizada. E a vizinhança com o país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Pensei que esta é uma história do nosso tempo, não de outro, que deve ser contada de forma complexa e com espírito jornalístico. A realidade é interessante demais. Além disso, disse a mim mesma, a história deve possuir um coração sensível para o centro. Quero tornar emocionante o real, para que o espectador sinta, sinta e sinta, e nem por isso deixe de pensar e conhecer”.

El Traspatio tenta, a sua maneira, ressaltar a importância das pessoas não se acostumarem a absurdos como aqueles que envolvem as mortes cruéis de mulheres em Juárez. Pena que esta “denúncia” fique tão diluída no desejo da roteirista em mostrar “todos os aspectos” que envolvem a realidade daquela cidade fronteiriça.

O filme conseguiu, até o momento, a nota 7,4 pela votação dos usuários do site IMDb.

No México o filme foi lançado e amplamente divulgado com o título internacional, Backyard, que significa “quintal” – fazendo alusão ao fato da cidade de Juárez ser o “quintal” do desenvolvido Estados Unidos.

El Traspatio estreou no México em fevereiro deste ano. A partir de setembro ele começou a se lançar em festivais internacionais, como o de Toronto, o de Vancouver, o de Pusan e o de São Paulo.

Além dos atores já citados, vale a pena citar o trabalho de Alejandro Calva como o comandante da polícia obcecado por uma promoção – e, consequentemente, por deixar a cidade de Juárez; e Amorita Rasgado como Márgara, prima de Juana que hospeda a menina em casa e cuida para que ela seja empregada na indústria local.

CONCLUSÃO: Um filme que tenta equilibrar os gêneros policial e de drama para resgatar a história do “femicídio” registrado a partir de 1993 na cidade mexicana de Juárez, que faz fronteira com os Estados Unidos. Dirigido de forma tradicional e com um roteiro que peca pelo excesso de elementos e personagens, este é um filme que trata de um tema fundamental. Ainda assim, ele perde a sua “moral da história”, que defende a busca pela justiça e a indignação pública contra a indiferença justamente por ter esta idéia diluída entre tantas outras. Com um roteiro bastante óbvio e previsível, El Traspatio se mostra interessante apenas pelo fato de trazer à tona uma série de crimes absurdos e que, por incrível que pareça, continuam ocorrendo – inclusive, muitos deles, sem solução. Tecnicamente correto, ele fica na média dos filmes policiais, mostrando-se, inclusive, um pouco longo demais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Mesmo tendo uma boa recepção no México, El Traspatio dificilmente terá alguma chance no próximo Oscar. Comparado com os filmes que assisti até o momento – todos podem ser consultados aqui no blog na categoria “Oscar 2010” -, ele é o mais fraco na disputa, até o momento. Não deve chegar aos cinco finalistas e, muito menos, levar o prêmio para casa.

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4 thoughts on “El Traspatio – Backyard

  1. O filme El Traspatio surpreende a quem como eu nem sabia dos fatos relatados no filme. Talvez o filme pudesse ate ser melhor se não tentasse abordar tantos fatos do seu entorno, mas penso que o entorno ou contexto é importante. Fiquei chocada, pois nem no Brasil que é um país com cidades extremamente violentas vi uma realidade dessas em relação as mulheres. Ainda mais em um país que é vizinho de um país rico, no caso os Estados Unidos. É um choque ver essas duas realidades e a realidade das mulheres particularmente, pessoas completamente indefesas numa vida que já não é das mais fáceis. Por tudo isso gostei muito do filme.

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    1. Oi Lucia!

      Antes de mais nada, seja muito bem-vinda por aqui!

      Pois então, a realidade de muitas partes do México é realmente cruel. Temos muitos problemas no Brasil, e outros tipos de violência acontecendo por aqui, mas uma situação como esta, realmente, desconheço.

      Acho também que o filme gasta bastante tempo tratando do contexto daqueles crimes. Mas acho que isso é importante. Faria falta se estas informações não estivessem ali.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

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    1. Olá Tatiane!

      Primeiramente, obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Seja bem-vinda por aqui.

      Concordo contigo que o filme vale pelo assunto que ele levanta e, consequentemente, pela denúncia que faz. O roteiro pode ser óbvio em alguns momentos, mas nada que torne o filme ruim.

      Espero que voltes por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes.

      Abraços e inté!

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