Up in the Air – Amor Sem Escalas


Quando um filme como Up In The Air consegue monopolizar as atenções de público e crítica, fica ainda mais evidente como o tema da “crise econômica” afeta os Estados Unidos. Com isso não quero dizer que o filme não seja bom. Longe de mim! Up In The Air é um filme inteligente e que trata de temas atuais de forma não muito óbvia. Mas ele é só isso. Está longe de ser excepcional e, certamente, léguas distante de ser o melhor filme de 2009. Ainda assim, ele toca no tema das demissões em série, da “desumanização” da sociedade e do vazio enganoso de certas filosofias para justificar alguns atos desesperados sem parecer chato ou forçado. Um belo trabalho, sem dúvida, dos roteiristas Jason Reitman e Sheldon Turner, baseados no livro de Walter Kirn. E o elenco, liderado por George Clooney, funciona bem. Mas me desculpe Hollywood e os defensores deste filme, mas ele não me emocionou ou convenceu totalmente. Planejado nos detalhes, ele parece funcionar tão bem quanto uma companhia aérea de ponta – e ambos sofrem da mesma falta de emoção.

A HISTÓRIA: De um lado da mesa, diferentes homens e mulheres recebem mal a notícia de que estão sendo demitidos. Do outro lado da mesma mesa, o arauto das más notícias: Ryan Bingham (George Clooney). Ele ganha a vida viajando por todas as partes dos Estados Unidos para intermediar o processo de desligamento de diferentes executivos e funcionários de suas funções – muitos deles empregados há décadas na mesma empresa. Sua vida pessoal é praticamente inexistente – e ele não se importa com isso. Para Ryan, bastam encontros com sexo casual, como o que ele tem com a executiva Alex Goran (Vera Farmiga), e contatos telefônicos esporádicos com sua família. Mas a vida perfeitamente controlada de Ryan muda quando ele começa a se importar com o casamento de sua irmã mais nova, Julie (Melanie Lynskey), e com a perspectiva de mudança em seu trabalho empreendida pela especialista em eficiência nos negócios Natalie Keener (Anna Kendrick).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Up in the Air): Não há dúvidas de que este é um filme inteligente. Nos detalhes, como nas sequências bem editadas da rotina dos aeroportos que ressaltam o automatismo do comportamento do protagonista (que simboliza uma boa parte da sociedade atual). E no enredo em geral, que evita a obviedade de soluções simples ou de um “final feliz” para o “nosso herói”. Ainda assim, Up In The Air serve mais como termômetro de uma época nos Estados Unidos do que como exemplo de grande cinema.

Ryan Bingham acredita piamente que o seu trabalho humaniza um processo cruel, que é o de demitir uma pessoa – e tirar, muitas vezes, o chão sob os seus pés. Muitos dos funcionários mandados embora das empresas que contratam Bingham não tem mais idade ou perfil para conseguir uma recolocação no mercado. Como os inúmeros “depoimentos” que aparecem no filme deixam claro, homens e mulheres demitidos encaram a notícia como o “fim da linha” para eles. Bingham tenta mostrar-lhes que existem opções mas, no fundo, ele está enganando a si mesmo. O mesmo homem que faz questão de falar, olho no olho, para um desconhecido que ele está perdendo a sua base de segurança financeira é aquele que não consegue cogitar a idéia de se casar, ter filhos ou de verdadeiramente manter um laço firme com alguém.

Up In The Air, com este protagonista curioso, reflete sobre o abismo que separa os discursos e as práticas do cotidiano. Muitos defendem que o comportamento que têm segue as suas crenças quando, se seus atos são vistos com um pouco mais de atenção, eles denotam uma grande falta de unidade entre “crença”/discurso e ação. Para alguns, isso pode ser sinônimo de hipocrisia – mas, geralmente, é apenas um sinal do “automatismo” considerado “aceitável” em uma sociedade cada vez mais acelerada. Curioso também como Ryan “abomina” as idéias de Natalie, considerando que seu plano de adotar computadores para intermediar as demissões denotam frieza e falta de um toque humano de sua idealizadora. Mas por ironia, Natalie é justamente o tipo de garota que mudou seus planos para seguir o namorado pelo país e que realmente se emociona quando tem que enfrentar a reação de alguém que sofre ao ser demitido.

A falta de reflexão sobre os próprios atos é um sintoma dos nossos tempos – e algo que Up in the Air trata de maneira interessante. Não é apenas a frequência de atos repetidos nos aeroportos dos Estados Unidos que transforma o protagonista em quase um robô: seus atos cotidianos de repulsa à intimidade familiar ou com alguma mulher também revelam este seu automatismo. Ryan está mais para um robô do que para um pretendente. 😉 E, ainda assim, ele é considerado um profissional de sucesso em seu meio. Até que sua forma de vida é ameaçada pela alta tecnologia e as idéias de gestão “revolucionárias” de Natalie Keener.

Ao mesmo tempo em que Ryan tenta defender a sua forma de vida, buscando valorizar a maneira “humana” com a qual ele demite pessoas pelo país afora, vai ficando evidente para ele – para os espectadores e para Natalie – o quanto esta sensibilidade está ausente no resto de sua vida. Ele simplesmente não sabe muito bem o que fazer nos momentos em que não está trabalhando – ou viajando para recomeçar o ciclo de trabalho. Quando ele se dá conta deste “vazio” – até então visto como uma providencial “falta de peso” -, parte para estabelecer contatos de outro nível com as pessoas próximas. Brilhante, neste ponto, como os roteiristas e, em especial, o diretor Jason Reitman, exploram a “estranheza” com a qual as irmãs de Ryan recebem esta sua mudança de comportamento. Um momento emblemático –  e perfeito – neste sentido ocorre quando Ryan, Julie e Kara (Amy Morton) ficam sozinhos e não tem o que conversar.

A parte “romântica” do filme – explorada de forma exagerada pelo título que Up in the Air recebeu no Brasil – fica por conta dos esforços de Ryan em ter um relacionamento verdadeiro com Alex Goran. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nadando contra a corrente das soluções óbvias e dos lugares-comum, o roteiro novamente surpreende ao mostrar como Ryan morre na praia. Ainda que, para chegar a este ponto, os roteiristas tenham utilizado um recurso bem conhecido no cinema: o do protagonista ser confrontado por uma pessoa que ele desprezava inicialmente (antes de começar a admirá-la). Neste caso, Natalie. Ainda assim, a frustração de Ryan com Alex mostra uma inversão de papéis. Alex é a executiva que não se abala e nem perde a compostura em ter um relacionamento de sexo casual enquanto, em casa, mantêm marido e filhos – papel esse que seria de Ryan anos atrás.

Reitman e Turner evitam o final feliz forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, seja no cinema ou na vida real, alguém habituado a viver sem laços fraternos não pode querer que, do dia para noite, eles se materializem. Ter amigos, intimidade com familiares (próximos ou distantes) ou um relacionamento amoroso sério exige tempo, esforço e comprometimento. Não é o mesmo que fazer escalas em um aeroporto. Ryan roçou a possibilidade de conseguir laços amorosos verdadeiros mas, tudo indica, desistiu rápido demais destes objetivos – depois de ter se decepcionado nas primeiras tentativas.

Nosso “herói” percebeu que suas palestras sobre como os bens materiais e os relacionamentos nos “pesam” nas costas e nos impedem de caminhar como gostaríamos, livres leves e soltos, contavam apenas parte da verdade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ryan percebeu que estes pesos (o dos relacionamentos, essencialmente) são, também, o que realmente vale a pena e nos define. Mas, ainda assim, ele foi incapaz de encontrar o caminho para começar a encher a sua própria mochila. Uma pena. Mas, ao mesmo tempo, um belo retrato da nossa realidade – onde muitas pessoas sabem aonde querem chegar mas, por desgraça, não conseguem traçar a rota ou o caminho para chegarem até seus objetivos. Up in the Air, por tudo isso, é uma crônica interessante do nosso tempo. Ainda que lhe falte, como ao protagonista, um pouco mais de “conexão” com o espectador.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o típico filme que vai ficando melhor conforme o tempo passa. Quando terminei de assistí-lo, dei uma nota ainda menor que está que aparece logo acima. Mas depois, ao refletir sobre as questões que o filme aborda – além da óbvia crise econômica que a história transpira a todo momento -, ele passou a me convencer um pouco mais. Talvez o segredo dele seja este, de ir “convencendo” aos poucos.

Todos os atores estão bem em seus papéis. Convencem. Mas, francamente, não vejo um desempenho tão acima da média para que George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick sejam considerados fortes candidatos para o Globo de Ouro ou o Oscar em suas respectivas categorias. Dos três, talvez apenas Anna Kendrick realmente mereça uma indicação – ou mesmo ganhar.

Ainda que tenha uma boa carga dramática – especialmente nos “depoimentos” chorosos de quem perdeu seu emprego -, Up in the Air equilibra de forma precisa a balança com um humor inteligente. Um exemplo é o pedido da irmã mais nova de Ryan, prestes a se casar, para que seus convidados façam fotos dela e do noivo, Jim Miller (Danny McBride), em diferentes partes dos Estados Unidos, como “naquele filme francês” (o efeito “Amélie Poulain“). Só que no lugar de um duende, os convidados deveriam levar uma foto gigante do casal. Tudo isso porque Julie e Jim não tinham dinheiro para viajarem na lua de mel. hahahahahaha. Convenhamos que muito boa essa ironia. Sem contar que Kara, quando tenta explicar para Ryan as razões do pedido das fotos, nem cita o filme francês – o que apenas denota o desinteresse da maioria dos estadunidenses pelo cinema que é feito fora de suas fronteiras.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o trabalho de Jason Bateman como Craig Gregory, o executivo preocupado com a contenção de gastos de sua empresa diante da crise econômica. Craig contratou Ryan e é ele quem aprova as idéias revolucionárias de Natalie. Como o filme é centrado no personagem de George Clooney, os atores que ganham algum protagonismo circulam ao seu redor. Por isso craques como J.K. Simmons, Sam Elliott (como o capitão Finch), Zach Galifianakis, Steve Eastin, entre outros, aparecem nesta produção apenas em pontas – muitos deles como demissionários.

Tecnicamente, o filme funciona bem em todos os seus aspectos principais. A fotografia de Eric Steelberg é precisa, a trilha sonora de Rolfe Kent envolvente – e escolhida a dedo para cada momento da história; e a edição de Dana E. Glauberman, esta sim, é fundamental e faz a diferença.

Mais uma vez, como em tantas outras ocasiões, a tradução do título original para o mercado brasileiro foi infeliz. Certo que a distribuidora precisa trabalhar com um título que chame a atenção dos espectadores. Mas Amor Sem Escalas dá uma leitura romântica totalmente errada para o filme. Up in the Air não é um filme romântico e nem tem um ou mais histórias de amor. Pelo contrário. Ele trata sobre a falta de relacionamentos na vida de um homem que se dedica exclusivamente ao trabalho. A consequência disso é que muita gente pode ir aos cinemas com uma idéia para o filme e sair totalmente frustradas de lá.

Up in the Air está se saindo muito bem na questão de prêmios. Até o momento, levou 27 deles para casa – e foi indicado ainda a outros 38. Sem contar que foi a produção que mais recebeu indicações no Globo de Ouro – o que sempre é um chamariz de público. Em quase todas as partes o roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner saiu vencedor. Além dele, estão sendo bem premiados os trabalhos de George Clooney e, numa escala menor, o de Anna Kendrick. Importante comentar ainda que Up in the Air foi considerado o melhor filme do ano pela National Board of Review e nas premiações conferidas pelas associações de críticos de Southeastern, Kansas City, da Flórida e de Dallas-Fort Worth.

Na avaliação de público e crítica, contudo, o filme dirigido por Reitman não está se saindo tão bem quanto outros de seus concorrentes. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 8,2 para a produção. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 166 textos positivos e 22 negativos para Up in the Air – o que lhe garante uma aprovação de 88%. Avatar, dirigido por James Cameron, por exemplo, tem a nota 8,7 pela votação do IMDb, e The Hurt Locker, dirigido por Kathryn Bigelow, uma aprovação de 97% no Rotten Tomatoes.

Up in the Air estrou no dia 5 de setembro no desconhecido Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou ainda por outros 10 festivais, incluindo os de Toronto, Roma, Londres e Estocolmo. Até o momento, apenas nos Estados Unidos, o filme conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 44,3 milhões nas bilheterias. Conseguiu, com isso, se pagar – Up in the Air teria custado US$ 30 milhões. Se continuar embolsando prêmios, especialmente no Globo de Ouro e no Oscar, certamente terá sua bilheteria catapultada para as alturas.

Não deixa de ser curiosa a “ligação” que o público pode fazer entre o personagem de Ryan Bingham e seu intérprete, o ator George Clooney. Todos conhecem a “lenda” que circula sobre o intérprete, considerado um “bon vivant”, um homem que prefere trocar de namoradas e ter uma vida livre do que se casar e ter filhos. Esta ironia dá um “temperinho” a mais para o filme, sem dúvida.

Também merece um comentário o uso de cartões no filme. Ryan e Alex tem uma verdadeira coleção deles – e, como duas crianças, até brincam de compará-los, “medindo” suas capacidades de colecionistas. Além disso, Ryan tem como objetivo de vida conseguir um tipo de cartão prateado que poucas pessoas já conseguiram: aquele que é dado para quem atinge a inacreditável marca de 10 milhões de milhas percorridas pela American Airlines.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande ironia do filme é que Ryan consegue o seu “objetivo supremo” logo depois de ter passado pela maior decepção de sua vida (ou pelo menos de sua história recente). Como no caso de tantos sonhos “equivocados” que as pessoas alimentam por muito tempo – todos geralmente envolvendo ganhar ou gastar dinheiro -, Ryan simplesmente não sabe como reagir quando chega o “grande momento”. O que fazer depois de ter conseguido realizar o seu “grande sonho”? Ryan descobre que a única saída que lhe resta é continuar fazendo o mesmo – ainda que, na realidade, sempre é possível escolher uma outra direção. Mas ele, anulado por si mesmo, não vê outra saída. Up in the Air tem um final um pouco triste, um pouco cínico, ainda que termine falando de estrelas e inspiração.

No material de divulgação do filme, o roteirista Sheldon Turner comenta: “Na primeira vez que li o livro de Walter Kirn eu não podia tirar a Ryan Bingham da cabeça. Fiquei encantado com o seu trabalho, seu mundo único e o preço colateral que se paga por ter um emprego que consiste em despedir a pessoas. Como alguém pode espalhar as sementes da desgraça e conservar a sua alma? Ryan Bingham fala sobre a falta de conexão e o isolamento da nossa época. Todas essas coisas pensadas para nos unir e que apenas conseguiram nos separar”.

O diretor e roteirista Jason Reitman também comentou sobre o seu ponto-de-vista do material original: “Eu via esta como a história de um sujeito que tem que enfrentar o fato de que, mesmo acreditando que sua vida está plena, esteve ignorando algo muito importante, que é a responsabilidade de formar parte de algo que seja maior. A Ryan Bingham lhe assustam tanto as responsabilidades de formar parte de uma comunidade que ele não se deu conta do valor que isso tem. Creio que isto é algo que nossa sociedade está começando a experimentar agora. Todos utilizamos nossos celulares, o Twitter e as mensagens e parece que estamos mais conectados do que nunca, enquanto que, na realidade, as pessoas já não se olham muito nos olhos e temos menos relações de verdade. A vida de Ryan nos aeroportos é uma metáfora disso. Uma pessoa pode ir a qualquer aeroporto do mundo e saber em um instante onde encontrar tudo: tem os mesmos restaurantes, as mesmas lojas, os mesmos jornais. Nos sentimos confortáveis em todos os lugares, mas por outro lado nenhum lugar parece nossa casa. Estamos tão globalizados que perdemos este sentido de comunidade local”.

Segundo o material divulgado pelos produtores de Up in the Air, o livro de Walter Kirn serviu apenas como trampolim para o roteiro de Reitman. “O livro falava comigo em muitos níveis. Adoro a linguagem de Walter e o utilizei muito. Mas, na medida em que ia escrevendo (o roteiro), a minha própria vida mudou. Conheci a minha esposa, nos casamos e tivemos um filho. E durante esse processo, Ryan Bingham também começou a amadurecer e a desejar algo mais em sua vida. O roteiro cresceu e se concentrou nos imperativos que são os vínculos da nossa vida cotidiana”, comenta o diretor.

O livro de Walter Kirn, por sua vez, surgiu de um encontro do autor com um homem desconhecido em uma viagem que estava fazendo para Los Angeles. Ao sentar-se ao lado desse homem, Kirn lhe perguntou de onde ele era. “Ele me disse: ‘Ah, sou daqui mesmo, deste banco, para ser exato’. Quando lhe perguntei o que ele queria dizer com isso, ele me disse que antes tinha um apartamento mas que, como passava 300 dias por ano viajando, o havia trocado por um armazém e fez dos hotéis de longa permanência sua casa. Quando continuei lhe fazendo perguntas, ele me disse: ‘Sabe de uma coisa? Há muitos mais como eu por aí’. Enquanto falava com ele, me dei conta de que ele tinha se adaptado a um cenário mundial composto completamente por aeroportos, hotéis, cadeias de restaurantes, lojas de presentes e seções de grandes lojas. Mas também me dei conta do sozinho que ele devia se sentir”. Foi assim que nasceu o personagem de Ryan Bingham.

Pelo que pude captar das notas de produção de Up in the Air, Reitman acrescentou à história original de Bingham os novos personagens de Natalie e Alex. Quando seu roteiro estava na fase de conclusão, os Estados Unidos começaram a experimentar os efeitos reais da crise econômica. O diretor e roteirista aproveitou este momento para dar uma evidência ainda maior para a questão das demissões intermediadas pelo protagonista. Para explorar de forma ainda maior esta realidade, Reitman resolveu intercalar a intepretação de atores e reações reais de pessoas que haviam sido demitidas de seus empregos.

“Queríamos que as cenas das demissões fossem honestas e sinceras. Assim que pensamos: ‘Por que não mostrar a realidade?’ Fomos a Detroit e a St. Louis, duas das cidades mais castigadas por toda a destruição dos postos de trabalho no ano passado (2008), e colocamos anúncios na seção de emprego dos jornais dizendo que estávamos fazendo um filme sobre a perda de emprego e que buscávamos pessoas que quisessem falar sobre isso. Recebemos tantas respostas que foi desconcertante. As pessoas chegavam e lhes pedíamos que nos contassem o que disseram no dia em que foram demitidos, ou o que gostariam de ter dito. O que foi assombroso para mim, que sou alguém que trabalha constantemente com atores para obter realismo, foi a forma com que estas pessoas, que pensei que se sentiriam incômodas frente a uma câmera, resultavam tão honestas e autênticas. Agora esta é uma das minhas partes favoritas do filme”, comenta Reitman.

O diretor comenta que pensou em George Clooney para interpretar o protagonista desde o início e que, admite, escreveu o personagem de Natalie para Anna Kendrick. “Eu lhe havia visto em Rocket Science e pensei que ela era simplesmente incrível, diferente de todas as atrizes de sua idade. E quando ela veio fazer a prova para Up in the Air, demonstrou isso. Anna tem uma voz absolutamente única que a diferencia de sua geração”, comentou Reitman.

Uma curiosidade da produção é que Up in the Air foi filmado em cinco cidades diferentes mas, como revela Jason Reitman, o filme retrata 20 lugares distintos. Essa característica exigiu um trabalho preciso do diretor artístico Steve Saklad. As cidades pelas quais Ryan Bingham passa durante a história foram cuidadosamente escolhidas. Elas refletem, segundo Reitman, aquelas que foram vítimas dos maiores cortes de pessoal, das quebras de empresas e dos problemas vividos por distintas partes dos Estados Unidos antes do filme ser rodado. Incluem Detroit (sede da indústria automobilística), Phoenix (o escritório de uma seguradora sanitária), Saint Louis (uma linha de engarrafamento) e Wichita (empresas de seguros financeiros). As cidades de Saint Louis, Detroit, Omaha, Miami e Las Vegas serviram de sede para as filmagens – bairros de Saint Louis foram utilizados para reproduzir cenários de Chicago, por exemplo. Além disso, o filme contêm mais de 50 cenas rodadas em diversos aeroportos e aviões.

Um problema deste filme, para mim, é que ele segue um pouco a linha de “lamento” de que o “american way of life” saiu errado. Em outra palavras, Up in the Air fica um bocado limitado ao transferir, para o personagem de Ryan Bingham, todas as expectativas que o velho modelo de “a felicidade reside em um lar composto por pais e filhos” trazia. Digo isso porque, por exemplo, The Soloist também trata do mesmo problema de “falta de humanidade” e de laços afetivos no mundo atual. Trata, igualmente, da falta de capacidade das pessoas para olharem para alguém que esteja ao seu lado e tentar entender a sua história. Mas The Soloist não ganhou o apoio da crítica como Up in the Air. Certo que o texto de Reitman pode ser melhor que o de Susannah Grant, roteirista de The Soloist, mas pelo menos o filme de Joe Wright mostra que é possível estabelecer laços afetivos verdadeiros sem que as pessoas precisem, necessariamente, passar pela fórmula de “família feliz”. Algo para se pensar…

CONCLUSÃO: Um filme que simboliza o nosso tempo. Up in the Air, diferente do que seu título no mercado brasileiro pode sugerir, não é uma história romântica. Mais que nada, ele tem um roteiro filosófico e reflexivo sobre a era do individualismo, das constantes viagens de negócios e da alta tecnologia. Up in the Air trata sim da escolha de um modelo de vida e do abismo que separa, muitas vezes, nosso pensar e nosso agir. Pesado e leve em medidas diferentes, ele também reflete uma época muito marcante para o público dos Estados Unidos: o da crise econômica e de suas inevitáveis demissões. Com um roteiro bem escrito e atores convincentes, Up in the Air, contudo, sofre do mesmo problema que seu protagonista: tem dificuldades em conseguir uma conexão real com as pessoas. Ele deve atingir em cheio ao público norte-americano, ainda marcado pela crise econômica, mas dificilmente conseguirá o mesmo eco em outros mercados – como o dos brasileiros, por exemplo. Não deixa de ser um bom filme, que inclusive serve de reflexão sobre uma era, ainda que ele sofra por tentar repetir a fórmula do “american way of life” – no qual formar uma família parece ser a única via possível para a felicidade. Apesar de suas qualidades, Up in the Air está distante de integrar a lista de filmes do “grande cinema”.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por tudo que eu comentei antes, especialmente sobre as chagas ainda abertas da crise econômica nos Estados Unidos, Up in the Air deve repetir no Oscar o desempenho de indicações que teve no Globo de Ouro. Provavelmente a última produção de Jason Reitman será indicada nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e, possivelmente, melhor edição e, talvez, melhor edição de som. Contem aí pelo menos sete indicações ao Oscar – ou mais.

Vale lembrar que Up in the Air conseguiu ser indicado em seis categorias no Globo de Ouro (neste texto do blog eu comentei sobre as indicações). No Oscar ele tem chances reais de ganhar em várias categorias – tudo vai depender do humor de quem vota na premiação. Se eles olharem para o “mercado interno”, ou seja, para a realidade dos estadunidenses, não seria uma total surpresa que Up in the Air saisse vencedor nas categorias principais – incluindo melhor filme, roteiro adaptado e ator. Mas se os votantes olharem “para o quadro como um todo”, pensando em todos os filmes sem olhar tanto para o próprio umbigo, Up in the Air terá chances apenas nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor ator e melhor atriz coadjuvante.

Pessoalmente, acho os roteiros de District 9 e The Hurt Locker mais criativos que o de Up in the Air. Agora, sem dúvida, é um grande trabalho de Jason Reitman e Sheldon Turner que, se sair premiado no Oscar, não será uma injustiça completa. Como melhor filme, apenas analisando as produções que assisti até o momento, prefiro Precious ou The Hurt Locker do que Up in the Air. Melhor diretor, Kathryn Bigelow, Clint Eastwood ou Quentin Tarantino. Melhor ator, até o momento, Morgan Freeman – ainda que eu ache que Jeff Bridges deve estar estupendo em Crazy Heart. Atriz coadjuvante, está mais difícil… Anna Kendrick merece o prêmio, mas tenho Mo’nique quase como favorita. Agora é esperar para ver como Up in the Air se sairá no Globo de Ouro.

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17 comentários em “Up in the Air – Amor Sem Escalas

  1. Olá l3on!!

    Bem, logo mais, poderás assistí-lo nos cinemas… Up in the Air estréia no Brasil na próxima semana, mais precisamente no dia 22.

    Depois volte por aqui para comentar o que achaste do filme e, claro, da crítica acima.

    Um abração e inté!

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    1. Não sei se vc viu, mas depois entra no seu Flickr. E lógico, vou ver esse e nessa quarta verei aquele dos monstros, me pareceu ser um filme bonito. Ou não?

      Abração!

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  2. Oi l3on!!

    Vi teu “disfarce” no Flickr sim, logo mais te dou um “oi” por ali também.

    Depois comenta aqui sobre este filme. O dos monstros ainda não assisti – e admito que estou com um pouco de preguiça de vê-lo agora… Mas um dia, será.

    Um abração e inté!!

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    1. Vi, hoje. Gostei, achei um filme interessante e bem conduzido. Sempre achei o George Clooney um bom ator, especialmente em Syriana e Boa Noite, Boa sorte. Nesse, ele não performa uma atuação digna de ‘ohs’ mas valeu.

      [spoiler alert hehehehe] A maneira com que as 4 histórias se atam no final do filme foi o que me cativou, o romance, a milhagem, o casório e a carreira. Não tem um final ‘feliz’ por assim dizer. É um final realista, para um filme comprometido com o status quo contemporâneo. Valeu ter assistido.

      Sabe, eu vejo esses filmes por curtição, hobby. Mas assim como músicos, você não cansa de ver filme? Sei que devem te perguntar isso, mas sabe como é, aviso aos navegantes… =)

      Abraço Ale!

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  3. Nada melhor que ler uma postagem inteira para não dizer bobeira, pois, ficou claro e muito honesto de sua parte a “evolução” de sua percepção do filme. Isto também me ajudou.

    Uma das primeiras impressões que tive e que foi dito no texto é justamente o fato de o filme retratar uma época. Creio ser estranho, daqui há alguns anos quando esta “crise” só estiver nas lembranças dos “mais velhos”, algum jovem ver sentido na história de demissões. Que sentido faria o filme numa época em que os Estados Unidos estiverem a “pleno vapor”?

    Interessante também o “retrato” da sociedade americana e de boa parte do muito que, para mim anda muito robotizada. Claro que a modernidade é bem vinda, mas “deixar a mochila vazia” não dá…

    Alessandre, esta sua crítica tirou boa dose de “leite de pedra” pois numa primeira análise nunca passou pela cabeça que o filme merecesse tantas linhas, mas, como você mesmo disse, sua primeira impressão não foi boa. Então, passada esta temporada de Oscar que adoro, pretendo voltar a ver o filme e postar o que vou achar de uma nova leitura do filme.

    Abraços!

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  4. Parabéns, achei a analise do filme bastante interessante. Gostei do filme, exatamente por retratar esse momento “pós-moderno”……concordo, com a crítica em relação ao “american way of life”. Mas, fico me questionando; como pensar em vínculos, em relações afetivas, que não caiam nesse lugar comum de nos apaixonarmos, viver uma vida a dois!?? Gostaria de saber a opinião de vcs!!!! Abraços.

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  5. Oi l3on!!

    Então, é um filme interessante. Sem dúvida. Mas não achei ele excepcional ou merecedor de tanta “badalação” como quando recebeu aquela carrada de indicações ao Globo de Ouro.

    Certamente o final não poderia ser outro. Se ele caisse em um “final feliz” forçado, aí sim, teria sido terrível e o filme cairia no meu conceito. 😉

    O Clooney é um bom ator, mas sem dúvida prefiro eles nos filmes que citaste do que nesta produção.

    Eu nunca me canso de ver filmes. Na verdade, gostaria de me dedicar a fazer só isso: assistir a filmes e falar deles. Quem me dera! Mas como isso não é possível, vou comentando alguns poucos sempre que sobra um tempinho. Como no caso dos músicos, que são apaixonados pelo que fazem, eu sou louca pelo cinema, adoro. Por isso, acho que não vou me cansar nunca…

    Um abração e inté!

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  6. Olá Reinaldo!!

    Pois sim, isso sempre acontece comigo. Vou entendendo melhor os filmes conforme o tempo vai passando e, dependendo da produção, conforme ela vai se desenvolvendo. Minha percepção também pode mudar um pouco depois que escrevi grande parte do texto e leio as críticas de outras pessoas. Ainda assim, devo dizer, nunca mudo uma nota que dei anteriormente porque começo a ler opiniões diferentes das minhas.

    Estou contigo que Up in the Air é um filme muito datado. Por isto mesmo, diferente de The Hurt Locker, ele não será um “clássico”. Primeiro, porque ele não é universal – apenas os Estados Unidos e alguns outros países sentiram a crise de forma tão acentuada, diferente do Brasil, por exemplo. Depois que sua história não terá grande identificação com o passar do tempo – como bem comentaste.

    Sobre a “mochila vazia”, bem, isso depende do que a pessoa busca para si, não é mesmo? O desapego que ela pode significar até acho interessante. Mas não o egoísmo que é a outra face da mesma moeda. Algumas pessoas enxergaram em Into the Wild, por exemplo, uma forma de deixar a “mochila vazia” extremista demais. Mas elas não entenderam que o filme mostra o desapego das coisas materiais e dos valores consumistas para, no final, mostrar como seu protagonista só enxergava o sentido na vida se ela fosse compartilhada. Esta é também, de outra forma, a mensagem de Up in the Air – ainda que este último filme seja um tanto mais “pessimista” que o primeiro.

    Obrigada pelo elogio de que tirei “leite de pedra” com o meu texto. hehehehehe. Achei engraçado. Faço o que eu posso e devo admitir que, algumas vezes, mesmo não gostando muito de determinados filmes, eles merecem uma reflexão maior.

    Abraços!

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  7. Olá Patricia!!

    Muito obrigada por tua visita e por teu comentário. Fico feliz que tenhas “aportado” pelas bandas deste blog. 😉

    Olha, cada um tem a sua leitura sobre vínculos e relações afetivas, mas eu acho que é possível mantê-los sem necessariamente o modelo de um casal. Apaixonar-se é maravilhoso, uma das grandes sensações da vida, mas acredito que o amor é algo maior e mais potente. E é possível amar sem, necessariamente, viver a relação de um casal.

    Por exemplo, é possível criar vínculos muito fortes e ter relações afetivas na doação que uma pessoa faz em trabalhos voluntários. Há pessoas que dedicam suas vidas para ajudar a outros. Uma mulher ou um homem podem também adotar crianças e constituir uma família sem terem necessariamente que ter a outra figura de um casal. Enfim, acho que há vários exemplos de vínculos e relações que podem ser mantidas e cultivadas sem seguir o padrão da família tradicional.

    No mais, espero que apareças por aqui outras vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas assistido.

    Um abraço!

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  8. além do discutível pré-conceito de felicidade que o filme vende, ele peca também por perder uma ótima oportunidade de provocar uma reflexão mais séria sobre as desastrosas consequências do desemprego numa selva capitalista que vivemos.

    na minha opnião:

    pior e desnecessário momento: aquela cena onde o suicídio de uma empregada é revelado e ocorre a negativa do personagem de Clooney em relação ao fato. (muito mal resolvida a cena)

    melhor momento: todos que envolvem a personagem Natalie, engraçadíssima e autêntica.

    beijo ale!!

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  9. Olha, vou admitir que ainda estou meio perplexo com a sua boa vontade, educação e dedicação respondendo todos os comentários, fazendo críticas completíssimas.

    O filme me agradou, e estou até com vontade de ler o livro, mas também não acho que seja o filme do ano, aliás, achei desnecessariamente inflada a categoria “Melhor Filme” do Oscar. Tanto “Up in the air”, quanto “The Blind Side”, estão longe de ser o filme do ano (principalmente – com várias exclamações – o segundo). O filme deve ter mais chances na categoria “Melhor Roteiro Adaptado”.

    Achei interessante a sua relação do Twitter, internet etc, de como as coisas parecem mais próximas. Tem muita gente que acredita fielmente nisso, e o que não falta são textos espalhados pela internet colocando no ponto contrário ao analisado por você (uma pena). Estamos cada vez mais fechados, e quando Ryan Bingham reflete o “abismo que separa os discursos e as práticas do cotidiano”, temos um resumo da vida moderna.

    Enfim, mais uma vez você foi perfeita.

    E realmente, uma péssima sacada o título “Amor sem escalas”.

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  10. Olá Mangabeira!!

    Estou contigo: Up in the Air poderia ser maior, melhor. Ainda que tenha inteligência no roteiro e na condução da história, ele peca por alguns “errinhos” de julgamento, como os que comentaste.

    Também acho que ele tem alguns deslizes importantes, como este sobre o suicídio de uma ex-funcionária. E uma certa “inocência” em tratar algumas questões relevantes, sejam ela do desemprego ou da solidão. Mas enfim, é um cinema que abre debates. O que, por si só, não deixa de ser interessante.

    Um beijo e um abraço e inté!

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  11. Olá Claudio!!

    Desculpa por te deixar perplexo… hehehehehe. Mas realmente, acho importante e bacana estas trocas de idéias e impressões sobre os filmes. Esse é o “plus” dos blogs e da internet – muito melhor que a “simples” mídia impressa.

    Também fiquei curiosa para ler o livro. Ainda que todos dizem que a adaptação do Reitman mudou muito da obra original. Mas ela deve ser interessante.

    Agora, estou contigo que Up in the Air não merecia estar na categoria de Melhor Filme do ano. Assim como outros dos indicados. Acho, na verdade, que este ano muito bem poderíamos ter ficado nos tradicionais cinco concorrentes nesta categoria. E se Up in the Air não deveria estar na lista, The Blind Side então… vixe! Sem comentários! hehehehehe. Concordo totalmente contigo nisso.

    Pois é, todas as realidades têm, sempre, pelo menos dois lados opostos. A internet pode aproximar na mesma medida que isolar as pessoas. A potencialidade do meio está aí para ser explorada… nós que definimos como. Esta foi uma de muitas reflexões do doutorado que estou concluindo. Há muitas pessoas debatendo os diferentes aspectos da comunicação pela internet, e esse debate é o que importa – mais do que as conclusões que ele pode produzir.

    Amor Sem Escalas é péssimo. hehehehehe. Como outros títulos recentes, devo dizer.

    Claudio, muito legal ler teus comentários. Continue por aqui, dando tuas opiniões, ok?

    Abraços!

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