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Tully

Ser mãe é uma tarefa complicada. Claro que todas as noites insones, as mudanças no corpo, as preocupações e a correria maior do dia a dia são compensadas pelo amor recebido pelos filhos. Mas nada disso apaga a dureza e o desafio da jornada. Acredito que Tully seja um dos melhores – senão o melhor – filme que eu já assisti sobre a maternidade. Uma história interessante e que faz pensar sobre como as mães são cobradas atualmente. Mais um belo trabalho da roteirista Diablo Cody – e do restante da equipe que faz parte desta produção.

A HISTÓRIA: Pela escada que dá acesso a um quarto, Marlo (Charlize Theron) desce com cuidado. Ela está grávida, e caminha com cuidado para o quarto do filho, Jonah (Asher Miles Fallica), um garoto que exige cuidados especiais. Marlo coloca uma música, pega uma escova e começa a escovar os braços e as costas do menino. Quando chega a hora das crianças irem para a escola, a mãe lembra Sarah (Lia Frankland) que ela não deve esquecer a sua bombinha. Na escola, Marlo fica sabendo que provavelmente terá que escolher outro local para o filho estudar. Os desafios dessa mãe estão apenas começando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tully): Eita que o tempo está passando muito rápido! Assisti esse filme há algumas semanas, então peço perdão pelo atraso nessa publicação. Mas é que logo depois saí de férias por 15 dias – folga esta que está terminando, que pena! -, e aí me dediquei a outros afazeres. Desculpem a demora.

Apesar do tempo transcorrido desde que eu vi esse filme e de ter assistido a duas produções depois – já comecei a escrever sobre elas também, logo vocês verão as críticas por aqui -, me lembro bem da produção dirigida por Jason Reitman e com roteiro da sempre interessante Diablo Cody.

A roteirista natural de Chicago e com 40 anos recém completados – ela faz aniversário no dia 14 de junho – tem 14 trabalhos no currículo e um Oscar. Ela ganhou o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por Juno (filme comentado por aqui) e que é uma das produções mais interessantes sobre a adolescência “atual” (e sobre maternidade também).

Então Tully já começa com a ótima qualidade de ter o roteiro escrito por Diablo Cody. Como é típico de seu trabalho, encontramos nesse filme diálogos interessantes e ágeis e uma preocupação em manter o foco da história nas pessoas e nas suas relações. Cody não tem papas na língua e procura mostrar uma história que reflita os tempos atuais – sem muito lirismo e com muita franqueza.

E é exatamente isso que vemos em cena. Esqueça a maternidade vista de maneira idealizada ou “pueril”. Cody coloca o dedo na ferida na parte “hardcore” da maternidade – especialmente no caso de mulheres que tem mais de um filho. A protagonista deste filme, muito bem interpretada por Charlize Theron, está justamente na fase da terceira gravidez. Ela está com um barrigão enorme, muito trabalho dentro de casa e ainda a responsabilidade de dar conta de dois filhos – sendo um deles um bocado “problemático” e/ou com necessidades especiais.

A rapadura é doce, mas não é mole não. E é sobre isso Tully. Sobre como uma mulher, linda e que já está deixando a beleza da juventude para trás, deve se desdobrar e se reinventar para conseguir dar conta de um casamento e de três filhos. Nesse contexto, surge a ideia de Craig (Mark Duplass), irmão descolado – e não muito “querido” – de Marlo. Ele é pai de duas crianças mas parece muito tranquilo sobre isso – assim como a esposa dele, Elyse (Elaine Tan).

Toda essa “tranquilidade” de Craig e de Elyse parecem irritar um pouco Marlo e Drew (Ron Livingston), que parece terem que ralar muito mais do que o irmão “endinheirado” dela. Mas é Craig quem acaba oferecendo um presente interessante – e um pouco inusitado – para a irmã: um tipo de babá noturna que pode ajudá-la a dormir e a relaxar. E ela está precisando muito, muito relaxar – como ninguém poderia sequer imaginar.

Inicialmente, como tantas mães que vestem a roupa de “super mãe” (aquela ideia antiga de que as “mães de verdade” devem sofrer e dar conta de tudo sozinhas), Marlo resiste à essa ideia. Afinal, onde já se viu entregar a filha recém nascida para os cuidados de uma “desconhecida”? Mas depois de algum tempo ela cede à tentação e acaba topando. E aí que ela conhece a Tully (Mackenzie Davis).

A partir daí, o filme se desenrola em uma relação interessante, provocante e um tanto “apimentada” – cheia de entrelinhas – entre Marlo, Tully e até o marido da protagonista, Drew. Tudo flui de maneira interessante e sugestiva, envolvendo o espectador em relações que algumas vezes parecem um tanto estranhas, mas que não vemos a hora do novelo se desenrolar. E ele se desenrola com uma certa “surpresa”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dificilmente Diablo Cody escreve um roteiro sem alguma surpresa aqui e ali. E, novamente, ela nos apresenta isso em Tully. No fim das contas, esse filme se revela uma bela reflexão sobre o amadurecimento de uma mãe e sobre como uma mulher pode se dar conta de que viveu várias vidas dentro de uma mesma vida. Sim, é maravilhoso ter um marido e filhos, mas também é inevitável, algumas vezes, olhar para trás e não ter saudade sobre um tempo em que tudo era mais “fácil” e mais libertário.

A vida tem diversas fases e etapas. Cada uma delas com as suas dificuldades, riquezas, alegrias e aprendizados. Para viver bem e não “enlouquecer” é preciso ver a beleza de cada fase e não querer voltar ou avançar demais no tempo. O único tempo que existe, de fato, é o presente, já disseram. E isso é bem verdade. No mais, passado e futuro valem para reminiscências, para um e outro soluço e para sonhar. Mas nunca para viver.

Tully nos fala um pouco sobre isso. Sobre as dificuldades da amizade e sobre as diversas vidas de uma mulher. Ter filhos é maravilhoso, mas também exige muito de uma mulher – mais do que do homem que vira pai. Por isso mesmo, é preciso ter mais compaixão e paciência com as mães, especialmente com as que tem vários filhos “pequenos”. A vida é dura para elas, e não é difícil de imaginar como elas gostariam de sair correndo ou de fugir às vezes.

Claro que, como todo dia ruim na vida de qualquer pessoa, esses dias de “desespero” ou de vontade intensa de fugir passam. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas próximas podem se dar conta dessa aflição e ajudar – mesmo que demorem um pouco, como é o caso do marido de Marlo. O importante é saber que tudo passa – o que é bom e o que é ruim – e que cada fase da vida deve ser aproveitada ao máximo. De tudo podemos tirar aprendizado, se assim desejarmos.

Assim, Tully nos fala sobre a vida mesma. Sobre as nossas escolhas, sobre os prazeres e dores colhidos a partir dos caminhos trilhados. A vida é bela, é nosso maior presente, mas também é dura em diversos momentos. Tully nos ensina que é possível vencer a tudo isso, seja com amor, seja com alguma dose de loucura. O importante mesmo é buscarmos fazer sempre o melhor e, dentro do possível, olhar com atenção para quem está do lado. Isso e um pouco de sorte pode fazer toda a diferença.

Além de apresentar uma pegada bastante “humana”, o que eu gostei nesse filme foi da “surpresa” envolvendo a relação entre Marlo e Tully. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Perto da “revelação”, eu achava que podia estar rolando um interesse de Tully por Marlo, por isso o desejo dela de não “cuidar” mais de Marlo e de sua família. Mas quando sabemos que Tully era Marlo jovem, tudo faz sentido. No fim das contas, Marlo estava se desdobrando em duas – algo muito real para mães naquela situação – e acaba meio que “pirando” por causa disso.

Bela sacada de Cody para demonstrar não apenas como uma mãe de três filhos realmente pode perder os sentidos se não tiver o apoio mais adequado como também foi um recurso interessante para mostrar como a “mãezona Marlo” poderia, finalmente, com um bocado de boa vontade, fazer as pazes com a sua versão mais jovem. Bastante cobrada – inclusive pela vaidade -, a mãe que deixa a leveza da juventude para trás não precisa fazer isso com amargura. Basta saber que cada fase tem a sua graça e que ser mãe de três filhos também é algo incrível. Belo filme.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A grande qualidade desse filme, para mim, é o roteiro de Diablo Cody. Por todas as razões que eu comentei antes. Mas vale resumir por aqui também: o texto humano, cheio de diálogos interessantes – e uma “pimenta” aqui e ali – e que equilibra bem humor e drama, o foco na história dos personagens e em suas relações. Esse é o ponto forte de Tully. Mas é preciso dizer também que outro destaque da produção é o trabalho de Charlize Theron. Mais uma vez a atriz procura um papel de “gente como a gente” e faz uma entrega impecável.

Ainda que Charlize Theron seja o grande destaque desta produção, existe uma turma de “coadjuvantes” que fazem uma entrega condizente com os seus personagens – o que ajuda o filme a manter o alto nível. Nesse sentido, vale destacar, em especial, o trabalho interessante e o carisma de Mackenzie Davis como Tully. Além dela, vale citar o bom trabalho – mas nada acima da média – de Mark Duplass como o irmão de Marlo, Craig; Ron Livingston como o marido da protagonista, Drew; Elaine Tan como Elyse, mulher de Craig; Lia Frankland muito bem como Sarah, filha mais velha do casal Marlo e Drew; e Asher Miles Fallica como o “desafiador” Jonah, segundo filho do casal.

Entre os aspectos técnicos do filme, uma salva de palmas especial para a trilha sonora interessantíssima – e escolhida a dedo – de Rob Simonsen. O diretor Jason Reitman faz um bom trabalho, acompanhando sempre de perto os atores e valorizando também os seus “habitats”, mas não achei a sua direção realmente impactante – ou inovadora. Mas ele está bem. Também vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Eric Steelberg; a ótima edição de Stefan Grube; o design de produção de Anastasia Masaro; a direção de arte de Craig Humphries e de Maki Takenouchi; a decoração de set de Louise Roper e de Karin Wiesel; e os figurinos de Aieisha Li.

Tully estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participou, ainda, de outros cinco festivais de cinema, todos nos Estados Unidos. Nessa trajetória, o filme foi indicado a apenas um prêmio, mas não saiu vencedor.

Agora, algumas curiosidades sobre Tully. A atriz Charlize Theron ganhou 22,7 quilos – ou 50 libras – para fazer o papel principal desta produção. Para engordar dessa maneira, ela fez uma dieta de “junk food”, o que incluiu muitos “burger’s” com tudo dentro, milkshakes e alimentos processados. Para “manter o peso” conquistado, a atriz também se habituou a comer macarrão com queijo na madrugada. A atriz disse que o filho mais novo dela achou que ela estava grávida por causa da mudança no seu corpo. Após fazer Tully, a atriz demorou um ano e meio para voltar para a forma antiga. Isso que é vontade de “entrar” no papel, hein?

O sacrifício de Charlize Theron acabou cobrando um preço alto da atriz. Segundo as notas da produção, pela primeira vez Charlize Theron sofreu depressão enquanto participava dessa produção – um pouco por causa do ganho de peso e da pressão para perder ele depois que o filme fosse rodado.

O filme rendeu uma certa discussão – e polêmica – por tratar do tema da depressão pós-parto. Alguns acham que isso não ficou tão claro, assim como os tratamentos disponíveis para o problema, enquanto outros consideraram que o filme acerta ao não deixar o tema claro – já que a depressão pós-parto muitas vezes não é diagnosticada. Da minha parte, acho que o filme vai além desse tema. Não vejo que o foco seja só a depressão pós-parto, mas outras questões envolvendo a maternidade e que vão além desta “condição” momentânea.

Tully faturou, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais de US$ 9,2 milhões nos Estados Unidos. Um resultado bom para um filme alternativo, mas não muito expressiva para uma produção com os nomes envolvidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Tully, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 189 críticas positivas e 29 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,7. No site Metacritic o filme ostenta um metascore de 75, fruto de 46 críticas positivas e seis medianas. Ou seja, o filme se saiu muito bem segundo a crítica do público e da crítica.

Tully é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme atende a uma votação feita por aqui há tempos.

CONCLUSÃO: Um roteiro envolvente, bem ao estilo “A Vida Como Ela É”, que nos faz pensar e que nos presenteia com ótimos diálogos e atuações coerentes. Tudo parece funcionar em um compasso quase perfeito neste Tully. Uma produção bastante honesta sobre a maternidade, todos os seus desafios e aprendizados. O ideal é assistir a esse filme se deliciando com ele mas também refletindo sobre o que estamos vendo.

Quantas mães, muito cobradas por si mesmas e pelos outros, vivem por aí “à beira de um ataque de nervos”? Vale pensarmos sobre isso e sermos mais solidários. Mesmo que for apenas para deixá-las desabafar ou ajudar aqui e ali com pequenos gestos. Belo filme, com uma mensagem bem bacana e um bocado de reflexões deixadas no ar. Acima da média.

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Up in the Air – Amor Sem Escalas

Quando um filme como Up In The Air consegue monopolizar as atenções de público e crítica, fica ainda mais evidente como o tema da “crise econômica” afeta os Estados Unidos. Com isso não quero dizer que o filme não seja bom. Longe de mim! Up In The Air é um filme inteligente e que trata de temas atuais de forma não muito óbvia. Mas ele é só isso. Está longe de ser excepcional e, certamente, léguas distante de ser o melhor filme de 2009. Ainda assim, ele toca no tema das demissões em série, da “desumanização” da sociedade e do vazio enganoso de certas filosofias para justificar alguns atos desesperados sem parecer chato ou forçado. Um belo trabalho, sem dúvida, dos roteiristas Jason Reitman e Sheldon Turner, baseados no livro de Walter Kirn. E o elenco, liderado por George Clooney, funciona bem. Mas me desculpe Hollywood e os defensores deste filme, mas ele não me emocionou ou convenceu totalmente. Planejado nos detalhes, ele parece funcionar tão bem quanto uma companhia aérea de ponta – e ambos sofrem da mesma falta de emoção.

A HISTÓRIA: De um lado da mesa, diferentes homens e mulheres recebem mal a notícia de que estão sendo demitidos. Do outro lado da mesma mesa, o arauto das más notícias: Ryan Bingham (George Clooney). Ele ganha a vida viajando por todas as partes dos Estados Unidos para intermediar o processo de desligamento de diferentes executivos e funcionários de suas funções – muitos deles empregados há décadas na mesma empresa. Sua vida pessoal é praticamente inexistente – e ele não se importa com isso. Para Ryan, bastam encontros com sexo casual, como o que ele tem com a executiva Alex Goran (Vera Farmiga), e contatos telefônicos esporádicos com sua família. Mas a vida perfeitamente controlada de Ryan muda quando ele começa a se importar com o casamento de sua irmã mais nova, Julie (Melanie Lynskey), e com a perspectiva de mudança em seu trabalho empreendida pela especialista em eficiência nos negócios Natalie Keener (Anna Kendrick).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Up in the Air): Não há dúvidas de que este é um filme inteligente. Nos detalhes, como nas sequências bem editadas da rotina dos aeroportos que ressaltam o automatismo do comportamento do protagonista (que simboliza uma boa parte da sociedade atual). E no enredo em geral, que evita a obviedade de soluções simples ou de um “final feliz” para o “nosso herói”. Ainda assim, Up In The Air serve mais como termômetro de uma época nos Estados Unidos do que como exemplo de grande cinema.

Ryan Bingham acredita piamente que o seu trabalho humaniza um processo cruel, que é o de demitir uma pessoa – e tirar, muitas vezes, o chão sob os seus pés. Muitos dos funcionários mandados embora das empresas que contratam Bingham não tem mais idade ou perfil para conseguir uma recolocação no mercado. Como os inúmeros “depoimentos” que aparecem no filme deixam claro, homens e mulheres demitidos encaram a notícia como o “fim da linha” para eles. Bingham tenta mostrar-lhes que existem opções mas, no fundo, ele está enganando a si mesmo. O mesmo homem que faz questão de falar, olho no olho, para um desconhecido que ele está perdendo a sua base de segurança financeira é aquele que não consegue cogitar a idéia de se casar, ter filhos ou de verdadeiramente manter um laço firme com alguém.

Up In The Air, com este protagonista curioso, reflete sobre o abismo que separa os discursos e as práticas do cotidiano. Muitos defendem que o comportamento que têm segue as suas crenças quando, se seus atos são vistos com um pouco mais de atenção, eles denotam uma grande falta de unidade entre “crença”/discurso e ação. Para alguns, isso pode ser sinônimo de hipocrisia – mas, geralmente, é apenas um sinal do “automatismo” considerado “aceitável” em uma sociedade cada vez mais acelerada. Curioso também como Ryan “abomina” as idéias de Natalie, considerando que seu plano de adotar computadores para intermediar as demissões denotam frieza e falta de um toque humano de sua idealizadora. Mas por ironia, Natalie é justamente o tipo de garota que mudou seus planos para seguir o namorado pelo país e que realmente se emociona quando tem que enfrentar a reação de alguém que sofre ao ser demitido.

A falta de reflexão sobre os próprios atos é um sintoma dos nossos tempos – e algo que Up in the Air trata de maneira interessante. Não é apenas a frequência de atos repetidos nos aeroportos dos Estados Unidos que transforma o protagonista em quase um robô: seus atos cotidianos de repulsa à intimidade familiar ou com alguma mulher também revelam este seu automatismo. Ryan está mais para um robô do que para um pretendente. 😉 E, ainda assim, ele é considerado um profissional de sucesso em seu meio. Até que sua forma de vida é ameaçada pela alta tecnologia e as idéias de gestão “revolucionárias” de Natalie Keener.

Ao mesmo tempo em que Ryan tenta defender a sua forma de vida, buscando valorizar a maneira “humana” com a qual ele demite pessoas pelo país afora, vai ficando evidente para ele – para os espectadores e para Natalie – o quanto esta sensibilidade está ausente no resto de sua vida. Ele simplesmente não sabe muito bem o que fazer nos momentos em que não está trabalhando – ou viajando para recomeçar o ciclo de trabalho. Quando ele se dá conta deste “vazio” – até então visto como uma providencial “falta de peso” -, parte para estabelecer contatos de outro nível com as pessoas próximas. Brilhante, neste ponto, como os roteiristas e, em especial, o diretor Jason Reitman, exploram a “estranheza” com a qual as irmãs de Ryan recebem esta sua mudança de comportamento. Um momento emblemático –  e perfeito – neste sentido ocorre quando Ryan, Julie e Kara (Amy Morton) ficam sozinhos e não tem o que conversar.

A parte “romântica” do filme – explorada de forma exagerada pelo título que Up in the Air recebeu no Brasil – fica por conta dos esforços de Ryan em ter um relacionamento verdadeiro com Alex Goran. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nadando contra a corrente das soluções óbvias e dos lugares-comum, o roteiro novamente surpreende ao mostrar como Ryan morre na praia. Ainda que, para chegar a este ponto, os roteiristas tenham utilizado um recurso bem conhecido no cinema: o do protagonista ser confrontado por uma pessoa que ele desprezava inicialmente (antes de começar a admirá-la). Neste caso, Natalie. Ainda assim, a frustração de Ryan com Alex mostra uma inversão de papéis. Alex é a executiva que não se abala e nem perde a compostura em ter um relacionamento de sexo casual enquanto, em casa, mantêm marido e filhos – papel esse que seria de Ryan anos atrás.

Reitman e Turner evitam o final feliz forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, seja no cinema ou na vida real, alguém habituado a viver sem laços fraternos não pode querer que, do dia para noite, eles se materializem. Ter amigos, intimidade com familiares (próximos ou distantes) ou um relacionamento amoroso sério exige tempo, esforço e comprometimento. Não é o mesmo que fazer escalas em um aeroporto. Ryan roçou a possibilidade de conseguir laços amorosos verdadeiros mas, tudo indica, desistiu rápido demais destes objetivos – depois de ter se decepcionado nas primeiras tentativas.

Nosso “herói” percebeu que suas palestras sobre como os bens materiais e os relacionamentos nos “pesam” nas costas e nos impedem de caminhar como gostaríamos, livres leves e soltos, contavam apenas parte da verdade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ryan percebeu que estes pesos (o dos relacionamentos, essencialmente) são, também, o que realmente vale a pena e nos define. Mas, ainda assim, ele foi incapaz de encontrar o caminho para começar a encher a sua própria mochila. Uma pena. Mas, ao mesmo tempo, um belo retrato da nossa realidade – onde muitas pessoas sabem aonde querem chegar mas, por desgraça, não conseguem traçar a rota ou o caminho para chegarem até seus objetivos. Up in the Air, por tudo isso, é uma crônica interessante do nosso tempo. Ainda que lhe falte, como ao protagonista, um pouco mais de “conexão” com o espectador.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o típico filme que vai ficando melhor conforme o tempo passa. Quando terminei de assistí-lo, dei uma nota ainda menor que está que aparece logo acima. Mas depois, ao refletir sobre as questões que o filme aborda – além da óbvia crise econômica que a história transpira a todo momento -, ele passou a me convencer um pouco mais. Talvez o segredo dele seja este, de ir “convencendo” aos poucos.

Todos os atores estão bem em seus papéis. Convencem. Mas, francamente, não vejo um desempenho tão acima da média para que George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick sejam considerados fortes candidatos para o Globo de Ouro ou o Oscar em suas respectivas categorias. Dos três, talvez apenas Anna Kendrick realmente mereça uma indicação – ou mesmo ganhar.

Ainda que tenha uma boa carga dramática – especialmente nos “depoimentos” chorosos de quem perdeu seu emprego -, Up in the Air equilibra de forma precisa a balança com um humor inteligente. Um exemplo é o pedido da irmã mais nova de Ryan, prestes a se casar, para que seus convidados façam fotos dela e do noivo, Jim Miller (Danny McBride), em diferentes partes dos Estados Unidos, como “naquele filme francês” (o efeito “Amélie Poulain“). Só que no lugar de um duende, os convidados deveriam levar uma foto gigante do casal. Tudo isso porque Julie e Jim não tinham dinheiro para viajarem na lua de mel. hahahahahaha. Convenhamos que muito boa essa ironia. Sem contar que Kara, quando tenta explicar para Ryan as razões do pedido das fotos, nem cita o filme francês – o que apenas denota o desinteresse da maioria dos estadunidenses pelo cinema que é feito fora de suas fronteiras.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o trabalho de Jason Bateman como Craig Gregory, o executivo preocupado com a contenção de gastos de sua empresa diante da crise econômica. Craig contratou Ryan e é ele quem aprova as idéias revolucionárias de Natalie. Como o filme é centrado no personagem de George Clooney, os atores que ganham algum protagonismo circulam ao seu redor. Por isso craques como J.K. Simmons, Sam Elliott (como o capitão Finch), Zach Galifianakis, Steve Eastin, entre outros, aparecem nesta produção apenas em pontas – muitos deles como demissionários.

Tecnicamente, o filme funciona bem em todos os seus aspectos principais. A fotografia de Eric Steelberg é precisa, a trilha sonora de Rolfe Kent envolvente – e escolhida a dedo para cada momento da história; e a edição de Dana E. Glauberman, esta sim, é fundamental e faz a diferença.

Mais uma vez, como em tantas outras ocasiões, a tradução do título original para o mercado brasileiro foi infeliz. Certo que a distribuidora precisa trabalhar com um título que chame a atenção dos espectadores. Mas Amor Sem Escalas dá uma leitura romântica totalmente errada para o filme. Up in the Air não é um filme romântico e nem tem um ou mais histórias de amor. Pelo contrário. Ele trata sobre a falta de relacionamentos na vida de um homem que se dedica exclusivamente ao trabalho. A consequência disso é que muita gente pode ir aos cinemas com uma idéia para o filme e sair totalmente frustradas de lá.

Up in the Air está se saindo muito bem na questão de prêmios. Até o momento, levou 27 deles para casa – e foi indicado ainda a outros 38. Sem contar que foi a produção que mais recebeu indicações no Globo de Ouro – o que sempre é um chamariz de público. Em quase todas as partes o roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner saiu vencedor. Além dele, estão sendo bem premiados os trabalhos de George Clooney e, numa escala menor, o de Anna Kendrick. Importante comentar ainda que Up in the Air foi considerado o melhor filme do ano pela National Board of Review e nas premiações conferidas pelas associações de críticos de Southeastern, Kansas City, da Flórida e de Dallas-Fort Worth.

Na avaliação de público e crítica, contudo, o filme dirigido por Reitman não está se saindo tão bem quanto outros de seus concorrentes. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 8,2 para a produção. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 166 textos positivos e 22 negativos para Up in the Air – o que lhe garante uma aprovação de 88%. Avatar, dirigido por James Cameron, por exemplo, tem a nota 8,7 pela votação do IMDb, e The Hurt Locker, dirigido por Kathryn Bigelow, uma aprovação de 97% no Rotten Tomatoes.

Up in the Air estrou no dia 5 de setembro no desconhecido Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou ainda por outros 10 festivais, incluindo os de Toronto, Roma, Londres e Estocolmo. Até o momento, apenas nos Estados Unidos, o filme conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 44,3 milhões nas bilheterias. Conseguiu, com isso, se pagar – Up in the Air teria custado US$ 30 milhões. Se continuar embolsando prêmios, especialmente no Globo de Ouro e no Oscar, certamente terá sua bilheteria catapultada para as alturas.

Não deixa de ser curiosa a “ligação” que o público pode fazer entre o personagem de Ryan Bingham e seu intérprete, o ator George Clooney. Todos conhecem a “lenda” que circula sobre o intérprete, considerado um “bon vivant”, um homem que prefere trocar de namoradas e ter uma vida livre do que se casar e ter filhos. Esta ironia dá um “temperinho” a mais para o filme, sem dúvida.

Também merece um comentário o uso de cartões no filme. Ryan e Alex tem uma verdadeira coleção deles – e, como duas crianças, até brincam de compará-los, “medindo” suas capacidades de colecionistas. Além disso, Ryan tem como objetivo de vida conseguir um tipo de cartão prateado que poucas pessoas já conseguiram: aquele que é dado para quem atinge a inacreditável marca de 10 milhões de milhas percorridas pela American Airlines.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande ironia do filme é que Ryan consegue o seu “objetivo supremo” logo depois de ter passado pela maior decepção de sua vida (ou pelo menos de sua história recente). Como no caso de tantos sonhos “equivocados” que as pessoas alimentam por muito tempo – todos geralmente envolvendo ganhar ou gastar dinheiro -, Ryan simplesmente não sabe como reagir quando chega o “grande momento”. O que fazer depois de ter conseguido realizar o seu “grande sonho”? Ryan descobre que a única saída que lhe resta é continuar fazendo o mesmo – ainda que, na realidade, sempre é possível escolher uma outra direção. Mas ele, anulado por si mesmo, não vê outra saída. Up in the Air tem um final um pouco triste, um pouco cínico, ainda que termine falando de estrelas e inspiração.

No material de divulgação do filme, o roteirista Sheldon Turner comenta: “Na primeira vez que li o livro de Walter Kirn eu não podia tirar a Ryan Bingham da cabeça. Fiquei encantado com o seu trabalho, seu mundo único e o preço colateral que se paga por ter um emprego que consiste em despedir a pessoas. Como alguém pode espalhar as sementes da desgraça e conservar a sua alma? Ryan Bingham fala sobre a falta de conexão e o isolamento da nossa época. Todas essas coisas pensadas para nos unir e que apenas conseguiram nos separar”.

O diretor e roteirista Jason Reitman também comentou sobre o seu ponto-de-vista do material original: “Eu via esta como a história de um sujeito que tem que enfrentar o fato de que, mesmo acreditando que sua vida está plena, esteve ignorando algo muito importante, que é a responsabilidade de formar parte de algo que seja maior. A Ryan Bingham lhe assustam tanto as responsabilidades de formar parte de uma comunidade que ele não se deu conta do valor que isso tem. Creio que isto é algo que nossa sociedade está começando a experimentar agora. Todos utilizamos nossos celulares, o Twitter e as mensagens e parece que estamos mais conectados do que nunca, enquanto que, na realidade, as pessoas já não se olham muito nos olhos e temos menos relações de verdade. A vida de Ryan nos aeroportos é uma metáfora disso. Uma pessoa pode ir a qualquer aeroporto do mundo e saber em um instante onde encontrar tudo: tem os mesmos restaurantes, as mesmas lojas, os mesmos jornais. Nos sentimos confortáveis em todos os lugares, mas por outro lado nenhum lugar parece nossa casa. Estamos tão globalizados que perdemos este sentido de comunidade local”.

Segundo o material divulgado pelos produtores de Up in the Air, o livro de Walter Kirn serviu apenas como trampolim para o roteiro de Reitman. “O livro falava comigo em muitos níveis. Adoro a linguagem de Walter e o utilizei muito. Mas, na medida em que ia escrevendo (o roteiro), a minha própria vida mudou. Conheci a minha esposa, nos casamos e tivemos um filho. E durante esse processo, Ryan Bingham também começou a amadurecer e a desejar algo mais em sua vida. O roteiro cresceu e se concentrou nos imperativos que são os vínculos da nossa vida cotidiana”, comenta o diretor.

O livro de Walter Kirn, por sua vez, surgiu de um encontro do autor com um homem desconhecido em uma viagem que estava fazendo para Los Angeles. Ao sentar-se ao lado desse homem, Kirn lhe perguntou de onde ele era. “Ele me disse: ‘Ah, sou daqui mesmo, deste banco, para ser exato’. Quando lhe perguntei o que ele queria dizer com isso, ele me disse que antes tinha um apartamento mas que, como passava 300 dias por ano viajando, o havia trocado por um armazém e fez dos hotéis de longa permanência sua casa. Quando continuei lhe fazendo perguntas, ele me disse: ‘Sabe de uma coisa? Há muitos mais como eu por aí’. Enquanto falava com ele, me dei conta de que ele tinha se adaptado a um cenário mundial composto completamente por aeroportos, hotéis, cadeias de restaurantes, lojas de presentes e seções de grandes lojas. Mas também me dei conta do sozinho que ele devia se sentir”. Foi assim que nasceu o personagem de Ryan Bingham.

Pelo que pude captar das notas de produção de Up in the Air, Reitman acrescentou à história original de Bingham os novos personagens de Natalie e Alex. Quando seu roteiro estava na fase de conclusão, os Estados Unidos começaram a experimentar os efeitos reais da crise econômica. O diretor e roteirista aproveitou este momento para dar uma evidência ainda maior para a questão das demissões intermediadas pelo protagonista. Para explorar de forma ainda maior esta realidade, Reitman resolveu intercalar a intepretação de atores e reações reais de pessoas que haviam sido demitidas de seus empregos.

“Queríamos que as cenas das demissões fossem honestas e sinceras. Assim que pensamos: ‘Por que não mostrar a realidade?’ Fomos a Detroit e a St. Louis, duas das cidades mais castigadas por toda a destruição dos postos de trabalho no ano passado (2008), e colocamos anúncios na seção de emprego dos jornais dizendo que estávamos fazendo um filme sobre a perda de emprego e que buscávamos pessoas que quisessem falar sobre isso. Recebemos tantas respostas que foi desconcertante. As pessoas chegavam e lhes pedíamos que nos contassem o que disseram no dia em que foram demitidos, ou o que gostariam de ter dito. O que foi assombroso para mim, que sou alguém que trabalha constantemente com atores para obter realismo, foi a forma com que estas pessoas, que pensei que se sentiriam incômodas frente a uma câmera, resultavam tão honestas e autênticas. Agora esta é uma das minhas partes favoritas do filme”, comenta Reitman.

O diretor comenta que pensou em George Clooney para interpretar o protagonista desde o início e que, admite, escreveu o personagem de Natalie para Anna Kendrick. “Eu lhe havia visto em Rocket Science e pensei que ela era simplesmente incrível, diferente de todas as atrizes de sua idade. E quando ela veio fazer a prova para Up in the Air, demonstrou isso. Anna tem uma voz absolutamente única que a diferencia de sua geração”, comentou Reitman.

Uma curiosidade da produção é que Up in the Air foi filmado em cinco cidades diferentes mas, como revela Jason Reitman, o filme retrata 20 lugares distintos. Essa característica exigiu um trabalho preciso do diretor artístico Steve Saklad. As cidades pelas quais Ryan Bingham passa durante a história foram cuidadosamente escolhidas. Elas refletem, segundo Reitman, aquelas que foram vítimas dos maiores cortes de pessoal, das quebras de empresas e dos problemas vividos por distintas partes dos Estados Unidos antes do filme ser rodado. Incluem Detroit (sede da indústria automobilística), Phoenix (o escritório de uma seguradora sanitária), Saint Louis (uma linha de engarrafamento) e Wichita (empresas de seguros financeiros). As cidades de Saint Louis, Detroit, Omaha, Miami e Las Vegas serviram de sede para as filmagens – bairros de Saint Louis foram utilizados para reproduzir cenários de Chicago, por exemplo. Além disso, o filme contêm mais de 50 cenas rodadas em diversos aeroportos e aviões.

Um problema deste filme, para mim, é que ele segue um pouco a linha de “lamento” de que o “american way of life” saiu errado. Em outra palavras, Up in the Air fica um bocado limitado ao transferir, para o personagem de Ryan Bingham, todas as expectativas que o velho modelo de “a felicidade reside em um lar composto por pais e filhos” trazia. Digo isso porque, por exemplo, The Soloist também trata do mesmo problema de “falta de humanidade” e de laços afetivos no mundo atual. Trata, igualmente, da falta de capacidade das pessoas para olharem para alguém que esteja ao seu lado e tentar entender a sua história. Mas The Soloist não ganhou o apoio da crítica como Up in the Air. Certo que o texto de Reitman pode ser melhor que o de Susannah Grant, roteirista de The Soloist, mas pelo menos o filme de Joe Wright mostra que é possível estabelecer laços afetivos verdadeiros sem que as pessoas precisem, necessariamente, passar pela fórmula de “família feliz”. Algo para se pensar…

CONCLUSÃO: Um filme que simboliza o nosso tempo. Up in the Air, diferente do que seu título no mercado brasileiro pode sugerir, não é uma história romântica. Mais que nada, ele tem um roteiro filosófico e reflexivo sobre a era do individualismo, das constantes viagens de negócios e da alta tecnologia. Up in the Air trata sim da escolha de um modelo de vida e do abismo que separa, muitas vezes, nosso pensar e nosso agir. Pesado e leve em medidas diferentes, ele também reflete uma época muito marcante para o público dos Estados Unidos: o da crise econômica e de suas inevitáveis demissões. Com um roteiro bem escrito e atores convincentes, Up in the Air, contudo, sofre do mesmo problema que seu protagonista: tem dificuldades em conseguir uma conexão real com as pessoas. Ele deve atingir em cheio ao público norte-americano, ainda marcado pela crise econômica, mas dificilmente conseguirá o mesmo eco em outros mercados – como o dos brasileiros, por exemplo. Não deixa de ser um bom filme, que inclusive serve de reflexão sobre uma era, ainda que ele sofra por tentar repetir a fórmula do “american way of life” – no qual formar uma família parece ser a única via possível para a felicidade. Apesar de suas qualidades, Up in the Air está distante de integrar a lista de filmes do “grande cinema”.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por tudo que eu comentei antes, especialmente sobre as chagas ainda abertas da crise econômica nos Estados Unidos, Up in the Air deve repetir no Oscar o desempenho de indicações que teve no Globo de Ouro. Provavelmente a última produção de Jason Reitman será indicada nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e, possivelmente, melhor edição e, talvez, melhor edição de som. Contem aí pelo menos sete indicações ao Oscar – ou mais.

Vale lembrar que Up in the Air conseguiu ser indicado em seis categorias no Globo de Ouro (neste texto do blog eu comentei sobre as indicações). No Oscar ele tem chances reais de ganhar em várias categorias – tudo vai depender do humor de quem vota na premiação. Se eles olharem para o “mercado interno”, ou seja, para a realidade dos estadunidenses, não seria uma total surpresa que Up in the Air saisse vencedor nas categorias principais – incluindo melhor filme, roteiro adaptado e ator. Mas se os votantes olharem “para o quadro como um todo”, pensando em todos os filmes sem olhar tanto para o próprio umbigo, Up in the Air terá chances apenas nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor ator e melhor atriz coadjuvante.

Pessoalmente, acho os roteiros de District 9 e The Hurt Locker mais criativos que o de Up in the Air. Agora, sem dúvida, é um grande trabalho de Jason Reitman e Sheldon Turner que, se sair premiado no Oscar, não será uma injustiça completa. Como melhor filme, apenas analisando as produções que assisti até o momento, prefiro Precious ou The Hurt Locker do que Up in the Air. Melhor diretor, Kathryn Bigelow, Clint Eastwood ou Quentin Tarantino. Melhor ator, até o momento, Morgan Freeman – ainda que eu ache que Jeff Bridges deve estar estupendo em Crazy Heart. Atriz coadjuvante, está mais difícil… Anna Kendrick merece o prêmio, mas tenho Mo’nique quase como favorita. Agora é esperar para ver como Up in the Air se sairá no Globo de Ouro.