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Baarìa – Baarìa A Porta do Vento

Um repasse na história de uma região na Itália e, através dela, do próprio país. Três gerações de uma família siciliana mergulham nos sonhos e memórias do diretor Giuseppe Tornatore, um dos  nomes mais respeitados e com produção autoral do cinema italiano. Baarìa mescla, desta forma, a graça e a tragédia italiana em doses bem medidas, cadenciadas, em um filme envolvente que cansa, apenas, por uma ou outra falha técnica – e pela preocupação, um tanto exagerada, do diretor e roteirista em equilibrar o drama e o riso para agradar ao grande público. Em uma produção cuidadosa e cara, Tornatore trata de tradições, costumes, política, romance e poesia. Por tudo isso, Baarìa se mostra  uma bela peça de cinema que busca a fonte da identidade italiana. Um deleite, ainda que precise de certa boa vontade e, preferencialmente, um pouco de conhecimento sobre os temas abordados.

A HISTÓRIA: Um menino joga um peão desafiador. Mas logo sua brincadeira é interrompida. Em uma mesa cheia de velhos da cidade, um homem chama o garoto para lhe fazer um desafio. Se ele correr rápido o suficiente para comprar uns cigarros, antes que um cuspe seque no chão, ele ganhará uma boa quantidade em dinheiro. O menino, Pietro (Giuseppe Garufi), sai voando dali e, como em um sonho, mergulhamos em sua vida e a de seus descendentes. Com eles, vemos as mudanças que ocorreram no vilarejo de Baarìa durante quase um século. De uma introdução sonhadora, logo passamos a acompanhar a história de Peppino Torrenueva (Giovanni Gambino na infância), filho de Pietro e protagonista da história. Garoto sonhador que trilha o caminho idealista do Partido Comunista como resposta ao fascismo e na busca de uma sociedade menos desigual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Baarìa): Para assistir a este filme, é recomendado que o espectador esteja familiarizado ao jeito “Tornatore” de contar histórias. O autor do elogiado – e inesquecível – Cinema Paradiso tentou, com Baarìa, produzir uma “obra-prima” sobre a vida na Sicília e, através dela, da própria Itália. Ele consegue o seu intento em partes. Agrada ao revelar costumes, crenças e parte da história do país que nos é tão familiar e estranho – vide a grande quantidade de novelas produzidas no Brasil e inspiradas nos imigrantes italianos e seus antepassados. Mas incomoda ao revelar um esforço exagerado por equilibrar drama e comédia, com especial atenção para a segunda. Boa parte do filme também foi “dublada” posteriormente pelos atores, um problema técnico que, se tivesse sido melhor dissimulado, talvez não incomodasse tanto.

Como em filmes anteriores do diretor, Baarìa trilha um caminho de “realismo fantástico”, nos melhores moldes – ainda que um pouco diferente – do mestre Federico Fellini. Como o autor de 8 1/2, La Strada, Amarcord, La Dolce Vita, entre outros clássicos, Tornatore mescla sua história pessoal com a de personagens criados livremente para contar uma determinada história. Baarìa, assim, resgata parte da vida do diretor, assim como algumas das pessoas que ele conheceu em sua trajetória, ao mesmo tempo que abre as janelas da imaginação para explorar os sonhos e desejos desta gente. Por um lado, conhecemos dramas quase palpáveis, com destaque para as questões da pobreza, da ascensão social, da política e da repressão que marcaram boa parte da trajetória siciliana. Por outro, o diretor e roteirista aproveita o humor para divagar livremente sobre costumes de seu povo, explorando aspectos como família, casamentos arranjados, mudanças culturais e religião.

Por tudo que foi comentado no parágrafo anterior, Baarìa serve como um interessante mosaico de histórias e um cartão de visitas sobre as característica de um povo que ajudou a formar o nosso país. Ainda que a parte “onírica” do filme não incomode, porque ela incentiva o espectador a repensar o que é mais fantástica, a realidade ou o sonho, a preocupação de Tornatore em “bater com uma mão e adular com a outra” cansa um bocado. Durante toda a produção, o diretor parece esforçar-se para fazer as pessoas rirem antes e após algum trecho dramático. É como se apenas o riso pudesse curar as feridas – e ainda que a capacidade de rir seja fundamental, falta espaço nesta produção para que o espectador possa pensar sobre o drama, sobre os conflitos e as situações não resolvidas que são mostradas pela história.

Alguns críticos afirmaram que este épico acaba se mostrando um bocado vazio pelo fato de mostrar com muita “ligeireza” questões densas da realidade italiana, como o fascismo, as perseguições políticas, entre outros temas. Não diria que Tornatore foi leviano com estes assuntos, até porque seu filme não precisava ser nenhum libelo a isto ou aquilo. De fato, acho até que ele trata com bastante atenção estes aspectos, deixando claro, no final, que apesar de tudo, as pessoas não perderam a capacidade de se sentirem maravilhadas com o simples e/ou a capacidade de sonhar. E isto é belo, por si mesmo. O problema, volto a dizer, foi o exagero do diretor em querer fazer comédia. Porque ainda que os italianos tentem equilibrar, cotidianamente, os conflitos e os dramas com a sua própria capacidade de rir, nem sempre um equilíbrio perfeito em uma produção que pretende ser um clássico parece ser a melhor aposta.

Tempos difíceis são retratados pela produção. Algo positivo, claro, ainda que o roteiro de Tornatore careça de um pouco mais de “contextualização” sobre o que é mostrado nas telas. Claro que os italianos – ou grande parte deles, os mais velhos, pelo menos – sabem de cada nuance da história, como o significado da ironia a Mussolini feita por um cantor no trecho inicial da produção. Vale lembrar que Benito Mussolini começou a sua carreira como um expoente do Partido Socialista, passando a configurar-se um líder fascista após 1919. Por ser visto como um líder anticomunista, ele foi inicialmente aclamado por países como França e Inglaterra, mas seus posteriores fracassos militares expansionistas e seu ato de colocar a Itália na guerra ao lado da Alemanha provocaram uma onda de repúdio a Mussolini na Itália. Algo mostrado de forma muito “ligeira” em Baarìa (quem quiser mais informações sobre o ditador, sugiro este resumo para começar).

Outro tema espinhoso retratado pela produção de forma tímida é o da máfia siciliana. Don Carlo aparece como um homem poderoso, respeitado e temido desde o tempo de Mussolini, mas a participação da máfia no cotidiano dos italianos acaba não sendo bem explorada na produção. Uma forma, talvez, do diretor não mexer em um vespeiro do qual ele talvez tenha receio de tocar – algum parente distante poderia ter ligação com eles, por exemplo? Fica apenas sugerida, por exemplo, a ligação entre mafiosos e o regime fascista que dominou o país por um longo tempo. Quando o país estava em guerra, por exemplo, figuras como Don Mariano dominavam a produção e o cenário do trabalho – dominado por mulheres, já que os homem havia sido enviados para o campo de batalha -, tornando-se ainda mais poderosos com a nova situação vivida pelo país. Mas o mafioso mais presente na história e que, claramente, explora os mais fracos, é Don Giacinto (Lollo Franco), um homem que obriga a outros, pela força, a se desfazerem de seus terrenos e bens. Em certo momento, Baarìa deixa a entender que os sonhos da reforma agrária e de outras mudanças estruturais foram impedidos por Don Corleone e os demais mafiosos, mas estas questões acabam sendo deixadas no ar.

Algo importante nesta produção e que a coloca um pouco acima da média é que Baarìa se preocupa em registrar costumes e “lendas” do interior da Itália. Desde a realidade rural e a história das três pedras que esconderiam ouro sob o solo, até as “artimanhas” dos comunistas para conseguir sobreviver em um país dividido e no qual eles eram vistos como “comedores de criancinhas” – como em tantas outras partes, diga-se -, o costume de pensar que ovos quebrados eram sinal de mal agouro para as mulheres grávidas ou a tradição festiva das celebrações em homenagem a São José. Todos estes elementos, juntos, tornam a produção um bocado saborosa – e um grande painel da vida de parte dos italianos durante o tempo.

Interessante também como o filme acaba contando uma grande história de amor – que, junto com a comédia e o drama, embala grande parte da história. Assim, por um lado, o espectador acompanha a trajetória da família Torrenueva, desde o personagem do patriarca Ciccio (o ótimo Gaetano Aronica, quando adulto, e Alfio Sorbello quando criança) e, com um pouco menos de destaque, a da matriarca Tana (Lina Sastri, que ainda interpretaria a “cigana” adivinha, Beggard), que foi demitida da fábrica do mafioso por estar doente. Em seu lugar, a mulher tentou empregar a filha, Sarina (a sempre ótima Ángela Molina) que, posteriormente, daria a luz Mannina (Margareth Madè), uma bela “ragazza” que deixaria Peppino perdidamente apaixonado. A sintonia entre os atores Francesco Scianna (que interpreta a Peppino adulto) e Margareth Madè, aliás, é o que acaba convencendo no filme em uma parte em que as atenções poderiam começar a se dispersar.

Mesmo não sendo o seu objetivo principal, Baarìa reflete sobre os sonhos de um país mais igualitário alimentados pelo Partido Comunista, no qual Peppino se filia ainda muito jovem, e o que resultou daqueles ideais. Não deixa de ser contundente a forma com que o diretor mostra jovens de cidades urbanas questionando “corajosos” como Peppino sem, contudo, apresentarem soluções melhores para as velhas questões em debate. Não escapa do diretor as imagens de pessoas que seguem migrando, saindo de perto de suas famílias e de seus locais de origem, para tentarem uma vida melhor – algo que se repete com o passar do tempo, independente das guerras, das mudanças sociais ou urbanas.

Baarìa tem espaço, ainda, para mostrar a mudança que levou a sociedade italiana a decidir pela República, ao invés de seguir com a figura de um Rei – com especial atenção para as mudanças de costumes que esta escolha trouxe. Ainda que o “sonho de socialismo” proposto no baile em que os protagonistas dançaram pela primeira vez juntos, nunca tenha realmente se concretizado. A divisão entre comunistas e socialistas também é mostrada pela produção – tornando a questão “mais próxima” ao retratar os lados opostos assumidos pelos amigos Peppino Torrenueva e Onofrio Pace (Fabrizio Romano). Depois, a produção ainda explora as fortes repressões do governo aos manifestantes, o que colocava vizinhos de porta de lado opostos, apesar deles terem o mesmo desejo para que a realidade se tornasse melhor.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A paixão do diretor pelo cinema, mais uma vez, ganha certo protagonismo neste filme. Cenas envolvendo a 7ª Arte aparecem em vários momentos de Baarìa, com evidente destaque para a sequência em que o Pietro (Giuseppe Garufi quando garoto), filho do protagonista, coleciona fotogramas de filmes como quem, no Brasil, colecionava (ou ainda colecionam?) figurinhas de jogadores durante a Copa do Mundo de futebol. Assistindo a um filme de Fred Astaire, também, Peppino tem a ideia de como tornar o seu amor pela protagonista uma realidade – mesmo contra o desejo dos pais da garota. Há espaço ainda para mostrar as filmagens de uma produção em Baarìa – em uma referência a Mafioso, produção de 1962 dirigida por Alberto Lattuada (interpretado por Enrico Salimbeni) – e a citação de Fellini em uma carta de Peppino para a esposa e os filhos.

Referências a diferentes formas de arte, além do cinema, transbordam neste filme. Dos livros de Shakespeare (Romeu e Julieta) e Alessandro Manzoni (Gli Sposi Promessi) mostrados pelo pai de Peppino no trecho inicial da produção, até o artista Renato Guttuso (Corrado Fortuna) que observa pessoas comuns nas ruas para, depois, retratá-las no teto de uma capela – algo muito comum na história da arte italiana. Guttoso foi, aliás, um dos principais pintores expressionistas originários de Bagheria, como era chamada, originalmente, Baarìa. Mais informações sobre ele neste e neste link.

Merece um destaque especial a marcha dos comunistas pelas ruas de Baarìa quando do massacre de Piano della Ginestra, ocorrido no Dia do Trabalho em 1947. Segundo este texto da Wikipedia, este episódio foi considerado um dos mais violentos da história política moderna italiana – no qual 11 pessoas foram mortas e outras 33 feridas pelo grupo liderado pelo separatista Salvatore Giuliano. Pena que este episódio, como tantos outros citados pelo filme, acabe se perdendo no meio de outros fatos – talvez apenas os italianos bem informados consigam acompanhar estes e outros detalhes que não tem explicação no roteiro de Tornatore.

Além de dirigir a produção, Tornatore é responsável pela história e pelo roteiro de Baarìa. Nestes quesitos, sem dúvida, a condução do autor da história se destaca mais do que as linhas escritas por ele para o roteiro. Um pouco menos de preocupação de Tornatore para “agradar” a gregos e troianos teria sido mais interessante para a produção.

Na parte técnica, Baarìa se destaca pelo excelente trabalho do diretor de fotografia Enrico Lucidi, que prima pela luminosidade e pelo uso de cores terrosas e vibrantes, deixando o espectador com uma sensação permanente de dúvida entre o realismo, “o antigo” (pelo tom sépia) e o sonho. Bacana, ainda que um pouco exagerada, em alguns momentos, a trilha sonora do veterano Ennio Morricone – em certos trechos a escolha por imagens, linhas de roteiro e música extremamente sentimentalistas chega a cansar. Da equipe que cercou Tornatore, contudo, aplausos especiais para o diretor de arte Maurizio di Clemente que, ao lado de Cosimo Gomez e Maurizio Sabatini, fez um trabalho excepcional de reconstrução permanente da cidade de Baarìa, desde que ela era um povoado até que se tornou uma de tantas cidades urbanas da Sicília. Merece menção ainda o figurino de Luigi Bonanno e a enorme equipe de efeitos visuais comandada por Patrizio Lamura, Dirk Meister, Luca Gabriele Rossetti, Gianni Silvestri e Davide Tubaro.

Houve um burburinho sobre a participação da estonteante Monica Bellucci neste novo filme de Tornatore. Mas que ninguém se engane: uma das principais atrizes do cinema italiano faz uma micro ponta, de poucos segundos, uma aparição tão rápida como uma mulher sendo devorada por um pedreiro que, se o espectador descuidar, passa batida.

Baarìa estreou em setembro de 2009 no Festival de Veneza. Depois, o filme passou pelos festivais de Toronto, Tokyo e Palm Springs – só para citar os principais. Nesta sua trajetória, a produção conseguiu apenas um prêmio: o Pasinetti entregue no Festival de Veneza. Indicado ao Leão de Ouro, no mesmo festival, ele acabou sendo vencido por Lebanon. Este ano, Baarìa foi indicado ainda ao Globo de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro, mas não levou o prêmio – em seu lugar, venceu Das Weisse Band – sem dúvida, melhor. Baarìa foi escolhido, ainda, como o representante da Itália no Oscar 2010 – mas não chegou a figurar na lista dos finalistas.

Por se tratar de uma superprodução, Baarìa custou uma pequena fortuna: 28 milhões de euros. Aparentemente, o filme deu prejuízo, porque na Itália – seu mercado mais forte – ele conseguiu arrecadar pouco mais de 10,5 milhões de euros. Para conhecimento: o filme de Tornatore é uma co-produção da Itália com a França.

Segundo os produtores, mais de 35 mil figurantes foram utilizados para as filmagens. Outro gasto considerável da produção foi a reconstrução do centro de Baarìa em um set na Tunísia.

Os usuários do site IMDb deram uma nota razoável para a produção: 6,8. Poucos críticos falaram do filme, até o momento. O site Rotten Tomatoes, por exemplo, divulga apenas nove links para críticas sobre a produção – sendo cinco delas positivas, quatro negativas (o que garante para Baarìa uma aprovação de apenas 56%). Ainda que eu tenha gostado da produção pelas curiosidades que ela apresenta a respeito do povo e da história de parte da Itália, admito que as notas baixas não são, de todo, desmedidas.

Segundo este texto publicado na época do Festival de Veneza, a crítica que compareceu ao festival recebeu Baarìa c0m frieza. O polêmico (para dizer o mínimo) Silvio Berlusconi, por sua vez, elogiou a produção e recomendou que as pessoas a assistissem – o que, convenhamos, para mim é mais uma antipropaganda do que um chamariz. Agora, seu elogio tem uma boa razão para existir: Baarìa foi financiado por uma produtora que pertence a sua família. Por outro lado, figuras como Roberto Silvestri, do jornal comunista Il Manifesto, classificaram o filme como “decorativo, sem nada de substância”. A verdade é que Baarìa se mostrou um tanto vazio exatamente por tentar ficar encima do muro, sem defender ou atacar diretamente a uma ou outra corrente política.

Na coletiva que sucedeu a apresentação do filme, Tornatore comentou o que procurava com esta produção: “Espero que (ela) sirva para refletir sobre o presente, sobre o reformismo, já que é preciso aceitar a convivência com pessoas que pensam de modo diferente. É necessário fazer despertar as paixões pelos direitos civis e morais, algo que foi perdido”. Pena que seu filme não chegue a conseguir uma reflexão tão profunda, ou mesmo desperte paixões tão nobres. É, mais bem, um passatempo interessante sobre parte da vida na Itália do século passado. O diretor reafirmou, ainda, naquela ocasião, que Baarìa é uma “alegoria que”, ele esperava, pudesse “ser aplicada em outros países, em todo o mundo”. Discordo dele. Para mim, apesar de ter uma certa carga de alegoria, o filme é bastante localizado e datado – dificilmente será identificado por outro povo ou realidade.

CONCLUSÃO: Filme mais recente do premiado diretor italiano Giuseppe Tornatore, Baarìa é um épico que procura remontar a história de uma região da Itália por aproximadamente 60 anos. Com uma certa carga autobiográfica de seu realizador, esta produção peca, contudo, por um esforço exagerado para equilibrar o drama e o riso, esvaziando questões importantes e caindo em soluções fáceis para questões espinhosas. Financiado pela família Berlusconi e dirigido por um ex-militante do Partido Comunista, Baarìa fica no meio do caminho entre a exposição dos fatos e a vontade de suavizar parte dos acontecimentos para tornar a história mais fácil de ser “degustada” pelo grande público. Para os que gostam de produções que repassam boa parte da história de uma região e/ou de um país, Baarìa se mostra uma produção interessante – ainda que exija paciência em alguns momentos. A história de amor e conquista dos protagonista dá um certo colorido e charme para uma produção que algumas vezes se perde na tentativa de equilibrar realismo com fantasia/sonhos. Apesar de algumas falhas técnicas, como a captação de som – que depois exigiu a dublagem dos atores para suas falas – e do desperdício de uma história que poderia ser muito mais impactante, Baarìa vale pelo trabalho competente de Tornatore em dirigir os seus atores, milhares de figurantes e, especialmente, em sua preocupação em recriar sua cidade natal Bagheria (ou Baarìa) para, com ela, contar boa parte da história, dos costumes e da vida do povo italiano. Não é o melhor filme do diretor e muito menos a melhor produção italiana dos últimos anos, mas vale uma conferida.

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Baarìa – Baaria A Porta do Vento

Um repasse na história de uma região na Itália e, através dela, do próprio país. Três gerações de uma família siciliana mergulham nos sonhos e memórias do diretor Giuseppe Tornatore, um dos  nomes mais respeitados e com produção autoral do cinema italiano. Baarìa mescla, desta forma, a graça e a tragédia italiana em doses bem medidas, cadenciadas, em um filme envolvente que cansa, apenas, por uma ou outra falha técnica – e pela preocupação, um tanto exagerada, do diretor e roteirista em equilibrar o drama e o riso para agradar ao grande público. Em uma produção cuidadosa e cara, Tornatore trata de tradições, costumes, política, romance e poesia. Por tudo isso, Baarìa se mostra  uma bela peça de cinema que busca a fonte da identidade italiana. Um deleite, ainda que precise de certa boa vontade e, preferencialmente, um pouco de conhecimento sobre os temas abordados.

A HISTÓRIA: Um menino joga um peão desafiador. Mas logo sua brincadeira é interrompida. Em uma mesa cheia de velhos da cidade, um homem chama o garoto para lhe fazer um desafio. Se ele correr rápido o suficiente para comprar uns cigarros, antes que um cuspe seque no chão, ele ganhará uma boa quantidade em dinheiro. O menino, Pietro (Giuseppe Garufi), sai voando dali e, como em um sonho, mergulhamos em sua vida e a de seus descendentes. Com eles, vemos as mudanças que ocorreram no vilarejo de Baarìa durante quase um século. De uma introdução sonhadora, logo passamos a acompanhar a história de Peppino Torrenueva (Giovanni Gambino na infância), filho de Pietro e protagonista da história. Garoto sonhador que trilha o caminho idealista do Partido Comunista como resposta ao fascismo e na busca de uma sociedade menos desigual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Baarìa): Para assistir a este filme, é recomendado que o espectador esteja familiarizado ao jeito “Tornatore” de contar histórias. O autor do elogiado – e inesquecível – Cinema Paradiso tentou, com Baarìa, produzir uma “obra-prima” sobre a vida na Sicília e, através dela, da própria Itália. Ele consegue o seu intento em partes. Agrada ao revelar costumes, crenças e parte da história do país que nos é tão familiar e estranho – vide a grande quantidade de novelas produzidas no Brasil e inspiradas nos imigrantes italianos e seus antepassados. Mas incomoda ao revelar um esforço exagerado por equilibrar drama e comédia, com especial atenção para a segunda. Boa parte do filme também foi “dublada” posteriormente pelos atores, um problema técnico que, se tivesse sido melhor dissimulado, talvez não incomodasse tanto.

Como em filmes anteriores do diretor, Baarìa trilha um caminho de “realismo fantástico”, nos melhores moldes – ainda que um pouco diferente – do mestre Federico Fellini. Como o autor de 8 1/2, La Strada, Amarcord, La Dolce Vita, entre outros clássicos, Tornatore mescla sua história pessoal com a de personagens criados livremente para contar uma determinada história. Baarìa, assim, resgata parte da vida do diretor, assim como algumas das pessoas que ele conheceu em sua trajetória, ao mesmo tempo que abre as janelas da imaginação para explorar os sonhos e desejos desta gente. Por um lado, conhecemos dramas quase palpáveis, com destaque para as questões da pobreza, da ascensão social, da política e da repressão que marcaram boa parte da trajetória siciliana. Por outro, o diretor e roteirista aproveita o humor para divagar livremente sobre costumes de seu povo, explorando aspectos como família, casamentos arranjados, mudanças culturais e religião.

Por tudo que foi comentado no parágrafo anterior, Baarìa serve como um interessante mosaico de histórias e um cartão de visitas sobre as característica de um povo que ajudou a formar o nosso país. Ainda que a parte “onírica” do filme não incomode, porque ela incentiva o espectador a repensar o que é mais fantástica, a realidade ou o sonho, a preocupação de Tornatore em “bater com uma mão e adular com a outra” cansa um bocado. Durante toda a produção, o diretor parece esforçar-se para fazer as pessoas rirem antes e após algum trecho dramático. É como se apenas o riso pudesse curar as feridas – e ainda que a capacidade de rir seja fundamental, falta espaço nesta produção para que o espectador possa pensar sobre o drama, sobre os conflitos e as situações não resolvidas que são mostradas pela história.

Alguns críticos afirmaram que este épico acaba se mostrando um bocado vazio pelo fato de mostrar com muita “ligeireza” questões densas da realidade italiana, como o fascismo, as perseguições políticas, entre outros temas. Não diria que Tornatore foi leviano com estes assuntos, até porque seu filme não precisava ser nenhum libelo a isto ou aquilo. De fato, acho até que ele trata com bastante atenção estes aspectos, deixando claro, no final, que apesar de tudo, as pessoas não perderam a capacidade de se sentirem maravilhadas com o simples e/ou a capacidade de sonhar. E isto é belo, por si mesmo. O problema, volto a dizer, foi o exagero do diretor em querer fazer comédia. Porque ainda que os italianos tentem equilibrar, cotidianamente, os conflitos e os dramas com a sua própria capacidade de rir, nem sempre um equilíbrio perfeito em uma produção que pretende ser um clássico parece ser a melhor aposta.

Tempos difíceis são retratados pela produção. Algo positivo, claro, ainda que o roteiro de Tornatore careça de um pouco mais de “contextualização” sobre o que é mostrado nas telas. Claro que os italianos – ou grande parte deles, os mais velhos, pelo menos – sabem de cada nuance da história, como o significado da ironia a Mussolini feita por um cantor no trecho inicial da produção. Vale lembrar que Benito Mussolini começou a sua carreira como um expoente do Partido Socialista, passando a configurar-se um líder fascista após 1919. Por ser visto como um líder anticomunista, ele foi inicialmente aclamado por países como França e Inglaterra, mas seus posteriores fracassos militares expansionistas e seu ato de colocar a Itália na guerra ao lado da Alemanha provocaram uma onda de repúdio a Mussolini na Itália. Algo mostrado de forma muito “ligeira” em Baarìa (quem quiser mais informações sobre o ditador, sugiro este resumo para começar).

Outro tema espinhoso retratado pela produção de forma tímida é o da máfia siciliana. Don Carlo aparece como um homem poderoso, respeitado e temido desde o tempo de Mussolini, mas a participação da máfia no cotidiano dos italianos acaba não sendo bem explorada na produção. Uma forma, talvez, do diretor não mexer em um vespeiro do qual ele talvez tenha receio de tocar – algum parente distante poderia ter ligação com eles, por exemplo? Fica apenas sugerida, por exemplo, a ligação entre mafiosos e o regime fascista que dominou o país por um longo tempo. Quando o país estava em guerra, por exemplo, figuras como Don Mariano dominavam a produção e o cenário do trabalho – dominado por mulheres, já que os homem havia sido enviados para o campo de batalha -, tornando-se ainda mais poderosos com a nova situação vivida pelo país. Mas o mafioso mais presente na história e que, claramente, explora os mais fracos, é Don Giacinto (Lollo Franco), um homem que obriga a outros, pela força, a se desfazerem de seus terrenos e bens. Em certo momento, Baarìa deixa a entender que os sonhos da reforma agrária e de outras mudanças estruturais foram impedidos por Don Corleone e os demais mafiosos, mas estas questões acabam sendo deixadas no ar.

Algo importante nesta produção e que a coloca um pouco acima da média é que Baarìa se preocupa em registrar costumes e “lendas” do interior da Itália. Desde a realidade rural e a história das três pedras que esconderiam ouro sob o solo, até as “artimanhas” dos comunistas para conseguir sobreviver em um país dividido e no qual eles eram vistos como “comedores de criancinhas” – como em tantas outras partes, diga-se -, o costume de pensar que ovos quebrados eram sinal de mal agouro para as mulheres grávidas ou a tradição festiva das celebrações em homenagem a São José. Todos estes elementos, juntos, tornam a produção um bocado saborosa – e um grande painel da vida de parte dos italianos durante o tempo.

Interessante também como o filme acaba contando uma grande história de amor – que, junto com a comédia e o drama, embala grande parte da história. Assim, por um lado, o espectador acompanha a trajetória da família Torrenueva, desde o personagem do patriarca Ciccio (o ótimo Gaetano Aronica, quando adulto, e Alfio Sorbello quando criança) e, com um pouco menos de destaque, a da matriarca Tana (Lina Sastri, que ainda interpretaria a “cigana” adivinha, Beggard), que foi demitida da fábrica do mafioso por estar doente. Em seu lugar, a mulher tentou empregar a filha, Sarina (a sempre ótima Ángela Molina) que, posteriormente, daria a luz Mannina (Margareth Madè), uma bela “ragazza” que deixaria Peppino perdidamente apaixonado. A sintonia entre os atores Francesco Scianna (que interpreta a Peppino adulto) e Margareth Madè, aliás, é o que acaba convencendo no filme em uma parte em que as atenções poderiam começar a se dispersar.

Mesmo não sendo o seu objetivo principal, Baarìa reflete sobre os sonhos de um país mais igualitário alimentados pelo Partido Comunista, no qual Peppino se filia ainda muito jovem, e o que resultou daqueles ideais. Não deixa de ser contundente a forma com que o diretor mostra jovens de cidades urbanas questionando “corajosos” como Peppino sem, contudo, apresentarem soluções melhores para as velhas questões em debate. Não escapa do diretor as imagens de pessoas que seguem migrando, saindo de perto de suas famílias e de seus locais de origem, para tentarem uma vida melhor – algo que se repete com o passar do tempo, independente das guerras, das mudanças sociais ou urbanas.

Baarìa tem espaço, ainda, para mostrar a mudança que levou a sociedade italiana a decidir pela República, ao invés de seguir com a figura de um Rei – com especial atenção para as mudanças de costumes que esta escolha trouxe. Ainda que o “sonho de socialismo” proposto no baile em que os protagonistas dançaram pela primeira vez juntos, nunca tenha realmente se concretizado. A divisão entre comunistas e socialistas também é mostrada pela produção – tornando a questão “mais próxima” ao retratar os lados opostos assumidos pelos amigos Peppino Torrenueva e Onofrio Pace (Fabrizio Romano). Depois, a produção ainda explora as fortes repressões do governo aos manifestantes, o que colocava vizinhos de porta de lado opostos, apesar deles terem o mesmo desejo para que a realidade se tornasse melhor.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A paixão do diretor pelo cinema, mais uma vez, ganha certo protagonismo neste filme. Cenas envolvendo a 7ª Arte aparecem em vários momentos de Baarìa, com evidente destaque para a sequência em que o Pietro (Giuseppe Garufi quando garoto), filho do protagonista, coleciona fotogramas de filmes como quem, no Brasil, colecionava (ou ainda colecionam?) figurinhas de jogadores durante a Copa do Mundo de futebol. Assistindo a um filme de Fred Astaire, também, Peppino tem a ideia de como tornar o seu amor pela protagonista uma realidade – mesmo contra o desejo dos pais da garota. Há espaço ainda para mostrar as filmagens de uma produção em Baarìa – em uma referência a Mafioso, produção de 1962 dirigida por Alberto Lattuada (interpretado por Enrico Salimbeni) – e a citação de Fellini em uma carta de Peppino para a esposa e os filhos.

Referências a diferentes formas de arte, além do cinema, transbordam neste filme. Dos livros de Shakespeare (Romeu e Julieta) e Alessandro Manzoni (Gli Sposi Promessi) mostrados pelo pai de Peppino no trecho inicial da produção, até o artista Renato Guttuso (Corrado Fortuna) que observa pessoas comuns nas ruas para, depois, retratá-las no teto de uma capela – algo muito comum na história da arte italiana. Guttoso foi, aliás, um dos principais pintores expressionistas originários de Bagheria, como era chamada, originalmente, Baarìa. Mais informações sobre ele neste e neste link.

Merece um destaque especial a marcha dos comunistas pelas ruas de Baarìa quando do massacre de Piano della Ginestra, ocorrido no Dia do Trabalho em 1947. Segundo este texto da Wikipedia, este episódio foi considerado um dos mais violentos da história política moderna italiana – no qual 11 pessoas foram mortas e outras 33 feridas pelo grupo liderado pelo separatista Salvatore Giuliano. Pena que este episódio, como tantos outros citados pelo filme, acabe se perdendo no meio de outros fatos – talvez apenas os italianos bem informados consigam acompanhar estes e outros detalhes que não tem explicação no roteiro de Tornatore.

Além de dirigir a produção, Tornatore é responsável pela história e pelo roteiro de Baarìa. Nestes quesitos, sem dúvida, a condução do autor da história se destaca mais do que as linhas escritas por ele para o roteiro. Um pouco menos de preocupação de Tornatore para “agradar” a gregos e troianos teria sido mais interessante para a produção.

Na parte técnica, Baarìa se destaca pelo excelente trabalho do diretor de fotografia Enrico Lucidi, que prima pela luminosidade e pelo uso de cores terrosas e vibrantes, deixando o espectador com uma sensação permanente de dúvida entre o realismo, “o antigo” (pelo tom sépia) e o sonho. Bacana, ainda que um pouco exagerada, em alguns momentos, a trilha sonora do veterano Ennio Morricone – em certos trechos a escolha por imagens, linhas de roteiro e música extremamente sentimentalistas chega a cansar. Da equipe que cercou Tornatore, contudo, aplausos especiais para o diretor de arte Maurizio di Clemente que, ao lado de Cosimo Gomez e Maurizio Sabatini, fez um trabalho excepcional de reconstrução permanente da cidade de Baarìa, desde que ela era um povoado até que se tornou uma de tantas cidades urbanas da Sicília. Merece menção ainda o figurino de Luigi Bonanno e a enorme equipe de efeitos visuais comandada por Patrizio Lamura, Dirk Meister, Luca Gabriele Rossetti, Gianni Silvestri e Davide Tubaro.

Houve um burburinho sobre a participação da estonteante Monica Bellucci neste novo filme de Tornatore. Mas que ninguém se engane: uma das principais atrizes do cinema italiano faz uma micro ponta, de poucos segundos, uma aparição tão rápida como uma mulher sendo devorada por um pedreiro que, se o espectador descuidar, passa batida.

Baarìa estreou em setembro de 2009 no Festival de Veneza. Depois, o filme passou pelos festivais de Toronto, Tokyo e Palm Springs – só para citar os principais. Nesta sua trajetória, a produção conseguiu apenas um prêmio: o Pasinetti entregue no Festival de Veneza. Indicado ao Leão de Ouro, no mesmo festival, ele acabou sendo vencido por Lebanon. Este ano, Baarìa foi indicado ainda ao Globo de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro, mas não levou o prêmio – em seu lugar, venceu Das Weisse Band – sem dúvida, melhor. Baarìa foi escolhido, ainda, como o representante da Itália no Oscar 2010 – mas não chegou a figurar na lista dos finalistas.

Por se tratar de uma superprodução, Baarìa custou uma pequena fortuna: 28 milhões de euros. Aparentemente, o filme deu prejuízo, porque na Itália – seu mercado mais forte – ele conseguiu arrecadar pouco mais de 10,5 milhões de euros. Para conhecimento: o filme de Tornatore é uma co-produção da Itália com a França.

Segundo os produtores, mais de 35 mil figurantes foram utilizados para as filmagens. Outro gasto considerável da produção foi a reconstrução do centro de Baarìa em um set na Tunísia.

Os usuários do site IMDb deram uma nota razoável para a produção: 6,8. Poucos críticos falaram do filme, até o momento. O site Rotten Tomatoes, por exemplo, divulga apenas nove links para críticas sobre a produção – sendo cinco delas positivas, quatro negativas (o que garante para Baarìa uma aprovação de apenas 56%). Ainda que eu tenha gostado da produção pelas curiosidades que ela apresenta a respeito do povo e da história de parte da Itália, admito que as notas baixas não são, de todo, desmedidas.

Segundo este texto publicado na época do Festival de Veneza, a crítica que compareceu ao festival recebeu Baarìa c0m frieza. O polêmico (para dizer o mínimo) Silvio Berlusconi, por sua vez, elogiou a produção e recomendou que as pessoas a assistissem – o que, convenhamos, para mim é mais uma antipropaganda do que um chamariz. Agora, seu elogio tem uma boa razão para existir: Baarìa foi financiado por uma produtora que pertence a sua família. Por outro lado, figuras como Roberto Silvestri, do jornal comunista Il Manifesto, classificaram o filme como “decorativo, sem nada de substância”. A verdade é que Baarìa se mostrou um tanto vazio exatamente por tentar ficar encima do muro, sem defender ou atacar diretamente a uma ou outra corrente política.

Na coletiva que sucedeu a apresentação do filme, Tornatore comentou o que procurava com esta produção: “Espero que (ela) sirva para refletir sobre o presente, sobre o reformismo, já que é preciso aceitar a convivência com pessoas que pensam de modo diferente. É necessário fazer despertar as paixões pelos direitos civis e morais, algo que foi perdido”. Pena que seu filme não chegue a conseguir uma reflexão tão profunda, ou mesmo desperte paixões tão nobres. É, mais bem, um passatempo interessante sobre parte da vida na Itália do século passado. O diretor reafirmou, ainda, naquela ocasião, que Baarìa é uma “alegoria que”, ele esperava, pudesse “ser aplicada em outros países, em todo o mundo”. Discordo dele. Para mim, apesar de ter uma certa carga de alegoria, o filme é bastante localizado e datado – dificilmente será identificado por outro povo ou realidade.

CONCLUSÃO: Filme mais recente do premiado diretor italiano Giuseppe Tornatore, Baarìa é um épico que procura remontar a história de uma região da Itália por aproximadamente 60 anos. Com uma certa carga autobiográfica de seu realizador, esta produção peca, contudo, por um esforço exagerado para equilibrar o drama e o riso, esvaziando questões importantes e caindo em soluções fáceis para questões espinhosas. Financiado pela família Berlusconi e dirigido por um ex-militante do Partido Comunista, Baarìa fica no meio do caminho entre a exposição dos fatos e a vontade de suavizar parte dos acontecimentos para tornar a história mais fácil de ser “degustada” pelo grande público. Para os que gostam de produções que repassam boa parte da história de uma região e/ou de um país, Baarìa se mostra uma produção interessante – ainda que exija paciência em alguns momentos. A história de amor e conquista dos protagonista dá um certo colorido e charme para uma produção que algumas vezes se perde na tentativa de equilibrar realismo com fantasia/sonhos. Apesar de algumas falhas técnicas, como a captação de som – que depois exigiu a dublagem dos atores para suas falas – e do desperdício de uma história que poderia ser muito mais impactante, Baarìa vale pelo trabalho competente de Tornatore em dirigir os seus atores, milhares de figurantes e, especialmente, em sua preocupação em recriar sua cidade natal Bagheria (ou Baarìa) para, com ela, contar boa parte da história, dos costumes e da vida do povo italiano. Não é o melhor filme do diretor e muito menos a melhor produção italiana dos últimos anos, mas vale uma conferida.

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Crazy Heart – Coração Louco

Um homem derrotado pelo rolo compressor da própria vida. Considerado outrora um ídolo, ele agora toca para qualquer público para conseguir pagar seus vícios e seguir sobrevivendo. Crazy Heart conta uma história dura, mas ao mesmo tempo realista e tocante. Para isso, conta com uma interpretação inspirada, poderosa e decisiva, uma verdadeira entrega do ator Jeff Bridges que, com todos os méritos, deve ganhar o Oscar de Melhor Ator este ano – depois de ter ganho quatro prêmios importantes por sua atuação.

A HISTÓRIA: Um velho automóvel cruza quilômetros de asfalto em um território árido. Depois de percorrer planícies, paisagens agrestes e cadeias montanhosas, Bad Blake (Jeff Bridges) chega até um boliche no Novo México onde irá se apresentar à noite. Ele acende um cigarro, entre no boliche e, logo após ser cumprimentado pelo gerente do local (James Keane), recebe o aviso que não pode fumar ali. Em seguida, descobre que nem a bebida que pede no balcão pode ser descontada de seu cachê. Blake amarga uma fase em sua vida em que as pessoas parecem não se lembrar mais de sua grande trajetória como artista do country music. Sem dinheiro, “quebrado”, alcóolatra e sem compor há vários anos, Bad Blake vive uma fase terrível. Até que ele se encontra com a jornalista Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal), sobrinha de Wesley Barnes (Rick Dial), um pianista nas horas vagas que contrata Blake para duas apresentações em Santa Fé, e sua vida ganha novas perspectivas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Crazy Heart): Não é todos os dias que um ator de Hollywood se emociona ao incorporar a vida de um personagem. Em um certo momento de Crazy Heart, quando Bad Blake está deitado na cama de Jean depois de sobreviver a um grave acidente, quando ele volta a compor uma música depois de um hiato de muitos anos, o espectador atento pode perceber que as lágrimas começam a se formar nos olhos de Bridges. Ele está sentindo, em cada palavra que canta e movimento que faz no violão, o que aquela música representa para o seu personagem. E mais, ele percebe a grandeza daquele momento na vida do “derrotado” Blake. Jeff Bridges vestiu a pele do personagem e, por isso, ele é o nome deste filme.

Crazy Heart é uma destas produções de baixo orçamento, descompromissadas, que mergulham sem medo em um tema específico. Por serem limpas e leves, sem a preocupação de “problematizar” a realidade, estas histórias acabam chegando diretamente na percepção do público. Francamente não sou uma grande conhecedora ou fã da country music norte-americana. Mesmo assim, fiquei fã da trilha sonora assinada por T-Bone Burnett e por Stephen Bruton. As músicas são lindas, uma mais perfeita para a história que a outra.

O diretor e roteirista Scott Cooper mergulha em todos os elementos que compõe a aura de um artista veterano da “velha” country music neste filme. Aos 57 anos de idade, o protagonista se sente em fim de carreira. Derrotado, falido, sem rumo e sem controle. Ele segue acionando o seu próprio piloto automático e dirigindo milhas e milhas pelo interior dos Estados Unidos tocando para um público pequeno e variado, essencialmente antigo como ele. Mais que isso, este personagem sofre com vícios dos quais ele parece ser incapaz de se livrar.

Neste ponto, Crazy Heart não é apenas uma história sobre um antigo ídolo de determinado gênero musical em decadência. Ainda que o filme trate do quanto efêmera e injusta pode ser a fama, Crazy Heart vai além disso. O roteiro, baseado na obra homônima de Thomas Cobb, serve como exemplo de como o alcoolismo pode destruir a dignidade de um homem e limitá-lo a cenas desesperadoras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos momentos mais angustiantes que eu assisti em um filme nos últimos tempos foi aquele em que Bad Blake descobre que o pequeno Buddy (Jack Nation), o filho de quatro anos de Jean, simplesmente desaparece quando estava sob seus cuidados. O desespero daquele homem e, depois, da mãe de Buddy acerta o espectador em cheio e serve como exemplo do tipo de descontrole que o alcoolismo pode provocar.

Além destes dois temas universais, Crazy Heart toca em outras questões que sempre rendem grandes momentos no cinema. Como a vontade de um adulto arrependido em fazer as pazes com o próprio passado. Ou a descoberta, mesmo em certa “idade avançada” da vida, que é sempre possível renascer. Crazy Heart é um filme sensível, cheio de emoção e com interpretações maravilhosas – além da já comentada roubada de cena de Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal está perfeita em seu papel. Ela ilumina cada quadro do filme no qual aparece – como a sua personagem deveria fazer.

Desde o primeiro minuto em que Jean aparece, percebe-se o seu fascínio por aquele homem mais velho que, mesmo tendo todos os elementos para ser uma “encrenca” em sua vida, ainda esbanja charme, talento e virilidade. Os dois se aproximam e, neste momento, Crazy Heart passa a ser também uma história de amor. Destas que revelam, sem virtuosismo o exageros, pelo contrário, com muita simplicidade, como o amor pode ser transformador. Aproximando-se novamente de um garoto como é o caso do filho de Jean, Blake tem a oportunidade de olhar para o próprio passado. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desta forma, ele percebe como abandonou o próprio filho, hoje adulto, e sente a necessidade de tentar consertar isso.

O bacana de filmes como este é que não existe a preocupação de seus realizadores em agradar ao grande público. Algo muito diferente de fenômenos como Avatar. Por isso mesmo é que Crazy Heart, Precious, An Education, The Hurt Locker e tantos outros se mostram tão mais criativos, legítimos, obras de cinema – e não peças de mercado com o único fim de fazerem lucro.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Scott Cooper não se esforça em encontrar um final feliz aos moldes de Hollywood. O “mocinho” não necessariamente tem que ficar com a “mocinha” no final da história ou receber o perdão do filho antigamente rejeitado. Buscando a legitimidade da vida real, o diretor e roteirista mostra que um final feliz pode existir com o esforço hercúleo de um homem em reerguer-se das cinzas. Ao se recriar, Bad Blake demonstra que a felicidade não reside na dependência que um indivíduo pode criar em relação a outro, mas em sua própria capacidade em exercer plenamente seu talento e buscar suas virtudes. Só depois, inteiro, ele poderá dividir isso com os demais. Seja em uma relação pessoal ou através de músicas belíssimas.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um tema secundário de Crazy Heart pode dar pano pra manga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os “novos” ídolos da música e sua falsa modéstia e relação de exploração, muitas vezes, com seus mentores “decadentes”. Bad Blake passa o filme inteiro com o “pé atrás” em relação ao fenômeno de massas Tommy Sweet (Colin Farrell). E não é para menos. Ao mesmo tempo em que rasga seda para Blake, Sweet deixa claro que por trás de seus elogios existe o interesse para que o veterano talentoso volte a lhe emprestar o seu talento. Há tempos sem escrever nada que preste, Sweet espera que Blake possa lhe ajudar na difícil tarefa de ficar sempre na crista da onda.

O tema é bom e polêmico. Na segunda parte de sua entrevista com Blake, Jean lhe pergunta quem continua compondo e tocando músicas verdadeiras na era em que o “country artificial” parece dominar o cenário musical. Blake admite que Sweet “tenta” fazer a música country de anos atrás. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas ironicamente, é justamente Sweet quem lhe pede e, posteriormente, praticamente obriga Blake a ceder-lhe suas novas composições. Para um compositor “quebrado” (no sentido financeiro e pessoal), a oferta de ceder por uma grande quantia de dinheiro, no período de dois anos a autoria de suas novas composições para um antigo “pupilo” e atual “rival” se mostra irrecusável.

Esta forma de exploração (outros a encaram como uma “providencial ajuda”) mostrada pelo filme ocorre na vida real. Muitos “novos ídolos” da juventude e/ou das massas se valem do talento esquecido de antigos mentores, companheiros de excursões e ídolos nacionais por meio de regravações de seus sucessos – pagando uma miséria por isso – ou ao utilizar novas composições destas pessoas. Manda mais quem está lotando seus shows e fazendo dinheiro com novos discos. Obedecem os que passaram a figurar na lista de “ilustres desconhecidos” da massa. A indústria musical, como outras do “show business”, acaba sendo bastante desleal com seus antigos ídolos.

O escritor Thomas Cobb lançou o livro Crazy Heart em 1987. Na época, o Los Angeles Times afirmou que o romance de estréia do escritor era uma cuidadosa “crônica de observação da América”. O Chicago Tribune publicou que o autor havia escrito uma quase obra-prima sobre um assunto até então pouco atrativo. O jornal afirmou ainda que Cobb havia criado um personagem principal inesquecível, em um texto que evidenciava não apenas seus interesses, mas também suas emoções. Não li o livro, mas tudo indica que o diretor e roteirista Scott Cooper conseguiu ser muito fiel a esta alma do personagem e à história da obra original.

Jeff Bridges é o nome do filme – assim como o personagem de Bad Blake parece dominar as páginas da obra original. Ainda assim, é importante comentar o desempenho dos coadjuvantes desta produção. Além dos já citados Maggie Gyllenhaal (maravilhosa), Jack Nation (encantador) e Colin Farrell (propositalmente “plastificado”), vale a pena comentar o trabalho do veterano Robert Duvall como Wayne, o proprietário de um bar que é amigo de Blake; Tom Bower em uma superponta como Bill Wilson, o fã do cantor que lhe “presenteia” com uma garrafa de whisky em troca de uma música na apresentação que ele faz no boliche do Novo México (tirada genial esta, aliás); e Paul Herman como Jack Greene, o empresário de Blake que não consegue nenhum acordo decente para o músico.

Crazy Heart conseguiu um desempenho até que satisfatório para um filme de seu porte. Apenas nos Estados Unidos ele arrecadou, até o dia 21 deste mês, pouco mais de US$ 21,5 milhões. Certamente devido aos elogios recebidos pela atuação de Jeff Bridges e pela força que a country music tem naquele país.

Até o momento o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 13. Crazy Heart tem se consagrado especialmente pela atuação de Jeff Bridges e pelas músicas compostas por T-Bone Burnett e Ryan Bingham. Elas, aliás, merecem um capítulo a parte. São belíssimas e elevam o filme a um outro patamar. Assim como a direção de fotografia bastante acertada de Barry Markowitz e a direção suave e ao mesmo tempo atenta aos detalhes de Scott Cooper.

Mas nunca é demais recomendar que as composições escritas para o filme sejam observadas por completo, seja através da trilha sonora original, vendida em separado, ou pela divulgação de algumas delas em vídeos no Youtube. A performance de Ryan Bingham para a premiada The Weary Kind, aliás, tem uma audiência espetacular na internet (uma das opções de video é esta). Observando a trilha sonora, aliás, é que tirei uma importante dúvida que tive enquanto assistia a Crazy Heart: afinal, Jeff Bridges realmente soltou o gogó ao cantar aquelas composições? Pois os créditos da trilha sonora comprovam que Bridges canta grande parte das composições escritas especialmente para a produção e que até Colin Farrell e Robert Duvall dão suas palhinhas. Interessante.

Mas voltando ao tema dos prêmios… Das 13 conquistas de Crazy Heart até o momento, oito ocorreram devido às músicas compostas para o filme e cinco graças ao trabalho de Bridges. Lembrando que ambos foram premiados no Globo de Ouro. Jeff Bridges foi ainda premiado como Melhor Ator pela votação da Screen Actors Guild, o principal prêmio da categoria dos atores nos Estados Unidos.

Algumas curiosidades sobre Crazy Heart: ele foi filmado em apenas 24 dias e o show que Bad Blake abre para Tommy Sweet foi gravado no Journal Pavilion em Albuquerque utilizando a estrutura de uma apresentação do músico Toby Keith. Jeff Bridges sempre teve uma inclinação para a música, tanto que no ano 2000 ele lançou um disco chamado Be Here Soon.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Achei ela muito, muito baixa. Mas talvez ela reflita a frustração das pessoas por este filme não ser, exatamente, “fácil”. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram muito mais generosos: eles dedicaram 159 textos positivos e apenas 13 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92%.

Entre as críticas positivas para o filme, destaco esta de Liam Lacey publicada no The Globe and Mail. Ele começa seu texto categórico: “Outra temporada para o Oscar, outro ator veterano que descobre seu peito e volta a rugir. Em Crazy Heart, Jeff Bridges segue os passos de Frank Langella em Starting Out in the Evening (2007) e Mickey Rourke em The Wrestler (2008), como uma figura famosa e sua falência familiar que redescobre seu ‘mojo’ espiritual através do amor de uma mulher”. Para o crítico, o desempenho de Bridges na pele do protagonista é autêntico de uma forma desconcertante.

Na opinião de Lacey, o grande desempenho de Bridges ocorre em um filme “relativamente menor”. O crítico comenta que Crazy Heart é a adaptação de Scott Cooper do livro de Thomas Cobb que, por sua vez, se inspirou na carreira do falecido Waylon Jennings. Então, com este comentário, Lacey tira uma das minhas dúvidas principais: se o filme teria alguma inspiração real. Pois sim, ele teve. Lacey afirma que Crazy Heart lembra muito a produção Tender Mercies, de 1983, estrelada por Robert Duvall. O crítico comenta que o mergulho da personagem de Jean acaba não sendo tão convincente quanto deveria. Por outro lado, ele considera um dos pontos fortes do filme a autenticidade das canções escritas por T-Bone Burnett, Steven Broder e Ryan Bingham. “Em um gênero musical no qual a autenticidade emocional é essencial, Bridges é suficientemente grande ator para nos fazer acreditar que estas canções poderiam ser suas”, finaliza Lacey.

A crítica Kimberly Gadette, do Indie Movies Online.com, destaca as quatro indicações ao Oscar que Jeff Bridges recebeu em sua carreira – sem nunca ter ganho alguma estatueta. Ela comenta que em Crazy Heart ele tem um desempenho fora de série, “desprovido totalmente de vaidade”. Gadette elogia o trabalho de Maggie Gyllenhaal, afirmando que ela apresenta para o espectador uma jovem “forte”, direta, e que alimenta uma relação com o protagonista que foge do clichê hollywoodiano. Ela ainda elogia a trilha sonora, afirmando que as composições buscam “evocar ao invés de copiar” os mais conhecidos artistas da época, assim como considera “impressionante” a estréia de Scott Cooper como diretor.

CONCLUSÃO: A história de um homem que segue ladeira abaixo ainda que, para muitos que lhe enxergam apenas como um ídolo, ele parece bem quando assume sua guitarra e o microfone sobre um palco qualquer. Crazy Heart se debruça na derrocada de um antigo astro da country music para falar sobre os bastidores da música, parte da vida no interior dos Estados Unidos e, especialmente, sobre uma história de redenção. Estrelado por um Jeff Bridges em grande momento, este filme se mostra simples e ao mesmo tempo profundo, tocando em temas como família, alcoolismo, fama e a força que um novo amor pode ter em todo este contexto. Com uma trilha sonora deliciosa e canções belíssimas – mesmo para quem não gosta de country music -, Crazy Heart vale por Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal e pela maneira simples com que esta história é contada. Também chama a atenção como a história foge de um final feliz óbvio e, ainda assim, pode agradar e emocionar com alguns momentos preciosos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Crazy Heart está concorrendo em três categorias na maior premiação de Hollywood: Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Canção Original. Deve ganhar dois destes prêmios. Sem dúvida a entrega de Jeff Bridges para o papel lhe credencia a ganhar a estatueta. Não assisti ainda ao desempenho de Colin Firth em A Single Man, mas ao comparar Bridges com George Clooney, Morgan Freeman e Jeremy Renner, o protagonista de Crazy Heart sai na dianteira. Ele realmente merece o prêmio. Minha segunda escolha ficaria entre Jeremy Renner e Morgan Freeman. George Clooney, definitivamente, não deveria levar a estatueta para casa.

Ainda que Maggie Gyllenhaal esteja ótima no filme, equilibrando com seu carismo e “luz” o lado pesado de Bad Blake a cada aparição sua na tela, fica difícil para ela concorrer com a performance visceral de Mo’nique em Precious. E mesmo que Mo’nique não ganhasse a estatueta, provavelmente a segunda na mira do Oscar seria Anna Kendrick por seu desempenho realmente interessante em Up in the Air. Não será desta vez que Maggie Gyllenhaal sairá com um Oscar do Kodak Theater.

Melhor Canção Original é uma barbada. Ainda que a animação The Princess and the Frog tenha duas músicas concorrendo ao Oscar, The Weary Kind parece imbatível. Seria um reconhecimento acertadíssimo para os compositores que produziram canções fundamentais para Crazy Heart. Eles devem ganhar a estatueta este ano.

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Avatar 3D

Uma das maiores bilheterias de todos os tempos e um dos filmes mais falados – e propagandeados – do final de 2009 e início de 2010. Ninguém na face da Terra pode negar que Avatar (aqui o site oficial em português) é um fenômeno de massas como há tempos o cinema mundial não via (mais precisamente, desde 1997, quando foi lançado Titanic, o outro filme-fenômeno de James Cameron). Demorei para assistí-lo porque eu via como fundamental a questão do 3D. Me desculpem os sensíveis, mas assistir Avatar sem ser em 3D é o mesmo que preferir assistir qualquer filme que exige grandes dimensões em uma TV de 14 polegadas. O tão comentado 3D – que está, infelizmente, ainda longe de ser realmente revolucionário -, no caso de Avatar, acaba sendo tão ou mais importante que o roteiro e a direção de Cameron. Antes de assistí-lo, eu tinha ouvido comentários ruins sobre o roteiro do filme, aliás. Mas ainda que Avatar se perca um bocado no caminho – deixando para trás a oportunidade de ser um filme muito melhor -, admito que me surpreendi positivamente com o que eu vi. Esperava algo pior.

A HISTÓRIA: O ex-fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington) lembra de um sonho clássico que tinha quando estava hospitalizado: ele experimenta a liberdade plena ao “voar” sobre árvores e entre nuvens baixas. Em seguida, ele acorda em uma cabine após passar pelo processo de criogenia. Ele entrou no projeto Avatar depois que seu irmão gêmeo, Tommy, foi morto em um assalto uma semana antes da viagem que o levaria até o planeta Pandora. Depois de uma viagem que durou 5 anos, nove meses e 22 dias, Jake e os demais “mercenários” inscritos para trabalhar explorando Pandora chegam até o planeta aonde vivem os Na’vi, uma espécie de “humanóides” que vive em perfeita sintonia com a Natureza. Jake acaba conhecendo de perto a cultura e o modo de vida dos Na’vi quando assume a pele de seu próprio avatar, criado a partir da mistura de seu DNA e o de nativos de Pandora.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avatar): O argumento do filme capitaneado por James Cameron e boa parte do seu desenvolvimento são excepcionais. Levando em conta, claro, o estilo do diretor e roteirista. Acho curioso quando algumas pessoas “pedem” e/ou esperam um texto mais elaborado de Cameron. Ouvi algumas pessoas criticarem a falta de “complexidade” do roteiro de Avatar.

Meus caros, uma regra básica para entender um pouco sobre cinema é contextualizar sempre cada filme, cada autor, cada artista envolvido. James Cameron nunca foi um sujeito complexo. Muito pelo contrário. Ele é o típico diretor e roteirista que busca, com seus filmes, o maior público possível. Seus roteiros são rasos, simples, fáceis de serem entendidos por pessoas das mais diferentes idades, níveis sociais, formações educacional e cultural.

Cameron busca sempre a simplificação – ele ficará conhecido, no futuro, como o diretor de alguns dos filmes mais caros e com maiores bilheterias de todos os tempos, mas nunca por histórias brilhantes ou roteiros saborosos. Este é o seu estilo. E é preciso avaliar Avatar dentro deste contexto. Dito isso, volto a afirmar que a nova produção de James Cameron me surpreendeu por grande parte do tempo.

Primeiro, porque o diretor realmente pensou em cada detalhe da produção, em cada cena, em todo e qualquer momento em que os efeitos 3D poderiam deslumbrar o espectador. Depois porque gostei do roteiro. O protagonista Jake Sully não é um herói modelo – uma boa evolução para um roteirista que havia escrito anteriormente Terminator; uma das histórias de Rambo; Aliens e, principalmente, Titanic e seu “perfeito” Jack Dawson. Os mercenários humanos em Pandora assumem o papel que outrora foi desempenhado por distintas civilizações “conquistadoras” (em outras palavras, exterminadoras de nativos), como foi o caso de portugueses, espanhóis e ingleses.

Impressionante a forma com que Cameron critica o destempero dos países civilizados – e neste filme fica clara a referência aos Estados Unidos, ainda que não apareçam bandeiras tremulantes. Na era em que a preocupação ambiental e com as mudanças climáticas é a ordem do dia, Pandora aparece como um planeta ideal, habitado por uma civilização que sabe como viver em perfeita e plena sintonia com cada ser vivo que lhe cerca.

Uma civilização ideal considerada “selvagem” pelo invasor habituado a outros valores e práticas – como a de explorar até o fim os recursos naturais e trocá-los por dinheiro, algo que deveria ser insignificante na comparação com o que torna a vida possível e/ou sustentável. Cameron, assim, lança idéias “revolucionárias” para os seus próprios padrões, inserindo temas espinhosos em um filme que deveria ser, essencialmente, comercial. Essas características de Avatar, devo admitir, me surpreenderam.

Mas nada me deixou mais estupefata do que a forma estonteante com que Cameron apresentou, para os espectadores do filme em 3D, aquele planeta cheio de surpresas para os nossos olhos cansados e que não se surpreendem com quase mais nada. As melhores cenas do filme envolvem o avatar de Jake Sully e suas experiências como aprendiz da cultura e do jeito de viver do clã dos Omaticavas. Levado praticamente  pelas mãos de Neytiri (Zoe Saldana), Sully volta a andar, correr, aprende a montar cavalos selvagens e a voar com um “ikran”. Ele experimenta um contato com o selvagem impossível para um homem comum ao mesmo tempo em que vive na pele um tipo de mobilidade impossível de ser concretizada devido a condição de dependente de uma cadeira-de-rodas quando não está utilizando o seu avatar.

O personagem de Jake Sully não poderia ter sido melhor planejado. Primeiro, o protagonista se sente em dívida com o irmão morto, que se dedicou tanto tempo a um propósito “digno” como é o da ciência. Depois, ele se sente um bocado perdido, sem perspectivas, justamente por se ver preso a uma cadeira-de-rodas. Um dos objetivos de sua viagem a Pandora é ganhar dinheiro suficiente para conseguir voltar a andar. Cameron, através de Sully, faz um paralelo ao homem do século 21, preso a valores que não fazem sentido e que lhe impedem de ter uma vida plena.

Além disso, pelas razões anteriores, Sully tem um “objetivo” digno para fazer o que ele faz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ou seja, para “trair” a confiança daqueles seres azuis grandalhões que resolvem abrir o seu mundo para um desconhecido com perfil de inimigo. Entra em cena o grande vilão da história, o super Rambo da vez, coronel Miles Quaritch (Stephen Lang). Apelando para o código de honra e de conduta do ex-fuzileiro Sully, Quaritch sabe muito bem como pressioná-lo para conseguir as informações que a companhia precisa para vencer os nativos. O coronel também promete para Sully o que ele mais deseja: poder voltar a andar.

Sully se porta como uma criança – Neytiri logo de cara o classifica assim – frente a um mundo desconhecido. Esse é outro acerto de Cameron porque, desta forma, ele coloca cada espectador em uma posição confortável de “ignorância” sobre o que ele está assistindo. Todos nós somos crianças, ignorantes frente ao mundo perfeito criado por Cameron. Pandora é um planeta ideal, perfeito, onde diferentes clãs, animais selvagens, plantas curiosas e demais seres parecem viver em constante harmonia.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Claro que isso é difícil de acreditar. Especialmente porque, se tudo realmente é assim perfeito, o que justificaria a chegada de um Na’vi que dominasse a fera Toruk para, só assim, unir os diferentes clãs no sentido de defender um único propósito? Mas isso pouco importa. Cameron está aí para nos dizer que deveríamos nos colocar mais na posição de crianças, de ignorantes, para aprender com os seres mais sábios – e/ou aprender e aceitar diferentes formas de vida.

Até hoje existe muito preconceito com descendentes de indígenas, aborígenes, quilombolas, entre outras minorias que são consideradas por muitos como “menos evoluídas”. A própria antropologia, que antes enxergava determinados povos como estágios anteriores a uma evolução inevitável até o ideal (normalmente eurocêntrico), hoje enxerga que não existe um modelo de desenvolvimento – e que mesmo este conceito pode não ser válido.

Mas vamos voltar ao filme… Avatar acerta em todas estas questões e na forma com que o personagem principal e a história vai sendo apresentada. Até que… o filme se perde. Pois sim. Juro que me surpreendi com a história e esperei que ela seguisse por aquele caminho de reflexão/certa crítica social, mas aí o roteiro de Cameron fraquejou e caímos em uma história previsível, longa e simplista demais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, deixamos de lado os dilemas do protagonista e a ligação perigosamente estreita entre uma “ciência desinteressada” (ok, esse foi um eufemismo adotado pelo amante dos avanços tecnológicos chamado James Cameron) e a pilhagem provocada pela ambição econômica para cair na velha história de disputa amorosa e da luta do bem contra o mal.

Avatar estava indo tão bem, havia tanto esplendor visual e eficiência na direção de Cameron e, por tudo isso, não deixa de ser uma pena quando o filme descambar definitivamente para os lugares-comum e as saídas previsíveis para seus problemas. Vamos combinar que todos já sabiam o que iria acontecer muito antes da ação propriamente dita se desenrolar.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Era evidente o “romance” de Jake Sully e Neytiri (ainda que, me desculpem, mas ainda não me conformo com a “menina” se jogando nos braços de um ser que ela sabia que não era real). Também ficou evidente uma certa disputa de Sully com Tsu’tey (Laz Alonso), o guerreiro que estava destinado a suceder Eytukan (Wes Studi) como líder dos Omaticayas e, consequentemente, a casar com sua filha, Neytiri. Era óbvio que Sully ficaria do lado dos Na’vi e que o recurso da “morte e ressurreição” tentado no caso da Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver) seria, depois, utilizado pelo protagonista.

James Cameron tinha a faca e o queijo na mão para fazer o melhor filme de 2009 e, talvez, um dos melhores dos últimos anos. Explorando ao máximo os atuais recursos do cinema 3D – ainda fracos para o meu gosto, mas depois falarei mais disso -, o diretor soube planejar com maestria cada cena, cada ângulo, criar um mundo maravilhoso para nossos “olhos de crianças”. Até certo ponto, seu roteiro também surpreendeu, misturando assuntos importantes de forma despretensiosa, leve, nos conduzindo sob os signos da ação, aventura, romance, comédia e umas pitadinhas de guerra (até aquele momento, apenas sugerida).

Uma pena, realmente, que pouco depois da metade do filme Cameron não tenha conseguido exprimir em seu roteiro a inovação que conseguiu com sua técnica e apuro visual.  Tudo acaba se resumindo, mais uma vez, à velha história de um “amor impossível”, algo muito corriqueiro desde Romeu & Julieta – e, inclusive, uma tradição anterior à obra de Shakespeare. Um verdadeiro desperdício.

Além disso tudo, Avatar é longo demais. O filme poderia ter, perfeitamente, 20 minutos menos. Não faria falta. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção). Eu cortaria grande parte deste tempo do meio do filme para o final. Reduziria, por exemplo, aquelas cansativas cenas do “novo Rambo” e seus comandados em operações como a de destruir a casa dos Omaticayas. Cortaria também uma ou outra cena um tanto repetida e que não produzisse o efeito de fascínio que outras sequências provocam. Faria bem para o filme.

Descontadas estas falhas e desperdícios de Avatar, ele é um grande filme. Muito bem planejado, conduzido e com a exploração adequada de todos os recursos que a alta tecnologia do cinema atual pode proporcionar. Além disso, a história apresenta alguns momentos realmente tocantes, emocionantes. Ver um adulto enxergar um mundo perfeito sob o fascínio que apenas uma criança pode ter e encontrar um povo tão amistoso e aberto a significados maiores do que o de suas próprias existências é algo raro de ser visto. Ainda mais no cinema de Hollywood. Por tudo isso, este filme é grande. E merece chegar longe, ser premiado, bater recordes de bilheterias (por que não?), mas não deveria levar mais do que uma série de Oscar’s técnicos. Ele não é, nem de longe, o melhor (ou um dos 5 melhores) filme(s) de 2009.

NOTA: 9 (por sua versão em 3D).

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas eu acho um verdadeiro absurdo um filme, seja ele qual for, gastar inacreditáveis US$ 237 milhões em sua produção e, incluindo marketing e distribuição, chegar a um custo total de US$ 500 milhões. Esses valores, referentes a Avatar, tornaram a produção de James Cameron a mais cara de todos os tempos – quer dizer, segundo esta reportagem da Folha de S. Paulo, Avatar empataria hoje em dia com os gastos reajustados de Guerra e Paz, produção soviética de 1967.

De qualquer forma, mesmo que forem analisados “apenas” os US$ 237 milhões utilizados para que Avatar fosse produzido, isto equivaleria a 23 filmes do porte de Precious (que teria custado US$ 10 milhões), 34 filmes como An Education (que custou US$ 6,8 milhões) ou 21 produções como The Hurt Locker (que consumiu US$ 11 milhões). Sei que é importante que “visionários” como James Cameron invistam seu talento e potencial para o marketing na evolução tecnológica do cinema, mas ainda assim não me convenço que todo esse dinheiro deveria ser gasto em apenas uma produção. Prefiro ainda dezenas de filmes no estilo dos outros candidatos ao Oscar comentados frases acima do que em produções como Avatar.

Para quem não lembra, James Cameron estreou como roteirista e diretor de longas-metragens com The Terminator, de 1984, filme que lançou definitivamente à fama um até então relativamente pouco conhecido Arnold Schwarzenegger – o ator musculoso havia se destacado, anteriormente, apenas por dois filmes em que encarnava o “bárbaro” Conan. Depois, Cameron escreveu o roteiro de Rambo: First Blood Part II (ao lado de outros roteiristas), de Aliens e The Abyss (estes dois últimos ele também dirigiu).

Desde muito jovem o diretor e roteirista mostrava seu gosto pela alta tecnologia e pela ficção científica. Ele deu uma pausa nestes temas com True Lies e Titanic, tentando, com eles, chegar a um público muito maior do que aquele que costuma se interessar por ficção científica. Em Avatar, Cameron tenta seguir nesta linha ao resgatar, mais uma vez, seu gosto pela alta tecnologia e a ficção científica.

James Cameron vai seguir a linha de ficção científica em seu próximo projeto, intitulado Battle Angel. Previsto para ser lançado em 2011, o filme se lança no futuro para contar a história de uma cyborg feminina que é retirada da condição de “sucata” por um cientista. Será que o filme vai promover a mistura de “um amor impossível”, tema recorrente de Cameron em suas últimas produções, com The Terminator? 😉

Avatar carrega a lenda também de ser a maior bilheteria que o cinema já teve. A verdade é que ele passou o campeão anterior, Titanic, que havia arrecadado US$ 600,7 milhões. Mas há quem discuta os valores absolutos e avalie as maiores bilheterias levando em conta a inflação que os ingressos de cinema tiveram com o passar do tempo. Segundo este parâmetro, Avatar figuraria na 15ª posição. Encabeçando a lista estariam Gone with the Wind, Star Wars e The Sound of Music.

Mas quem entende que os números absolutos que contam, os quase US$ 688 milhões arrecadados por Avatar apenas nos Estados Unidos colocam a produção no topo da lista das maiores bilheterias. E ainda que siga a sua trajetória em busca de recordes ainda maiores, dificilmente Avatar conseguirá chegar perto do filme mais lucrativo de todos os tempos – afinal, ele custou quase US$ 500 milhões incluindo marketing e distribuição. Lembrando que um filme é lucrativo levando em conta seus custos e o lucro final com as bilheterias.

De qualquer forma, é importante citar que Avatar ultrapassou a marca de US$ 1,858 bilhão nas bilheterias de todo o mundo, ultrapassando o recordista anterior, Titanic, que havia alcançado US$ 1,843 bilhão. O novo recorde foi registrado no dia 26 de janeiro deste ano.

Até o momento Avatar ganhou 18 prêmios e foi indicado ainda a outros 41. Entre os que levou para casa estão os de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor entregues no Globo de Ouro; Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Especiais no BAFTA (o chamado “Oscar” inglês); além de seis prêmios técnicos entregues ao filme pela premiação da Broadcast Film Critics Association e outros prêmios do gênero entregues em distintas premiações. Até o momento, para resumir, o melhor desempenho do filme foi mesmo no Globo de Ouro.

Avatar conseguiu uma nota muito boa pela avaliação dos usuários do site IMDb: 8,5. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também foram bastante generosos com a produção: dedicaram ao filme 207 críticas positivas e apenas 45 negativas (o que garante para o filme uma aprovação de 82%). Ainda assim, ninguém foi tão generoso quanto eu com a nota para Avatar – acho que eu estava em um bom dia quando o assisti. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. A atriz Sigourney Weaver declarou, em algumas entrevistas, que se espelhou no próprio James Cameron para interpretar a cientista perfeccionista e idealista Grace Augustine. Segundo os produtores de Avatar, 40% do filme é composto de “live action” (o trabalho “realista” dos atores) e 60% de uma composição que mistura interpretações reais com computação gráfica. Foram desenvolvidos, para o filme, uma série de aparatos de alta tecnologia para que a computação gráfica fosse utilizada de maneira inovadora.

James Cameron se convenceu de que a tecnologia da computação gráfica havia chegado no ponto em que ele gostaria para realizar Avatar depois que ele assistiu o trabalho feito com o personagem de Gollum no filme The Lord of the Rings: The Two Towers (de 2002).

A linguagem Na’vi, segundo as notas de produção de Avatar, foi criada pelo linguista Paul R. Frommer “do zero”. Ou seja, ele não se baseou em nenhum outro idioma para criar a forma com que os habitantes de Pandora se comunicam. Frommer teria aceitado o desafio de criar uma linguagem totalmente nova e elaborou uma coleção de mil palavras neste idioma inusitado.

A palavra “unobtainium” (material encontrado em Pandora que motiva a cobiça humana) é utilizada de uma forma bem-humorada pela indústria aeroespacial. O termo descreve um material que teria uma aplicação perfeita para fins científicos, mas que se torna inviável porque não existe, ou é muito caro ou simplesmente viola as leis da física.

Inicialmente o estúdio responsável por Avatar havia apontado Matt Damon e Jake Gyllenhaal como candidatos para o papel de Jake Sully, mas James Cameron acabou ganhando na queda de braço e apostando em um ator desconhecido do grande público.

Avatar significa, em sânscrito, “encarnação”. O termo era muito utilizado nas escrituras hindus para fazer referência à encarnação humana de Deus. Isto interessa porque, segundo James Cameron, os Na’vi de seu filme são azuis como forma de criar um paralelo conceitual com as representações hindus de Deus – que podem ser vistas, desta forma, nas imagens de Vishnu, Shiva, Rama, Krishna, etcétera -, além do fato de que o diretor diz “gostar desta cor”.

A palavra Ey’wa, que no filme é aplicada para identificar a divindade do povo Na’vi – que seria algo como a “deusa Natureza” – faz referência à pronúncia de Yahweh, termo que identifica Deus para os hebreus.

Cameron disse no programa The Tonight Show with Conan O’Brien que havia começado a trabalhar nos desenhos preliminares de Avatar em 1995, mas que teve que esperar uma década para começar a tornar seu projeto viável nos conceitos visuais e de efeitos especiais.

Algumas das idéias apresentadas em Avatar, como o conceito de uma “rede de árvores” que preserva a memória dos mortos aparecem na série intitulada Ender de autoria de Orson Scott Card. Segundo esta notícia publicada pelo site Adoro Cinema, Cameron teria ainda sido acusado de plagiar a graphic novel Firekind, publicada na Inglaterra em 1993 por John Smith e Paul Marshall. Talvez para responder um pouco estas suspeitas, o produtor de Avatar informou, neste mês, que James Cameron deve publicar um livro que antecede cronologicamente o que acontece no filme ainda este ano. A obra, a primeira lançada por Cameron, serviria como um prelúdio ao que os espectadores assistiram em Avatar.

Falando do tema de alta tecnologia utilizada em Avatar, queria comentar que eu discordo da aura de “revolução cinematográfica” que circunda este novo filme de James Cameron. Concordo sim que o filme é belíssimo visualmente e que convida os espectadores a uma experiência diferenciada com a forma com que a produção trabalha os recursos 3D. Ainda assim, falta um bom caminho ainda para que esta tecnologia faça uma revolução para o cinema da magnitude que significaram a passagem do cinema mudo para o falado e do cinema preto e branco para o colorido.

Para que o 3D realmente revolucione o cinema é preciso que o espectador se sinta ainda mais inserido no filme. Talvez com a adoção de óculos mais modernos, que realmente dão a sensação de tridimensionalidade, ou mesmo a adoção de luvas e/ou sensores acoplados aos espectadores em salas de alta tecnologia. Enquanto os videogames cuidam de inserir seus usuários realmente “dentro” das histórias, o cinema 3D ainda está a meio caminho disto.

Achei exagerado demais o tom “Rambo” que o filme assume lá pelas tantas. Para mim, ao menos, foi cansativo e desnecessário. Stephen Lang, coitado, poderia ter sido poupado desta. 😉 Também achei pueril demais a idéia que Cameron tenta vender de que os cientistas mostrados no filme eram, essencialmente, “do bem”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que o diretor defenda a evolução da tecnologia (afinal, seu marketing depende disso) e da ciência, mas é no mínimo ridículo que alguém verdadeiramente acredite que a Dra. Grace Augustine e Cia. não percebiam que seus interesses por descobertas científicas eram financiados por uma organização movida por lucros e focada na exploração desleal de recursos naturais. A questão – pouco ou nada questionada pelo filme – é que muitos cientistas sérios “fecham os olhos” para questões éticas e não querem saber até que ponto suas descobertas podem ser usadas (ou já estão sendo) para fins antiéticos e/ou criminosos. A ciência não pode ser absolvida em Avatar como Cameron provavelmente gostaria.

Além dos atores citados anteriormente, vale comentar o desempenho dos seguintes atores: Joel Moore como o “simpático” e um tanto “invejoso” cientista Norm Spellman (que, posteriormente, acaba ajudando Sully em sua missão “maior” em Pandora); Giovanni Ribisi como o vilão Parker Selfridge, o homem que comandava as operações de exploração do valioso minério no planeta dos Na’vi; Michelle Rodriguez como Trudy Chacon, a militar de “bom coração” que acaba sendo fundamental em certo ponto da história; CCH Pounder (e isso é nome?) como Mo’at, a mãe de Neytiri que desempenha o papel de líder espiritual do clã onde o protagonista vai parar; e Dileep Rao como o Dr. Max Patel, cientista que também dá uma forcinha para o grupo de “salvadores da pátria” (no caso, de Pandora). Os demais são, realmente, coadjuvantes.

Para os que ficaram – com toda a razão – fascinados pela qualidade técnica de Avatar, nunca é demais nomear os seus responsáveis: James Horner é o veterano que assina a trilha sonora do filme; Mauro Fiore é o diretor de fotografia (impecável e estonteante, diga-se); a edição foi feita por James Cameron, John Refoua e Stephen E. Rivkin; o design de produção é assinado por Rick Carter e Robert Stromberg (outro trabalho magnífico); a direção de arte foi capitaneada por 12 profissionais sob a supervisão de Todd Cherniawsky, Kevin Ishioka e Kim Sinclair; o departamento de maquiagem, que envolveu o trabalho de 20 profissionais, foi coordenado por Michele Barber, Corinna Liebel, Angela Mooar e Sarah Rubano; e os departamentos de arte, de efeitos visuais e sonoros segue com uma lista de dezenas de centenas de profissionais.

CONCLUSÃO: Um espetáculo visual e para os sentidos em sua versão 3D – para mim, a única que deve realmente valer a pena ser assistida. Avatar segue o gosto de seu realizador, o roteirista e diretor James Cameron, em tudo que isso pode significar de interessante e de previsível. Misturando ficção cientítica (o tema preferido de seu realizador), mais uma história de “amor impossível” (alguém lembrou de Titanic?) e críticas interessantes sobre a capacidade do homem destruir tudo o que “toca” (uma versão contrária de Midas), Avatar se mostra um filme com grandes idéias, uma boa dose de “mistura pop” e uma realização impecável.

O problema é que o filme, que começa muito bem e segue interessante e desafiador até pouco mais de uma hora, depois se perca nos vícios de Cameron. O diretor esquece o primor narrativo que vinha imprimindo à produção e cai em uma série de lugares-comum de filmes que tratam de batalhas de conquista e resistência. Instigante em sua proposta visual e pueril em sua narrativa (especialmente da metade do filme para o final), Avatar mescla alta tecnologia com a busca por uma forma de vida ideal e impraticável. No final das contas, esta é a produção de um sonhador chamado James Cameron. O filme tem algumas sequências estonteantes, impressionantes, e uma certa carga de emoção imprevisível. Uma pena que ele seja longo demais e que caia em qualidade em certo momento, abrindo o flanco para uma história “a la Rambo” que poderia ter sido contornada. Os avanços técnicos desta produção, infelizmente, não encontram eco em inovações narrativas.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Avatar era o último filme que me faltava assistir da lista de 10 indicados na categoria de Melhor Filme. Agora sim, fechei a lista. 😉 Como eu já esperava, não mudei a minha opinião sobre o filme que deveria ganhar este ano nas categorias Melhor Filme e Melhor Direção: The Hurt Locker. Ainda que eu tenha me surpreendido positivamente com Avatar – francamente eu esperava algo pior -, vejo outros filmes como sendo melhores que ele este ano. Na minha lista de preferência, a sequência de produções que poderiam ganhar o principal prêmio do Oscar seria: The Hurt Locker, Precious, Inglourios Basterds, An Education, A Serious Man e, finalmente, Avatar.

Acredito que The Hurt Locker ganhe de Avatar na disputa por Melhor Filme – isso não ocorreria apenas no caso de uma zebra, com os votantes da Academia premiando um terceiro filme conforme os votos fossem sendo computados para o chamado “consenso” feito pela instituição (aqui informações mais detalhadas sobre esta teoria em texto da sempre excelente Ana Maria Bahiana). Outro fator que pode atrapalhar The Hurt Locker em sua merecedíssima premiação (quem acompanha este blog sabe que venho apontando ele como favorito há bastante tempo) é uma certa lambança que o produtor encrenqueiro Nicolas Chartier fez na reta final da escolha para os melhores do ano feita pelos votantes (detalhes neste e neste outro texto de Ana Maria Bahiana). Seria uma pena The Hurt Locker perder o Oscar de Melhor Filme por causa deste imbecil. Mas enfim, o negócio é esperarmos para ver…

Na categoria de Melhor Diretor, mesmo que James Cameron tenha feito um grande trabalho – especialmente na concepção visual de Avatar e na condução impecável da primeira metade do filme -, considero o olhar diferenciado e o pulso firme de Kathryn Bigelow favoritos para o prêmio. Estava na hora também de uma mulher ganhar nesta categoria do Oscar, oras bolas – ainda mais quando ela tem todos os méritos. Se Bigelow não ganhar, preferia o trabalho de Quentin Tarantino que o de Cameron.

Vejamos as outras sete categorias em que Avatar concorre: não acredito que o filme vença em Melhor Trilha Sonora ou Melhor Edição (o favorito é The Hurt Locker); por outro lado, ele é o favoritíssimo para levar as estatuetas de Melhor Direção de Arte, Melhor Direção de Fotografia (pode perder esta estatueta apenas para Das Weisse Band ou The Hurt Locker), Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som (corre o risco de perder para Star Trek) e Melhores Efeitos Especiais. Se ganhar nestas categorias técnicas que considero ele como favorito, Avatar sairá do Oscar com cinco estatuetas, podendo chegar a sete (se vencer em edição e trilha sonora). Não será um mal negócio para os produtores do filme e James Cameron.

SUGESTÕES DE LEITORES: Era inevitável que eu assistisse a esse filme em algum momento. Especialmente porque este ano resolvi me esforçar para assistir a todos os principais concorrentes do Oscar antes que a premiação ocorresse. Sei lá, acho que isso segue a minha linha de ser “meio do contra” – afinal, há tempos o Oscar não parecia tão sem “brilho” como neste ano. Avatar fecha a lista dos 10 filmes indicados na categoria principal da premiação. Mas é importante comentar que o José Carlos Dias havia publicado, no dia 20 de dezembro de 2009, um comentário em que pedia uma crítica do filme aqui no blog. Pois bem, José Carlos, eu demorei bastante – porque não tive como assistir a uma cópia 3D antes -, mas acabei cumprindo a promessa de assistir a Avatar. Agora, espero um comentário teu aqui sobre o filme e sobre o meu texto. Um abração e obrigado por mais esta dica das boas.

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The Messenger – O Mensageiro

Há temas que afetam muito mais a determinados países e/ou coletivos do que outros. Os efeitos da Guerra do Iraque, por exemplo, tem um apelo direto no público dos Estados Unidos porque eles vivem na pele a ausência e a perda de amigos e familiares. O mesmo, claro está, ocorre com os iraquianos (de forma muito mais profunda, eu diria) e demais nacionalidades envolvidas no conflito. Um país que não enfrenta periodicamente os problemas provenientes das guerras não entende todas as dimensões que ela afeta ou as feridas que acarreta. Por isso mesmo, The Messenger não terá o apelo com o público brasileiro como ele consegue ter com o estadunidense. Com dois atores perfeitos e um roteiro com muitos altos e baixos, este filme se debruça sobre os efeitos da guerra na casa e no quintal dos estadunidenses. Ao trazer para a frente das câmeras um olhar mais particular sobre a guerra, The Messenger procura dar nome e rosto para os familiares em luto, tornando cada perda da guerra em algo particular. O resultado é impactante no início, mas depois a produção vai perdendo força e trilhando caminhos previsíveis demais.

A HISTÓRIA: O sargento Will Montgomery (Ben Foster) passa por mais uma consulta médica antes de se encontrar com Kelly (Jena Malone), uma antiga namorada que atualmente está noiva de Alan (Michael Chernus). Atualmente, Montgomery tem que se acostumar com as visitas rotineiras ao médico. Faltando três meses para terminar o seu período de alistamento, ele acaba sendo designado para trabalhar ao lado do capitão Tony Stone (Woody Harrelson) em um tipo de trabalho que ele jamais imaginou desempenhar: o de comunicar os familiares sobre a morte de seus entes queridos na Guerra do Iraque. Depois de vencer a morte e salvar amigos do Exército na guerra, Montgomery acreditava que tinha sido preparado para tudo, mas se surpreende com os desafios que a vida “comum” podem lhe apresentar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Messenger): A primeira parte do roteiro de Alessandro Camon e do diretor Oren Moverman é bastante promissora. The Messenger começa de uma forma diferente do usual, focando o protagonista, considerado um herói, de maneira fria e em atitudes pouco honradas. Afinal, não sabemos em detalhes quem é Kelly, mas logo fica claro que Montgomery está colocando os chifres em alguém. Esta desmistificação do “herói de guerra” parece ser um dos objetivos principais do filme. Os protagonistas de The Messenger parecem tudo, menos modelos a serem seguidos – isso se alguém ainda acredita que existam “modelos” a serem seguidos. 😉

Depois de apresentar um comportamento um bocado antissocial, Montgomery é apresentado a uma missão que considera quase uma “piada”. Ou, talvez, uma espécie de castigo. Até que entra na primeira casa junto a Stone para informar os familiares do primeiro soldado morto, Montgomery considera o trabalho no Grupo de Notificação de Vítimas e seus protocolos um desperdício de tempo para um militar. O espectador, colocado na posição de Montgomery, também não entende muito bem que tipo de missões são aquelas, até que o trabalho começa a ser feito. E daí entra a parte mais interessante de The Messenger: cada comunicado nos transporta para a intimidade das famílias dos soldados mortos, acabando de uma vez com a política dos “números de guerra” e passando a humanizar a barbárie.

Isso funciona por um tempo ou, melhor dizendo, até a segunda visita da dupla Montgomery/Stone aos familiares dos soldados aniquilados. A partir do momento em que o protagonista se encontra com a personagem de Olivia Pitterson (Samantha Morton), o roteiro de The Messenger dá uma guinada fundamental para o desenrolar da história. Pena que ela essa guinada foi feita para o lado errado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, quantos filmes já foram feitos sobre o “difícil que é a vida para um ex-combatente”? Inúmeros, hein? Poderia fazer uma lista deles. Por isso mesmo que a partir do momento em que The Messenger resolve mostrar os “fantasmas” e feridas nunca cicatrizadas da dupla de protagonistas ele se torna praticamente “mais um” na lista. Alcoolismo, falta de tato social, violência exagerada, uma constante falta de paciência e dificuldade de dormir, todos estes sinais que “acompanham” soldados que voltaram de uma guerra já são velhos conhecidos de quem acompanha os filmes do gênero produzidos por Hollywood.

Além disso, o roteiro de The Messenger simplifica demais os seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos estão sofrendo, de uma forma ou de outra. Os protagonistas não se adaptam a uma vida normal, enquanto que o luto dos familiares por eles notificados aparece e desaparece de forma muito pontual – com exceção para a personagem de Olivia que acaba virando obsessão para Montgomery. Todos aquelas pessoas parecem um tanto “rasas” demais. Não há sutileza em parte alguma, apenas um permanente tom acima do normal. Nenhum dos personagens parece capaz de sentir algum prazer verdadeiro – o sentimento de perda eterna permeia todas as relações. Até mesmo a aproximação de Olivia e Montgomery está carregada de culpa, remorso e dor.

Não quero dizer, com tudo isso, que estes sentimentos não sejam condizentes com muito da “realidade” explorada pela história. Mas será mesmo que todos os minutos daquelas pessoas todas se resumem a isso ou houve uma exagerada no roteiro para que estes sentimentos de luto e perda estivessem a todo momento na tela? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei um tanto forçada a tentativa do protagonista em se aproximar de Olivia. Inicialmente, ele parecia ter apenas a curiosidade em “desmascarar” aquela mulher que, em sua opinião, não reagiu como deveria com a notícia da morte do marido. Mas depois, ele realmente parece enxergar nela uma alternativa de “felicidade”. Certo que Montgomery e Stone parecem estar permanentemente em busca de alguma sensação de prazer, de compreensão, mas honestamente isto não aparece de forma tão convincente como deveria.

A culpa desta falta de convencimento não está na dedicação dos atores para seus papéis e sim nas linhas de roteiro algumas vezes pouco críveis. Ben Foster e Woody Harrelson tem desempenhos muito bons, bem acima da média – deles próprios e de outros atores em papéis similares. Ainda assim, o trabalho de ambos não é suficiente para evitar que The Messenger caia em lugares comum e desvie seu foco de uma direção inicial que parecia muito promissora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dar nome e apresentar um contexto para as vítimas das guerras em que os Estados Unidos se envolve colocando o espectador dentro do quintal de quem sofre com o luto sem fazer disso um melodrama foi um acerto da produção. Questionar também a finalidade destas mortes e a noção de “herói de guerra” sem fazer grandes discursos a respeito também é algo sempre interessante de ser feito no cinema. Agora bater na velha tecla das “marcas indeléveis” que uma guerra provoca em quem volta para “casa” sem apresentar a força vista em The Hurt Locker, para citar um exemplo recente, foi um verdadeiro desperdício.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As ironias proferidas pelo personagem de Woody Harrelson são alguns dos pontos altos do roteiro do diretor Oren Moverman e de Alessandro Camon. Pena que a “fina ironia” do personagem se perca depois nas lamentações e algumas frustrações do superior que se sente “abaixo” – ainda que não admita – do subordinado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei especialmente irritada com uma cena: quando Tony Stone chora no sofá de Montgomery depois que ele narra a experiência que teve salvando companheiros de pelotão na guerra. Honestamente? Não era para tanto. Aquele mesmo choro, apresentado de outra forma, teria me convencido, mas não como a cena foi filmada por Moverman. Talvez a cena emocione a muitas pessoas, mas a mim ela apenas me deixou decepcionada.

The Messenger é um filme declaradamente de dois atores: Ben Foster e Woody Harrelson, nesta ordem. Ainda assim, há personagens secundários que roubam a cena quando aparecem. Destaco, em especial, aos atores Steve Buscemi, que interpreta ao enlutado Dale Martin; Eamonn Walker como o coronel Stuart Dorsett, responsável por aproximar Montgomery e Stone; e a Yaya DaCosta como Monica Washington, namorada do soldado Leroy, e Portia, que interpreta a mãe do militar, a primeira dupla a nos emocionar.

Gostei do estilo de direção de Oren Moverman. Ele assume a postura de um documentarista e, geralmente, acompanha os passos de seus atores como um observador “da realidade” que está sendo mostrada. Claro que tudo isso é mais que intencional. The Messenger, com esta idéia de “câmera na mão” e uma narrativa seguindo a ótica dos personagens – especialmente a de Montgomery – busca aprofundar o “mergulho” no cotidiano que a história busca desvelar. Uma escolha acertada, ainda que nada inventiva.

The Messenger caiu nas graças da opinião do público e da crítica. Até mais dos segundos do que dos primeiros. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para a produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 88 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 90%. Nada mal!

O filme dirigido por Oren Moverman completou mais de um ano de “estrada”. Ele começou sua caminhada no Festival de Sundance em janeiro de 2009 e, de lá para cá, participou de outros 17 festivais pelo mundo. Pouco a pouco The Messenger foi conquistando sete prêmios e acumulando outras 16 indicações. Entre os mais importantes que conquistou estão dois prêmios no Festival de Berlim – o de melhor roteiro e o “Peace Film Award” para Oren Moverman – e dois prêmios como melhor filme (pela crítica e o prêmio principal) no Festival de Cinema de Deauville. O respeitado National Board of Review também entrou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e o “Spotlight Award” para Moverman. Samantha Morton recebeu, merecidamente, o prêmio de melhor atriz coadjuvante na premiação anual da Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. No Globo de Ouro, The Messenger apareceu apenas em uma categoria: a de melhor ator coadjuvante tendo Woody Harrelson como concorrente. Mas como todos que leram este texto sabem, Harrelson não ganhou o prêmio.

O filme não tem se saído bem nas bilheterias. Pelo menos nos Estados Unidos. Até o dia 7 de fevereiro The Messenger tinha arrecadado pouco mais de US$ 804 mil nas bilheterias. Um valor muito baixo, especialmente porque este tema e, principalmente, o enfoque da produção deveria agradar, especialmente, o público estadunidense.

Para os interessados na parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Bobby Bukowski; a edição de Alexander Hall e a trilha sonora de Nathan Larson.

Entre os críticos que gostaram de The Messenger destaco Rex Reed, do The New York Observer. Ele comenta, neste texto, que muitos filmes que trataram dos conflitos no Oriente Médio se deram mal nas bilheterias e que, agora, surge para o público o “sensível e inteligente” The Messenger. Reed destaca que a produção marca a estréia na direção do roteirista conhecido por I’m Not There. Para o crítico, The Messenger é superior ao filme sobre Bob Dylan, especialmente porque o filme conta com as interpretações espetaculares de Ben Foster, Woody Harrelson e Samantha Morton. Achei especialmente interessante quando o crítico comenta sobre a aproximação de Montgomery e Olivia, afirmando que cada um dos personagens demonstra “os efeitos da fadiga da batalha”, seja ela tendo sido travada “nas trincheiras ou na frente em casa”. Mesmo com todos os elogios, Reed admite que The Messenger sofre com uma série de clichês de produções do gênero.

Outro crítico que aprovou The Messenger foi Michael Phillips, do Chicago Tribune. Ele escreveu, neste texto, que o trabalho desempenhado pelos protagonistas do filme está entre os mais “exaustivos” que um ser humano pode ser chamado a desempenhar. Ainda assim, escreve Phillips, The Messenger não é um filme esgotante, pelo contrário. A produção oferece “uma gama completa de emoções delicada que humaniza os personagens e deixa as polêmicas para um segundo plano”. Comparando esta produção com The Hurt Locker, Phillips afirma que o único ponto em comum dos dois filmes é que ambos são apolíticos e “honram o guerreiro sem colocar a guerra em um trono”. O conflito de The Messenger reside na relação do protagonista com uma viúva de guerra, na visão do crítico. Phillips destaca a interpretação de Foster e Harrelson afirmando que ambos tem um desempenho “sólido como uma rocha e muito comovente”, e que Samantha Morton empresta veracidade e “calor” suficientes para sua personagem. Para o crítico The Messenger não trata de uma guerra específica, mas se apresenta “tranquilamente universal”.

Finalizando a sequência de críticos que aprovaram The Messenger, cito Claudia Puig, do USA Today, que afirma, neste texto, que todos sabem que não devem atirar no mensageiro e, ainda assim, as reações violentas vistas em The Messenger ao que os protagonistas comunicam tem um “sentido trágico”. Ela considera que a história de “cortar o coração” ganha um fascínio especial pelas “performances soberbas” de seus atores, especialmente Ben Foster e Woody Harrelson. Puig também destaca o trabalho de Samantha Morton, classificando seu desempenho de “sutil” e “excelente”. Para a crítica, The Messenger apresenta um “olhar completamente diferente sobre a Guerra do Iraque e os seus efeitos sobre soldados e civis”. A crítica do USA Today classifica a produção como um “retrato de tristeza, amizade e consolo”, e destaca o senso de autenticidade “corajoso” impresso pelos roteiristas Oren Moverman e Alessandro Camon. Para Puig, The Messenger é um companheiro perfeito para The Hurt Locker, o filme mais “poderoso” sobre a Guerra do Iraque e um “dos melhores do ano”.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos efeitos da guerra sem, para isso, mostrar um único combate ou explosão. The Messenger lança um olhar “doméstico” sobre a Guerra do Iraque ao narrar a história de dois militares que tem como missão informar aos familiares de soldados mortos em combate sobre as suas perdas. Filmado com uma levada de documentário, este filme acerta a mão em seu trecho inicial mas, depois, cai em uma série de clichês desnecessários. Além de dar nomes e uma dimensão familiar para os números de uma guerra, The Messenger se lança em uma reflexão natural sobre o sentido do luto reinante. Com atuações convincentes e algumas sequências realmente emocionantes, The Messenger se diferencia de muitas produções do gênero, até um certo ponto, mas depois perde força ao ceder espaço para vários lugares-comum. Infelizmente a “inventividade” do roteiro não se sustenta por muito tempo. Ainda assim, The Messenger não deixa de ser um complemento interessante para o infinitamente superior The Hurt Locker.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Messenger foi indicado em duas categorias no Oscar deste ano: melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e Melhor Roteiro Original. Francamente, não vejo que o filme tenha chances nestas categorias. Por mais que Harrelson esteja muito bem no filme, ele não consegue superar o trabalho realmente impecável e inspirador de Christoph Waltz em Inglourious Basterds. Como roteiro The Messenger também perde para seus concorrentes. The Hurt Locker e Inglourious Basterds são superiores ao resultado final do trabalho de Alessandro Camon e Oren Moverman. Também gosto mais do roteiro dos irmãos Coen para A Serious Man. The Messenger, como eu disse antes, apresenta um roteiro muito irregular. Provavelmente o filme sairá de mãos vazias da premiação – seria uma zebra se ele ganhasse alguma das estatuetas.