Lope


Guerra, pobreza, perda, teatro, poesia, talento e amores, dois grandes amores. Lope, novo filme dirigido pelo brasileiro Andrucha Waddington, trata de parte da vida daquele que é um dos grandes nomes da literatura espanhola: Lope de Vega. Ambientado na Espanha – boa parte do tempo em Madrid – logo após a Batalha da Ilha Terceira (1582), o filme revela um resgate de época primoroso, com um belo trabalho de figurinos, direção de arte, direção de fotografia e trilha sonora. A história, contudo, se concentra em um período muito curto da vida do artista, dedicando-se a explorar dois de seus vários amores. Dirigido com talento mas sem ousadias por Waddington, o filme se mostra um belo exercício de cinema feito com cuidado, mas longe de surpreender ou impactar. Acerta, no entanto, ao inserir vários trechos de obras do poeta.

A HISTÓRIA: Lope de Vega (Alberto Ammann) descansa junto com outros homens enquanto assiste alguns jovens voltando para casa. Escutamos a sua voz narrando uma carta enviada para a mãe, Paquita (Sônia Braga). Ele está voltando para Madrid, “cheio de orgulho”, após ajudar outros espanhóis a ganhar a Batalha da Ilha Terceira contra os franceses, em 1582, nos Açores. Com a ajuda de um amigo, Lope se veste bem e monta em um cavalo branco para chegar de forma triunfante na casa materna. Aparenta ter condições que, na verdade, não possui. A mãe doente lhe recebe com alegria, mas em pouco tempo ele terá que se virar sozinho. Para isso, busca o caminho da corte e do teatro, escrevendo peças para Jerónimo Velázquez (Juan Diego).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lope): Achei esta produção bastante correta. Mas entendo que alguns espanhóis esperassem mais do filme dirigido pelo Andrucha. Ainda assim, devo dizer, não acho que a solução fosse apelar para o bairrismo, ou seja, que um diretor de lá faria algo melhor simplesmente por ter no sangue e nas “raízes” a mesma origem do aclamado Lope de Vega. A verdade é que, ao assistir Lope, me lembrei muito de Shakespeare in Love, produção de 1998 ganhadora de sete Oscar. E cá entre nós, o filme estrelado por Joseph Fiennes e Gwyneth Paltrow se mostra bem mais interessante. Por vários fatores. Inclusive por um elenco “de apoio” estelar e muito competente.

Além disso, a produção de 1998 tinha, a seu favor, o fato de poucas produções de Hollywood terem se dado ao trabalho de “humanizar” grandes ícones do teatro e/ou da literatura. Foi interessante, por isso mesmo, “conhecer” – porque se trata de uma ficção e não de uma cinebiografia – parte das desventuras criativas e amorosas de Shakespeare. Contou a favor da produção, também, o tempo que ela dedicou para mostrar os bastidores do teatro inglês em uma época de efervescência cultural, dificuldades financeiras e uma certa “exploração” dos artistas por parte da nobreza.

Estes elementos todos são mostrados também como o tempero de Lope. Mas no lugar de Shakespeare e de Londres, temos a Lope e Madrid. O problema do filme de Andrucha é que o roteiro de Jordi Gasull e Ignacio del Moral explora pouco e de forma muito tradicional e óbvia o contexto da época. O espectador percebe também o clima de pobreza e dificuldades da população em contraste com a realidade dos nobres, assim como o gosto popular pelo teatro, mas estes elementos ganham pouco destaque perto das cenas sensuais e provocantes do protagonista e suas duas mulheres.

Uma qualidade da produção, como costuma ser feito em filmes do gênero, é o espaço que o roteiro dedica para os textos originais do “homenageado”. Assim, o espectador pode conhecer alguns dos mais belos versos do autor em seu início de carreira – uma pena que obras posteriores de Lope, mais conhecidas que as citadas, acabem ficando de fora por razões óbvias. Escancaradamente “romântico”, este filme procura valorizar o amor do protagonista com Isabel (a sempre fantástica Leonor Watling). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os dois terminam juntos e o público sorri com o canto da boca quando eles saem de cena na clássica sequência a galope. Sem o tradicional “saiba mais” em forma de letreiros no final da produção, o que o público não sabe é que Lope e Isabel ficariam juntos apenas mais seis anos. Isabel morreu em 1594 após um parto. Lope então escreveu uma de suas principais obras, La Arcadia.

Para um filme de época e inspirado na história de um grande escritor, Lope é apenas correto. Tem todos os elementos que se esperam de um filme do gênero: ótima reconstrução de época, figurinos, direção de fotografia e trilha sonora (falei de cada um deles posteriormente). E ainda que os atores principais sejam experientes e mostrem segurança para desempenhar os seus pais, assim como que se perceba uma química importante entre Alberto Ammann e Leonor Watling, em especial, a sensação que perdura após assistir a esta produção é que lhe falta um pouco de “tempero”.

Talvez um pouco mais de literatura, ou de romance. Quem sabe um pouco menos de “corpos ardentes” e um tanto a mais de contextualização dos fatos da época – por que, afinal, Madrid era tão importante naqueles anos? Essa explicação o filme não apenas deixa de fora, como perde a oportunidade de explorar. Assistindo a Lope, não fica fácil perceber que aquela cidade era uma das principais do mundo de então. Pelo filme, Madrid continua sendo um tanto obscura, misteriosa, relativamente efervescente e um bocado parecida com qualquer outra cidade retratada pelo cinema naquela época. O que não é verdade.

A equipe deste filme faz um belo trabalho técnico, mas faltou um pouco de inspiração para tornar o filme acima da média. Assim, Lope acaba sendo mais uma peça de cinema bem feita, com belas cenas, apresentando uma música envolvente e um grupo de atores afinado. Mas fica longe do encanto de Shakespeare in Love e da ousadia acertada de Quills, de 2000, protagonizada por Geoffrey Rush e Kate Winslet – dois filmes sobre autores importantes e que, cada um a sua maneira, se mostraram superiores a Lope.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Lope faz algumas rápidas pinceladas na época histórica do protagonista. Ele começa citando um confronto entre espanhóis e franceses. Em outro momento, cita “armadas” em Lisboa, a saída de navios com soldados através do rio Tejo. Mas sempre vale fazer um pequeno resgate além daquele mostrado pela produção para situar um pouco mais o espectador naquele período do filme.

Félix Lope de Vega y Carpio, o protagonista do filme de Andrucha, se alistou na marinha espanhola em 1582 e 1583. Naqueles anos, ele teria participado da importante Batalha da Ilha Terceira, na qual o marquês Felipe II conseguiu liderar uma grande frota de embarcações nos Açores para derrotar mercenários franceses. Estes últimos apoiavam Don Antonio em suas pretensões de tornar-se rei de Portugal. A vitória de Felipe II fez com que ele se conseguisse o trono português, mas provocou nos espanhóis um sentido de “superioridade” na batalha que seria fatal em ocasiões seguintes.

Sobre esta época história e esta batalha, especificamente, recomendo este texto de José Ramón Cumplido Muñoz (em espanhol). Nele, o autor comenta sobre Espanha e Portugal que, na época retratada por Lope, eram considerados os países mais poderosos da Europa devido aos seus impérios coloniais (vale lembrar a “conquista” da América em 1492) e “uma série de matrimônios políticos que entrelaçaram as duas dinastias entre si e com o restante da realeza europeia”.

Lope teria participado ainda da Frota Invencível, formada em 1583. Um ano antes, o resultado da batalha foi o seguinte: os espanhóis tiveram 250 mortos e 550 feridos, sem perder nenhum barco da frota – mas todos apresentaram avarias; e os franceses perderam 11 barcos e aproximadamente 1,5 mil homens. Em 1583, a armada comandada por Don Álvaro de Bazán reuniu 98 barcos e 15 mil homens.

Algo bacana que o filme faz é o resgate do Teatro Español. Como se pode ver nesta página sobre a cultura de Madrid, em fotos antigas, aquilo que assistimos em Lope reproduz com fidelidade o ambiente da época. Segundo o texto (em espanhol), desde o século XVI (nos idos retratados no filme, de 1500 em diante), o teatro era encenado no “legendário Corral de la Pacheca”, que muitas vezes era alugado para o teatro pelas “Cofradías de la Soledad y de la Pasión” (Confrarias da Solidão e da Paixão). Com o aluguel do espaço para a realização de peças, os frades conseguiam recursos para a construção e a manutenção dos hospitais que atendiam à população e à Corte.

Interessante que, segundo o mesmo texto, em 1582 foi construído o “Corral del Príncipe”, que abriria as suas portas em 21 de setembro de 1583. Vale lembrar, segundo este texto que faz referência a Lope, que ele lutou na marinha em 1583 e, em seguida, teria voltado para Madrid. Ele chegou na cidade, justamente, quando o novo espaço para o teatro tinha sido recém-inaugurado.

Recomendo ainda este texto da Biblioteca Nacional de España sobre o chamado “Siglo de Oro” (Século de Ouro) do teatro espanhol. Segundo o texto, “nunca antes coincidiram tantos gênios em um espaço de tempo tão pequeno e em tantas áreas da arte. Do Renascimento do século XVI até o Barroco do século XVII nasceram e morreram Lope, Tirso, Calderón, Rojas Zorrilla, Vélez de Guevara, Guillén de Castro, Ruiz de Alarcón, Moreto, Solís, Bances, Cervantes, Góngora, Quevedo, Gracián, San Juan de la Cruz, Garcilaso, Fray Luis de León, El Greco, Velázquez, Murillo, Ribera, Zurbarán, Juan de la Encina, Alonso Cano, Gil de Hontañon…, a lista é interminável e a produção teatral da época é extraordinária, não apenas pela quantidade mas também pela qualidade de muitas de suas obras. A figura de Lope de Vega se destaca em seu tempo: más de 1500 peças teatrais assinadas por ele testemunham uma inspiração fora de qualquer medida”.

O mesmo texto faz uma seleção de autores que viveram em um tempo “que iluminou e serviu de referência para o resto do mundo” e que representaria a “essência” do patrimônio cultural espanhol. Recomendo o link sobre Lope que conta um pouco da sua história e disponibiliza parte de sua obra. Interessante que, na breve biografia do autor, eles comentam que ele nasceu e morreu em Madrid, e que foi aluno dos jesuítas – que aparecem, no filme, representados pelo frei Bernardo (Luis Tosar). Segundo o mesmo texto, Lope “teve uma vida agitada e cheia de lances amorosos”. Ele teria se alistado duas vezes na Marinha, tendo se casado ainda duas vezes – uma com Isabel de Urbina (mostrado no filme) – e outra com Juana de Guardo (em 1598).

No texto da Biblioteca Nacional, Lope teria renovado “as fórmulas do teatro espanhol em um momento em que o teatro havia se convertido em um fenômeno de massas e assim, depois de uma grande experiência como dramaturgo, apresentaria um pedido para a Academia de Madrid para a Arte Nova de fazer comédias (1609), pela qual expõe de forma irônica as suas teorias dramáticas. Ele rompe então com a estrutura da obra dramática de lugar, tempo e ação, mesclando o cômico e o trágico, tratando, diz, de imitar a natureza, colocando assim um fim às propostas da escola italiana fundada sobre a Poética e a Retórica de Aristóteles. Sua obra, tão excessiva como a sua vida, conta com uns 3.000 sonetos, 4 novelas curtas, 9 epopeias, 3 poemas didáticos e umas 1500 obras dramáticas segundo sua própria declaração. Desta obra se conservam 426 comédias atribuídas ao autor (das quais apenas 314 são certas) e 42 autos de sacramento. Estas obras dramáticas eram compostas somente para serem representadas  e o autor não ficava com nenhuma cópia para si. O exemplar passava por cortes, adequações, ampliações e retoques dos atores”.

Diante de tudo isso, reafirmo ainda mais a falta de “força” do filme de Andrucha. Lope não deixa claro não apenas a época histórica, a força da Espanha no cenário mundial naqueles anos, como também não revela com profundidade a popularização do teatro na época. Passamos muito tempo assistindo ao romance do protagonista com Elena Osorio, a “Filis” de algumas de suas obras, e não entendemos bem o contexto e a importância de Lope para a época. Aliás, tudo que “sabemos” sobre este último ponto é dito por uma ou duas bocas durante a produção, mas não é possível perceber aquela “era de ouro” com a aparição de outros autores, por exemplo. Uma pena – e um desperdício.

Falando em Elena Osorio (interpretada no filme por Pilar López de Ayala), ela seria lembrada muitos anos depois por Lope no romance em prosa La Dorotea. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Segundo este texto, quando Lope conheceu Elena, ela estava separada do marido, o ator Cristóbal Calderón. Enquanto Lope mantinha um romance com ela, ele fazia negócios com o pai da moça, o empresário de teatro e autor Jerónimo Velázquez. Em 1587, Elena aceitou casar-se uma segunda vez com o nobre Francisco Perrenot Granvela. Curioso que, no filme, ela já começa casada com Tomás de Perrenot (interpretado no filme por Miguel Ángel Muñoz).

Quando Lope escreveu aqueles versos “infames” contra Elena e seu pai, Velázquez, na peça Belardo Furioso, ele já tinha começado um romance com Isabel de Alderete y Urbina, filha do pintor do rei Diego de Urbina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lope e Elena teriam se casado no dia 10 de maio de 1588, depois que ele “raptou” a moça com o consentimento dela – curioso como eles chamavam uma fuga consentida na época, não? Em seus poemas, Lope chamou a amada de Belisa.

Condenado a ficar oito anos longe da Corte, sendo dois deles fora do “reino de Castilla” (do qual fazia parte, a partir do século XVI, Madrid e outra cidades próximas), Lope passou a viver com Isabel em Valência. Em 1590 eles se mudaram para Toledo – cidade muito próxima a Madrid. Como eu disse antes, Isabel morreu em 1594, quando Lope escreveu La Arcadia. No ano seguinte, o autor voltou para Madrid, aonde manteve vários romances, casando-se com Juana de Guardo em 1598.

O curioso desta última história, segundo este texto, é que muitos pensavam que Lope teria se casado com Juana por dinheiro – porque ela seria uma mulher muito vulgar e alguns desconfiavam do “amor” entre os dois. Teria sido, depois da história envolvendo Elena, uma grande ironia, não é mesmo? De qualquer forma, com ela o autor teve quatro filhos – três meninas. Mas, mulherengo como só ele – pelo que tudo indica -, Lope ainda teria outros romances, inclusive com uma mulher casada, Micaela de Luján, com quem ficaria até 1608 – e com quem teria tido cinco filhos. Segundo conta a história, ele teria vivido entre as duas famílias e mantido, além das relações com Micaela e Juana, outros romances.

Lope morreu em 1635. Ele recebeu, então, homenagens de 200 autores, e teria sido aclamado por quase toda a Espanha. Em sua época, muitas pessoas utilizavam a expressão “É de Lope” para sinalizar que algo tinha uma qualidade excelente.

Depois desta “contextualizada” histórica e artística – porque o filme passa disto batido -, quero comentar sobre a produção propriamente. Como disse anteriormente, a direção de Andrucha é correta. Nada mais. O roteiro dos espanhóis Jordi Gasull e Ignacio del Moral, contudo, se mostra ainda pior. O grande problema de Lope é a forma superficial com que o tempo da narrativa e a própria vida de Lope são tratados. Fora o recurso já um bocado desgastado de inserir trechos literais da obra do “homenageado” durante a trama, o roteiro segue uma trajetória linear, previsível e rala. Uma pena – especialmente porque o personagem renderia uma história muito mais complexa.

Na parte técnica, sem dúvida alguma se destacam a direção de fotografia do brasileiro Ricardo Della Rosa (responsável, anteriormente, pelas belas imagens de Casa de Areia e À Deriva) e a trilha sonora do espanhol Fernando Velázquez. A trilha sonora, aliás, conta com uma canção especialmente composta por Jorge Drexler (para quem não sabe, sou apaixonada por este uruguaio). O título da canção é “Que el soneto nos tome por sorpresa”, e o clipe, dirigido por Andrucha, pode ser visto neste link. Apenas por ter uma música do Drexler esse filme ganhou uns pontinhos comigo. 😉 Falando em música, para quem não conhece, super mega recomendo a banda Marlango, da qual Leonor Watling é a vocalista.

Agora, faço um capítulo à parte sobre o elenco. Bacana ver o reencontro dos atores Luis Tosar e Alberto Ammann. Ainda que, cá entre nós, ambos se saem melhor no interessante Celda 211 (comentado aqui no blog). As atrizes que contracenam com Ammann se destacam. Pilar López de Ayala segura muito bem o seu papel, mais complexo que o de Leonor Watling. Mas mesmo que o da segunda seja bastante linear, ela consegue destacar-se pela beleza e por uma forma de se destacar em cena que é típica das grandes atrizes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, os brasileiros, são de lamentar. Sônia Braga, coitada, aparece para morrer, praticamente. A atriz figura alguns segundos, na recepção de Lope após a sua primeira ida à guerra, e logo depois a sua personagem evapora. Selton Mello faz pior. Ele interpreta com um espanhol terrível ao Marqués de Navas, para quem Lope trabalhou por um período. Me desculpem os fãs do ator, mas dói nos ouvidos escutá-lo tentando falar espanhol. Um pouco mais de treino e/ou preparo teria feito muito bem para ele e para a produção.

Vale comentar ainda a presença marcante de atores conhecidos do público espanhol, como o já citado veterano Juan Diego como Jerónimo Velázquez, bastante conhecido pela série Los Hombres de Paco, entre outras produções para a TV; e Antonio de la Torre como Juan de Vega, irmão de Lope.

Lope estreou  na Espanha no dia 3 de setembro. Uma semana depois, ele marcava presença no Festival de Veneza, aonde recebeu críticas medianas e uma certa “resistência” dos comentaristas espanhóis. Até o final do mês, o filme passaria ainda pelos festivais de Toronto e do Rio. Até o momento, não foi indicado a nenhum prêmio. Segundo este texto, ele tinha sido cotado entre os finalistas para representar a Espanha no próximo Oscar, mas acabou sendo vencido por También la Lluvia, dirigido pela madrilenha Icíar Bollaín.

Segundo as notas de produção do filme, Lope foi filmado na Espanha e no Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para a produção. O Rotten Tomatoes abriga apenas uma crítica para o filme, assinada por Deborah Young, do The Hollywood Reporter. Nele, a crítica comenta que Lope é uma “produção elegante” e que deverá agradar ao público do cinema e da televisão. Só achei estranho quando Young cita que o filme tem “um trio de belas e talentosas jovens atrizes”… de que trio ela está falando? Ok Leonor e Pilar, mas quem seria a terceira? Certamente ela não estaria se referindo a Sonia Braga, certo? 🙂

A crítica também sente um certo clima de Shakespeare in Love em Lope, citando, inclusive, que o autor espanhol nasceu dois anos antes do ícone do teatro e literatura ingleses. Para Young, Waddington acerta ao fazer uma aproximação perspicaz entre o relacionamento que Lope desenvolve com Velázquez e aquele que marca os produtores e os diretores de cinema da atualidade – honestamente eu não sei aonde ela enxergou isso no filme, mas ok. Para ela, Ammann apresenta um “herói arrojado, impulsivo e bastante simpático” que se conecta ao espírito feminino atual.

Falando em público feminino, tenho certeza que as meninas vão adorar os “bofes” espanhóis que aparecem em cena – ainda que Ammann seja, na verdade, de Córdoba, na Argentina. E os homens devem apreciar as beldades comentadas por Young. Visualmente falando, sem dúvida, é um filme interessante. 🙂

Para quem quiser saber mais sobre o escritor e sua obra, indico este link, com um biografia de Lope, e este outro com alguns de seus textos. Na verdade, indico ainda este e este outro link com alguns de seus poemas.

Dos seus textos, vale citar aquele que “encerra” o filme – e que, convenhamos é belo, belíssimo:

“Desmayarse, atreverse, estar furioso,

áspero, tierno, liberal, esquivo,

alentado, mortal, difunto, vivo,

leal, traidor, cobarde, animoso,

no hallar, fueral del bien, centro y reposo,

mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,

enojado, valiente, fugitivo,

satisfecho, ofendido, receloso.

Huir el rostro al claro desengaño,

beber veneno por licor suave,

olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,

dar la vida y el alma a un desengaño:

esto es amor. Quien lo probó lo sabe”.

CONCLUSÃO: Um filme de época bem dirigido e que resgata um capítulo importante da história da Espanha, assim como uma pequena parte de um de seus principais escritores. Intercalando uma narrativa que ambienta o espectador na Madrid do final dos anos 1580, com o seu florescente teatro, com uma marcante levada de romance e algo de aventura, Lope resgata alguns trechos líricos do personagem-título. Tecnicamente bem feito, o filme só peca pela falta de ousadia de seu roteiro e pelo trabalho apenas “correto” do diretor Andrucha Waddington. Por ter cenas belíssimas e um trabalho bem feito de reconstrução de época, assim como uma trilha sonora bem calibrada e uma direção de fotografia perfeita, deve agradar aos que procuram um filme leve, interessante, mas sem nenhum rompante criativo. Vale destacar ainda o bom trabalho dos atores, especialmente o de Leonor Watling. Mas, infelizmente, perto de filmes do mesmo gênero, como Shakespeare in Love e Quills, se mostra inferior. Mais que ousadia, lhe falta contextualização – ele não deixa claro a importância de Madrid para a época – e um bocado de “tempero” (inclusive nos romances). Sem contar que ele deixa boa parte da história mais interessante de Lope de fora.

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