Lola


Há tempos eu tenho vontade de assistir a um filme do diretor Brillante Mendoza. Quem acompanha alguns dos principais festivais de cinema espalhados pelo mundo – além da fronteira de Hollywood – sabe que este filipino tem sido um nome de destaque nos anos 2000. Pois bem, estreei o meu conhecimento sobre o cinema de Mendoza com este Lola. Um filme delicado e potente, ao mesmo tempo. Que apresenta uma realidade impressionante e uma dignidade que faz pensar. Lola significa avó. E são duas avós que protagonizam esta história sobre a busca pela justiça e pela sobrevivência. Para os que não temem fugir do feijão com arroz apresentado pelo cinema dos Estados Unidos e que aceitam uma rápida adaptação a um filme com um ritmo próprio, é uma pedida bem interessante.

A HISTÓRIA: Uma senhora de idade tira uma nota da carteira e compra uma vela. Ela guarda o troco, algumas moedas, e sai caminhando ao lado do neto, Jay Jay (Bobby Jerome Go). Eles caminham devagar, e entram em uma igreja. Mas não ficam muito tempo ali. O lugar para aquela vela não é um altar. Eles seguem caminhando pela calçada, passando por vendedores de todos os tipos e também por muitos marginalizados. Começa a chover, e a ventar, e a avó Serpa (Anita Linda) luta para manter o guarda-chuva aberto enquanto, com a ajuda de Jay Jay, tenta fazer a vela que trouxe ficar acesa perto de uma ponte. As crianças que estão ali perguntam o que eles estão fazendo, e Jay Jay explica que o tio dele foi morto naquele local no dia anterior. A avó se emociona, mas recobra as energias para, após prestar a sua homenagem, dirigir-se com dificuldade até a funerária onde é apresentada para diferentes tipos de caixão. A partir daí, ela começa uma longa peregrinação para conseguir dinheiro para enterrar ao neto, e também para buscar justiça pelo seu assassinato. Na outra ponta desta tragédia familiar, está a avó Puring (Rustica Carpio), que tenta libertar o neto Mateo (Ketchup Eusebio), acusado de ter cometido o crime.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lola): As primeiras características que me chamaram a atenção neste filme foram o ritmo naturalista e reflexivo da direção de Mendoza e a violência da realidade que ele resolveu retratar. O tom cinza não se revelou apenas nos dias de tempestade, mas também na dura realidade das famílias retratadas. A violência da história não precisou ser mostrada pela reprodução da cena do crime, por exemplo. A maior violência estava plasmada ao redor daquelas vidas, na dura realidade de um clima desfavorável, nas ruas e nos bairros com escassez de tudo. A falta de esperança e a impossibilidade de conquistar a justiça são as maiores violências que as pessoas podem sofrer.

Pouco a pouco e sem pirotecnia o filme vai mostrando ao que veio. Como é bom assistir a filmes assim, que não forçam a barra e nem fazem discursos. Mas que vão adentrando nas histórias das pessoas, vão revelando e desvelando realidades que muitos não conhecem e, de quebra, fazem quem os assistem repensar os próprios valores, julgamentos e leituras da realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, acho que a grande lição de Lola é a reflexão sobre o conceito de justiça. Por metade do filme, pelo menos, concordamos que o justo é que Mateo pague pelo crime que ele cometeu – ainda que, cá entre nós, nunca fique totalmente claro se foi ele mesmo que matou ao neto da avó Sepa. Afinal, alguém que rouba e mata outra pessoa não pode ficar impune. E inicialmente, parece infame – ainda que compreensível – que a avó Puring tente comprar a família da vítima. Mas quando percebemos a pobreza extrema que tanto uma avó quanto outra compartilham e, especialmente, quando elas sentam em uma mesa e começam a falar de suas doenças e fragilidades, o esquadro muda de lugar. Será justiça, realmente, a avó Puring morrer sabendo que o neto está perdido? Não seria muito melhor para a avó Sepa ter um pouco mais de conforto e conseguir dar uma vida um pouco melhor para a própria família, mesmo que por um curto período de tempo?

A noção de justiça é algo vital. Sociedades são baseadas em leis que buscam dar os mesmos direitos e deveres para todos os seus integrantes. Este é o princípio básico do Direito e, consequentemente, da busca por justiça. Mas Lola nos ajuda a refletir sobre isso. É possível ter justiça ou cobrar este conceito em uma realidade onde sobram injustiças por todos os lados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas de cortar o coração neste filme. Algumas delas, verdadeiramente emocionantes. A sequência em que a avó Sepa vai passando, de casa em casa, pedindo uma “contribuição” para os vizinhos, é de apertar o coração. O mesmo acontece – ainda que seja mais um alívio, ainda que triste – com o “milagre” dos peixes que aparecem no casebre deles durante o velório. O retorno da avó Puring da visita aos familiares que moram longe, em uma busca “discreta” por ajuda, também é tocante. Enfim, realidades duras e que existem aos montes por este vasto mundo. Mas verdades tão humanas que fazem pessoas como nós, tão “distantes” daquilo tudo, refletirem sobre conceitos de justiça e de perdão.

Mesmo que a realidade de Lola pareça bastante distante do nosso dia a dia, impossível não pensar que temos algumas semelhanças ao nosso redor. E não apenas ao pensar nas periferias das grandes cidades, onde parte da população é relegada a locais sem condições adequadas para uma vida digna, mas também ao lembrar de cidades do interior onde falta um pouco de tudo. Interessante que ao assistirmos a uma realidade nas Filipinas, pensamos também em comunidades próximas. Especialmente porque o filme não esconde os diferentes tipos de pessoas e a reação que estes indivíduos tem frente ao que acontece à estas duas e bravas avós protagonistas. Há muita generosidade no caminho das duas famílias retratadas, mas há também desprezo, falta de paciência, indiferença. Ainda assim, as duas avós dão um show de sobrevivência, assumindo para si mesmas a responsabilidade de manter as suas próprias casas/famílias. Sem dúvida um grande exemplo para todos nós, independente da idade ou da condição de vida que temos.

Gostei muito da direção de Mendoza e do roteiro de Linda Casimiro. O texto dela acerta em cheio ao explorar com cuidado, em primeiro lugar, a história da perda da avó Serpa e depois, pouco a pouco, ir desvelando a história da família da avó Puring. Claro que esta escolha foi planejada, para nos levar a mudança de foco que comentei anteriormente. Inteligente. E faz o filme ir ganhando em ritmo e em interesse com o passar do tempo. Respeito o ritmo da produção, mas acho que ela demorou um pouco demais para engrenar. Por outro lado, o filme acerta em cheio em colocar as cidades, os seus e cores em primeiro plano.

Há música nesta produção, mas em momentos muito específicos, e para ressaltar trechos dramáticos. No restante do tempo, Mendoza e equipe colocam em evidência os sons da cidade, mais que os diálogos dos personagens. Aliás, não se surpreenda com sequencias longas de caminhada e vários minutos sem um diálogo sendo proferido. Neste momento, os realizadores estão nos fazendo adentrar nas ruas e casas filipinas. Devemos conhecê-las antes de ouvir o que as pessoas que por ali vivem tem a nos falar. Mendoza e Casimiro nos convidam, desta forma, a entrarmos na “pele” daquelas avós pequenas e gigantes, ao mesmo tempo. E o melhor de tudo é que eles conseguem. Vale a pena a jornada, especialmente se você não se importa em sair de seu próprio corpo, de sua própria realidade, e aprender com o que outros mais experientes tem a nos ensinar. E um dos grandes ensinamentos deste filme é que a justiça é relativa, e que a vida segue, mesmo após uma grande perda ou uma grande injustiça. E como ela segue, talvez o melhor que tenhamos para fazer é perdoar e aceitar a oportunidade que tivermos para fazer do resto desta vida um tempo um pouco mais justo ou, pelo menos, digno.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Comentei antes que o filme deixa pelo menos uma dúvida no ar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Mateo era culpado ou não? Aparentemente, sim. Afinal, quem é inocente, não responde a acusações injustas com o silêncio. Além disso, a avó dele, justificou o crime dizendo que ele havia sido agredido verbalmente. Então, aparentemente, ele cometeu o crime do qual estava sendo acusado. Também dificilmente a avó dele passaria por tantos sacrifícios se ele pudesse ser inocente, não é mesmo? Ainda assim, não deixa de ser curioso como o filme não mostra uma confissão dele ou tira esta dúvida definitivamente do ar. O que apenas reforça a ideia de que o conceito de justiça é relativo.

Aliás, falando em justiça… achei muito curioso que nas Filipinas um crime só é julgado se houver um “reclamante”. Ou seja: se por alguma razão uma pessoa não quiser seguir com uma queixa, simplesmente a polícia ignora um crime? É isso o que o filme deixa a entender. Eu já havia lido várias matérias falando de casos estranhos naquele país, inclusive de prisões injustificadas, mas isso de um julgamento só seguir se houver alguém reclamando – e pagando por isso -, achei incrível.

Lola é um filme de duas mulheres. Anita Linda e Rustica Carpio roubam a cena e são as protagonistas indiscutíveis. A interpretação das duas é tocante, e merecedora de aplausos. Além delas, vale a pena citar o ótimo trabalho da atriz Tanya Gomez, que interpreta a Ditas, filha de uma das protagonistas.

Para quem teve curiosidade de saber onde Lola foi filmado, esta produção foi totalmente rodada na ilha de Luzon, a mais populosa e importante do país. Segundo o IMDb, Mendoza rodou em várias cidades daquela ilha, entre elas Mandaluyong, Taguig e Malabon. Fiquei impressionada com as condições de vida das famílias que moram nas palafitas mostradas no filme.

Merece atenção neste filme dois aspectos técnicos bem realizados: a direção de fotografia de Odyssey Flores e a trilha sonora de Teresa Barrozo. Quando li o nome do diretor de fotografia, fiquei pensando se ele teria sido originado pelo videogame Odyssey… 🙂 Ou vai que é um nome típico das Filipinas. Me chamou a atenção também que temos um ator com o nome Ketchup e um outro chamado Benjie. Interessantes.

Lola estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros 16 festivais, incluindo os de Viena, Dubai, Hong Kong, Tribeca, Sydney e Melbourne. Em sua trajetória, o filme acumulou 15 prêmios, além de ter sido indicado a outros 18. No Oscar filipino, Lola ganhou apenas o prêmio de melhor direção de fotografia. No festival de Dubai ele venceu como melhor filme. Mas nenhum dos prêmios que recebeu foi ganho em algum dos festivais de maior relevância do mercado.

O cineasta Brillante Mendoza, de 51 anos, é natural de San Fernando, nas Filipinas. Até o momento, ele recebeu 29 prêmios e foi indicado a outros 110. Uma marca impressionante para um diretor que fez carreira em um país sem tanta tradição no cinema mundial. Diretor de 11 filmes, entre eles um curta e um documentário, Mendoza ficou mais conhecido pelas produções Serbis e Kinatay. Não assisti a nenhum deles, mas já ouvi falar que as outras produções do diretor sempre tinham uma boa carga sexual. Algo bem diferente do que ele mostra em Lola. Talvez as pessoas acostumadas com o estilo ousado do diretor sintam a diferença com este novo filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Lola. Mesmo premiado e dirigido pelo conhecido – mais nos festivais do que pelo grande público – diretor Brillante Mendoza, Lola tem apenas duas críticas linkadas no Rotten Tomatoes. As duas foram positivas. Mas por ter um número tão baixo de críticas listadas, o site ainda não publicou o seu famoso “tomatômetro”.

Indicado ao prêmio de melhor filme no Festival de Veneza de 2009, Lola perdeu o Leão de Ouro para Lebanon.

CONCLUSÃO: Primeiro, o choque de uma realidade dura. Não apenas pelo clima, pela violência ou pela pobreza. Mas especialmente pela falta de perspectivas. Depois, a emocionante luta de duas avós em manter as suas próprias famílias tentando, ao máximo, manter as próprias dignidades. Lola é um destes filmes potentes, mas que não faz discursos. Somos convidados e conduzidos, simplesmente, a mergulhar nas realidades propostas pelo diretor Brillante Mendoza. E vamos, pouco a pouco, rompendo nossas certezas e nosso “senso de justiça” ao conhecer, sem pressa, as realidades injustas que separam as famílias da vítima e do culpado. Made in Filipinas, com co-produção da França, este é um filme que foge dos padrões do cinema norte-americano. Ou mesmo inglês. Ele está muito mais para o cinema alternativo, feito com a identidade do país de origem. E viva a esse tipo de cinema! Que consegue comunicar com muita propriedade a realidade de seu próprio país e no ritmo adequado. Fiquei impressionada com a história, com as duas intérpretes principais e, em especial, com a realidade de parte das Filipinas. Sem dúvida um retrato interessante e pouco visto por quem não mora naqueles locais. O filme vale tanto como peça de cinema rara, por todos os elementos comentados, como pelo talento de seu realizador e pela realidade por ele revelada. De quebra, nos faz pensar sobre a escassez e a injustiça que esta falta de perspectivas causa – muito mais do que a violência pura e simples. Até porque a violência nunca é simples – por mais que as estatísticas queiram nos ensinar isso. Atrás de qualquer história de perda sempre há muitas nuances não reveladas. Vale a pena refletir e acompanhar o trabalho deste realizador.

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