Io Sono l’amore – I Am Love – Um Sonho de Amor


Há filmes que inovam na história, com roteiros originais, criativos, diálogos interessantes ou que apenas conseguem romper com as expectativas do espectador. Inovam no conteúdo. Outros, conseguem o mesmo feito, mas na forma, nos ângulos diferenciados para as câmeras escolhidos pelo diretor, na eleição de cenários e vestuários perfeitos/diferenciados, na seleção e na montagem de cenas que fogem dos padrões. Io Sono l’amore é deste segundo tipo. Logo de cara, chama a atenção o apreço estético do diretor e roteirista Luca Guadagnino. Ele se esmera para nos apresentar um filme sem grandes inovações narrativas, mas com muita criatividade estética. Deleite-se com as imagens desta produção que, para tornar tudo mais interessante, conta ainda com um elenco afinado e inspirado. O melhor do espírito, da tradição e do drama italiano apresentado em um pacote forrado de classe.

A HISTÓRIA: Neve sobre monumentos, prédios, ruas, praças, fachadas, caminhos pisados, parques. Estamos em Milão, nos conta algumas letras que ocupam toda a tela. Em uma casa exuberante, uma empregada e a sua patroa, Emma Recchi (Tilda Swinton), arrumam as louças e a prataria. A governanta Ida Marangon (Maria Paiato) avisa a Emma que o filho dela, Edoardo Jr. (Flavio Parenti) vai trazer uma convidada para o jantar. Emma redistribui os convidados na mesa, colocando a convidada do filho entre ele e Delfina (Martina Codecasa). Mais tarde, o marido de Emma, Tancredi (Pippo Delbono) pergunta se Edoardo já voltou. A governanta responde que não, e ele fica sabendo que o filho perdeu em uma corrida. Edoardo chega e cumprimenta a todos os empregados, antes de encontrar a mãe. Para a família, o jantar será muito especial, porque celebra o aniversário do patriarca, pai de Tancredi, Edoardo Senior (Gabriele Ferzetti). Durante a refeição, ele avisa a todos que deixará a empresa da família para o filho e para um de seus netos, mais especificamente Edoardo. O clima fica estranho, e a tensão aumenta quando bate à porta Antonio Biscaglia (Eduardo Gabbriellini), cozinheiro que havia vencido a Edoardo. Os dois começam a desenvolver uma amizade muito forte, e Emma acaba se aproximando cada vez mais de Antonio conforme o clima vai esquentando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Io Sono l’amore): A diferença deste filme em relação a outros similares está nos detalhes. No uso de alguns ângulos menos óbvios para as câmeras, no ritmo cadenciado e fluente da narrativa e das filmagens, na escolha perfeita dos objetos e das roupas utilizadas em cada cena. O diretor e autor da história que rendeu o roteiro deste filme, o siciliano Luca Guadagnino, está atento às minúcias. E justamente é essa atenção que torna Io Sono l’amore interessante.

Porque a história, meus amigos, ainda que bem construída, não é exatamente uma inovação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descontado o apreço estético do filme, o que sobra? Um roteiro que fala sobre como as aparências enganam, como as pessoas mudam junto com as estações, e como nunca é tarde para que busquemos a felicidade ou para desvelarmos que tipo de família e relações temos ao nosso redor. Alguns personagens traem, seja nas relações amorosas, familiares ou nos negócios, enquanto outros descobrem as suas próprias personalidades. É um filme, essencialmente, sobre descobertas. Várias outras produções já trataram sobre isso, especialmente sobre as revelações familiares. Mas Io Sono l’amore não se abate por contar um estilo de história já explorada anteriormente.

Pelo contrário. Guadagnino escreve, junto com Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano um roteiro cheio de convicção. Eles sabem o que querem, em cada detalhe, e escrevem em um estilo de permanente “crescente”. Como em uma ópera, em que o drama vai assumindo contornos cada vez mais graves, até “el grand finale”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas desde os primeiros minutos, nem tanto pela neve e o clima gélido que ela pressupõe, mas principalmente pelas relações tão formais e “encenadas”, que eu fiquei na expectativa pelo que viria de errado. Sim, porque por traz de tanta perfeição, sempre existe algo de podre, ou de muito trágico que apenas está esperando o momento de eclodir. Achei interessante como este clima de “quase-tragédia” perpassa quase toda a produção, criando uma espécie de interesse permanente e/ou curiosidade no espectador.

Os roteiristas foram muito inteligentes em equilibrar os diferentes elementos que compõe uma tradicional família italiana. Os Recchi não apenas tem dinheiro, mas tem nome, status e tradição. Ainda assim, um dos herdeiros do patriarca foi excêntrico e ousado o bastante para buscar na Rússia a sua mulher. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí temos pela frente a personagem principal e mais interessante desta trama: a mulher que abandonou uma situação de pobreza em um país distante mas que, no fundo, nunca deixou de levar aquela antiga realidade consigo. Encontramos Emma em um momento em que ela está apenas esperando a deixa, a desculpa exata para se livrar daquela vida de aparências. Tudo que ela deseja é a oportunidade de viver com os pés no chão, de maneira mais simples, e voltar a amar. E ela encontra isso na figura do inicialmente enigmático e aparentemente errático Antonio.

Outro aspecto que eu achei interessante, nesta produção, é que ela deixa algumas pontas soltas, aqui e ali. Por exemplo, a relação entre Antonio e Edoardo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que os italianos desenvolvem amizades apaixonantes com bastante rapidez. Mas a noite em que Antonio vai levar um bolo para Edoardo, os roteiristas parecem lançar, com astúcia, dúvidas no ar. Afinal, Antonio está aproveitando a posição de Edoardo para se dar bem? Eles já se conheciam antes da competição ou Antonio conhecia a Emma? Ou apenas Edoardo e Antonio desenvolvem uma amizade rápida, porque tem muita afinidade, e Antonio conseguiu fascinar Emma logo na primeira visita? Por um tempo, e não apenas porque Betta (Alba Rohrwacher) se descobre apaixonada por uma linda mulher, mas também por essas dúvidas que ficam no ar, cheguei a pensar se Edoardo e Antonio não teriam tido também algum romance. Mas com o desfecho do filme como ele acabou acontecendo, aparentemente, isso não aconteceu. Eles só eram grandes amigos.

Mas como eu falava antes, Io Sono l’amore se destaca de outros filmes pelos detalhes. Além dos cuidados técnicos, dos quais vou falar depois, esta produção ganha muitos pontos em cada cena em que Guadagnino revela o seu próprio apreço estético. Esse olhar diferenciado do diretor pode ser visto não apenas nas cenas externas, que revelam a beleza de paisagens de cidades e de campos da Itália mas, especialmente, nas sequências que acompanham a protagonista de ângulos diferenciados. Como quando ela percorre um corredor e a câmera desliza, sem cortes, para focar a escada e acompanhá-la em uma descida quase geométrica. Ou quando Edoardo chama a mãe para apresentar-lhe Antonio, e a câmera mostra o contraste da mulher de família caminhando elegantemente em um tapete com marcas de outros passos e que parece transportar-lhe para uma quadra de saibro – ou umas areias mais escuras. Esses ângulos são fascinantes e, me arrisco a dizer, o que há de melhor nesta produção.

Por boa parte da história, somos levados pelas mãos pelo fascinante mundo das descobertas de duas mulheres. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mãe e filha redescobrem – ou o certo seria descobrem pela primeira vez? – o que é o amor. E ambas, cada uma de sua forma, transgridem as normas sociais em que vivem. Betta deixa para trás um namorado que tem nome na alta sociedade após apaixonar-se pela bela amiga Angaharad (Laura Huston). Emma descobre a verdade sem querer, ao encontrar um CD que Betta deixou, com um bilhete contando de sua nova descoberta, no casaco do irmão Edoardo. A coragem de Betta estimula a mãe que, mais tarde, ouviria da própria filha aquela história. Por isso mesmo, no final do filme, Betta fica tão emocionada ao ver a corrida desesperada em busca da liberdade empreendida pela mãe. Ela se identifica. Ou melhor, uma se identifica com a outra – por isso o olhar de cumplicidade inesquecível e emocionado.

Como uma legítima história italiana – porque os italianos sabem viver a vida -, Io Sono l’amore fala de amor e de tragédia. Porque a vida é feita destes elementos. De amor, de felicidade, de morte, de sofrimento e de drama. Tudo está ali, em um pacote bem feito. Um outro detalhe também me agradou neste filme, além do esmero estético: o destaque que a história sempre dá para os empregados da família Recchi. Ida é um dos nomes mais repetidos no início do filme. E ela tem um desempenho crucial no final da história. (SPOILER – não leia… bem, você está cansado/a de saber). Ela percebe, junto com Betta, que Edoardo não estava feliz. E, aparentemente, a tristeza do rapaz não passava apenas pela “morte” da memória do avô, que havia confiado nele e que tinha sido traído pelo próprio filho. Ele parecia triste pela vida que, inevitavelmente, ele teria que seguir a partir dali – com a noiva Eva Ugolini (Diane Fleri) grávida. Aqueles olhos claros pareciam esconder alguma outra tristeza, inominável e gigantesca. Por isso mesmo o final exacerbado se justificou. Porque parecia uma urgência, para quase todos daquela família – e a governanta Ida incluída – que a felicidade fosse procurada com pressa, sofreguidão, antes que a vida esvanecesse de uma vez.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os atores que contracenam neste filme estão muito bem. Mas Tilda Swinton tem uma interpretação de arrepiar. Se existia alguma dúvida sobre o talento desta inglesa, ela terminou com este filme. Sem dúvida ela tem uma personagem difícil de interpretar nas mãos, mas desempenha com perfeição todos os conflitos e nuances de uma Emma dividida entre a mãe de família que adotou a Itália e teve que enterrar a sua Rússia bem fundo na alma daquela que está sedenta por deixar a sua verdadeira personalidade transbordar.

Io Sono l’amore é um destes raros filmes em que todos os aspectos do cinema estão casados com perfeição. Tudo é feito com esmero e é valorizado na produção – diferente de outros filmes, que podem deixar o figurino ou a direção de arte em segundo plano. Aqui não. Desde a linda e cheia de esmero direção de fotografia do francês Yorick Le Saux até a edição atenta do italiano Walter Fasano, passando pelos figurinos propícios de Antonella Cannarozzi, pela ótima trilha sonora de John Adams, pelos lindos design de produção de Francesca Balestra Di Mottola e decoração de set de Monica Sironi, tudo funciona como um relógio suíço inspirado neste filme. Todos merecem ser citados, porque fazem um grande trabalho.

Além da atriz Tilda Swinton, merecem aplausos pelo desempenho acima da média neste filme a sempre ótima Alba Rohrwacher, que aparece pouco, mas rouba a cena cada vez que surge frente às lentes; Flavio Parenti que, a exemplo de Swinton, tem um personagem cheio de nuances para interpretar; e o fascinante Edoardo Gabbriellini, que convence com seu personagem aparentemente frágil e tímido, mas muito seguro de si e provocante. Os quatro se destacam entre os atores principais. Dos atores coadjuvantes, mas que tem um certo destaque e que não foram citados ainda, vale comentar os trabalhos de Marisa Berenson como Allegra Recchi, mulher do patriarca Edoardo Senior; e Waris Ahluwalia como Shai Kubelkian, que acaba comprando a empresa da família e parece trazer um “mau agouro” para eles.

A genial Tilda Swinton aprendeu italiano e russo para interpretar, com mais fidelidade, a personagem central desta história. E outra curiosidade sobre esta produção: a primeira versão do filme tinha 210 minutos de duração – ou seja, três horas e meia. Depois é que o diretor conseguiu deixá-la com duas horas. Realmente, três horas e meia seria demais. O filme ficou com o tempo justo, antes de cansar. 🙂

Io Sono l’amore teria custado US$ 10 milhões. Pelo cuidado que o filme tem com os detalhes, eu diria que foi um dinheiro bem gastado. Mas nas bilheterias ele não foi muito bem. Até o final de novembro de 2010, quando saiu de cartaz no circuito comercial dos Estados Unidos, ele havia acumulado pouco mais de US$ 5 milhões. No restante do mundo, o filme chegou a superar a marca de US$ 10,4 milhões. Ainda assim, pelo quanto ele custou e pelo desempenho nas bilheterias dos Estados Unidos, não podemos considerá-lo um grande sucesso.

Esta produção estreou no Marrocos e no Festival de Veneza em setembro de 2009. Io Sono l’amore participou, no total, de 22 festivais pelo mundo afora. Nesta trajetória, ele ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 16. Entre os que recebeu, estão o de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Boulder; os de melhor atriz para Tilda Swinton no festival de cinema de Dublin e pela avaliação do Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália; assim como os prêmios de melhor filme de língua estrangeira segundo o Círculo de Críticos de Cinema da Flórida e a Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. O filme foi indicado, ainda, ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, mas perdeu a estatueta para Haevnen. No Oscar, ele concorreu na categoria Melhor Figurino.

Aos curiosos de plantão que ficaram, como eu, curiosos para saber onde o filme foi rodado, aí vai a lista de cidades utilizadas como locação: Londres, no Reino Unido, e Dolceacqua, Milão e San Remo, as três na Itália.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o filme. Achei pouco, especialmente pelo esmero de seus realizados com os detalhes. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: eles dedicaram 95 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,1.

Buscando mais informações sobre o diretor e roteirista Luca Guadagnino, descobri que ele está dirigindo o seu 14º filme este ano. E o mais interessante é que a maioria de sua filmografia é composta por documentários. Das 14 produções dirigidas por ele, oito são documentários, incluindo na lista dois curtas e um documentário em video. Io Sono l’amore é, sem dúvida, a ficção mais respeitada dirigida por ele até o momento.

Só buscando o trailer e o assistindo, após publicar este post, é que me lembrei de um trecho interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Io Sono l’amore). Quando Emma comenta que foi para a Itália e aprendeu a ser uma italiana. O curioso é que você não aprende uma outra cultura, verdadeiramente, se não passa a soltar-se completamente naquele ambiente, ousando viver um pouco como aquelas pessoas de um lugar que, antes, você não conhecia. Sim, porque Emma aprende a falar italiano, a se comportar como se espera de mulheres italianas de uma família tradicional, mas apenas com a comida servida por Antonio e com a simplicidade dele, com aquela vivacidade que apenas as pessoas comuns de um país sabem demonstrar, que ela aprendeu a como ser um pouco italiana pra valer. E, mais que isso, soube ser ela mesma, um pouco russa, um pouco italiana. O amor sempre faz essas coisas com as pessoas… tiram as suas amarras, máscaras e armaduras, libertando-as para serem o que quiserem ser. E viva o amor, pois. 🙂

CONCLUSÃO: Quanto a maior a sensação de perfeição, maior o risco das aparências estarem enganando os sentidos. Os cenários cheios de neve não passam apenas a ideia de tempos gelados, mas também uma monotonia que pode ser vista nos jantares da alta sociedade. O frio do inverno e a formalidade dos gestos, palavras e relações dá início à trama de Io Sono l’amore. Mas como nenhuma aparência fundada apenas em imagem forjada dura para sempre, assim como o inverno, logo as formalidades saem de cena e as pessoas começam a revelar o que elas mais desejam ou anseiam. Claro que nem todas. Io Sono l’amore se aproxima de uma família da alta sociedade para revelar como a felicidade não depende de beleza, recursos fartos ou boas maneiras, mas principalmente de ousadia e de escolhas. E mesmo quando todas as janelas e portas parecem se abrir e que a família analisada sinalize apenas motivos para comemorar, a vida ensina que a paixão dos sentimentos pode tanto gerar tragédias quanto novos amores e felicidade. O que frutifica de cada cenário, de cada estação e de cada relação vai depender das escolhas que cada um faz, e de como cada pessoa aproveita as lições aprendidas. Um filme sincero, com uma aposta marcante na estética, no bom uso da fotografia, da música e das ótimas atuações de seu elenco. E para não fugir da tradição, o roteiro vai ganhando corpo com o passar do tempo, assumindo uma ode de ópera com “grand finale” perto do fim. Vale a experiência porque é muito bem acabado e tem momentos de pura beleza.

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4 comentários em “Io Sono l’amore – I Am Love – Um Sonho de Amor

    1. Oi Vanja!

      Fico feliz que tenhas gostado do comentário. E que tenhas encontrado este filme. É uma bela produção, sem dúvida.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes, ok?

      Abraços e inté!

      Curtir

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