Submarino


Se tem um sujeito que sabe falar sobre famílias perturbadas e de como mesmo elas são fundamentais para a vida de qualquer pessoa, esse sujeito é o diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Com Submarino, mais uma vez, ele nos surpreende com um texto potente, cenas de impacto, drama, dor, redenção e uma história sobre o sentimento que pode perdurar além de uma conjunção de erros. Este não é o melhor filme do diretor dinamarquês mas, ainda assim, não deixa de ser um bom filme. Interessante, em especial, pelo estilo de Vinterberg e pelas ótimas atuações do elenco principal.

A HISTÓRIA: A mão de um bebê está erguida, balançando pelo ar. Até que outra mão, maior e com as unhas sujas, segura a mão do bebê irriquieta. O jovem Nick (Sebastian Bull Sarning) elogia o bebê, enquanto o seu irmão mais novo (Mads Broe Andersen) beija o pequeno pezinho da criança. Os dois estão batizando o menino em uma tenda improvisada. Os irmãos cuidam do menino, já que a mãe deles chega em casa sempre bêbada, apenas para cair na cozinha e agredí-los. Uma certa noite, algo trágico acontece. O tempo passa, e vemos a Nick adulto (Jakob Cedergren), sem perspectivas, vizinho de Sofie (Patricia Schumann). Ele tenta ligar para o irmão, algumas vezes, mas não consegue falar nada. Um dia, enquanto caminha por uma calçada, um homem caído lhe chama pelo nome. É um antigo amigo, Ivan (Morten Rose), que tem problemas para se relacionar com as mulheres. Acompanhamos parte da vida de Nick, primeiro, para depois sabermos o que está acontecendo com o seu irmão mais novo (quando adulto, interpretado por Peter Plaugborg). Eles se distanciaram, perderam contato, mas mantêm elos indeléveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Submarino): Estranho, justamente hoje, quando o mundo lamenta a morte de Amy Winehouse, assistir a Submarino. Porque este filme fala de como a vida pode ser dura, pode ser pesada de carregar. Para alguns, Amy não suportou o fardo. Me junto a eles nesta avaliação. É verdade que a vida é feita de alegrias e de tristezas, mas parece que alguns só conseguem enxergar as tristezas pela frente. Quando a dor fala mais forte e as pessoas não conseguem superá-la, tragédias acontecem. Mas a vida também é feita de beleza, de encontros, sorrisos, de belas surpresas. Há quem enxergue na vida uma maldição, enquanto outros a enxergam como uma benção. A diferença entre uma visão e outra faz toda a diferença.

Em Submarino, filme com título sugestivo, os protagonistas vivem em seus próprios mundos, lidando com fantasmas do passado e tentando, passo por passo, fazer o melhor a cada dia. Só que quanto mais eles tentam, mais parece que eles se afundam em histórias complicadas. Mesmo assim, a mensagem permanente é que o laço entre os irmãos é mais forte que as suas tragédias pessoais. E que a família pode ser tanto a origem quanto o fim dos problemas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, não deixa de ser curioso que o os filhos de Mona (Helene Reingaard Neumann) não conseguem superar o exemplo ruim dado pela mãe. Nick passa os dias bebendo e encontrar, em garrafas de cerveja ou de destilado, o consolo que parece não encontrar com as pessoas que o rodeiam. O irmão mais novo dele, curiosamente nunca nominado, é dependente químico. Nenhum adulto conhecido daquela família parece encontrar consolo sem um vício que possa lhes servir de muleta. Uma história que se repete em muitos lares, países e realidades mundo afora.

Mas nem tudo está perdido. Depois de mergulhar no inferno, ser preso e liberto, enfrentando o velório da mãe, Nick parece estar preparado para começar a viver a própria vida sem tanta dor. Ele tenta, ao menos. Ainda que para ele, assim como para o irmão mais novo, seja tão difícil falar dos próprios sentimentos. Uma característica de muitas culturas e pessoas, diga-se. Há muita gente que pode falar horas sobre temas supérfluos, mas que não conseguem sistematizar ou colocar lógica em suas próprias carências, problemas e necessidades. E como este filme de Vinterberg revela, de forma bastante contundente, enquanto não se encontra uma saída, a tendência é mergulhar no abismo, como um submarino.

Gostei da narrativa desenhada por Vinterberg e pelos outros roteiristas do filme, Jonas T. Bengtsson e Tobias Lindholm. Estamos acostumados a narrativas lineares, com histórias intercaladas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas em Submarino, as histórias dos irmãos são simultâneas apenas quando eles estão juntos. Quando estão separados, a escolha do trio de roteiristas foi a de debruçar-se sobre a história de um para, só depois, voltar alguns passos atrás para contar a história do outro. E o interessante é que a história do pai de Martin (Gustav Fischer Kjaerulff) não começa quando termina a de Nick, mas a narrativa “volta no tempo” para que acompanhemos o que aconteceu com o irmão mais novo do protagonista enquanto ele seguia o seu caminho errante. Uma escolha acertada e que resultou em algo bacana. Ainda assim, devo dizer que achei o filme um pouco arrastado. E também acho que a sequência final, que justifica o nome de Martin, era um tanto que desnecessária. O restante do filme teve momentos surpreendentes, interessantes, mas essa explicação já estava subentendida e era previsível. Submarino teria terminado de uma forma muito mais potente com o diálogo final entre Nick e o sobrinho Martin. Mas ok, certamente a explicação final cairá no gosto do público que gosta de tudo bem “mastigadinho”, sem espaço para dúvidas.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O início de Submarino é arrebatador. Pena que ele não continue com aquela veemência durante o restante do tempo. Quando a produção foca as lentes para os irmãos adultos, Submarino perde um pouco da força. Ainda assim, o filme se mantem interessante especialmente pelo talento dos seus atores principais. Jakob Cedergren e Peter Plaugborg dão um show de interpretação como os irmãos que lutam para sobreviver da melhor forma possível. E o garoto que interpreta a Martin também está muito bem. Eles seguram a produção, mesmo quando ela perde em potência. Quando Submarino volta a acelerar, ele não consegue, exatamente, emergir rápido para a superfície. Chega um pouco sem força. Ainda assim, ele vale a pena pelo estilo de Vinterberg.

Falando no estilo do diretor, ele segue com a aura do Dogma 95. Um estilo limpo, que acompanha os atores de perto, não poupa na intensidade das cenas e tenta ser o mais realista/documental possível. Em Submarino ele segue esta levada, mas com um estilo um pouco mais relaxado e menos “teórico” que em outras produções. O roteiro, com diálogos fortes, mas naturais, e tentando desvelar os meandros de uma família que tenta ser a mais realista possível.

Além da direção suave de Vinterberg, outros aspectos técnicos se destacam neste filme. Como a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen, a trilha sonora bem equilibrada e inspirada de Kristian Eidnes Andersen e a edição da dupla Andri Steinn e Valdís Óskarsdóttir.

Os atores principais, que interpretam os personagens dos irmãos adultos, carregam o filme nas costas. Mas os meninos que interpretam os dois quando crianças e também o ator que interpreta a Martin fazem um belo trabalho. Sem eles, o filme teria sido bem menos interessante.

Submarino estreou em fevereiro de 2010 no Festival de Berlim. Depois, a produção passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que levou para casa, destaque para os prêmios de melhor atriz coadjuvante para Patricia Schumann no Bodil Awards e melhor ator coadjuvante para Peter Plaugborg no Robert Festival.

Para quem ficou interessado em saber onde Submarino foi filmado, ele foi totalmente rodado em Copenhagen.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Para os padrões do site, esta é uma nota bastante boa. No Rotten Tomatoes, até agora, não foi linkado nenhum texto dos críticos que normalmente tem os seus trabalhos indicados pelo site.

Depois desta série de filmes “pesadinhos”, vou me lançar em uma comédia da próxima vez. Só para dar uma quebra na sequência de tragédias. 🙂

CONCLUSÃO: A vida está cheia de erros, e do preço caro que uma escolha equivocada pode nos cobrar. Em Submarino, dois irmãos tentam fazer a sua vida da melhor maneira possível, mas parecem ser incapazes de carregar um fardo pesado demais, vindo do passado. Não basta esquecer ou perdoar, é preciso fazer melhor. Eles tentam, mas nem sempre conseguem. E o que eles fazem em cada situação que dá errado é o que vai definir o capítulo seguinte de suas vidas. Depois de sobreviverem a uma mãe ausente, alcoólatra e à uma infância de escassez, os irmãos se distanciam. Para, adultos, voltarem a se encontrar em um local em que eles não poderiam ter previsto. Mesmo com tanta dor e tragédia na vida deles, sempre existe esperança e a possibilidade de algo diferente e melhor acontecer no final. Um filme bem feito, que ignora a narrativa linear e simultânea de dois personagens para optar pela história fragmentada de cada um. Mais um belo e envolvente trabalho do diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Ele surpreende o espectador com alguns reviravoltas/momentos decisivos na história, e não alivia no drama. Os atores seguram a história, que acaba se mostrando um pouco arrastada, mas que termina de maneira interessante _ ainda que a “revelação final” tenha sido bastante previsível. O filme que começou muito bem, terminou com um pouco menos de força.

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8 comentários em “Submarino

  1. Alessandra, que bom que voltou a escrever com frequência. Sentia muita falta dos teus textos impregnados de humanismo – essa coisa tão fora de moda.

    Espero que continue nesse ritmo. 🙂

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    1. Oi Paulo!

      Obrigadíssimo. Mas como você deve ter notado, não consegui manter a frequência na publicação de novos textos que eu gostaria este ano. Foi um período de muito trabalho, em várias frentes… mas quero ver se em 2012 eu consigo manter uma frequência melhor.

      Obrigada também pelo teu incentivo. Tento fazer textos “impregnados de humanismo”. Generosas tuas palavras. Algumas vezes eu acho que eu consigo. Em outras, apenas tento. Mas acho que o importante é tentar, não é mesmo?

      Espero que voltes por aqui mais vezes, inclusive para falares sobre os filmes que você andou assistindo e gostando.

      Abraços e inté!

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  2. Eu absolutamente adorei esse filme.
    Há outro filme com esse mesmo título, que pretendia ver. Grata surpresa por “torresmar” o filme errado (ou certo, no caso).
    Esse Sebastian Bull Sarning m eimpressionou, ele olha diretamente na tela e te hipnotiza…aff!
    Eu gostei do ritmo em que foi contada a história, sem presa, como pede uma história assim.

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    1. Oi Valentina!

      Muito bom quando erros como este nos trazem filmes ótimos, não é mesmo?

      Eventualmente eu também me engano e/ou surpreendo muito com filme. E isso é uma experiência bem bacana.

      Concordo contigo que o ator tem uma expressão e uma presença marcantes. Ele hipnotiza. E, no geral, acho que o ritmo do filme também foi bacana. Condizente com a história.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes, ok?

      Abraços e inté!

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  3. O protagonista é um especialista em perdas. Tudo que passa pela sua (mão), se perde. E no fim, fica a dúvida se parou por ali ou a maldição continuará. Espero sinceramente que não. Produção digna de muitos prêmios e pra variar, adorei a trilha.

    bjão Ale

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    1. Oi Mangabeira!

      Justamente, eis um protagonista que caminha com aquela famosa e densa “nuvem negra” sobre a cabeça. Mas, nem por isso, ele a abaixa, não é mesmo? Isso é interessante.

      Não sei se a maldição continuará… ou não. Mas isso pouco importa. O espírito dele seguia forte, ereto. Isso sim, importa.

      Grande trilha, tens razão.

      Obrigada por tua companhia, meu bom! E que teu 2012 venha cheio de saúde, alegria e ótimos filmes. Espero te encontrar por aqui muitas vezes.

      Abraços, beijos grandes e inté!

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