Categorias
Cinema Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2021

Druk – Another Round


Vamos falar sobre os nossos problemas? Vamos encarar de frente tudo aquilo que não nos agrada e que está a nosso alcance resolver? Afinal, por que bebemos tanto? Ou, se não bebemos tanto, por que desejamos tanto beber? Esse desconforto da humanidade, tem solução? Druk é um filme potente com diversas camadas de leitura e questões interessantes que fazem pensar. O desconforto e a angústia, que são individuais e ao mesmo tempo coletivos, podem ter que tipo de solução? Depois da juventude, o que nos resta é apenas o peso ou é possível alguma leveza sem álcool?

A HISTÓRIA

Começa com uma citação de Soren Kierkegaard sobre o que é a juventude e o que é o amor. Em seguida, vemos a uma brincadeira feita por diversos jovens. Segundo a disputa feita em duplas, a volta ao lago deve ser vencida por quem chegar primeiro após ter bebido uma caixa de cerveja. Os jovens bebem e se divertem pela cidade, incluindo algemar um segurança em um metrô. A noite é longa. Na escola, a festa dos jovens que termina com um inspetor algemado vira tema de debate entre direção e professores. e vira tema de uma conversa na escola local. Os professores discutem, junto com a direção da escola, sobre a necessidade dos jovens terem algum limite. É comentado, inclusive, dos eventos da escola terem álcool zero.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Druk): Mais um grande filme do sempre interessante diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Produção instigante, com alguns temas fundamentais, essencialmente existencialista, com um grande elenco, um belo roteiro e uma condução exemplar do diretor. Sem dúvidas, e falo isso de forma antecipada, esse é um dos grandes filmes da temporada.

Gosto de Vinterberg porque ele nunca ignora os assuntos mais importantes do nosso tempo – ou do tempo passado e, me arrisco a dizer, do tempo que virá. Com Druk, mais uma vez, ele fala sobre o desconforto do ser humano, especialmente do homem adulto. Mas o filme não fala apenas dos homens, é claro – apesar de focar neles, em um grupo de amigos que deve enfrentar a meia idade e tudo que ela significa.

Como comentei anteriormente, Druk é uma produção existencialista – não por acaso cita Kierkegaard em mais de uma ocasião. (SPOILER – não continue lendo se você não assistiu a esse filme). Os protagonistas desta produção estão tocando as suas “vidinhas” e tem saudade da juventude. Isso está escancarado e é reforçado a cada momento pela provocação que Vinterberg faz ao focar um grupo de professores de uma escola do ensino médio.

Ou seja, este filme trata da crise da meia idade. Sim, é verdade. Mas Druk não aborda apenas isso. Ele foca, essencialmente, no desconforto do homem adulto, de quem sente o peso das responsabilidades e tem na memória da juventude o ideal de “desprendimento” e de liberdade que não é mais capaz de experimentar.

Uma das questões que este filme aborda de forma muito clara, para mim, é justamente este “peso” da vida adulta. Afinal, não é possível conseguir leveza nesta fase da vida? Ou será que a única forma de conseguir isso é enchendo a cara? Com muita inteligência, Vinterberg foca em um grupo de amigos “acima de qualquer suspeita”, sujeitos respeitáveis da sociedade, que embarcam em um “experimento” quase sociológico regado a muita bebida. Claro que tudo que eles buscam é uma válvula de escape, uma estratégia para saírem da letargia e da vida adulta com seus problemas que eles estão cansados de encarar.

O que eu acho interessante deste filme é que ele aborda de forma objetiva, crítica e irônica esta pandemia do consumo de álcool que vemos no Brasil e em quase todas as partes do mundo. Nunca se bebeu tanto. E qual é a razão para isso? Certamente a dificuldade de muitas pessoas em “curtirem a vida” sem aditivos e/ou de enfrentarem a sua infelicidade sem beber.

Por isso comecei este texto perguntando se não chegou a hora de falarmos sobre os nossos problemas. Será que a solução para a insatisfação, o desconforto, a frustração e o “peso” inerente da vida adulta está no fundo de um copo com a bebida alcóolica que for? Sim, o álcool pode nos deixar momentaneamente mais “leves”, “corajosos”, “confiantes”… mas isso não passa de uma ilusão. Os problemas não vão desaparecer porque enchemos a cara. E nem nos tornaremos mais “legais” por causa disso.

Como todo filme de Vinterberg, Druk tem que ser visto sob a perspectiva do que ele trata, apenas sugere ou deixa escrito nas entrelinhas. Sim, esta produção fala sobre a vida adulta, sobre família, rotina, amigos, trata de posições de “poder” como a de professores, sobre a passagem do tempo e o desconforto de existir. Mas ele trata também sobre outras questões.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Algo que achei especialmente impressionante e marcante nesta produção é o final. Apesar de terem perdido uma das pontas de seu quarteto, Martin (o sempre genial Mads Mikkelsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe) encaram a dor de que maneira? Repetindo o mesmo erro que vitimou Tommy (Thomas Bo Larsen). Como muitos adultos, eles simplesmente não aprendem.

Cada um encara a dor e a perda de uma forma, evidentemente. Mas o que caracteriza os dependentes químicos, inclusive os alcóolatras, é a falta de controle. Os amigos que protagonizam esta produção mentem para si mesmos que estão no controle da situação. Mesmo depois de Tommy partir, eles seguem mentindo para si mesmos repetindo este mantra. Mas basta eles começarem a beber para perderem o controle novamente.

O filme termina, de forma irônica, em uma grande festa e comemoração. Mas será mesmo que toda aquela alegria só é possível com muita bebida? Não conseguimos buscar a leveza e o prazer sem aditivos que podem nos deixar dependentes e acorrentados em algo que nos prejudica? Novamente, não há maneiras melhores de enfrentarmos nossos problemas e dilemas?

Claro que outras saídas exigem mais esforço e energia. Martin acha difícil ter diálogo com seus filhos e “o amor da sua vida”, Anika (Maria Bonnevie). O tempo passa, os silêncios e distâncias se acumulam, e quando as pessoas percebem, elas não se reconhecem mais no espelho – ou, em uma relação amorosa, não reconhecem mais um ao outro.

Algumas vezes o acúmulo de problemas é tão grande que não há solução possível. Outras vezes, é possível resgatar o que se perdeu desde que se reconheça o problema, as falhas e que se identifique os pontos a melhorar. Mas tudo isso exige muito mais do indivíduo do que encher a cara com os amigos, claro. O problema é que o alcoolismo nunca traz nada de bom. No fim, cobra um preço alto, como Druk nos mostra muito bem.

O problema, e eis a genialidade do final deste filme, a meu ver, é que as pessoas repetem os seus erros. Sempre e quando não trabalham a fonte do problema. Sim, o final desta produção rende bons momentos de contemplação de uma bela farra, de euforia. Mas e o dia seguinte? E o que vem depois deste dia? Teremos uma repetição sem fim da ladeira abaixo?

Por que nossos jovens e adultos bebem tanto? Se estamos felizes, bebemos para celebrar. Se estamos tristes ou descontentes, bebemos para “afogar” os problemas ou as mágoas. Então tudo é motivo para beber? Não é preciso ser muito inteligente para saber que, nestes cenários, a bebida é uma fuga. Um caminho fácil para não encararmos nossos problemas e dilemas de frente. O problema é que este caminho fácil cobra seu preço.

Druk, evidentemente, não quer dar uma “lição de moral” em ninguém. Consequentemente, esta crítica sobre o filme também não. Mas a produção de Vinterberg nos faz refletir sobre como nossa sociedade está doente – em vários sentidos, não apenas por causa da bebida. É fácil as pessoas “se perderem” e, lá pelas tantas na vida, não se reconhecerem mais. Mas será que não é tempo, então, de voltar a se conhecer? De se redescobrir?

Sempre é tempo de se redescobrir e de redescobrir o outro. Porque mudamos no caminho e precisamos sempre pensar a respeito. Quando jovens, até podemos pensar que a vida é uma “festa” regada a birita. A vida adulta nos mostra que não é bem assim. De fato, a vida adulta aparece com uma série de exigências, cobranças e “pesos”. Mas não precisamos carregar o mundo nos nossos ombros sempre.

Verdade que não dá para ser Peter Pan. Mas também não é preciso sentir o peso da existência sempre. Por mais que as cobranças aumentem com o tempo, podemos buscar sempre algum frescor da juventude parando, de tempos em tempos, para fazer o que nos dá prazer. Buscando leveza e não apenas “cumprir nossos deveres cotidianos”.

A juventude não é o paraíso que o adulto costuma lembrar e nem precisa ser o auge da vida de ninguém. Qualquer fase da vida pode ser bem vivida se soubermos encarar suas particularidades. Fugir não é uma opção, neste caso. O caminho mais interessante passa por termos uma compreensão eficaz de quem somos, o que queremos e quem está à nossa volta. Para que respiramos? O que nos move? O que faz nossos olhos brilhar?

Identificar estes e outros elementos é mais importante do que buscar válvulas de escape como o álcool. Ele é efêmero. Logo exige novas doses. Cada uma delas cobra o seu preço. Celebrar é importante, mas estar vivo é ainda mais. Druk nos mostra isso com muita inteligência, especialmente nas entrelinhas.

Depois desta “filosofada” sobre alguns dos temas de Druk, vamos falar sobre alguns trechos interessantes desta produção. Para começar, como encontramos os protagonistas deste filme? Dois dos quatro amigos são casados e tem filhos, enquanto dois vivem sozinhos. Martin tem filhos adolescentes e um esposa que ele pouco vê. Nikolaj tem filhos menores e uma esposa que lhe cobra apoio e maturidade.

Todos são professores e lecionam para diferentes idades de alunos. Enquanto Martin, Nikolaj e Peter dão aula para adolescentes, Tommy dá aula para crianças. Todos são consideráveis, portanto, cidadãos responsáveis. Quando o filme começa, os amigos parecem entediados e no “piloto automático”. Tudo começa a mudar quando os amigos se encontram para celebrar os 40 anos de Nikolaj.

Claramente Martin está entediado e não consegue se divertir nem no encontro com os amigos. Tudo parece sem sentido, sem gosto, sem prazer. Ele está dirigindo e não quer beber. Mas muda de ideia depois de muita insistência dos outros amigos – e de Tommy relembrar como Martin era na adolescência. Por que não reviver “os velhos tempos”? Claro que o portal para fazer isso é bebendo, não é mesmo?

Daquela noite de “farra” e diversão, surge a ideia de testar a teoria do psicólogo Finn Skarderud que afirma que as pessoas tem um déficit de álcool de 0,5%. Usando como exemplo diversos exemplos de homens que gostavam de beber, eles começam o próprio experimento. A regra é beber de segunda à sexta-feira e sempre antes das 20h – ou seja, beber apenas em horário de trabalho.

Daí que Druk apresenta a primeira ideia “perigosa”, irônica e crítica. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Martin deixa de ser o professor de história que se perde nas aulas e que dá sono para se tornar um “fenômeno” entre os alunos do terceirão. Mas será mesmo que a única forma de dar aulas interessantes é bebendo para isso? Em outro momento, Peter incentiva um aluno a beber para enfrentar seu “travamento” nos exames. Que exemplos estes professores estão dando?

Mas eles não estão preocupados em serem exemplos. Martin, Tommy, Nikolaj e Peter estão interessados em viver a “segunda juventude”, em deixar que a bebida traga a “leveza” que eles não conseguem mais sentir. Eles precisam de álcool para se sentirem inspirados novamente, para se sentirem “interessantes” e “capazes”. Que triste, não?

Sem perceber que viraram alcóolatras e que já não tem o controle em suas mãos, os amigos levam a ingestão quase diária de álcool para outro nível. Um patamar que torna o vício mais evidente – e que cobra um preço alto de exposição especialmente de Tommy. Todo viciado acha que tem o controle, mas ele não tem.

E mesmo depois do que acontece com Tommy, seus amigos não percebem que seguem sem controle. Para eles, beber para comemorar não é mais possível. Para quem está viciado, qualquer dose desencadeia um processo que não tem fim – até que o vício seja reconhecido. Assim, o final de Druk mostra como cenas de “pura diversão” são enganosas e perigosas. A alegria que está ali não é verdadeira, mas efêmera e ilusória.

Sim, é possível dar aulas fascinantes e com tesão se o professor sabe o que lhe motiva. É possível ter um casamento feliz e de parceria se as pessoas seguem em contato e se relacionando de forma franca, verdadeiramente uma olhando para a outra. É possível ter responsabilidades e o “peso” da vida adulta equilibrando estes “fardos” com momentos de prazer e com a busca do equilíbrio. É possível beber sem virar alcóolatra. Tudo depende do que nos motiva, do quanto nos conhecemos, da dose, da frequência e da nossa motivação para beber.

A juventude dura apenas um período. Mas não precisamos ser jovens para sermos felizes, realizados e para encontrarmos sentido no dia-a-dia. Cada momento da vida pode ter a sua magia, não precisamos ficar presos na juventude. Mas é preciso evoluir e se conhecer a cada fase, renovando e revisando as expectativas e aceitando as limitações próprias e da vida. Isso é amadurecer. Não é tão fácil quanto encher a cara, mas vale o esforço. Sempre é possível encontrar o tesão de viver. Se tivermos coragem de encarar o que é necessário e de buscar um pouco de leveza no caminho.

NOTA

10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Um grande diretor e ótimos atores. Dois elementos fundamentais em qualquer produção. Ambas presentes em Druk. Junto com um ótimo roteiro. Thomas Vinterberg escreveu o roteiro ao lado de Tobias Lindholm. Eles produzem um texto inteligente, com algumas referências literárias aqui e ali seguindo a linha “existencialista” sobre a qual eles querem abordar, além de trazerem algumas quebras interessantes na narrativa com um texto escrito por Nikolaj, o amigo da turma que busca “sistematizar” o “experimento” alcóolico dos amigos.

Com narrativa linear, mas bem planejada, sem nenhuma fala ou sequência sobrando, Druk prende a atenção do público do início ao fim e apresenta um ritmo adequado, equilibrando drama e ironia para nos apresentar uma história que é, ao mesmo tempo, um tanto existencialista e um tanto um exame sociológico sobre a realidade que estamos vivendo. Não é apenas na Dinamarca onde as pessoas estão bebendo mais do que nunca. Em diversos países, inclusive no Brasil, o aumento no consumo de álcool tem ocorrido antes (como mostram esta e esta outra matéria) e depois do início da pandemia de COVID-19 (como revela esta matéria).

Como comentei antes, considero o diretor e roteirista Thomas Vinterberg um dos grandes realizadores da sua geração. Verdade que não assisti a absolutamente todos os filmes que ele dirigiu. Perdi alguns, especialmente nos últimos anos. Mas ele revolucionou parte da história do cinema com o manifesto do movimento Dogma 95 ao lado de outro grande, o diretor Lars von Trier. Gosto de ambos e de filmes que eles produziram desde então. Da filmografia de Vinterberg, vocês encontram aqui no blog críticas dos filmes Kollektivet, Jagten (mais que recomendado) e Submarino. Além destes, recomendo Festen, de 1998, um clássico do Dogma 95, e Dear Wendy, lançado em 2005 – filmes que assisti antes de criar este blog.

Por sua obra, sou franca em dizer, estou já na torcida por Vinterberg. Independente de ter algum filme melhor que Druk nesta temporada, seria ótimo ver este diretor e roteirista ser reconhecido por Hollywood. Mas se outro filme excelente ganhar a estatueta, claro, será merecido. Veremos.

Além do excelente roteiro de Vinterberg e de Lindholm e de uma direção segura de Vinterberg, Druk se destaca pelo excelente elenco. Em especial, claro, merece aplausos o quarteto de protagonistas desta produção, começando pelo sempre genial Mads Mikkelsen, que interpreta a Martin, professor de História do ensino médio; seguindo por Lars Ranthe, que interpreta a Peter, professor de Música; por Thomas Bo Larsen, que interpreta a Tommy, professor de Educação Física das crianças da escola local; e Magnus Millang como Nikolaj, professor de Filosofia.

Além dos atores que interpretam os protagonistas desta história, que vivem os quatro amigos na faixa dos 40 anos que estão entediados com suas próprias vidas e que resolvem promover um “experimento etílico”, merecem destaque pelo trabalho que desempenham como coadjuvantes a atriz Maria Bonnevie, que interpreta Anika, esposa de Martin; Helene Reingaard Neumann como Amalie, esposa de Nikolaj; e Albert Rudbeck Lindhardt como Sebastian, um dos alunos com dificuldade para passar nos exames finais do ensino médio e que é estimulado por Peter a dar “uns goles” para ficar mais calmo. Outros atores jovens aparecem aqui e ali como filhos de Martin e Nikolaj ou como alguns alunos que chegam a ser nomeados na produção para exemplificar o grupo, mas ninguém que mereça um grande destaque para ser citado aqui.

Entre os aspectos técnicos da produção, além do roteiro de Vinterberg e Lindholm, já citado, e da direção ágil e atenta às interpretações de Vinterberg, destaque para a direção de fotografia de Sturla Brandth Grovlen; para a ótima edição de Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud; para os figurinos de Ellen Lens e Manon Rasmussen; e para o design de produção de Sabine Hviid.

Druk estreou em setembro de 2020 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 17 festivais e mostras de cinema até dezembro de 2020. Em sua trajetória até agora, o filme ganhou 13 prêmios e foi indicado a outros 12. Entre os prêmios que recebeu, destaque para quatro recebidos no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, incluindo o de Melhor Ator para Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e para Lars Ranthe e os SIGNIS Award e Feroz Zinemaldia Award para Thomas Vinterberg; para o de Melhor Narrativa segundo a escolha do público no Festival de Cinema de Londres; e para os prêmios de Melhor Ator Europeu para Mads Mikkelsen, de Melhor Diretor Europeu para Thomas Vinterberg, de Melhor Roteiro Europeu e de Melhor Filme Europeu no European Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A primeira delas, admito, me deixou arrepiada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo as notas de produção, Martin deveria ter um casal de filhos, ou seja, um filho e uma filha. A filha do personagem seria interpretada pela filha de Vinterberg, Ida Maria Vinterberg. Só que os planos tiveram que ser mudados porque Ida morreu em um acidente de carro na Bélgica apenas quatro dias depois do início das filmagens de Druk, em maio de 2019. O filme, como podemos ver após o final, é dedicado a ela. Imagino o desafio do diretor de seguir com o seu projeto apesar da perda de sua filha… Nesse artigo, Eric Kohn nos conta sobre a tragédia pessoal do diretor e de como Druk seguiu sendo feito.

Segundo as notas de produção, a Dinamarca tem uma das taxas mais altas de consumo de álcool entre os adolescentes do mundo. Um relatório da Organização Mundial da Saúde divulgado no início de 2020 revelou que os dinamarqueses de 15 anos consumiam quase o dobro da média europeia de álcool registrado entre as pessoas desta idade. Esforços recentes no país para aumentar a idade mínima para comprar álcool, dos atuais 16 anos passando para 18 anos, encontraram resistência – e uma das explicações para isso seria que os adultos se lembram de seus próprios porres na juventude com “carinho” e nostalgia. Como bem nos mostra Druk. Vale lembrar que dá para ser feliz sem beber álcool para isso.

Evidentemente que não quero dizer que as pessoas não devem beber. Cada um sabe o que faz, mas o que eu comento é que encher a cara não é a solução. Sem problemas bebermos, mas devemos fazer com moderação e sabendo as razões para isso.

Druk é baseado em uma peça que Vinterberg escreveu em Viena. A inspiração da história veio de Ida, filha do diretor e roteirista, que contava histórias sobre a cultura da bebida na juventude dinamarquesa. Foi de Ida a ideia de adaptar a peça para o cinema. Inicialmente, a história se propunha a ser uma “celebração do álcool baseada na tese de que a história do mundo teria sido diferente sem o álcool”. Depois da morte de Ida, contudo, a proposta do filme mudou um pouco para que Druk fosse mais realista. Segundo Vinterberg: “Não deveria (o filme) ser só (sobre) beber. Tratava-se de ser despertado para a vida”. Sem dúvida, isso fica evidente e é o que realmente dá força para esta produção e a diferencia.

Ainda segundo Vinterberg, Druk é “um levantamento e uma exploração não só do uso do álcool, mas do incontrolável”. Aliás, a palavra Druk, em dinamarquês, significa simplesmente “Beber” ou “Embriagar”.

Interessante o comentário de Vinterberg sobre a cena final protagonizada por Martin. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na visão do diretor, a sequência da dança sintetiza a jornada de Martin no filme: “É uma mistura de emoções: parte dele quer voar, parte dele quer se afogar”. De fato, não podemos negar que o quarteto de amigos quer, ao mesmo tempo, viver intensamente e se autodestruir. As ações deles passam pelo velho flerte do ser humano com a morte, levando a vida até o limite muitas vezes, fascinados pelo abismo. O que explica muito das nossas sociedades.

A sequência final de Druk, com a dança que vemos em cena, foi inspirada no final de Alexis Zorbas, clássico de 1964 dirigido por Michael Cacoyannis e protagonizado por Anthony Quinn. Faz sentido.

Interessante o comentário de Mads Mikkelsen sobre seu personagem Martin. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para o ator, Martin “é um homem na plataforma que perdeu um trem”. Ou seja, um homem que lenta mas seguramente está tendo um colapso, porque está sentindo pena de si mesmo porque acha que desperdiçou a própria vida. Mas aos poucos ele percebe que não é bem assim, porque ele ama a esposa, a família e, geralmente, o trabalho. Ele só precisa rever tudo novamente e redescobrir essa paixão que tinha por tudo isso “e se apaixonar pelo presente novamente”.

O assunto do exame final de Sebatian no filme foi retirado da obra “O Conceito de Ansiedade” de Soren Kierkegaard. Vale citar, como referência interessante neste filme também, a música What a Life da banda Scarlet Pleasure que embala a sequência final da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 121 críticas positivas e 10 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e a nota média de 7,8. O site Metacritic apresenta o “metascore” 81 para esta produção, fruto de 24 críticas positivas e duas medianas, além do selo “Metacritic Must-see”.

Apesar da pandemia de COVID-19, Druk estreou nos cinemas de diversos países, especialmente na Europa, e conseguiu, segundo o site Box Office Mojo, arrecadar cerca de US$ 3,5 milhões nos locais em que estreou. Os melhores resultados teriam sido registrados na França e na Rússia.

Druk é uma coprodução da Dinamarca com a Suécia e a Holanda. Apesar dos três países terem contribuído para a produção, este filme é o representante da Dinamarca no Oscar 2021, buscando uma vaga especialmente na categoria Melhor Filme Internacional.

CONCLUSÃO

Um dos grandes diretores da sua geração apresenta mais um de seus ótimos filmes. Thomas Vinterberg sempre apresenta algo acima da média. Em Druk temos, novamente, este fenômeno. Um filme que fala sobre vida adulta, frustrações, juventude, família, significados e sentidos, perder-se e tentar encontrar-se. Uma produção cheia de significados, com ótimos atores, roteiro envolvente e direção precisa. Sem dúvida, um dos grandes filmes da temporada. Nos faria muito bem, enquanto sociedade, falarmos sobre o que este filme aborda. Nos faria bem como indivíduos também. Para mim, Druk é indispensável.

PALPITES PARA O OSCAR 2021

Vou me repetir neste apartado. 😉 Como comentei anteriormente na crítica de Deux, ainda é cedo para fazer projeções para a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021. Afinal, Druk é apenas o segundo filme da lista que eu assisto. Apesar disso, de ser cedo para opinar, acho que já posso me arriscar ao cravar que Druk avançará na disputa.

Será que chegou a hora do diferenciado Thomas Vinterberg ganhar a sua estatueta dourada? Ainda tenho muitos filmes para assistir, mas já admito que estou na torcida por ele. O diretor e roteirista merece por seu trabalho até aqui e, porque não dizer, também por Druk. Assim, desde já, aposto que esta produção irá figurar entre as 10 pré-finalistas na categoria mais disputada do Oscar e que ela terá ótimas chances de ficar entre as produções indicadas à estatueta.

Agora, quais as chances deste filme ganhar? Bem, sobre isso, falarei mais adiante, quando eu tiver assistido a outras produções consideradas como favoritas neste ano. Logo mais, voltamos a este tema. 🙂

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

4 respostas em “Druk – Another Round”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.