Get the Gringo – Plano de Fuga


Mel Gibson tem cara e jeito de pessoa louca. E eu gosto dele por isso. Sei que ele faz besteiras, especialmente fora da telona, mas eu gosto de acompanhá-lo no cinema. Get the Gringo, seu último filme, segue esta convicção meio torta que o astro tem adotado nos últimos tempos. O filme não leva à parte alguma, está cheio de estereótipos e absurdos mas, apesar de tudo isso, tem algumas sequências divertidas. No melhor estilo “ame ou odeie”, bem ao gosto do próprio Mel Gibson.

A HISTÓRIA: Um cão caminha, enquanto um homem em uma carroça avança. Na estrada perto deles, um carro com dois homens vestidos de palhaços corre veloz tentando escapar da polícia. Enquanto o palhaço que está de carona pede um médico e o motorista manda ele calar a boca, a polícia avisa a localização dos bandidos e informa que eles estão seguindo para a fronteira. O bandido que está dirigindo o carro (Mel Gibson) consegue sair da estrada e, em uma manobra planejada, faz o carro voar para o território mexicano. A partir daí, ele é preso, roubado por policiais e perseguido pelos capangas do dono da fortuna roubada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte dos textos à seguir contam momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Get the Gringo): Cinema, e vocês todos sabem disso, é algo muito, muito pessoal. Como o jornalismo, exige uma análise subjetiva. Sim, por mais que se apregoe a objetividade da minha profissão, todos nós, que conhecemos o jornalismo muito de perto, sabemos que a subjetividade está presente – nas milhares de escolhas que um profissional faz ao longo de sua carreira.

No cinema e nas demais formas de arte, a regra é a mesma. Como na vida mesma, não é verdade? Toda escolha leva a um resultado diferente. Algumas decisões tentam ser “objetivas” mas, no fundo, passam pela subjetividade – entendida como capacidade individual de escolha. Get the Gringo é um destes exemplos de subjetividade do exercício de assistir a filmes.

Se eu não gostasse tanto do Mel Gibson e de sua cara de louco, dificilmente assistiria a este filme. Afinal, a história é manjadíssima: ladrão esperto e veterano made in USA vai parar no México, um país totalmente “corrupto e bagunçado”. Ali, ele vai dominando o seu entorno com a ajuda de um garotinho esperto e órfão – seguindo a velha lógica de “tal pai, tal filho”, ainda que o bandido e o garoto não tenham parentesco. Mas a ideia do protagonista adotar o garoto é tudo o que o filme precisa para ter a sua própria dose de drama e “moral” para não ser, afinal, apenas uma desculpa para pancadaria, tiros e mortes.

Não preciso nem dizer que a leitura sobre a fronteira entre USA e México e, principalmente, sobre a realidade mexicana é absurda, não é mesmo? Porque, apesar do México ter corrupção e crimes recorrentes, em algumas partes do país, as cenas de um prisão onde tudo pode ser feito e conseguido, cenário dominado por um criminoso que não se impõe pelo físico, pelos crimes ou pela violência, mas pelo dinheiro, me parece bastante exagerado.

Chega até a ser pueril. Afinal, o roteiro assinado por Mel Gibson, o diretor Adrian Grunberg e Stacy Perskie não apresenta muito conflito naquele cenário caótico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gasta um bom tempo, isso sim, mostrando os bastidores de um local dominado por Javi (o espanhol Daniel Giménez Cacho), um criminoso em busca de um novo fígado e que cuida muito bem de seu novo alvo, o garoto (Kevin Hernandez) que vira amigo do protagonista.

Get the Gringo, até por ser um projeto de Gibson, segue a sua linha “anticonvencional”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, pela tiração de sarro dos palhaços, dos policiais e dos bandidos que são sacaneados uns pelos outros. Depois, porque o protagonista não é exemplo de nada – pelo contrário, especialmente nas cenas em que dá dicas para um garoto de como matar um homem.

A história inteira é previsível. Inclusive as sequências em que o nosso “herói” tira soluções da cartola para livrar-se dos desafetos e, claro, o “grand finale”. Get the Gringo não inova. É apenas uma desculpa para Gibson fazer mais um filme com cara de louco. Há muitas sequências improváveis, outras tantas previsíveis. A mãe (Dolores Heredia) do garoto ser interessante e estimular o “lado generoso” do personagem de Gibson também era algo básico.

E o cômico é que, apesar de tanta obviedade e lugares-comuns, este filme acaba sendo engraçado. Por ser bastante tosco. Recomendado para quem não tem problemas com isto e, claro, aos fãs de Gibson. Para todos os outros casos, este filme parecerá bastante bobo, previsível. O que não deixa, também, de ser verdade. 🙂 Mas o jeito louco de Gibson acaba superando todo o politicamente correto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Desta vez demorei menos para escrever. Menos mal. Quero ver se reduzo o tempo entre assistir a um filme e comentar sobre ele. Get the Gringo eu vi no domingo passado.

Get the Gringo tem o tamanho exato. Para a nossa sorte, ele não dura duas horas, mas uma hora e meia. Justo. Mais que isso, seria forçar a barra. Afinal, essa é só mais uma desculpa para um filme de ação, para Gibson fazer suas caras de louco e destilar um pouco mais de sua postura “anti-politicamente correto”.

O roteiro é previsível, óbvio e cheio de lugares-comum. Apesar disto, a direção de Adrian Grunberg é muito boa. Ele faz o filme ter o ritmo adequado, focando detalhes dos lugares, dando espaço para Gibson destilar seu “veneno” e, com a ajuda do editor Steven Rosenblum, dando velocidade para a narrativa – mas sem esquecer a construção das relações entre o bandido-protagonista, o garoto e a mãe dele, no presídio, e a dos últimos dois com o “vilão” Javi.

Ajuda muito, para dar ritmo e “clima” para o filme, a trilha sonora do brasileiro Antonio Pinto. Ele fez uma bela pesquisa de músicas latinas, dando peso e “ginga” para a produção. Além dele, merece destaque o trabalho de fotografia de Benoît Debie.

Get the Gringo foi feito por e para Mel Gibson. O ator não é apenas o protagonista e um dos coroteiristas, mas também um dos produtores. Depois dele, a história é focada nos três atores já citados – o garoto, a mãe e o “dono do presídio”, Javi. Fora eles, merecem ser mencionados os trabalhos de Peter Stormare como Frank, o bandido perigoso que foi roubado pelo personagem de Mel Gibson e que busca vingança; Dean Norris em uma superponta como o policial Bill; Bob Gunton em outra superponta como o rico Mr. Kaufmann, peça importante para o desfecho da história; Jesús Ochoa no papel pequeno de Caracas, diretor do presídio. Há outros atores importantes, mas que não foram identificados pela produção.

Falando nos produtores desta história, eles dizem que enviaram uma pessoa da equipe, Alejandra Cuervo, para fazer pesquisa de histórias com ex-presidiários do El Pueblito original, um presídio que, dizem, teria muitas das liberdades e histórias narradas nesta produção. Boa história, para quem acredita…

Get the Gringo teria custado cerca de US$ 20 milhões. Não é um orçamento desprezível. Provavelmente muito disto foi gasto nas cenas de ação – carro voando e capotando, tiroteios, explosões. Nas bilheterias o filme não tem se saído bem, o que demonstra que a figura de Mel Gibson está meio apagada. Até o dia 3 de junho, nos países onde a produção estreou, ela fez pouco mais de US$ 4,2 milhões nas bilheterias. Esse resultado não conta com os Estados Unidos, onde Get the Gringo não será lançado nos cinemas, mas apenas no sistema VOD – video on demand.

Get the Gringo foi rodado em Brownsville, no Texas, e em San Diego, na Califórnia, ambas nos Estados Unidos, além de Veracruz, no México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. É uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicando 32 textos positivos e oito negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,2.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela marca a estreia de Adrian Grunberg como diretor. Antes deste filme, ele tinha atuado como assistente de direção de outros 22 títulos, incluindo Apocalypto – certamente é dali que surgiu o interesse de Gibson para o trabalho dele.

CONCLUSÃO: Todos são corruptos ou corruptíveis. O México é uma bagunça, e o personagem de Mel Gibson, um criminoso. Essas duas frases resumem Get the Gringo, que também apela para o velho drama de um garotinho órfão esperto como “aliado” do protagonista. Nada, nesta história, inova. Você já viu a este filme antes – se não, literalmente, com todos estes elementos, mas com vários deles jogados aqui e ali. E apesar de tudo isto, Get the Gringo é um filme interessante. Principalmente pelo cinismo da história e pela interpretação de Gibson que, a cada novo filme, parece assumir ainda mais a sua vertente fora do convencional. Ele está louco? Possivelmente. Mas esta loucura que, muitas vezes, resume-se a uma forma diferente de tratar a carreira em Hollywood é, justamente, o que torna o ator digno de ser acompanhado. Filme sobre bandidos, Get the Gringo é absurdo, caricato e, apesar de tudo isso, estranhamente divertido. E, claro, recomendado apenas para quem gosta de Mel Gibson. Os demais devem odiar a produção. Até porque ela tem, realmente, muitas falhas. Mas quem se importa, quando há um astro que perdeu o manual de boas maneiras em cena?

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4 comentários em “Get the Gringo – Plano de Fuga

  1. A idade não parece pesar sobre Mel Gibson, em Get the Gringo, ele num chega ter a loucura de Max Rockatansky, nem ser tão mortífero como nas quatro máquinas e tão pouco com o coração valente como em outras épocas, mas Gibson consegue dar o Troco nesse tipico filme de ação.
    Brincadeiras a parte com outros títulos estrelados por Gibson, deu pra ver , que também me amarro nos seus personagens, o sarcasmo, a descontração, o sangue frio nos momentos mais conturbados, e como você definiu bem, a cara de louco!
    Apesar dos vacilos fora da tela que custaram-lhe uma baixa na popularidade, Gibson não perdeu a manha de fazer uma historia já contada várias vezes ser atrativa e divertida.

    Grande abraço, Alessandra!

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    1. Olá Marcus!

      hahahahaha. Achei bacana a tua brincadeira com os filmes anteriores do Sr. Mel Gibson.

      E concordo contigo que ele, como ator, continua nos apresentando filmes interessantes, apesar das mancadas na vida pessoal. E essa entrega interessante ocorre especialmente por causa da interpretação diferenciada do Gibson.

      Obrigada por mais esta visita e comentário. E volte por aqui sempre!

      Um grande abraço e até a próxima!

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    1. Oi Tonet!

      Que bom receber uma visita tua e um comentário teu. Que honra!

      hehehehehehe. Achei engraçada a tua detonada de Mad Max. Claro que seu avaliar o filme com a perspectiva de hoje, vou achar o filme ruim. Mas observando ele em sua época, quando foi lançado, achei uma produção que mostrou ao que veio e que foi competente no propósito que tinha.

      Agora, de fato, Gibson tem cara de louco constantemente. hehehehe.

      Obrigada pela visita e pelo teu comentário. E espero que você me dê o prazer de ler outras opiniões tuas por aqui com maior frequência.

      Abraços e inté!

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