Carnage – Deus da Carnificina


Todos são muito civilizados. Até que cada um começa a ser contratariado. Esta não é a história apenas dos personagens principais do ótimo Carnage. Mas de cada um de nós. Como lidamos com o contrário, com o diverso, com a quebra de nossas certezas, diz muito sobre quem somos. Este filme de atores, que ganha força pelo ótimo roteiro e pelo trabalho dos protagonistas, expõe as fragilidades, contradições e a violência domada pela sociedade que, volta e meia, vem à tona quando as pessoas perdem o controle e as barreiras da civilização. Altamente recomendado se você não tem problemas com um filme rodado, totalmente, em um ambiente, e que abre mão das cenas de ação para apostar em uma outra forma de cinema.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças conversa e brinca em um parque. Enquanto alguns meninos jogam bola uns para os outros, outros começam a caminhar, até que um garoto parece desagradar aos demais. Ele é empurrado, e também empurra. O garoto parece levar um galho antigo em uma das mãos, e o utiliza para bater em um desafeto, no rosto. Na saída, ele responde a outros garotos e derruba uma bicicleta. Corta. Uma mulher escreve, no computador, uma declaração sobre o que aconteceu. Ela é Penelope Longstreet (Jodie Foster), mãe do garoto que foi golpeado, e chamou os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz) para uma espécie de “acordo amigável”. O que começa bem vai se transformando conforme Penelope e o marido, Michael (John C. Reilly) vão interagindo com Nancy e Alan.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carnage): Eis um filme fascinante, que mostra como grandes atores interpretando um roteiro impecável podem entreter tanto ou mais que milhões investidos em efeitos especiais. Uma ode a ótimos intérpretes que retratam a ironia da nossa civilização, que gasta tanta energia para educar-se e ascender socialmente, mas que segue rastejando em sentimentos e reações de cólera e que nos lembram aos animais mais irracionais.

O diretor e roteirista Roman Polanski faz mais um grande trabalho aqui. Talvez, um dos melhores de sua carreira. Produção universal, e que não deverá perder valor com o tempo. Carnage é um roteiro do diretor, que contou com o trabalho do tradutor Michael Katims para reproduzir todas as peculariedades da peça Le Dieu du Carnage, escrita por Yasmina Reza. Imagino que no teatro, com grandes atores, este texto também provoque um grande impacto.

Muito bom ver Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, grandes atores que já demonstraram, em mais de uma ocasião, os seus respectivos talentos, reunidos em um mesmo jogo de cena. A mudança que ocorre dentro daquelas quatro paredes da casa dos Longstreet, inicialmente “tão corretos”, “tão civilizados” e, especialmente, a alteração das expressões e dos comportamentos do casal vivido por Foster e Reilly é de arrepiar. E lembra a transformação que tantas outras pessoas passam em diferentes situações.

Há quem se transforme quando está em grupo – como na abertura do filme, quando vários garotos enfrentam um outro, que está sozinho, mas “armado”. Há quem mude quando sobe de posto, ganha poder e dinheiro. E há também os que se transformam na intimidade de seus lares, assumindo uma postura dominante e repressiva na família enquanto na rua esta pessoa utiliza a máscar do “bom/boa cidadão/ã”.

Mas as situações mais frequentes, talvez, sejam aquelas que envolvem a alteração da personalidade quando a pessoa é contrariada. Como diria um certo sábio, infelizmente há muitas certezas para poucas dúvidas neste mundo. E quanto mais as pessoas guardam as suas convicções e não dão espaço para a contrariedade, mais elas deixam aberta a porta para o confronto, a discórdia, a cólera e a violência.

Eis apenas algumas das reflexões que Carnage nos propicia. Mas há muitas outras, que podem ser retiradas desta história saborosa. Como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também demonstra como alta erudição – no caso de Penelope – ou alta posição social – especialmente no caso de Alan – não significam, necessariamente, boas maneiras, generosidade, altruísmo ou senso comum.

O mais irônico – e interessante – é a forma como o filme sugere que, no final, somos todos bárbaros. Uma fina crítica de Polanski para esse esforço medíocre da sociedade em ser civilizada e dar as costas para o “Deus da Carnificina” que parece acompanhar-nos desde as cavernas. Interessante que a perda de tempo com este “Deus”, que significa a ânsia de devorar o outro, essencialmente, e pela destruição, no fim das contas, segue nos cercando. Em ambientes corporativos, nas redações, nas universidades, nas escolas, em diversos ambientes em que há gente que prefere “rezar” e fazer promessas para este “Deus” do que para o outro, mais conhecido, que representa justamente o contrário – amor, doação, comprometimento, etc.

Interessante a sutileza do texto e do jogo de cena. Desde as leves ironias da “supercivilizada” Penelope, desde o início, e seu desejo de aparentar alguém comprometido com a casa e os visitantes – ao comprar, por exemplo, um buquê de tulipas importadas que custa US$ 20 – até o desejo incontido de Alan em dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, porque as crianças não tem a noção de civilização e todos os compromissos que surgem daí como os adultos. No que, francamente, em parte, ele está certo. Quem não se lembra de quando era criança ou pré-adolescente de como não enxergava todas as sutilezas das relações de poder e as demais como agora, já adulto? O que não justifica, nunca, claro, atos de violência. Mas é de se pensar.

E falando em pensar… outra questão bem levantada por Carnage é que tipo de ensinamentos os pais estão repassando para os filhos atualmente. Que tipo de lógica torta ou de valores corretos estão sendo transmitidos? Preocupante o ambiente das duas famílias retratadas e que refletem muitas outras mundo afora. Interessante também como cada linha de diálogo e expressão dos atores demonstra pré-julgamentos que uns tens dos outros e suas reprovações contidas. Um belo retrato desta necessidade que muitos tem – a maioria mas, acredito, não a totalidade – de estar sempre julgando e hierarquizando aos demais.

E impressionante a forma com que um casal fica medindo o outro, tentando ver quem está mais “ferrado” para, desta forma, sentir-se melhor com os próprios problemas. O descontrole vai crescendo, até que todos lavam as suas próprias roupas sujas. Uma catarse que pode ser lida, quase, como terapia. E no final, a cereja no bolo: a sugestão que os jovens problemáticos resolveram seus problemas de forma muito mais simples do que os seus pais.

Mas para não dizer que tudo é perfeito em Carnage, há algumas situações um bocado irreais que acabam atrapalhando todo aquele “excesso de realidade”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como, por exemplo, os pais do garoto agressor, que estavam loucos para sair dali o mais rápido possível, terem aceitado tomar café e água e, depois, terem comido bolo e se enredado, cada vez mais, em um embate verborrágico com o outro casal.

Então alguém pode dizer: “Mas se fosse assim, tudo tão lógico e racional, não teríamos um filme, porque o casal não voltaria para o apartamento do outro tantas vezes”. De fato, não teríamos filme. O que seria péssimo, claro. Mas talvez a forma com que o “convencimento” foi feito poderia ter sido outra do que o oferecimento de uma simples xícara de expresso. Além do mais, uma vez, tudo bem. Mas duas? Se bem que, da segunda vez, o reticente Alan já estava querendo embarcar em uma sessão de desmascarar aquela Penelope tão perfeita… As razões para os retornos eu ahcei o único porém desta produção.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, minhas desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Eu assisti a Carnage há quatro ou três semanas mas, só agora, consegui sentar para escrever estas linhas. A verdade é que entrei, mais uma vez, naquela fase de muito trabalho… mas prometo tentar, a partir de agora, atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.

Outra leve ironia de Polanski foi colocar um de seus filhos, Elvis Polanski, no “papel” de Zachary Cowan, o garoto agressor da história. O próprio Polanski tem uma história bastante controversa. Nascido na França, ele fugiu dos guetos de um campo de concentração, foi para os Estados Unidos, perdeu a mulher Sharon Tate, que estava grávida, assassinada por Charles Manson e “família” e, mais tarde, foi acusado e condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos. Para não ser preso, ele fugiu dos Estados Unidos e voltou a morar na França, até que, em 2009, foi preso em Zurique.

Polanski ficou em prisão domiciliar, na Suíça, até que uma decisão da Justiça optou para que ele não fosse extraditado para os Estados Unidos.

E uma curiosidade sobre esta produção: a exemplo de Rope, de Alfred Hitchcock, Carnage também foi totalmente rodado em tempo real, de forma contínua e sem cortes. Diferente do clássico do mestre do suspense, Carnage só tem algumas cenas, as iniciais e finais, que transcorrem fora de um único ambiente – o apartamento e o corredor de acesso a ele.

Agora, uma curiosidade difícil de perceber: Polanski, a exemplo de Hitchcock, faz uma “ponta” no filme como o vizinho que olha pela porta entreaberta para ver o que está acontecendo no corredor, já que os atores estão falando alto. Curioso, no mínimo. O que reforça, também, como Carnage é uma homenagem de Polanski a Hitchcock.

A trilha sonora de Carnage está presente no início e no final. E mesmo que pouco presente, nela é possível ver o trabalho dinâmico e dramático do ótimo Alexandre Desplat.

Além da trilha sonora, importante destacar o belo trabalho do diretor de fotografia Pawel Edelman, que deu o tom exato para cada momento do filme – no parque e na casa – e a decoração de set de Franckie Diago. Precisos.

Carnage foi totalmente rodado na França, em dois estúdios, e na cidade de Paris – as cenas externas.

Este filme estreou no Festival de Veneza em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais. No Festival de Veneza, ele recebeu o Pequeno Leão de Ouro. Foi indicado, ainda, aos Globos de Ouro de Melhor Performance de Atriz em um Filme de Comédia ou Musical para Jodie Foster e Kate Winslet. Além daquele prêmio de Veneza, ele recebeu outros três: Melhor Elenco pela avaliação do prêmio da Boston Society of Film Critics; Melhor Roteiro Adaptado no prêmio do Cinema Writers Circle, da Espanha; e Melhor Roteiro Adaptado no prêmio César, da França.

Uma pena, mas este filme mal conseguiu pagar-se. Carnage teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais que isso nas bilheterias globais. Nos Estados Unidos, ele foi mal: conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. No restante dos países, mais US$ 25 milhões. No total, cerca de US$ 27,6 milhões, até o momento. Pouco. Mas dá para entender, pelo estilo de fime – não é o grande público que busca algo deste gênero. Infelizmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. É uma boa nota, para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram na mesma linha, dedicando 188 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,8.

Carnage é uma co-produção da França, Alemanha, Polônia e Espanha.

CONCLUSÃO: Este não é o primeiro filme que se passa em um único ambiente. Mas, sem dúvida, é um dos melhores. Diferente do clássico de Hitchcock, que aposta na tensão criada por um crime, Carnage investe na tensão do embate de argumentos e psicológico entre pessoas com olhares muito diferentes sobre boas maneiras. A própria civilização está em jogo naquela casa de pessoas, aparentemente, tão equilibradas e “compreensivas”. Pouco a pouco os quatro personagens vão mostrando as suas armas, ironias, hipocrisias. Quem descuidar e começar a preocupar-se mais em avaliar a pessoa próxima do que a si mesma, vai cair no embate. Na crítica, no confronto, na violência controlada por muitos anos de educação. Há muitas camadas de leitura deste filme. Só isso já o torna um artigo raro. Mais um excelente trabalho de Roman Polanski. E uma oportunidade única de ver ótimas interpretações de quatro grandes atores.

SUGESTÕES DE LEITORES: Demorei tanto para escrever sobre Carnage que o Mangabeira, um dos mais estimados leitores deste blog, foi mais rápido. 🙂 Mangabeira, tenho que citar a tua indicação, é claro. Tinha assistido ao filme antes de comentares, mas como não escrevi… está valendo a tua sugestão. O que é bacana, porque reforça ainda mais, para quem não assistiu, de que não sou a única que aprovou a produção. Muito obrigada, por mais esta dica. Como podes ver, eu também tinha adorado ao filme. Inteligente, irônico, com ótimas atuações e roteiro inspirador. Abraços e obrigada por sempre voltar aqui!

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11 comentários em “Carnage – Deus da Carnificina

  1. Imaginei que esse filme seria um fortíssimo candidato a uma de suas raras e criteriosas ‘notas dez’. Ups…esse passou perto hein Alê! he he…

    Sensacional, nem sonhei que Polanski faz uma pontinha no filme. Depois de ler sua análise, bateu vontade de ver de novo, dessa vez prestando mais atenção ainda nos detalhes. A personagem de Foster quase me mata de rir, parece ser a que mais se apega a sua frágil máscara protetora de civilidade. E por falar em risada, esse filme é controverso, porque parece estar classificado como comédia e drama no IMDB. É estranho, eu como leigo não saberia classificá-lo apenas dessa forma, quem sabe tragicomédia, ou simplesmente, um filme inteligente e cômico.
    inté mais Alê!

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    1. Oi Mangabeira!

      Meu fiel companheiro de bons filmes. 🙂

      Então, só não dei um belo 10 porque sou chata. hehehehehe. Talvez ele mereça. Mas fiquei “incomodada” (nem tanto) com alguns detalhezinhos que não me deixaram dar a nota máxima.

      De fato, a personagem de Jodie Foster é a que mais se agarra a essa civilidade estranha e impossível. Ou possível, mas com um bocado de desgaste.

      Vejo o filme como comédia e drama. Aliás, este e vários outros. As classificações são cada dia mais complicadas, já reparou? Até as de filmes. 🙂

      Obrigada por mais esta visita. E inté! Abraços.

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    1. Oi Rafa!

      hahahahahaha

      Então, desta vez eu fui chata.
      Sim, talvez o filme merecesse um 10… mas não me convenceu e/ou encantou a este ponto. Achei incrível, é claro, mas não consegui dar a nota máxima. 🙂

      Obrigada. Fico feliz que tenhas gostado da crítica.
      Então, acho que parte do filme é comédia… mas uma parte beeeem pequena. Está muito mais para drama, certamente.

      Vê se aparece mais vezes, viu? Beijossssss

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  2. Fantástico filme, impossível não lembrar do filme de Bunuel “O anjo exterminador” Prende a gente na cadeira, a momentos que vc quer que eles saiam daquela sala, o que os prende ali? Drama, comédia, e emoção, numa ” pequena obra prima”.

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    1. Oi vanderfilmb!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Bela lembrança do filme de Buñuel. Aliás, faz tanto tempo que o assisti, que acho que preciso revisitá-lo uma hora destas. Boa pedida.

      Sim, nós ficamos nos perguntando porque, afinal, aquele casal não sai dali… e a sequência da “civilidade” sendo desnudada só nos mostra que, talvez, o que eles precisassem era realmente daquela catarse.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui muitas vezes ainda, inclusive para falar de outros filmes.

      Abraços e inté!

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  3. O filme me dava uma impressão de estar assistindo um curta-metragem e que a qualquer momento acabaria, e quando mais estava envolvido com os personagens, a fita chega ao fim, porém, de forma brilhante! Excelente filme!!
    Parabéns mais uma vez pela resenha Alessandra, vou dar uma checada no clássico de Hitchcock.

    Até!!

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    1. Oi Marcus!

      Grande filme, não é mesmo? Ele tem essa qualidade de passar rápido. Certamente porque envolve o espectador completamente com cada linha de diálogo e com as ótimas atuações do elenco.

      De fato, uma produção que merece ser assistida.

      Veja o clássico e perceba os detalhes. Vale muito a pena.

      Obrigada por mais esta visita e comentário. E volte por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

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  4. talvez os motivos que o levaram a voltar da primeira vez foi justamente a culpa e a vergonha que eles sentiram pelo fato de seu filho ter ”provocado ” tal situação. Bem como ressentimento, eles se sentiam de certa forma em dívida pela situação…alem de querer manter as aparências, enfim! mas isso apenas na primeira vez que eles voltaram…

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      1. Oi Isis!

        Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui!

        Sim, talvez aquele primeiro retorno tenha sido motivado um pouco pela culpa – razão daquele encontro, aliás. Mas acho também que, desde o princípio, eles estavam motivados a mostrar como “havia uma razão de ser” da atitude do filho. Aquela postura arrogante de quem sempre quer dar razão para o rebento, sabe? Não sei, sendo assim, se havia muito espaço para vergonha ali.

        Que bom que você gostou da crítica. Tento sempre buscar algumas curiosidades sobre as produções que eu assisti depois de comentar sobre a minha leitura do que eu vi.

        Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E espero que você volte por aqui mais vezes, inclusive para falar sobre outros filmes que tenhas gostado.

        Abraços e inté!

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