Les Petits Mouchoirs – Little White Lies – Até a Eternidade


A história parece batida. E, apesar do ótimo elenco, de fato é bastante conhecida. Les Petits Mouchoirs trata das relações de amizade e dos prazeres e conflitos que surgem a partir do contato muito próximo entre um grupo de pessoas. Fala também dos desencontros que existem entre estas pessoas, e das mentiras que elas contam – para os demais e para si mesmas. O melhor do filme é o elenco, porque o roteiro é um pouco mais do mesmo.

A HISTÓRIA: Um sujeito sai do banheiro feminino de uma boate visivelmente “acima do tom”. Ele mexe com umas meninas, passa pelas pessoas, até encontrar um amigo, que o apresenta para a acompanhante como Ludo (Jean Dujardin). Depois de tacar um beijo na moça, ele sai do bar e pega a moto. Vai dirigindo calmamente, respeitando os sinais fechados, até que é atingido em cheio por um caminhão. Corta. Um grupo de amigos de Ludo organiza-se para visitá-lo no quarto do hospital. Este mesmo grupo, na saída, discute a viagem que eles farão para passar parte das férias. Conflitos entre eles começam a ocorrer antes e durante essa viagem.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Petits Mouchoirs): Primeiro o excepcional Jean Dujardin. Depois, aparecem Marion Cotillard (como Marie) e François Cluzet (como Max Cantara), dois astros do cinema francês, além dos menos conhecidos, mas muito competentes Gilles Lellouche (como Éric), Benoît Magimel (como Vincent Ribaud) e Laurent Lafitte (como Antoine).

O filme tem uma atriz de destaque, Marion Cotillard, que, claramente, ganhou um papel com maior peso. No mais, esta é uma produção dominada por homens. Os personagens de Max, Éric, Vincent e Antoine dominam a cena. E suas mulheres e namoradas também tem importância, mas, claramente, desempenham papéis de coadjuvantes. São elas: Valérie Bonneton como Verónique Cantara, esposa de Max; Pascale Arbillot como Isabelle Ribaud, esposa de Vincent; Anne Marivin como Juliette, objeto da obsessão de Antoine; e Louise Monot como Léa, namorada de Éric que aparece pouco em cena (assim como Anne Marivin). Para fechar a lista de coadjuvantes, o carismático e competente Joël Dupuch como Jean-Louis.

Fiz questão de citar todos estes nomes porque eles são a justificativa para assistir a este filme. Dujardin, para a infelicidade do público, aparece muito pouco. Tem algumas poucas linhas de texto para falar. Mas ilumina a tela quando aparece. Por outro lado, ele tem uma figura muito parecida para ocupar o vazio que deixa no filme: o ótimo Gilles Lellouche, parecido fisicamente e, segundo o roteiro do diretor Guillaume Canet, também no estilo de levar a vida.

Além de Lellouche, faz a alegria de quem gosta de ver a belos homens em cena o ator Benoît Magimel. O veterano François Cluzet completa a lista dando peso pela parte técnica e entrega para o personagem mais irritado em cena. Enquanto os atores desempenham bem os seus papéis, quem já assistiu a filmes como St. Elmo’s Fire (O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas) e The Big Chill (O Reencontro), entre outros que giram em torno da relação e dos conflitos entre amigos, vai sentir o gostinho de “eu já vi isso antes”.

No cardápio desta produção há, essencialmente, drama, algo de romance, e poucos momentos de comédia. Mas as surpresas, seja de roteiro ou no estilo de direção, passam longe de Les Petits Mouchoirs. A direção de Canet é básica, linear, sem inovações de estilo. O roteiro, para quem está habituado a assistir a bons filmes, também perde força pela previsibilidade. Quando Dujardin desliza pela cidade com sua moto, ficamos apenas esperando o desastre. E ela acontece – em uma cena espetacular, devo admitir.

Depois, quando o grupo de amigos resolve viajar para “curtir” 15 dias das férias juntos, o desenrolar das histórias também é previsível. Quer dizer, exceto por alguns absurdos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por exemplo, pela obsessão egoísta e exagerada de Antoine por Juliette. O primeiro indício deste desvio de caráter dele aparece quando ele chega no hospital, perguntando primeiro por Juliette, antes de saber algo sobre Ludo, que estava internado. Depois, ridícula a forma com que Max lida com a confissão de Vincent. Mirar a raiva dele e, aparentemente, seu desejo reprimido em manifestações de repressão dos filhos do amigo só revela a falta de equilíbrio do homem mais experiente do grupo.

No mais, o filme gira em torno dos desejos, anseios, relações amorosas e conflituosas de cada uma destas pessoas imersa em um grupo de amigos. Eles conversam bastante mas, algumas vezes, parecem falar apenas palavras vazias. Poucas vezes conseguem dizer o que realmente pensam o sentem – daí aquele desabafo final de Jean-Louis. De fato, aquele grupo sabe compartilhar os recursos de Max, que consegue queixar-se de coisas pequenas (como as bebidas que terminam ou o horário dos outros que não se encaixam com o dele), sabe desfrutar dos momentos bons da vida, mas não conseguem enfrentar os temas difíceis – como a possibilidade da morte de Ludo.

Neste último ponto, Les Petits Mouchoirs pode refletir a dificuldade de todas as pessoas em lidar com a perda e com o risco da morte – algo que é constante e inevitável. Fácil é curtir a vida, compartilhar os bons momentos, as alegrias. Complicado é ter alguém ao lado quando a vida fica difícil, não é mesmo? Irritante – pelo menos para a minha ótica – as “homenagens” para Ludo, no final. Não por acaso diferentes sociedades que existem no mundo giram em torno do sentimento de culpa… pela minha análise, seria muito melhor as pessoas fazerem o que é certo quando devem fazer, do que depois ficarem arrependidas.

Mesmo tão cheios de sentimentos, os personagens deste filme parecem incapazes de realmente serem felizes, de viverem comprometidos em uma relação. Exemplo disso é quando o músico Franck (Maxim Nucci) aparece em cena e Marie parece irritada em ter um cara tão legal interessado nela.

Les Petits Mouchoirs fala um pouco sobre a lógica da vida, muito sobre as engrenagens da amizade. É um bom passatempo, especialmente pelo belo trabalho dos atores. Mas há filmes melhores, mais criativos e interessantes por aí.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além do elenco, outra qualidade de Les Petits Mouchoirs são as locações, as paisagens e cidades francesas. No início, nos deliciamos com os motociclistas do enredo passeando pelas ruas de Paris. Quem já esteve na capital francesa vai relembrar bons momentos que passou por lá. Além de Paris, aparece no filme o Aeroporto de Bordeaux, na sequência do reencontro entre Éric e Léa; e, nas sequências das férias, Lège-Cap-Ferret, que faz parte de Gironde. Um belo local, aliás.

Les Petits Mouchoirs estreou em setembro de 2010 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria por outros três festivais e mais uma mostra. Neste caminho, a produção foi indicada a três prêmios, mas não recebeu nenhum deles.

Procurando mais informações sobre o diretor é que “juntei o nome à pessoa”. O jovem Guillaume Canet, de 39 anos, tem uma longa lista de trabalhos como ator. Até agora, ele figura como tendo estrelado 51 produções, entre filmes e séries. Uma delas comentada aqui, recentemente: Last Night. Além de lindo e bom ator, ele também acumula oito trabalhos como diretor – entre curtas, séries e longas. Les Petits Mouchoirs foi o terceiro longa dirigido por ele.

Agora, Canet está trabalhando na pós-produção de Blood Ties, previsto para estrear no ano que vem, e que conta a história de dois irmãos em lados “opostos da lei” no Brooklyn dos anos 1970. No elenco, Clive Owen, Billy Crudup, Marion Cotillard, Mila Kunis, Zoe Saldana, James Caan, Lili Taylor, entre outros. Vale acompanhá-lo, pois.

Les Petits Mouchoirs teria custado cerca de US$ 25 milhões. Apenas na França, até dezembro de 2010, ele arrecadou pouco menos de US$ 44,4 milhões. Nada mal. Sinal de que o elenco conhecido e a própria fama de Canet em seu país são garantias de sucesso para os seus trabalhos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Levando em conta a média do site, é uma ótima avaliação – especialmente se analisado o que o filme, de fato, apresenta. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não foram tão generosos. Eles dedicaram 15 críticas negativas e 14 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% – e uma nota média de 5,8.

CONCLUSÃO: Quando os atores deste filme começaram a aparecer em cena, pouco a pouco, tive grandes esperanças de que este seria um grande filme. Mas não. Les Petits Mouchoirs parece demais com outras produções do gênero. Na verdade, parece apenas uma desculpa para reunir um grande elenco. Porque a história chove no molhado. Não sai da premissa “todos nós, ainda que tenhamos grandes amigos, sofremos e vivemos mais sozinhos do que gostaríamos de admitir”. Porque assim parece ser a vida. Por mais que existam momentos de desabafo, de sintonia e de exposição de sentimentos, somos pequenas ilhas cercadas de momentos de solidão por todos os lados. Este filme trata disso, de como somos animais sociais e, ao mesmo tempo, solitários reincidentes. É uma boa produção, mas que não vai mexer contigo nem pela inovação (nada aqui é novo), nem pela emoção (quando chegamos nela, a bola está muito cantada e não surpreende o suficiente). Um passatempo, na melhor das hipóteses, e boa desculpa para ver a ótimos atores.

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4 comentários em “Les Petits Mouchoirs – Little White Lies – Até a Eternidade

    1. Olá “CDP”!

      Antes de mais nada, obrigada pela tua visita e pelo teu comentário.

      Então, exceto em refilmagens, acho que nenhum filme é igual a outro – e ainda quando uma história é refilmada, ela é diferente da original.

      Dito isso, não quero dizer que existem outros filmes com tema exatamente igual a essa. Mas que tem, talvez, a mesma “filosofia”, que engrandece os laços de amizade e etc.

      Na crítica acima citei dois exemplos que eu acho melhores neste sentido: St. Elmo’s Fire e The Big Chill. Além deles, mesmo não sendo exatamente sobre amizade, acho Short Cuts genial. Eu começaria indicando estes.

      Volte por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes, beleza?

      Abraços e até mais!

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  1. Acho que filmes sobre as relações humanas, especialmente as de amizade, nunca “sobram”. É muito interessante ver os diferentes pontos de vista e os valores de cada cultura, me encanta mais o fato do filme ser francês. Me interessa ver a forma que nos comportamos em situações semelhantes, mas influenciados por culturas diferentes… Bom. Parabéns pelo blog. Um dia espero seguir este caminho de críticas.

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    1. Olá Heitor!

      Antes de mais nada, muito obrigada pela tua visita e pelo teu comentário.

      Eu estou contigo. Também sou apaixonada por filmes que tratam das relações humanas, em especial pela escola francesa de cinema, tão habituada a trabalhar estes temas. E estás certo de como é importante ver a filmes de latitudes diferentes até para ver como culturas distintas tratam assuntos tão “compartilháveis” nas diferentes culturas justamente por eles tratarem do espírito humano e das características que temos em comum.

      Fico feliz que você goste do blog e, pelo que eu percebi, acompanhas este espaço há bastante tempo. Me desculpe ter demorado tanto para te responder, mas só agora eu consegui o tempo desejado para isto.

      Espero que continues visitando este espaço e fazendo outras observações sobre filmes. Nas próximas vezes eu devo demorar menos para responder. Um grande abraço e até a próxima!

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