Hodejegerne – Headhunters


Quando você acha que já assistiu a todos os filmes sobre ladrões de obras de arte e/ou objetos tão valiosos quanto impossíveis de serem furtados, aparece um filme como Hodejegerne (ou Headhunters para o mercado internacional). A produção norueguesa, co-produzida pela Alemanha, comprova o que todo amante do cinema já sabia: que aqueles países tem um talento especial para subverter histórias já batidas. Com humor refinado, noruegueses e alemães sabem tornar filmes de ação um compêndio bem planejado de violência, suspense, drama, comédia e outros elementos da vida real sem parecerem forçados ou exagerados. Aventure-se com mais esta produção. Vai valer o teu tempo.

A HISTÓRIA: Um sujeito entra por uma porta. Ele usa luvas cirúrgicas, roupa escura e máscara, e prepara o seu procedimento-padrão. Enquanto isso, fala das regras básicas para um ladrão de obras de arte: conhecer bem a pessoa que ele “está visitando”; nunca gastar mais de 10 minutos; não deixar qualquer resquício de DNA; não perder tempo com uma imitação cara e, por último, que mais cedo ou mais tarde ou você encontrará uma obra tão valiosa que fará você se aposentar, ou você será pego. Corta. Roger Brown (o fantástico Aksel Hennie) se apresenta. Diz ser um homem com 1,68 metro de altura que, consequentemente, precisa de compensações. A primeira delas (não admitida por ele, mas subentendida pelas imagens) é a bela Diana Brown (Synnove Macody Lund). A segunda, a casa de 30 milhões. Brown afirma que para ele ter o que ele quer, a única forma é ter dinheiro. Muito dinheiro. E daí que surge a profissão não oficial dele, de ladrão de obras de arte valiosas. Tudo bem, até que ele esbarra com um competidor bastante perigoso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hodejegerne): Os primeiros minutos deste filme dão uma mostra de tudo que virá em seguida. E o melhor: a “capa do livro” não engana quem se aventura em assistir a esta produção. Em outras palavras: tudo o que funciona bem nos primeiros minutos segue pelo restante da produção.

Por isso, basicamente, Hodejegerne é um deleite. Vejamos. Nos primeiros minutos assistimos a uma edição ágil, uma direção que cuida dos detalhes e busca os melhores ângulos, um roteiro inteligente e irônico, uma direção de fotografia que trabalha para que a melhor imagem seja captada, e um ator principal que dá legitimidade para o personagem. O que mais precisamos para que um filme seja maravilhoso? Que tudo isso continue até o final e que nenhum outro elemento, como os atores coadjuvantes, atrapalhem o conjunto da obra.

Para os amantes do bom cinema, tudo que precisa acontecer de fato acontece nesta produção. Então somos rapidamente apresentados para a lógica do bandido carismático, que também reflete a personalidade de tantos homens modernos que pensam que a saída para as suas limitações e/ou carências seja comprar o que lhes agrada. Ter dinheiro, basicamente, para logo mais acessar tudo o demais. Ledo engano.

E o bacana desta produção é que o que parecia ser uma leitura rasa deste ledo engano tão comum acaba evoluindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não haveria problema, claro, na produção justificar-se apenas pelo cara baixinho – para os padrões noruegueses – que compensa a estatura tendo uma mulher belíssima ao lado (a qual, ele acredita, só foi conquistada, justamente, pelo status dele).

Mas não deixa de ser uma delícia – e o que garante a nota abaixo para a produção – que, além de todas as qualidades técnicas do filme, ele ainda avance no cerne narrativo. Nosso personagem, o bandido que somos facilmente induzidos a amar, afinal de contas, não é um idiota. Ele é movido por sentimentos maiores que uma crise de autoestima. A insegurança dele, afinal, está baseada no fundamento da maioria das inseguranças: o medo da perda da pessoa amada. Muito bom! Eis a cereja do bolo que faltava.

Mas antes desta cereja, claro, há várias camadas de massa (trabalho dos atores), recheio (roteiro) e suspiro (direção e equipe técnica) no meio. O diretor Morten Tyldum conseguiu exprimir o melhor do roteiro dos ótimos Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, que trabalharam a história do livro de Jo Nesbo. Ele dá agilidade para a história que, sozinha, já era envolvente. Por suas lentes, acompanhamos o desfile do talento de Aksel Hennie, bem acompanhado da já citada Lund e do ótimo Nikolaj Coster-Waldau, que está dando um show na série Game of Thrones.

Nada sobra ou falta nesta produção. O diretor de fotografia John Andreas Andersen escolheu lentes que potencializam os contrastes, tornando alguns momentos – como o início da produção – bastante claros, com quase um excesso de luminosidade (mesmo efeito aparece perto da “resolução” da história), versus várias sequências em que os tons mais escuros quase predominam (na fase mais pesada de perseguições).

Os diálogos e a linha de “raciocínio” da ação são ágeis. As conversas seguem uma linha racional e que seriam facilmente “identificadas” em momentos similares na vida real. Há legitimidade nas falas dos atores e, claro, nas suas posturas. Especialmente o protagonista. O editor Vidar Flataukan faz um trabalho primoroso, dos melhores que eu assisti nos últimos tempos. E a trilha sonora… ela própria vira um personagem, desde o princípio.

A parceria de Trond Bjerknes e Jeppe Kaas é fundamental para reforçar a ironia e a agilidade da produção, com uma levada cadenciada e divertida na maior parte do tempo – mas com incursões em músicas no velho estilo suspense quando necessário. A trilha, sem dúvida, é um elemento fundamental e de grande qualidade da produção.

Antes eu comentei sobre algumas reviravoltas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A fundamental é a que explica a obsessão de Clas Greve (Nikolaj Coster-Waldau) em eliminar o protagonista. Inicialmente, parece um crime passional. Mas não. Greve é um estrategista, um militar focado nos objetivos e em suas ordens. Alguém, talvez, possa dizer: “mas para conseguir um emprego a melhor forma seria matar o responsável pela contratação que não queria contratá-lo?”. Claro que havia outras formas, do tipo tirá-lo de cena, simplesmente, com um sequestro. Mas essa não parecia ser a natureza de Greve, que tinha planos ambiciosos para aquele emprego – infiltração que valeria muito dinheiro. E ele, o dinheiro, move a todos nesta produção. O mesmo acontece em muitos outros lugares além do cinema.

E assim, tudo funcionando bem e de forma inventiva, é que Hodejegerne se apresenta. A história, propriamente, além de ser ágil e de cuidar de aprofundar-se no personagem principal, ainda nos reservar algumas reviravoltas e surpresas. Sendo assim, nada mais a acrescentar. Eis mais uma bela surpresa vinda da Europa que, de quebra, surpreende aos que já viram a muitos filmes deste gênero específico (de ação e suspense envolvendo um ladrão de obras de arte) com ideias e enfoques diferenciados. O público agradece.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Hodejegerne é apenas o terceiro longa dirigido por Morten Tyldum. A carreira deste diretor começou em 1996 com o curta Lorenzo. Ele demoraria sete anos para lançar o primeiro longa, Buddy, de 2003. Em sua trajetória, Tyldum acumula oito prêmios e sete outras indicações. Nada mal. Ele merece ser acompanhado, pois.

Além dos atores principais, já citados, vale comentar o belo trabalho de dois coadjuvantes: Eivind Sander como o “parceiro de crimes” de Roger Brown, o agente de segurança apaixonado por uma prostituta Ove Kjikerud; e Julie R. Olgaard como a amante do protagonista, Lotte.

Falando nisso, algo me irritou no personagem principal, construído para fascinar ao público. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com uma mulher como Diana em casa, por que Roger a traia com Lotte? Elementar, meus caros leitores. Ele a traia pela mesma razão idiota que faz qualquer outro homem (e parece que eles são muitos) trair a mulher que ama: com medo de perder o que já tem, eles buscam justamente a pior forma de conseguir isto, arriscando-se para suprir, com a outra mulher, a própria carência. Dá raiva? Certamente. Porque haja tanta burrice… mas, parece, é assim mesmo. Muitos homens não sabem lidar com as próprias limitações. Sem contar que, claro, eles acham a traição algo sem importância – afinal, é apenas sexo. Mulheres pensam diferente – pelo menos, a maioria.

Segundo as notas de produção, este filme faz uma série de referências e homenagens para a trilogia Millenium, de Stieg Larssons. Um exemplo é que Diana está assistindo ao segundo filme da trilogia, em casa, quando Roger chega tarde da noite. Além disso, algumas tomadas aéreas que mostram um carro deslizando por estradas, feitas no filme The Girl with the Dragon Tattoo teriam sido utilizadas em Hodejegerne, com o carro original sendo digitalmente substituído pelo de Roger no novo filme.

Hodejegerne passou por uma dificuldade curiosa. A produção penou para encontrar dois gêmeos idênticos para fazerem os policiais que prenderam Roger. Eles deveriam pesar bastante e serem idênticos. No final, eles encontraram uma dupla que se encaixasse no perfil.

Depois de pronto, o filme foi vendido para 50 países – um recorde, tratando-se de produções norueguesas.

Como acontece na maioria dos filmes europeus de grande qualidade, uma produtora de Hollywood comprou os direitos para refilmar esta história nos EUA. A Summit Entertainment fez isso antes mesmo de Hodejegerne ser lançado.

Esta produção foi totalmente rodada na cidade norueguesa de Nittedal.

Hodejegerne estreou no Festival de Cinema de Locarno em agosto de 2011. Depois, a produção passou por outros 11 festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a três prêmios, mas saiu sem nenhum deles – uma pena e, eu diria, um pouco injusto.

Este filme teria custado cerca de 30,3 milhões de coroas norueguesas – cerca de US$ 5 milhões ou R$ 10,2 milhões. Um gasto baixo, especialmente se comparado com a média das produções hollywoodianas. Esta produção arrecadou, nos EUA, pouco mais de US$ 1 milhão. No restante dos mercados, Hodejegerne teria conseguido quase US$ 14,5 milhões. Nada mal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5. Uma boa avaliação, considerando a avaliação média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 78 críticas positivas e apenas sete negativas, o que garante para Hodejegerne uma aprovação de 92% – e uma nota média de 7,6.

Eu sabia que já tinha assistido a outro filme com o ótimo Aksel Hennie. Olhando na filmografia do ator, lembrei qual foi: Max Manus, filme bem interessante e comentado aqui no blog.

Até assistir a este filme eu nunca havia pensado que o ator Nikolaj Coster-Waldau, que eu assisto com gosto em Game of Thrones – ótima série, aliás – era dinamarquês. Pois sim. Como muitos atores do leste europeu, ele tem um inglês perfeito.

CONCLUSÃO: Qualquer pessoa, não importa o que ela faça da vida, sabe que riscos lhe rodeiam. De onde pode vir o tiro, como sugere uma música do Paralamas. Hoje, diz a música, é cada vez mais difícil saber de que parte esse tiro pode partir. Mas fora o imprevisto, você e eu sabemos dos riscos naquilo que fazemos. Hodejegerne mostra um sujeito que também conhece muito bem os riscos de ser um homem rico que tem como principal fonte de renda o crime. O que ele não previa era que ele virasse alvo de um cara muito mais perigoso. Para nossa satisfação, essa história rende um roteiro primoroso, com todos os elementos necessários para embalar os espectadores por pouco mais de uma hora e meia. Ágil no raciocínio, o roteiro cai como uma luva para o trabalho preciso do diretor. E o ator principal dá um banho, tendo uma parceria importante de dois coadjuvantes igualmente talentosos. O resultado é pura diversão, entretenimento inteligente. E, de quebra, uma eficaz releitura de um gênero que já parecia bastante desgastado – o de filmes de ação que focavam um ladrão de obras de arte.

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9 comentários em “Hodejegerne – Headhunters

    1. Oi vanderfilmb!

      E não é mesmo? Esse filme foi uma grande surpresa para mim. Uma grata surpresa, melhor dizendo.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui muitas vezes ainda.

      Um abraço e inté!

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  1. Só se eu fosse insano pra não ver um filme cujo sua nota foi 10. (Exageros a parte), o roteiro realmente não te deixa respirar, sensacional. Só aqui no seu blog pra descobrir essas jóias do cinema.

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    1. Graaande Mangabeira!

      Saudade de “bater papo” sobre ótimos filmes com você.
      Sei que a culpa disto é minha… porque estou super atrasada com as respostas aqui no blog. Mas vou colocando a vida em dia aos poucos… e chego lá!

      hehehehehe. Obrigada pelos elogios indireto e direto. 🙂
      De fato, fiquei empolgada com este filme. E fico contente toda vez que você me diz que eu te ajudei a achar algo bacana. Especialmente porque eu sei que você também é um bom “fuçador” de ótimos filmes.

      Abraços e inté!

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    1. Oi Olavvo!

      Puxa, obrigadíssimo. Fico feliz que tenhas gostado do texto.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu incentivo.
      E volte por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas visto.

      Um grande abraço e até a próxima!

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  2. Não tão rápido! Esse filme tem seus problemas. A maioria é passável. Outros são difíceis demais de engolir.
    Por que Klas Greve contaria tudo para a Lotte? Se ela fosse uma matadora como ele, não seria morta tão facilmente pelo Roger. Não sendo uma matadora, sendo mera isca, por que contar sobre planos de infiltração, dificuldades financeiras…?
    Por que ele colocou o cabelo no saco de embondo? Naquele momento fazia muito mais sentido jogar tudo rio abaixo. A idéia e usar o cabelo para atrair o Greve veio muito depois!
    Obs.: Você escreveu que atores do leste europeu têm inglês bom, você não quis escrever oeste?

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