Polisse – Poliss – Polissia


A polícia não é bem vista. E isto não é uma realidade apenas no Brasil. Para piorar a situação, uma equipe de policiais não lida com bandidos comuns, mas com estupradores e molestadores de crianças e adolescentes, assim como com pais e mães totalmente fora da normalidade. Polisse trata destes dois temas, a descrença da população com o trabalho policial, que imprime um bocado de pressão nos agentes da lei, e a realidade dura e cruel de crianças que são violentadas e abusadas de diferentes maneiras. Um filme interessante e pesado, em muitos momentos, e que beira ao absurdo em outras ocasiões. E o mais incrível: ele é totalmente baseado em histórias reais.

A HISTÓRIA: O filme começa dizendo que ele é baseado em histórias reais tratadas na BPM (Brigada de Proteção à Menores) situada em Paris, capital da França. Em uma conversa franca e cuidadosa, a policial Chrys (Karole Rocher) pergunta para uma garotinha se alguém fez algo com ela que não deveria. A menina diz que o seu pai, e conta que ele “coçou” a região entre as suas pernas. Um colega, Mathieu (Nicolas Duvauchelle), que acompanha tudo por uma câmera que está gravando a conversa pede, por telefone, para que Chrys pergunte para a menina se isso aconteceu à noite. A conversa segue, e a policial percebe que a menina não está falando a verdade. Esse é o cotidiano desta dupla de policiais e da equipe que trabalha com eles na BPM.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poliss): Até já assistimo a filme sobre abusos de crianças e adolescentes. Eles não são muito comuns, mas existem. Agora não lembro de ter assistido a outrao que pegue a ótica dos policiais que tratam destes casos. Polisse começa inovando por fazer esta escolha.

A ótica dos policiais é interessante e diferente. E o roteiro ganha pontos por não apresentar apenas casos tristes e absurdos, mas principalmente o modo de vida daqueles agentes policiais. De forma acertada, o texto da diretora Maïwenn, feito junto com Emmanuelle Bercot, destaca as interpretações dos atores e os diálogos rápidos entre eles, as crianças e seus responsáveis sob suspeita.

Aliás, interessante observar que tanto Maïwenn quanto Emmanuelle Bercot tem papéis importantes na trama. Especialmente a primeira, que interpreta à fotógrafa Melissa, que atua como uma espécie de “documentarista” da rotina dos policiais e que se envolve com Fred (Joey Starr), o aparentemente mais sensível oficial que trabalha na BPM. Emmanuelle

Emmanuelle Bercot, faz Sue Ellen, policial forte, mas sem grande destaque na trama. Ela integra o grupo de policiais encabeçado por Fred, Nadine (Karin Viard), Iris (Marina Foïs) e Baloo (Frédéric Pierrot). Interessante acompanhar a rotina deles. Entre um caso arrepiante e outro, envolvendo crianças e jovens que são abusados ou que participam da exploração de outros menores de idade, eles fazem lanches, se divertem em uma danceteria, falam muita besteira na repartição pública e vão revelando, pouco a pouco, as suas próprias e particulares cicatrizes.

O grande mérito de Polisse, volto a dizer, além de focar uma história pouco contata sob uma ótica diferenciada, é aprofundar nas histórias dos personagens. A cada avanço na trama percebemos que os policiais tem sérias dificuldades de terem famílias estruturas. E é justamente essa falta de estrutura que origina os problemas que eles tem que registrar em boletins diariamente – além de enfermidades psicológicas e outras fontes para os crimes, é claro.

No filme há espaço para comédia – especialmente no início, como na disputa entre o veterano engraçadinho Bamako (Arnaud Henriet), que gosta de discutir com o novato Gabriel (Jérémie Elkaim) que, como muitos novatos, ainda não pegou os “vícios” de quem está no departamento há mais tempo e, por isso mesmo, questiona algumas posturas. Bamako, além de engraçado, é um sujeito com uma liderança nata – e um dos que leva a sério o seu trabalho. Gabriel, por sua vez, também leva a sério o trabalho e se mostra comprometido e interessado em aprender.

Mas quem realmente rouba a cena é a dupla de amigas e colegas de trabalho Nadine e Iris. As atrizes Karin Viard e Marisa Foïs dão um banho de interpretação. A primeira, vive uma crise em casa e, após muitas dúvidas e alguns conselhos de Iris, se separa do marido – mais um lar desestruturado. Iris, por sua vez, pouco a pouco vai mostrando que não está bem. Apesar de toda a segurança e firmeza que ela mostra no trabalho, na vida pessoal ela está em crise.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Iris é a personagem mais complexa. Ela é atenta em cada caso, se importa tem fazer o certo no ambiente de trabalho. Ao mesmo tempo, vomita após comer, porque se sente gorda – tem dificuldade de gostar de si mesma – e faz tratamento para engravidar, já que não está conseguindo isso pelas vias normais. O marido está cheio dos problemas da mulher, e ela sugere que ele saia de casa. Um dia, em uma das cenas mais fortes do filme, ela cobra de Nadine uma postura mais correta no trabalho e é atacada pela amiga. As duas dão um show.

Há poucos momentos para o humor. Assim como para o romance – apenas a história de Fred e Melissa ganha destaque na trama. Uma história um pouco estranha, aliás. Ele, indeciso sobre deixar ou não a mulher, a filha e a casa em que vivia. Ela, também em uma relação estranha com Francesco (Riccardo Scamarcio), pai de suas duas filhas. Os dois moram em casas separadas, um apartamento em frente ao outro. Parece ser uma relação aberta… mas, ainda assim, a história não fica clara. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E meio que por carência e “sem querer”, Fred e Melissa se envolvem. No final, e mesmo sem eles acreditarem muito, a relação avança. Uma forma de ensinar (ou reafirmar) para o espectador que a vida e a felicidade podem ser salvas quando menos se espera.

O drama predomina, claro, tanto pelos casos dos menores de idade quanto pela vida privada complicada de cada um dos policiais. Além dos já citados, até o mais “equilibrado” Baloo (Frédéric Pierrot), líder natural do grupo, tem problemas em casa. Não consegue lidar muito bem com a vida privada totalmente separada da profissional – a segunda contaminando a primeira.

E há algum espaço também para a crítica. Especialmente quando o filme fala dos cortes feitos pelo governo para a polícia, e o descrédito da população em relação ao trabalho deles. Há ainda excesso de burocracia, o departamento emprestando carros para outros fins policiais, falta de estrutura – no caso do carro e da falta de vaga para mãe e filho em um abrigo – e interferências estranhas do chefe de polícia Beauchard (Wladimir Yordanoff).

Todos estes elementos são equilibrados – há predominância do drama, como era necessário, com um pequeno espaço para o humor, o romance e a crítica. Tudo vai bem, há momentos fortes na trama, mas o final… francamente, ele me decepcionou. Achei forçado demais. Me pareceu forçadamente feito para chocar. E não era necessário. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A mensagem final, me parece, vai na direção de “quem precisa ser salvo?”. Algumas vezes uma criança abusada, como o menino que fecha a história, pode tornar-se campeã em um esporte e na vida; enquanto o adulto que deveria ajudá-lo não consegue encontrar salvação. Aliás, parece que  o filme vai um pouco neste caminho… de que algumas vezes falta proteção e cuidado com adultos que precisam, também, de tudo isso. É uma reflexão interessante, mas acho que Iris não precisava terminar de maneira tão extremista.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco de Polisse é grande. Todos os atores citados anteriormente tem destaque na trama. Além dos já citados, vale comentar o trabalho de Naidra Ayadi, que interpreta a Nora, uma personagem que aparece em segundo plano em grande parte do filme, mas que tem pelo menos um grande momento na história. Ela brilha quando sai do sério ao confrontar-se com um árabe e questioná-lo com o Alcorão.

Da equipe técnica envolvida nesta produção, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Pierre Aïm, que faz um bom trabalho, ainda que nada além do básico; a edição de Laurie Gardette, também na média; e a trilha sonora de Stephen Warbeck, que só tem destaque na sequência da danceteria.

Não há informações sobre o quanto este filme teria custado. E os dados sobre a bilheteria que ele conseguiu também são escassos. Até o dia 21 de junho deste ano, Polisse teria conseguido quase US$ 177 mil nos Estados Unidos. Insignificante. Mas segundo o site Box Office Mojo, no restante dos mercados mundo afora, esta produção teria conseguido quase US$ 20,2 milhões. Não está mal, mas não deixa de ser um filme alternativo.

Polisse estrou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, incluindo o do Rio de Janeiro. Nesta trajetória, o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio do júri como Melhor Filme no Festival de Cannes; e os prêmios César, considerado o Oscar francês, para Melhor Edição e Melhor Atriz Promissora para Naidra Ayadi.

Como Polisse sugere, ele foi totalmente rodado na cidade de Paris.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Polisse. Uma avaliação muito boa, considerando a média do site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também gostaram do filme, dedicando 63 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 6,9.

Buscando o cartaz para ilustrar este post, encontrei várias versões e uma mais interessante que a outra. Os cartazes trazem sempre um dos policiais colocando a foto de uma criança na frente do rosto. O que reforça a ideia de que cada agente se sente identificado com os casos que participam – nem todas as vezes claro. Ou os cartazes podem ser uma forma de falar que aqueles adultos são tão vulneráveis quanto as crianças, ou que eles próprios já passaram por situações de vulnerabilidade. Interessante.

CONCLUSÃO: Polisse tem um roteiro cuidadoso, que se aprofunda nas histórias dos policiais que, diariamente, devem lidar com situações cruéis envolvendo crianças e uma rotina sem muito o que fazer, em muitos momentos. Também devem lidar com cortes no orçamento, burocracia e falta de recursos. O roteiro é o melhor do filme, junto com as atuações do elenco principal. A direção de Maïwenn não tem nenhuma grande invenção, nem uma busca de linguagem diferenciada. Ela acompanha de perto, basicamente, o trabalho dos atores, dando destaque para o texto.

Filme cheio de narrativas, Polisse perde um pouco de tempo demais com os bastidores da polícia, que acabam sendo repetitivos, e também perde uma boa oportunidade de ter um final mais interessante. Maïwenn optou por fechar esta história com um final impactante, que faz pensar, mas que peca por uma argumentação simplória. Ainda assim, é um belo filme, especialmente por retratar histórias quase nunca narradas pelo cinema, ainda mais sob a ótica dos policiais.

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