L’Ordre et la Morale – Rebellion – A Rebelião


A barbárie sempre tem uma explicação. Alguma vezes, governos e mídia fazem um esforço imenso para simplificar as controvérsias, as feridas nunca cicatrizadas e os abusos que, acumulados, provocam medidas extremistas. Mas se você pegar o novelo de lã dos fatos e começar a puxar o fio com paciência, encontrará todos os elementos que causaram absurdos. L’Ordre et la Morale é mais um destes filmes franceses que pega um capítulo específico da história de seu país para desvelar como decisões equivocadas podem criar grandes estragos.

A HISTÓRIA: Cenas com certa distorção começam a surgir. Elas revelam a memória do capitão do Grupo de Intervenção Guarda Nacional (GIGN), Philippe Legorjus (Mathieu Kassovitz). Os acontecimentos vão de um homem deitado no chão, falando algo inaudível, enquanto recebia tratamento médico, no meio de uma selva; até lentamente a câmera ir se afastando ao passar por soldados, combatentes, corpos amontoados e chegar no rosto do capitão, que tenta compreender, agora, o que aconteceu. Quando ele entrou naquele cenário, a intenção não era que tudo terminasse daquele jeito. Mas o retorno àquela história serve para rever o que deu errado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a L’Ordre et la Morale): O problema está posto. O protagonista desta história, vivido pelo ator Mathieu Kassovitz, que também é o diretor e um dos roteiristas do filme, não se conforma por não ter conseguido fazer bem o seu trabalho. Como ele diz no início da produção, ele é um negociador, preparado para salvar vidas, mas ele não conseguiu fazer isso no território onde a história se desenrola.

Todos nós ficamos inconformados, alguma vez na vida, quando não conseguimos fazer bem aquilo para o qual estamos preparados. Especialmente quando tudo se encaminhava para que isso acontecesse, mas alguém “superior” resolve interferir e fazer tudo sair pior do que poderia. A indignação é procedente, mas é preciso passar por cima dela e caminhar adiante. Até porque a vida segue – mesmo que algumas vítimas possam ter ficado pelo caminho. Algumas vezes, não ocorrem mortes, mas talvez a moral tenha sido dizimada. Ou o respeito, ou a nossa saúde. Paciência. O tempo poderá aliviar um pouco esses males.

Mas voltando à L’Ordre et la Morale. Depois daquela introdução que mostra o final da história, o espectador é lançado a entender o que fez aquelas pessoas terminarem daquela forma. Uma boa jogada de Kassovitz, Benoît Jaubert e Pierre Geller, que escreveram o roteiro desta produção. Escolhendo “esboçar” o final logo de cara, eles conseguem manter a tensão até o final, porque o espectador quer saber o que pode ter dado errado nas negociações de Legorjus com o líder kanak Alphonse Dianou (Iabe Lapacas).

Desde o início os elementos estão dados. Enquanto se prepara para sair de casa, depois de receber um telefonema e acordar às 4h23 do dia 22 de abril de 1988, Legorjus ouve na rádio informações sobre a campanha política, com François Mitterrand confiante em vencer a reeleição presidencial logo mais. Contra ele, o rigoroso Jacques Chirac. No quartel-general do GIGN, Legorjus fica sabendo que ele e sua equipe vão fazer uma viagem de 30 horas, tendo como destino final a Nova Caledônia.

No grupo, além do capitão, 50 homens, focados em resolver um conflito que já deixou quatro guardas mortos e 30 reféns. Pela rádio, eles ouvem que a ação na pequena ilha do arquipélago para onde estão se dirigindo foi feita por um grupo de “independentistas kanaks”. Então tudo estão ali: uma França em um momento de disputa acirrada nas urnas, com um presidente tentando se reeleger e, poucos dias antes das urnas, um grupo que busca a independência fazendo barulho em uma ilha a 30 horas de voo de Paris e a apenas 12 dias das eleições.

As cenas iniciais do filme já revelam no que isso tudo vai terminar. Mas o molho também é interessante. Mitterrand não perde tempo para mandar o Exército para a Nova Caledônia, não apenas para mostrar força, mas também para resolver logo o problema. Interessante como Legorjus se movimenta nas negociações. Mesmo experiente, ele comete pequenos erros, que acabam agravando a sua responsabilidade.

Interessante como ele consegue um diálogo mais franco com o líder dos kanak do que com superiores de seu próprio país, como o general Vidal (Philippe de Jacquelin Dulphé), que lidera as ações na Nova Caledônia – com os tradicionais abusos de alguns integrantes de suas tropas e que obedece às ordens de Chirac.

O único oficial um pouco mais consciente parece ser o general Jérôme (Jean-Philippe Puymartin), que acompanhou Legorjus no voo e que não entende muito bem porque o Exército está resolvendo um problema que seria deles. Outro que fez bem o seu trabalho foi o tenente-coronel Benson (Stefan Godin). Mas os políticos é que tem “a caneta” na mão e que acabam resolvendo as questões mesmo sem terem qualquer noção do que está acontecendo.

O clima tenso é aumentado pela contagem regressiva, começando com o Dia 10, que marca a chegada do protagonista e de seu grupo em Nova Caledônia, e pela trilha sonora pontual de Klaus Badelt. A direção de Kassovitz busca constantemente o tom de um documentário. Mostrando, poucas vezes, as belezas daquelas ilhas da Nova Caledônia e, com muito mais atenção, as negociações do protagonista com militares, ministros, políticos e rebeldes. A câmera costuma estar próxima dele, mas focando também outros personagens e os conflitos entre eles.

L’Ordre et la Morale é um filme interessante por resgatar um destes conflitos que quase ninguém ficou sabendo. Certamente ele marcou a vida daquelas pessoas, seus entornos, e as eleições de 1988 na França. Mas quem mais lembra daqueles fatos quase 25 anos depois? Especialmente depois de tantos outros conflitos terem ganho um protagonismo maior? E mesmo sendo pouco conhecido, este conflito mostra erros que se repetem em muitos outros. É importante relembrar, até para poder contar a verdade sobre fatos antes maquiados. Mas mais importante que isso seria se as sociedades aprendessem com os seus erros. Mas será que aprendem? Pelas pessoas que continuam sendo votadas e eleitas, tenho as minhas dúvidas.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mathieu Kassovitz tem, aos 45 anos, nada menos que 35 filmes no currículo como ator e outros 12 como diretor. Ele gosta de fazer filmes de ação, a exemplo de Les Rivières Pourpres (de 2000) e Babylon A.D. (2008) – dois filmes interessantes, ainda que nenhum deles seja brilhante. Mas ele tem estilo e sabe fazer bem os dois ofícios: como ator e diretor.

A condução bem feita de Kassovitz na direção deste filme foi bem complementada pelo trabalho do diretor de fotografia Marc Koninckx. Merece destaque, ainda, a edição feita por Kassovitz, Thomas Beard e Lionel Devuyst.

O resgate daquele final dos anos 1980 é um dos pontos fortes do filme. Não apenas do ambiente político na França, mas de roupas, veículos e acessórios da época. Neste contexto, muito bom o trabalho de Agnès Beziers com os figurinos.

L’Ordre et la Morale foi filmado nos locais em que a história se passa, ou seja, França e Nova Caledônia – este último, um arquipélogo na Oceania, a 1,5 mil quilômetros a leste da Austrália e a 2 mil quilômetros da Nova Zelândia. A Nova Caledônia foi descoberta por ingleses em 1744 e, posteriormente, em 1788, por franceses. Em 1853 o local foi proclamado colônia francesa, recebeu bases militares e serviu de local para receber comunistas deportados. No final do século passado ganharam força movimentos de independência no país. Mais informações neste texto da Wikipédia.

Esta produção estreou em setembro de 2011 no Festival de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria por outros sete festivais, a maioria deles de pouca relevância – a exceção foi Londres e Estocolmo. Neste período, ele foi indicado a apenas uma premiação, como melhor roteiro adaptado no Prêmio César, mas acabou não levando a estatueta.

L’Ordre et la Morale está bem cotado entre público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme, enquanto os críticos do Rotten Tomatoes dedicaram nove críticas positivas para a produção – o que lhe garante aprovação de 100% e uma nota 7,2.

Este filme é uma reflexão interessante de como os princípios se perdem quando a pessoa chega ao poder. François Mitterrand foi o primeiro socialista a chegar ao poder na França, em 1981. Em teoria, os socialistas são mais preocupados com o “bem social”, com os direitos humanos e tudo o mais. Mas sentindo a pressão de Chirac em 1988, quando buscava a reeleição, Mitterrand não pensou duas vezes em dar as ordens para o ataque aos rebeldes de Nova Caledônia. E exemplos como este, de que o discurso acaba se descolando da prática, podem ser vistos em muitas outras partes – inclusive no Brasil, em muitas situações políticas e da vida prática. Aqui uma breve história da vida de Mitterrand.

Entre os atores coadjuvantes, destaque para Sylvie Testud como Chantal Legorjus, mulher do protagonista, e Alexandre Steiger como o advogado Jean Bianconi que tenta, junto com Legorjus, uma saída pacífica para o conflito.

CONCLUSÃO: A arrogância, não importa em que ambiente, é extremamente nociva. Cria distorções, abusos de poder e pode levar aos mais diferentes conflitos. L’Ordre et la Morale mostra argumentos que fazem alguns terem razão quando criticam os franceses como arrogantes. Claro que não são todos. Mas algumas vezes, certas nações são definidas pelos seus representantes. Algo também lógico, afinal, ao votar em alguém, o indivíduo deveria pensar nos valores que está destacando com este gesto. No caso da situação contada neste filme, fica evidente que os políticos que tinham o comando em Paris se sentiam superiores àqueles indivíduos de uma etnia (kanaks) que buscava a independência.

E daí surgem as atitudes extremistas para acabar com conflitos, em nome da “ordem e da moral”. Sendo que nem uma, nem outra, de verdade, são respeitadas. Eis um filme de resgate histórico, que coloca o dedo na ferida ao criticar figuras históricas, como François Mitterrand, e a mostrar a demanda de uma etnia que foi suprimida. Bem filmado, conduzido com uma clara levada documental, L’Ordre et la Morale é uma produção interessante para despertar debates em escolas e grupos sobre o papel da imprensa, do Exército, de negociadores e dos políticos em situações de conflito.

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2 comentários em “L’Ordre et la Morale – Rebellion – A Rebelião

  1. O filme recebeu o belo título ” A Rebelião” no Brasil.
    Filme incrível. Forte, tenso e desumano.
    Como espectadores esperamos sempre um filme feliz, o que não acontece neste caso. É difícil compreender como pode haver tanta falta de preocupação com outras pessoas, mas sabemos que isso existe em qualquer lugar. Aliás, isso me lembra 12 Homens e uma Sentença.
    Apesar de ser sobre um conflito que envolveu a França e uma de suas colônias, episódio este que eu desconhecia, e que deve ter um impacto significativo na vida deles, o tema é universal, poderia ser transportado facilmente para outro lugar, sem perder suas características.
    Enfim, belo filme.
    Vou comentando em todos os filmes que assisti também.

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    1. Olá Eduardo!

      Como podes ver, estou só agora – início de 2014 – começando a responder aos teus comentários. Desculpe o atraso.

      De fato, este é um caso interessante de uma boa “adaptação” de título para o mercado brasileiro. Apenas para contradizer a outros exemplos em que a tradução foi equivocada. Aqui, funcionou.

      Pessoalmente, gosto de filmes sem final feliz. Claro que é bacana quando uma história termina bem, mas sabemos que nem sempre isso acontece. E acho importante refletirmos e conhecermos todo tipo de história.

      Como você, eu também não conhecia este episódio específico, mas concordo que ele poderia ser uma leitura ponderada de diversos outros conflitos envolvendo diferentes países e suas colônias.

      Bacana que você encontrou por aqui diferentes filmes dos quais gostaste. Espero te encontrar outras vezes, falando de filmes franceses ou não.

      Abraços e inté!

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