Lemale et Ha’Halal – Fill the Void – Preenchendo o Vazio


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Há tantas tradições e costumes no mundo que seria impossível, acredito, para uma única pessoa dominar o conhecimento de todos e cada um deles. Somos ignorantes, queiramos admitir isso ou não. Algo sempre desconhecemos, e vamos desconhecer até o final. Quem sabe o que é certo, ou como é possível encontrar o amor? Lemale et Há’Halal faz algo incrível que é mostrar de perto os costumes de uma família hassídica, que segue o judaísmo de uma maneira mais moderna, por assim dizer. Um mergulho interessante em uma realidade que, acredito, é desconhecida de grande parte dos ocidentais.

A HISTÓRIA: Uma mulher e uma garota mais jovem olham para todos os lados. Não demora muito para que a mulher, Rivka Mendelman (Irit Sheleg), afirme que o homem que elas estão procurando não está ali. Elas andam pelo supermercado e continuam procurando. Rivka acaba ligando para Shtreicher (Michael David Weigl), um dos rabinos da comunidade, que diz para mãe e filha procurarem na seção de laticínios.

Rivka reconhece o “alvo” porque ele é a “cópia do pai”. Esta é a primeira vez que a filha dela, Shira (Hadas Yaron) vê o possível futuro marido. Ele parece agir como um idiota, mas Shira parece encantada. Pouco depois, ela recebe a irmã, Esther (Renana Raz), que está perto de ter um filho com Yochay (Yifatch Klein). Os planos familiares, contudo, vão mudar em breve.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lemale et Há’Halal): Como diz aquela música, “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. John Lennon se inspirou na frase de Allen Saunders publicada na Reader’s Digest em 1957 (leia mais a respeito aqui). E este é parte do espírito deste filme israelense premiado.

Mas antes de falar deste espírito, quero abordar o que chama a atenção logo no início da produção: o excepcional trabalho da atriz Hadas Yaron. Ela ilumina a tela, e convence do primeiro até o último minuto no papel da jovem garota que está prestes a dar um passo decisivo na vida. Curioso como ela está empolgada, no início de Lemale et Ha’Halal, com a ideia de casar com um rapaz jovem e com quem ela nunca trocou uma palavra.

Só que aí entra o imprevisto. E aquele espírito que eu comentei antes de que a vida acontece enquanto a gente está fazendo planos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Prestes a conversar com o jovem para quem ela está em vias de ser prometida, a nossa protagonista é surpreendida com a morte da irmã. Ela e a família reagem se agarrando à fé, mas a dor é imensa. Esses sentimentos fortes estão muito presentes no roteiro da diretora Rama Burshtein e, graças aos atores, suas falas e silêncios, transparecem e chegam até os espectadores.

E aí começa a complexidade desta produção. Totalmente compreensível o medo da mãe de Shira e Esther de sofrer mais uma perda. Afinal, se Yochay de fato se casar novamente, e com uma mulher que mora fora do país, ela terá que se separar do neto, que é a continuidade da filha que ela perdeu.

Como muitas vezes acontece na vida, fora da ficção, o surgimento de uma criança acaba provocando a reação das pessoas que perderam alguém para a morte. Essas pessoas recobram as forças, tirando energia de um local que parece impossível, após a morte de quem elas amava. Mas há alguém inocente no pedaço que exige foco, força, e isso acontece nesta história também. Por isso mesmo entendo a postura de Rivka de buscar na filha mais nova a “saída” para o risco de ver o neto ir para longe.

Ora, se Shira deve se casar, por que não com o marido da irmã que morreu? Eis a provocação principal do filme e que pode render muito debate. Porque quando Rivka dá a ideia para Yochay, ela dá a largada para um processo até então imprevisto. Interessante como um sentimento pode surgir, e forte pelo que vemos no filme de Burshtein, quando uma ideia é lançada e parece fazer sentido. Yochay começa a olhar para Shira de uma maneira totalmente diferente, e percebe o quanto ela leva jeito com o filho dele com Esther. E aí tudo começa a se mover no sentido deles ficarem juntos. Mas como uma relação precisa de duas pessoas… o desafio fica com Shira.

Ela, diferente dele, não aceita com tanta rapidez esta mudança de planos. Em certo momento, Shira comenta que ela abraçar a ideia lançada por Rivka significa abrir mão do sonho de começar a vida com um rapaz novo e inexperiente como ela. Sem dúvida, uma diferença fundamental em relação a Yochay. Sem contar que, até há pouco, ele era o marido da irmã mais velha de Shira, e não é fácil olhar para ele de outra forma – sob a ótica dela, me refiro.

Mas há questões anteriores a essa questão delicada familiar. Mais do que se adaptar à figura de Yochay de outra forma, uma questão primordial é por que, cargas d’água, Shira realmente precisa se casar? É isso o que ela quer ou ela está apenas seguindo a tradição? Fica evidente, pelo exemplo categórico de Frieda (Hila Feldman) e da tia de Shira, Hanna (Razia Israeli), que as mulheres que não casam logo, quando jovens, não são bem vistas no grupo social em que esta história se passa.

Então Shira está empolgada com o filho dos Miller e, depois, fica aparentemente dividida com a ideia de se casar com Yochay por que de fato quer um marido ou por que não lhe resta outra saída? Difícil dizer. Até porque não sabemos nunca quanto, ao certo, o que fazemos é o que realmente desejamos ou o quanto é um repeteco de conceitos que aprendemos e seguimos – muitos voluntariamente, outros não e, outros ainda, inconscientemente.

Inicialmente alguém pode defender que não lhe restava saída. Bueno, para ela seguir sendo aceita sem preconceito naquele convívio social, certamente não. Mas é sempre possível buscar uma alternativa ao que se conhece, não é mesmo? Mas no caso deste filme a complexidade é maior. Porque parece que Shira realmente quer se casar. Aos poucos, não é apenas Yochay que parece estar encantado com ela. Tudo indica que ele é correspondido.

Só que o peso não é pouco sobre Shira. Afinal, ela chega a pensar que está traindo a memória da irmã ao pensar em ficar com o até há pouco marido dela. Sem dúvida o roteiro de Burshtein não fecha a questão, mas sugere que Shira gosta da ideia de casar com Yochay, só que se sente desconfortável por causa da irmã morta e, também, mas em menor grau, pelo fato de abandonar a ideia de começar a vida com alguém tão inexperiente quanto ela. Mas, talvez por ter 18 anos, Shira dá a entender que está dividida, que não está segura sobre o que quer. Se algumas vezes parece que ela está interessada por Yochay, em outras – como quando está vestida de noiva – parece que ela está indo para o sacrifício.

A incógnita de Shira é alimentada por sentimentos como desejo, culpa e responsabilidade. Uma das sequências mais angustiantes é quando ela retorna da conversa com o rabino e fica em uma espécie de luto – não sabemos o quanto por causa da mãe ou o quanto porque ela não consegue superar as barreiras para dizer que quer ficar com Yochay.

No fim das contas ela cede e, para o desespero do espectador, que ficou impressionado com a força desta história, o filme termina exatamente no momento em que pode nos indicar se a decisão de Shira e Yochay foi acertada. Mas o que Lemale et Ha’Halal sugere é que isso pouco importa. Afinal, para um relacionamento dar certo é preciso, primeiro, querer. E essa vontade, amparada pela tradição e pelos costumes fortes de uma comunidade, parece ser o suficiente para tudo dar certo.

Lemale et Ha’Halal nos faz pensar o quanto os conceitos de “dar certo” ou “ser feliz” dependem apenas da nossa vontade e/ou de seguir as regras que estão colocadas ao nosso redor. Francamente, acho que a vontade é muito mais determinante para a felicidade do que normalmente gostamos de admitir. Seja para nos “aprisionarmos” ou no movimento de “libertação”. Shira e Yochay se decidiram e tiveram vontade de dar certo. Provavelmente vão conseguir.

Fazer planos é importante, mas tão vital quanto é termos sempre em mente que a vida está aí para nos surpreender. E que as mudanças de planos que ela traz podem ser muito positivas. Basta encontrarmos o que faz sentido e deixarmos o medo e a culpa de lado, como parece que Shira fez nesta história.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da direção de Rama Burshtein. Lemale et Ha’Halal é um filme com muitas cenas de interior. Há poucas externas. Mas nem por isso é uma produção monótona. O segredo da diretora e roteirista foi valorizar o trabalho dos atores, todos muito bons, e também escolher, volta e meia, um ângulo diferente para não tornar a narrativa monótona ou previsível. Se o roteiro prevê muitos silêncios e diálogos econômicos, sem nenhum sinal das frases de efeito, resta a direção imprimir um ritmo cuidadoso e envolvente.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Asaf Sudri. Ele é o responsável por deixar a imagem sempre saturada, o que algumas vezes ajuda a narrativa a ficar carregada e, em outras ocasiões, torna o filme ainda mais “atemporal”.

Para um filme com uma trilha sonora muito pontual e econômica, assinada por Yitzhak Azulay, fundamental o trabalho dos profissionais de departamento de som Aviv Aldema, Nin Hazan, Keren Biton e Neal Gibbs que, entre outras funções, foram responsáveis por uma excepcional captação de sons ambientes.

Além dos atores já citados, que “carregam” o filme, vale destacar o competente trabalho de Chayim Sharir como Aharon, pai de Shira e de Esther e um homem bastante generoso com a comunidade em que vive.

Algo que eu achei interessante nesta história foi a liberdade que Aharon dá para a filha opinar. E não apenas ele. O próprio rabino com quem eles vão falar sobre a união de Shira e Yochay insiste bastante para que ela diga se está decidida. Se é isto mesmo que ela deseja. Ou seja, o pré-conceito de que uma comunidade tradicional judaica impõe o casamento cai por terra. Agora, há ainda o ponto que eu comentei antes: quem não se casa, é marginalizada. Então, de fato, até que ponto vai a escolha de Shira? De qualquer forma, acho importante destacar a insistência dos homens mais velhos desta história em pedir para que Shira só faça uma escolha se estiver convicta.

Segundo o site IMDb este é o filme de estreia de Rama Burshtein. Que belo trabalho para uma estreia! Fiquei curiosa para saber mais sobre a diretora, e só encontrei informações em sites estrangeiros. De acordo com este texto de Emily Wax, do The Washington Post, Bushtein é a primeira judia ultraortodoxa que escreveu e dirigiu um filme para o grande público. “Um feito notável, já que a grande comunidade da qual ela faz parte normalmente proíbe assistir televisão e filmes seculares” (lendo-se como secular tudo que está fora da religião). Tão raro quanto o feito da diretora, escreve Wax, é o tipo de filme que Lemale representa: um que mostre uma comunidade ortodoxa “por dentro”.

De acordo com a matéria de Wax, Burshtein tem 45 anos, é mãe de quatro filhos, nasceu em Nova York e, agora, mora em Israel. A diretora disse: “Sou uma contadora de histórias mais do que qualquer coisa, e percebi que nós não tínhamos uma voz cultural. A maioria dos filmes sobre a (minha) comunidade é feita por pessoas de fora e estão enraizados em conflitos entre o religioso e o secular. Eu queria contar uma história profundamente humana”. Ela não apenas tem toda a razão, como também conseguiu o que pretendia.

Agora, algo interessante sobre a diretora: ela é uma “baal teshuva”, ou seja, uma judia secular que voltou para a comunidade. Antes de se tornar religiosa, Burshtein se formou, em 1995, na Sam Spiegel Film and Television School, em Jerusalém. A diretora se inspirou em uma conversa que ouviu em um hospital, de uma garota que estava debatendo se deveria casar com o ex-marido de uma irmã. Ainda que esse tipo de casamento não seja incomum, segundo o texto de Wax, as mulheres não podem recusar o casamento.

Para quem ficou mais interessado pela diretora e pela história de Lemale et Ha’Halal, recomendo esta entrevista que ela deu para Erica Abeel, do Huffington Post. Entre outros pontos, ela argumenta que esta produção não trata de casamento arranjado, e sim que as garotas da comunidade dela podem escolher o marido. Diferente da nossa realidade, em que buscamos nossos “candidatos” a parceiros em bares e festas, na comunidade dela os jovens confiam nos pais para que eles levem para casa candidatos que as garotas e os garotos vão conhecer e escolher. Interessante. Uma ótica bem diferente.

E lendo esta outra entrevista da diretora para Fred Topel, do site CraveOnline, descobri que eu fiz a leitura certa de Lemale et Ha’Halal. 🙂 De fato o filme valoriza o compromisso, o desejo de duas pessoas de se unirem e fazerem dar certo. Segundo a opinião da diretora, é daí que surge e cresce o amor, desta vontade. Faz sentido.

Lemale et Ha’Halal estreou em julho de 2012 no festival de cinema de Jerusalém. Depois, o filme passou por outros nove festivais. Nesta trajetória, Lemale ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os que recebeu estão sete no Ophirs, o equivalente ao Oscar em Israel. E por falar em Oscar, este filme foi o representante de Israel entre os indicados ao maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos deste ano.

Além dos sete prêmios no Ophirs, Lemale levou para casa o prêmio de Melhor Drama segundo o júri do Festival Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado; e dois prêmios no Festival de Veneza 2012 – uma menção honrosa para Rama Burshtein e o prêmio de Melhor Atriz para Hadas Yaron. Merecido. A atriz faz um trabalho excepcional.

Gosto quando o título original é respeito. Este é o caso desta produção. Parabéns aos distribuidores no Brasil. Faz muito sentido o nome escolhido originalmente.

Não consegui encontrar informações sobre o custo de Lemale et Ha’Halal ou mesmo o resultado da bilheteria no mercado mundial. Mas nos cinemas dos Estados Unidos ele conseguiu pouco mais de US$ 1,77 milhão até o dia 22 de setembro – após ter estreado em maio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 41 textos positivos e apenas oito negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Muito boa essa nota, na média, para os padrões do site.

Este é um filme 100% de Israel.

CONCLUSÃO: Um filme cheio de sentimentos, costumes que não conhecemos e de silêncios muito expressivos. Lemale et Há’Halal é uma produção diferenciada, que foge do modelo que o grande público conhece como cinema comercial. Aqui não interessa emocionar, ou surpreender o espectador. O que importa é contar uma história que plasme os costumes, sentimentos e dilemas que circulam ao redor de uma família que segue a filosofia hassídica, um conjunto de ensinamentos do judaísmo.

Os atores são ótimos, especialmente os protagonistas, e há muito sentimento por todas as partes. O dilema da jovem que perde a irmã e deve decidir entre fazer a felicidade de todos sem saber ao certo o que quer para si mesma é de cortar o coração e tem muita força. Um filme sensível, nada parecido com os sucessos de Hollywood, e que nos apresenta de maneira muito direta dúvidas e sentimentos que não dependem de culturas ou religiões porque eles são universais. Vale conferir este olhar diferente sobre o amor, a família, costumes e tradições.

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5 thoughts on “Lemale et Ha’Halal – Fill the Void – Preenchendo o Vazio

  1. Que filme belo! Me transformei após assistir, derrubei preconceitos. Diferente da sua análise, achei que o choro da noiva foi de extrema alegria, uma alegria mística, ela parecia estar tomada por um sentimento sobrenatural, alegria divina. Achei lindo!

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