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Lore

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Uma época trágica, de grande sacrifício e perdas sempre tem muitas histórias impressionantes. Algumas contadas com muito mais frequência que outras. Lore é um destes filmes que conta algumas destas histórias menos conhecidas. Normalmente, quando lembramos do final da Segunda Guerra Mundial, somos apresentados a histórias de guerra heroicas, ou sobre algum sacrifício envolvendo a sobrevivência de judeus. Mas o que aconteceu com os filhos de alemães que se envolveram diretamente com o nazismo? Esta história pouco ou nada contada é o foco desta produção impressionante.

A HISTÓRIA: Enquanto toma banho e penteia o cabelo de forma enérgica, Lore (Saskia Rosendahl) conta os passos de um jogo de amarelinha que leva do inferno até o céu. A irmã dela, Liesel (Nele Trebs) está brincando, fora de casa, quando o cão da família começa a latir. Elas estão na Alemanha nazista. Lore olha pela janela, e vê que um caminhão do Exército alemão chegou. Descendo a escada, ouve a mãe, Asta (Ursina Lardi), e o pai, Peter (Hans-Jochen Wagner), conversando. Ele diz que eles poderão levar apenas o que couber no caminhão. Asta não parece satisfeita. Em pouco tempo, Lore, Liesel, os gêmeos Gunter (André Frid) e Jürgen (Mika Seidel) e o bebê Peter (Nick Holaschke) fogem com a mãe. Este será apenas o início do calvário desta família de alemães no final da Segunda Guerra Mundial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lore): Uma ótima direção se percebe nos detalhes, em cada escolha de cena e no estilo da narrativa. Por isso mesmo, o trabalho da diretora Cate Shortland chamou a minha atenção logo nos primeiros minutos, com os enquadramentos e os cortes da narrativa diferenciados, poéticos, belos e rítmicos que mostravam o cotidiano de Lore e da família dela.

Esta característica no trabalho de Shortland se mantém durante todo o filme. Em vários momentos o espectador é surpreendido com um ângulo diferenciado, o foco em um detalhe da cena ou na interpretação dos ótimos atores envolvidos. Mas apenas uma ótima direção não é suficiente para fazer um grande filme. É peça fundamental também o roteiro. E Lore, para a nossa alegria, tem um trabalho primoroso de Shortland com Robin Mukherjee, que trabalharam sobre uma das três histórias contadas no livro The Dark Room, de Rachel Seiffert.

Mergulhamos na vida da família da protagonista quando eles devem abandonar a casa da família porque o Terceiro Reich está por um triz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esses momentos de ruptura sempre guardam uma força narrativa impressionante. Ainda mais quando não se trata da ruptura na vida de apenas uma pessoa. Mas, neste caso, de uma família e de uma nação. Quando Shortland escolhe acompanhar de perto, muito perto a Lore, que rapidamente acaba virando a líder daquela família de alemães, ela convida o espectador a ficar tão perplexo quanto aqueles “inocentes” personagens sobre tudo o que vai se descortinar aos poucos à frente de seus olhos.

A alegoria deste filme é envolvente e fascinante. Normalmente, como eu disse lá no início, somos apresentados às histórias das principais vítimas do extermínio nazista. Principalmente ao drama dos judeus. Ou então à histórias de heróis de guerra. Todas elas muito importantes, não tenho dúvida alguma. Especialmente a das vítimas do regime nazista. Afinal, só mesmo fazendo o registro histórico daqueles fatos absurdos e volta e meia relembrando o que aconteceu para tentar não repetir os mesmos erros. Ainda assim, eu sempre tive uma grande curiosidade para saber mais sobre a história menos contada.

E ela envolve o povo alemão. Alguns filmes abordaram esta ótica da história, mas eles são pouco frequentes – um exemplo relativamente recente foi Good, que tem uma crítica aqui no blog. Desde que comecei a estudar sobre a II Guerra Mundial na escola, sempre quis saber mais sobre a ótica dos alemães. Afinal, como eles permitiram que um regime como o nazista fizesse os absurdos que fez? A maioria sabia o que estava acontecendo, de fato, incluindo os campos de extermínio, ou eram enganados pela eficaz propaganda nazista? Quantos se preocupavam mais com o êxito econômico do regime e ignoravam, propositalmente, a “limpa racial” que acontecia paralelamente?

Nunca tive respostas satisfatórias para estas perguntas. E por mais que a Alemanha tenha se recuperado muito bem da divisão do país e de todas as sanções que vieram após o fim da guerra, é evidente que as cicatrizes naquele país continuam abertas. Pois bem, Lore ajuda a contar um pouco desta história menos conhecida. Através da história ficcional de Lore e de sua família, acompanhamos a luta pela sobrevivência dos herdeiros de um comandante nazista, responsável pela operação em um dos vários campos de extermínio.

Apesar de ser uma ficção, este filme tem uma história muito convincente e que, quem sabe, não guarda um bom paralelo na vida real? Para mim, uma das características mais marcantes do filme é que temos uma divisão fundamental entre os adultos e as crianças desta história. A maioria dos velhos sabia muito bem o que estava acontecendo, e lamentaram a morte de Hitler e o fim da Alemanha como eles conheciam. Mas os jovens e as crianças viviam na ignorância, acreditando na história que os seus familiares contavam – e nestas histórias, claro, Hitler era um semi-deus, perfeito, e não havia nada de horror nazista.

Desta forma, a trajetória de Lore e de seus irmãos, com tudo o que acontece ao redor deles, nos leva pelas mãos para mergulhar na transição entre a alegoria da infância e da inocência/ignorância para a passagem para a vida adulta e para o confronto com a dura realidade, seus crimes e imperfeições. Nem todas as crianças passam pelo mesmo choque, ou conseguem ter a mesma leitura da realidade. O que parece ter acontecido com a população da Alemanha que acaba sendo dividida em diversos setores.

Quando Asta decide deixar os filhos e recomenda que Lore procure a avó deles, perto de Husum, no Norte da Alemanha, quase na fronteira com a Dinamarca, ela faz isso antes que os Aliados a encontrem. Ela sabe que será presa e que os seus filhos serão levados, ou ficarão desprotegidos. Certo que o abandono de Asta também não ajuda nada aos filhos. Pelo contrário.

Impressionante a força da protagonista, interpretada pela fantástica Saskia Rosendahl, para levar a família adiante. E ela também tem sorte. Sim, porque se não tivesse encontrado pelo caminho a Thomas (Kai-Peter Malina), dificilmente Lore e os irmãos teriam chegado tão longe. E a aparição daquele jovem na história apenas torna ela mais interessante, criando a tensão sexual e o perigo constante que fazem o espectador esperar pelo pior a qualquer momento.

Lore encontra Thomas em uma casa onde, bem próximo dali, uma mulher havia sido estuprada e morta. Ele seria o culpado? Esta pergunta ficou na minha mente a partir de então. Rapaz de poucas palavras, mas de olhar fixo em Lore, Thomas é uma incógnita. Até que começa a defender aquela família – para, ele também, é preciso dizer, seguir adiante. Mas não sabemos até quando aquela paz aparente entre filhos de alemães e um judeu sobrevivente vai persistir.

A impressão que o roteiro nos dá é que a missão que Lore recebe da mãe é bastante absurda. Logo no início eu tive a impressão de que ela praticamente teve que cruzar o país carregando os irmãos. Quando a avó pergunta para Lore de onde eles estavam vindo, ela diz que eles tinham saído da Floresta Negra. Pois bem, procurando a distância entre a Floresta Negra, que fica no Sul da Alemanha, perto da Suíça, e a cidade de Husum que, como eu disse antes, fica ao Norte, vi que a protagonista desta história percorreu uma distância que hoje é medida entre 880 quilômetros e 930 quilômetros – dependendo da rota adotada. Imaginaram fazer boa parte desta distância à pé e sem dinheiro?

Neste caminho, a protagonista e os demais personagens nos apresentam a realidade da Alemanha logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Havia muita fome, violência, mortes e controle do movimento e da vida das pessoas. O país foi dividido entre os vencedores, e os alemães eram vistos com desconfiança. Quem teve ligação com o regime nazista foi perseguido, julgado, morto ou exilado. Claro que as pessoas ligadas ao nazismo cometeram absurdos, mas será mesmo que todos os alemães podiam ser considerados culpados pelo que aconteceu?

Interessante, e o filme mostra bem isso, que os próprios alemães se tratavam de forma desigual. Fica evidente que muitos adultos, que provavelmente discordavam dos caminhos da ditadura de Hitler, passaram a tratar com desconfiança os seus pares com o fim da guerra. Quando descobriam a ligação das pessoas com o regime, como é o caso dos camponeses que vivem perto da família quando ela se refugia após sair de casa, reagem com repúdio e discriminação. Sob esta ótica, a história do filme sugere que nem todos pensavam igual na Alemanha nazista. E o clima que percebemos, com o fim da guerra, é de “cada um por si e salve-se quem puder”.

Havia alguma solidariedade, como os centros para ajuda onde as pessoas podiam tomar banho e pegar alguma comida, mostrado quase no meio do filme. Mas esta “solidariedade” era acompanhada de uma exigência: os alemães deveriam olhar várias fotos que mostravam o Holocausto. E aí outra parte do roteiro interessante: a reação de muitas pessoas que, mesmo colocadas frente ao inevitável, seguiam negando que aquilo havia ocorrido. Algo que continua até hoje – a incrível negação da realidade abominável daqueles anos.

Neste momento do filme, Lore vê pela primeira vez a história perfeita contada por sua família começar a ruir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela acredita que identificou o pai em uma foto de um campo de extermínio. Mais tarde, ao confirmar a impressão, ela se desfaz das “provas”. E vive o conflito que muitos alemães viveriam naqueles anos e nas gerações seguintes: afinal, em que história eles deveriam acreditar? No caso de Lore, naquela que a mãe e o pai sempre lhe contaram, ou naquela que ela começa a perceber ao ter que cruzar a Alemanha carregando os irmãos?

Quando Lore percebe que o caminho deles acaba ficando quase impossível de ser separado do de Thomas, as dúvidas apenas crescem. Afinal, ele é um judeu, um parasita, enganador, conforme ela sempre aprendeu em casa. Evidente que a garota sente atração e repúdio em relação a ele, em uma mistura entre o que ela aprendeu até então e a sua nova fase, de entrada na vida adulta. Ao mesmo tempo, me impressionou a atitude de Thomas, de ajudar Lore e aos irmãos, mesmo eles sendo “inimigos”.

E aí surge uma das reflexões do filme. Afinal, aqueles descendentes de nazistas mereciam ser punidos? Thomas deveria se vingar deles pelo que os pais haviam feito? Evidente que não. Mas daí a ajudá-los por tanto tempo… acabei temendo pelo que pudesse acontecer no final da história. Na dúvida se ele estava fazendo aquilo por altruísmo ou com alguma intenção ruim bem camuflada.

Mas voltando para a peregrinação de Lore, que também foi sentimental e filosófica – mais que apenas de uma longa viagem. Em um certo momento do filme, na troca de diálogos mais poderosa do roteiro, quando Thomas está ameaçando ir embora, a protagonista lhe confronta dizendo que ele é um mentiroso compulsivo, que não consegue evitar a mentira. Inicialmente ela atribui as mentiras aos judeus – afinal, ele é um deles. Mas depois, comenta que elas estão por toda a parte. Bingo! Esta é a leitura que Lore faz a duras penas. E tanto ela, quanto Thomas e nós, sabemos que ela não está se referindo apenas aos judeus, mas a todas as mentiras que pairam naquela Alemanha que ela não conhecia.

Pouco depois, temos uma outra grande surpresa no roteiro – ela não seria a primeira, e nem a mais forte delas. Quando descobrimos que Thomas andava com documentos que não eram dele, uma série de perguntas para as quais nunca teremos respostas se abrem. Afinal, ele não era realmente judeu? Ou ele era judeu e apenas andava com os documentos de outro homem? Não é a impressão que Jürgen passa quando conta a Lore que o rapaz usava documentos de um judeu porque os americanos gostavam deles. Mas se ele não era judeu, porque havia sido preso? Sim, porque ele tinha no braço os números de quem havia passado por um campo de concentração. Se ele não havia sido preso porque era judeu, ele fazia parte de que grupo de perseguidos? Nunca saberemos.

Mas esta revelação abre um precedente de dúvidas interessante. Toda a generosidade que Thomas parecia ter sido capaz de fazer, como judeu, ajudando a filhos de alemães que haviam perseguido o seu povo, poderia ser falsa. Talvez ele fosse um comunista, ou um homossexual – por isso ele havia rejeitado Lore? Não importa. E talvez seja essa uma das principais mensagens deste filme. Tanto ninguém deveria ser perseguido por ter uma determinada característica, como a generosidade que aquele rapaz é capaz de ter não deve ser atribuída a um determinado grupo. As pessoas sempre são responsáveis pelos seus atos, e tem escolhas para fazer.

Sei que me alonguei demais, desta vez, mas achei este filme fascinante. E se a narrativa inteira é cheia de belas imagens, um ótimo ritmo, desempenhos marcantes dos atores e reviravoltas importantes, o que dizer do final de Lore? Achei simplesmente perfeito. Depois que ela e os irmãos tem uma perda terrível e chegam em “local seguro”, a avó deles (Eva-Maria Hagen) segue querendo seguir com os mesmos valores e a educação de antes. E afirma que os netos não devem pensar que os pais deles fizeram qualquer coisa de errado – pensamento que muitos alemães tinham após a guerra e que muitos seguiram tendo depois. Mas tudo tinha mudado.

Lore, Liesel e Jürgen não eram mais os mesmos, assim como as novas gerações daquele país. Eles estão cansados de mentiras e de regras que não valem mais. E esse sentimento de fúria e indignação não poderia ser melhor exemplificado do que na destruição que Lore faz no quarto com aqueles símbolos de um passado que tinha chegado ao fim. Genial.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona bem neste filme. Antes, elogiei a direção diferenciada de Cate Shortland e o roteiro bem escrito e envolvente escrito por ela e Robin Mukherjee. Pois bem, mas estes são apenas alguns fatores fundamentais para Lore dar certo. Devemos acrescentar à lista a ótima, detalhista e poética direção de fotografia de Adam Arkapaw; a clássica, envolvente e emocionante trilha sonora de Max Richter; e a precisa e irretocável edição de Veronika Jenet.

Por tratar-se de um filme de época, Lore precisa que outros elementos técnicos funcionem bem para transportar o espectador para o tempo da história. Então merece ser citado o excelente trabalho de Silke Fischer e Jochen Dehn no design de produção; novamente Jochen Dehn, mas agora na direção de arte; e o de Stefanie Bieker nos figurinos. Outro aspecto técnico bem preciso, sem exageros, e que acaba tendo uma importância grande nesta produção é o da equipe de maquiagem coordenada por Ulrike Borrmann, Antje Dahm e Kathrin Westerhausen.

Fiquei tão fascinada com este filme que eu quis saber um pouco mais sobre o livro The Dark Room, de Rachel Seiffert, que inspirou o roteiro de Lore. Encontrei neste texto do The Guardian algumas informações sobre a obra. Soube, por exemplo, que The Dark Room narra três histórias diferentes ligadas pela narrativa da “perda da inocência de uma nação”. A primeira envolve um jovem alemão, Helmut, com idade para servir o exército, muito patriota, mas que é incapaz de se juntar às tropas porque tem uma paralisia parcial em um dos braços. A segunda história é a de Lore e seus irmãos. E a terceira foca Michael, um professor que vive 50 anos após o fim da guerra e que fica dividido entre o resgate do passado do avô e a falta de culpa dos alunos pelo que foi feito no passado.

Assim como me interessei por The Dark Room, procurei saber mais sobre esta incrível diretora Cate Shortland. Pois bem, ela é australiana e tem 45 anos. Estreou na direção em 1998 com o curta Pentuphouse. Depois, ela dirigiria outros dois curtas e capítulos de duas séries de TV antes de estrear no comando de um longa-metragem. Essa estreia em longas ocorreu em 2004 com Somersault, um filme que eu não assisti mas que, pelo que eu li rapidamente, aborda amor e sexo. Dois anos depois, surgiria The Silence, um filme feito para a TV e, no ano passado, este Lore.

Outro nome que me impressionou neste filme foi o da protagonista Saskia Rosendahl. E o mais incrível: Lore foi o seu primeiro papel no cinema! Uau!! Depois desta estreia, a atriz que fala alemão, inglês e espanhol e sabe tocar violão participou de outras quatro produções, sendo uma delas feita para a TV. Além dela, achei excelente o trabalho de Kai-Peter Malina como Thomas. Os dois ajudam a sustentar o filme.

Lore estreou no Festival Internacional de Cinema de Sydney em junho de 2012. Depois, o filme participaria de outros 21 festivais. Número impressionante. Nesta trajetória, ele ganhou 17 prêmios e foi indicado a outros 23. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Diretora para Cate Shortland e Melhor Atuação de um Jovem Ator para Saskia Rosendahl conferidos pelo Círculo de Críticos de Cinema da Austrália; Melhor Filme segundo os críticos do Festival de Cinema de Hamburgo; Prêmio do Público para Cate Shortland no Festival Internacional de Cinema de Locarno; Melhor Atriz para Saskia Rosendahl, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Filme no Festilva de Cinema de Estocolmo; e Melhor Novo Diretor para Cate Shortland no Festival Internacional de Cinema de Valladolid. Só para citar os principais.

Falando em prêmios, Lore foi o indicado da Austrália para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na edição 2013. Mas não chegou até a lista dos cinco finalistas. Lembrando quem chegou na reta final: Amour, No, Rebelle, En Kongelig Affaere e Kon-Tiki. Destes, assisti apenas ao premiado Amour e também a Kon-Tiki. Amour, de fato, é maravilhoso. Mas entre Lore e Kon-Tiki, sem dúvida prefiro o primeiro. Assim, posso dizer que foi uma pena o filme, que é uma coprodução da Austrália, Alemanha e Reino Unido, não ter chegado até a lista de finalistas do Oscar.

Lore teria custado 4,3 milhões de euros e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, quase US$ 969 mil. E na Austrália, pouco mais de 296,5 mil dólares australianos. Tem que ver o desempenho no restante dos mercados, acumulado. Mas os dados disponíveis são preocupantes e mostram que o filme pode não ter lucro.

Apesar de ser uma produção de três países, Lore foi totalmente rodado na Alemanha, em diferentes cidades.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Lore. Uma boa avaliação para o padrão do site, mas nada muito excepcional. Os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 92 textos positivos e sete negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,6. Poucas vezes vi os críticos darem uma nota melhor que o público. Esta é uma destas ocasiões.

Encontrei dois cartazes de Lore. E admito que fiquei em dúvida por bastante tempo sobre qual eu deveria colocar aqui. Escolhi o que abre esta crítica, mas admito que gostei muito do outro também. Oh, dúvida cruel! Acabei escolhendo o cartaz alemão, mas o que foi para os Estados Unidos era mais impactante. Só que como trazia a bandeira nazista, poderia dar a impressão que era algum tipo de “propaganda”. Talvez por isso que o filme não tenha se saído também nos EUA.

CONCLUSÃO: Saber mais sobre o nosso passado é algo fundamental. Não apenas para entender como chegamos até aqui, mas também para aprender com os erros e com a dor para que eles não se repitam mais. E por mais que você achei que não tem nada a ver com a Alemanha nazista, toda a civilização moderna foi influenciada em maior ou menor grau por aqueles fatos. Por isso mesmo, acho tão impressionante quando um filme como Lore tem a coragem de voltar atrás na história para fazer um libelo impressionante sobre marcas que aquela época deixou em pessoas inocentes.

Filmes históricos sempre valem a pena. Especialmente quando tem como característica principal resgatar a vida de pessoas comuns e o que elas aprenderam com a dura realidade que viveram. Lore tem uma história impressionante, na qual não sobra nenhuma linha – seja de diálogos, seja da narrativa. Muito bem dirigido e com ótimos atores, este filme é um libelo a um futuro sem os absurdos que vivemos em diversas fases do passado. Imperdível.

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Lemale et Ha’Halal – Fill the Void – Preenchendo o Vazio

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Há tantas tradições e costumes no mundo que seria impossível, acredito, para uma única pessoa dominar o conhecimento de todos e cada um deles. Somos ignorantes, queiramos admitir isso ou não. Algo sempre desconhecemos, e vamos desconhecer até o final. Quem sabe o que é certo, ou como é possível encontrar o amor? Lemale et Há’Halal faz algo incrível que é mostrar de perto os costumes de uma família hassídica, que segue o judaísmo de uma maneira mais moderna, por assim dizer. Um mergulho interessante em uma realidade que, acredito, é desconhecida de grande parte dos ocidentais.

A HISTÓRIA: Uma mulher e uma garota mais jovem olham para todos os lados. Não demora muito para que a mulher, Rivka Mendelman (Irit Sheleg), afirme que o homem que elas estão procurando não está ali. Elas andam pelo supermercado e continuam procurando. Rivka acaba ligando para Shtreicher (Michael David Weigl), um dos rabinos da comunidade, que diz para mãe e filha procurarem na seção de laticínios.

Rivka reconhece o “alvo” porque ele é a “cópia do pai”. Esta é a primeira vez que a filha dela, Shira (Hadas Yaron) vê o possível futuro marido. Ele parece agir como um idiota, mas Shira parece encantada. Pouco depois, ela recebe a irmã, Esther (Renana Raz), que está perto de ter um filho com Yochay (Yifatch Klein). Os planos familiares, contudo, vão mudar em breve.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lemale et Há’Halal): Como diz aquela música, “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. John Lennon se inspirou na frase de Allen Saunders publicada na Reader’s Digest em 1957 (leia mais a respeito aqui). E este é parte do espírito deste filme israelense premiado.

Mas antes de falar deste espírito, quero abordar o que chama a atenção logo no início da produção: o excepcional trabalho da atriz Hadas Yaron. Ela ilumina a tela, e convence do primeiro até o último minuto no papel da jovem garota que está prestes a dar um passo decisivo na vida. Curioso como ela está empolgada, no início de Lemale et Ha’Halal, com a ideia de casar com um rapaz jovem e com quem ela nunca trocou uma palavra.

Só que aí entra o imprevisto. E aquele espírito que eu comentei antes de que a vida acontece enquanto a gente está fazendo planos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Prestes a conversar com o jovem para quem ela está em vias de ser prometida, a nossa protagonista é surpreendida com a morte da irmã. Ela e a família reagem se agarrando à fé, mas a dor é imensa. Esses sentimentos fortes estão muito presentes no roteiro da diretora Rama Burshtein e, graças aos atores, suas falas e silêncios, transparecem e chegam até os espectadores.

E aí começa a complexidade desta produção. Totalmente compreensível o medo da mãe de Shira e Esther de sofrer mais uma perda. Afinal, se Yochay de fato se casar novamente, e com uma mulher que mora fora do país, ela terá que se separar do neto, que é a continuidade da filha que ela perdeu.

Como muitas vezes acontece na vida, fora da ficção, o surgimento de uma criança acaba provocando a reação das pessoas que perderam alguém para a morte. Essas pessoas recobram as forças, tirando energia de um local que parece impossível, após a morte de quem elas amava. Mas há alguém inocente no pedaço que exige foco, força, e isso acontece nesta história também. Por isso mesmo entendo a postura de Rivka de buscar na filha mais nova a “saída” para o risco de ver o neto ir para longe.

Ora, se Shira deve se casar, por que não com o marido da irmã que morreu? Eis a provocação principal do filme e que pode render muito debate. Porque quando Rivka dá a ideia para Yochay, ela dá a largada para um processo até então imprevisto. Interessante como um sentimento pode surgir, e forte pelo que vemos no filme de Burshtein, quando uma ideia é lançada e parece fazer sentido. Yochay começa a olhar para Shira de uma maneira totalmente diferente, e percebe o quanto ela leva jeito com o filho dele com Esther. E aí tudo começa a se mover no sentido deles ficarem juntos. Mas como uma relação precisa de duas pessoas… o desafio fica com Shira.

Ela, diferente dele, não aceita com tanta rapidez esta mudança de planos. Em certo momento, Shira comenta que ela abraçar a ideia lançada por Rivka significa abrir mão do sonho de começar a vida com um rapaz novo e inexperiente como ela. Sem dúvida, uma diferença fundamental em relação a Yochay. Sem contar que, até há pouco, ele era o marido da irmã mais velha de Shira, e não é fácil olhar para ele de outra forma – sob a ótica dela, me refiro.

Mas há questões anteriores a essa questão delicada familiar. Mais do que se adaptar à figura de Yochay de outra forma, uma questão primordial é por que, cargas d’água, Shira realmente precisa se casar? É isso o que ela quer ou ela está apenas seguindo a tradição? Fica evidente, pelo exemplo categórico de Frieda (Hila Feldman) e da tia de Shira, Hanna (Razia Israeli), que as mulheres que não casam logo, quando jovens, não são bem vistas no grupo social em que esta história se passa.

Então Shira está empolgada com o filho dos Miller e, depois, fica aparentemente dividida com a ideia de se casar com Yochay por que de fato quer um marido ou por que não lhe resta outra saída? Difícil dizer. Até porque não sabemos nunca quanto, ao certo, o que fazemos é o que realmente desejamos ou o quanto é um repeteco de conceitos que aprendemos e seguimos – muitos voluntariamente, outros não e, outros ainda, inconscientemente.

Inicialmente alguém pode defender que não lhe restava saída. Bueno, para ela seguir sendo aceita sem preconceito naquele convívio social, certamente não. Mas é sempre possível buscar uma alternativa ao que se conhece, não é mesmo? Mas no caso deste filme a complexidade é maior. Porque parece que Shira realmente quer se casar. Aos poucos, não é apenas Yochay que parece estar encantado com ela. Tudo indica que ele é correspondido.

Só que o peso não é pouco sobre Shira. Afinal, ela chega a pensar que está traindo a memória da irmã ao pensar em ficar com o até há pouco marido dela. Sem dúvida o roteiro de Burshtein não fecha a questão, mas sugere que Shira gosta da ideia de casar com Yochay, só que se sente desconfortável por causa da irmã morta e, também, mas em menor grau, pelo fato de abandonar a ideia de começar a vida com alguém tão inexperiente quanto ela. Mas, talvez por ter 18 anos, Shira dá a entender que está dividida, que não está segura sobre o que quer. Se algumas vezes parece que ela está interessada por Yochay, em outras – como quando está vestida de noiva – parece que ela está indo para o sacrifício.

A incógnita de Shira é alimentada por sentimentos como desejo, culpa e responsabilidade. Uma das sequências mais angustiantes é quando ela retorna da conversa com o rabino e fica em uma espécie de luto – não sabemos o quanto por causa da mãe ou o quanto porque ela não consegue superar as barreiras para dizer que quer ficar com Yochay.

No fim das contas ela cede e, para o desespero do espectador, que ficou impressionado com a força desta história, o filme termina exatamente no momento em que pode nos indicar se a decisão de Shira e Yochay foi acertada. Mas o que Lemale et Ha’Halal sugere é que isso pouco importa. Afinal, para um relacionamento dar certo é preciso, primeiro, querer. E essa vontade, amparada pela tradição e pelos costumes fortes de uma comunidade, parece ser o suficiente para tudo dar certo.

Lemale et Ha’Halal nos faz pensar o quanto os conceitos de “dar certo” ou “ser feliz” dependem apenas da nossa vontade e/ou de seguir as regras que estão colocadas ao nosso redor. Francamente, acho que a vontade é muito mais determinante para a felicidade do que normalmente gostamos de admitir. Seja para nos “aprisionarmos” ou no movimento de “libertação”. Shira e Yochay se decidiram e tiveram vontade de dar certo. Provavelmente vão conseguir.

Fazer planos é importante, mas tão vital quanto é termos sempre em mente que a vida está aí para nos surpreender. E que as mudanças de planos que ela traz podem ser muito positivas. Basta encontrarmos o que faz sentido e deixarmos o medo e a culpa de lado, como parece que Shira fez nesta história.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da direção de Rama Burshtein. Lemale et Ha’Halal é um filme com muitas cenas de interior. Há poucas externas. Mas nem por isso é uma produção monótona. O segredo da diretora e roteirista foi valorizar o trabalho dos atores, todos muito bons, e também escolher, volta e meia, um ângulo diferente para não tornar a narrativa monótona ou previsível. Se o roteiro prevê muitos silêncios e diálogos econômicos, sem nenhum sinal das frases de efeito, resta a direção imprimir um ritmo cuidadoso e envolvente.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Asaf Sudri. Ele é o responsável por deixar a imagem sempre saturada, o que algumas vezes ajuda a narrativa a ficar carregada e, em outras ocasiões, torna o filme ainda mais “atemporal”.

Para um filme com uma trilha sonora muito pontual e econômica, assinada por Yitzhak Azulay, fundamental o trabalho dos profissionais de departamento de som Aviv Aldema, Nin Hazan, Keren Biton e Neal Gibbs que, entre outras funções, foram responsáveis por uma excepcional captação de sons ambientes.

Além dos atores já citados, que “carregam” o filme, vale destacar o competente trabalho de Chayim Sharir como Aharon, pai de Shira e de Esther e um homem bastante generoso com a comunidade em que vive.

Algo que eu achei interessante nesta história foi a liberdade que Aharon dá para a filha opinar. E não apenas ele. O próprio rabino com quem eles vão falar sobre a união de Shira e Yochay insiste bastante para que ela diga se está decidida. Se é isto mesmo que ela deseja. Ou seja, o pré-conceito de que uma comunidade tradicional judaica impõe o casamento cai por terra. Agora, há ainda o ponto que eu comentei antes: quem não se casa, é marginalizada. Então, de fato, até que ponto vai a escolha de Shira? De qualquer forma, acho importante destacar a insistência dos homens mais velhos desta história em pedir para que Shira só faça uma escolha se estiver convicta.

Segundo o site IMDb este é o filme de estreia de Rama Burshtein. Que belo trabalho para uma estreia! Fiquei curiosa para saber mais sobre a diretora, e só encontrei informações em sites estrangeiros. De acordo com este texto de Emily Wax, do The Washington Post, Bushtein é a primeira judia ultraortodoxa que escreveu e dirigiu um filme para o grande público. “Um feito notável, já que a grande comunidade da qual ela faz parte normalmente proíbe assistir televisão e filmes seculares” (lendo-se como secular tudo que está fora da religião). Tão raro quanto o feito da diretora, escreve Wax, é o tipo de filme que Lemale representa: um que mostre uma comunidade ortodoxa “por dentro”.

De acordo com a matéria de Wax, Burshtein tem 45 anos, é mãe de quatro filhos, nasceu em Nova York e, agora, mora em Israel. A diretora disse: “Sou uma contadora de histórias mais do que qualquer coisa, e percebi que nós não tínhamos uma voz cultural. A maioria dos filmes sobre a (minha) comunidade é feita por pessoas de fora e estão enraizados em conflitos entre o religioso e o secular. Eu queria contar uma história profundamente humana”. Ela não apenas tem toda a razão, como também conseguiu o que pretendia.

Agora, algo interessante sobre a diretora: ela é uma “baal teshuva”, ou seja, uma judia secular que voltou para a comunidade. Antes de se tornar religiosa, Burshtein se formou, em 1995, na Sam Spiegel Film and Television School, em Jerusalém. A diretora se inspirou em uma conversa que ouviu em um hospital, de uma garota que estava debatendo se deveria casar com o ex-marido de uma irmã. Ainda que esse tipo de casamento não seja incomum, segundo o texto de Wax, as mulheres não podem recusar o casamento.

Para quem ficou mais interessado pela diretora e pela história de Lemale et Ha’Halal, recomendo esta entrevista que ela deu para Erica Abeel, do Huffington Post. Entre outros pontos, ela argumenta que esta produção não trata de casamento arranjado, e sim que as garotas da comunidade dela podem escolher o marido. Diferente da nossa realidade, em que buscamos nossos “candidatos” a parceiros em bares e festas, na comunidade dela os jovens confiam nos pais para que eles levem para casa candidatos que as garotas e os garotos vão conhecer e escolher. Interessante. Uma ótica bem diferente.

E lendo esta outra entrevista da diretora para Fred Topel, do site CraveOnline, descobri que eu fiz a leitura certa de Lemale et Ha’Halal. 🙂 De fato o filme valoriza o compromisso, o desejo de duas pessoas de se unirem e fazerem dar certo. Segundo a opinião da diretora, é daí que surge e cresce o amor, desta vontade. Faz sentido.

Lemale et Ha’Halal estreou em julho de 2012 no festival de cinema de Jerusalém. Depois, o filme passou por outros nove festivais. Nesta trajetória, Lemale ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os que recebeu estão sete no Ophirs, o equivalente ao Oscar em Israel. E por falar em Oscar, este filme foi o representante de Israel entre os indicados ao maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos deste ano.

Além dos sete prêmios no Ophirs, Lemale levou para casa o prêmio de Melhor Drama segundo o júri do Festival Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado; e dois prêmios no Festival de Veneza 2012 – uma menção honrosa para Rama Burshtein e o prêmio de Melhor Atriz para Hadas Yaron. Merecido. A atriz faz um trabalho excepcional.

Gosto quando o título original é respeito. Este é o caso desta produção. Parabéns aos distribuidores no Brasil. Faz muito sentido o nome escolhido originalmente.

Não consegui encontrar informações sobre o custo de Lemale et Ha’Halal ou mesmo o resultado da bilheteria no mercado mundial. Mas nos cinemas dos Estados Unidos ele conseguiu pouco mais de US$ 1,77 milhão até o dia 22 de setembro – após ter estreado em maio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 41 textos positivos e apenas oito negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Muito boa essa nota, na média, para os padrões do site.

Este é um filme 100% de Israel.

CONCLUSÃO: Um filme cheio de sentimentos, costumes que não conhecemos e de silêncios muito expressivos. Lemale et Há’Halal é uma produção diferenciada, que foge do modelo que o grande público conhece como cinema comercial. Aqui não interessa emocionar, ou surpreender o espectador. O que importa é contar uma história que plasme os costumes, sentimentos e dilemas que circulam ao redor de uma família que segue a filosofia hassídica, um conjunto de ensinamentos do judaísmo.

Os atores são ótimos, especialmente os protagonistas, e há muito sentimento por todas as partes. O dilema da jovem que perde a irmã e deve decidir entre fazer a felicidade de todos sem saber ao certo o que quer para si mesma é de cortar o coração e tem muita força. Um filme sensível, nada parecido com os sucessos de Hollywood, e que nos apresenta de maneira muito direta dúvidas e sentimentos que não dependem de culturas ou religiões porque eles são universais. Vale conferir este olhar diferente sobre o amor, a família, costumes e tradições.

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Kon-Tiki – Expedição Kon Tiki

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O mundo é feito por pessoas obstinadas. De quem tem foco, ajusta o campo da visão e segue em frente. O filme norueguês Kon-Tiki conta a história de um homem obstinado, o explorador Thor Heyerdahl e a primeira grande aventura coordenada por ele. Um filme interessante pelas belas imagens, pelo roteiro e pelo trabalho dos atores, que trilham um caminho original e que foge do tom épico clássico dos filmes de Hollywood.

A HISTÓRIA: Céu azul e um cenário terrestre repleto de neve em Larvik, cidade da Noruega, em 1920. Aos poucos, uma fila de pessoas vai se aproximando da câmera. À frente do grupo, o jovem Thor Heyerdahl (Kasper Ameberg Johnsen quando ele tinha seis anos de idade, Pal Sverre Hagenquando adulto) que, obstinado por resgatar uma serra, se aventura sobre dois blocos de gelo. O grupo de crianças que lhe acompanha pede para que ele não se aventure, mas ele não escuta a ninguém. Depois de cair na água, ele é resgatado por Erik Hesselberg (Edward Kling quando ele tinha sete anos de idade, Odd Magnus Williamson quando adulto). Mais tarde, aquele mesmo olhar obstinado de Thor é lançado em direção à Liv (Agnes Kittelsen), com quem ele vai viver uma experiência interessante e que vai mudar a vida deles em Fatu Hiva, a ilha mais ao leste do arquipélago das Marquesas, na Polinésia Francesa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kon-Tiki): A primeira característica marcante desta produção é a preocupação visual do filme. Belas imagens perpassam a visão do espectador do primeiro até o último minuto de Kon-Tiki. Outra característica que fica evidente logo no início é a aposta dos diretores Joachim Ronning e Espen Sandberg no trabalho dos atores que, diferente de tantos filmes de Hollywood, não tem um excesso de diálogos para proferir.

Pelo contrário. Outro ponto interessante desta produção é que ela é muito mais contemplativa e cheia de momentos de deslumbramento e de ação do que de discursos emocionados ou frases “feitas para a posteridade”. E que bom que é assim. Não há espaço, no roteiro de Petter Skavlan, que teve a consultoria de Allan Scott, para frases heroicas, mas para reações humanas bastante legítimas.

Uma lição interessante de Kon-Tiki é que não importa o quanto algo que você acredita seja considerado loucura. Se você foi feito para perseguir determinado caminho, a tua realização só será plena se você seguir aquilo que acredita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta é a postura do protagonista Thor, que sabe muito bem tudo o que ele está arriscando ao tentar comprovar a sua teoria, considerada totalmente equivocada pelos colegas cientistas da época – e até hoje – de que a Polinésia Francesa foi colonizada pelo Leste. Ou, em outras palavras, que os primeiros habitantes daquelas ilhas teriam saído do Peru, e não da Ásia.

É fascinante como ele persegue o sonho de comprovar a teoria que ele desenvolveu por 10 anos. Ao perceber a resistência da comunidade científica, Thor percebeu que a sua única saída seria percorrer, ele próprio, cerca de 8 mil quilômetros em uma balsa, tal qual teriam feito os peruanos 1,5 mil anos antes. Para alguns, essa ideia era suicida. Para outros, como os homens que lhe acompanharam, seria uma oportunidade de fazer história.

Sem homens e mulheres corajosos deste jeito, a Humanidade não evoluiria. E alguém pode perguntar: “ok, mas o que esta experiência mudou a civilização?” Certamente pouco, ou quase nada, é verdade. Mas este espírito aventureiro e idealista é o que faz muita gente seguir adiante e dedicar boa parte da vida para ajudar a ciência a avançar, as pessoas a saberem mais do que hoje sobre o seu passado, sobre as origens das civilizações e, com este conhecimento, aprender a melhor forma de evoluir.

Verdade que, se observarmos esta e outras experiências de Thor, ele mudou pouco as versões históricas predominantes. Ele comprovar que os Tiki poderiam ter viajado do Peru até a Polinésia com uma balsa amarrada por cordas não comprova, de maneira irrefutável, que isso aconteceu. Apenas demonstra a viabilidade da teoria.

Mas independente da eficácia do trabalho de Thor, o impressionante é a sua obstinação. Seguindo o que eu falava antes, quando o protagonista decidiu apostar em sua grande aventura, ele sabia o que estava arriscando. Primeiro, a própria vida. Depois, a família que havia construído com Liv. Outra mensagem bacana de Kon-Tiki é que o mais importante, no final da conta, é o respeito que devemos ter com quem somos e com a vocação daquele que amamos. Abandonar o egoísmo e permitir que as pessoas desenvolvam as suas próprias capacidades e vocações ao máximo é a maior demonstração de amor e de respeito á vida possível.

Este filme nos leva a estas reflexões. E também nos permite contemplar algumas imagens maravilhosas, além de demonstrar que é importante duvidar. Afinal, quando pensarmos que sabemos tudo, não podemos estar mais equivocados. E o mesmo vale para a ciência. Nada mais bacana que a evolução do conhecimento, com a mudança e a quebra de “paradigmas”. Assim evoluímos.

Além destes aspectos, me chamou muito a atenção a calma, a tranquilidade e a postura pacífica de Thor. Ele olha com atenção a cada pessoa que conhece, não importa se ela é uma parceira de aventura ou um “nativo” de uma ilha qualquer. Na adversidade e enquanto todos temiam pelo sucesso da viagem, ele mantinha a calma e, aparentemente, uma certeza irrefreável de que tudo daria certo porque assim tinha que ser. Essa fé é contagiante.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do estilo de direção da dupla Ronning e Sandberg. Além dos motivos citados anteriormente, destaco a preocupação deles em manter a câmera sempre próxima dos atores e da ação. Vemos os detalhes constantemente. A edição precisa de Per-Erik Eriksen e Martin Stoltztambém ajudam o filme a ter o ritmo adequado, equilibrando o mergulho nas reações dos personagens e nas características de personagem de cada um deles e, ao mesmo tempo, na ação da aventura que eles empreendem.

Além do belo trabalho dos diretores, é importante destacar o excelente e preciso trabalho do diretor de fotografia Geir Hartly Andreassen. Ele consegue manter a qualidade visual do filme nos momentos mais diferentes, incluindo as sempre delicadas cenas noturnas. A trilha sonora de Johan Söderqvist não rouba a cena em momento algum, mas é importante para alguns momentos da produção.

Além dos atores que interpretam a Thor e Erik quando adultos, ganham destaque nesta produção Anders Baasmo Christiansen, que interpreta a Herman Watzinger, que deixa o trabalho como vendedor de frigoríficos para embarcar no projeto ambicioso do explorador norueguês; Jakob Oftebro como Torstein Raaby, um “herói de guerra” convocado para trabalhar com a rádio da missão; Tobias Santelmann como Knut Haugland, que também lutou na guerra e é especialista em operar rádios; e Gustaf Skarsgard como o etnógrafo Bengt Danielsson. Este foi o grupo de corajosos que fez aquela viagem a bordo do Kon-Tiki.

Dos atores citados anteriormente, sem dúvida Christiansen tem um protagonismo maior, depois de Hagen. Williamson aparece bem menos, mas tem carisma. E Santelmann se destaca por algumas sequências marcantes. Mesmo aparecendo pouco, a veterana Agnes Kittelsen rouba a cena sempre que aparece. Muito boa!

Os diretores de Kon-Tiki são amigos de infância e começaram, juntos, a produzir curtas-metragens com uma câmera amadora do pai de Joachim Ronning. Em 1992, os dois entraram na escola de cinema de Estocolmo e lançaram o primeiro curta oficialmente cinco anos depois. Nos anos 2000, eles dirigiram três longas: BandidasMax Manus (comentado por aqui no blog) e, o mais recente, este Kon-Tiki. A projeção deles com os dois últimos títulos fizeram a dupla ser confirmada na direção de Pirates of the Caribbean 5. Sem dúvida alguma eles são uma boa promessa da Noruega.

Kon-Tiki foi indicado ao Oscar 2013 como Melhor Filme Estrangeiro. Mas ele não teve chances frente a Amour (comentado aqui no blog). Na comparação dos dois filmes, não tenho dúvidas que a Academia fez a escolha certa. Da mesma forma que eu acho que foi merecida a chegada de Kon-Tiki na reta final da premiação.

Falando em prêmios, Kon-Tiki ganhou como melhor Design de Produção no Amanda Awards, entregue na Noruega, que reconheceu o trabalho de Karl Júlíusson; recebeu o prêmio da audiência do Festival Internacional de Cinema Norueguês; e o prêmio Diretores para Acompanhar do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e nove negativas para Kon-Tiki, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Fiquei curiosa para assistir ao documentário homônimo, Kon-Tiki, dirigido por Thor Heyerdahl durante a expedição em 1947, lançado em 1950 e que recebeu o Oscar de Melhor Documentário no ano seguinte. O filme tem 77 minutos e deve ser interessante.

Uma pequena observação sobre um detalhe do filme: volta e meia, observo o famoso “merchandising” em produções de diferentes portes, especialmente os blockbusters de Hollywood. Aqui e ali, aparecem sem qualquer inocência marcas de produtos dos mais variados. Mas isso não é tão comum fora de Hollywood ou em filmes “alternativos”. Uma prova que esta produção tem uma visão de mercado, além de tudo, é aquele luminoso caprichado da Pepsi que aparece lá pelas tantas no filme. Nada discreto. 🙂

Kon-Tiki estreou no festival de cinema norueguês em agosto de 2012. Depois, o filme passou por outros 10 festivais.

Esta produção custou US$ 16,6 milhões, uma quantia significativa – especialmente para o cinema norueguês. Nos Estados Unidos, até o dia 4 de agosto deste ano, o filme tinha arrecadado pouco mais de US$ 1,5 milhão. Mas no restante dos mercados, ele já acumulou quase US$ 22,8 milhões. Ou seja, não deu prejuízo.

Este filme foi rodado em diversas partes – não é por acaso que ele teve um custo considerável. Entre os locais que receberam a equipe de produção estão as Maldívias, a Noruega, a Tailândia, a Bulgária, Nova York e a Suécia.

Kon-Tiki é uma co-produção da Noruega com o Reino Unido, a Dinamarca, a Alemanha e a Suécia.

CONCLUSÃO: Eu gosto, volta e meia, de assistir a filmes de países menos evidentes na cinematografia mundial. Escapar um pouco de Hollywood sempre faz bem – ainda que eu admire e aprecie muito os filmes made in USA. Não é sempre que a Noruega nos apresenta filmes com relevância internacional. Por isso é bacana assistir a produções como Kon-Tiki, bem trabalhadas nos detalhes técnicos e com um estilo de narrativa mais realista e sem preocupação de frases históricas como seria esperado em filmes do gênero.

Esta produção funciona bem do início a fim, incentivando o espectador a acompanhar as dificuldades e os prazeres de um grupo de aventureiros. Acreditar em algo e seguir esta crença é fundamental, nos ensina esta produção. Assim como ela versa sobre a importância de um indivíduo em conhecer a si próprio e respeitar a sua natureza, adaptando-a para aquilo que achar relevante. Filme bem acabado, lindo visualmente e com um estilo realista e épico, Kon-Tiki também ganha pontos por resgatar uma história menos conhecida do grande público. Vale ser visto e apreciado.

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The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.

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E o Oscar 2013 foi para… (cobertura online da premiação)

85th Academy Awards, Set Ups

Boa noite, pessoal!!!

E aqui estamos nós outra vez. Firmes e fortes na cobertura do Oscar, desta vez ano 2013, a principal e mais badalada premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Tudo indica que teremos uma noite com os principais astros em cena, desfilando no tapete vermelho e depois, durante a premiação. Agora, 20h20min, no horário de Brasília, o canal E! está transmitindo a chegada dos astros. Em breve a TNT começa a transmissão, as 20h30.

Jessica Chastain, uma das duas favoritas da noite para o Oscar de Melhor Atriz, arrasou com um vestido cor pele. Linda, deslumbrante, perfeita para receber a estatueta por Zero Dark Thirty. Francamente, estou na torcida por ela.

A minha previsão é que o Oscar deve manter a sua tradição. Ou seja: deve premiar Argo ou Lincoln, na categoria principal, sem surpresas – porque todas as premiações pré-Oscar apontam para eles, especialmente Argo.

Além disso, não devemos ter surpresas nas categorias principais. Prevejo que três filmes devem dividir a maior parte das estatuetas: Argo, Lincoln e Life of Pi. O último, pode predominar nas categorias técnicas. E os dois primeiros, nas principais. Logo veremos…

Agora, 20h34min, no tapete vermelho o fenômeno Quvenzhané Wallis, a mais jovem atriz indicada a um Oscar. Tudo indica que ela só conseguiu sorrir depois de fazer o filme Beasts of the Southern Wild. 🙂 Quem assistiu ao filme, sabe do que estou falando.

Reese Whiterspoon, com vestido e joias Louis Vuitton, disse que a filha de 13 anos a ajudou a escolher o vestido. Mas para mim, até agora, a mais linda a desfilar no tapete vermelho foi Samantha Barks, que interpretou a Éponine em Les Misérables. Ela e Jessica Chastain estão inacreditáveis…

No Oscar deste ano, sou franca em dizer, os meus favoritos correm por fora. Então minha “torcida” está menor. Mas, de fato, tivemos uma safra muito boa. Ainda que poucos filmes tenham sido, de fato, “arrebatadores”.

Amanda Seyfried, também de Les Misérables, também está linda. Vestindo Alexander McQueen. Jennifer Lawrence é outra que chegou bem. Esta noite, sem dúvida, será uma das mais interessantes em termos de astros e estrelas talentosos e muito bem vestidos.

Servidos? Como estou com fome, sem dúvida eu encararia vários destes “Oscar’s”. 😉85th Academy Awards, Governors Ball Press Preview

Jennifer Lawrence, a outra favorita para o Oscar de Melhor Atriz, acaba de dizer que não teve tempo de comer, e que está com fome. Pois somos duas… mas o meu problema eu vou resolver em breve. hehehehe

Ela está linda. Mas ainda sou mais a Jessica Chastain. Tanto para o Oscar como com o modelito da noite.

Até o momento, o predomínio no tapete vermelho foi feminino. Não vi muitas beldades entre os atores. As lentes estão ignorando eles ou será que todos vão chegar mais tarde?

Mestre Dustin Hoffman é um dos primeiros grandes a chegar no tapete. Agora, Norah Jones, bem diferente do que estamos acostumados. São 21h02min e o E! segue indo muito bem, enquanto a TNT está muito morna.

Pela quantidade de gente que disse que vai cantar no Oscar nesta noite, teremos uma edição muito musical. Começando pelo apresentador, o relativamente “desconhecido” Seth MacFarlane, diretor de Ted, que muitos dizem que foi escolhido mais pelo ótimo tom e afinação ao cantar do que pelo carisma. Logo mais veremos como ele vai se sair em cena.

Anne Hathaway, mais uma grande concorrente da noite, aparece agora, 21h15min, em cena no tapete vermelho. Está menos exuberante que outras de suas colegas. Mas não consegue estar feia, né? 🙂

Agora sim, Christoph Waltz em cena. Grande, grande! Estou na torcida por ele também. Bem simples, discreto. Genial. Anne Hathaway dando entrevista, disse que está vestindo um Prada, e que escolheu o modelito, que evidencia os seus seios, três horas antes de ir para a cerimônia.

85th Academy Awards, Friday, Set UpsBradley Cooper, mais barbudo, com muito gel no cabelo e com gravata borboleta. Acompanhado da mãe, que dá no ombro dele, que afirma estar pela primeira vez no Oscar. E para ver ao filme indicado como Melhor Ator. O que, por si só, é muito surpreendente.

Naomi Watts é outra que merece menção. Para mim, uma das mais bem vestidas da noite, em um vestido de alto risco, lindo, ousado e perfeito para ela. Dior dominando a cena.

Passei para a TNT, porque o início da cerimônia se aproxima… impressionante a Nicole Kidman. Sempre linda e escolhendo muito bem os vestidos do Oscar. São 21h40min e ela me espanta pela altura e pela silhueta. A Adele, por outro lado… está sendo um bocado “detonada” pelos comentaristas do Oscar. Ela realmente ficou estranha.

Até agora, algumas mulheres dominaram a cena. Especialmente Naomi Watts e Jessica Chastain. Entre os homens, o maior frisson parece ter sido com Bradley Cooper.

Faltando 39 minutos para a cerimônia começar, as 21h50min, Hugh Jackmann e a esposa… lindos. Muito elegantes e tranquilos, sem exagerar na dose e até bem simples. Ele, lindo. E, para mim, um dos melhores apresentadores recentes da premiação.

85th Academy Awards, ArrivalsDepois de Chris Evans, é a vez de Robert De Niro. Concorrente da noite, figuraça. Ele destaca o trabalho de elenco de Silver Linings Playbook. Na votação dos melhores vestidos da noite, pela TNT, Jennifer Lawrence aparece em primeiro lugar, com Jessica Chastain em segundo. Lawrence virou, realmente, a última “queridinha da América”.

Jennifer Aniston, de vermelho estonteante by Valentino, diz que vai a apenas algumas festas na noite, porque são muitas… êêê sorte! Falando nos homens da noite, pouco focados pela TV até agora, Ben Affleck, que pode ser um dos grandes vencedores da noite com Argo, está muito bem. Melhor que a esposa, Jennifer Garner, um tanto estranha.

Uau! Halle Berry maravilhosa, mais uma vez! E ela reforça a lista de atrizes com cabelos beeeeem curtos. No caso dela, algo tradicional. Para outras, uma novidade. Engraçado como todas da fila, que passam atrás da Halle Berry, ficam babando nela. O público vai entrando lentamente, e esticando o pescoço para as estrelas.

Agora sim, uma miragem para as meninas… George Clooney e sua mais nova namorada, muito bem vestida. E ele… sem comentários. Fantástico! E poderá sair da noite com uma estatueta se Argo ganhar como Melhor Filme, porque ele é um dos produtores da produção.

Faltando 16 minutos para a premiação começar, Anne Hathaway brinca que o seu vestido é “business” na frente e diversão – porque é bastante aberto – atrás. Ela também revela que, como vem de Nova York, ela está usando um lindo colar da Tiffany.

Jamie Foxx, muito elegante, está ao lado da filha, com todo o jeito de modelo, de 19 anos, linda. E o ator confidencia que veio no carro falando com a filha sobre a faculdade e amores, já que eles tem pouco tempo para conversar. Muitos astros com mães e filhas. Oscar bem família.

E o grande Daniel Day-Lewiss, favoritíssimo ao Oscar de Melhor Ator. Bastante discreto e simples, ao lado da mulher. Ele é assim mesmo… low profile. Concentrado na carreira e não no showbusiness, tão diferente de Clooney e Affleck, por exemplo.

85th Academy Awards, Governors Ball PreviewAgora sim, pontualmente as 22h30min, começa a premiação do Oscar. O comediante Seth MacFarlane entra em cena. Ele fala dos vários filmes maravilhosos do ano, e começa destacando Argo. Um indicativo interessante…

MacFarlane brinca que o Oscar é importante para a carreira de qualquer um da indústria. E cita, com ironia, Jean Dujardin, que ganhou no ano passado, e que agora “está em todas as partes”. A verdade é que o inverso aconteceu. Depois ele destaca Amour e Daniel Day-Lewis. Depois ele fala de Django Unchained, brincando sobre a violência da produção. Comenta sobre Jennifer Lawrence, que teria brincado com a ausência de Meryl Streep entre as indicadas.

E então William Shatner, o histórico Kirk de Star Trek, interrompe a cerimônia para tentar “impedir” MacFarlane a fazer a pior apresentação de todos os tempos do Oscar. A tentativa da Academia em tirar sarro de si mesma é boa, mas de fato o apresentador é muito fraquinho. Sem dúvida ele tem um efeito muito maior nos Estados Unidos do que para o resto do mundo.

Em seguida, e aí sim valeu o primeiro minuto da noite, Channing Tatum entra em cena, com Charlize Theron, para dançarem uma música clássica imitando Fred Astaire e Ginger Rogers. Depois Daniel Radcliffe e Joseph Gordon-Levitt dançam sobre o palco, com o apresentador cantando. Certo, já entendemos o esforço do Oscar em tentar ser engraçado e mudar o apresentador, mas não está funcionando. Apresentação chata, e o tal MacFarlane se esforçando demais para agradar, sem conseguir.

Finalmente, começa o que interessa. Viola Davis Octavia Spencer apresenta os indicados a Melhor Ator Coadjuvante. Só feras entre os indicados: Alan Arkin, Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman, Tommy Lee Jones e Christoph Waltz. E o Oscar foi para… Christoph Waltz. Grande! Adorei. Estava torcendo por ele. Francamente, gosto muito dos outros. Mas ele rouba a cena em Django Unchained. Tarantino aparece todo feliz, e bem no canto do teatro. Curioso… Waltz agradece muito a ele e a vários nomes do elenco e da produção. Para fechar, ele usa palavras de seu personagem no filme, o Dr. King Schultz. Primeiro prêmio e já gostei. Este é o segundo Oscar de Waltz, que merece. OBS: Falha minha. Estava distraída e confundi Spencer com Davis. Eita! Mas foi Octavia Spencer mesmo quem apresentou.

E o Oscar de Melhor Curta de Animação foi para Paperman, um filme da Disney todo em preto e branco. Não assisti, mas parece interessante. O diretor John Kahrs agradece à Academia. Em seguida, são anunciados os concorrentes a Melhor Filme de Animação. E o Oscar foi para… Brave, dirigido por Mark Andrews e Brenda Chapman, com co-direção de Steve Purcell. Não assisti a nenhum dos concorrentes, algo raro, já que gosto dos filmes de animação. Mas parece que Brave era o mais popular, não?

Na sequência, Reese Whiterspoon apresenta três dos indicados a Melhor Filme. Ela apresenta a ousadia das produções Les Misérables, Life of Pi e Beasts of the Southern Wild. Impressão minha mas o Oscar está correndo com as premiações? Não com as piadas, meio xaropes, mas com a entrega dos prêmios. Estão cortando o lado errado.

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Agora, os indicados a Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Life of Pi. Grande! Merecidíssimo. Só podia dar ele mesmo. Fotografia maravilhosa. O grande Claudio Miranda sobe no palco e fala do quanto difícil e incrível foi fazer aquele filme. Um dos grandes trabalhos da vida dele, sem dúvida.

Os atores de The Avengers, Robert Downey Jr., Jeremy Renner, Chris Evans, Mark Ruffalo e Samuel L. Jackson apresentam, na sequência, o segundo Oscar da trupe nesta noite, o de Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Life of Pi. Mega merecido novamente. Era esperado, eu estava na torcida, e tiro o meu chapéu.

Na volta do intervalo, Jennifer Aniston e Channing Tatum apresentam o Oscar de Melhor Figurino. Eles fazem muitas gracinhas sobre estes profissionais que ajudam a melhorar o trabalho de qualquer ator, preparando-os para a cena. E o Oscar foi para… Jacqueline Durran por Anna Karenina. Nesta categoria, eu poderia opinar pouco, porque só assisti a Lincoln e Les Misérables. Estava na torcida pelo segundo mas, parece, Anna Karenina mereceu.

lesmiserables6Em seguida, a dupla de atores apresenta o Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. E o Oscar foi para… Les Misérables. Boa! Que bom que este filme não vai sair no zero a zero. Lisa Westcott e Julie Dartnell fizeram um grande trabalho com este filme. De arrepiar o resultado que elas conseguiram.

Na sequência, a estonteante Halle Berry, aparecendo como uma bond girl. Ela apresenta uma homenagem aos filmes de 007, que completam 50 anos. Bela edição de imagens dos filmes que fizeram a história do personagem. Edição moderna, valorizando o estilo das cores que marcaram Bond e aquela trilha sonora deliciosa que todos nós conhecemos. Fechando a homenagem, Shirley Bassey canta um clássico da trilha de Bond. Bacana. Funcionou bem.

Após o intervalo, Jamie Foxx e Kerry Washington, o casal de Django Unchained. Eles apresentam o Oscar de Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Curfew, dirigido por Shawn Christensen. Segundo os atores, esta foi a primeira vez que todos os integrantes da Academia puderam votar nos curtas. Bela valorização. Passava da hora, aliás. Christensen agradece demais aos seus familiares, e a outras pessoas que participaram da produção.

A dupla de atores apresenta o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… Inocente, dos diretores Sean Fine e Andrea Nix Fine. Eles são bem aplaudidos. Andrea agradece a várias pessoas que participaram do curta, na equipe de filmagem, e Sean valoriza a artista que é o foco do documentário.

Na sequência, Liam Neeson apresenta outros três indicados ao Oscar de Melhor Filme: Argo, Lincoln e Zero Dark Thirty. Como na apresentação anterior, o público assiste a um trailer que junta as três produções. Os dois primeiros são os favoritos mas, francamente, meu voto iria para o terceiro. E as piadinhas do apresentador… chaaatas. Mas bueno.

Depois entra em cena Ben Affleck. Ele apresenta os indicados ao Oscar de Melhor Documentário: 5 Broken Cameras, The Gatekeepers, How to Survive a Plague, The Invisible War e Searching for Sugar Man. E o Oscar foi para… Searching for Sugar Man, dirigido por Malik Bendjelloul.

Agora, francamente, ooohhh apresentador chato! Eu preferia mil vezes o Hugh Jackman apresentando ao Oscar do que este Seth MacFarlane. Ele não consegue quebrar o gelo.

amour2Voltando do intervalo, Jennifer Garner e a maravilhosa Jessica Chastain. Elas apresentam os indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira: Amour, Kon-Tiki, No, A Royal Affair, War Witch. Na torcida por Amour, claro. E o Oscar foi para… Amour. Oh yeah!! O grande Michael Haneke vai até o palco para receber a merecida estatueta. Nos agradecimentos, muito fofos, achei especialmente tocante a fala dele para a mulher, que lhe acompanha há mais de 30 anos, e o agradecimento para os grandes atores Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Bacana. Primeiro Oscar para este grande diretor.

John Travolta sobe ao palco para falar dos musicais. E homenageá-los. Um clipe apresenta alguns dos melhores dos últimos tempos, quando Chicago e tantas outras produções resgataram o gênero. E sobre o palco, Catherine Zeta-Jones arrasou. No vocal e na dança. Dominou o palco. Começou cantando, mas depois foi para o playback. Mas dançou bem. Ela foi seguida pela homenagem para Dreamgirls, com Jennifer Hudson cantando e gritando no palco. Desta vez pra valer. E aí veio Les Misérables… e Hugh Jackman, que deveria estar apresentando este Oscar, cantando maravilhosamente. Grande! Em seguida, a genial Anne Hathaway, seguida de Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit e o restante do elenco deste grande filme. Russell Crowe, que não tem voz para cantar, nem mesmo no filme, teve que usar um microfone discreto.

Zoe Saldana e Chris Pine voltam após o comercial para destacar os prêmios científicos, que destacam os avanços tecnológicos que servem ao cinema. O apresentador chato chama os astros de seu “esforço medíocre”, Mark Wahlberg e Ted, do filme Ted… sono! Eles apresentam os indicados para Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayes pelo filme Les Misérables. Bacana. Fico feliz que esta produção está sendo lembrada durante a noite.

A dupla de Ted segue apresentando o Oscar. Desta vez, os indicados a Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… que surpresa, um empate! A primeira estatueta vai para Paul N. J. Ottosson, por Zero Dark Thirty. Legal. Gostei muito deste filme. E o segundo Oscar nesta categoria foi para Per Hallberg e Karen Baker Landers por Skyfall.

Film Title: Les MisÈrablesNa sequência, mais uma piada idiota com a família Von Trapp. Melhor que o apresentador sem graça, Christopher Plummer, um veterano dos bons, sobe ao palco para apresentar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante: Amy Adams, Sally Field, Anne Hathaway, Helen Hunt e Jacki Weaver. Minha torcida para Hathaway. E o Oscar foi para… Anne Hathaway. Legas! Elegante, Anne Hathaway agradece a Academia por ter indicado ela junto com as outra atrizes, que lhe inspiram. Ele agradece a Hugh Jackman e a várias pessoas da equipe de Les Misérables. Em um discurso emocionado, ela agradeceu também aos amigos, familiares, fez uma declaração de amor fofa para o marido – eles são recém-casados – e disse que espera que um dia as dores e mazelas de sua personagem Fantine façam parte apenas da ficção, e não mais da realidade de ninguém. Foi muito bem. Indicada para dois Oscars antes, mas sem nunca ter recebido nenhuma estatueta, chegou a hora dela. Merecido. Ela faz uma das melhores interpretações de sua vida em Les Misérables.

Até agora, fora o empate, surpresa alguma. Fora o apresentador, horrível, e a dinâmica desta premiação, bem mal planejada, estou gostando da distribuição de estatuetas. Filmes que eu gostei muito estão levando os seus merecidos Oscars.

argo1Sandra Bullock entra após mais uma fala idiota do apresentador para apresentar os indicados ao Oscar de Melhor Edição: Argo, Lincoln, Silver Linings Playbook e Zero Dark Thirty. E o Oscar foi para… William Goldenberg, de Argo. Era bola bem cantada. Argo, de fato, tem uma ótima edição.

Depois, Jennifer Lawrence, em seu vestido tão comentado, introduz Adele, que canta a música Skyfall, do filme homônimo de 007. A canção é dela e de Paul Epworth e está concorrendo na categoria Melhor Canção Original. Essa sim, sabe soltar a voz. E só daí, com o telão borbulhando em brilhos, que eu entendi o vestido dela… tipo uma continuidade das “estrelas” do fundo. Melhor só escutar do que vê-la em uma roupa que não a favoreceu em nada. 🙂 Agora, depois de nos acostumarmos com o visual, foi legal ver ela se soltando, inclusive com dancinha. Possivelmente a pessoa que mais se soltou na noite. Grande!

Pois é, meus bons leitores. Só amando muito o cinema e o Oscar para aguentar a premiação deste ano. Chata, chata! Só o povo que faz Hollywood e o cinema pelo resto do mundo e que está presente para fazer a noite valer a pena.

No retorno do comercial, Nicole Kidman apresenta outros três indicados na categoria Melhor Filme: Silver Linings Playbook, Django Unchained e Amour. Achei a Nicole meio “passada”… parecia que tinha bebido. Por isso mesmo, engraçada. Depois, o tradicional trailer com estas três produções.

lincoln2Na sequência, Kristen Stewart e Daniel Radcliffe apresenta os indicados a Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… Rick Carter no design de produção e Jim Erickson na decoração de set de Lincoln. Fiquei surpresa. Esperava que a estatueta fosse para Life of Pi ou Les Misérables.

Após uma rápida piada idiota sobre atores que não são compreendidos – por serem gringos – do apresentador, Salma Hayek apresenta os Oscars honorários e humanitários para D.A Pennebaker, George Stevens Jr., Hal Needham e Jeffrey Katzenberg.

No retorno de mais um comercial, George Clooney apresenta o in memoriam do cinema, que começa com Ernest Borgnine, passou por Michael Clarke Duncan, Tonino Guerra, Herbert Lom, Tony Scott, Nora Ephron e terminou com Marvin Hamlisch, homenageado por Barbra Streisand. Sono e sono!

Senti que o apresentador mala está mais “contido”. Alguém deve ter contado pra ele que o Oscar de chato da noite vai pra ele. Na sequência, alguns dos atores principais de Chicago, Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Queen Latifah e Richard Gere apresentam os indicados a Melhor Trilha Sonora. E o Oscar foi para… Mychael Danna por Life of Pi. Legal. Gostei muito da trilha deste filme. Peça fundamental para o conjunto da obra.

Na sequência, o mesmo grupo de atores de Chicago relembra os indicados a Melhor Canção Original. Além daqueles que se apresentaram na noite, eles apresentam as composições de Chasing Ice e Life of Pi. Fechando a lista, Norah Jones subiu ao palco para interpretar a Everybody Needs a Best Friend, do filme Ted. E o Oscar foi para… Adele e Paul Epworth por Skyfall, do filme de 007. Gostei. Ainda que estivesse torcendo para a música de Les Misérables, gostei de ver Adele ser reconhecida. Ela é genial.

No retorno dos comerciais, serão entregues os principais prêmios. Life of Pi não deve ganhar mais nada. E o que falta ser entregue tem grandes chances de ser repartido por três ou quatro produções. 1h20min da manhã de segunda-feira e o Oscar manteve o seu padrão. Distribuindo prêmios, e com um apresentador surpreendentemente chato.

Na sequência, Charlize Theron e Dustin Hoffman sobem ao palco, para o nosso deleite, e apresentam os indicados ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Grandes concorrentes. Eu votaria em Life of Pi. Mas deve ganhar Argo. Veremos. E o Oscar foi para… Chris Terrio por Argo. Previsível. A verdade é que o roteiro deste filme é muito bom. Mas eu acho que tivemos outros exemplares mais complicados de adaptar, como Life of Pi. Paciência. Agora Argo vai começar a levar algumas estatuetas.

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A mesma dupla de atores apresenta os indicados na categoria Melhor Roteiro Original. Talvez a categoria mais disputada da noite. Só filmes geniais estavam concorrendo. E o Oscar foi para… Quentin Tarantino! Uau! Genial. Django Unchained não é o melhor roteiro dele, mas como a Academia devia há tempos uma estatueta para esse cara genial, fiquei feliz. Depois de ganhar por Pulp Fiction, este é o segundo Oscar da carreira do diretor e roteirista.

No retorno do comercial, 1h32min, Jane Fonda e Michael Douglas, dois monstros do cinema, caminham com toda a elegância sobre o palco para apresentar os indicados a Melhor Diretor. E o Oscar foi para… Ang Lee. Uauuuu! Fiquei surpresa. Achei que ia dar o Steven Spielberg. Mas Lee foi supermerecido. Ele fez um trabalho primoroso com Life of Pi. E ele foi aplaudido de pé pelo público. Um grande reconhecimento, e bastante raro na noite. Ele agradeceu a todos que acreditaram no projeto, às mais de 3 mil pessoas que trabalharam no filme e a Suraj Sharma, que “levou o filme”. Ele tem razão. Fico especialmente feliz por ser um diretor estrangeiro sendo reconhecido pela Academia. Especialmente ele, com uma filmografia tão boa.

O simpático, carismático e lindo (me perdoem os sensíveis, hehehehe) Jean Dujardin aparece sobre o palco para apresentar as indicadas a Melhor Atriz: Jessica Chastain, Jennifer Lawrence, Emmanuelle Riva, Quvenzhané Wallis e Naomi Watts. E o Oscar foi para… Jennifer Lawrence. Uau!! Agora ninguém mais segura ela, que já é a queridinha da América. De tão emocionada, ela caiu ao subir aos degraus. No discurso, o que achei o máximo, ela brincou que o povo estava aplaudindo ela de pé porque havia caído. Ela agradeceu ao elenco, à equipe, deu os parabéns para Emmanuelle Riva, que estava de aniversário. Figura.

Na sequência, a grande, insuperável Meryl Streep. Ela apresenta aos indicados na categoria Melhor Ator: Bradley Cooper, Daniel Day-Lewis, Hugh Jackman, Joaquin Phoenix e Denzel Washington. E o Oscar foi para… Daniel Day-Lewis. Era a bola mais cantada da noite, sem dúvida. E Meryl Streep foi a mais rápida no anúncio. Como Jennifer Lawrence, ele foi aplaudido de pé. Mas por muito mais tempo. Ovacionado, na verdade. Bacana. Ele brinca que não sabe como aquilo aconteceu… porque ele gostaria de ter interpretado a Margareth Thatcher. Uma piada com Meryl, que ele disse que foi a primeira escolhar para Lincoln. Ele brinca que a mulher dele casou com um homem estranho há 16 anos. Foi muito bem no discurso. A música não tocou pra ele… e após agradecer a muita gente, ele dedicou o prêmio para a mãe. Fofo!

argo2E para fechar a noite, Jack Nicholson. Figuraça. Andando bem estranho. Ele brinca que escolheram alguém bem confuso para apresentar o prêmio. E depois, chama a primeira dama dos EUA ao vivo da Casa Branca, Michelle Obama. Estranho foi ver as pessoas atrás dela com um olhar de admiração mega exagerado. Nicholson volta para nominar os concorrentes a Melhor Filme: Amour, Argo, Beasts of the Southern Wild, Django Unchained, Les Misérables, Life of Pi, Lincoln, Silver Linings Playbook e Zero Dark Thirty. E o Oscar foi para… Argo. Anunciado por Michelle Obama. Deu o previsto. Com Ben Affleck com aquela cara de surpresa que ninguém mais acredita. Apesar disto, o discurso dele foi bacana. Nervoso, fez uma revisão de sua carreira, e de como ele mesmo se surpreendeu com ela.

Francamente? Um Oscar bem político. Em todos os sentidos. Não apenas por Michelle Obama, mas pela repartição de prêmios, no estilo “vamos tentar agradar um pouquinho a todo mundo”. Das indicações até os premiados foi assim. Agora, um ano em que um filme como Argo é considerado o melhor… não acho ele ruim. É interessante, bem construído e narrado. Mas o melhor do ano? Sério? Pufff… Oscar político. Que pena. Mas valeu. No ano que vem tem mais. 🙂

Abraços para quem acompanhou a premiação por aqui. Seguimos na luta, pois! Inté!