Kick-Ass 2


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Fazer a continuação de um filme bom é sempre um baita desafio. Porque dita a história do cinema que a segunda produção de uma história que não terminou no filme original tende a ser mais fraca que o original. São raras, muito raras as exceções que mostram que o segundo filme foi melhor que o primeiro. Este não é o caso de Kick-Ass 2. Tudo o que eu tinha elogiado na crítica do Kick-Ass original, que você pode ler aqui, morreu neste segundo filme. Então posso dizer: Kick-Ass 2 é totalmente dispensável.

A HISTÓRIA: Mindy Macready (Chloë Grace Moretz) explica para Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) que a bala de uma pistola viaja a mais de mil quilômetros por hora. Ele ouve e diz que não vai levar um tiro para experimentar a sensação. Mindy não lhe dá ouvidos e atira. Esta cena faz parte da preparação que Dave pediu para Mindy, a única heroína de verdade que ele conhece. Passaram quatro anos desde o último filme, e agora Mindy vive sob a tutela do policial Marcus Williams (Morris Chestnut). Ao invés de frequentar as aulas na escola, ela segue se preparando para manter a forma como Hit-Girl. Enquanto isso, Dave tinha deixado a fantasia de Kick-Ass, mas estava se sentindo entediado na faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass 2): Quando o filme original desta franquia adaptada de uma HQ estreou, me surpreendi com o que eu vi. Ainda que Kick-Ass tivesse vários problemas na adaptação, como bem explicou por aqui o leitor Panthro Samah no comentário escrito no final da crítica publicada em 2010, eu gostei do produto final pela ousadia de romper expectativas e renovar um gênero do cinema bastante desgastado já, que é o dos filmes sobre heróis com superpoderes.

Por esta razão, quando ficou claro que Kick-Ass teria uma continuação, eu pensei: “Bem, continuações sempre são complicadas, mas acho que vale a pena conferir o que virá por aí de um filme que ousou em várias direções”. Ao conferir Kick-Ass 2 percebi que a regra poucas vezes quebrada de que continuações são piores que os originais se confirmou.

Este novo filme, agora dirigido por Jeff Wadlow – quem dirigiu Kick-Ass foi Matthew Vaughn – deixa toda a inovação da primeira produção da grife para trás. O filme ficou careta, por assim dizer. Sem o importante personagem de Damon Macready/Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, a continuação fica centrada no momento de incertezas vivido por Hit-Girl e Kick-Ass. Eles não sabem muito bem que “personagem” seguir… se dos jovens estudantes com suas crises de afirmação social ou a dos heróis que enfrentam bandidos.

Grande parte da história fica girando nesta busca dos dois personagens. Mindy Macready resolve investir nas descobertas juvenis de uma garota que sofre “bullying” no ensino médio. Acaba enfrentando a “maldade” de figuras como a jovem popular da escola, Brooke (Claudia Lee). Algo muito óbvio e menos interessante que o que vimos no filme passado, quando uma menina de 11 anos era treinada para ser implacável pelo pai e não vivia a própria infância. Agora, Mindy cresceu, tem 15 anos e parece ter sido suavizada. Ou, pelo menos, parece muito menos radical que a menina que assistimos em Kick-Ass.

No caminho, um elemento fundamental se perdeu: Mindy adolescente não choca como a garota do filme anterior. O mesmo acontece quando vemos a uma fotografia de guerra. Se é uma criança que empunha um rifle, o impacto é muito diferente do que se o garoto é um adolescente, há poucos anos de entrar na vida adulta. Claro que ver crianças e jovens imersos em contextos de violência não é algo aceitável, muito menos desejável. Mas o impacto de uma criança sendo explorada neste contexto sempre vai chocar mais que vermos a um adolescente na mesma posição.

Desta forma, a protagonista de Kick-Ass 2 nos choca menos que a mesma personagem no filme anterior. E o mesmo acontece com Dave/Kick-Ass. Neste novo filme, ele parece mais pateta e desajeitado que antes. Mesmo que ele se envolva sexualmente com Night Bitch (Lindy Booth), não assistimos a nenhuma cena picante, ou provocadora. Kick-Ass 2 se firma, assim, como uma produção “água-com-açúcar”. Suaviza nas cenas de violência e nas de pegada sexual. Desta forma, deixa de ter qualquer inovação e passa a integrar a imensa lista de filmes sem identidade e que parecem todos iguais.

Além de gastar muito tempo com a indecisão dos personagens principais sobre os seus “verdadeiros papéis no mundo”, Kick-Ass 2 segue avançando na ideia lançada pelo original de que os heróis ordinários são tudo o que a sociedade precisa. Assim, o roteiro escrito pelo diretor Jeff Wadlow baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. segue dando espaço para a importância da comunicação estabelecida pela internet para reunir pessoas interessadas em uma mesma causa. Um tema que ficou ainda mais importante com as manifestações sociais no Brasil e em outras parte do mundo neste ano e nos anteriores. Mas um argumento que, evidentemente, já está batido e não apresenta mais nenhuma “sacada”.

Por tudo que eu comentei até aqui, Kick-Ass 2 nasce defasado, antigo, sem muito propósito. Wadlow perdeu uma boa oportunidade de fazer um belo filme, que seguisse ou pelo menos honrasse o original. Mas que nada. O diretor e roteirista executa uma produção sem graça e que tem os seus melhores momentos na escolha dos nomes dos heróis e anti-heróis que vão se enfrentar no final.

Para não dizer que o filme todo é inteiramente um lixo, acho que o único ponto de reflexão que ele sucinta e que é interessante é esta aparente imutável vontade das pessoas de serem aceitas pelas outras e formarem grupos. Diferente de alguns heróis de HQ, em Kick-Ass 2 não há espaço para o “lobo solitário”, para aquele herói que procura fazer justiça com as próprias mãos de forma solitária – seja porque gosta de agir assim, seja porque não quer colocar as pessoas que ama em risco. Algo comum nas HQs.

Não. Em Kick-Ass 2 os protagonistas e as pessoas que lhes cercam acreditam em ação coletiva. Eles querem ser aceitos pelos outros e querem fazer parte de um grupo – seja o da escola, no caso de Mindy, seja o de uma liga de justiceiros, no caso de Dave. Algo interessante de perceber nesta história, especialmente porque ela mostra jovens que cresceram imersos na internet e nas mensagens trocadas por celulares. Contrariando muitos pais preocupados e os teóricos que dizem que a internet pode isolar as pessoas, Kick-Ass 2 aposta na vertente de que a tecnologia serve para tirar os jovens do isolamento.

Outro tema clássico que o filme resgata é o de que o ensino médio é o momento perfeito para criar traumas para o resto da vida, algo muito típico nos Estados Unidos, aparece com tudo nesta produção. Provavelmente uma forma de Wadlow tornar o filme mais “palatável” entre os jovens. O que é ruim, evidentemente. Afinal, toda vez que um filme se esforça para ser aceito, ele perde a chance de fazer algo diferente. Uma pena. Um desperdício.

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo me chamou a atenção logo no início deste filme. Afinal, quanto tempo se passou desde a história anterior? Pela idade de Mindy, calculamos quatro anos – afinal, em Kick-Ass ela tinha 11 e, agora, tem 15. Mas quando Dave assiste TV com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Augustus Prew), no noticiário a repórter comenta que o “movimento” dos heróis começou dois anos antes. Para mim, uma falha evidente no roteiro de Wadlow, porque a história, de fato, teria um hiato de quatro anos.

Bastante estranho ver o quanto a atriz Chloë Grace Moretz se desenvolveu no período. Sem dúvida, para a personagem de Mindy/Hit-Girl, ela tinha muito mais “graça” quando era uma criança.

Para a sorte de quem assistiu a este filme, ele tem menos de duas horas de duração. Aliás, ele poderia até ter menos do que os 107 minutos que possui. Uma hora e meia estava de ótimo tamanho. Como eu acho que a maioria dos filmes deveria ter. Poucos são os que valem duas horas ou mais. Muito, muito poucos.

No vácuo deixado pela morte do personagem de Nicolas Cage no filme anterior, os produtores escalaram Jim Carrey para o papel de Colonel Stars and Stripes. Em teoria, os dois atores se “igualariam” na importância e como chamariz do público. Mas francamente? Sem poder fazer as caras e bocas com as quais está acostumado, Carrey acaba ficando bastante apagado, diferente de Cage que faz um bom trabalho como o pai de Hit-Girl no filme original.

Sem um roteiro decente para seguir, até os protagonistas Aaron Taylor-Johnson e Chloë Grace Moretz parecem menos interessantes nesta continuação. Claro que eles se esforçam, mas acabam tendo que falar frases simplórias e viver personagens rasos em Kick-Ass 2. O vilão do filme, encarnado por Christopher Mintz-Plasse no papel de Chris D’Amico/The Motherfucker, também é menos interessante que o mafioso Frank D’Amico, interpretado por Mark Strong.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outras figuras que aparecem bastante nesta história. Donald Faison interpreta a Dr. Gravity, um dos heróis que se junta à Kick-Ass; Matt Steinberg é o Mr. Radical; Steven Mackintosh e Monica Dolan interpretam aos pais do menino que desapareceu e que resolvem virar “heróis”; Robert Emms interpreta a Insect Man; Garrett M. Brown faz as vezes de pai de Dave; e John Leguizamo interpreta a Javier, que trabalhou para o pai e para a mãe de Chris D’Amico antes de ajudar o adolescente a trilhar o caminho da vingança.

Falando no pai do Dave… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante que os protagonistas de Kick-Ass, no fim deste segundo filme, acabam ficando “sozinhos” no mundo, não é mesmo? Dave e Mindy já não tinham a figura materna. Após estes dois filmes, eles perdem também as figuras paternas. E o vilão Chris, que havia perdido o pai no filme anterior, também perde a mãe nesta sequência. Seria uma forma dos autores reforçarem a perda de “valor” das famílias e de dizer que estamos sozinhos no mundo? Curioso. Ah sim, e sigo sem ter lido o HQ original. 🙂 Um dia, quem sabe?

Da parte dos vilões, vale destacar o trabalho de Olga Kurkulina como Mother Russia; Tom Wu como Genghis Carnage; e Andy Nyman como The Tumor. Eles são contratados por Javier e passam a formar o “grupo de elite” de Chris – ainda que, de fato, apenas a vilã russa assuma a ação. Aliás, o filme ficar centrado no embate entre duas “ligas”, uma de heróis e outra de vilões, apenas resume a ideia do original a uma disputa comandada por adolescentes e gente sem muito o que fazer além de se caracterizar como nos HQs que eles gostam de ler.

Kick-Ass 2 mereceria uma nota até mais baixa que aquele 4 ali de cima. Mas resolvi dar esta nota porque, afinal de contas, a ideia de que as coisas podem sair mal quando as pessoas perdem a noção do perigo de fazer “justiça com as próprias mãos” continua ali. O filme perde em muitos sentidos em relação ao original, mas alguns alertas que ele faz, seja sobre o ponto anterior, seja sobre a violência presente em diferentes ambientes – como a dos adolescentes que praticam bullying na escola. Se o filme agradar aos jovens e fizer eles pensarem sobre isso, não terá sido um total desperdício.

Mais uma vez, a exemplo do Kick-Ass original, nesta sequência a trilha sonora acaba ganhando destaque. Um trabalho bem feito pela dupla Henry Jackman e Matthew Margeson, ainda que a trilha de Kick-Ass me pareceu ainda mais interessante. Mas no trabalho feito nesta sequência, até uma música brasileira está no meio… A Minha Menina, de Jorge Ben Jor, aqui interpretada por The Bees, aparece justamente no momento em que Kick-Ass é agarrado pela Night Bitch no banheiro. Como manda a “tradição”, a música brasileira é sempre provocativa e, normalmente, ligada a cenas sensuais. 🙂

Fora a trilha sonora de Kick-Ass 2, há pouco a destacar da parte técnica. Talvez a edição de Eddie Hamilton, que é bem feita, os figurinos de Sammy Sheldon, a maquiagem da equipe de Lisa Martin e os efeitos especiais coordenados por Laird McMurray. Estes últimos funcionam razoavelmente bem, ainda que a sequência da Hit-Girl sobre o veículo tenha me parecido um tanto mal feita. Além destes profissionais, vale nomear Tim Maurice-Jones como diretor de fotografia, ainda que ele não faça nada demais.

E agora, uma curiosidade sobre Kick-Ass 2: o ator Jim Carrey se recusou a participar da tradicional “turnê” de eventos de divulgação do filme porque ele não concorda com o conteúdo violento ou com o uso de armas para defesa pessoal ou qualquer outro tipo de violência armada. Curioso, não? Então porque cargas d’água ele se envolveu nesta produção? Só para faturar mais uns milhões de dólares? Isso que eu chamo de hipocrisia.

No quarto de Dave há dois cartazes: de American Jesus e Superior. Estes dois títulos são trabalhos do autor da HQ Kick-Ass Mark Millar.

Kick-Ass 2 foi rodado em diversos locais de Toronto, no Canadá, e nos estúdios Pinewood no Reino Unido.

Esta sequência adaptada das HQs estreou no dia 14 de agosto deste ano na Irlanda, no Reino Unido e nas Filipinas. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival. Ainda assim, ganhou um prêmio, o Summer’s Biggest Teen Bad A** conferido para Chloë Grace Moretz no MTV Movie Awards. Este prêmio foi criado pela Seventeen Magazine exclusivamente para a última edição do prêmio da MTV.

Kick-Ass 2 teria custado cerca de US$ 28 milhões. Apenas nos Estados Unidos, ele teria faturado quase US$ 28,8 milhões após seis semanas de exibição. No restante dos mercados em que estreou, ele conseguiu outros US$ 30,76 milhões. Ou seja, segue um caminho de obter lucro.

Esta sequência é apenas o terceiro longa da carreira do diretor Jeff Wadlow. Antes de Kick-Ass 2, ele dirigiu três curtas e os filmes Cry_Wolf e Never Back Down. Não assisti a nenhum dos dois, mas eles também não me chamaram a atenção. Acho que os produtores de Kick-Ass poderiam ter entregue a sequência do filme em outras mão, não?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Kick-Ass 2. Esta nota, e a vontade de assistir a sequência do filme anterior, do qual eu tinha gostado, me levaram a ver esta nova produção. Achei a avaliação dos usuários do IMDb muuuuuito generosa. E que pode enganar os desavisados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com o filme. Eles dedicaram 105 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 30% e uma nota média de 4,7.

Kick-Ass 2 é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assim sendo, ele também entra na lista de filmes que atendem ao pedido dos leitores deste blog, que solicitaram uma série de críticas de filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Chamou a minha atenção, em 2010, a violência, a ironia e as boas sacadas de Kick-Ass. Naquela época, no texto que escrevi sobre Kick-Ass, eu já comentava que haveria uma sequência. Como gostei do original, me joguei para ver este segundo filme. Pena que toda a força de Kick-Ass desapareceu no caminho. Menos violento, sem boas tiradas e aquela ironia ácida, Kick-Ass 2 é um filme que praticamente nega o primeiro, porque por boa parte do tempo trilha o caminho do “politicamente correto” e suaviza o drama e o dilema dos protagonistas. Um verdadeiro desperdício.

5 comentários em “Kick-Ass 2

  1. Não sou entusiasta do primeiro filme mas este é um filme interessante. No nivel do primeiro e bem fiel à hq. Os atores cresceram, o que prejudica a historia, mas o tempo decorrente é por volta de um ano apos o primeiro.

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  2. Concordo que a “pegada” do primeiro filme se perde um pouco aqui e o filme se torna mais “politicamente correto”, só não sei se daria uma nota 4. Acho que uma nota 6 estaria de bom tamanho já que, apesar de tudo isto, o filme ainda diverte em algumas cenas.

    Gostei muito de Jim Carrey, pena que ele aparece muito poubo.

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  3. Não achei tão ruim, embora, seja realmente fraco diante das expectativas.
    A participação do Jim Carrey realmente foi bem curta, esperava mais do seu personagem. Concordo que nem chegou perto de Nick Cage no primeiro filme.
    Kick Ass 2 na minha opinião focou de forma inteligente na personagem Hit-Girl e sua crise de identidade, bem como as hormonais…
    O filme tem boas cenas de ação e violência, mas quando lembro de Kick Ass, não lembro de nenhuma cena dessa sequencia, apenas do original.

    Genade Abraço!!

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