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Kick-Ass 2

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Fazer a continuação de um filme bom é sempre um baita desafio. Porque dita a história do cinema que a segunda produção de uma história que não terminou no filme original tende a ser mais fraca que o original. São raras, muito raras as exceções que mostram que o segundo filme foi melhor que o primeiro. Este não é o caso de Kick-Ass 2. Tudo o que eu tinha elogiado na crítica do Kick-Ass original, que você pode ler aqui, morreu neste segundo filme. Então posso dizer: Kick-Ass 2 é totalmente dispensável.

A HISTÓRIA: Mindy Macready (Chloë Grace Moretz) explica para Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) que a bala de uma pistola viaja a mais de mil quilômetros por hora. Ele ouve e diz que não vai levar um tiro para experimentar a sensação. Mindy não lhe dá ouvidos e atira. Esta cena faz parte da preparação que Dave pediu para Mindy, a única heroína de verdade que ele conhece. Passaram quatro anos desde o último filme, e agora Mindy vive sob a tutela do policial Marcus Williams (Morris Chestnut). Ao invés de frequentar as aulas na escola, ela segue se preparando para manter a forma como Hit-Girl. Enquanto isso, Dave tinha deixado a fantasia de Kick-Ass, mas estava se sentindo entediado na faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass 2): Quando o filme original desta franquia adaptada de uma HQ estreou, me surpreendi com o que eu vi. Ainda que Kick-Ass tivesse vários problemas na adaptação, como bem explicou por aqui o leitor Panthro Samah no comentário escrito no final da crítica publicada em 2010, eu gostei do produto final pela ousadia de romper expectativas e renovar um gênero do cinema bastante desgastado já, que é o dos filmes sobre heróis com superpoderes.

Por esta razão, quando ficou claro que Kick-Ass teria uma continuação, eu pensei: “Bem, continuações sempre são complicadas, mas acho que vale a pena conferir o que virá por aí de um filme que ousou em várias direções”. Ao conferir Kick-Ass 2 percebi que a regra poucas vezes quebrada de que continuações são piores que os originais se confirmou.

Este novo filme, agora dirigido por Jeff Wadlow – quem dirigiu Kick-Ass foi Matthew Vaughn – deixa toda a inovação da primeira produção da grife para trás. O filme ficou careta, por assim dizer. Sem o importante personagem de Damon Macready/Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, a continuação fica centrada no momento de incertezas vivido por Hit-Girl e Kick-Ass. Eles não sabem muito bem que “personagem” seguir… se dos jovens estudantes com suas crises de afirmação social ou a dos heróis que enfrentam bandidos.

Grande parte da história fica girando nesta busca dos dois personagens. Mindy Macready resolve investir nas descobertas juvenis de uma garota que sofre “bullying” no ensino médio. Acaba enfrentando a “maldade” de figuras como a jovem popular da escola, Brooke (Claudia Lee). Algo muito óbvio e menos interessante que o que vimos no filme passado, quando uma menina de 11 anos era treinada para ser implacável pelo pai e não vivia a própria infância. Agora, Mindy cresceu, tem 15 anos e parece ter sido suavizada. Ou, pelo menos, parece muito menos radical que a menina que assistimos em Kick-Ass.

No caminho, um elemento fundamental se perdeu: Mindy adolescente não choca como a garota do filme anterior. O mesmo acontece quando vemos a uma fotografia de guerra. Se é uma criança que empunha um rifle, o impacto é muito diferente do que se o garoto é um adolescente, há poucos anos de entrar na vida adulta. Claro que ver crianças e jovens imersos em contextos de violência não é algo aceitável, muito menos desejável. Mas o impacto de uma criança sendo explorada neste contexto sempre vai chocar mais que vermos a um adolescente na mesma posição.

Desta forma, a protagonista de Kick-Ass 2 nos choca menos que a mesma personagem no filme anterior. E o mesmo acontece com Dave/Kick-Ass. Neste novo filme, ele parece mais pateta e desajeitado que antes. Mesmo que ele se envolva sexualmente com Night Bitch (Lindy Booth), não assistimos a nenhuma cena picante, ou provocadora. Kick-Ass 2 se firma, assim, como uma produção “água-com-açúcar”. Suaviza nas cenas de violência e nas de pegada sexual. Desta forma, deixa de ter qualquer inovação e passa a integrar a imensa lista de filmes sem identidade e que parecem todos iguais.

Além de gastar muito tempo com a indecisão dos personagens principais sobre os seus “verdadeiros papéis no mundo”, Kick-Ass 2 segue avançando na ideia lançada pelo original de que os heróis ordinários são tudo o que a sociedade precisa. Assim, o roteiro escrito pelo diretor Jeff Wadlow baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. segue dando espaço para a importância da comunicação estabelecida pela internet para reunir pessoas interessadas em uma mesma causa. Um tema que ficou ainda mais importante com as manifestações sociais no Brasil e em outras parte do mundo neste ano e nos anteriores. Mas um argumento que, evidentemente, já está batido e não apresenta mais nenhuma “sacada”.

Por tudo que eu comentei até aqui, Kick-Ass 2 nasce defasado, antigo, sem muito propósito. Wadlow perdeu uma boa oportunidade de fazer um belo filme, que seguisse ou pelo menos honrasse o original. Mas que nada. O diretor e roteirista executa uma produção sem graça e que tem os seus melhores momentos na escolha dos nomes dos heróis e anti-heróis que vão se enfrentar no final.

Para não dizer que o filme todo é inteiramente um lixo, acho que o único ponto de reflexão que ele sucinta e que é interessante é esta aparente imutável vontade das pessoas de serem aceitas pelas outras e formarem grupos. Diferente de alguns heróis de HQ, em Kick-Ass 2 não há espaço para o “lobo solitário”, para aquele herói que procura fazer justiça com as próprias mãos de forma solitária – seja porque gosta de agir assim, seja porque não quer colocar as pessoas que ama em risco. Algo comum nas HQs.

Não. Em Kick-Ass 2 os protagonistas e as pessoas que lhes cercam acreditam em ação coletiva. Eles querem ser aceitos pelos outros e querem fazer parte de um grupo – seja o da escola, no caso de Mindy, seja o de uma liga de justiceiros, no caso de Dave. Algo interessante de perceber nesta história, especialmente porque ela mostra jovens que cresceram imersos na internet e nas mensagens trocadas por celulares. Contrariando muitos pais preocupados e os teóricos que dizem que a internet pode isolar as pessoas, Kick-Ass 2 aposta na vertente de que a tecnologia serve para tirar os jovens do isolamento.

Outro tema clássico que o filme resgata é o de que o ensino médio é o momento perfeito para criar traumas para o resto da vida, algo muito típico nos Estados Unidos, aparece com tudo nesta produção. Provavelmente uma forma de Wadlow tornar o filme mais “palatável” entre os jovens. O que é ruim, evidentemente. Afinal, toda vez que um filme se esforça para ser aceito, ele perde a chance de fazer algo diferente. Uma pena. Um desperdício.

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo me chamou a atenção logo no início deste filme. Afinal, quanto tempo se passou desde a história anterior? Pela idade de Mindy, calculamos quatro anos – afinal, em Kick-Ass ela tinha 11 e, agora, tem 15. Mas quando Dave assiste TV com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Augustus Prew), no noticiário a repórter comenta que o “movimento” dos heróis começou dois anos antes. Para mim, uma falha evidente no roteiro de Wadlow, porque a história, de fato, teria um hiato de quatro anos.

Bastante estranho ver o quanto a atriz Chloë Grace Moretz se desenvolveu no período. Sem dúvida, para a personagem de Mindy/Hit-Girl, ela tinha muito mais “graça” quando era uma criança.

Para a sorte de quem assistiu a este filme, ele tem menos de duas horas de duração. Aliás, ele poderia até ter menos do que os 107 minutos que possui. Uma hora e meia estava de ótimo tamanho. Como eu acho que a maioria dos filmes deveria ter. Poucos são os que valem duas horas ou mais. Muito, muito poucos.

No vácuo deixado pela morte do personagem de Nicolas Cage no filme anterior, os produtores escalaram Jim Carrey para o papel de Colonel Stars and Stripes. Em teoria, os dois atores se “igualariam” na importância e como chamariz do público. Mas francamente? Sem poder fazer as caras e bocas com as quais está acostumado, Carrey acaba ficando bastante apagado, diferente de Cage que faz um bom trabalho como o pai de Hit-Girl no filme original.

Sem um roteiro decente para seguir, até os protagonistas Aaron Taylor-Johnson e Chloë Grace Moretz parecem menos interessantes nesta continuação. Claro que eles se esforçam, mas acabam tendo que falar frases simplórias e viver personagens rasos em Kick-Ass 2. O vilão do filme, encarnado por Christopher Mintz-Plasse no papel de Chris D’Amico/The Motherfucker, também é menos interessante que o mafioso Frank D’Amico, interpretado por Mark Strong.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outras figuras que aparecem bastante nesta história. Donald Faison interpreta a Dr. Gravity, um dos heróis que se junta à Kick-Ass; Matt Steinberg é o Mr. Radical; Steven Mackintosh e Monica Dolan interpretam aos pais do menino que desapareceu e que resolvem virar “heróis”; Robert Emms interpreta a Insect Man; Garrett M. Brown faz as vezes de pai de Dave; e John Leguizamo interpreta a Javier, que trabalhou para o pai e para a mãe de Chris D’Amico antes de ajudar o adolescente a trilhar o caminho da vingança.

Falando no pai do Dave… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante que os protagonistas de Kick-Ass, no fim deste segundo filme, acabam ficando “sozinhos” no mundo, não é mesmo? Dave e Mindy já não tinham a figura materna. Após estes dois filmes, eles perdem também as figuras paternas. E o vilão Chris, que havia perdido o pai no filme anterior, também perde a mãe nesta sequência. Seria uma forma dos autores reforçarem a perda de “valor” das famílias e de dizer que estamos sozinhos no mundo? Curioso. Ah sim, e sigo sem ter lido o HQ original. 🙂 Um dia, quem sabe?

Da parte dos vilões, vale destacar o trabalho de Olga Kurkulina como Mother Russia; Tom Wu como Genghis Carnage; e Andy Nyman como The Tumor. Eles são contratados por Javier e passam a formar o “grupo de elite” de Chris – ainda que, de fato, apenas a vilã russa assuma a ação. Aliás, o filme ficar centrado no embate entre duas “ligas”, uma de heróis e outra de vilões, apenas resume a ideia do original a uma disputa comandada por adolescentes e gente sem muito o que fazer além de se caracterizar como nos HQs que eles gostam de ler.

Kick-Ass 2 mereceria uma nota até mais baixa que aquele 4 ali de cima. Mas resolvi dar esta nota porque, afinal de contas, a ideia de que as coisas podem sair mal quando as pessoas perdem a noção do perigo de fazer “justiça com as próprias mãos” continua ali. O filme perde em muitos sentidos em relação ao original, mas alguns alertas que ele faz, seja sobre o ponto anterior, seja sobre a violência presente em diferentes ambientes – como a dos adolescentes que praticam bullying na escola. Se o filme agradar aos jovens e fizer eles pensarem sobre isso, não terá sido um total desperdício.

Mais uma vez, a exemplo do Kick-Ass original, nesta sequência a trilha sonora acaba ganhando destaque. Um trabalho bem feito pela dupla Henry Jackman e Matthew Margeson, ainda que a trilha de Kick-Ass me pareceu ainda mais interessante. Mas no trabalho feito nesta sequência, até uma música brasileira está no meio… A Minha Menina, de Jorge Ben Jor, aqui interpretada por The Bees, aparece justamente no momento em que Kick-Ass é agarrado pela Night Bitch no banheiro. Como manda a “tradição”, a música brasileira é sempre provocativa e, normalmente, ligada a cenas sensuais. 🙂

Fora a trilha sonora de Kick-Ass 2, há pouco a destacar da parte técnica. Talvez a edição de Eddie Hamilton, que é bem feita, os figurinos de Sammy Sheldon, a maquiagem da equipe de Lisa Martin e os efeitos especiais coordenados por Laird McMurray. Estes últimos funcionam razoavelmente bem, ainda que a sequência da Hit-Girl sobre o veículo tenha me parecido um tanto mal feita. Além destes profissionais, vale nomear Tim Maurice-Jones como diretor de fotografia, ainda que ele não faça nada demais.

E agora, uma curiosidade sobre Kick-Ass 2: o ator Jim Carrey se recusou a participar da tradicional “turnê” de eventos de divulgação do filme porque ele não concorda com o conteúdo violento ou com o uso de armas para defesa pessoal ou qualquer outro tipo de violência armada. Curioso, não? Então porque cargas d’água ele se envolveu nesta produção? Só para faturar mais uns milhões de dólares? Isso que eu chamo de hipocrisia.

No quarto de Dave há dois cartazes: de American Jesus e Superior. Estes dois títulos são trabalhos do autor da HQ Kick-Ass Mark Millar.

Kick-Ass 2 foi rodado em diversos locais de Toronto, no Canadá, e nos estúdios Pinewood no Reino Unido.

Esta sequência adaptada das HQs estreou no dia 14 de agosto deste ano na Irlanda, no Reino Unido e nas Filipinas. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival. Ainda assim, ganhou um prêmio, o Summer’s Biggest Teen Bad A** conferido para Chloë Grace Moretz no MTV Movie Awards. Este prêmio foi criado pela Seventeen Magazine exclusivamente para a última edição do prêmio da MTV.

Kick-Ass 2 teria custado cerca de US$ 28 milhões. Apenas nos Estados Unidos, ele teria faturado quase US$ 28,8 milhões após seis semanas de exibição. No restante dos mercados em que estreou, ele conseguiu outros US$ 30,76 milhões. Ou seja, segue um caminho de obter lucro.

Esta sequência é apenas o terceiro longa da carreira do diretor Jeff Wadlow. Antes de Kick-Ass 2, ele dirigiu três curtas e os filmes Cry_Wolf e Never Back Down. Não assisti a nenhum dos dois, mas eles também não me chamaram a atenção. Acho que os produtores de Kick-Ass poderiam ter entregue a sequência do filme em outras mão, não?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Kick-Ass 2. Esta nota, e a vontade de assistir a sequência do filme anterior, do qual eu tinha gostado, me levaram a ver esta nova produção. Achei a avaliação dos usuários do IMDb muuuuuito generosa. E que pode enganar os desavisados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com o filme. Eles dedicaram 105 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 30% e uma nota média de 4,7.

Kick-Ass 2 é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assim sendo, ele também entra na lista de filmes que atendem ao pedido dos leitores deste blog, que solicitaram uma série de críticas de filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Chamou a minha atenção, em 2010, a violência, a ironia e as boas sacadas de Kick-Ass. Naquela época, no texto que escrevi sobre Kick-Ass, eu já comentava que haveria uma sequência. Como gostei do original, me joguei para ver este segundo filme. Pena que toda a força de Kick-Ass desapareceu no caminho. Menos violento, sem boas tiradas e aquela ironia ácida, Kick-Ass 2 é um filme que praticamente nega o primeiro, porque por boa parte do tempo trilha o caminho do “politicamente correto” e suaviza o drama e o dilema dos protagonistas. Um verdadeiro desperdício.

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Hugo – A Invenção de Hugo Cabret

A magia do cinema é o foco central dos dois filmes que fazem a maior quebra-de-braço deste ano no Oscar. Além do já comentado The Artist, Hugo bebe desta fonte para encantar o público e a crítica. Mas diferente do filme francês, Hugo esbanja em efeitos especiais, no uso de recursos técnicos para encantar. The Artist, por outro lado, faz isso com um roteiro melhor acabado e com interpretações exemplares. Na queda-de-braço, Hugo perde – apesar de ser um filme interessante e que faz uma homenagem exemplar para um dos grandes inventores da Sétima Arte.

A HISTÓRIA: Engrenagens de um relógio dão lugar à lógica incessante do Centro iluminado de Paris. Neva, e nos aproximamos da estação de trem, onde parece pulsar o coração da cidade. A câmera passa ligeira entre muitas pessoas, até adentrar em um ponto fundamental daquela estação: um de seus relógios. Ali, invisível para as pessoas que entram e saem da estação, está Hugo Cabret (Asa Butterfield). O garoto observa, pelos números do relógio, a vida que transcorre na estação. Ele sai desta posição de observador apenas para roubar alguma comida e as peças que ele precisa para consertar um robô misterioso deixado pelo pai do garoto (Jude Law). Sem infância, a curiosidade do garoto sobre um brinquedo o aproxima do dono de uma das lojas da estação (Ben Kingsley).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Hugo): Hugo é um filme maravilhoso, destes planejado, do início até o final, para encantar o espectador. Aquela sequência inicial, da câmera percorrendo Paris, foi um cartão-de-visitas eficaz do diretor Martin Scorsese para o que viria depois. A sequência, propriamente, não é uma novidade – já foi explorada por muitos filmes, inclusive o ótimo Moulin Rouge. Bem planejado e executado nos detalhes, Hugo é um show de técnica. Mas lhe falta, justamente, um pouco mais de emoção e de inovação.

Não por acaso, Hugo me deu sono. Me desculpem os fãs do filme, que talvez tenham visto na telona o que consideram ser um dos melhores filmes de Scorsese. Eu não chegaria tão longe. Ele é um grande diretor, mas não fez aqui um trabalho surpreendente. Pelo contrário. Apesar de bem filmado, Hugo sofre para decolar. Demora para ficar interessante. O protagonista é bom, mas ele desaparece quando aparecem em cena atores como Ben Kingsley ou Chlöe Grace Moretz, que interpreta a Isabelle, afilhada de “Papa George”. Se Hugo tivesse meia hora a menos, talvez fosse melhor.

Nunca assisto a trailers e tento, como vocês bem sabem, me informar o menos possível sobre um filme antes de assistí-lo. Sendo assim, eu sabia que Scorsese havia homenageado a Georges Méliès com Hugo, mas não sabia até que ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a este filme). Tinha lido algo a respeito de que o diretor havia reconstituído a alguns dos filmes de Méliès, um dos precursores mais brilhantes do cinema. Mas não sabia que o filme era, escancaradamente, sobre ele. Gostei da surpresa. De saber um pouco mais sobre este grande nome da Sétima Arte e do que aconteceu com ele após a Primeira Guerra Mundial. Foi muito bacana, também, a forma com que Scorsese reconstituiu alguns dos curtas mais famosos do diretor. Bela homenagem.

Mas o filme, infelizmente, não se resumo apenas à isso. Como Hollywood adora fazer, de tempos em tempos, Hugo coloca um jovem órfão como narrador de uma história cheia de fantasia. O protagonista, fascinado pelo cinema, arte que ele aprendeu a amar porque o pai lhe acostumou a levá-lo para a sala escura como uma espécie de presente, atua para resgatar um realizador esquecido. Ele simboliza a indústria fazendo um mea culpa. Incapaz de fazer isso enquanto Méliès estava vivo, essa indústria tenta fazer isso agora. Ainda que essa indústria seja outra, na verdade. Porque foi a indústria francesa que esqueceu Méliès em sua época – e a que o resgata agora é a de Hollywood.

Eis um ponto curioso sobre a disputa do Oscar deste ano. Vejamos: Hugo, o filme mais indicado do ano, é uma homenagem de Hollywood para um grande pioneiro do cinema, de origem francesa. The Artist, o melhor filme na disputa e o grande concorrente de Hugo, é uma homenagem francesa para o cinema mudo feito em Hollywood. Histórias que reverenciam o passado e o legado deixado por grandes realizadores de tempos extintos. Mas que não se debruçam sobre si mesmas, mas homenageiam escolas distintas. Interessante exercício.

Mas voltando a falar sobre o que prejudica Hugo: a lentidão do filme para que a história comece a decolar. Cansa um pouco aquela marcação cerrada do inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen) contra toda e qualquer criança desacompanhada de um adulto. Fica repetitiva a corrida dele em busca de Hugo. O problema é que estas perseguições não criam tensão – afinal, todos nós sabemos que o protagonista não poderia se dar mal. Outro “suspense” do filme não se concretiza: o que envolve o robô herdado por Hugo. Não demora nada para percebermos que o robô é familiar a Papa George. E ainda que eu não tenha matado logo a charada de que o personagem de Ben Kingsley fosse, realmente, o próprio Méliès, torna-se evidente que o robô tinha uma forte ligação com ele. Faltava apenas explicar qual era a função dele, o que também não demora para acontecer – e nem surpreende.

Sem tensão ou grande expectativa sobre o que virá em seguida, Hugo passa lentamente. Como eu disse antes, ele chega a dar sono, apesar de toda a perfeição dos efeitos especiais e visuais. Aquelas histórias de “vida comum” da estação querem dar um “charme” para a produção, contextualizar aquela época e mostrar o cenário que fascinou os Lumière a ponto de inspirar os seus primeiros filmes. Mas francamente? Esse pano de fundo poderia ter sido mais resumido. Afinal, ele contribuiu pouco – para não dizer quase nada – para a história que mais interessa.

Um ponto é curioso neste filme: a “disputa” entre os mundos fascinantes de uma sala de cinema e de uma biblioteca. Hugo é fascinado pelo cinema. Isabelle, sua parceira de “aventuras”, pelas histórias narradas nas páginas dos livros. No final, a mensagem que o filme parece nos sugerir é que o fascínio de um não elimina o do outro. Tanto que Hugo é inspirado em um livro. E o protagonista mesmo comenta que era acostumado a ler livros junto com o pai. Neste sentido, o filme dá uma contribuição importante. Porque fica evidente a diferença de vocabulário entre as duas crianças da produção. Quem lê muito, como a personagem de Isabelle, consegue expressar-se muito melhor que os demais. Também conseguem fantasiar com muito mais facilidade, e encantar-se com as coisas mais comuns – enxergando referências em muitos feitos ordinários. Ainda assim, nada parece ser mais fascinante que o efeito que a fantasia tornada realidade, pela lente dos cineastas, causa nas pessoas – e isso, só uma sala de cinema é capaz de revelar.

Cheio de fantasia, e que apenas se inspira em uma história real. Muito do que vemos na telona não aconteceu, de fato. O que é real: Méliès realmente faliu e trabalhou, em meados da década de 1920, em uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Mas ele não foi resgatado por um órfão, como Hugo, e sim por vários jornalistas que começaram a resgatar a importância que o diretor havia tido para o cinema. A razão para a falência dele também não se explica apenas pelo “desinteresse” do público pelos filmes cheios de fantasia que ele produzia após o excesso de realidade da Primeira Guerra. Esta foi uma das razões, mas não a principal. Depois falarei mais sobre isto.

O melhor deste filme demora para acontecer: o resgate de parte da história do cinema e de algumas das produções mais bacanas de Méliès. Só depois de uma hora e nove minutos é que mergulhamos no livro Inventer le Rêve, de René Tabard, que faz um rápido recorrido sobre as origens da Sétima Arte. E daí o grande mistério de Hugo é revelado. E surge, pouco depois, o resgate de cenas preciosas da obra de Méliès, reconstruídas com esmero por Scorsese. A partir daí, Hugo diz ao que veio. E acaba valendo o ingresso. Pena que demore tanto para chegarmos a este ponto.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O visual de Hugo é o melhor do filme. Aplausos para a direção de fotografia de Robert Richardson, para o design de produção de Dante Ferretti, para a direção de arte comandada por 10 grandes nomes, para a decoração de set de Francesca Lo Schiavo e para os figurinos da premiada Sandy Powell. Esse grupo imenso de pessoas, e mais todas as outras que ajudaram a tornar o resgate de Paris nos anos 1930 e da origem do cinema, algumas décadas antes, uma realidade.

Um grande diretor, como Martin Scorsese, só consegue fazer um grande filme como este, complexo pelo resgate histórico e pela ousadia de recriar alguns trechos de curtas clássicos, tendo uma ótima equipe ao seu redor. Por isso mesmo, Hugo é um dos filmes concorrentes deste ano que mais elogia a arte do cinema como o resultado de um trabalho de equipe. Talvez por isso, este filme saia vencedor em várias categorias. Mas lhe falta um pouco de invenção, por incrível que pareça, para ser o favorito nas categorias principais.

Hugo é uma grande obra de fantasia. Mas ele tem algum fundo de realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem central, daquele garotinho órfão “valente”, talvez tenha existido. Tenha percorrido várias vezes a estação de trem de Paris e, eventualmente, tenha parado no orfanato. Mas ele não existiu no ponto de mudar a parte final da vida de Georges Méliès. De fato, uma das mentes mais criativas do cinema ficou esquecida por muito tempo. Falido, abriu uma loja de brinquedos na estação parisiense. Mas as semelhanças com a história terminam aí. Méliès foi “resgatado” do ostracismo por jornalistas da época. E segundo este texto, em inglês, da Wikipédia, acabou de fato sendo homenageado, em dezembro de 1929, com uma retrospectiva de seus filmes na Sala Pleyel – antes da história de Hugo ser contada, portanto. Mesmo com esta homenagem, Méliès continuou pobre e precisou de ajuda para terminar a vida com o mínimo de dignidade. Vale a leitura do texto da Wikipédia.

Aliás, ao ler o texto sobre a vida do cineasta homenageado, fiquei um pouco mais incomodada com Hugo. Afinal, se era para fazer uma homenagem ao cinema e à Méliès, por que não contar um pouco melhor a sua história? Por que não falar das verdadeiras razões que fizeram o cineasta deixar de produzir filmes? Pelo texto da Wikipédia comentado, é verdade que os fatos da Primeira Guerra contribuiram para Méliès deixar de fazer filmes. Mas a derrocada do diretor havia começado muito antes do conflito de proporções mundiais eclodir.

Algo importante a comentar: Méliès não deixou o Théâtre Robert-Houdin para dedicar-se exclusivamente a fazer filmes. Pelo menos durante muito tempo. Os primeiros curtas de Méliès datam de 1896, quando ele estreou como diretor com Un Petit Diable. O famoso Le Voyage Dans la Lune, importante como fio condutor para o filme Hugo, está completando este ano 110 anos de seu lançamento. Mas segundo o texto da Wikipédia, em 1907, Méliès fazia sucesso lançando novas mágicas no teatro, enquanto produzia 19 curtas para o cinema. Segundo muitos críticos, a decadência do cineasta começou naquele ano, porque ele teria começado a repetir “velhas fórmulas” ao mesmo tempo em que lançava ideias novas. No ano seguinte, 1908, ocorreu um fato que seria decisivo – muito mais que a Primeira Guerra – para o futuro de Méliès: a criação da Motion Picture Patents Company (MPPC) por Thomas Edison.

O objetivo de Edison era colocar ordem e, de certa maneira, controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. Várias empresas aderiram à proposta dele, incluindo a American Pathé e a Méliès’s Star Film Company. Edison assumiu a presidência do coletivo de realizadores. Naquele ano, a companhia de Méliès produziu 68 filmes e forneceu mil metros de filme por semana para cumprir o contrato com a MPPC. O irmão de Georges, Gaston Méliès, abriu então um estúdio em Chicago com a intenção de ajudar a empresa familiar a produzir a quantidade de filmes necessária. Mas ele não produziu nada em 1908. No início do ano seguinte, Méliès parou de fazer novos filmes e, em fevereiro, presidiu a primeira reunião do Congresso Internacional de Cineastas em Paris. Como outros diretores, ele estava descontente com o monopólio de Edison.

Naquele congresso, Méliès liderou um movimento de reação. O resultado é que Edison definiu que os filmes não seriam mais vendidos, mas alugados por um prazo de quatro meses apenas por integrantes da organização e que seria adotado uma mesma contagem de perfurações de filme para todas as produções. Méliès não gostou do último ponto, porque a maioria de seus clientes eram feirantes e proprietários de casas de espetáculo que eram contra esta padronização. Na época, Méliès dizia que não era uma empresa, mas um produtor independente. Ele voltou a filmar apenas no outono daquele ano. Enquanto isso, o irmão dele, Gaston, começou a produzir filmes nos Estados Unidos, abrindo estúdios diferentes até 1912. Entre 1910 e 1912, Gaston produziu mais de 130 filmes, enquanto o irmão, Georges, apenas 20.

Apenas em 1910, Georges Méliès produziu 10 filmes. Mas ele já passava mais tempo no teatro do que fazendo curtas para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No outono daquele ano, Méliès fez um acordo com Charles Pathé que, segundo o texto da Wikipédia, acabaria destruindo a carreira cinematográfica dele. Pelo contrato, Méliès recebeu uma grande quantidade de dinheiro para produzir filmes que seriam distribuídos por Pathé Frères – as produções também poderiam ser editadas por Pathé, caso ele achasse conveniente. Fez parte do acordo com Pathé as escrituras da casa e da propriedade onde estava o estúdio de Méliès.

O diretor começou a fazer os seus filmes mais elaborados, como The Adventures of Baron Munchausen e The Haunted Window. O problema é que a extravagência destas produções, sucesso uma década antes, acabou resultando no fracasso de bilheteria das novas produções. Em 1912 Méliès seguiu com os projetos ousados e caros e, sem conseguir sucesso nas bilheterias, passou a ter os seus trabalhos editados por Pathé. Algumas produções de Méliès foram editadas por seu rival, Ferdinand Zecca, naquele ano, até que o diretor resolveu quebrar o contrato com Pathé.

Enquanto isso, Gaston Méliès gastou muitos recursos viajando com a família e uma equipe de 20 pessoas pelo Tahiti, pelo Pacífico Sul e pela Ásia. As filmagens foram enviadas através do filho dele para Nova York, mas grande parte do material acabou sendo danificado e perdido. Consequentemente, Gaston não conseguiu cumprir o acordo com a empresa de Edison. Além de gastar US$ 50 mil na viagem – uma fortuna para a época -, Gaston teve que se livrar do estúdio nos Estados Unidos.

Quando Méliès quebrou o contrato com a Pathé, em 1913, ele se viu em apuros para conseguir pagar o que devia para a companhia. Por ironia, a moratória declarada com o surgimento da Primeira Guerra Mundial salvou Méliès de perder as propriedades para a Pathé. Mas falido e sem possibilidade de seguir fazendo filmes, Méliès viu a situação piorar quando a primeira esposa, Eugénie Génin, morreu em maio de 1913 e seu teatro, o Robert-Houdin, ficou fechado por um ano. Foi aí que ele deixou Paris por vários anos, até retornar e começar a trabalhar em uma loja de brinquedos na estação de trem Montparnasse em meados da década de 1920. Depois da morte da esposa, Méliès teria se casado com Jeanne d’Alcy, que aparece em vários de seus filmes e que teria sido sua amante por vários anos – é ela que aparece no filme Hugo.

Durante a guerra, o exército francês confiscou mais de 400 impressões originais de filmes que faziam parte do catálogo do estúdio de Méliès para derretê-los em busca de matéria-prima para fazer solas de sapatos. O próprio Méliès, em um acesso de raiva, destruiu muitos de seus filmes. Ainda assim, segundo o texto da Wikipédia, pouco mais de 200 produções que levam a assinatura dele foram recuperadas e podem ser vistas em DVD.

Segundo o ótimo site de referências IMDb, Georges Méliès dirigiu, entre 1896 e 1913, 552 curtas metragens – a maioria deles, peças de ficção, mas alguns eram documentários. Além de diretor, Méliès trabalhou como ator em 85 curtas, como produtor de 71 deles e como roteirista de 42.

Ah sim, e era verdade que ele foi um dos espectadores maravilhados com a primeira exibição dos irmãos Lumière.

Os atores em Hugo estão muito bem, especialmente os veteranos. Roubam a cena, claro, Ben Kingsley e Helen McCrory – ela como Mama Jeanne. Jude Law faz uma ponta, assim como Michael Stuhlbarg como Rene Tabard, mas ambos estão muito bem. O garoto Asa Butterfield não faz feio, mas também não se destaca. Chlöe Grace Moretz sim, ocupa todo o espaço na tela sempre que aparece. Sacha Baron Cohen parece desconfortável em um papel sério. E outros atores conhecidos, como Emily Mortimer, que aparece como a florista Lisette, e Christopher Lee como o livreiro Labisse, praticamente desaparecem em meio a um roteiro que dá mais atenção para as cenas de perseguição do que para o trabalho dos atores.

Até o momento, Hugo pode ser considerado um fracasso nas bilheterias. Afinal, ele custou aproximadamente US$ 170 milhões e arrecadou, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 58,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Mesmo que o filme se recupere ganhando algumas estatuetas do Oscar, dificilmente ele conseguirá ser um êxito. Algo ruim, mas previsível – afinal, o filme não convence o suficiente e não entra na famosa propaganda boca-a-boca.

Hugo estreou no festival de Nova York no dia 10 de outubro. De lá para cá, a produção participou de apenas um festival de cinema, o de Roterdã, na Holanda.

Mesmo sem ir bem nas bilheterias, Hugo fez sucesso entre os seus pares e entre a crítica. James Cameron, após assistir ao filme, classificou-o como uma “obra de arte” e disse que é a melhor experiência de filme 3D já feita – superando, inclusive, os seus próprios filmes, como Avatar. Admito que assisti Hugo sem ser na versão 3D. Talvez neste formato ele pareça mais impressionante.

Até o momento, Hugo ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 65 – incluindo as 11 indicações ao Oscar. Os mais importantes que ele recebeu foram o Globo de Ouro de melhor diretor para Scorsese; e os prêmios de melhor filme e melhor diretor do National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Hugo. Uma boa nota, mas nada excepcional. Os críticos do Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 178 críticas positivas e 12 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,3.

Hugo tem um bom roteiro, mas ele poderia ter sido melhor construído – sem tantas sobras e pegando ritmo mais rápido. John Logan fez um trabalho competente, mas que deixou a desejar. O roteiro dele teve o livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, como fonte de inspiração.

CONCLUSÃO: Volta e meia, Hollywood gosta de olhar-se no espelho. De falar sobre seus grandes diretores, artistas, de relembrar de tempos em que o glamour dominava o cenário do cinema. Eram tempos diferentes, quando não haviam muitas escolas de cinema ou centros de produção de filmes no mundo. Hugo aparece 116 anos depois da primeira exibição pública do invento dos irmãos Lumière cheio de homenagens e tentando repassar para a telona a mesma magia que encantou as primeiras audiências desta arte já centenária. O problema é que, apesar do trabalho técnico competente e das boas intenções, Hugo não consegue ter o mesmo encanto. Ele nem chega perto dele, aliás. O roteiro não surpreende e a história demora para engrenar. O final sim, sela o trabalho com chave de ouro, e faz o restante do tom morno do filme parecer pouco importante. De fato, a homenagem é bonita e o final é exemplar, mas o restante do filme, nem tanto. Bem feito, bacana, mas pouco inspirado e menos criativo que o seu grande rival no ano, The Artist.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Hugo foi o filme que ganhou o maior número de indicações para a maior premiação de Hollywood este ano: 11, no total. Surpresas sempre podem acontecer, mas francamenteu eu acho que ele ficará a ver navios na maior parte das indicações.

Muito bem acabado nos detalhes, Hugo tem melhores chances de vencer em categorias técnicas. Frente à The Artist, ele não merece ganhar como melhor filme. Claro, não seria nenhum absurdo se ele ganhasse. Afinal, é um bom filme. Mas não é o melhor do ano – ou na disputa, pelo menos. Martin Scorsese faz um trabalho ótimo na direção. Pode levar a estatueta. Mas se Michel Hazanavicius, de The Artist, ou Woody Allen, por Midnight in Paris, conseguissem embolsar a estatueta dourada, também não seria nenhuma injustiça – francamente, torço por Hazanavicius.

Das outras nove indicações, vejo Hugo tendo uma chance grande de vencer nas categorias de melhor edição, melhores efeitos especiais, melhor edição de som, melhor direção de arte e melhor mixagem de som. Não seria uma surpresa se o filme ganhasse ainda em melhor fotografia, ainda que eu veja outros filmes como favoritos – como The Artist e The Tree of Life. E mesmo na lista de categorias técnicas em que Hugo tem chances fortes, há sempre pelo menos um outro concorrente que pode surpreender e vencê-lo. É preciso esperar para ver o quanto a Academia quer ou não deixar o prêmio “em casa” e seguir olhando fixamente para o próprio espelho.

Para resumir, eu diria que Hugo merece entre quatro e cinco estatuetas, todas nas categorias técnicas. Mas se Hollywood quiser homenagear a si mesma e deixar o prêmio nos Estados Unidos, ignorando a superioridade de The Artist, Hugo poderá receber entre sete e oito Oscars. Logo veremos…

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Kick-Ass – Quebrando Tudo

Pense em um filme violento. Ao estilo de Kill Bill, mas mais divertido. E com uma aposta marcante em três elementos certeiros para cair no gosto dos jovens: quadrinhos, internet e sonzeira. Kick-Ass mistura tudo isso em uma produção impecável. Inteligente no roteiro e na forma com que a história é conduzida, este filme surpreende pela astúcia e pela violência. Ao mesmo tempo em que faz refletir – ainda que vagamente – sobre os fenômenos de mídia e os produtos de consumo que conduzem e inspiram atitudes das massas. Ironizando muitos conceitos e chavões do gênero super-heróis, Kick-Ass traz boas ideias para um mercado um tanto que saturado.

A HISTÓRIA: Um homem fantasiado olha a cidade de Nova York do alto de um prédio. Enquanto ele se prepara para pular, o narrador comenta sobre a sua vocação para se tornar um super-herói. E se pergunta porque ninguém nunca fez isso antes do que ele, apesar de todas as referências de quadrinhos, filmes e seriados. O narrador ainda ironiza o tédio da vida comum e todas as promessas que um homem fantasiado representam para a quebra desta rotina. O homem fantasiado se atira no espaço e morre na queda. Em seguida descobrimos que o narrador, o adolescente Dave Lizewski (Aaron Johnson), não era aquele homem suicida. A história então volta seis meses para contar como o jovem Dave se transformou em Kick-Ass, um “super-herói” que se acostuma a apanhar e que, através de suas convicções, encontra “justiceiros” de verdade: Hit-Girl (Chloe Moretz) e Big Daddy (Nicolas Cage).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass): A produção dirigida por Matthew Vaughn começa colocando o dedo na ferida. Em poucos minutos, ela questiona o fascínio da cultura pop para os jovens – e também expõe algo que sempre rende notícias no noticiário: atos extremos de pessoas que tem problemas psicológicos e que não recebem assistência devida nos Estados Unidos. O roteiro de Vaughn e Jane Goldman, baseado nos quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr., também ironiza a figura do super-herói como “antídoto” para o cidadão comum e sua vida enfadonha. Começa, por tudo isso, muito bem. Pena que, pouco a pouco, o filme vá perdendo a sua ironia e capacidade crítica para mergulhar, perto do final, apenas na adrenalina que ele mesmo questionava ao princípio.

Não sei vocês, mas eu esperava realmente uma grande dose de humor e ironia neste filme. O que me surpreendeu foi a alta dose de violência que ele apresentou. Claro que depois de Kill Bill e tantos outros filmes, ninguém mais se assusta com cenas de pancadaria e de assassinatos em série. E a verdade é que, tecnicamente falando, Kick-Ass é perfeito na forma com que as sequências foram filmadas, editadas e finalizadas. Um trabalho primoroso e de rigor técnico de Matthew Vaughn. Se destaca, nesta produção, também o estilo com que ela é narrada – reproduzindo, como outros filmes fizeram antes, a dinâmica e os traços característicos dos quadros de gibis em determinados pontos da história.

O fato do protagonista ser um adolescente comum, um “loser” padrão do sistema de ensino estadunidense, serve de senha fundamental para que o filme caia no gosto popular. Afinal, quantos garotos não irão se identificar com Dave? E mesmo que eles não consigam se colocar exatamente na pele do personagem, certamente eles irão se lembrar de algum “nerd” e/ou “esquisito” da escola. Seja pelo protagonista ou pelo restante da “fauna escolar” retratada em Kick-Ass, o objetivo de tornar o filme “identificável” para o grande público foi alcançado. Agora, para tornar ele interessante para mais pessoas, basta acrescentar cenas de pura adrenalina, violência e alguma dose de ironia aqui e ali.

Por tudo isso, e por mais que pareça contraditório, Kick-Ass é inovador e ao mesmo tempo segue fórmulas já desbravadas pelo gênero. Ele avança ao fazer o exercício de colocar a cultura pop – do qual o cinema também faz parte – frente a um espelho bem iluminado. Os tão debatidos “efeitos malévolos” de uma cultura que dá pouco espaço para a invenção e que aposta na padronização entram em cena.

A novidade no discurso e o curioso de Kick-Ass é a forma com que a internet joga um papel fundamental neste processo. Dave só consegue se tornar “fenômeno de mídia” graças aos vídeos que a galera que assistiu a sua ação tresloucada contra três bandidos de verdade colocaram no Youtube. E a partir do sucesso que estes vídeos fizeram na internet, Kick-Ass passou a ser notícia nos canais de televisão e, consequentemente, virou febre nacional. Algo bastante comum nos nossos dias, quando a “imprensa tradicional” bebe descaradamente da inventividade e da cultura do “faça você mesmo” difundida pela  internet. Neste ponto, esta produção ganha muitos pontos ao debruçar-se sobre o efeito-dominó que um fenômeno de massas pode despertar no público – vide o personagem de Red Mist (Christopher Mintz-Plasse). Outros filmes já esboçaram ironias a respeito, mas poucos trataram o assunto de forma tão natural e “legítima” quanto Kick-Ass.

Mas se esta produção avança nestes questionamentos e debates, ela também repete fórmulas ao optar, em certo momento, por um modelo clássico de “filme de heróis”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, existe fórmula mais clássica do que a do “policial boa gente que combatia o crime até um certo vilão estereotipado lhe ferrar a vida e, depois dele perder quase tudo, passar o pão que o diabo amassou na prisão e tudo o mais, ele resolver se vingar”? Não, acho que não. Pois este é o resumo por trás da existência de Big Daddy – o bacana do filme é que, justamente no momento de contar esta “origem” do herói, eles optaram por fazê-lo exclusivamente através de traços de quadrinhos. Sem dúvida, ao fazer esta escolha, os produtores estavam afirmando que “ok, nós sabemos até que ponto repetimos fórmulas e não nos importamos com isso”. Uma decisão inteligente.

A escolha de uma garota de 11 anos para ser a verdadeira estrela do filme também é algo que Hollywood sabe que funciona – vide Little Miss Sunshine e tantas outras produções recentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Kick-Ass). Além disso, a partir do momento em que a produção deixa de questionar e ironizar a figura do super-herói e o fascínio que os fenômenos de mídia desempenham na vida dos jovens, escolhendo simplesmente a defesa destes “heróis solitários”, a história entra em contradição. Afinal, ela é uma ironia, uma sátira destes filmes e personagens, ou uma forma de homenageá-los? Talvez Kick-Ass seja as duas coisas. O que revelaria ainda mais a sua “consonância” com os tempos atuais, classificados por Zygmunt Baumann como tempos de uma “modernidade líquida”. Sem dúvida, por tudo isso, Kick-Ass é um sintoma e um produto do nosso tempo. E, definitivamente, por todos os seus acertos e contradições, desde já, um clássico.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do desempenho do jovem Aaron Johnson. Ele tem carisma, é “boa pinta” (alguém ainda fala isso? tá, ele é gatinho, hehehehehe), consegue equilibrar bem as idéias de rapaz desastrado com a altivez de um sujeito corajoso e determinado. Enfim, está perfeito. Fiquei feliz também com a volta a um bom papel do Nicolas Cage. A primeira cena dele com a perfeita Chloe Moretz é uma autoironia para papéis seus anteriores – especialmente 8MM e Snake Eyes. Sem dúvida um achado colocar estes dois atores fazendo uma dupla em Kick-Ass. Chloe Moretz, por sua vez, comprova que vem caminhando com passos largos em uma carreira em crescimento. Depois de The Eye, ela fez um trabalho ótimo em (500) Days of Summer e, agora, em Kick-Ass. Este ano, a atriz está envolvida em nada menos que cinco projetos, com destaque para o thriller Let Me In.

Como qualquer garoto “nerd” e/ou desastrado, Dave tem que ser acompanhado por amigos que estão sempre “testando” e ironizando o nosso “herói”. Em Kick-Ass, estes papéis são interpretados por Clark Duke (Marty) e Evan Peters (Todd). Seguindo a linha de “filmes juvenis”, a atriz que interpreta a garota cobiçada pelo protagonista é Lyndsy Fonseca (Katie Deauxma). Garrett M. Brown faz um pequeno papel como o pai de Kick-Ass, Mr. Liewski, e o excelente Mark Strong interpreta o super-vilão Frank D’Amico.

Vale a pena citar algumas pessoas envolvidas na parte técnica do filme e que acabam sendo fundamentais para que ele funcione bem: Ben Davis como diretor de fotografia; Eddie Hamilton, Jon Harris e Pietro Scalia no trabalho com a edição; Russell De Rozario no design de produção; Sammy Sheldon no divertido figurino; Joe Howard, John King e Sarah Stuart na direção de arte e, finalizando (mas tão importante ou mais que todos os pontos anteriores), Marius De Vries, Ilan Eshkeri, Henry Jackman e John Murphy na trilha sonora.

Fiquei curiosa para saber mais sobre os quadrinhos que deram origem a esse filme. Ou seja: admito que não li ao original Kick-Ass. Procurando críticas a respeito dos quadrinhos, encontrei esta resenha que achei interessante. Zak Edwards, do Comic Book Bin pondera que Kick-Ass segue a trilha de outros gibis lançados anteriores ao buscar o realismo para as histórias de super-heróis – ele cita, inclusive, Watchmen como exemplo. Mas diferente das tentativas anteriores, segundo Edwards, Kick-Ass realmente se aproxima do modelo do que seria um sujeito, nos dias atuais, tentando ser um super-herói. Pelo que seu texto comenta, o gibi original mergulha na oralidade da juventude e nos hábitos de um garoto que vive lendo gibis, jogando videogame, assistindo a Scrubs e escutando música – especialmente Stereophonics. Resumindo: um guri normal dos dias atuais. Gostei da expressão do “ordinário extraordinário”. Talvez ela resuma bem tudo o que Kick-Ass queira significar.

Claro que, como toda obra adaptada, o gibi original tem muito mais “espaço” para se debruçar sobre o cotidiano e a vida do protagonista do que o filme nele baseado. Interessante que, segundo o texto de Edwards, o que liga todos os personagens de Kick-Ass é o fato de todos serem “muito normais”. Um contraponto a isto acaba sendo – e aí não sei como o gibi trata estes personagens – as figuras de Big Daddy e Hit-Girl. Para as pessoas que ficaram interessadas em saber mais sobre o gibi, nesta mesma página há links para comentários de outros números do Kick-Ass.

Neste outro texto, por exemplo, o mesmo Edwards comentava que Kick-Ass, em seu terceiro número, se firmava como a “sensação do comic indie” exceto por um problema: pelo gibi ser publicado pela Marvel. 🙂 Para o especialista em quadrinhos, Kick-Ass apresentava uma escrita “violenta, polêmica, social e politicamente conscientes” em um pacote sem censuras. Interessante que, em seu texto, Edwards enfatiza bastante a violência impressa pelos quadrinhos escritos por Mark Millar e com arte de John Romita Jr. Finalmente, nesta outra resenha, Hervé St-Louis comenta o oitavo e último número da minissérie Kick-Ass. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Curioso que a dupla Millar e Romita Jr. levaram oito edições para contar a história da transformação de Dave, a aparição dos outros heróis e a morte de Big Daddy – o que o filme leva 117 minutos para narrar.

Interessante este vídeo feito pela MTV que compara sequências dos quadrinhos com algumas que acabaram entrando no filme.

Foi confirmada, para ser lançado em 2012, a sequência de Kick-Ass. O filme se chamará Kick-Ass 2: Balls to the Wall e será dirigido, novamente, por Matthew Vaughn, com roteiro de Jane Godman e do próprio diretor. Agora é esperar para ver – ainda que eu sempre fique com o pé atrás com este tipo de sequência.

Achei interessante este texto de Beth Davies-Stofka que afirma que não sabe dizer se Kick-Ass é ou não um bom filme. O que a crítica afirma é que ele não se arrasta nunca, e que ela se sentiu permanentemente golpeada por “cores, explosões, sangue, cérebros, surpresas, música, humor e linguagem” interessantes. Davies-Stofka também resume bem a produção ao classificá-la como “divertida e surpreendente”. Kick-Ass é realmente isso – em grande parte do tempo. Também importante a sua observação de que ele deve ser visto por adultos – ou, pelo menos, pessoas com mais de 15 anos. Ela está certa quanto a isso – porque ele é, algumas vezes, violento demais.

Ah sim, e antes que alguém comente que é um absurdo uma criança como a Mindy Macready ser mostrada da forma com que ela é mostrada em Kick-Ass – ou seja, empunhando variados tipos de arma, matando gente a dar com o rodo e apanhando muito também -, devo comentar: gente, isso é apenas um filme! E uma produção, diga-se, que toca o dedo em várias feridas da nossa sociedade. Ou seja: Kick-Ass, em momento algum, quer inspirar as pessoas a fazerem o mesmo. Pelo contrário. Se o filme quisesse fazer algo além de divertir – o que eu duvido -, ele faria é as pessoas questionarem o tipo de sociedade extremamente manipulável, violenta e cheia de exemplos ruins nós temos. Mas, francamente? Ele é um filme pipoca, ou seja, feito para surpreender, cair no gosto popular e divertir. Não pretende mostrar crianças vitimizadas, que perderam a infância pela loucura de um pai vingador e coisas do gênero. Não, não…

Kick-Ass caiu mais no gosto do público do que da crítica – como era esperado, aliás. Segundo as pessoas que votam no site IMDb, o filme merece a nota 8,2. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 169 críticas positivas e 53 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média 7.  Nada mal até, levando em conta o padrão do site.

Fiquei surpresa com os valores gastos com a produção de Kick-Ass: US$ 28 milhões. Para um filme com tantos efeitos especiais, explosões e bons atores, achei pouco – em relação a outros títulos. Até o dia 13 de junho, apenas nos Estados Unidos, esta produção havia arrecadado quase US$ 47,8 milhões. Vai lucrar bem, não há dúvidas.

CONCLUSÃO: Um filme que é puro entretenimento e, de quebra, um sinal do nosso tempo. Ressaltando e ironizando os fenômenos de massa criados pela internet e difundidos pela “imprensa tradicional”, Kick-Ass questiona e submerge, na mesma medida, em elementos da cultura pop. Feita para cair no gosto do grande público, especialmente dos jovens, esta produção surpreende pela alta carga de violência – mais até do que por suas ironias, humor e/ou questionamentos. Imerso na realidade juvenil, Kick-Ass também trata de temas bastante adultos – como depressão, vingança, desestruturação familiar e criminalidade. Com um ritmo perfeito e bastante equilibrado e uma trilha sonora impecável, condizente com a edição do filme, Kick-Ass guarda contradições importantes na condução de seu roteiro. Ele visivelmente passa de momentos irônicos e um tanto que questionadores para a escolha de seguir um modelo clássico de filmes de super-heróis. Mas justamente as suas contradições que o tornam um filme tão atual e marcante. Entretenimento cheio de violência e uma boa dose de humor e ironia. Planejado, em outras palavras, para ser um sucesso. Politicamente incorreto – afinal, ele coloca uma menina de 11 anos usando todo o tipo de arma e matando uma porrada de gente -, muitas vezes ousado e algumas vezes previsível, certamente se tornará um filme “cult”. Ainda bem que, desta vez, com alguns méritos.