The Wall – Na Mira do Atirador

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Existem filmes que você não deve assistir se estiver cansado(a) e/ou com sono. Este é um grande exemplar deste tipo de filme. Realmente não tente assistir a The Wall se você não estiver bem descansado(a) e desperto(a). E sim, recomendo isso porque este é um filme com pouca ação. Essa constatação pode parecer estranha, por se tratar de um filme de guerra, mas The Wall é tudo menos uma produção tradicional do gênero. Um tanto angustiante, um tanto maçante, The Wall nos faz pensar sobre as razões de um conflito e sobre o que parece ser um problema sem fim envolvendo o Oriente Médio. É interessante, mas está longe de ser um dos melhores ou mais interessantes do gênero.

A HISTÓRIA: Se passa no final de 2007, quando a Guerra do Iraque está na reta final. O presidente americano Bush declarou vitória e as operações de reconstrução do país já começaram. O alvo de um soldado examina um muro. O companheiro dele diz que não há mais nada, que quem disparou em quem eles estão examinando de longe já foi embora. Ele pergunta para o companheiro, Ize (Aaron Taylor-Johnson) há quanto tempo eles estão ali, no Iraque. Ize responde para o sargento Matthews (John Cena) que já fazem 20 meses. Ele acredita que um iraquiano profissional atingiu aqueles alvos: seis funcionários de uma empresa e dois seguranças. Matthews e Ize acreditam que o inimigo pode estar atrás de um muro.

Enquanto Matthews acredita que o perigo já passou, Ize afirma que o inimigo pode ser um profissional. Uma outra possibilidade é que o ataque tenha sido feito não por uma pessoa, mas por um grupo. Querendo sair logo dali, já que eles receberam a informação que a guerra acabou, Matthews decide descer da posição em que eles estão para conferir de perto como o ataque foi feito. Quando chega ao local ele percebe que todos foram mortos com tiros na cabeça. Logo ele também é atacado, e Ize tenta socorrer o companheiro, mas as alternativas para os dois são bastante complicadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wall): Este não é um filme fácil. Em qualquer sentido. Primeiro, ele é bastante “lento” e sem ação. Bem diferente do que podemos esperar, normalmente, de um filme sobre guerra. Mas por isso mesmo The Wall se mostra, ao menos, uma produção diferenciada. No lugar de diversas cenas de ação, explosões, conflito e de muitos personagens sobre os quais praticamente ficamos sabendo nada, em The Wall temos nada menos que três personagens em cena durante o filme inteiro.

A figura central da produção acaba sendo o personagem Isaac, chamado também de Ize, interpretado com maestria por Aaron Taylor-Johnson. A câmera do diretor Doug Liman está nele praticamente o tempo todo. As ações de Ize é o que ditam o ritmo – ou a falta de ritmo – de The Wall. Ele trabalha em conjunto com o sargento Matthews, o segundo mais importante em cena. E há, claro, o personagem “oculto”, tão importante quanto Ize, mas que não aparece – falo do iraquiano que atira nos soldados e que está sempre à espreita para um próximo disparo certeiro.

Esse inimigo não aparece, mas a voz dele que Ize ouve – e nós, por consequência – é do ator Laith Nakli. Então o filme está centrado, 99% do tempo, neste três personagens. A relação entre eles é de conflito e de expectativa pela morte. Todos querem sobreviver, e não existe espaço para misericórdia. Assim, sem grandes cenas de ação, mas com uma longa expectativa para que algo aconteça – um resgate, um milagre ou o tiro fatal -, The Wall nos fala sobre alguns aspectos da guerra que o cinema não costuma retratar, mas que são muito reais.

O filme dirigido por Doug Liman e escrito por Dwain Worrell fala sobre como a guerra é cruel e solitária durante grande parte do tempo. Especialmente em fases do conflito como o que vemos em cena, quando as grandes operações já passaram e os soldados que sobraram tentam resolver problemas pontuais. Nestes casos, o conflito fica praticamente “mano-a-mano”, e a morte e o risco fazem parte do cotidiano dos homens que não têm nenhuma perspectiva de voltarem a ter uma vida normal novamente.

Em The Wall, chama muito a atenção diversos diálogos entre o “sniper” iraquiano e o soldado que ele não matou logo de cara para conseguir mais informações dele. Apenas com o tempo vamos entender porque um franco-atirador que matou a tantos com um tiro na cabeça não matou logo de cara Matthews e Ize. Certamente aquela tentativa quase kamikaze de Ize de ajudar Matthews seria facilmente aniquilada pelo matador profissional iraquiano. Então por que ele não fez isso?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas bem perto do final é que Ize vai descobrir e, nós também, que o inimigo é um matador em série muito, muito estratégico. Ele utiliza a comunicação dos soldados americanos para atrair cada vez mais vítimas. Este foi o caso de Ize e de Matthews. Ele utilizou um rádio para pedir um pedido de socorro falso e atrair eles para uma armadilha. E ele não mata Ize e Matthews logo de cara para conseguir mais informações deles, especialmente de Ize.

No início, achamos que o iraquiano está querendo conhecer melhor a sua vítima. Temos a impressão que ele, a exemplo dos soldados americanos, está ali para cumprir um “dever” e que, por ter um cotidiano muito solitário, ele resolve dar uma “sobrevida” para Ize para que ele tenha com quem conversar. Conforme a história avança, e especialmente no final, percebemos que ele poderia ter atirado na cabeça de Matthews e de Ize com muita facilidade. Mas ele não faz isso, diferente do que pensávamos no início, não para ter com quem conversar ou para conhecer melhor as suas vítimas, mas para ter mais informações delas que o ajudariam nas próximas estratégias de atração dos inimigos.

E este é um ponto especialmente interessante do filme. O roteiro de Worrell vai, pouco a pouco, revelando mais sobre este inimigo iraquiano. Enquanto Ize tenta defender a visão dos americanos dizendo que a guerra acabou e que o franco-atirador matou pessoas que estavam ali “apenas” para ajudar na reconstrução do país, o iraquiano mostra um ponto de vista muito diferente. Essa ótica é especialmente importante hoje, 10 anos após a história de The Wall se passar. Ize se esconde atrás do muro que fazia parte da propriedade de uma escola. Não sabemos os detalhes do que ocorreu por ali, mas podemos imaginar que um ataque “cirúrgico” dos americanos acabou com aquela escola e com diversos inocentes.

Então, como bem diz o franco-atirador iraquiano, a guerra não acabou. Pessoas como ele, que foram muito bem treinadas – possivelmente pelos americanos, quando era do interesse dos Estados Unidos treinar iraquianos para que eles fizessem o “trabalho sujo” em outra época -, querem vingança. Querem dar o troco para os americanos e todas as nações que ajudaram eles a invadir o seu país e a provocar tanto estrago e tanto atraso. E é isso que nós vemos hoje nos ataques terroristas em diversos países pelo mundo. A resposta cheia de ódio de pessoas que foram preparadas de alguma forma pelos próprios americanos em seus jogos de poder e de busca por riqueza.

Com tudo isso, não quero dizer que os ataques terroristas se justificam. Diferente do que iraquiano que aparece no filme comenta, não acredito na ideologia “olho por olho, dente por dente”. Isto faz parte de um Velho Testamente que foi superado por outra visão de Justiça e de Deus trazida por Jesus. O problema é que nem todos entenderam esta mensagem ou acreditam nela. E aí temos a realidade cruel e desumana que vamos por aí. Infelizmente. Sou da opinião que nada justifica a violência, e que existem outras maneiras de resolver os nossos conflitos e de buscar a justiça.

Mas o ciclo da violência para quem acredita nela como saída para os problemas parece ser interminável. The Wall nos apresenta, de forma bastante interessante, um bocado sobre isso. Sem muita ação, mas com um bocado de reflexão, este filme da dupla Liman e Worrell mostra com clareza e sem pender a “torcida” para um lado da balança, duas visões opostas sobre a Guerra do Iraque – análise esta que vale para vários outros conflitos no Oriente Médio.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algo que eu achei interessante nesta produção é que ela não apenas mostra com sinceridade alguns dos aspectos pouco mostrados pelo cinema sobre a guerra, como ele também não cai no lugar-comum de um “final feliz” para os americanos. Muito pelo contrário. Naquela situação mostrada pelo roteiro, assim como em várias outras da vida real, os inimigos dos americanos levaram a melhor. Mas o cinema normalmente não mostra isso.

É bom, para variar, um filme de guerra mostrar estes aspectos tão comuns nos conflitos e tão pouco abordados por Hollywood. Apesar de ser muito lento e um bocado cansativo, The Wall se revela, desta forma, acima da média da maioria de produções recentes deste gênero. É um filme interessante pelos diálogos e pelas cenas que nos ajudam a sentir quase na “pele” o que os soldados viveram na reta final do conflito no Iraque. O grande desafio é conseguir manter-se acordado até o final. 😉

The Wall é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso este filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e passa a figurar na lista que atende a estes pedidos feitos por vocês, meus queridos e caros leitores. 😉

Esta é a última crítica antes do blog completar 10 anos. Só tenho a agradecer por cada um de vocês que passaram por aqui neste período. E agradeço, em especial, a todos que me acompanham há vários anos. Mantive este espaço por causa de vocês! Sei que estou devendo várias respostas a mensagens que vocês, meus bons leitores, deixaram aqui nestes anos todos. Mas um dia, eu prometo, vou conseguir colocar a nossa conversa em dia. Muito, muito obrigado a cada um de vocês! E vida longa – enquanto eu conseguir – para este espaço. Beijos e abraços grandes em cada um(a)! E até a próxima crítica. 😉

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Dwain Worrell é simples, mas muito bem planejado. Tudo o que acontece em cena faz sentido e se parece com o que soldados realmente fariam naquelas situações. Os diálogos são precisos, assim como a ação. O filme, apesar de bastante lento, tem o ritmo exato que uma intervenção militar como aquela teria – por isso o filme nos lembra um pouco o tom de um documentário.

Não sabemos exatamente quantas horas se passam desde o início da história e até o final, porque o protagonista “apaga” algumas vezes, mas a espera dele por um resgate, pela morte ou por um milagre é angustiante e nos prende a atenção, apesar da falta de “ação” neste filme. Ize passa por momentos de solidão, de angústia, de desânimo e por rompantes de “renovada energia” que o fazem buscar uma saída para aquela situação-limite. Uma narrativa competente tanto do roteirista quanto do diretor. Um bom trabalho.

O destaque desta produção, em termos de atuação, é sem dúvida alguma Aaron Taylor-Johnson. O ator tem o filme para si. E faz um belo trabalho. Sem dúvida alguma ele se credenciou para estrelar outras produções interessantes a partir do que ele apresentou neste The Wall.

Da parte técnica do filme, sem dúvida, o destaque é a direção de Doug Liman. Ele procura sempre estar próximo de seus atores, com diversas cenas de close e de câmera muito próxima de “pequenas ações” que eles fazem. Lembrando que durante grande parte do filme temos um protagonista deitado ou sentado no chão, se arrastando, então tecnicamente é um desafio fazer uma produção interessante com variações de câmera sobre espaços tão limitados. Um belo trabalho de Liman, que tem uma longa carreira como produtor e 23 trabalhos como diretor – incluindo curtas, longas e séries para a TV. A estreia dele foi feita em 1994, com Getting In. Liman ganhou dois prêmios em sua carreira, ambos por Swingers, de 1996.

Ainda sobre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a excelente direção de fotografia de Roman Vasyanov; a edição cuidadosa de Julia Bloch; a maquiagem de Jamie Kelman, Tami Lane, Francisco X. Pérez e Mike Smithson; e os 17 profissionais envolvidos com o departamento de som – que é um ponto fundamental da produção. Outros aspectos que vale citar, mas menos “destacáveis”, são o design de produção de Jeff Mann; a direção de arte de Cassidy Shipley; a decoração de set de Kelly Berry; e os figurinos de Cindy Evans.

Este filme me fez lembrar muito a All Is Lost, estrelado por Robert Redford. A exemplo de The Wall, em All Is Lost o filme é focado em apenas um personagem e há muitos e muitos momentos de pouca ou “nenhuma” ação. Também é um filme que pode dar sono e que não é simples de assistir, mas que tem algumas mensagens interessantes e que faz pensar. Comentei sobre ele neste link.

The Wall estreou em poucos cinemas do Canadá e dos Estados Unidos no dia 12 de maio de 2017. Depois, em junho, o filme participou do Festival de Cinema de Sidney. Filme de apenas um festival até agora, esta produção concorreu a apenas um prêmio, o de Melhor Filme Independente no Golden Trailer Awards, mas ele perdeu nesta categoria para Manchester by the Sea (comentado por aqui).

Não encontrei informações sobre os custos desta produção. Certamente eles foram bem baixos, pelas características do filme. Mas encontrei informações sobre o resultado do filme nas bilheterias conforme o site Box Office Mojo. Nos Estados Unidos, The Wall fez pouco mais de US$ 1,8 milhão, e nos demais mercados em que ele estreou ele fez outros US$ 2,2 milhões. Não é muito, claro, mas é um resultado bom para um filme independente e com as características nada óbvias que ele têm.

Durante grande parte desta produção, “nada acontece” – ou praticamente isso. Mas devo admitir que a reta final de The Wall faz o filme merecer a nota acima. Aquele final realmente foi especial. O que mostra que um filme precisa sim de um belo roteiro e, especialmente, de um grande final. Mais roteiristas/produtores/diretores deveriam se lembrar disso. O público agradeceria. 😉

Nicholas Irving, ex-US Ranger Sniper e autor do livro The Reaper, trabalhou como assessor técnico de The Wall. Irving recebeu o apelido “the reaper” durante as incursões que ele fez no Afeganistão. Ou seja, é um sujeito que entende bem do que acontece em cena em The Wall.

Agora, uma curiosidade que quem não viu o filme não deve ler. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente, o final de The Wall seria bem menos ambíguo. Nesta versão, o atirador iraquiano seria morto e Ize seria resgatado. Francamente? Teríamos o clássico “final feliz” para o exército americano. Gostei muito, mas muito mais da versão que The Wall acabou tendo. Ela era bem mais coerente com o “super” sniper iraquiano, não? Bom também ter um outro ponto de vista da história, porque na vida real, nem sempre, os americanos se dão bem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus comentários linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 70 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que garante para The Wall uma aprovação de 69% e uma nota média 6,1.

CONCLUSÃO: Assistir a The Wall denota um certo sacrifício. Sim, você deve vencer o sono ou a ânsia de ver algo de interessante acontecer para se colocar no lugar de um soldado como tantos outros da vida real. Filmes de guerra costumam mostrar grandes sequências de batalha e de morte, mas o que poucos mostram é o que realmente acontece na maior parte do tempo. The Wall se preocupa em nos revelar justamente isso. Este é um filme sobre pessoas comuns colocadas em situações complicadas e onde não existe espaço para bondade ou misericórdia. The Wall é bruto, angustiante, um tanto “maçante” e “sem sentido”. Como a guerra e os conflitos o são. Vale assistir se você gosta muito do gênero. Os demais podem passar adiante.

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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

Kick-Ass 2

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Fazer a continuação de um filme bom é sempre um baita desafio. Porque dita a história do cinema que a segunda produção de uma história que não terminou no filme original tende a ser mais fraca que o original. São raras, muito raras as exceções que mostram que o segundo filme foi melhor que o primeiro. Este não é o caso de Kick-Ass 2. Tudo o que eu tinha elogiado na crítica do Kick-Ass original, que você pode ler aqui, morreu neste segundo filme. Então posso dizer: Kick-Ass 2 é totalmente dispensável.

A HISTÓRIA: Mindy Macready (Chloë Grace Moretz) explica para Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) que a bala de uma pistola viaja a mais de mil quilômetros por hora. Ele ouve e diz que não vai levar um tiro para experimentar a sensação. Mindy não lhe dá ouvidos e atira. Esta cena faz parte da preparação que Dave pediu para Mindy, a única heroína de verdade que ele conhece. Passaram quatro anos desde o último filme, e agora Mindy vive sob a tutela do policial Marcus Williams (Morris Chestnut). Ao invés de frequentar as aulas na escola, ela segue se preparando para manter a forma como Hit-Girl. Enquanto isso, Dave tinha deixado a fantasia de Kick-Ass, mas estava se sentindo entediado na faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass 2): Quando o filme original desta franquia adaptada de uma HQ estreou, me surpreendi com o que eu vi. Ainda que Kick-Ass tivesse vários problemas na adaptação, como bem explicou por aqui o leitor Panthro Samah no comentário escrito no final da crítica publicada em 2010, eu gostei do produto final pela ousadia de romper expectativas e renovar um gênero do cinema bastante desgastado já, que é o dos filmes sobre heróis com superpoderes.

Por esta razão, quando ficou claro que Kick-Ass teria uma continuação, eu pensei: “Bem, continuações sempre são complicadas, mas acho que vale a pena conferir o que virá por aí de um filme que ousou em várias direções”. Ao conferir Kick-Ass 2 percebi que a regra poucas vezes quebrada de que continuações são piores que os originais se confirmou.

Este novo filme, agora dirigido por Jeff Wadlow – quem dirigiu Kick-Ass foi Matthew Vaughn – deixa toda a inovação da primeira produção da grife para trás. O filme ficou careta, por assim dizer. Sem o importante personagem de Damon Macready/Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, a continuação fica centrada no momento de incertezas vivido por Hit-Girl e Kick-Ass. Eles não sabem muito bem que “personagem” seguir… se dos jovens estudantes com suas crises de afirmação social ou a dos heróis que enfrentam bandidos.

Grande parte da história fica girando nesta busca dos dois personagens. Mindy Macready resolve investir nas descobertas juvenis de uma garota que sofre “bullying” no ensino médio. Acaba enfrentando a “maldade” de figuras como a jovem popular da escola, Brooke (Claudia Lee). Algo muito óbvio e menos interessante que o que vimos no filme passado, quando uma menina de 11 anos era treinada para ser implacável pelo pai e não vivia a própria infância. Agora, Mindy cresceu, tem 15 anos e parece ter sido suavizada. Ou, pelo menos, parece muito menos radical que a menina que assistimos em Kick-Ass.

No caminho, um elemento fundamental se perdeu: Mindy adolescente não choca como a garota do filme anterior. O mesmo acontece quando vemos a uma fotografia de guerra. Se é uma criança que empunha um rifle, o impacto é muito diferente do que se o garoto é um adolescente, há poucos anos de entrar na vida adulta. Claro que ver crianças e jovens imersos em contextos de violência não é algo aceitável, muito menos desejável. Mas o impacto de uma criança sendo explorada neste contexto sempre vai chocar mais que vermos a um adolescente na mesma posição.

Desta forma, a protagonista de Kick-Ass 2 nos choca menos que a mesma personagem no filme anterior. E o mesmo acontece com Dave/Kick-Ass. Neste novo filme, ele parece mais pateta e desajeitado que antes. Mesmo que ele se envolva sexualmente com Night Bitch (Lindy Booth), não assistimos a nenhuma cena picante, ou provocadora. Kick-Ass 2 se firma, assim, como uma produção “água-com-açúcar”. Suaviza nas cenas de violência e nas de pegada sexual. Desta forma, deixa de ter qualquer inovação e passa a integrar a imensa lista de filmes sem identidade e que parecem todos iguais.

Além de gastar muito tempo com a indecisão dos personagens principais sobre os seus “verdadeiros papéis no mundo”, Kick-Ass 2 segue avançando na ideia lançada pelo original de que os heróis ordinários são tudo o que a sociedade precisa. Assim, o roteiro escrito pelo diretor Jeff Wadlow baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. segue dando espaço para a importância da comunicação estabelecida pela internet para reunir pessoas interessadas em uma mesma causa. Um tema que ficou ainda mais importante com as manifestações sociais no Brasil e em outras parte do mundo neste ano e nos anteriores. Mas um argumento que, evidentemente, já está batido e não apresenta mais nenhuma “sacada”.

Por tudo que eu comentei até aqui, Kick-Ass 2 nasce defasado, antigo, sem muito propósito. Wadlow perdeu uma boa oportunidade de fazer um belo filme, que seguisse ou pelo menos honrasse o original. Mas que nada. O diretor e roteirista executa uma produção sem graça e que tem os seus melhores momentos na escolha dos nomes dos heróis e anti-heróis que vão se enfrentar no final.

Para não dizer que o filme todo é inteiramente um lixo, acho que o único ponto de reflexão que ele sucinta e que é interessante é esta aparente imutável vontade das pessoas de serem aceitas pelas outras e formarem grupos. Diferente de alguns heróis de HQ, em Kick-Ass 2 não há espaço para o “lobo solitário”, para aquele herói que procura fazer justiça com as próprias mãos de forma solitária – seja porque gosta de agir assim, seja porque não quer colocar as pessoas que ama em risco. Algo comum nas HQs.

Não. Em Kick-Ass 2 os protagonistas e as pessoas que lhes cercam acreditam em ação coletiva. Eles querem ser aceitos pelos outros e querem fazer parte de um grupo – seja o da escola, no caso de Mindy, seja o de uma liga de justiceiros, no caso de Dave. Algo interessante de perceber nesta história, especialmente porque ela mostra jovens que cresceram imersos na internet e nas mensagens trocadas por celulares. Contrariando muitos pais preocupados e os teóricos que dizem que a internet pode isolar as pessoas, Kick-Ass 2 aposta na vertente de que a tecnologia serve para tirar os jovens do isolamento.

Outro tema clássico que o filme resgata é o de que o ensino médio é o momento perfeito para criar traumas para o resto da vida, algo muito típico nos Estados Unidos, aparece com tudo nesta produção. Provavelmente uma forma de Wadlow tornar o filme mais “palatável” entre os jovens. O que é ruim, evidentemente. Afinal, toda vez que um filme se esforça para ser aceito, ele perde a chance de fazer algo diferente. Uma pena. Um desperdício.

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo me chamou a atenção logo no início deste filme. Afinal, quanto tempo se passou desde a história anterior? Pela idade de Mindy, calculamos quatro anos – afinal, em Kick-Ass ela tinha 11 e, agora, tem 15. Mas quando Dave assiste TV com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Augustus Prew), no noticiário a repórter comenta que o “movimento” dos heróis começou dois anos antes. Para mim, uma falha evidente no roteiro de Wadlow, porque a história, de fato, teria um hiato de quatro anos.

Bastante estranho ver o quanto a atriz Chloë Grace Moretz se desenvolveu no período. Sem dúvida, para a personagem de Mindy/Hit-Girl, ela tinha muito mais “graça” quando era uma criança.

Para a sorte de quem assistiu a este filme, ele tem menos de duas horas de duração. Aliás, ele poderia até ter menos do que os 107 minutos que possui. Uma hora e meia estava de ótimo tamanho. Como eu acho que a maioria dos filmes deveria ter. Poucos são os que valem duas horas ou mais. Muito, muito poucos.

No vácuo deixado pela morte do personagem de Nicolas Cage no filme anterior, os produtores escalaram Jim Carrey para o papel de Colonel Stars and Stripes. Em teoria, os dois atores se “igualariam” na importância e como chamariz do público. Mas francamente? Sem poder fazer as caras e bocas com as quais está acostumado, Carrey acaba ficando bastante apagado, diferente de Cage que faz um bom trabalho como o pai de Hit-Girl no filme original.

Sem um roteiro decente para seguir, até os protagonistas Aaron Taylor-Johnson e Chloë Grace Moretz parecem menos interessantes nesta continuação. Claro que eles se esforçam, mas acabam tendo que falar frases simplórias e viver personagens rasos em Kick-Ass 2. O vilão do filme, encarnado por Christopher Mintz-Plasse no papel de Chris D’Amico/The Motherfucker, também é menos interessante que o mafioso Frank D’Amico, interpretado por Mark Strong.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outras figuras que aparecem bastante nesta história. Donald Faison interpreta a Dr. Gravity, um dos heróis que se junta à Kick-Ass; Matt Steinberg é o Mr. Radical; Steven Mackintosh e Monica Dolan interpretam aos pais do menino que desapareceu e que resolvem virar “heróis”; Robert Emms interpreta a Insect Man; Garrett M. Brown faz as vezes de pai de Dave; e John Leguizamo interpreta a Javier, que trabalhou para o pai e para a mãe de Chris D’Amico antes de ajudar o adolescente a trilhar o caminho da vingança.

Falando no pai do Dave… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante que os protagonistas de Kick-Ass, no fim deste segundo filme, acabam ficando “sozinhos” no mundo, não é mesmo? Dave e Mindy já não tinham a figura materna. Após estes dois filmes, eles perdem também as figuras paternas. E o vilão Chris, que havia perdido o pai no filme anterior, também perde a mãe nesta sequência. Seria uma forma dos autores reforçarem a perda de “valor” das famílias e de dizer que estamos sozinhos no mundo? Curioso. Ah sim, e sigo sem ter lido o HQ original. 🙂 Um dia, quem sabe?

Da parte dos vilões, vale destacar o trabalho de Olga Kurkulina como Mother Russia; Tom Wu como Genghis Carnage; e Andy Nyman como The Tumor. Eles são contratados por Javier e passam a formar o “grupo de elite” de Chris – ainda que, de fato, apenas a vilã russa assuma a ação. Aliás, o filme ficar centrado no embate entre duas “ligas”, uma de heróis e outra de vilões, apenas resume a ideia do original a uma disputa comandada por adolescentes e gente sem muito o que fazer além de se caracterizar como nos HQs que eles gostam de ler.

Kick-Ass 2 mereceria uma nota até mais baixa que aquele 4 ali de cima. Mas resolvi dar esta nota porque, afinal de contas, a ideia de que as coisas podem sair mal quando as pessoas perdem a noção do perigo de fazer “justiça com as próprias mãos” continua ali. O filme perde em muitos sentidos em relação ao original, mas alguns alertas que ele faz, seja sobre o ponto anterior, seja sobre a violência presente em diferentes ambientes – como a dos adolescentes que praticam bullying na escola. Se o filme agradar aos jovens e fizer eles pensarem sobre isso, não terá sido um total desperdício.

Mais uma vez, a exemplo do Kick-Ass original, nesta sequência a trilha sonora acaba ganhando destaque. Um trabalho bem feito pela dupla Henry Jackman e Matthew Margeson, ainda que a trilha de Kick-Ass me pareceu ainda mais interessante. Mas no trabalho feito nesta sequência, até uma música brasileira está no meio… A Minha Menina, de Jorge Ben Jor, aqui interpretada por The Bees, aparece justamente no momento em que Kick-Ass é agarrado pela Night Bitch no banheiro. Como manda a “tradição”, a música brasileira é sempre provocativa e, normalmente, ligada a cenas sensuais. 🙂

Fora a trilha sonora de Kick-Ass 2, há pouco a destacar da parte técnica. Talvez a edição de Eddie Hamilton, que é bem feita, os figurinos de Sammy Sheldon, a maquiagem da equipe de Lisa Martin e os efeitos especiais coordenados por Laird McMurray. Estes últimos funcionam razoavelmente bem, ainda que a sequência da Hit-Girl sobre o veículo tenha me parecido um tanto mal feita. Além destes profissionais, vale nomear Tim Maurice-Jones como diretor de fotografia, ainda que ele não faça nada demais.

E agora, uma curiosidade sobre Kick-Ass 2: o ator Jim Carrey se recusou a participar da tradicional “turnê” de eventos de divulgação do filme porque ele não concorda com o conteúdo violento ou com o uso de armas para defesa pessoal ou qualquer outro tipo de violência armada. Curioso, não? Então porque cargas d’água ele se envolveu nesta produção? Só para faturar mais uns milhões de dólares? Isso que eu chamo de hipocrisia.

No quarto de Dave há dois cartazes: de American Jesus e Superior. Estes dois títulos são trabalhos do autor da HQ Kick-Ass Mark Millar.

Kick-Ass 2 foi rodado em diversos locais de Toronto, no Canadá, e nos estúdios Pinewood no Reino Unido.

Esta sequência adaptada das HQs estreou no dia 14 de agosto deste ano na Irlanda, no Reino Unido e nas Filipinas. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival. Ainda assim, ganhou um prêmio, o Summer’s Biggest Teen Bad A** conferido para Chloë Grace Moretz no MTV Movie Awards. Este prêmio foi criado pela Seventeen Magazine exclusivamente para a última edição do prêmio da MTV.

Kick-Ass 2 teria custado cerca de US$ 28 milhões. Apenas nos Estados Unidos, ele teria faturado quase US$ 28,8 milhões após seis semanas de exibição. No restante dos mercados em que estreou, ele conseguiu outros US$ 30,76 milhões. Ou seja, segue um caminho de obter lucro.

Esta sequência é apenas o terceiro longa da carreira do diretor Jeff Wadlow. Antes de Kick-Ass 2, ele dirigiu três curtas e os filmes Cry_Wolf e Never Back Down. Não assisti a nenhum dos dois, mas eles também não me chamaram a atenção. Acho que os produtores de Kick-Ass poderiam ter entregue a sequência do filme em outras mão, não?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Kick-Ass 2. Esta nota, e a vontade de assistir a sequência do filme anterior, do qual eu tinha gostado, me levaram a ver esta nova produção. Achei a avaliação dos usuários do IMDb muuuuuito generosa. E que pode enganar os desavisados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com o filme. Eles dedicaram 105 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 30% e uma nota média de 4,7.

Kick-Ass 2 é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assim sendo, ele também entra na lista de filmes que atendem ao pedido dos leitores deste blog, que solicitaram uma série de críticas de filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Chamou a minha atenção, em 2010, a violência, a ironia e as boas sacadas de Kick-Ass. Naquela época, no texto que escrevi sobre Kick-Ass, eu já comentava que haveria uma sequência. Como gostei do original, me joguei para ver este segundo filme. Pena que toda a força de Kick-Ass desapareceu no caminho. Menos violento, sem boas tiradas e aquela ironia ácida, Kick-Ass 2 é um filme que praticamente nega o primeiro, porque por boa parte do tempo trilha o caminho do “politicamente correto” e suaviza o drama e o dilema dos protagonistas. Um verdadeiro desperdício.