Inch’ Allah


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A disputa entre judeus e árabes já rendeu um número invejável de filmes. Talvez, junto com o tema Segunda Guerra Mundial, este assunto seja um dos mais debatidos e focados pelo cinema nas últimas décadas. Inch’ Allah se soma a esta série de filmes mas com um diferencial: colocando no papel da protagonista uma estrangeira que trabalha para a ONU. Ela se envolve tanto com judeus quanto com árabes, fica próxima dos dois lados da disputa, e acompanha de perto a destruição que pode ocorrer sob o manto da busca pela “eternidade”.

A HISTÓRIA: Um menino judeu caminha em um dia ensolarado e com várias pessoas ao seu redor. Ouvimos música ao fundo. Parece que acompanha o garoto os pais dele. Corta. Uma mulher anda rápido com uma mochila nas costas. Ela passa pelo garoto, que está observando o músico tocar, e esbarra nele. Em seguida, a mulher para e pede um café, sentando em um restaurante. O garoto vai até um vendedor de pássaros, até que escutamos uma explosão. Corta. Um grupo de amigos brinda e toma bebida em um restaurante. Depois, Chloé (Evelyne Brochu) e Ava (Sivan Levy), que faziam parte do grupo, voltam para casa caminhando. Elas estão felizes. Mas em pouco tempo vamos conhecer de perto a vida complicada destas duas jovens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Inch’ Allah): Como sempre, busco não saber de nada sobre a produção que eu vou assistir antes de começar a experiência de ver ao filme. Mesmo sem informações prévias sobre Inch’ Allah, me pareceu um tanto óbvio, pelo título da produção, que ela iria abordar a questão árabe.

Mas me surpreendi com o que eu vi. Algo que chama a atenção neste filme são duas abordagens diferenciadas dele em relação a outras produções que tratam da temática do conflito entre árabes e judeus (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme): primeiro, o fato da protagonista não fazer parte de nenhum dos lados e, em segundo lugar, a história por trás de um ataque de “mulher-bomba”.

Achei corajosa a história contada pela diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette. Porque Inch’ Allah (expressão que significa “se Deus quer”) nos apresenta uma realidade dura com múltiplas interpretações – e um final que é feito para fazer o espectador refletir.

Para começar, interessante que a protagonista é uma estrangeira. Chloé é canadense e trabalha em um posto de saúde da Organização das Nações Unidas na Palestina, próximo da fronteira e de um posto de controle de árabes. O interessante é que ela mora de um lado da fronteira, junto aos judeus, e trabalha do outro lado, atendendo a mulheres e crianças árabes.

Desta forma, a protagonista acaba desenvolvendo um contato bastante próximo com as duas realidades. E mais que isso, ela se envolve emocionalmente com a vizinha judia Ava e com uma das pacientes que ela atende na clínica, a árabe Rand (Sabrina Ouazani). Grande parte do tempo de Chloé é dedicado ao trabalho e, por consequência, à observação da realidade dos árabes. Mas uma outra parte é dedicada aos contatos por computador com a mãe (interpretada pela atriz Marie-Thérèse Fortin) e às conversas e festas ao lado de Ava.

O problema, e Inch’ Allah é bastante direto neste ponto, é que Chloé é destas pessoas que não consegue apenas “fazer o seu trabalho”. Profissional e mulher sensível, ela se envolve com as pessoas ao redor. Percebe a dor e a origem da revolta dos árabes, mas também acompanha o temor e o medo dos judeus – e o desconforto de alguns deles em participar do controle do direito de ir e vir dos árabes. O perigo está no ar, e parece ser impossível não se intoxicar com ele.

A ideia que este filme passa é que os judeus parecem estar mais propensos a medidas extremas do que os árabes. Até certo ponto, é claro. Porque Chloé acompanha pelo menos três absurdos quase em sequência: o atropelamento proposital que vitima Yossef (Ahmad Al-Zain), a proibição dos árabes em visitar suas terras originais (Chloé só consegue levar a família de Rand ao local de origem de seus ancestrais porque tem amizade com Ava) e a barreira que impediu que Rand tivesse um tratamento decente na hora do parto.

Todas estas medidas são absurdas, mas justificadas pelo temor ao descontrole árabe. E o pior é o que vem depois: todos estes abusos acarretam em um ataque suicida. E daí o que pode vir após isto? Certamente mais represálias e absurdos por parte dos judeus que, após cometerem estes atos, serão novamente atacados pelos árabes. E o círculo vicioso de ódio e de mortes parece não ter fim.

Esta é a reflexão final de Inch’ Allah que, de quebra, ainda estampa este título para questionar se, de fato, alguém pode acreditar que Deus quer esta matança e tanta injustiça. Me parece evidente que não. Mas o problema de qualquer fanatismo é realmente este. Acreditar tanto na “própria verdade” ou na interpretação que se faz das palavras de Deus para aderir a atos e condutas que são evidentemente contrárias ao que o Pai de todos, que prega o perdão e o amor, gostaria.

Achei corajosa, por tudo isso, a atitude de Barbeau-Lavalette em colocar uma estrangeira como testemunha dos fatos – estrangeira esta que acaba apoiando um ataque terrorista ao ceder ao mesmo ódio que ela viu crescer em um dos lados do conflito. É como se a responsável por esse filme estivesse dizendo que é impossível as pessoas que chegam muito perto de uma realidade ficarem isentas ao que acontece. Assim como foi uma forma dela questionar a participação estrangeira no conflito árabe e de judeus – e sabemos que, na maioria das vezes, o apoio das grandes potências “pendeu” para o lado judeu.

Os estrangeiros, segundo Inch’ Allah, acabam não sendo inocentes no conflito. De uma forma ou de outra, eles apoiam um lado. Também é curioso ver os “bastidores” de um ataque de uma mulher-bomba. Compreendemos um pouco melhor a “lógica” que está por trás destes suicídios carregados de uma fé deturpada.

A mulher-bomba revelada nesta história – charada que acaba sendo “decifrada” na reta final – encara que tem poucas perspectivas no futuro. Afinal, ela é uma “mulher desgraçada”, zombada por ter perdido o filho e o marido. Vivendo em uma cultura com aquelas valores e em um cenário bastante cruel, ela encara a morte “por uma causa” como a melhor saída – acrescentando-se que ela acredita que irá encontrar o filho morto. O que argumentar sobre tudo isso? Da minha parte, só lamento.

Parece incrível, mas a sequência de erros de diferentes partes só vai tornando a solução para estes conflitos cada vez mais difícil. Ainda assim, acho que é preciso sempre acreditar em uma solução, ter esperança que ela é possível e buscá-la. Do contrário, como bem observa o calado, mas bastante observador Safi (Hammoudeh Alkarmi), nos restaria apenas ver a uma “árvore pequena” seguindo exatamente o exemplo da “árvore maior” que começou a crescer antes que a menor. Uma analogia importante sobre o futuro complicado que crianças e jovens podem ter ao aprender com os adultos que vieram antes deles a odiar, ao invés de amar.

Belo filme, com ponderações importantes, mas que perde um pouco de força na reta final. Digo isso porque, afinal, o que justificou a adesão a de Chloé ao plano do ataque terrorista. Farta de tanta violência, ela parecia disposta a sair daquela zona de guerra. Ela começa a se despedir do trabalho e vai buscar Faysal (Yousef Sweid) e, quando não o encontra, decide aderir a uma causa como aquela? Achei bastante estranha aquela atitude.

Independente de quem seria o “transportador” da destruição, Chloé sabia que iria alimentar mais dor e perdas. E até aquele momento, ela parecia uma pessoa focada em ajudar, propensa a atuar pela paz. Esta saída “mágica” para a personagem, o que acaba levando o filme a ter um final impactante, me pareceu um tanto “falsificada”. Entendo os propósitos da realizadora, mas acho que faltaram elementos para a protagonista, que deveriam ter sido apresentados anteriormente, para justificar melhor esta “virada de conduta”. Por não me convencer como deveria na reta final, dei a nota abaixo para esta produção – apesar de suas várias qualidades.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante a personagem central desta história. Chloé vai até a Palestina para trabalhar em um posto regional mantido pelas Nações Unidas e mergulha fundo na realidade de conflitos da região. Ainda assim, não deixa de sair à noite, ir em restaurantes e danceterias. É uma mulher coerente com a sua idade, mas acaba percebendo que ter uma vida normal, ali, é tarefa quase impossível. Os acontecimentos vão levando Chloé a agir de forma inesperada. E apesar disto, ela segue responsável pelos próprios atos.

Umas cenas que achei interessante foram aquelas em que Chloé fala com a mãe. Vivi isso bem quando morava na Espanha e mantinha contato constante com os meus pais no Brasil. Com tanta gente migrando no mundo atualmente, movidos por diferentes razões, é cada vez mais frequente esse tipo de “convivência” facilitada pela tecnologia. Ainda bem. Assim fica muito mais fácil manter as relações familiares e as amizades. Este recorte da vida de Chloé torna a personagem ainda mais realista.

Ninguém está feliz neste filme. Especialmente se olhamos para o lado dos árabes e dos judeus. A jovem Ava trabalha no posto de controle na fronteira porque é obrigada – o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres de Israel. Ela vive desconfortável e com receio. Da parte árabe, Faysal considera todo palestino uma arma potencial – ele deixa claro isso quando vê o ultrassom da irmã. A família vive em uma zona pobre, catando materiais com valor no lixo, e sem a possibilidade de circularem livremente.

Falando neste controle no ir e vir, algo me deixou intrigada neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Inch’ Allah). Afinal, se Chloé sempre passa pelo posto de controle dos árabes para ir trabalhar, e estando todos presos por causa de um novo ataque, com o trânsito parado, não era mais fácil eles terem ido até o posto mantido pela ONU do que tentar de todas as formas passar pelo controle militar? Será que no posto não haviam condições melhores de atendimento de Rand? Achei um pouco inconsequente aquela tentativa de transporte de Faysal – e totalmente ineficaz a intervenção aos gritos de Chloé na situação.

Falando nos atores desta produção, tiro o meu chapéu para Evelyne Brochu. Ela está ótima como Chloé, em uma interpretação que não apenas convence, mas que também permite que cada espectador possa se identificar de uma forma ou de outra com a perplexidade que ela vive. Também estão muito bem os outros atores envolvidos na produção, com especial destaque para Sabrina Ouazani e Sivan Levy, cada uma assumindo a sua personagem de forma convincente.

Da parte técnica desta produção, destaco a ótima direção de fotografia de Philippe Lavalette e a edição de Sophie Leblond. A caracterização dos personagens e das locações funciona bem, mérito do figurino de Sophie Lefebvre, do design de produção de André-Line Beauparlant e da decoração de set de Karim Kheir e Nasser Zoubi.

Gostei do estilo da diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette. Fora aquele “furo” no roteiro na parte derradeira da história – uma peça que não se encaixa no conjunto -, ela demonstrou segurança na narrativa e coragem com a história que queria contar. Na direção, interessante como ela buscou o realismo da personagem principal e de seu entorno, deixando a câmera sempre próxima da atriz ou, quando se afastava dela, com o propósito de mostrar o cenário que lhe rodeava. Desta forma, Barbeau-Lavalette consegue nos situar no local e no tempo, assim como valorizar o trabalho dos atores.

Procurei alguma leitura que pudesse tornar mais claro aquele ambiente apresentado por Inch’ Allah e encontrei este ótimo texto de autoria de Bernardo Kucinski. Ele fala de forma muito interessante sobre as origens do conflito entre árabes e judeus, a evolução da disputa entre eles e a situação atual, com os postos de controle e tudo o mais. Recomendo.

Procurei mais informações sobre os locais em que o filme foi rodado e encontrei apenas a informação de que Inch’ Allah foi feito na Palestina e na Jordânia.

Inch’ Allah estreou em setembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros sete festivais, incluindo os de Berlim e de Atenas. Nesta trajetória, o filme recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros 12. Entre os que recebeu, destaque para o Prêmio Fipresci na mostra Panorama para Anaïs Barbeau-Lavalette no Festival de Berlim, e para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Sabrina Ouazani, Melhor Filme e Melhor Direção de Arte para André-Line Beauparlant nos Prêmios Jutra entregues no Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Uma boa avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 10 textos positivos e oito negativos para Inch’ Allah, o que lhe garantiu uma aprovação de 56% – e uma nota média de 6,2.

Inch’ Allah é o sexto trabalho da diretora Anaïs Barbeau-Lavalette. Antes, ela havia estreado com um episódio na série de TV Nikan, em 2006, e feito o longa Le Ring e dois curtas (sendo um deles um documentário), além de ter codirigido o documentário Les Petits Géants com Émile Proulx-Cloutier. Depois de Inch’ Allah, ela fez um novo curta, em 2012.

Este filme é uma coprodução do Canadá e da França.

CONCLUSÃO: Este filme busca uma visão “humana” e próxima dos problemas comuns da população que sofre com a aparente “eterna” disputa entre judeus e árabes. Com uma duração adequada e interpretações convincentes, Inch’ Allah sofre um pouco com o desfecho da história. Afinal, qual é a mensagem que a diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette quer nos passar? Possivelmente a de que a busca incessante por “reparação” ou “vingança” não levará aqueles povos a lugar algum que não a uma incessante vitimização de inocentes. Esta é uma mensagem importante a ser defendida e debatida. O filme funciona neste sentido. Mas carece de um pouco mais de vigor enquanto a história é contada. De qualquer forma, é uma produção interessante sobre um tema já bastante explorado.

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Um comentário em “Inch’ Allah

  1. Alessandra. Sem querer achei seu blog e fiquei impressionado e feliz em conhecê-la. Por seu estilo, sua sinceridade, sua independência, pelas preciosas dicas (v. deve baixar filmes também…rs) e por me identificar com você em muitas coisas: também vejo um filme procurando saber muito pouco sobre ele e me guio pelo estilo, diretor, elenco…Ah, achei você porque depois que escrevo no meu blog sobre o que achei do filme (mas algo muuuuuito mais resenha do que você, nem tenho o teu talento e competência), procuro a capa e alguns detalhes a mais para enriquecer o blog. E aí achei o teu blog. Sensacional!!! Grande abraço! Nadal

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