Respire – Breathe


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Você está lá, tranquilo(a), vivendo a sua vida em paz, até que alguém surge do nada e muda tudo. Respire é mais um filme que conta uma história destas. Mas esta não é uma história qualquer. Esta é a história de duas pessoas, uma boa, suave, generosa, e outra que vai se revelando aos poucos de forma totalmente diferente do que ela parecia inicialmente. Com um roteiro bem escrito e, em especial, uma direção fabulosa por ser muito atenta aos detalhes, além de ter duas jovens atrizes ótimas, Respire é um bálsamo, uma pérola que merece ser apreciada.

A HISTÓRIA: Pouco a pouco a noite vai dando lugar ao dia. O movimento na rua começa a aumentar e as pessoas que estão dormindo, como Charlie (Joséphine Japy), a acordar. Quando vai tomar o café da manhã, a jovem percebe o climão entre a mãe, Vanessa (Isabelle Carré) e o pai (Radivoje Bukvic). Eles estão discutindo porque ele sumiu por um tempo, mais uma vez. Enquanto o pai de Charlie serve o café da manhã para a filha, Vanessa chora. Charlie não aceita a carona do pai e vai para a escola por contra própria. Quando chega na escola, ela encontra as amigas. Na sala de aulas, eles falam sobre paixão e como ela é capaz de tirar a liberdade das pessoas. Em breve ela vai conhecer Sarah (Lou de Laâge), uma nova aluna que vai mudar a sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Respire): Achei esse filme impressionante. Primeiro, pelo roteiro e pela direção de Mélanie Laurent, mais conhecida de todos nós por seu desempenho como atriz. Depois, pelo trabalho das jovens intérpretes Joséphine Japy e Lou de Laâge – especialmente pelo da primeira. E em terceiro lugar, mas talvez esse seja o fator principal, porque este filme me fez revisitar histórias que conheço. E vocês, meus caros leitores, sabem bem como a interpretação de um filme depende disso, da nossa própria vivência e/ou conhecimento sobre o tema.

Assisti a Respire de forma bem despretensiosa. Como costumo fazer, não me informei nada sobre ele antes. Por isso mesmo, foi uma grata surpresa encontrar esta produção que tem não apenas a duração certa, mas também um apreço pela história e pela narrativa como há tempos eu não via em um filme. O roteiro de Respire é uma adaptação feita por Laurent e Julien Lambroschini do livro da francesa Anne-Sophie Brasme que, pelo que eu andei pesquisando na internet, fez um grande sucesso não apenas na França, mas em outros países da Europa, como a a Espanha.

Pois bem, não li o livro. Mas gostei muito da forma com que Laurent e Lambroschini conduzem esta história. Logo as primeiras cenas do filme já nos mostram o que podemos esperar do que virá em seguida. Não há imagem que sobre no trabalho de Laurent. A diretora – este é apenas o segundo longa da atriz – escolhe cada cena como um pintor seleciona cuidadosamente cada tom, cada cor e os locais exatos em que vai pintar luz ou sombras.

Como se estivéssemos nos despedindo da noite escura e adentrando no “dia” da vida de Charlie, ou seja, o obscuro do desconhecimento dá lugar para a claridade do conhecimento da vida dela, Respire nos apresenta a personagem principal e o seu entorno rapidamente. Conhecer essa adolescente é fundamental. Sensível, meiga, alegre mas também um pouco melancólica, Charlie é, claramente, uma menina do bem.

Ela não é isolada. Pelo contrário. Tem bons e verdadeiros amigos. Se destacam, nesse grupo, Victoire (Roxane Duran), amiga de infância da protagonista, e Lucas (Louka Meliava), um ex-namorado da garota que segue sendo seu amigo e está sempre por perto na esperança de ter uma chance com Charlie novamente. Sendo assim, a forma com que Charlie se agarra a Sarah não é explicada pela carência da garota, mas por outros fatores.

Primeiro que Sarah é um elemento novo e totalmente diferente do que Charlie está acostumada. A garota tem um jeito independente de agir e de pensar. Fuma, sabe fazer festa como poucas, parece ser um “espírito livre”. Isso fascina Charlie. Compreensível. Quem nunca passou por isso? Mas quem já tem um pouco de vivência e já encontrou uma pessoa canalha na vida, logo percebe o que está acontecendo. Respire acerta por nos contar a história assim, de forma honesta e sem demorar muito a entrar no âmago da questão.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Cada um tem uma experiência de vida. Minha leitura deste filme tem totalmente a ver com as pessoas que encontrei na minha trajetória até agora. Neste caminho, encontrei pessoas fantásticas, mas encontrei também canalhas. E por saber como eles são, logo identifiquei o jogo de Sarah. E aí, meus caros, não sei vocês, mas logo pensei: “Isso não vai acabar bem”. As tragédias se desenham e quem está atento ou consegue identificar bem os sinais, percebe isso muito antes delas aconteceram. Claro que quem está envolvido pela história tem mais dificuldade de enxergar. Especialmente se é adolescente e tem pouca vivência.

Sarah é uma canalha. Ela usa Charlie para se enturmar na escola e para logo ser aceita no grupo de amigos. No início, claro, ela foca a atenção totalmente em Charlie, envolvendo a garota – quem não gosta de ser valorizado e querido? Tudo anda bem, até que no feriado as duas se beijam bêbadas e Sarah percebe, no dia seguinte, que deve mudar de atitude para Charlie não se sentir “dona demais” da situação. Daí ela começa a mostrar o que ela realmente é: uma manipuladora egoísta que usa as pessoas para se dar bem.

Como qualquer pessoa com esse perfil, ela mente sem diferenciar que está mentindo. Charlie começa a se isolar, sofrendo com a separação mas, ao mesmo tempo, começa a analisar Sarah. Ao perceber as primeiras mentiras, e sem se dar conta ainda que a outra é uma canalha, ela acaba procurando respostas. Esse é o grande equívoco da protagonista. Claro que qualquer pessoa inteligente e sensível quer encontrar respostas. E ainda que elas existam, não vale a pena correr atrás delas. Mas Charlie não pensa assim. Ela quer entender a mudança de comportamento de Sarah.

A verdade é que Charlie, como eu disse lá no início, é uma boa pessoa. Lá pelas tantas ela percebe, e nós junto com ela, que sem querer ou planejar ela repete um pouco o comportamento da mãe. Para alguns, que nunca sofreram com um casamento ou com violência doméstica, uma mulher que aceita mil vezes um cara sem caráter é fraca. Mas é preciso entender o que os canalhas fazem. Eles envolvem a pessoa emocionalmente de uma maneira vil, absurda, e nem todos conseguem se dar conta disso. Como o filme sugere no início, os apaixonados são prisioneiros, perdem a liberdade.

Vanessa, a mãe de Charlie, sofreu e foi aprisionada pelo pai da garota por quase duas décadas. Não é fácil se desfazer de algo assim. Em certo momento do filme, Charlie pergunta para a mãe porque ela sempre perdoa ele – claramente um cafajeste. Ela diz que não consegue ser diferente. Esse momento é muito ilustrativo. As pessoas são boas. Mas nem sempre deveriam ser assim, porque elas acabam fazendo mal para si mesmas e, sem querer, para os outros. Mas Charlie é uma pessoa boa, como a mãe dela e, infelizmente, as duas são vítimas de dois canalhas.

Mesmo sofrendo todo o tipo de humilhação na escola por causa de Sarah, ela não procura dar o troco. Não se volta contra a ex-amiga. Ela apenas observa e tenta entender. Busca uma explicação racional para a aparente loucura da outra. Vez ou outra Charlie tem um ataque de asma. Claramente, a falta de ar é provocada pela questão emocional. Algumas vezes o coração dela fica tão “apertado” que o ar entra com dificuldade no corpo magro da jovem. Mais que desgaste físico, a questão é emocional.

Daí surge uma leitura muito interessante do nome deste filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sem perceber, Charlie somatiza o que ela não consegue resolver na própria vida. O pai dela é um canalha, ela vê a mãe sofrer e não lida bem com isso. Depois, ela mesma conhece outra pessoa canalha, Sarah, que lhe envolve e lhe faz sofrer. Enquanto ela tem esses problemas e não se livra deles, lhe falta ar.

Como sempre na vida, você pode decidir romper com a situação que lhe faz mal virando a página, mudando o foco, rompendo relações. Mas tem pessoas que não conseguem fazer isso se não for de forma definitiva, trágica. Infelizmente este é o caso de Charlie. Mas algo positivo ficou depois de tudo isso: ela rompeu o ciclo e conseguiu respirar. Terá que pagar pelo que fez, talvez por pouco tempo, porque teve atenuantes. Mas possivelmente ela aprendeu muito com tudo aquilo. Saberá identificar e se distanciar de canalhas nas próximas vezes. Na vida, tudo é aprendizado.

Esta história não interessa, assim, apenas a adolescentes. Verdade que esta é uma fase especial na vida de qualquer pessoa. Quando estamos nos descobrindo e desbravando também o mundo. Aprendendo com as relações, pensando por conta própria. É uma fase decisiva na vida, e que vais nos moldar por bastante tempo.

Mas a beleza da existência é que podemos vivenciar isso por toda a fase adulta. Perceber aprisionamentos e formas de nos libertar em qualquer momento da vida. Respire trata disso. Da nossa capacidade de compreender, perdoar a nós mesmos e aos demais e de seguir em frente. Porque pessoas boas, infelizmente, sempre serão magoadas pelas pessoas ruins. Não podemos evitar isso. O que podemos é saber lidar bem com estas situações. Respirar e virar a página sem o elemento trágico no meio.

Respire é maravilhoso pelo conjunto da obra. Pelo roteiro, pela direção cuidadosa e bela e pelo trabalho fantástico das atrizes. Especialmente a intérprete de Charlie. Como ela é fantástica! Deslumbrante! Linda, frágil e honesta na medida certa, sem afetações e com muita naturalidade. Ela tem a sorte de conseguir uma dobradinha preciosa com a atriz que interpreta Sarah.

A cena final delas, em especial, é digna de aplausos. Como toda canalha, Sarah quer reverter o jogo e se coloca no papel de vítima. Quando ela fala de Charlie, na verdade, está falando de si mesma – e vice-versa. Sequência para tirar qualquer um do sério. Mas alguém experiente saberia ter o sangue frio para lidar com aquela situação. Infelizmente não é o caso de Charlie. O importante, contudo, é que ela aprendeu a respirar. Estará muito mais preparada para a próxima vez.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como citei anteriormente, este é apenas o segundo longa-metragem dirigido por Mélanie Laurent. Mais conhecida pelo trabalho de atriz, com 38 produção no currículo como intérprete, Laurent estreou na direção com o curta De Moins en Moins, em 2008. Depois ela dirigiu um episódio da série X Femmes, no mesmo ano. A estreia com longas veio em 2011, com Les Adoptés. No ano seguinte, ela dirigiu o curta Surpêche. Depois de Respire, lançado em 2014, ela está trabalhando na pós-produção do documentário Demain.

Pelo que eu vi em Respire, Laurent merece ser acompanhada. Eu gostava dela como atriz. Sempre achei que ela tinha uma sensibilidade em seus papéis diferenciada. Mas como diretora… que bela surpresa! Gostei de cada escolha de ângulo e de ótica da diretora. Do olhar colado no carpete e que mostra o All Star e os primeiros passos da protagonista até diversas cenas durante o feriado idílico por um tempo e revelador no segundo período. Em outras ocasiões, ela assume a postura quase de documentarista, com a câmera tremendo em alguns momentos no afã de ficar próxima dos atores. Bonito trabalho.

Agora, tão fascinada com a ótica de Mélanie Laurent, fiquei com o trabalho de Joséphine Japy. A jovem atriz francesa de 21 anos tem uma presença marcante na tela, além de uma delicadeza impressionante na interpretação. Mesmo interpretando uma personagem contida, se comparada com Sarah, ela consegue roubar a cena em muitos momentos. Atriz que, sem dúvida, merece ser observada e acompanhada. Respire foi apenas o quinto filme na carreira de Japy. Ela tem outros três filmes no currículo após esta produção dirigida por Laurent.

O elenco de Respire foi escolhido a dedo. Pelo menos é isso que o trabalho de direção de Laurent nos sinaliza. Além da protagonista, todos os outros atores fazem uma entrega muito boa, bastante legítima – ninguém parece estar “forçando” uma barra na interpretação. Fator importantíssimo para o conjunto da obra. Japy rouba a cena, mas tem em Lou de Laâge uma parceira à altura e ideal. A atriz que interpreta Sarah consegue dar o tom exato para a sua personagem. Extrovertida, ela ocupa os espaços dos ambientes e se faz notar. A atriz se sai muito bem nessa tarefa.

Além das duas atrizes principais, vale citar o ótimo trabalho de outros três coadjuvantes já citados anteriormente: Isabelle Carré como Vanessa, mãe de Charlie; Roxane Duran como Victoire, amiga de infância da protagonista; e Louka Meliava como Lucas, apaixonado por Charlie. Eles estão muito bem por interpretarem os seus personagens com emoção e na medida certa. Passam verdade. Além deles, vale citar o bom trabalho de Claire Keim como Laura, tia de Charlie; e Thomas Solivéres como Gastine, um dos amigos mais próximos de Charlie depois de Victoire e Lucas.

Há outros jovens que fazem parte do grupo, como Camille Claris como Delphine; Louise Grinberg como Louise; Fanny Sidney como Isa; e Marie Denarnaud como Marie, mas nenhum deles se destaca muito – pelo menos não ao ponto de darmos muita atenção para o seu papel na história. Além deles, durante o feriado, merece um pouco de destaque pela aparição, já que ele praticamente não tem fala alguma, o bonito Alejandro Albarracín como Esteban, o romance espanhol de alguns dias de Vanessa.

Para pessoas inteligentes como Charlie é difícil aceitar o que acontece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme, passe para dois parágrafos adiante). Ela precisa encontrar uma explicação para o comportamento de Sarah. Isso dá para entender. Para perdoar, é preciso compreender. Por ser uma pessoa do bem, Charlie quer perdoar. Ela até tenta esse caminho, mas o que ela não percebe é que por mais que ela tente entender Sarah, ela não pode “medi-la” com a mesma base com que leva e compreende a própria vida. As pessoas canalhas são doentes. Precisariam de tratamento psicológico. Merecem piedade, mas não proximidade. Precisam se tratar e, se uma pessoa sã perto delas não percebe isso, tem grande risco de ser arrastada por aquela mesma loucura.

Isso acontece com Charlie. Ela ainda não percebeu, mas talvez um dia perceba, que existe uma grande diferença entre entender o outro – porque para tudo existe uma explicação – e querer ele perto de você. O difícil, especialmente quando a pessoa está envolvida, é enxergar que está refém e que precisa se libertar. Se você não faz isso por bem, em uma saída pacífica e espontânea, acabam acontecendo saídas trágicas e, sem dúvida alguma, nada desejadas pela vítima que, na verdade, é do bem e que não gostaria de nada daquilo. Para evitar o Mal, é preciso se afastar dele.

A direção de Laurent é perfeita, irretocável – dá para entender e perdoar aquelas sequências de câmera um pouco tremida e citadas anteriormente. Além desta parte vital do filme, vale citar outros pontos fortes da parte técnica da produção. Para começar, a direção de fotografia também perfeita de Arnaud Potier.

Depois, funcionam bem a trilha sonora de Marc Chouarain, a edição de Guerric Catala (outro ponto forte da produção), e o conjunto da obra que ajuda a dar o estilo e o ambiente da história formado pelo design de produção de Stanislas Reydellet, pela direção de arte de Arnaud Denis, a decoração de set de Cécilia Blom, os figurinos de Maïra Ramedhan Levi e o departamento de maquiagem formado por Melisa Klein, Pascale Bouquière e Jimmy Springard.

Respire estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme faria uma trajetória longa em outros 21 festivais de cinema pelo mundo – o último deles em julho de 2015, o Festival de Cinema Pula. Nesta trajetória o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros nove.

O único prêmio que Respire levou para casa foi o de narrativa pelo John Schlesinger Award entregue no Festival Internacional de Cinema Provincetown. Entre os prêmios aos quais ele foi indicado, destaco duas indicações como Atriz Mais Promissora para Lou de Laâge e Joséphine Japy no Prêmio César e a indicação de Mélanie Laurent como Melhor Diretora no Festival de Cinema de Cannes.

Produção 100% francesa, Respire foi rodada totalmente no departamento de Hérault, em comunas como Marseillan, Mèze e Béziers, que fazem parte da região administrativa Languedoc-Roussillon, que fica no Sul da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Respire. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 32 críticas positivas e três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: O olhar, a forma de enxergar tudo o que nos cerca, do quadro mais amplo até os mínimos detalhes, é o que faz toda a diferença. E, neste sentido, geralmente, o cinema francês é único e diferenciado. Respire é mais um ótimo exemplar deste cinema. Um filme envolvente, atento a todos os detalhes e belo, tanto na forma com que ele é dirigido quanto na condução das atrizes. A história, como foi escrita e especialmente como é contada, não dá espaço para o espectador desviar a atenção. Mais um belo exemplar do cinema francês e que vale ser conferido.

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