Incompresa – Misunderstood – Incompreendida


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Há um cinema novo, moderno, que não tem papas na língua. O cineasta que trilha este caminho tem uma ideia na cabeça e não pensa em duas vezes em exagerar nas tintas para expor o que ele quer dizer. Incompresa é um exemplo deste cinema. O filme tem um começo pesado, um tanto visceral, e apresenta esta mesma conduta por grande parte da história. Mas nem tudo é pesado em Incompresa. Há momentos líricos e bem típicos do que deveria ser o dia a dia da protagonista. Ainda que seja um filme interessante, no início, Incompresa perde um bocado o ritmo pelo caminho e acaba ficando um pouco redundante. Ainda assim, é bem interessante.

A HISTÓRIA: Começa com uma música que lembra aquelas de caixinha de música e uma menina escrevendo em um caderno típico de uma estudante dos anos 1980. Há diversas figurinhas de artistas, ídolos dela, e frases coloridas que vão ocupando as folhas do caderno. Entre outras frases está a de “Aria é forte” e o nome de Dac, o gato que a protagonista, Aria (Giulia Salerno) sonha em ter. Corta.

Yvonne Casella (Charlotte Gainsbourg) serve as filhas e o marido, um ator conhecido (Gabriel Garko) que tem uma série de superstições e que se recusa a comer as almôndegas. O clima na mesa é muito tenso. Aria fala de ter um gato, mas nem a mãe e nem o pai querem saber da ideia. Yvonne atende o telefone e fala em francês com a mãe. Ela elogia a filha Donatina (Anna Lou Castoldi), mas claramente há um favoritismo entre as filhas e os pais. Esta é a história de Aria e de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Incompresa): Interessante a pegada deste filme. Ele começa com imagens que vão fazer muita gente voltar ao passado, quando era criança e adolescente e tinha cadernos como o da protagonista da história. Por parte da história se passar no colégio dela, também dá para relembrar de diversos momentos da época de estudantes – para quem tem mais de 30 anos, em especial.

Mas aquele começo de lembranças em certa medida pueris logo termina. Na sequência da introdução da história, caímos na dura realidade de Aria. Ela vive em uma família onde a violência e a crueldade são moedas correntes. A cena da mesa com uma janta de almôndegas é bem ilustrativa. Mas além da agressão verbal entre Yvonne e o marido, logo percebemos que a violência física também é bem presente. Yvonne bate com força em Aria e, depois, ela mesma apanha do marido. A violência se perpetua e é praticada, geralmente e sistematicamente, contra o mais fraco.

O roteiro da diretora Asia Argento escrito junto com Barbara Alberti não demora nada para avançar um passo importante e mostrar um fato decisivo na história: a separação dos pais das meninas. As garotas viviam uma situação de penúria em casa, assistindo diariamente o desrespeito entre os pais e as agressões mútuas, mas a separação não melhorar as coisas para Aria, muito pelo contrário. A filha mais velha, Lucrezia (Carolina Poccioni), é a preferida do pai e ator famoso, e Donatina é a queridinha de Yvonne. Mas nenhum dos dois parece se importar ou gostar de Aria.

Quando os pais das garotas se separam, a vida de Aria fica ainda pior porque ela acaba virando uma espécie de brinquedo que é jogado de um lado para o outro por Yvonne e o agora ex-marido. Quando um dos pais fica bravo com a garota, manda ela para o outro lado. Claro que nunca sem antes xingar a outra parte. As alegrias da menina e que tiram ela um pouco daquela loucura dos pais estão junto da melhor amiga, Angelica (Alice Pea); na apaixonite que ela desenvolve pelo novo garoto do colégio, Adriano; e com o gato que ela acaba adotando lá pelas tantas.

O preocupante é que até em sequências de brincadeiras, como a entre Aria e Angelica – elas são tão amigas e querem ser iguais ao ponto de se chamarem de Ist e Ist – com bonecos, demonstra a visão violenta que as meninas, especialmente a protagonista, tem sobre a relação entre homem e mulher. As crianças e os jovens aprendem sobretudo com os exemplos que vêem em casa. E aí está a tragédia de Incompresa. Os dois irresponsáveis, egoístas e despreparados para serem pais que geraram as três minutos simplesmente não percebem todo o estrago que causaram para as filhas – especialmente Aria, a mais ignorada e excluída das três.

Além da violência física e verbal, Yvonne é um exemplo de mulher que pula de homem para homem. Enquanto era casada, traía o marido a torto e a direito. Depois de separada, troca de namorados com bastante rapidez, passando de um ricaço para um jovem roqueiro apenas no curto tempo em que esta história se desenvolve. Em certo momento, o pai das meninas diz para Aria que Yvonne não deveria ser mãe, que ela não nasceu para isso. Mas como ele pode julgar a ex-mulher, quando ele próprio está apenas preocupado com a própria carreira e em ter sorte e evitar tudo que possa lhe dar azar?

Nenhum dos dois, na verdade, tem a capacidade de dar carinho, estímulo ou afeto para Aria. Em alguns momentos do filme eles até fazem algo bom para ela, mas é sempre um gesto passageiro e que parece ser feito mais para “cumprir tabela” ou para aliviar a culpa deles sobre algo que fizeram antes. Yvonne tem um comportamento bem irregular, e parece ir do céu ao inferno com bastante frequência.

Das irmãs, Donatina parece ser a mais tranquila e menos afetada por toda a loucura dos pais. Lucrezia, por sua vez, por ser mais velha, sabe muito bem tirar proveito das situações e, sempre que pode, manifesta a sua maldade com as irmãs – especialmente a caçula. O desenvolvimento dos personagens é muito bem feito, assim como a escolha da direção de fotografia, da trilha sonora e dos demais elementos para nos situar no tempo da história – no quadro do colégio, logo no início do filme, vemos uma data: 8 de fevereiro de 1984.

As grandes qualidades do filme são, desta forma, a ótima escolha do elenco e o trabalho competente do núcleo principal de atores; a ambientação da história com todos os seus elementos técnicos jogando um papel importante e que funciona no conjunto; a direção e o roteiro que tem um propósito muito claro e seguem esta direção sem pestanejar. Ao mesmo tempo, este último elemento também é o principal calcanhar de Aquiles da história.

Para mim, lá pelas tantas, Incompresa fica um bocado repetitivo na mensagem de “garota que só queria afeto e amor e que tem dois pais malucos e que a condenam a uma vida miserável e de sofrimento”. A história é dura e válida, mas aquele calvário da protagonista acaba ficando um tanto arrastado. Também há sequências no filme que nos fazem duvidar sobre realidade ou fantasia. Como quando Aria é expulsa da casa do pai e, na sequência, não é aceita pela mãe e acaba passando a noite com um grupo de pessoas que faziam festa na rua.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei esta uma das sequências mais pesadas do filme. No fim das contas, a menina acaba bebendo e fumando maconha naquela noite maluca. Francamente eu esperava pelo pior, com a garota sendo abusada por um daqueles caras bem suspeitos. Mas o filme mostra ela terminando a noite com Dac, numa boa. Não sei se é mais fantasioso ela passar a noite na rua daquela forma ou terminar bem aquela sequência. Depois, Aria aparece na casa da mãe com a avó sem maiores explicações.

O filme tem estes hiatos na história um tanto estranhos. E preocupada demais as situações pelas quais a jovem protagonista passa. Mais para a frente, teremos outros trechos em que não sabemos o que pode ser fantasia e o que pode ser realidade – inclusive o final é um tanto aberto neste sentido. Pessoalmente, acho que a menina realmente teve um fim trágico, e que a cena derradeira estilo “moral da história” é apenas um adicional que pode significar “pós-vida” ou mesmo um epílogo da desgraça para reforçar ainda mais a ideia da diretora. Sem necessidade, na minha visão.

Quase no meio do filme, quando a melhor amiga de Aria sinaliza, pela primeira vez, que mudará de “time” e que passará para o lado da garota que começa a ser cada vez mais popular entre os meninos, Maria Teresa, há uma frase definidora sobre a protagonista. Depois de Angelica dizer que não estará presente quando a amiga ler a redação que foi considerada a melhor entre as escolas de Roma, Aria tenta falar com Adriano, mas não consegue. E aí o roteiro diz que a menina só queria ser compreendida e amada.

De fato, as crianças e jovens só querem ser amados e compreendidos, primeiro pelos pais, depois pelos amigos e pelos demais. Mas em ordem de importância, sem dúvida os pais vem na frente, e em seguida os melhores amigos. Em mais de uma ocasião Aria quer apenas os pais por perto – mas eles nunca estão lá. Esta é a história triste e bastante pesada, em alguns momentos, de uma menina que nasceu e cresceu em meio ao caos de uma família torta. Ela não teve a sorte de ser uma das preferidas dos pais e acabou sendo excluída do principal.

O filme acerta no foco da história, mas escorrega em alguns momentos da narrativa. Ainda assim, é um belo trabalho da diretora e roteirista Asia Argento. Ela tem coragem e uma visão bem clara de cinema, e por isso merece ser acompanhada. Mesmo com as suas pequenas falhas, espero que Incompresa faça muita gente pensar. Especialmente pessoas que ainda não são pai ou mãe e que estão pensando em ter filhos. Essa é uma tarefa difícil e de grande responsabilidade. Se bem feita, por gente que nasceu com esta vocação, é uma grande dádiva. Se feito de forma equivocada ou por gente sem vocação, é um verdadeiro desastre. Pensem nisso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme bem datado. Ainda que a essência do roteiro poderia passar em qualquer momento da História, afinal há pais ruins e filhos massacrados a qualquer tempo, Incompresa aposta alto no espírito e no estilo dos anos 1980. Por isso mesmo joga um papel tão importante partes técnicas do filme como a direção de fotografia, muito bem feita por Nicola Pecorini, e a trilha sonora marcante, muito presente e ótima que envolveu seis profissionais: Echo Danon, Luke Henshaw, James Marlon Magas, Jessica Myhan, Luigi Pulcini e Anthony Aleshire-Rezendez. Tanto as cores e as lentes escolhidas por Pecorini quanto as músicas que fazem parte da trilha sonora são fundamentais para nos levar pelas mãos para a época em que esta história se desenvolve.

O roteiro de Asia Argento e de Barbara Alberti começa bem, mas perde força e gasta um tempo precioso em histórias sem muita importância – como do apaixonado que é rejeitado pela mulher que vai se casar com outro e que é descoberto porque as amigas Aria e Angelica roubam as cartas enviadas por ele. Mas o mesmo não pode ser falado sobre a direção de Asia Argento. Ela tem um trabalho preciso e muito criativo, ajudado pela edição fundamental e ágil de Filippo Barbieri. Analisando o trabalho de cada um deles é possível perceber a importância destas duas funções. Asia Argento escolhe o que mostrar e tem um olhar cuidadoso para os locais e, especialmente, para os personagens, enquanto Barbieri dá a agilidade e o ritmo que a história exige. Parceria perfeita.

Falando em roteiro, teve um pouco que me deixou em dúvida por boa parte da história. Até por isso a crítica acima tem pequenos defeitos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O erro da crítica é que por boa parte da história eu achei que as três garotas eram filhas do ator famoso que sai de casa e da pianista Yvonne. A cena inicial, na mesa, não deixa claro se as três são filhas dele ou de um casamento anterior de Yvonne. Mas tem um momento no filme em que ele diz que gastou 10 anos da vida com Yvonne… como Aria tem nove anos (informação que ficamos sabendo bem na reta final da produção), dá para saber, neste momento, que Donatina é filha de Yvonne com o marido anterior dela e que Lucrezia, aparentemente, era filha do ator e não de Yvonne. Essa última parte, na verdade, não fica totalmente clara. Ela poderia também ser filha de Yvonne com um marido anterior. De qualquer forma, a única filha que o ator teve com Yvonne com certeza seria Aria.

Os atores são, junto com a ambientação do filme e a direção competente de Asia Argento, a parte forte do filme. Achei simplesmente brilhante o trabalho de Giulia Salerno como Aria, em um trabalho difícil e com muitas nuances; excelente o trabalho de Charlotte Gainsbourg como a desvairada Yvonne – ela está tão bem que tive vontade de esganá-la em uma ou duas ocasiões; e tem uma boa atuação também Gabriel Garko, apesar de eu ter achado ele um tanto forçado e “falcatrua” em alguns momentos – o que pode ter sido proposital.

Além dos atores já citados, seja nestas notas ou na crítica, vale citar o trabalho de Olimpia Carlisi como a avó de Aria; Max Gazzè como Manuel Ginori, o primeiro amante de Yvonne que aparece em cena – quando o marido dela ainda não tinha deixado a casa; Justin Pearson como Ricky, o último namorado de Yvonne, o rockeiro que se dá muito bem com Aria e Donatina mas que é dispensado por Yvonne quando ela se cansa dele; e Gianmarco Tognazzi como Dodo, o namorado de Yvonne cheio da grana que vai e que volta na história. Outros nomes do elenco, especialmente os atores da idade de Aria, não estão creditados no site IMDb.

Da parte técnica do filme, vale ainda destacar o design de produção de Eugenia F. Di Napoli; os figurinos de Nicoletta Ercole; e a edição de som com 10 profissionais, entre eles os editores de som Jithu Aravamudhan e Elisha Drons.

Incompresa estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2014. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 19 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros seis. O único prêmio que ele recebeu foi a Menção Especial no Guglielmo Biraghi Award para Giulia Salerno.

Me aprofundando nos créditos do filme, achei interessante que grande parte da trilha sonora do filme foi escrita pela diretora e roteirista Asia Argento. Até neste ponto, tão importante e evidente na história, ela imprimiu a sua marca. Interessante.

Falando em Asia Argento, esta diretora italiana nascida em Roma tem 41 anos e 14 prêmios no currículo. O trabalho mais expressivo dela é como atriz, com 58 produções no currículo. Como diretora, ela tem 14 filmes, sendo o mais recente deles Incompresa. A estreia dela na direção foi um segmento da produção DeGenerazione, de 1994. Até agora, ela tem poucos longas no currículo – das 14 produções citadas, nove são curtas. Como diretora, o maior reconhecimento dela até agora foi como Best New Director por Scarlet Diva no Williamsburg Brooklyn Film Festival de 2001. Ou seja, até o momento, a maior parte dos prêmios dela é como atriz. Vale acompanhá-la, de qualquer forma. Ela tem potencial porque tem uma visão muito claro do que quer fazer.

Consultando as notas do filme, encontrei duas curiosidades: Aria é o nome do meio da diretora e roteirista Asia Argento. Além disso, Incompresa seria vagamente inspirado na infância da diretora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para Incompresa, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 12 críticas positivas e três negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,7.

Esta é uma coprodução da Itália com a França.

CONCLUSÃO: Como comentei lá na introdução deste post, Incompresa é um filme direto e que dá um bom soco no estômago sobre a paternidade e a maternidade nas últimas décadas. A diretora Asia Argento tem uma ideia na cabeça e consegue focar toda a sua energia nela. Esta ideia é mostrar como a falta de responsabilidade na criação dos filhos pode ter desdobramentos trágicos. O filme começa bem, como eu disse lá no início, mas lá pelas tantas começa a patinar nesta ideia da diretora. Poderia ser ainda mais curto e não teríamos problema com isso. Ainda assim, vale comentar que é um filme com estilo e com “pegada”, que sabe muito bem o que quer narrar e de que forma deve fazer isso. Tem ótimos atores e um visual bem construído. Tem qualidades, mas também defeitos importantes.

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