La Villa – The House by the Sea – Uma Casa à Beira-Mar


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Um local que ainda abriga resquícios de um sonho. Ao mesmo tempo belíssimo, esse local também exala um certo tom de tristeza, saudosismo e, por que não, esperança. La Villa é mais um filme com aquela bela característica do cinema francês. Uma produção linda, que trata de gente como a gente, e que nos faz refletir sobre temas atemporais e, ao mesmo tempo, e sem contradições nisso, temas bem típicos do nosso tempo. Uma bela produção, que nos mostra que o tempo passa e que é preciso saber-se levar por esse tempo.

A HISTÓRIA: Antes de ver qualquer cena, ouvimos o som do mar. A primeira imagem que surge é de uma casa muito ensolarada. Na varanda, Maurice (Fred Ulysse) olha para frente, para a imensidão do mar. Ele tem olhos azuis, está contemplando o horizonte e diz “Que pena”. Após essa frase, ele acende um cigarro. Fuma, mas acaba passando mal. Ele se agarra na mesa, e fica parado, sentado. Em seguida, só vemos ao céu azul. Corta. Em um quarto, várias caixas de remédio. Na cama, Maurice recebe soro e está paralisado. Em breve, os filhos dele vão se encontrar após um longo período sem que todos estivessem no mesmo local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Villa): Esse foi o segundo filme francês que eu vi na sequência. Tive a sorte de vê-lo, assim como Le Brio (comentado aqui), no cinema. Fico especialmente feliz quando cinemas que antes eram essencialmente “comerciais” começam a abrir cada vez mais espaço para filmes não tão óbvios – ao menos em relação ao sucesso que eles terão nas bilheterias.

Esta produção é interessante porque ela fala de lugares, tempos e pessoas. Elementos que fazem parte da vida da humanidade e que fazem realmente mais sentido para a gente – nem tanto para a natureza, os animais e os demais organismos que vivem sobre a Terra, por exemplo. Eu não sei quantos filmes eu já assisti sobre famílias e suas pessoas. O cinema está recheado deles – e os franceses, em particular, gostam destas histórias.

Em La Villa, uma família volta a se reunir quando o patriarca fica doente. Maurice (Fred Ulysse) tem um derrame e passa a depender de cuidados constantes. Armand (Gérard Meylan) é o filho que está sempre próximo. O que ficou na vila na costa francesa que inspirou o nome desta produção para cuidar da propriedade da família, do pai e do restaurante que, para ele, simboliza os sonhos, ideais e exemplo paterno.

Depois de Maurice passar mal, os outros dois filhos dele, Angèle Barberini (Ariane Ascaride) e Joseph (Jean-Pierre Darroussin), voltam para a vila para passar um tempo com o pai e Armand. Nesse momento é que começamos a acompanhar esta produção. A reunião deles acaba tratando sobre o passado e o presente do local – e, na reta final do filme, também sobre possíveis desdobramentos para o futuro.

De forma muito simples e natural, os roteiristas Robert Guédiguian e Serge Valletti pegam aquela história familiar como “desculpa” para tratar sobre diversos temas atemporais e sobre alguns assuntos muito relevantes para os nossos dias. Entre os temas atemporais, vale destacar a influência e exemplo dos pais nas trajetórias dos filhos; a diferença entre o sonho que se tem quando é jovem de mudar o mundo para melhor e o que acontece na prática quando a idade mais avançada chega; e o “envelhecimento” ou “saída de moda” dos ideais hippies e de maior compartilhamento e coletivismo para uma sociedade da “insegurança” e do individualismo que surgiu com a pós-modernidade.

Mais de um personagem nesse filme, mas com um destaque especial para o personagem de Joseph, que tem como uma interessante “antítese” de suas ideias a jovem namorada Bérangère (Anaïs Demoustier), reflete sobre a questão do “sonho acabou” sobre a qual John Lennon já nos falava em 1970. O roteiro de Guédiguian e de Valletti tem alguns bons momentos e sacadas. Mas um dos melhores, para mim, é quando Joseph conversa com Bérangère.

É como se estivéssemos o tempo todo em uma dialética entre a geração de Joseph, que procurou pensar o mundo de uma maneira diferente, mais comunitária e igualitária, e a geração de Bérangère, que pensa de forma prática, funcionalista e que tem pressa de “vencer”. Uma das melhores frases do filme, para mim, é quando Joseph brinca com Bérangère que ela é comunista no coração e capitalista na mente, como todos os demais – ou seja, que ela nem consegue ser original nisso. Achei genial!

Uma questão que perpassa todo o filme é a reflexão sobre como era a vida na vila antigamente e ao que ela se reduziu a atualidade. No passado, quando a comunidade local vivia o ideal de pessoas como Maurice, todas as pessoas, não importa se com mais ou menos recursos, conviviam tranquilamente compartilhando o que tinham e o que podiam fazer para ajudar aos demais. Todos “pegavam junto” e construíram a vila desta forma. Cada um contribuindo com os seus talentos.

Passadas algumas décadas daquele momento, o local tinha se esvaziado. Os moradores, sem grandes “perspectivas” de crescer, estudar ou trabalhar, foram optando por outros locais para viver. Passaram a vender as suas casas – provavelmente para turistas de outras partes, especialmente estrangeiros, que vão para lá apenas no Verão. Alguns não venderam, mas acabaram partindo e passando as propriedades para os filhos.

E aí que nos deparamos com uma história específica deste filme, paralela à da família de Maurice, e que é de cortar o coração. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Martin (Jacques Boudet) e Suzanne (Geneviève Mnich) viviam há décadas na vila, pagando um aluguel baixo para os proprietários. Mas quando os donos da casa morreram, os herdeiros resolveram reajustar o aluguel para “preços de mercado”. Mas os idosos não podiam pagar esse novo valor, e aí cria-se toda uma situação de angústia e de noites sem dormir para eles.

O filho do casal, Yvan (Yann Trégouët), é bem-sucedido e se oferece para pagar as despesas dos pais. Para ele, isso será um prazer e não lhe custa nada. Mas Martin e Suzanne não aceitam. Muitos podem pensar: mas por que tanto orgulho? Por que eles não podiam aceitar a ajuda do filho? Mas a questão é que o buraco é mais embaixo.

Para Martin e Suzanne o que está em jogo é o próprio mundo em que eles vivem – e no qual eles gostariam de viver. Eles tem saudade do tempo em que as pessoas tinham palavra, e de quando uns pensavam nos outros e não apenas em si mesmos. A decepção deles com o novo cenário é tão grande que eles se perguntam se eles ainda tem espaço nesse “novo mundo”.

A inquietude deles é compreensível, e ainda que eu não concorde com a ação final do casal, admito que é lindo o testemunho deles sobre o amor. A carta que eles deixam para o filho é um dos pontos altos do filme – e de cortar o coração. Assim, La Villa nos fala sobre a triste constatação de sonhos e de um mundo melhor que foi deixado para trás, que envelheceu e que não parece mais ter vez.

Mas o que é mais bacana no filme, é que ele trata sobre a questão de que “o novo sempre vem”. Então, ainda que não possamos mais ter aqueles ideais hippies de todos compartilhando tudo com todos, podemos sim decidir, no dia a dia, como fazer diferente em relação ao mundo egoísta, individualista e baseado no produtivismo.

Assim, quando Armand e Joseph encontram três irmãos refugiados (interpretados por Haylana Bechir, Ayob Oaued e Giani Roux), eles, juntamente com Angèle, devem decidir o que fazer. Que mundo eles querem preservar ou ajudar a formar? Como eles vão honrar a memória do pai, de Martin e Suzanne e de tantos outros que viveram naquela vila antes? Certamente não será entregando os irmãos para os soldados. E é isso que eles fazem.

Sem esperar, Angèle, que volta com dor para a vila em que perdeu uma filha, descobre através das três crianças e do “inusitado” e surpreendente amor do pescador e ator amador Benjamin (Robinson Stévenin), uma nova família. Ela redescobre o amor, as cores e a alegria de viver. E outros três irmãos, Angèle, Joseph e Armand, também redescobrem os seus pontos em comum e o amor que eles não compartilhavam mais no dia a dia.

Este é um filme interessante, com poucos personagens e algumas reflexões salutares. Só achei que algumas relações na produção poderiam ter sido melhor exploradas. Achei um tanto “pueril” e exagerada a coletânea de investidas de Benjamin em relação a Angèle. Também achei um tanto mal desenvolvida a busca dos refugiados por parte dos soldados e o “desfecho” de Yvan com Bérangère. Apenas detalhes de desenvolvimento de história que não atrapalham La Villa, mas que não a tornam perfeita.

Ah sim, e já ia me esquecendo de falar dos temas mais contemporâneos da produção. Entre outros, a questão dos refugiados que estão chegando na Europa a cada dia; as vilas e vilarejos “abandonados” de diversos países europeus com a queda da natalidade e com o envelhecimento da população; e o “choque” cultural e de filosofia de vida entre as gerações anteriores e essas que nasceram após os anos 2000.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme funciona muito bem. Ainda que todos os atores façam um bom trabalho, ninguém realmente me “encantou” – talvez apenas Robinson Stévenin com o seu interessante Benjamin.

Além dele, vale comentar o belo trabalho de Ariane Ascaride como Angèle; de Jean-Pierre Darroussin como Joseph; de Gérard Meylan como Armand; de Anaïs Demoustier como Bérangère; da carismática Geneviève Mnich como Suzanne; de Jacques Boudet como Martin; e de Yann Trégouët como Yvan.

Entre os coadjuvantes, vale citar Diouc Koma como o soldado que volta e meia aparece no restaurante da família para falar sobre os refugiados; e dos três garotos que interpretam aos irmãos refugiados: Haylana Bechir, Ayoub Oaued e Giani Roux.

La Villa tem um bom roteiro, mérito do diretor Robert Guédiguian e de Serge Valletti. Ainda que a história tenha bons momentos, alguns diálogos realmente interessantes e um bom equilíbrio entre drama, discursos políticos, reflexões filosóficas, homenagem para a arte e algumas pitadas de comédia, acho que algumas cenas ficaram deslocadas na produção. Mas, no geral, o trabalho da dupla funciona muito bem. Gostei também da direção de Guédiguian, que soube explorar muito bem a parte mais “evidente” da vila e os seus trechos menos evidentes – mas que eram bem conhecidos dos moradores. Ele também sabe valorizar, além da beleza do local, o trabalho competente dos atores.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima e bela direção de fotografia de Pierre Milon; a edição de Bernard Sasia; o design de produção de Michel Vandestien; e os figurinos de Anne-Marie Giacalone.

La Villa estreou em setembro de 2017 no Festival du Film Français d’Helvétie-Bienne. Depois, o filme passaria, na sequência, por três festivais de cinema importantes: o de Veneza, o de Toronto e o de San Sebastián. Além destes, La Villa fez uma incursão por outros oito festivais em diversos países.

Nesta trajetória de festivais, La Villa conquistou dois prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram no Festival de Cinema de Veneza: o Prêmio SIGNIS e o Prêmio UNIMED, ambos para o diretor Robert Guédiguian.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filme – e nenhuma negativa. Essa avaliação dos críticos do Rotten Tomatoes dá para este filme um nível de aprovação raro de 100% – e uma nota média de 7,2. O site Metacritic, por sua vez, registra o metascore 64 para La Villa – fruto de duas críticas positivas e de duas críticas medianas.

La Villa é uma produção 100% francesa. De acordo com o site IMDb, esse filme teria custado cerca de 3,2 milhões de euros – me parece um custo baixo. Não consegui informações sobre o resultado do filmes nas bilheterias francesas e de outros países, mas acho que esta produção não terá muitas dificuldades em conseguir registrar lucro.

CONCLUSÃO: Três irmãos com características diferentes e complementares se encontram depois de um longo período separados no lugar em que eles cresceram. Eis uma história sobre família e sobre escolhas. Que trata de um sonho que se materializou por algum tempo mas que não resistiu à mudança trazida pelo passar do tempo. Um filme que fala sobre como alguns lugares incríveis foram se esvaziando de pessoas incríveis, mas que os herdeiros de tudo aquilo ainda podem ser atores de gestos belos. No fim das contas, o que interessa são as mãos grudadas e o amor. Sempre. Mais um belo filme do cinema francês. Bem contado, com ótimos atores e o foco em alguns valores importantes.

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