The Crowd – A Turba


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O cinema foi construído com filmes incríveis e uma vasta coletânea de cenas marcantes. Certamente uma destas sequências que marcaram a história do cinema faz parte deste The Crowd. Impressiona pensar que este filme, dirigido por King Vidor, completou 90 anos em 2018. Uma história impactante para a época, certamente, e que mesmo tantas décadas depois, ainda causa impacto. Apenas um dos “patriarcas” do cinema e um dos nomes que inspiraram vários outros realizadores seria capaz de fazer isso.

A HISTÓRIA: 4 de julho de 1900. O país está em festa! Fogos de artifício! Desfiles! Piqueniques! Todos celebrando o aniversário dos 124 anos da América! Na frente de uma casa de estilo vitoriano com a bandeira americana, vemos a um desfile de charretes e de pessoas orgulhosas. Mas a narrativa pergunta o que “uma pequena coisa” como a Declaração da Independência pode ser comparada ao grande evento que está acontecendo na casa dos Sims.

Na residência, um pai orgulhoso espera ansioso pelo nascimento de seu filho. A criança nasce, o médico dá algumas palmadinhas no bebê e o pai diz que “o mundo irá ouvir falar desse menino”. O pai comenta que garantirá todas as oportunidades possíveis para o filho Johnny. Doze anos depois, o garoto tem um futuro promissor. Recita poesias, toca piano e canta em um coral, como antes fizeram ex-presidentes como Lincoln e Washington. Essa produção vai contar a história de Johnny, que simboliza a de tantos outros americanos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Crowd): Fiquei impressionada com esse filme. Mais que nada, com a técnica diversificada e interessante adotada por King Vidor no longínquo ano de 1928. Impressionante assistir a um filme como esse, tão bem acabado e com uma narrativa envolvente, apesar da “estranheza” que o cinema mudo desperta nas pessoas atualmente.

Mas olhando especificamente para a técnica, para os ângulos e para a dinâmica das câmeras, King Vidor nos apresenta neste The Crowd um belo repertório que seria, no futuro, adotado por dezenas de outros diretores. A dinâmica inicial do filme, para mim, é o que a produção tem de melhor. Não apenas a apresentação do protagonista e das suas origens, mas também o exame do diretor da vida “comum” americana e a forma com que ele retrata Nova York e a vida em uma grande cidade.

O roteiro de King Vidor e de John V.A. Weaver, com legendas/titulares de Joseph Farnham, nos conta uma história muito interessante, na essência. The Crowd é a narrativa de um garotinho que nasce enchendo o pai de esperanças, com sonhos de ser alguém grande, mas que cai na vida regular de outros milhões. John vai para Nova York aos 21 anos e diz que tudo que ele deseja é uma oportunidade. Com ela em mãos, ele vai conseguir realizar os seus sonhos de grandeza.

Em resumo, The Crowd nos fala do bom e velho “sonho americano”. Daquela sociedade em que todos tem a oportunidade de realizarem os seus sonhos e de serem grandes. Mas o fato é que poucos acabam se diferenciando da multidão. E esse filme, de fato, trata sobre isso. Sobre o sujeito comum que faz parte de uma grande repartição e que acaba seguindo o mesmo “comportamento de manada” da maioria.

Um dia importante na vida de John foi quando, ao invés de sair do trabalho para estudar, ele sai para passear com o colega Bert (Bert Roach) e duas garotas que ele convidou para sair. Nesse dia o protagonista deste filme deixa para trás a possibilidade de tornar-se alguém diferenciado ao investir nos estudos e, em troca disso, ele se apaixona por Mary (Eleanor Boardman).

Claro que conhecer a garota não é o seu problema. Mas o próprio comportamento de John após ele se casar. A partir daí, ele se acostuma ao menor esforço possível e continua apenas com a rotina de casa-trabalho-casa. Não volta a estudar e não se esforça em fazer nada além do básico. Aos poucos, ele cai na rotina com a esposa, e passa a criticá-la por ninharias do cotidiano. O casamento se desgasta, mas antes de abandonar a residência, Mary conta para o marido que está grávida.

Desta forma, pouco a pouco, o protagonista de The Crowd vai se distanciando cada vez mais do sonho de ser alguém diferenciado e que terá relevância na sociedade para tornar-se um sujeito extremamente comum. Para mim, o filme perde um pouco o interesse justamente quando entra no modelo de vida comum da época. Ou seja, com John deixando todas as responsabilidades da casa para Mary, inclusive os cuidados dos filhos (interpretados por Freddie Burke Frederick e por Alice Mildred Puter).

Por sua própria escolha e postura, John se torna um sujeito comum, nada extraordinário. Essas dificuldades cotidianas, o desgaste do casamento e a frustração do homem que percebe a diferença brutal entre a sua realidade e os sonhos originais, são mostradas com maestria por King Vidor. Ainda que não exista muita surpresa nessa fase do filme, a narrativa é envolvente por causa do trabalho dos atores, da trilha sonora e da busca constante de King Vidor de mesclar drama com comédia.

Assim, depois daquele começo envolvente, The Crowd cai um pouquinho em uma história morna, até que um grande momento na vida de John e Mary é seguido de um fato dramático e crucial. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo depois de um dia na praia, John pensa em uma campanha que acaba rendendo um ótimo prêmio em dinheiro para a família. Para a época, US$ 500 era uma pequena fortuna. John chega em casa com presentes e com o prêmio.

O momento é de muita comemoração mas, em seguida, vemos a uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme das primeiras décadas do cinema. O atropelamento fatal da filha do casal é perfeitamente filmado por King Vidor, que demonstra, naquela sequência, maestria em causar impacto nos espectadores. Se, hoje em dia, achamos aquela cena impactante, imagina as pessoas em 1928? Não por acaso esse filme marcou a época e essa cena, muitas vezes, é lembrada como uma das sequências mais importantes da história da Sétima Arte.

Desta forma, King Vidor não nos conta apenas a história de um sujeito comum e de uma família “ordinária”. Ele nos mostra a beleza, a alegria, a suavidade, o amor, a brutalidade e a tristeza que uma vida normal pode contemplar. Mas há crítica social nessa produção também.

Em certo momento, o roteiro de Vidor e de Weaver questionam como, para a “multidão”, só interessa as pessoas produtivas e que tem uma vida como a de todos os demais. Quando John pede demissão e fica desempregado, ele sente o desprezo dos demais por não ser um “provedor” eficiente para a família dele.

Nesse ponto, o roteiro afirma como “a turba” só está tranquila e satisfeita quando todos seguem o padrão e se parecem. Por incrível que pareça, até hoje, 90 anos depois, muitas vezes parece que é assim que funciona. Quem difere da maioria e quem procura ser um “espírito livre”, como comenta Nietzsche, ou é tachado de maluco, ou simplesmente é ignorado pelos demais. A pessoa não se “encaixa”, e The Crowd demonstra muito bem, em diversas cenas, como tudo que muitos querem é se sentir “pertencendo” à multidão.

No fim das contas, em certo momento da vida, até podemos pensar em fazer a diferença e em sermos pessoas “diferenciadas” ou “especiais”. Mas depois, por causa das cobranças e da exigência da mediocridade, tudo o que queremos é sermos “mais um”. Ao menos é essa reflexão que King Vidor nos apresenta nesse The Crowd. Sem dúvida alguma um grande trabalho de um grande diretor.

Tecnicamente inovador e com narrativa envolvente, o filme acerta, especialmente, quando reflete sobre os sonhos do indivíduo em contraste com as expectativas da coletividade. Interessante ver a trajetória do protagonista, com começo tão promissor e cheio de sonhos do pai dele, com o homem que ele se tornou no final.

Algo que John aprendeu – e que The Crowd parece nos ensinar – é que, no final das contas, ser um sujeito comum não é tão ruim assim. A lição do palhaço e a do espetáculo com todos se comportando igual faz pensar – e mostra a necessária humildade que John e todos nós deveríamos ter. Para a época em que este filme foi feito, sem dúvida alguma ele está acima da média. Merece ser visto e apreciado.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ufa! Estamos em agosto e, finalmente, retomo por aqui a seção Um Olhar para Trás com produções que estão fazendo “aniversário” em 2018. Começo esse resgate com The Crowd porque este é um dos filmes que aparecem na obra 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. A ideia é ir intercalando esses filmes recomendados pelos especialistas como alguns dos melhores de todos os tempos com novas produções que estão saindo nos cinemas nesse ano.

Como manda o manual dos filmes mudos, The Crowd tem na trilha sonora dramática e cuidadosamente planejada de Carl Davis um de seus trunfos e elementos principais. Sem diálogos, os filmes mudos precisavam dessas trilhas sonoras para ajudar na narrativa, dando o tom exato de cada fase e momento da produção. Um trabalho excelente e sem retoques de Carl Davis nesse filme.

Além da trilha sonora, claro que o grande ponto de atenção nesse filme é a direção de King Vidor. Ele dá uma pequena aula de cinema, mostrando algumas dinâmicas de câmera e ângulos que seriam depois utilizados por diversos outros realizadores. Bastante dinâmico, The Crowd também tem na edição ágil de Hugh Wynn um ponto fundamental. Além destes nomes, vale citar o trabalho de Henry Sharp na direção de fotografia; de Cedric Gibbons e de A. Arnold Gillespie no Departamento de Arte; e do grande produtor Irving Thalberg na produção.

O roteiro, como comentei antes, tem um grande começo e, depois, perde um pouco a “novidade” e a força. Ainda assim, dá para perceber que The Crowd foi um trabalho feito com muito esmero e cuidado. Os roteiristas King Vidor e John V.A. Weaver, com a ajuda dos titulares/legendas de Joseph Farnham, cuidaram de equilibrar sempre o drama, o romance e a comédia. Nunca pesaram a mão muito em um destes elementos – talvez, um pouco demais, na comédia. Mas algo compreensível para a época. O filme nasceu de uma história original de King Vidor e contou com uma adaptação desta história feita por Harry Behn – que não teve esse trabalho de adaptação creditado.

Para o filme funcionar como ele funciona, grande parte do mérito é dos atores principais. James Murray como John e Eleanor Boardman como Mary fazem um trabalho excepcional. Muito carismáticos e expressivos, eles seguram a narrativa do início ao fim. Além deles, vale citar o trabalho de Bert Roach como Bert, um amigo não muito amigo de John; Estelle Clark como Jane, amiga de Mary; Daniel G. Tomlinson como Jim e Dell Henderson como Dick, irmãos de Mary; Lucy Beaumont como a mãe da protagonista; e Freddie Burke Frederick e Alice Mildred Puter como os filhos do casal John e Mary.

The Crowd estreou no dia 18 de fevereiro de 1928 em Nova York. Naquele mesmo ano ele estreou no Reino Unido, na Argentina e na Espanha. Essa produção ganhou um prêmio do National Film Preservation Board em 1989 e concorreu e duas categorias do Oscar 1929 – mas não levou nenhuma estatueta para casa.

Agora, vale comentar algumas curiosidades sobre esse filme e as pessoas envolvidas nele. Algum tempo depois de The Crowd ter sido lançado, o alcoolismo cobrou o seu preço do protagonista desta produção. James Murray, alcoólatra, acabou mendigando nas ruas. Ironicamente, uma das pessoas para quem Murray pediu dinheiro foi King Vidor, que acabou oferecendo para o ator um papel no filme que é um tipo de sequência de The Crowd, Our Daily Bread, lançado em 1934. Murray recusou o trabalho, pensando que ele tinha sido oferecido para ele apenas por pena. O ator acabou morrendo afogado em 1936, com apenas 35 anos de idade.

Apesar do sucesso de crítica e de público – o filme foi bem nas bilheterias, na época -, o chefe da MGM, Louis B. Mayer, menosprezou The Crowd. Em parte, por causa do “tema deprimente” do filme. E, por outro lado, porque Mayer achou o filme “obsceno” por apresentar um banheiro com um sanitário aparecendo.

King Vidor rodou diversas cenas nas ruas de Nova York mostrando multidões reais. Essas cenas incluíram não apenas moradores da cidade, ao invés de figurantes, mas também ônibus, trens e até policiais reais. Essa escolha dá para perceber quando vemos ao filme, e é uma das “graças” da fase inicial dessa produção.

O diretor filmou nada menos que nove finais diferentes para The Crowd antes de escolher o final que vemos em cena. A razão para ele rodar tantas versões é que King Vidor sabia que a MGM não gostava de lançar uma produção sem um final positivo. Isso explica melhor aquela reviravolta um tanto estranha do final desta produção. Ela, em si, não faz tanto sentido, mas por causa deste detalhe do estúdio, fica mais fácil de entender.

Na década de 1960, perguntaram para Jean-Luc Godard porque ninguém mais estava fazendo filmes sobre pessoas comuns. Ele respondeu: “Por que refazer The Crowd? Isso já foi feito”. Realmente. Achei esta produção um dos filmes mais emblemático sobre o “sujeito comum”.

Antes de fazer The Crowd, King Vidor tinha alcançado um grande sucesso nas bilheterias com os seus filmes anteriores. Com esse prestígio, ele conseguiu convencer o chefe de produção do estúdio MGM, Irving Thalberg, de que tinha chegado a hora de fazer um filme mais “experimental”. Thalberg gostou da ideia, até porque ele achava que os estúdios, de tempos em tempos, deveriam fazer filmes que lhe dessem prestígio – e não apenas lucro. Mas o chefe da MGM, Louis B. Mayer, não gostou nada de The Crowd. Ela achava que o filme abordava um “assunto sombrio” e tinha um “final triste”. Na fase de apresentações dos filmes para o Oscar, Mayer chegou a pedir para os colegas que não votassem em The Crowd para o prêmio. Realmente ele jogou contra “o time”. 😉

King Vidor não quis nenhuma grande estrela nesta produção. Na época, James Murray era um extra do estúdio que foi descoberto pelo diretor, e Eleanor Boardman era uma atriz com pouco destaque até então – além de ser a segunda mulher do diretor.

Thalberg achou que o filme não decolaria – mas topou realizar a produção porque King Vidor já tinha dado muito lucro para a MGM. Para a surpresa dele – e de outras pessoas -, The Crowd arrecadou mais do que o dobro dos seus custos.

Agora, vale comentar o trecho inicial do texto de The Crowd escrito por David Sterritt para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer: “‘Você tem que ser bom naquela cidade se quiser vencer a multidão’. É o que diz o jovem John quando vê pela primeira vez a cidade de Nova York, a empolgante metrópole na qual ele tem certeza de que seus talentos o farão se destacar da massa. As coisas não saem como planeja o herói de The Crowd, que, na verdade, não deveria ser chamado de herói, uma vez que a intenção do diretor King Vidor era retratar um homem tão comum que poderia ter sido retirado a esmo da turba urbana do título. Ele começa a história como um recém-nascido como qualquer outro e termina como um burguês nova-iorquino como qualquer outro. Nesse meio-tempo, passa por experiências tão enfadonhas que somente um estúdio tão ousado quanto a MGM sob o regime de Irving G. Thalberg poderia ter considerado o material digno de um drama hollywoodiano”.

Como sempre, o texto do livro merece ser apreciado na íntegra. Recomendo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para The Crowd – o que garante para o filme uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1.

The Crowd é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog. The Crowd também faz parte da lista de produções que integram a seção aqui do blog Um Olhar para Trás.

CONCLUSÃO: Bom voltar a revisitar a lista dos grandes filmes do cinema mundial de todos os tempos. Essa produção, uma das principais da carreira do grande diretor King Vidor, realmente merece ser apreciada. Nesse filme, encontramos algumas das técnicas principais de direção que fizeram parte de grande parte do cinema. E mesmo que a história de The Crowd hoje pareça um pouco “datada”, ela levanta ao menos um grande tema ainda pertinente: o “poder das massas” e a necessidade do homem e da mulher modernas fazerem parte dessa “massa”.

Um filme impressionante pelas técnicas utilizadas, pelo belo trabalho dos atores, pelo tema central e, principalmente, por uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme dos anos 1920. Para quem gosta de “visitar” aos grandes nomes do cinema e as suas obras-primas, não dá para escapar deste The Crowd. Tecnicamente muito bem feito, o filme só não emplaca uma nota maior porque ele realmente tem uma narrativa de família e de sociedade muito datada. Ainda assim, como comentei antes, é imperdível para quem gosta de filmes clássicos.

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