Categorias
Cinema Cinema espanhol Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2026 Movie Oscar 2026

Sirât


Um filme diferente do que a gente está acostumado a ver e que apresenta mais de um tipo de leitura. Você pode olhar para a história de Sirât de uma forma mais direta e objetiva, com um olhar prático sobre a história, ou de uma forma mais “filosófica”. Não importa muito qual a sua escolha. O que vai ficar, no final, depois de ter passado pela experiência de assistir ao filme, é um bocado de perplexidade. Algo que, quando paramos para pensar, acontece em algumas ocasiões da vida também. Mas eis uma produção interessante, que nos provoca em alguns sentidos e que procura chocar o espectador de forma cirúrgica.

A HISTÓRIA

Começa com uma explicação sobre a palavra Sirât. O texto diz: “Existe uma ponte chamada Sirât que une o inferno e o Paraíso. Quem cruza essa ponte é alertado de que ela é mais estreita que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada”. Em seguida, vemos várias mãos ajeitando diversas caixas. Eles estão montando um paredão de som. Várias pessoas estão ajudando naquela montagem, inclusive os amigos Josh (Joshua Liam Herderson) e Tonin (Tonin Janvier). Mas só vamos saber os nomes deles tempos depois.

As caixas são ligadas. Vemos o paredão formado com montanhas ao fundo. Estamos no deserto. Vemos diversos paredões, todos exuberantes, em sequência, até que a tarde começa a cair. E então um grupo grande de pessoas dançando. Eles bebem, conversam, interagem e, sobretudo, dançam seguindo a batida da festa. De um plano mais geral, a câmera vai se aproximando de algumas pessoas específicas para mostrar como elas dançam.

Quando algumas pessoas aparecem em cena, o crédito dos atores também aparece. Ainda não sabemos disso, quando vemos eles dançando em cena, mas esse pequeno grupo vai conduzir boa parte dessa história. Esse grupo de amigos, uma família que eles mesmo criaram, é formada por Josh, Tonin, Steff (Stefania Gadda), Bigui (Richard “Bigui” Bellamy) e Jade (Jade Oukid). A viagem deles em busca de outra festa, acompanhados de Luis (Sergi López) e Esteban (Bruno Núñez Arjona) será o centro dessa história.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sirât): Vou admitir que levei um bom tempo para concluir o que eu tinha achado desse filme. Enquanto ele se desenvolvia, passei por diferentes sensações e tive algumas leituras distintas da produção. Certas escolhas me incomodaram um pouco, porque achei um pouco “forçadas”, talvez, para chocar e surpreender, mas conforme eu ia mergulhando na reflexão sobre Sirât, fui entendendo que esse filme pode ter muitas e muitas leituras.

Acho que Sirât pode ser entendido, basicamente, de duas formas: de uma maneira mais “ligeira”, mais superficial, digamos assim, e de uma maneira mais profunda, mais filosófica. Por ser um filme nada óbvio, acho que a nossa reflexão sobre ele também não pode ser ligeira. Mas, como sempre, é claro, pelo fato do cinema ser uma experiência totalmente individual, fica à critério de cada um o tipo de leitura que fará desse filme – se mais direta, superficial ou filosófica. Digamos que fica a critério do “freguês”.

Bem, primeiro eu vou tratar da leitura mais simples e direta. Sirât nos conta a história de diferentes pessoas em busca. De algo ou de alguém. Pessoas muito diferentes entre si, não apenas pelo aspecto físico e pelo local de nascimento, mas, sobretudo, pelo momento de vida que cada um está passando quando eles se aproximam e passam a viver uma parte importante dessa jornada juntos.

Vamos à história de Sirât. Temos uma galera que está no meio do deserto curtindo uma festa rave. O número de pessoas é considerável, mas não é imenso. Naquele cenário de música eletrônica tocando alto e de pessoas dançando de dia e de noite, circula em meio àquele grupo duas figuras não muito comuns nesse ambiente: um pai e um filho. Pessoas comuns, percebemos, conforme elas circulam entre aqueles que estão curtindo a festa.

Vale reforçar algo que eu disse antes: todas aquelas pessoas se encontram em um ambiente nada propício para a vida humana, o deserto. Apenas isso já é um ponto que chama a atenção. O que eles foram fazer lá, minha gente? Ok, o cenário tem a sua beleza. Não vou negar. Mas quem realmente iria para o deserto para curtir todas sem pensar nos perigos disso? Claro que tem várias pessoas que fazem isso e o filme foca em alguns exemplos disso, mas é de se fazer pensar – e essa reflexão virá depois de forma inevitável nessa produção.

Bem, é nesse cenário naturalmente inóspito em que vamos pessoas muito diferentes se encontrando. O pai, Luis (Sergi López), acompanhado de seu filho mais novo, um rapaz bem jovem ainda, Esteban (Bruno Núñez Arjona), circula em meio às pessoas que foram até o deserto para curtir espalhando panfletos de “Procura-se”. Luis e Esteban estão procurando por Mar, filha de Luis e irmã de Esteban.

Quando os dois encontram alguns “festeiros” sentados em um morro, separados dos demais, Luis comenta que está buscando a filha, de quem eles não sabem nada há cinco meses, e que falaram pra ele que talvez eles conseguissem encontrá-la naquela festa. Ou seja, eles saíram da Espanha, provavelmente, para procurar a garota no Marrocos, onde a história se passa.

Luis e Esteban falam com muitas pessoas da festa, mas eles acabam trocando mais informações com o grupo formado por Steff (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Bigui (Richard ‘Bigui’ Bellamy), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid). O grupo dá mais atenção para pai e filho, principalmente as mulheres, Steff e Jade. São elas que comentam que se Luis e Esteban não encontrar Mar na festa onde eles estão, talvez possam encontrá-la em outra festa que será promovida no deserto na sequência.

Tudo segue na normalidade naquela festa sem fim até que os militares chegam para dispersar os turistas. O comandante diz que eles estão, a partir daquele momento, em estado de emergência, que aquela área passou a ser restrita e que os europeus devem entrar em seus veículos e sair. Um comboio acaba se formando, e os veículos seguem em fila, até que os dois veículos nos quais viajam o grupo formado por Steff, Josh, Bigui, Tonin e Jade escapam do comboio e seguem por outro caminho.

A ideia do grupo é ir para a festa seguinte. Eles não vão seguir as ordens dos militares e deixarem o país. Quando os veículos do grupo deixam o comboio, Esteban pede para o pai segui-los. Luis fica em dúvida, por alguns segundos, mas acaba fazendo isso. Claro que o garoto e o pai não tem noção sobre o verdadeiro perigo do deserto e não tem ideia sobre o quanto distante a próxima rave estará, mas Esteban quer encontrar a irmã e ele já está um pouco fascinado por aquele grupo diferente. Para ele, ainda uma criança, tudo aquilo é uma grande aventura.

E daí o filme segue com esse grupo bastante improvável e heterogêneo seguindo deserto adentro em três veículos com portes e capacidades de locomoção muito diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honestamente? Desde o início eu achei uma loucura Luis e Esteban seguirem o grupo de amigos, que virou uma família, daquele jeito. Em um veículo totalmente inapropriado e seguindo sem terem a mínima noção por onde eles teriam que passar. Achei loucura.

Mas há quem dirá que o amor move montanhas, e que um pai e um irmão que amam muito a filha/irmã “desaparecida”, são capazes de tudo para encontrá-la. Ok, de fato o amor é capaz de fazer as pessoas agirem de forma impulsiva, com grande vigor e muitas vezes sem pensar direito. Mas muitas vezes esse amor sem reflexão leva realmente a tragédias. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é exatamente isso o que vemos aqui em Sirât.

Então acompanhamos aquele caminho que parece não ter fim, até que o trajeto, que já era complicado, fica ainda mais difícil e arriscado quando o grupo de amigos, que sabe para onde eles devem ir, decide evitar as estradas principais do país e pegar um caminho alternativo pelas montanhas. Que ideia! Logo de cara a gente pensa que aquilo não poderia terminar bem.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E, realmente, não termina nada bem. Mas é impressionante como o diretor e roteirista Oliver Laxe, que escreveu o roteiro de Sirât juntamente com Santiago Fillol, nos pega de surpresa mesmo assim. Ok, vendo os três veículos percorrerem aquele caminho alternativo, até pensamos que algo de ruim pode acontecer, mas ninguém está preparado para o que realmente acontece. Principalmente porque a tragédia acontece de dia, quando tudo parece relativamente controlado e está tudo calmo, e o acidente ocorre da maneira mais besta possível.

Mais do que isso, ficamos chocados com a forma como tudo se desenvolve. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como acontece na vida real, o acidente ocorre por uma besteira, por um detalhe, e poderia ter sido facilmente evitado. Não sei se Luis acabou se culpando ou não, mas é fato que se ele não tivesse mandado o filho entrar no carro, porque estava com medo do garoto escorregar e cair penhasco abaixo, talvez nada de ruim tivesse acontecido. Ou não, vai saber. A tal culpa é um negócio estranho. Vem sem motivo algum e pode assombrar alguém por muito tempo. E há quem acredite que “não dá para enganar a morte”, que “quando chega a hora da pessoa”, nada pode ser feito. Enfim, a questão filosófica fica a gosto de cada um, mas nada tira a dor de uma perda tão absurda e a perplexidade de quem está assistindo.

A partir daquele momento, que é um acontecimento decisivo do filme, Sirât entra em mais uma jornada que parece não ter fim – e nem muito sentido. Antes o grupo viajava para chegar até o Sul do Marrocos, onde será promovida a outra festa, e agora eles viajaram para que mesmo? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Luis parece motivado a encontrar uma forma de chegar até o local onde o veículo dele caiu para encontrar o corpo de Esteban. O restante do grupo parece querer ajudá-lo nisso, mas tem um momento que eles param e parecem apenas estar procurando alguma ajuda, alguém para auxiliá-los nessa busca.

E essa foi a primeira questão que eu achei estranha no filme e que não quadra muito para mim. Certo que eles não poderiam ter descido de forma imediata e sem equipamentos adequados aquele desfiladeiro para ver como estava Esteban. Aparentemente, apesar do grupo de Steff, Josh, Bigui, Tonin e Jade estarem acostumado a transitar no deserto e viajar pelo Marrocos, os veículos deles, cheios de aparatos, não tinham cordas ou equipamento de escalada. Ok, até posso engolir isso.

Mas então eles seguem estrada adiante, descem daquelas montanhas, e não conseguem seguir por baixo até o local em que o terceiro veículo caiu? Estranho, não? Eu achei. Parece que eles seguem por um caminho sem fim, sem muita direção, em busca de uma ajuda que será muito difícil de conseguir em um local tão inóspito e em um país que está em convulsão social. Enfim, olhando pela parte prática da história, me pareceu uma viagem sem muita lógica a partir da tragédia.

Enquanto Luis tenta lidar com a dor e o restante do grupo procura apoiá-lo, eles chegam em um local onde encontram alguns sinais de vida, e até encontram um local, um pastor, mas eles não conseguem se comunicar e eles não conseguem ajuda. Então eles seguem por mais um tempo, até que param em um local para descansar. O grupo decide tomar “um chá” (ayahuasca ou algo similar) que eles dizem que vai fazer bem para eles. Colocam as caixas de som que Jade gosta de reciclar e reaproveitar e começam a dançar.

E daí vem a segunda parte impactante da produção – e que muda tudo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sendo até um pouco irônicos nesse momento, os roteiristas da produção literalmente explodem Jade depois que ela pede para aumentarem o som “até explodir tudo”. O grupo está em um campo minado, literalmente, e procuram entender de que forma vão sair dali sem explodirem também.

E daí Sirât comete o seu primeiro erro narrativo, a meu ver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eles chegaram até ali seguindo um determinado caminho. Ora, para sair dali, por que eles não deram marcha à ré, literalmente? Parece um pouco óbvio que se os veículos não explodiram antes, eles poderiam seguir a mesma trilha e se salvarem, não é mesmo? Mas não, os roteiristas de Sirât decidiram que os personagens seguiriam por caminhos ainda imprevisíveis e onde todos poderiam morrer.

Alguém poderia dizer: ah, mas eles não pensaram direito porque estavam todos chapados. Certo que Luis não usava nenhuma substância psicoativa até então – pelo menos o filme não nos mostrou isso antes. Mas não apenas o restante do grupo estava habituado a isso como se passam muitas horas entre as primeiras explosões e as tentativas do restante do grupo de escapar daquela situação. Ou seja, o efeito do chá já tinha passado e eles poderiam pensar em uma saída melhor.

Tanto que eles não se jogam no imprevisível sem tentar antes algumas alternativas, como usar os veículos primeiro. Então não era uma questão de estarem “doidões” e, por isso, não terem pensado direito. Honestamente, achei aquela sequência um pouco forçada porque justamente não convence muito.

E não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando: ok, depois disso, vamos chegar aonde? Eles vão seguir à pé até quando, até que ponto? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E então temos aquele desfecho da história em que os sobreviventes são colocados sobre um trem, juntamente com vários outros sobreviventes – e, estes sim, aparentemente, população local e não turistas como Luis, Steff e Josh.

Diante dessa narrativa, com diversos acertos e ao menos um erro, o que podemos concluir de Sirât? Para mim, existem as conclusões mais óbvias e a leitura mais superficial da história e uma leitura um pouco mais aprofundada, digamos assim.

A primeira leitura mais óbvia é de que todas as pessoas estão empreendendo uma viagem sem fim. Que sempre estamos buscando algo – seja amor, família, segurança, liberdade, transcendência. Luis e Esteban estavam buscando uma pessoa que eles amavam e que da qual eles sentiam falta. Eles eram movidos pelo amor e pela saudade. Viajaram longe para tentar esse reencontro.

Steff, Josh, Bigui, Tonin e Jade viajavam em busca de amor, prazer, sentido de comunidade e/ou de família, companheirismo, transcendência que eles sentiam com a música eletrônica e com o uso de substâncias psicoativas. Mesmo tendo origens tão diferentes, pai e filho e o grupo de estranhos que se tornou uma família estão buscando amor, fraternidade, compreensão, acolhimento.

Essa é uma forma de Sirât nos dizer que para além dos preconceitos que uns grupos possam ter pelos outros e dos estereótipos que algumas vezes são “vendidos” sobre raves e pessoas que curtem essas festas sem fim, existe muita fraternidade, amor e acolhimento ali. Percebemos isso claramente em como o grupo de Steff, Josh, Bigui, Tonin e Jade acaba se relacionando com Luis e Esteban. Eles podem até ser “doidões” e estarem chapados por uma parte importante do tempo, mas eles são muito solidários, empáticos e acolhedores. Eles vivem em comunidade, afinal de contas.

Mas então por que uma busca tão bonita como a que todos eles estão fazendo acaba da forma como ela acaba? O que explica tanta tragédia? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação aqui pode ser variada, mas eu entendo que Sirât nos fala sobre como a vida muitas vezes não tem sentido. Assim de simples. Pessoas “que não deveriam morrer” morrem, enquanto quem fica tem que lidar com a perda e seguir em frente sem saber muito bem como fazer isso. A vida é cruel, muitas vezes, e, sobretudo, muito, muito efêmera.

Com essa constatação, Sirât parece querer nos dizer que, por tudo isso, precisamos realmente nos lançar e desfrutar da viagem. Porque o que conta, realmente, é a viagem, muito mais do que o ponto de chegada. Porque, afinal de contas, nunca sabemos se vamos chegar, de fato, onde gostaríamos ou desejávamos. O caminho é cheio de perigos, e muita coisa pode acontecer enquanto procuramos seguir em frente. Inclusive tragédias, inclusive perdas inomináveis.

Uma outra leitura sobre essa história é mais pé no chão, digamos assim. Sirât mostra também os perigos que uma pessoa ou um grupo de pessoas podem passar ao fazerem turismo e embarcarem em “aventuras” em locais distantes, onde elas não conhecem bem o terreno e onde elas não conseguem se comunicar direito. Quantas tragédias já vimos – e seguimos vendo – de pessoas que vão parar em locais perigosos e acabam pagando um preço alto por causa disso?

Nenhum local é livre de perigo. Mesmo um país onde os conflitos não são comuns pode, do dia para a noite, passar por algo complicado. Fazer turismo é bacana, é uma das melhores coisas da vida, mas muita gente se arrisca mais do que deveria. Ok, muitos se salvam e vivem a experiência. Mas quantos ficam no caminho? Acho que esse olhar um pouco crítico para os europeus que saem por aí explorando locais que eles não conhecem e que eles consideram exóticos sem antes buscarem mais informações sobre esses locais, suas histórias, culturas e etc., é um outro ponto interessante – e necessário – do filme.

Nesse sentido, achei especialmente interessante aquela sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os sobreviventes de tanta tragédia, Luis, Steff e Josh, acabam sobre um trem cheio de pessoas locais que parecem estar fugindo da morte – seja causada pelo conflito que está ocorrendo no país, seja pela fome. Todos estão na mesma condição. E não estamos todos nesse mesmo trem? Todos procurando sobreviver, seguir adiante, fugir da morte ou adiar ela o máximo possível? Se é que isso é possível…

Acho que Sirât trata bastante sobre como quase tudo nos aproxima, e que se não dermos muita importância para o que nos distancia, podemos todos empreender uma viagem juntos na mesma direção. A essência da utopia, com certeza, mas não deixa de ser uma mensagem bonita. Acho que outra leitura que o filme nos permite é que apesar de sermos motivados pelo amor, compartilharmos de momentos importantes e buscarmos a fraternidade e algo de transcendência, coisas ruins vão acontecer no caminho. Talvez não com todos, mas alguma experiência traumática será quase inevitável.

Claro que chama muito a atenção a escolha da história pela primeira perda que temos na narrativa. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Parece totalmente sem sentido justamente o menino morrer, a pessoa mais pura e com maiores perspectivas de futuro do que todos os demais. Mas a vida realmente não é bastante sem sentido? Quem explica a morte de uma criança? E, apesar disso, elas acontecem todos os dias… e como Luis vai seguir seu caminho agora, tendo “perdido” seus dois filhos? A gente só consegue roçar no que pode ser a dor daquele pai… e em seguida existem outras perdas sem sentido. E mais famílias sendo destruídas. Parece que Sirât nos fala que é assim mesmo, que a dor nos atravessa sem aviso prévio e que não adianta querermos achar sentido na perda de quem amamos, porque não há sentido – ou ao menos não alcançamos esse sentido de forma lógica.

Fiquei pensando, depois que o filme acabou, um pouco sobre o título e sobre o seu significado. Logo o início da produção, somos apresentados para a definição da palavra Sirât. Pois bem, pensando então na ponte que une “céu e inferno”, fiquei pensando se aqueles trilhos do trem e o próprio veículo em si seriam essa ponte estreita onde poucos passam.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A exemplo do que acontece com o grupo que protagoniza essa história, será que a cada quatro pessoas que morrem sobrevivem três? O deserto e o que acontece ali, as mortes trágicas, seria o simbolismo do inferno e o trem seria a ponte que vai levar os sobreviventes para o paraíso? Ou quem morreu foi para o paraíso e quem segue por aqui segue no inferno? O deserto que é um personagem frequente dessa história também pode simbolizar o vazio existencial que todos nós temos e a busca de cada pessoa da história a nossa procura por sentido?

Pensando nisso, acho que o final “em aberto” é um belo desfecho, ainda que alguns possam não gostar dele, porque novamente Sirât está reafirmando com essa escolha que importa menos o destino e mais o caminho, a estrada, o caminhar. E o que vivemos e compartilhamos nesse caminho. Porque o restante é incerto, imperfeito, e tudo pode acabar em um piscar de olhos. Viva a vida, é o que Sirât parece gritar a todos os pulmões. Ou em uma caixa de som no último volume.

Achei interessante também a escolha dos sobreviventes escaparem daquele local inóspito de trem. Porque esse veículo, diferente de outros, segue em uma linha reta, por trilhos, sem possibilidade de marcha ré ou de mudança de direção. O caminho é conhecido, previsível. É como se, diante de tanta incerteza da vida e do deserto, finalmente aquelas pessoas, todas sobreviventes de algo, tivessem alguma certeza pela primeira vez – o trilho adiante. Todos ali perderam alguém ou algo e terão que ressignificar as suas vidas. E só existe essa solução.

Um belo filme, muito interessante, especialmente por ter uma forma de contar a história que não é comum. Gostei de como o diretor explorou os locais e as sensações muito bem. Mas acho que o roteiro tem pelo menos um ou dois furos importantes. Questões que acabam não sendo bem explicadas e que não convencem muito. Também acho que o filme gasta muito tempo nessa viagem sem fim… entendo o propósito e o conceito, mas acaba sendo um pouco chato em alguns momentos. Mas, fora essas questões, é um belo filme. Diferente e interessante.

NOTA

9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Até o momento, Sirât foi, para mim, o filme mais surpreendente entre os indicados na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026. Com isso eu não quero dizer que ele é o melhor, mas ele é o que mais surpreende. É o mais inusitado também. Sobretudo, criativo. Mas isso não exime a produção de ter alguns problemas – questões que eu citei anteriormente na minha crítica.

Mas algo que eu tenho que admitir é que o realizador dessa produção é um cara criativo e ousado. Ele não tem problema algum em nos apresentar uma narrativa diferente do que estamos acostumados a assistir. De forma muito cirúrgica, o diretor e roteirista Oliver Laxe sabe os pontos exatos da narrativa para nos apresentar reviravoltas impactantes. Ele consegue isso com maestria em Sirât. Acho impossível assistir esse filme sem ficar com o queixo caído e sofrer os impactos que a história apresenta. Nesse sentido, Laxe faz um belo trabalho aqui.

Só que me incomodou aquelas duas pontas soltas que Sirât nos apresenta. Acho que um filme que apresenta tantos elementos interessantes poderia ter cuidado um pouco melhor das questões que não fazem muito sentido. Se os roteiristas Oliver Laxe e Santiago Fillol tivessem explicado um pouco melhor o porquê do grupo não conseguir chegar no pé do morro onde eles estavam e onde acontece a primeira tragédia e as razões deles não terem simplesmente voltado pelo mesmo caminho em um momento decisivo, tudo certo. Mas deixarem essas duas questões sem explicação acaba atrapalhando a história.

Mas, descontadas essas questões e aquela ironia que eu achei um pouco forçada antes da primeira explosão, acho Sirât um filme interessantíssimo. Ele não é melhor que O Agente Secreto (com crítica neste link), que, para mim, é um filme mais completo e cheio de camadas, mas ele está pau a pau com Sentimental Value (comentado por aqui), apesar das duas produções terem pegadas muito diferentes, e é melhor que It Was Just an Accident (com crítica neste link).

Ainda falta assistir ao último concorrente da categoria Melhor Filme Internacional mas, até o momento, sigo achando O Agente Secreto o melhor filme entre os concorrentes nessa categoria. Depois dele, eu fico em dúvida entre Sirât e Sentimental Value. Acho que, se fosse para votar em alguém e para torcer por uma dessas produções, sem contar o brasileiro O Agente Secreto, eu votaria em Sirât.

Especialmente pelo final do filme – como quem me acompanha no blog já sabe, o final de Sentimental Value, a meu ver, deixou a desejar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Ok, alguém pode falar: “Ah, mas você não entendeu a motivação do diretor e roteirista Joachim Trier e de seu parceiro no roteiro, Eskil Vogt. Eles quiseram demonstrar como muitas vezes o diálogo e a conversa não resolvem velhas mágoas, não ajudam com o perdão, mas que a arte, no caso o cinema, pode ser o canal para isso”. Ok, entendo perfeitamente a motivação do roteiro nesse sentido, mas eu não acho que o perdão precisa passar pela alimentação do ego de alguém. E a protagonista dessa história ceder para fazer um filme “inspirado” em parte de sua história e, com isso, resgatar a carreira do pai ausente e narcisista não me parece o melhor caminho para o “perdão”. Enfim, acho que concordo em discordar da proposta daquele final.

Mas voltando ao que interessa por aqui, que é Sirât. Cheguei nesse filme, como vocês já sabem ou podem imaginar, porque essa produção é uma das indicadas ao Oscar 2026. O filme conseguiu, na verdade, duas indicações. Ele concorre nas categorias Melhor Filme Internacional e Melhor Som. Acho que o filme poderia também ter sido indicado em outras categorias, como Melhor Trilha Sonora. Mais abaixo, comento um pouco mais sobre as chances do filme no Oscar.

Falando em premiações, vale comentar que Sirât, até o momento, ganhou 18 prêmios e foi indicado a outros 98 – incluindo as duas indicações ao Oscar. Números impressionantes, principalmente se pensarmos nas chances que a produção teve em ganhar algum prêmio – as indicações. Entre os prêmios que o filme recebeu, vale destacar o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Cannes, que Sirât dividiu com In Die Sonne Schauen; o prêmio de Melhor Compositor para Kangding Ray, o Palm Dog – Prêmio do Júri e o Prêmio AFCAE – Menção Especial para Oliver Laxe, todos conferidos durante o Festival de Cinema de Cannes.

Sirât foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2026: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Trilha Sonora. Ele perdeu na primeira categoria para O Agente Secreto e, na segunda, para Sinners.

Não sei se é por ter perdido tantas vezes para O Agente Secreto nessa temporada de premiações, ou se é por alguma outra razão, mas o diretor Oliver Laxe foi um bocado infeliz ao comentar sobre os brasileiros que votam no Oscar. Segundo essa matéria de O Globo – mas a fala de Laxe repercutiu em diversas outras publicações -, o diretor francês que dirigiu Sirât comentou que “há muitos brasileiros na Academia, e nós os adoramos… mas eles são ultranacionalistas. Acho que, se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele”.

Um bocado infeliz, não? Porque essa fala sugere que O Agente Secreto não é grande coisa… e quem tem um mínimo de sensibilidade e de entendimento sabe sim que O Agente Secreto é um filme muito interessante. Não é perfeito, é claro. E eu já comentei bastante sobre ele na crítica específica. Mas Laxe deveria ter um pouco mais de humildade e respeitar todos os filmes que estão concorrendo com ele, e não levar a valorização de O Agente Secreto como uma questão de “ultranacionalistas”.

Até porque, basta fazer as contas. É óbvio que os brasileiros que votam no Oscar são a minoria da minoria. E nenhum filme ganha um Oscar se a maioria dos votantes não concordar com isso – e, por óbvio, os brasileiros não são maioria. Então infeliz o comentário de Laxe, além de totalmente deslocado da realidade. Me parece mais coisa de quem está perdendo direto e não está sabendo lidar com isso. Foi infeliz. Aceita que O Agente Secreto é melhor que dói menos. 😉

Apesar da fala infeliz de Oliver Laxe sobre os brasileiros que votam no Oscar, eu achei o estilo do diretor bem interessante ao assistir Sirât. Fui procurar saber mais sobre ele, porque, honestamente, até então eu nem sabia sobre a existência de Laxe, e vi que ele nasceu em Paris em 1982. Sirât é apenas o quarto trabalho dele como diretor.

Ele estreou no cinema em 2010 com Todos Vós Sodes Capitáns. Depois, ele lançou, em 2016, Mimosas e, em 2019, O Que Arde. Fiquei curiosa para ver algum outro trabalho do diretor. Acho que é um nome que vale ser acompanhado. Apesar de ter nascido na França, Laxe já morou na Espanha, na França, no Marrocos e na Inglaterra. Ele fala espanhol, francês, galego e inglês.

Algo que eu não comentei antes, mas quero registrar agora, é que eu achei interessante a escolha de Oliver Laxe e de Santiago Fillol em concentrar a história de Sirât em poucos personagens. Isso sempre ajuda qualquer produção a se aprofundar um pouco mais na personalidade e na história de cada personagem. Ainda assim, claro, pela dinâmica desse filme, não sabemos muito sobre a trajetória ou o passado dos personagens em questão. Parece que o que interessa aqui é o presente e o futuro, com o passado tendo quase nenhuma importância. Mesmo com poucos personagens em cena, acompanhamos mais a relação entre eles do que o contexto que levou cada um a chegar até ali – nisso Sirât se revela muito diferente de Sentimental Value ou O Agente Secreto, que são filmes onde o passado joga um papel importante nas histórias.

Esse é um filme que exige menos do elenco do que gostaríamos. Pela dinâmica da história, poucos nomes se destacam. A meu ver, o grande nome do filme é o do grande ator espanhol Sergi López. Impressionante como não dá para ver esse veterano em cena sem se emocionar com ele. Com mais de 100 trabalhos no currículo como ator, Sergi López é um dos grandes nomes do cinema espanhol e em Sirât ele nos entrega mais um grande trabalho. Para mim, é o nome do filme.

Ao lado de Sergi López temos o jovem ator Bruno Núñez Arjona. Segundo o site IMDb, Sirât é apenas o terceiro trabalho dele como ator. Ele estreou, antes, a série de TV La Mesías, em 2023, e o curta Como Antes, de 2025. Um ator jovem, portanto, mas que já mostra bem as suas credenciais nesse filme. Gostei muito do trabalho dele. Um nome a ser acompanhado também.

O restante do elenco central da produção é formada por atores não profissionais. Para chegar até os nomes de Stefania Gadda, Joshua Liam Herderson, Richard “Bigui” Bellamy, Tonin Janvier e Jade Oukid, a figurinista e ex-parceira de Laxe, Nadia Acimi, teria feito um processo de seleção de rua, segundo essa matéria de O Globo.

Jade Oukid, 38 anos, frequenta eventos como os mostrados em Sirât há mais de 20 anos. Jade disse que Nadia Acimi a encontrou em meio a uma multidão de 10 mil pessoas em um festival em Portugal. Tonin Janvier, 42 anos, por sua vez, vive se apresentando em festivais de rua municipais, tendo crescido em uma família de teatro itinerante. Mesmo não tendo muito conhecimento sobre raves, Tonin tinha bastante experiência sobre a África – quando criança, ele excursionou por Mali, Senegal, Costa do Marfim e Guiné e, já adulto, viveu um tempo em Mali e Senegal. Certa vez, ele foi atropelado por um caminhão quando estava andando de moto e perdeu uma perna por causa disso.

Stefania Gadda, 50 anos, vive em um rancho perto de Granada, na Espanha, sem eletricidade ou água encanada. Ela foi encontrada pela equipe de elenco de Sirât depois que moradores da cidade espanhola de Órgiva, conhecida por suas correntes contraculturais, sugeriram que eles procurassem Stefania em casa.

Achei interessante que na matéria de O Globo que eu comentei, Oliver Laxe fala um pouco sobre as suas intenções ao fazer Sirât. Essa visão do diretor e roteirista era algo que me interessava. Então vou citar o que ele comentou sobre essa produção: “Eu realmente queria fazer um filme sobre a morte. É uma pergunta absurda, por que alguém morre. A pergunta importante é: como você morre? Você consegue imaginar sua morte dançando?”.

Sobre aquela primeira sequência marcante do filme, que marca o primeiro ponto de virada da história, Oliver Laxe disse o seguinte: “Não tenho interesse em brincar com o espectador – essas intenções sádicas, cruéis. Não gosto desses cineastas, Lars von Trier, Haneke. Acho que é um filme saudável. Era como: acreditamos no que estamos fazendo – vamos fazer o filme, mesmo que seja o último”. Achei curioso como ele não se importa de criticar outros cineastas, outros estilos, e como ele valoriza bastante o que faz. Por um lado, eu entendo, por outro lado eu acho bem desnecessário ele criticar alguns cineastas desta forma. Cada um com a sua proposta, meu querido!

Mas enfim, voltando para o elenco de Sirât, achei muito boa a escolha dos nomes que vemos em cena, e acho que mesmo sem serem atores profissionais, Stefania Gadda, Joshua Liam Herderson, Richard “Bigui” Bellamy, Tonin Janvier e Jade Oukid fazem um ótimo trabalho em Sirât. Eles estão muito bem em seus papéis e passam o essencial de seus personagens, especialmente o senso de comunidade. Gostei bastante.

Entre os aspectos técnicos do filme, impossível não destacar a trilha sonora super marcante, praticamente um outro personagem dessa história, de responsabilidade de Kangding Ray – acho estranho que esse aspecto do filme não tenha sido indicado ao Oscar, já que Som entrou. Depois, vale destacar o ótimo trabalho de Mauro Herce na direção de fotografia – outro aspecto importante do filme.

Outros aspectos técnicos que valem ser citados são a edição de Cristóbal Fernández; a direção de arte de Laia Ateca; os figurinos de Nadia Acimi; a maquiagem de Zaira Eva Adén, María Marrugat, Micaela Pimentel e Lucía Solana; e o trabalho da equipe de 19 profissionais envolvidos com o Departamento de Som.

Procurei saber um pouco mais sobre a visão de Oliver Laxe sobre Sirât, já que esse filme não é nada óbvio – e realmente fiquei curiosa sobre a visão dele sobre a produção. Pois bem, achei essa matéria da Euronews com o diretor.

Entre outros pontos, vale citar algumas falas dele sobre o filme em si – destaquei essas frases entre outros que o diretor e roteirista comenta porque quero focar no que ele trata de Sirât especificamente: “A chave de Sirât é que eu protejo as imagens de mim mesmo (…). Essa também é a chave de Sirât: não sabes onde acaba a imagem e onde começa o som. Sirât é escultura, é um monstro, está vivo! (…) O que ocorre em uma sala de cinema não ocorre em uma casa. Esta é a alma do cinema. E quando estás com outras pessoas, existe um intercâmbio sagrado de energia. Não é a mesma coisa ver um filme em um dia do que ver ele no dia seguinte. É realmente um mistério o que acontece. É uma cerimônia. É um ritual. Como em Sirât, com as pessoas na pista dançando. O teu corpo reage de uma maneira diferente”.

Ainda acho válido deixar por aqui essa entrevista que Alonso Díaz de la Vega fez com Oliver Laxe para o site do Festival Internacional de Cine de Morelia. Logo na primeira pergunta, Alonso quer saber sobre a ideia “das raves no deserto”, de como Oliver pensou Sirât. Ele comenta sobre o seu processo criativo, de que tudo começa com imagens que ele tem em mente, e depois fala sobre as “intenções” por trás do filme.

Vou citar um trecho essa primeira resposta dele: “As primeiras imagens eram caminhões atravessando o deserto. E logo eu tinha uma intenção muito pessoal, que é meditar sobre a morte, que é algo muito importante. Sou de uma sociedade onde não há muita morte e é importante experimentá-la para ter menos medo da morte: através da angústia, ter menos angústia. E tinha vontade de expor a morte e de convidar o espectador a fazer isso. Acho que essa é uma boa maneira de servir ao espectador, de fazer um jogo de espelhos”.

Depois, ele segue falando um pouco mais sobre Sirât: “É um filme sobre a ferida e foi um processo no qual eu me conectei mais com a minha ferida. São todos frágeis, são todos vulneráveis, e é o que faz com que eles se deem as mãos com força, não? E sim: o que eu mais gosto da experiência com o público, o que mais me motiva como autor, é quando as pessoas te dizem que elas foram a uma cerimônia; que não é um filme sozinho, e sim uma cerimônia cinematográfica. Isso é o que mais me estimula como autor. Ou seja, seguir um pouco por esse caminho, fazer de maneira elegante, sutil. De uma maneira invisível”. Enfim, me parece que ele combina com o tom “transcendental” das raves e de Sirât.

Mas realmente acho que Oliver Laxe pode falar sobre a sua forma de fazer cinema e fazer grandes filmes sem criticar outros cineastas ou desmerecer outros filmes. Só acho. #ficaadica

Fiquei curiosa para saber se existe realmente um “cenário” de festas raves no Marrocos. Então dei uma pesquisada e achei essa troca entre participantes do Reddit interessante. De fato parece que o Marrocos tem um cenário interessante de raves – e, claro, pela proximidade com a Europa, essas festas devem atrair muito e muitos turistas europeus. Então faz sentido o que vemos em Sirât, não é uma “fantasia” da cabeça dos roteiristas.

Para quem, como eu, manja sobre raves mas não tem essas festas no seu cotidiano, achei interessante esse texto introdutório sobre o assunto do site Groove. Recomendo. Novamente comento que uma das qualidades de Sirât é quebrar um pouco alguns preconceitos que as pessoas possam ter dos participantes de raves… acho que eles são vistos de outra forma a partir dessa história. Para quem quer vê-los sem tantos filtros, claro.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com a crença islâmica, Sirat é uma ponte estreita e perigosa que todos devem atravessar no Dia do Juízo Final para chegar ao Paraíso (Jannah). Por ela ser uma ponte “mais fina que um cabelo e mais afiada que uma espada”, ela deve ser atravessada rapidamente pelos fiéis, enquanto os pecadores podem cair no Inferno.

Durante as filmagens no Marrocos, a equipe do filme teve que lidar com calor extremo (o que é meio óbvio para um deserto, não é mesmo?) e com tempestades de areia. Em um certo dia, uma dessas tempestades de areia quebrou algumas lentes e outros equipamentos, o que obrigou a equipe a ter que rodar novamente algumas cenas.

Sirât foi filmado no Marrocos e na Espanha. Inicialmente, a ideia era fazer todo o filme no Marrocos, mas como a produção recebeu recursos públicos da Espanha, parte do filme teve que ser rodado, obrigatoriamente, na Espanha. O desafio da equipe foi então achar locações na Espanha que pudessem se passar como montanhas do Marrocos. Eles acharam os cenários que eles precisavam na Rambla de Barrachina, na província de Teruel, em Aragão.

Não encontrei informações sobre o custo de Sirât. Mas, de acordo com o site Box Office Mojo, a produção faturou pouco mais de US$ 34 mil nos cinemas dos Estados Unidos – foi pouco visto por lá, portanto – e US$ 9,7 milhões nas bilheterias a nível global. O país onde ele teve melhor desempenho foi a França, onde Sirât faturou US$ 5,6 milhões. Em segundo lugar aparece a Espanha, com US$ 3,3 milhões nas bilheterias. Ou seja, fora França e Espanha, esse é um filme pouco assistido em outros locais até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Sirât. Enquanto isso, os críticos que tem os textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e nove negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92%. O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” 81 para Sirât, fruto de 17 críticas positivas e de cinco críticas mescladas. O site ainda apresenta o selo “Metacritic must-see” para a produção.

Sirât é uma coprodução da Espanha com a França. Apesar de ter recursos dos dois países, ele foi escolhido pela Espanha para ser o representante do país no Oscar 2026. Os idiomas falados no filme são o espanhol, o francês, o inglês e o árabe.

CONCLUSÃO

Um filme que leva a maior parte dos espectadores a se aproximarem de uma realidade que não lhes é comum. O mesmo acontece com os personagens principais desse filme, que se aproximam mesmo cada um deles partindo, em teoria, de realidades muito diferentes. Tudo isso para nos debruçarmos em uma história que quebra alguns preconceitos ao mesmo tempo que nos mostra como a realidade se apresenta, muitas vezes, da maneira mais cruel possível. Muita coisa não tem sentido, e a vida é assim mesmo. Mas, no fim das contas, não importa o que você busca ou da onde você vem, todos nós estamos no mesmo barco – ou no mesmo trem, como Sirât nos mostra. Um filme que pode despertar diferentes sentimentos, mas que não vai deixar ninguém neutro.

PALPITES PARA O OSCAR 2026

A entrega do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se aproxima. Nessa semana, tivemos a confirmação sobre os filmes que estão concorrendo nas 24 categorias do Oscar – se você não acompanhou a divulgação nesta semana, deixo por aqui a indicação do meu conteúdo sobre essa lista de indicados com avaliação em cada categoria.

A partir dessa divulgação dos indicados, já fica mais fácil direcionarmos nossa atenção para as produções que falta assistirmos para, no dia 15 de março, estarmos melhor preparados para opinar sobre o Oscar. 🙂 Não sei vocês, mas desde a infância eu gosto de acompanhar essa premiação. Afinal, sempre amei o cinema e a premiação do Oscar eu considero um termômetro interessante de bons filmes a cada ano.

Pois bem, como comentei antes, Sirât concorre em duas categorias. Mas quais são as chances do filme levar algo para casa? Honestamente, eu acho que zero chances. Não vejo ele tendo chances contra O Agente Secreto, primeiro lugar, e contra Sentimental Value, em segundo lugar, na categoria Melhor Filme Internacional. Seria a maior zebra do ano se Sirât conseguisse levar a estatueta dessa categoria. Isso não vai acontecer.

E em Melhor Som? Olha, apesar do som e da trilha sonora serem elementos fundamentais de Sirât, aspectos técnicos realmente muito relevantes para o desenvolvimento da história, eu não vejo a produção espanhola tendo força para derrotar grandes produções de Hollywood. As bolsas de apostas colocam F1 como o favorito em Melhor Som, seguido por uma distância considerável por Sinners. Sirât estaria na terceira posição nessa disputa.

Olha, eu devo concordar com os apostadores. Eu não assisti a F1, mas vendo algumas cenas do filme, não tenho dúvidas que o som é um elemento fundamental da produção e que ele deve ser de altíssimo nível. E sim, em Sinners também essa qualidade está muito presente. Eu também apostaria nesses dois filmes antes do que em Sirât. Se tudo isso se confirmar, Sirât deve sair do Oscar de mãos abanando.

Avatar de Alessandra

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 25 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing, professora universitária (cursos de graduação e pós-graduação) e, atualmente, atuo como empreendedora após criar a minha própria empresa na área da comunicação.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.