Un Sac de Billes – A Bag of Marbles – Os Meninos Que Enganavam Nazistas

 

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Os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial são quase uma constante. Dificilmente passamos muitos anos – ou algum ano? – sem uma nova produção sobre o assunto. As histórias sobre este período lamentável da trajetória da Humanidade não parecem ter fim, e isso é algo positivo. Especialmente porque eu acredito que a memória sobre fatos negativos é algo fundamental para não cairmos nos mesmos erros. Pois bem, Un Sac de Billes se junta a outros filmes sobre a Segunda Guerra Mundial para nos contar uma história interessante e tocante. Desta vez vamos a tragédia sob o ponto de vista de uma família de judeus. Um filme bem conduzido, com uma história impressionante e com atores carismáticos.

A HISTÓRIA: Agosto de 1944. Em uma rua deserta com bandeiras francesas e inglesas, no amanhecer de mais um dia, vemos um garoto descendo uma rua com a Torre Eiffel aparecendo discretamente ao fundo. Joseph Joffo (Dorian Le Clech) corre um pouco e observa tudo ao redor. Ele olha para a fachada da escola em que ele estudou antes de tudo mudar. Observa tudo atentamente e diz que tudo está igual, ainda que tudo pareça menor. Ele se questiona se não foi ele que cresceu. Pensa que se passaram dois anos e meio desde que esteve ali pela última vez. E aí a história volta para o passado, antes de Joseph ter que deixar a sua cidade e se separar de quase todos de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Sac de Billes): Este filme francês tem tudo que Hollywood ama. É uma produção que fala sobre a Segunda Guerra Mundial tratando do absurdo que foi a perseguição dos judeus pelos nazistas e ainda tem uma narrativa contada sob a ótica de uma criança. Sim, parece que não veremos nada de novo por aqui. Mas nem sempre o que precisamos é de uma história nova, e sim de uma narrativa competente.

E isso é algo que o diretor Christian Duguay nos apresenta. Uma narrativa muito competente. Vimos, até o momento, muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Muitos sob a ótima dos filmes de guerra, mostrando diferentes momentos do conflito entre os exércitos e suas nações. Assistimos a filmes de espionagem, a narrativas que enfocaram a estratégia das nações e uma e outra abordagem sobre a população envolvida no conflito. Também encontramos algumas histórias que focaram crianças e as suas óticas sobre o conflito.

Apesar deste terreno ter sido bem explorado, precisamos admitir que Un Sac de Billes tem uma narrativa bastante competente. Um dos principais méritos do filme é o desempenho do elenco escolhido com perfeição. Todos os atores estão ótimos, começando pelas crianças e seguindo para os adultos. O elenco é carismático e tem a sua interpretação valorizada pela lente sempre atenta de Duguay. Ele faz um trabalho muito competente e utiliza diferentes planos para sempre valorizar as interpretações e também o entorno pelos quais os personagens se movimentam.

As cidades são importantes, os caminhos percorridos, mas as pessoas estão sempre no centro da história escrita a cinco mãos. O roteiro original de Jonathan Allouche e Alexandra Geismar teve adaptação de Christian Duguay e Benoît Guichard, que contaram com colaboração de Laurent Zeitoun. Todos trabalharam sobre a história contada no livro de Joseph Joffo – sim, o protagonista deste filme. No final, vemos a ele e ao irmão Maurice (interpretado por Batyste Fleurial) em um café de Paris, onde eles voltaram a viver após o final da guerra.

Este filme tem força porque é baseado em uma história real. Os acontecimentos parecem incríveis e um tanto improváveis, mas foi assim mesmo que muitos sobreviveram na Segunda Guerra Mundial. De forma improvável, quase milagrosa. Un Sac de Billes têm o mérito de nos apresenta a história sob a ótica de pessoas simples, moradores de Paris que passaram a ser perseguidos pelo simples fato de serem judeus. A narrativa conduzida por Duguay nos mostra bem como o terror da perseguição foi crescendo de forma relativamente rápida.

Quando a história retorna no tempo, voltamos para o início de 1942, quando o conflito tinha pouco mais de dois anos. Naquele momento, apenas os estabelecimentos comerciais judeus eram identificados com placas. Joseph e o irmão Maurice ainda conseguem ver o pai deles sendo corajoso com dois soldados alemães que entram em sua barbearia. Mas não precisaria passar muito tempo para que aquela atitude dele não fosse mais possível.

Em maio de 1942 as pessoas começam a ser marcadas também. Vemos ao protagonista e aos seus irmãos tendo estrelas sendo colocadas na roupa para identificá-los como judeus. Alguns começam a hostilizá-los, e este episódio é a deixa para os pais dos garotos – eles eram em quatro irmãos – adotem uma postura muito corajosa.

Roman Joffo (Patrick Bruel) e a esposa Anna (Elsa Zylberstein) sabem que a família aumentará a chance de sobreviver se eles se dividirem. E é desta forma que eles mandam os filhos mais velhos, Henri (César Domboy) e Albert (Ilian Bergala) para o litoral na frente. Em seguida, enviam Joseph e Maurice. Finalmente, o casal também sai de Paris. Eles sabem que, desta forma, fica mais fácil pelo menos parte da família sobreviver. O filme acerta, aliás, ao não revelar, logo de cara, que se trata de uma história baseada em fatos reais. Porque se soubéssemos disso logo no início, iríamos presumir que o protagonista, ao menos, iria sobreviver.

Ainda que isso fique um tanto evidente na produção, é sempre bom manter a dúvida da audiência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Existem vários momentos de tensão e quando Joseph e o irmão quase são pegos pelos nazistas. Eles sobrevivem por detalhes e pela ajuda de várias pessoas. Un Sac de Billes não alivia ao mostrar muita gente sendo presa e enviada para os campos de trabalho – e depois, de extermínio. Não escapavam adultos, idosos ou crianças. A primeira vez que os garotos escapam de um envio é quando contam com a ajuda de um padre no trem.

Para que o protagonista consiga voltar para Paris em 1944, quando esta produção apresenta os seus primeiros minutos, ele contou, junto com o irmão Maurice, com algumas intervenções fundamentais. Se não fosse a ajuda de dois padres, de um francês que os ajudou a chegar em uma zona livre de conflito, de um diretor de um centro de treinamento juvenil e de um médico que fazia a “triagem” de judeus para os alemães – todos eles sabendo que os garotos eram judeus -, eles não teriam sobrevivido.

Além disso, claro, eles contaram com a sorte e com a própria inteligência. Bem preparados pelos pais – inclusive em uma cena forte em que Roman esbofeteia o filho mais novo para prepará-lo para situações similares -, eles conseguem sobreviver apesar de todas as chances jogarem contra eles. Além das pessoas que eu citei, eles contaram com caronas de motoristas anônimos para chegar até o litoral francês onde, pela última vez, viveram momentos de alegria com toda a família reunida.

Finalmente, depois que tiveram que sair do centro de treinamento juvenil porque tinham o risco de serem pegos lá, eles passaram uma última temporada de sobrevivência contando com a ajuda de pessoas que, na verdade, não sabiam que eles eram judeus. Este é o caso do dono de livraria e vendedor de jornais Amboise Mancelier (Bernand Campan). Ele abriga e dá trabalho para Joseph sem saber que está dando guarita para um “inimigo” – ao menos sob a ótica dele, que era um colaborador dos nazistas. Maurice, por outro lado, é o empregado de um hotel onde vivem pessoas da Resistência.

Os irmãos conseguem sobreviver na última temporada com a ajuda de pessoas muito diferentes, mas que acabam se confrontando no final. Daí Joseph mostra toda a sua grandeza – e o quanto ele amadureceu com aquela experiência aterradora – ao defender Amboise quando ele é atacado após a libertação de Paris pelos ingleses. Impossível não celebrar, junto com o garoto, quando ele vê a manchete do jornal que dá a notícia sobre Paris.

Sim, o filme tem uma boa dose de previsibilidade e uma certa “exagerada de mão” para que o público se emocione com a história. A trilha sonora ajuda nisso, assim como a forma de direção bastante lírica de Duguay em diversos momentos. Mas cá entre nós, qual é o problema também em um filme buscar o nosso lado mais sentimental? Quando isso não é feito com muito exagero, funciona e não atrapalha a história. Considero que os roteiristas envolvidos neste projeto conseguem encontrar o tom exato, assim como os atores, que são muito carismáticos.

Todos convencem. Conseguimos acreditar na história que assistimos, ainda que ela tenha tantos momentos improváveis. Impossível não se deliciar com as peripécias de Joseph e de Maurice para sobreviver. Improvável que alguém também não fique impressionado com a força de cada pessoa daquela família em tentar sobreviver e ajudar ao menos uma outra pessoa da família a conseguir o mesmo. Eles estão sempre em dupla, e isso ajuda nas tentativas de escapar dos nazistas.

Ainda que o filme tenha alguns momentos bem pesados e duros – como quando o pai bate em Joseph e quando o garoto leva um golpe brutal de fuzil no rosto -, estes momentos nos revelam um pouco do absurdo que foram aqueles anos, aquela perseguição, aquele extermínio. Desta vez, diferente de outras produções, temos isso na nossa frente sob a ótica de pessoas comuns. Impossível não se solidarizar com eles.

Algo bacana de Un Sac de Billes é que ele demonstra, com muita propriedade, como a decisão cotidiana das pessoas pode fazer muita diferença, especialmente quando vivemos momentos de exceção nas nossas sociedades. Diversas pessoas que cruzaram o caminho dos protagonistas desta história tomaram a decisão de ajudá-los. Eles poderiam ter “lavado” as próprias mãos, cruzarem os braços e não agirem na hora certa. Tudo poderia ter sido muito diferente se aquelas pessoas não decidissem ajudar. Isso foi muito válido naqueles dias e é até hoje. Pequenos ou grandes gestos de auxílio podem sim fazer a diferença para alguém viver/sobreviver mais um dia. Eis uma mensagem importante desta produção.

Um belo filme, muito bem dirigido e conduzido. Só não é perfeito porque ele segue uma fórmula um tanto batida e já bem conhecida. É previsível, mesmo na “surpresa” final. Mas isso não o torna menos interessante. Como tantas outras produções sobre a Segunda Guerra Mundial, Un Sac de Billes deveria ser visto nas escolas. Para nunca nos esquecermos dos absurdos que um regime totalitário, preconceituoso e violento pode provocar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é a sua grande qualidade. Fiquei impressionada pelo belo trabalho de todos os atores. Ainda que o elenco todo seja muito bom, impossível não destacar o talento dos jovens talentos que protagonizam esta produção. Dorian Le Clech e Batyste Fleurial como Joseph e Maurice, respectivamente, carregam a produção nas costas. Como eles nos conduzem por toda a história, impossível não ficarmos fascinados pelo carisma dos jovens atores. Eles estão ótimos.

Além deles, se destacam toda vez que aparecem em cenas os experientes atores Patrick Bruel e Elsa Zylberstein, respectivamente pai e mãe dos garotos. Eles também são muito carismáticos e convencem em cada micro detalhe de suas atuações. Estão ótimos. Aparecem menos, mas também fazem um bom trabalho César Domboy e Ilian Bergala, os atores que interpretam os irmãos mais velhos de Joseph e Maurice. Sem dúvida alguma o elenco é o ponto forte da produção.

Os atores que dão vida para a família que é o foco principal desta história são o destaque do filme. Mas o elenco de apoio também foi muito bem escolhido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O veterano Christian Clavier faz uma participação importante como o doutor Rosen, uma das pessoas que ajudam os garotos a sobreviver. Também merece ser citado o trabalho de Kev Adams como Ferdinand, um motorista que abastece o centro de treinamento juvenil e que acabamos por descobrir que é um judeu que participa da Resistência; Emile Berling como Raoul, o filho radical do também radical delator Amboise (interpretado por Bernard Campan); Coline Leclère como o “primeiro amor” de Joseph, a bela Françoise, filha de Amboise e de Marcelle (interpretada por Jocelyne Desverchère); Holger Daemgen como o capitão alemão Alois Brunner, oficial que quase dá um fim nos irmãos – eles escapam por pouco de uma armadilha orquestrada por ele.

Da parte técnica do filme, destaque para a excelente direção de fotografia de Christophe Graillot e para a difícil e competente edição de Olivier Gajan. A trilha sonora assinada por Quentin Boniface, Philippe Briand, Hugo Gonzalez-Pioli, Gabriel Saban, Steven A. Saltzman e Anne-Sophie Versnaeyen é bacana, mas poderia ser um pouco menos “protagonista”/sentimental. Destaque também para o trabalho de casting feito por Valerie Espagne e Juliette Ménager – especialmente para a primeira, que ficou responsável pelas crianças. Vale citar ainda o design de produção de Franck Schwartz; a direção de arte de Cécile Arlet Colin; a decoração de set de Jimena Esteve e de Hélène Maroutian; e os figurinos de Pierre-Jean Larroque. Todos fazem um trabalho muito bom e que nos ajuda a voltar 70 anos na História.

Não li o livro de Joseph Joffo, mas imagino que ele deve ser incrível. Assistindo a este filme eu fiquei com vontade de ler a obra original. E gostaria de saber a opinião de alguém que leu o livro para comentar sobre o filme. Será que ele consegue manter bem a “alma” da obra de Joffo?

Un Sac de Billes fez a sua première em Paris em janeiro de 2017. Depois, o filme participou de dois festivais: o de Belgrado, em fevereiro, e o de BCN, em abril. Nesta trajetória, não conquistou nenhum prêmio ou indicação. Também não encontrei informações sobre o custo ou a bilheteria da produção.

O título original em francês, assim como o título internacional da produção, pode ser traduzido como “Um Saco de Clicas”. No Brasil ele recebeu uma tradução bem diferente. Ainda que faça sentido o título original, desta vez eu tenho que admitir que o título brasileiro não é ruim. Apenas entrega um pouco demais da história, não?

Este filme é uma coprodução da França, do Canadá e da República Tcheca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica para este filme, e ela é positiva.

CONCLUSÃO: Este não é um filme exatamente surpreendente. Especialmente se você já assistiu a várias produções sobre a Segunda Guerra Mundial. Un Sac de Billes pode não trazer muita novidade para esta temática, mas algo temos que dizer sobre este filme: ele é muito bem feito. E atinge os seus objetivos. Para começar, ele se mostra uma competente narrativa sobre a Segunda Guerra através da ótica de pessoas comuns. Depois, o diretor Christian Duguay e o time de roteiristas desta produção acertam no equilíbrio da ação, do drama e da comédia. O espectador é sempre conduzido pela mão em uma montanha-russa de momentos mais “leves” e de tensão. Uma narrativa competente e que fica acima da média pelo talento do elenco. Vale assistir, sem dúvidas.

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Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? – Que Mal eu Fiz a Deus?

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Apenas o humor é capaz de vencer algumas barreiras, situações e preconceitos. Ou, se não é capaz de vencer, pelo menos de diminuir distâncias e de fazer pensar. Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? pode ser um destes filmes que vai te deixar indignado(a) e revoltado(a), mas pode ser também uma forma de vencer barreiras, fazer pensar e analisar de uma forma diferente uma situação plausível na vida real. Claro que, como uma boa comédia, esta produção é exagerada. Mas ela não deixa de ter um pé bem fincado na realidade – da França e de tantas famílias “tradicionais” daquele e de outros países.

A HISTÓRIA: Prefeitura de Chinon, Indre-et-Loire, França. Uma cerimônia oficializa a união de Rachid Abdul Mohamed Benassem (Medi Sadoun) e Isabelle Suzanne Marie Verneuil (Frédérique Bel). Do lado de Rachid, uma grande família. Do lado de Isabelle, os pais Claude (Christian Clavier) e Marie Verneuil (Chantal Lauby) e a as irmãs Odile (Julia Piaton), Ségolène (Emilie Caen) e Laure (Elodie Fontan).

Um ano depois, Odile Huguette Marie Verneuil casa com David Maurice Isaac Benichou (Ary Abittan). E um ano depois, Ségolène Chantal Marie Verneuil se casa com Chao Pierre Paul Ling (Frédéric Chau). Para os pais, que são católicos, é um verdadeiro desafio ver três de suas filhas casando com homens de outras origens e religiões. A última esperança deles é que Laure case com um católico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?): Este filme deixa claro a que veio logo no início. De forma divertida e propositalmente exagerada, os roteiristas Philippe de Chauveron (que também dirige o filme) e Guy Laurent mostram três das quatro filhas de um casal católico e tradicional francês casando com três homens de origens diferentes. Fica evidente que os pais das meninas não estão, exatamente, felizes.

Esta impressão é confirmada pouco tempo depois, em uma refeição familiar aonde sobram estranhezas, pré-conceitos e provocações. Temperamental, o pai das meninas, Claude, não deixa barato e sai ofendido. No caminho, ele e a mulher Marie falam de cada um dos genros, debatendo sobre qual é o pior. Como normalmente é típico das mulheres, contudo, Marie começa a procurar explicações para os seus sentimentos.

Primeiro, ela se queixa com o padre local (Loïc Legendre) que, só de ouvir a voz da fiel, já fica arrepiado. Ele sabe por aonde vai o andor da conversa entre eles e da confissão que se segue. O sonho de Marie e de Claude era ter um casamento tradicional, com uma das filhas se casando com um católico. Depois da queixa, ela procura as respostas que comentei antes e, ao falar com o marido, comenta que eles também tem uma parcela de culpa na falta de união familiar, já que demonstraram ter preconceitos com as origens muçulmana, judaica e oriental dos genros. Daí surge a ideia de unir a todos no Natal.

Muito bacana como, mesmo cheio de estereótipos – e que comédia não os têm? – o filme vai avançando na solução para aquele problemão de convivência que passa pelas “maledetas” das expectativas e pela frustração delas. Como a maioria das mulheres, Marie ama a família e, para que eles melhorem a convivência, ela se esforça para preparar uma Ceia de Natal que agrade a todos os paladares. Muito fofa!

Como acontece em diversas situações e com diferentes famílias, todos se esforçaram e cederam um pouco em suas posições e, adivinhem? A sintonia começou a acontecer. Esta é uma das grandes lições de Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?: o preconceito e a distância que separa as pessoas só existe porque cada um defende o seu lado e dá mais valor para o que lhe diferencia dos demais, ao invés de procurar o que há de comum e buscar entender a outra ótica. Quando todos cedem um pouco, o diálogo acontece e as pessoas começam a entender e a respeitar umas às outras.

Dá tudo certo no Natal, mas há um detalhe que começa a fugir do controle: os pais de Laure tentam arranjar um pretende católico para ela. Mal eles sabem que ela já está namorando sério e que está pensando em casar. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Sem abrir o jogo totalmente para os pais, Laure diz que está namorando e que quer apresentar o pretendente para eles. Pequeno detalhe: Charles Koffi, com quem ela pretende se casar, é negro.

Até aí, não haveria nenhum problema. Afinal, aparentemente, a lamentação dos pais de Laure é que nenhuma das outras filhas tinham casado com um católico e um francês “clássico”. Há franceses negros e que são católicos. Nesta parte, fica evidente que o preconceito não tem só a ver com religião, ou com raça, mas com cor da pele também. O roteiro brinca com isso, de que agora os pais de Laure terão todas as cores do arco-íris na família.

Interessante como os pais nunca se posicionaram contra nenhum dos casamentos. Eles respeitaram as escolhas das filhas, ainda que, entre eles, lamentassem as suas decisões. As irmãs e os cunhados de Laure, contudo, pressionam a garota de que ela deveria escolher outro rapaz que fosse do agrado dos pais. Ora, que direito eles tinham de fazer isso? Nenhum. Mas não é raro ver o caçula da família tendo que satisfazer os sonhos dos pais que os outros não conseguiram propiciar. Laure e Charles não se fazem de rogados, mas nem tudo será tranquilo até o casamento.

No Natal, enquanto Laure passava a festa com a família, Charles vai visitar a família dele na África e descobre que há preconceito do lado deles também. Mais especificamente o pai dele, André Koffi (o ótimo Pascal N’Zonzi), faz o contraponto para Claude. Ele gostaria que o filho casasse com uma negra e não uma “branquela” de uma família de “brancos exploradores”. Os noivos seguem o plano, mas perto do casamento os desentendimentos entre Claude e Marie e a possibilidade de confronto entre os patriarcas Verneuil e Koffi ameaça o planejado.

O final acaba sendo perfeito. Ao externalizarem as suas próprias opiniões e preconceitos, André e Claude percebem, mais uma vez, como antes tinha acontecido com os Verneuil e os seus genros, que eles tem mais coisas em comum do que poderiam inicialmente admitir. E voilà! Os dois se tornam amigos e tudo acaba fluindo bem, apesar deles terem quase colocado tudo a perder.

Descontados os exageros aqui e ali, este é um filme divertido e que nos faz pensar sobre as nossas próprias convicções e atitudes. Afinal, por que algumas vezes não gostamos de certas pessoas? Ou, visto de outra forma, antipatizamos com colegas de trabalho ou temos dificuldade de lidar com quem age diferente do que consideramos “normal”? Será que também percebemos os nossos problemas e mancadas, ou achamos sempre que o “inferno são os outros”?

No fim das contas, quando paramos para pensar um pouco melhor, percebemos que é possível encontrar pontos em comum com todas as pessoas. Mesmo com aquelas que parecem tão diferentes da gente. Este filme nos faz pensar sobre isso e, apenas por esta razão, ele merece ser visto. Claro que a mesma reflexão poderia ser feita em um filme mais reflexivo, sem tanto preconceito transvestido de comédia.

Mas, talvez, se fosse assim, ele não chegaria tão facilmente nas pessoas nas quais essa história precisa chegar e que preferem rir do que “pensar”. Sim, estou sendo um pouco preconceituosa com este comentário, mas quantas pessoas você conhece que preferem ver filmes “leves” e “engraçados” e ter conversas deste gênero do que pensar sobre os seus próprios sentimentos e atos? Eu conheci várias pessoas assim, e acho que uma comédia, talvez, e só talvez, para elas possa fazer alguma diferença.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A narrativa desta produção é linear e sem reviravoltas, mas com aquelas surpresinhas básicas que toda comédia nos pede. Por exemplo, os diferentes perfis dos personagens. Especialmente os homens que casaram com as filhas do casal Claude e Marie tem as suas histórias mais exploradas. As mulheres deles aparecem pouco e, com exceção da artista da família, sabemos pouco sobre os gostos e perfis das demais. Desta forma, dá para dizer que o roteiro da dupla Laurent e de Chauveron é bem construído e condizente com a proposta deles.

Além de roteirista, como comentei anteriormente, Philippe de Chauveron é também o diretor do filme. Ele faz um bom trabalho, que valoriza o desempenho dos atores e, em certos momentos, também o cenário e as paisagens aonde eles estão inseridos. Gostoso de ver a França urbana, mais comum no cinema, e principalmente o país do interior. Neste quesito, vale destacar também a direção de fotografia de Vincent Mathias, que nos apresenta imagens bem iluminadas e que garantem qualidade na proposta de equilibrar a dinâmica entre os atores e os ambientes.

Em diversos momentos o filme reforça a ideia de que a França é um país miscigenado, com grande mistura de raças, credos e cores. De fato, isso é verdade. Mas também é verdade que parte do país sofre com isso ou tem problemas decorrentes desta mistura. Uma busca por notícias no Google rapidamente vai trazer diversas reportagens sobre conflitos raciais ou de cultura na França. Mas isso quer dizer que o povo francês é mais preconceituoso que outros? Não acho que seja assim.

Acredito que todo país que tem uma grande mistura de raças, de etnias e de credos terá maior probabilidade de conflito do que um país em que isso não acontece. Conta para os problemas também quando há algum tipo de “disputa” em jogo – por território, bens ou serviços. No caso do Brasil, que tem também bastante miscigenação, nos “favorece” quando ela foi feita: há alguns séculos ou décadas.

Agora, quando há uma “invasão” em um espaço curto de tempo e quando o país tem uma desigualdade maior entre regiões e distribuição de renda, daí os conflitos podem aparecer mais. Para mim, isso é o que acontece na França e em tantos outros países da Europa. A forma de enfrentar isso é baixar a guarda – tanto as pessoas nativas quanto aquelas que estão indo morar lá – e tentar encontrar os pontos em comum e a convivência. A França discute muito este tema. Nós por aqui fazemos isso o suficiente?

Todos os atores envolvidos nesta produção fazem um bom trabalho. Mas gostei, especialmente, do desempenho de Chantal Lauby como Marie, uma das personagens mais sensíveis da produção; e do trabalho dos grandes Christian Clavier e Pascal N’Zonzi. Eles parecem ter sido forjados para a comédia, esbanjando em expressões e em trejeitos. Muito bons!

As filhas do casal Claude e Marie são muito bonitas, mas impossível não admirar, em especial, Elodie Fontan. Belíssima atriz. Depois dela, Julie Piaton se destaca. Entre os homens, não achei nenhum muito bonito, mas gostei, em especial, do trabalho de Frédéric Chau. Acho que ele tem uma pegada maior para a comédia.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia bem iluminada e já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição de Sandro Lavezzi e a trilha sonora divertida e “pra cima” de Marc Chouarain. Cécilia Blom também faz um bom trabalho na decoração de set, assim como a equipe envolvida no departamento de som.

Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? foi lançado no dia 16 de abril de 2014 na Suíça e na França. No Brasil ele estreou no dia 6 de agosto de 2015. A produção que teria custado US$ 13 milhões faturou, apenas na França, pouco mais de US$ 12,2 milhões. Na Alemanha, ele fez mais US$ 3,8 milhões. Na Espanha, outros US$ 1,16 milhão. Ou seja, se somar todos os países, o filme conseguiu empatar o investimento – com a produção e a distribuição – com o resultado nas bilheterias.

Esta produção ganhou dois prêmios e foi indicado para um terceiro até o momento. Entre os que recebeu está o The Bernhard Wicki Award, entregue no Festival Internacional de Cinema Emden, para Philippe de Chauveron; e o de Melhor Roteiro no Prêmio Lumiere, da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. No site Rotten Tomatoes só há uma crítica para o filme, e ela é negativa. Ou seja, este filme não repercutiu praticamente nada e, possivelmente, não será muito apreciado pelo grande público – ele não tem a característica de “bombar” depois de um tempo.

CONCLUSÃO: Este filme não vai revolucionar a sua vida. E nem te mostrar nada muito inovador. Qu’est-ce Qu’on a Fait Au Bon Dieu? é apenas uma comédia que fala sobre assuntos polêmicos e em alta na Europa – e em outras partes. Trata com amor o preconceito e, desta forma, quem sabe, consegue avançar na compreensão de algumas cabeças “fechadas” de que excluir pessoas simplesmente pelo fato delas não serem o que você gostaria é absurdo. Em uma França e em uma Europa com alta dose de miscigenação, com um bocado de conflito cultural e de preconceito, este filme tenta fazer refletir sobre tudo isso com humor. É uma forma de fazer isso. Normalmente, gosto de filmes mais “sérios”, realistas, mas às vezes é bom também “atacar” com outros instrumentos. Esta produção acerta em muitos momentos, inclusive com situações clássicas de casais e seus pais. Vale conferir.