Die Göttliche Ordnung – The Divine Order – Mulheres Divinas

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Os avanços sociais não chegam da mesma forma em todas as partes. Direitos que podemos considerar básicos atualmente, parece incrível, mas não faz tanto tempo que eles não eram entendidos desta forma em outros lugares. E a falta de igualdade de direitos não é algo de países extremistas ou muçulmanos, como atualmente podemos acreditar a partir de discursos rasos. Não, não. Países do “Primeiro Mundo” também podem ser bastante resistentes a mudanças que parecem óbvias. Quanto mais conservadores, pior. The Divine Order nos faz refletir sobre tudo isso e um tanto a mais.

A HISTÓRIA: Diversas imagens que remetem à liberdade de expressão, como cenas de Woodstock, dos hippies, de Janis Joplin, manifestações pelos direitos civis, os Panteras Negras, a revolução sexual, aparecem em sequência. A narradora comenta que o mundo estava mudando em 1971, mas na Suíça tudo “estava parado”. No vilarejo em que morava, então, Nora (Marie Leuenberger) e a sua família, tudo acontecia como sempre. Os homens iam trabalhar fora para sustentar a casa enquanto as mulheres cuidavam de suas famílias. Mas um dia, Nora vai até uma cidade maior, perto do vilarejo, e acaba ganhando vários panfletos que tentam conscientizar as mulheres para que elas exijam o seu direito ao voto. Em breve, um plebiscito no país vai perguntar sobre este assunto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Divine Order): Eu sou muito suspeita para falar. Porque sim, eu sempre vou defender o direito da igualdade entre as pessoas. E como até hoje as mulheres não conquistaram todos os seus direitos, me considero um bocado feminista. Como o roteiro da diretora Petra Biondina Volpe argumenta em certo momento de The Divine Order, homens e mulheres tem características diferentes, com certeza. Mas isso não faz uns serem melhores que outros.

Para mim, isso é tão básico… mas nem sempre isso foi considerado assim. Não apenas na História da Humanidade, mas até hoje na cabeça de tantas pessoas mundo afora, em pleno Século 21! Tem pessoas que acham sim justificável homens e mulheres com a mesma formação, experiência e desempenhando os mesmos papéis terem salários diferentes, por exemplo. Hollywood mesmo é prova disso. As mulheres que trabalham no cinema, em geral, ganham menos que os homens. E isso vale para tantas outras funções e para tantos outros setores e mercados…

Ok, as mulheres tem ainda muitas razões pelas quais lutar e reclamar. Mas há princípios tão mais básicos que este da remuneração… como o direito das mulheres votarem, pelo amor de Deus! Como é possível que, durante tanto tempo – séculos e séculos! -, tantas sociedades e culturas subjugaram tanto as mulheres que as proibiram de votar? A votação é o princípio básico da democracia e da escolha das pessoas na sociedade, não é mesmo? Então me parece extremamente básico que todas as pessoas, não importando o sexo que elas têm, a sua raça, credo e etc., tenham o direito de votar.

Parece sensato que o direito ao voto seja facultado apenas para adultos, pessoas que já tiveram uma formação cívica e cultural suficiente para tomar as suas próprias decisões – de aí que, para mim, ainda faz sentido as crianças e pré-adolescentes não votarem. Mas os demais… parece bastante básico isso, não? Pois é justamente sobre algo tão básico que este filme trata. E, consequentemente, claro, o filme de Volpe também aborda como certas questões podem demorar tanto para serem compreendidas como básicas por todas as nações e as suas sociedades.

Como eu disse lá no início deste texto, um dos fatos mais interessantes desta produção é que ela quebra alguns pré-conceitos que podemos ter. Para começar, de que os países desenvolvidos são precursores na maioria dos ganhos sociais. The Divine Order mostra que isso não é uma regra. O filme de Volpe revela, por exemplo, como sociedades/comunidades conservadoras demoram muito mais tempo do que outras mais plurais para aceitar as diferenças e, consequentemente, o direito de todos.

O roteiro de Volpe pincela, aqui e ali, uma certa “culpa” da religião pelo comportamento conservador das pessoas do vilarejo de Nora. Sim, é verdade que muitas religiões, quando mal utilizadas, acabam realmente mais separando e segregando as pessoas do que as unindo. Infelizmente. Mas isso acontece não por culpa das religiões, mas pelo interesse de algumas pessoas em manipular os textos religiosos para que elas consigam o que desejam.

Este é o caso do uso da Bíblia neste filme. Quem foca apenas no Velho Testamento e em alguns trechos da Bíblia, ignorando tudo o que o Novo Testamento prega, assim como todo o conteúdo do Livro Sagrado e a sua trajetória na História, realmente pode deturpar a Palavra e manipular as pessoas prejudicando diversos grupos. Sim, algumas pessoas mal intencionadas usavam apenas alguns trechos da Bíblia, anteriores à vinda de Jesus e tudo o que ele nos ensinou a partir do seu nascimento, para manipular as pessoas e justificar o injustificável – o direito ao voto só para homens.

Mas ok, não falemos muito sobre religião. Como vocês sabem, este blog não é para isso. Mas sim, como o título do filme sugere e como alguns conservadores que aparecem neste filme sinalizam em alto e bom som, a Bíblia foi usada de forma equivocada para justificar a desigualdade entre gêneros. E por muitos e muitos séculos, infelizmente. Agora, parece realmente incrível que um país “avançado” como a Suíça tenha demorado, em alguns vilarejos, até os anos 1990 – isso mesmo, os anos 1990!!! – para admitir que as mulheres pudessem votar nas eleições como os homens.

Por isso mesmo esta história é tão surpreendente e interessante. Primeiro, para desnudar alguns conceitos equivocados que podemos ter sobre alguns países e sociedades. Depois, para nos fazer pensar que o conservadorismo, normalmente, apenas atrasa os avanços da sociedade. Ou seja, quando alguém está debatendo algum avanço, especialmente em relação a direitos humanos, e outros estão resistindo muito a debater o assunto ou mantendo as suas posições firmemente fincadas no “lugar de sempre”, devemos nos preocupar com isso. A luz amarela deve acender. E devemos nos perguntar: esta posição conservadora está fazendo exatamente o que? Está preservando o que precisa ser preservado ou impedindo a sociedade de avançar?

Neste filme, tratamos sobre um direito básico para as mulheres. Mas quantos direitos, sem ser este do voto, continuam sendo ignorados ou impedidos hoje em dia no Brasil e em várias parte do mundo por causa do conservadorismo? Sim, é natural que na sociedade tenhamos sempre um “embate” de diversos interesses. Mas a busca pela igualdade não deveria estar acima destes interesses individuais ou de alguns grupos? Eu penso que sim.

Mas ok, vou parar de discursar. 😉 É que este filme realmente desperta este interesse de falarmos a respeito destes temas. Apenas por isso, The Divine Order já merece aplausos. Mas deixando em segundo plano agora os temas que o filme sucinta, vamos falar um pouco mais sobre a narrativa e sobre esta produção enquanto obra de cinema.

Uma das grandes qualidades deste filme é o roteiro interessante, bem escrito e bem equilibrado de Petra Biondina Volpe. Ela não torna a história arrastada ou pesada. Ela não faz um grande discurso “feminista”. Mas ela conta, de forma muito natural, como se desenvolvem as relações entre homens e mulheres em uma pequena vila conservadora em um país desenvolvido. Não é difícil de identificarmos, especialmente se tivermos um certo “tempo de vida”, alguns daqueles personagens na nossa própria realidade. Certamente já encontramos algumas daquelas pessoas, suas formas de pensar e de agir na nossa própria vida.

The Divine Order, então, tem esta primeira grande qualidade: consegue desenvolver empatia no público que assiste à produção ao mesmo tempo que apresenta as suas ideias de forma convincente e com uma boa dinâmica, sem grandes discursos ou com um roteiro “forçado”. A segunda grande qualidade desta produção é a escolha do elenco e o trabalho dos atores em cena.

Todos parece terem sido escolhidos à dedo, porque todos são muito bons. As atrizes, em especial, são carismáticas e talentosas. E os homens que aparecem em cena, apesar de não serem tão “simpáticos”, em geral – com exceção do marido da protagonista, Hans (Maximilian Simonischek), o único um pouco mais “evoluído” em cena -, fazem um belo trabalho, bastante convincente.

Este é um filme sobre empoderamento feminino. E há algumas cenas realmente muito interessantes sobre isso, como quando Nora, a cunhada Theresa (a ótima Rachel Braunschweig) e a amiga Vroni (a também excelente Sibylle Brunner) participam de uma palestra de conscientização feminina. Ali elas descobrem o poder do clítoris e a não ter vergonha de buscarem a sua própria sexualidade. Esta é uma das sequências mais divertidas e interessantes do filme. Ela ajuda a mostrar o talento da diretora e roteirista Petra Biondina Volpe para contar uma história.

Mas, ao mesmo tempo que o roteiro de The Divine Order é um de seus pontos fortes, ele também tem algumas escolhas que o tornam o pequeno ponto fraco desta produção. Certo que nem todos os homens do vilarejo suíço eram machistas e idiotas. Mas apenas um realmente se salvava? Segundo o roteiro de Volpe, apenas o marido da protagonista era um pouco mais consciente e sabia da importância de defender o voto feminino. Todo o restante do vilarejo seria contrário – ao menos é o isso o que sinalizaram no primeiro encontro comunitário para discutir o tema.

Então como, depois, apenas pela greve das mulheres – vencida por eles – e pela pressão que elas fizeram no dia da votação do plebiscito, a maioria mudou de ideia? Isso parece um tanto forçado, ou não? Eu achei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez se mais homens tivessem sinalizado alguma opinião diferente no início, ou se algum outro acontecimento além da morte de Vroni tivesse ocorrido e provocado uma reação direta de mais consciência dos homens do vilarejo, a mudança deles na reta final teria sido mais convincente, certo?

Apenas por detalhes como este, como a simplificação do filme entre os “idiotas” e conservadores e aqueles que começam a acordar para a igualdade entre as pessoas, é que não achei este filme perfeito. Acho que a história é bem narrada, que The Divine Order tem diversas qualidades técnicas, como a direção de fotografia e a direção de Volpe, mas que faltou para o roteiro uma migração melhor entre o cenário inicial e final da história. Mas, francamente, este é apenas um pequeno detalhe.

No geral, este filme é um belo entretenimento. Uma produção muito bem conduzida e com uma história importante e relevante até hoje. The Divine Order não apenas pode levantar debates sobre a igualdade de gênero como sobre outras lutas pelos direitos das pessoas. Quem sabe aprendemos um pouco com o que vemos em cena para tentar incluir mais as pessoas do que excluí-las das decisões que deveriam ser de todos? Um belo filme, e com um debate realmente necessário.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, gostei muito do trabalho de Petra Biondina Volpe, tanto na direção quanto no roteiro. Como eu não lembrava do nome dela, fui procurar mais informações sobre a diretora e roteirista. Esta suíça de 47 anos tem 11 produções no currículo como roteirista, oito como diretora, e 10 prêmios no currículo. De todos estes prêmios, sete ela recebeu por The Divine Order. Ela também foi premiada pelo filme feito para a TV Frühling im Herbst e pela produção Crevetten – este último quando ela ainda era estudante, em 2002. Ou seja, ela é um jovem talento que merece ser acompanhado.

Um dos primeiros aspectos desta produção que me chamou a atenção foi a linda direção de fotografia de Judith Kaufmann. Realmente ela sabe tirar o melhor proveito das lindas paisagens e lugares do interior da Suíça. O visual da produção, especialmente nas cenas iniciais, é incrível. Outros aspectos que merecem ser mencionados por sua qualidade são a trilha sonora de Annette Focks; a edição competente de Hansjörg Weissbrich; o design de produção de Su Erdt; e os figurinos de Linda Harper.

O elenco de The Divine Order é uma das grandes qualidades desta produção. A protagonista e narradora do filme, a atriz Marie Leuenberger, é puro carisma. A atriz faz muito bem o seu papel, tendo algumas parcerias fundamentais em cena, como as grandes atrizes Sibylle Brunner e Rachel Braunschweig. Para mim, elas são as estrelas da produção. Mas há outros atores, com papéis menores, que também fazem um belo trabalho. Neste sentido, vale destacar o bom trabalho de Maximilian Simonischek como Hans, marido de Nora; Marta Zoffoli ótima como Graziella; Bettina Stucky muito bem como Magda, filha de Vroni; Noe Krejcí muito bem como Max, filho mais novo da protagonista; Finn Sutter também bem como Luki, o outro filho de Nora; Peter Freiburghaus muito bem como Gottfried, pai de Hans e de Werner (e este último interpretado por Nicholas Ofczarek); e Ella Rumpf como Hanna, a filha “rebelde” do casal Werner e Theresa.

Estes são os atores que tem mais destaque na produção. Mas todos os coadjuvantes que aparecem em cena, inclusive muitas mulheres do vilarejo que aderem à greve liderada por Nora, fazem um belo trabalho e ajudam esta história a ser bem contada.

Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a história do voto das mulheres. Eis algo que filmes bacanas fazem: despertam a nossa curiosidade para saber mais sobre o assunto. Se você também ficou interessado(a) sobre o tema, compartilho por aqui algumas leituras interessantes. Neste texto você descobre, entre outras informações, que o primeiro país que adotou o voto feminino foi a Nova Zelândia, em 1893. O segundo país a admitir que as mulheres votassem foi a Finlândia, em 1906. E o Brasil? O voto das mulheres foi reconhecido no Brasil em 1932 – como vocês podem conferir neste outro texto. Também vale dar uma olhadela no artigo da Wikipédia sobre o sufrágio feminino.

Ah sim, e sobre a história do voto, também recomendo este outro texto. Bem interessante, diga-se.

The Divine Order estreou na Suíça na região que fala alemão no dia 9 de março de 2017. O primeiro festival no qual o filme participou foi o Festival de Cinema de Tribeca, no mês seguinte. Depois, até novembro, a produção participou de outros 16 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Até o momento, o filme ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros sete.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Marie Leuenberger, o de Melhor Elenco e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira conferidos no Film Club’s The Lost Weekend; Melhor Atriz para Marie Leuenberger, Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Braunschweig e Melhor Roteiro no Swiss Film Prize; Melhor Filme de Ficção e Melhor Filme em Língua Estrangeira no Traverse City Film Festival; Melhor Filme segundo a escolha do público, Melhor Atriz para Marie Leuenberger e o Nora Ephron Prize no Festival de Cinema de Tribeca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e apenas duas negativas para The Divine Order, o que garante para a produção uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,2. O nível de aprovação dos dois sites para o filme é bastante positivo se levarmos em consideração o padrão das duas páginas.

CONCLUSÃO: Mulheres, uni-vos! The Divine Order demonstra como, só assim, as mulheres e qualquer grupo que é subjugado por outro com mais “direitos” consegue ter os seus direitos respeitados. Um filme muito interessante, especialmente pela história reveladora que ele nos apresenta. Países desenvolvidos nem sempre são os precursores de mudanças necessárias, como bem demonstra esta produção. Bem narrado, com uma direção de fotografia deslumbrante e com atores carismáticos, este filme é uma grata surpresa. Ele trata de uma luta de direitos importante, ainda que, convenhamos, é um tanto pueril em algumas partes. Mas vale muito ser visto. Mais uma bela pedida desta temporada pré-Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis que temos filmes muito interessantes e diversos nesta lista pré-Oscar. Digam o que disserem, mas esta é uma das vantagens da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Divine Order é o quarto filme que eu vejo, de um total de 92, que estão buscando uma das cinco vagas na disputa da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, ainda acredito que First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers seja a produção que tenha mais predicados para chegar entre os cinco finalistas nesta categoria sempre tão disputada. Depois desta produção, que eu super recomendo e que eu comentei por aqui, acredito que The Divine Order seja o filme que tenha mais qualidades para chegar entre os finalistas. Acho que o filme pode chegar na lista dos pré-indicados, aquela que aponta os nove semifinalistas.

Mas chegar entre os cinco filmes que realmente vão disputar uma estatueta dourada… ainda é cedo para afirmar isso. Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, eu diria que eu apostaria algumas fichas apenas em First They Killed My Father. Apesar de ser bom, The Divine Order acho que é “gracioso” demais e um tanto pueril para conseguir realmente avançar frente a outras produções mais densas, contemporâneas e até mais “inovadoras” do que este filme que é bacana, mas é um tanto previsível demais. Veremos, mas eu não apostaria nele entre os cinco finalistas.

Ainda assim, considero que ele tem mais chances que Layla M. e que Du Forsvinder. Agora, bora seguir o restante da lista e ver a outros favoritos e filmes que “correm por fora”.

ATUALIZAÇÃO (17/12): E a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou, no dia 14 de dezembro, a lista de nove filmes que avançam na disputa pelas cinco vagas na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. The Divine Order, que corria um tanto “por fora” na sempre acirrada disputa por uma vaga, realmente ficou de fora da lista. Algumas das produções que avançaram eram esperadas – especialmente In the Fade, The Square, Una Mujer Fantástica, On Body and Soul (comentada aqui) e Loveless (com crítica neste link). Mas outros filmes, como Foxtrot, The Insult, Félicité e The Wound não eram escolhas tão óbvias. Veremos que filmes agora conseguem as cinco vagas finais.

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