Beoning – Burning – Em Chamas

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Um encontro casual com alguém que você não encontrava há muito tempo pode mudar a sua vida. Inicialmente, você pode até não se dar conta disso. Mas depois tudo fica claro, especialmente quando esta pessoa some. O filme sul-coreano Beoning trata de uma história de amor com diversos desencontros e com constatações sobre a diferença entre classes sociais um tanto assustadoras. Um filme interessante e que faz pensar, especialmente pelo final “intempestivo” e sobre o seu tom existencialista.

A HISTÓRIA: Barulhos de trânsito, como buzinadas e o som de automóveis. Atrás de um caminhão, Lee Jong-su (Ah-In Yoo) termina de fumar um cigarro. Ele pega algumas mercadorias do caminhão, coloca sobre um ombro e caminha entre várias pessoas até chegar a um local onde duas moças jovens dançam e convidam as pessoas a aproveitar super liquidações. Uma das moças olha bastante para Lee Jong-su, que entra no centro comercial passando pelas jovens.

Shin Hae-mi (Jong-seo Jeon), uma das moças, entrega um número para ele. Quando ele está saindo, ele olha para o celular e para a garota bonita e simpática que está “dando mole para ele”. Ele ganha um relógio no sorteio, e Shin Hae-mi pergunta se ele tem namorada. Ele diz que não, e ela comenta que ele vai precisar arranjar uma já que o relógio é feminino. Quando ele começa a ir embora, ela diz que o conhece da cidade natal deles. Esse encontro vai mudar a vida dos dois, mas de uma forma que eles não poderiam esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Beoning): Esse filme tem uma pegada muito interessante. Mas ele também tem algumas características com as quais não estamos exatamente acostumados e que são bastante típicas de parte do cinema sul-coreano. Uma destas características é uma certa “estranheza” em relação ao comportamento dos personagens, suas decisões e o desenrolar da história.

Diferente de outros filmes daquele país, Beoning não aposta no sobrenatural. Muito pelo contrário. Algo que achei realmente interessante no roteiro de Jungmi Oh e Chang-dong Lee, que escreveram Burning baseados em uma história curta do livro Barn Burning, de Haruki Murakami, foi como o filme “bebe” da realidade de duas classes sociais bem diferentes que compartilham o mesmo espaço no cenário urbano da Coreia do Sul.

Além desta particularidade, que me parece um dos principais trunfos de Beoning, gostei muito da direção delicada e atenta aos detalhes de Chang-dong Lee. O diretor sabe explorar muito bem o talento dos atores, as nuances da história, os pequenos gestos plásticos e simbólicos dos personagens e, claro, outro elemento personagem da história, que são os ambientes da cidade e do interior do país.

O filme tem, aparentemente, uma história relativamente simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um rapaz solteiro se encontra por acaso com uma garota com quem ele conviveu na infância. Ambos estão na “cidade grande” agora, mas ambos vieram do interior. Eles são, como milhares de outras pessoas da cidade grande, “estranhos no ninho”. Mas eles sabem se virar e correr atrás das condições mínimas para ter uma certa qualidade de vida.

Assim, Beoning é um filme sobre um reencontro de duas pessoas em um cenário diferente e desafiador. Por este lado, Beoning é uma história de amor composta por encontro, abertura de um para o outro, seguido de desencontro, expectativas frustradas e muitas, muitas palavras não ditas. Mas esta produção trata de muitos outros temas além desse.

A viagem de Lee Jong-su para a cidade natal Paju, no interior, para cuidar da propriedade do pai, que será julgado por agressão em breve, nos faz observar o contraste entre duas realidades muito diferentes do país. Esse contraste fica ainda mais evidente quando entra em cena Ben (Steven Yeun), um sujeito de classe alta que acaba se aproximando de Shin Hae-mi na viagem que ela faz para a África.

O “background” e a realidade dos protagonistas é muito diferente da vivida por Ben. Mas o sujeito, extremamente simpático, parece estar muito interessado por essa realidade diferente de Lee Jong-su e Shin Hae-mi. Enquanto ela parece encantada pelo modo de vida e o jeito de ser de Ben, Lee Jong-su está desconfiado. Ele sente que algo não se encaixa ou não “bate” no comportamento de Ben.

Por algum tempo, ficamos pensando se esse “pé atrás” de Lee Jong-su é apenas ciúme de Shin Hae-mi ou se existe algo a mais naquela história. Aos poucos, percebemos que parece que Ben olha para os dois amigos de infância como quem observa animais em um zoológico. Mas essa observação seria apenas de curiosidade ou existe algo a mais por trás de seu comportamento?

Algo interessante deste filme é como ele brinca com a percepção de realidade. Afinal, o que Shin Hae-mi conta é verdade, algum dia já aconteceu, ou ela vive uma parte da vida na fantasia? Em certo momento, quando ela já “desapareceu”, Lee Jong-su chega a questionar algumas certezas que ele tinha.

Por exemplo, se ela realmente tinha um gato em casa ou se isso não passava de uma fantasia. Ele não se conforma com ela apenas ter desaparecido, mas acaba colocando algumas certezas que ele tinha sobre a garota em dúvida. Pouco a pouco, ele acaba “investigando” Ben, e a partir desta proximidade que ele acaba descobrindo a verdade por trás dos fatos escondidos.

Um acerto do roteiro de Jungmi Oh e do diretor Chang-dong Lee é deixar um certo tom de incerteza e de dúvida no ar. Ainda que, claro, alguns fatos descobertos por Lee Jong-su são irrefutáveis. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, do nada, surge um gato na vida de Ben. Quando o gato foge e Lee Jong-su o encontra, ele fala o nome do gato de Shin Hae-mi e o gato parece atender ao chamado. Além disso, ele encontra diversos objetos de mulheres no banheiro de Ben.

Esse é um verdadeiro clássico. Sabemos que muitos psicopatas que viram serial killers tem como hábito guardar “souvenirs” de suas vítimas. É como se aqueles objetivos fossem pequenos “troféus” de suas conquistas tirando a vida de uma outra pessoa. Assim, mesmo o filme deixando um certo tom de dúvida no ar, sim, Chang-dong Lee acaba fazendo “justiça com as próprias mãos”.

A parte de reflexão do filme sobre as diferenças sociais grandes na sociedade sul-coreana está na constatação de que uma pessoa como Ben, com boa educação e muito dinheiro no bolso, pode realmente sair incólume de uma série de assassinatos de garotas sobre as quais “ninguém se importa”. Para Ben, Shin Hae-mi e todas as outras garotas do interior que ele encontra e com as quais ele se envolve são perfeitamente descartáveis.

Como ninguém realmente se interessa por estas garotas, segundo a visão de Ben, elas podem desaparecer sem maiores consequências. Ele sente a necessidade de “queimar”, de eliminar aquelas vidas tão cheias de vitalidade e que buscam o sentido da vida. Para ele, não ter limites é o que lhe interessa, é o seu combustível. Além disso, Ben é sádico. Ele se diverte ao ver o sofrimento de Lee Jong-su e de jogar com ele e com Shin Hae-mi.

Estas são as narrativas centrais de Beoning. Mas o filme também tem alguns outros pontos de interesse paralelos e que são interessantes, como a viagem de Shin Hae-mi para a África, em busca do “Grande Faminto” e da sua consequente busca pelo sentido da vida; as famílias disfuncionais simbolizadas pelos pais do protagonista e a sua relação nada próxima com eles; e a questão da criatividade literária, um interesse do protagonista, que cita William Faulkner e O Grande Gatsby.

Aliás, interessante que, em um certo momento do filme, o protagonista comenta que o seu escritor preferido é Faulkner e que, muitas vezes, ele considera que a sua vida é como um livro do escritor. Algumas característica da obra de Faulkner podem ser vistas nesse filme, então essa “inspiração” e relação é algo também interessante nesta produção.

Em geral, gostei da complexidade do filme – que tem a qualidade de não parecer muito complexo enquanto ele se desenrola, mas percebemos isso no arremeto final da produção -, assim como de sua narrativa “naturalista”, fluída e envolvente. Os atores centrais da produção fazem um ótimo trabalho, e gostei bastante também da direção de Chang-dong Lee, que sabe colocar a atenção de sua câmera no local perfeito – e nem sempre o mais óbvio – durante toda a produção.

Um bom filme, ainda que a história de um romance frustrado por um serial killer não seja, exatamente, a mais “edificante” de todas, não é mesmo? O filme é bacana, mas não tem a força que eu estava esperando – ao menos com um título para o mercado internacional como Burning – e nem uma “mensagem” como eu gosto de apreciar em filmes mais humanistas/filosóficos.

Verdade que Beoning tem uma pegada um pouco “existencialista”. Afinal, o que realmente move cada um dos personagens? O que eles buscam, o que os faz realmente pulsar? Ainda que tenha um pouco desta pegada, Beoning não é um filme realmente existencialista. Apesar disso, é um filme bacana por nos apresentar uma ótica diferenciada e uma história realmente original. Vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito algo para vocês: assisti a Beoning há mais de uma semana. Então, escrevi essa crítica com as principais lembranças que o filme me trouxe. Mas não é o mesmo que assistir a uma produção em um dia e escrever sobre ela no dia seguinte, por exemplo, ou dois dias depois. Tenho a consciência que parte da “complexidade” ou das características de Beoning perdi no caminho. Mas acho que o essencial sobre o que eu achei do filme eu comentei acima.

Entre as qualidades da produção, além do roteiro de Jungmi Oh e Chang-dong Lee e da direção de Chang-dong Lee, destaco o trabalho dos intérpretes. O filme é, basicamente, centrado no trabalho de três atores: Ah-In Yoo como Lee Jong-su; Jong-seo Jeon como Shin Hae-mi; e Steven Yeun como Ben. Os três estão muito bem em seus respectivos papéis. Steven Yeun era mais conhecido, por seu trabalho em Lost, mas as revelações do filme são Ah-In Yoo, em primeiríssimo lugar, e Jong-seo Jeon na sequência. Sem eles, o filme não nos envolveria ou nos interessaria da mesma forma.

É de arrepiar pensar em duas partes desta produção, em especial. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de descobrirmos o que aconteceu com Shin Hae-mi, é de arrepiar pensar nas últimas palavras que Lee Jong-su disse para ela e na forma com que Ben falava de “queimar estufas” quando, na verdade, estava falando de outro crime – muito mais cruel. De arrepiar.

Além destas qualidades, é preciso citar a ótima direção de fotografia de Kyung-pyo Hong e a trilha sonora caprichada de Mowg. Outros elementos técnicos que funcionam muito bem: a edição de Da-won Kim e Hyun Kim; o design de produção de Jum-hee Shin; e os figurinos de Choong-yeon Lee.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção. Ainda que questões políticas não sejam importantes na produção, não dá para ignorar o fato da cidade dos protagonistas, Paju, fazer fronteira com a Coreia do Norte. Esse é um elemento de uma certa “tensão” subliminar em partes do filme. Também não é por acaso, acredito, que Donald Trump apareça discursando na TV do protagonista.

É como se os realizadores nos dissessem, de forma subliminar, que existem tensões distantes na vida de qualquer pessoa, por mais simples que ela seja, porque, afinal de contas, todos estamos ligados nesse mundo maluco globalizado em que vivemos.

Achei interessante a guinada que Beoning dá na história depois de quase 1h30 de produção. Honestamente, até aquele momento do “desaparecimento” de Shin Hae-mi, não dava para desconfiar que o filme iria por aquele caminho. Isso foi algo interessante e é a parte mais surpreendente de Beoning.

Beoning estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até dezembro de 2018, a previsão é que o filme participe de outros 72 festivais em diferentes países. Esse é um número impressionante. Acredito que seja o filme que eu assisti com maior participação em festivais. Incrível.

A citação de O Grande Gatsby também tem um significado para a história. As duas obras compartilham de um certo “triângulo amoroso” no qual estão envolvidos um “homem rico, carismático e misterioso” e um narrador menos carismático que desenvolve uma “obsessão” pelo homem rico e pela mulher que une os três. Existem paralelos interessantes em Beoning e O Grande Gatsby, realmente.

De acordo com as notas da produção, Beoning foi inspirado também em uma história de 1939 de William Faulkner. Segundo Chang-dong Lee, o filme é a história “de um jovem Faulkner vivendo no mundo de Murakami”. Interessante.

Beoning ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 31. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Adana; para os prêmios de Melhor Diretor para Chang-dong Lee e Melhor Trilha Sonora para Mowg no Festival de Cinema Buil; para o Prêmio FIPRESCI no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Grand Bell Awards da Coreia do Sul; e para o de Melhor Filme no Oslo Films from the South Festival.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e sete negativas para este filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Especialmente os críticos, como vocês podem notar pela diferença de notas, gostaram de Beoning. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para Beoning, fruto 31 críticas positivas e de duas críticas medianas. O site também apresenta o selo “Metacritic Must-see” para Beoning.

De acordo com o site Box Office Mojo, Beoning faturou US$ 331,4 mil nos cinemas dos Estados Unidos. Dificilmente os americanos assistem a filmes que são de fora do país – especialmente quando não envolvem atores ou diretores famosos, especialmente europeus.

Além de não ter um desenvolvimento óbvio, Beoning ganha alguns pontos por aquela certa carga de “incerteza” que o filme deixa no ar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que, como comentei antes, Lee Jong-su encontra alguns pontos que parecem dar sentido para a tese dele de que Ben matou Shin Hae-mi, esses mesmos pontos podem ser vistos como circunstanciais. O gato que ele chama pelo apelido do gato de Shin Hae-mi não responde na primeira vez. Ou seja, podia não ser o gato dela. O relógio que poderia ser da garota e outros objetos de mulheres poderiam ser guardados por Ben como souvenir por outra razão. Enfim… apesar da teoria de Lee Jong-su parecer ser lógica, ela também poderia estar errada. E essa incerteza deixada por Chang-dong Lee é um grande acerto.

Beoning é uma produção 100% da Coreia do Sul. O filme é o representante do país na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Com ele, sigo a minha missão de assistir ao máximo de filmes que poderão concorrer a uma estatueta dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood no próximo ano.

Para quem se interessou em saber mais sobre William Faulkner, há um resumo interessante sobre o autor na Wikipédia. Vale dar uma conferida.

CONCLUSÃO: Nem tudo que parece, realmente é. Isso vale para a vida real e para uma história contada em um filme. Beoning sabe mexer muito bem com as nossas leituras dos “fatos” e as nossas desconfianças. Um filme com poucos personagens importantes mas que tem ótimos atores por trás. Singelo, envolvente e um tanto angustiante, Beoning nos faz pensar sobre as nossas escolhas e sobre o que deixamos de dizer de importante para os outros.

Assim, ele tem uma pegada “pessoal” e ao mesmo tempo social ao mostrar realidades muito diferentes que convivem em uma mesma cidade e país. Um filme sul-coreano diferenciado e que chega a criar mal-estar, especialmente pelo final. Apesar de não seguir a linha de terror e de suspense de outros filmes sul-coreanos, Beoning não ignora o lado mais sombrio das pessoas e das suas relações. Interessante.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Esse é o quarto filme que eu assisto e que está buscando uma vaga entre as produções finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo Oscar. Antes de conferir a essa produção sul-coreana, eu assisti à Den Skyldige (comentado aqui), à I Am Not a Witch (com crítica neste link) e à Dogman (com crítica aqui).

Ainda preciso assistir a alguns dos filmes “favoritos” segundo alguns especialistas estrangeiros para esta categoria. Mas entre os quatro filmes que eu já assisti, difícil realmente mensurar as chances de Beoning na disputa. Avaliando o meu gosto pessoal, acho que ele perde para Den Skyldige e fica próximo do impacto causado por Dogman e I Am Not a Witch.

Tentando pensar com a cabeça dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, acredito que ele corre um pouco por fora, ficando atrás de Den Skyldige e de I Am Not a Witch. Como ainda não assisti à muitos dos favoritos, por enquanto, acredito que Beoning teria que fazer uma ótima campanha nos bastidores para chegar entre os cinco finalistas ao prêmio. Se chegar lá, os produtores devem ficar satisfeitos, porque não vejo muitas chances dele levar o prêmio.

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