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Pájaros de Verano – Birds of Passage – Pássaros de Verão

A paixão e a ganância, quando não são administrados, causam problemas, inclusive guerra e morte. Demorei para assistir a Pájaros de Verano. O filme ganhou evidência quando se tornou um dos semi-finalistas no Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Me interesso sempre pelo cinema colombiano, por isso foi uma pena ter que levar tantos meses até conseguir assistir a essa produção. Mas antes tarde do que mais tarde, dizem os espanhóis. 😉 Que filme incrível! Realmente, surpreendente.

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Ahlat Agaci – The Wild Pear Tree – A Árvore dos Frutos Selvagens

Fazer as pazes com as suas origens nem sempre é algo simples. Muitas vezes, insatisfeitos que somos – ou podemos nos tornar -, questionamos o lugar de onde viemos, assim como nossos pais. Mas esta é uma visão inocente dos fatos. Com o tempo, e o efeito dele é algo maravilhoso, percebemos tudo sob outra perspectiva. Com menos dureza, com menos julgamento, com maior compreensão e afeto. Ahlat Agaci é um filme potente sobre isso. Um filme longo, é verdade, com cerca de 3h de duração, mas que justifica esse investimento de tempo e paciência especialmente no final. Um filme belíssimo, sensível e com uma proposta diferenciada. Um achado.

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Werk Ohne Autor – Never Look Away – Nunca Deixe de Lembrar

Um filme que começa de forma muito interessante, nos trazendo à memória como parte do povo alemão sofreu na pele a ideologia nazista. Mas Werk Ohne Autor não é uma produção comum sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que trate de temas fortes daquela época, Werk Ohne Autor trata, sobretudo, sobre o poder da arte. Não apenas para inspirar, mas também para mover e salvar vidas. A essência do autor deve estar na sua obra, isso essa produção deixa muito claro. Mas quem nos inspira, no final? Alguns que puderam ser considerados loucos. Um filme muito bem conduzido e interessante, ainda que seja preciso trabalhar com dois ritmos muito diferentes ao longo da produção – o que não necessariamente funciona com perfeição.

A HISTÓRIA: Começa em Dresden, em 1937. E uma galeria, em uma visita guiada, um alemão fala sobre a Arte Moderna. Ele comenta que ela existia antes da Alemanha Nazista, mas que, agora, eles querem novamente uma arte alemã. Essa arte, segundo ele, estamparia os valores alemães. No grupo de pessoas que visitam o museu, estão Elisabeth May (Saskia Rosendahl) e o seu sobrinho, Kurt Barnert (Cai Cohrs). Durante a visita, quem os guia no museu diz que os artistas que fazem Arte Moderna tem falhas na visão, que podem decorrer de acidente ou de herança. Sugere que, se for o segundo caso, os nazistas podem atuar para que esse problema não se perpetue. Em breve a família de Elisabeth e de Kurt vivenciarão uma situação como a sugerida por ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Werk Ohne Autor): Esse era o único filme que faltava para que eu conseguisse completar a lista das cinco produções que concorreram ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Cinema alemão, do qual eu gosto tanto – só não mais que o cinema francês. E obra de um diretor do qual eu aprecio também o trabalho, Florian Henckel von Donnersmarck – que fez, antes, o interessantíssimo Das Leben der Anderen (comentado aqui no blog).

Para falar a verdade, eu não tinha acompanhado mais a von Donnersmarck. Tanto que eu não sabia, por exemplo, que após Das Leben der Anderen ele havia lançado apenas um outro filme, The Tourist, com Johnny Depp e Angelina Jolie e que, em seguida, ele ficou oito anos longe dos lançamentos nos cinemas. Depois de impressionar a muitos com Das Leben der Anderen, parece que ele foi “contaminado” por Hollywood com o comercial The Tourist e voltou para as suas origens vários anos depois com esse Werk Ohne Autor.

O filme tem dois momentos muito diferentes. E isso chega a ser impactante. A diferença entre a primeira parte do filme e o que vemos depois é marcante. Funciona bem? Acho que o diretor começa forte, de maneira impactante, e que depois ele perde um pouco da força abraçando uma trajetória mais “plana” do protagonista, digamos assim. Por outro lado, isso também é interessante, não apenas para mostrar que a arte não precisa ser visceral como que não precisamos ter os nossos “desejos” de plateia por sangue, vingança ou afins atendido.

Werk Ohne Autor foca na história de um artista. Não por acaso a narrativa acompanha esse artista, vivido, na etapa adulta, pelo ator Tom Schilling e, quando criança, por Cai Cohrs, desde a sua infância. Quando era muito jovem, ele foi marcado e inspirado pela tia Elisabeth May (a ótima Saskia Rosendahl). Ela é uma pessoa à frente do seu tempo, muito sensível e com forte apreço pelas artes, mas acaba sendo diagnosticada como esquizofrênica.

O problema é que eles viviam, quando ela era jovem, justamente durante o regime nazista. Naquele momento, não importa se você fosse alemão ou estrangeiro. Se você tinha algum problema de saúde ou alguma doença mental, você era considerado “inferior” e não “merecia” dividir os recursos públicos com pessoas “saudáveis”. Francamente, especialmente pelas atitudes de Elisabeth quando ela estava internada, apresentando uma visão tão crítica e sensível, tenho sérias dúvidas se ela realmente sofria de esquizofrenia.

Será que ela não poderia ter sofrido apenas com uma crise nervosa? Relativamente limitada no interior da Alemanha e bastante pressionada na adolescência, quem nos garante que ela não tinha sofrido apenas com uma carga grande de estresse? E ainda que não fosse isso, que ela realmente tivesse esquizofrenia, hoje sabemos que essa doença mental tem tratamento e pode ser controlada.

A parte inicial do filme, especialmente quando é mostrada uma reunião de oficiais do Reich, é de arrepiar. Sob o comando do Dr. Burghart Kroll (Rainer Bock), o professor Carl Seeband (Sebastian Koch) e outros médicos responsáveis por clínicas e hospitais espalhados pela Alemanha, ganham o poder de determinar quem viveria e morreria sob as ordens do regime nazista. A ideia de Kroll era eliminar todas as pessoas que tinham doenças mentais e que eram consideradas, por isso, inferiores. Na cabeça doentia daquelas pessoas, eles estariam fazendo um “favor” para as gerações futuras.

Apenas ao assinalar uma cruz vermelha – ou um sinal de mais – na ficha dos pacientes, Seeband e seus colegas estavam decretando o envio das pessoas para campos de extermínio na parte “oriental” do país. O cinema alemão não tem problema em lembrar que o extermínio de milhões de pessoas não focou apenas em judeus, mas em outras pessoas que eram consideradas “inferiores” ou “non gratas” pelo regime nazista e criminoso do Reich.

Depois daquela introdução marcante e impactante, Werk Ohne Autor desacelera bastante. Mas isso não faz com que a produção deixe de ser interessante ou fique enfadonha. Muito bem conduzida por von Donnersmarck, Werk Ohne Autor acompanha o sobrinho de Elisabeth, Kurt, em sua jovem vida adulta. Ele também parece ter uma visão diferenciada do mundo, como a tia. Mas vivendo uma época pós-guerra e com a família tendo aprendido com a história de Elisabeth, Kurt não segue o mesmo caminho da tia.

A partir daí, vemos como ele evoluiu em sua busca pela arte. Inicialmente, ele se desenvolve na parte comunista da Alemanha, onde consegue sucesso seguindo a ideologia que faz parte daquela realidade. Mas ele não está satisfeito. Buscando por liberdade artística e por reconhecimento da vanguarda desta área na época, Kurt migra com a namorada, Elisabeth Seeband – que ele prefere chamar de Ellie (Paula Beer), para a parte ocidental da Alemanha.

Nessa parte da produção, mergulhamos na lógica da arte moderna e da busca dos artistas por sua própria identidade e expressão desta identidade para os demais. Se a tia do protagonista o influenciou a começar a sua trajetória, é o professor Antonius van Verten (Oliver Masucci) que o incita a amadurecer na sua linguagem artística. Ainda que ele parece ter se “decepcionado” com o pupilo inicialmente, a sua crítica e a sua própria história ajudam Kurt a encontrar a linguagem e o foco que ele precisa para expressar o que ele acreditar ser a sua identidade.

Interessante a forma com que a produção explora as diferentes escolas artísticas, o quanto a política e a vida influenciam a arte. A busca do artista por sua própria voz é sempre algo admirável e que rende boas histórias. O foco principal de Werk Ohne Autor é esse, assim como contar, é claro, parte do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra a partir da ótica de alguns alemães.

O período da guerra e do pós-guerra visto pela ótica dos alemães que não aderiram ao regime – mas que foram um tanto “forçados” a aceitá-lo para sobreviver – é um dos pontos de interesse do filme. Assim como aquela busca da essência artística do protagonista. Para embalar a história – e torná-la mais “comercial”, talvez? – o diretor e roteirista também nos apresentam uma história de amor inicialmente “impossível”.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, alguém quer algo mais improvável e “mundo pequeno” do que o sobrinho da garota que é morta por Seeband e que tinha o mesmo nome que a filha dele se apaixonar justamente pela filha do carrasco de sua tia? Elas terem o mesmo nome é algo marcante também, especialmente porque a tia do protagonista implorou para o médico como se fosse a sua filha.

Claro que, conforme a história se desenrola, parece que em algum momento virá a tona a verdade sobre a tia de Kurt e seu carrasco. Esse risco existe, mas a revelação acaba não acontecendo. Seeband, claro, mata a charada ao ver as obras de Kurt, mas o genro “desafeto” dele acaba sem entender a reação do sogro e não tem revelado o mistério da tia. Com isso, parece, von Donnersmarck está nos mostrando que a vida é cheia de encontros e de coincidências, mas que nem todas as histórias tem as revelações e as resoluções que gostaríamos ou que veríamos em novelas.

Apesar de ter feito um juramento como médico, de salvar vidas, Seeband era, acima de tudo, um nazista convicto. Ele é tão carniceiro e preconceituoso que não se importou de praticamente tirar a possibilidade da própria filha engravidar apenas para “impedir” que um sujeito que ele considerava inferior – afinal, Kurt era um artista e vinha de uma família que não era tradicional ou poderosa – tivesse um filho com ela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda que o filme não nos entregue a “vingança” ou ao menos a queda de máscara de Seeband, mas ele avança com um final feliz dos sobreviventes do Holocausto. Kurt e Ellie conseguem ficar juntos e ela consegue engravidar, que é muito mais e o contrário do que o pai da garota desejaria. Kurt também consegue desenvolver o seu próprio estilo artístico, ainda que a crítica considere a sua arte “sem autor”.

O título original do filme, em alemão, faz alusão a isso, a uma arte “sem autor”. O título para o mercado internacional explora a frase que a tia do protagonista falava para ele – de nunca desviar o olhar. Para o Brasil, o título foi levemente modificado e faz alusão às memórias do artista sobre o próprio passado. Por incrível que pareça, os três títulos fazem sentido – apesar de, claro, quererem explorar aspectos diferentes da história.

Vamos falar do primeiro. Para os críticos que avaliam o trabalho de Kurt Barnert, ele é um dos maiores expoentes da arte do seu tempo, da sua geração. Eles elogiam o trabalho que ele faz, mas consideram que o que ele responde não é satisfatório. Por não conseguirem as respostas que desejam, os críticos consideram que a arte dele é “sem autor”. Isso fala muito sobre os nossos dias, inclusive. Os críticos e o público em geral desejam determinadas respostas e que seus desejos sejam satisfeitos, independente do que o autor deseja comunicar.

Me desculpem os críticos e o público que “funciona” com esta lógica, mas eu funciono com uma lógica diferente. Respeito o que os artistas comunicam e o que eles querem expressar. Não quero que tudo satisfaça o meu gosto ou as minhas expectativas. Para mim, o importante é que a arte faça sentido e/ou que me emocione.

Uma prova desta falta de abertura para o que o autor deseja comunicar é o que vimos recentemente com o final de Game of Thrones. As pessoas levam para tudo a cultura do “futebol”. Ou seja, havia um “team Daenerys” e um “team Jon”. Para estes times, só existia um final possível: a vitória de seus personagens no final. Qualquer outra possibilidade seria um “lixo”. Não é isso que vemos em Werk Ohne Autor também quando os jornalistas e críticos entrevistam Kurt e não conseguem dele as respostas que desejam?

Não importa a frustração ou as expectativas de quem assiste ou aprecia a algo. O ego deveria ser deixado de lado para entender a ótica do outro, do artista, suas motivações, sua história, seus sentimentos e todo o contexto que circunda aquela obra. O mesmo vale para o cinema. Devemos entender o que cada cineasta deseja nos passar antes de saber se aquilo fez ou não sentido para cada um de nós. A partir daí pode surgir a nossa crítica, embasada não apenas em gostos pessoais e em “torcidas” estilo futebol.

A frase dita por Elisabeth e que sempre inspirou Kurt tem a ver com o ensinamento de nunca ter medo de nada, de enfrentar a vida de frente e de não ter vergonha de ser o que se é. Uma frase potente, simples e que acaba moldando um bocado a percepção que o protagonista tem do mundo. Finalmente, a frase que acabou sendo usada no título do filme no mercado brasileiro tem a ver com a busca do próprio cineasta, do cinema alemão e do país em não esquecer o seu passado, até para evitar que ele se repita. Tudo isso é importante, e tudo isso ajuda a explicar esta produção.

Gostei de Werk Ohne Autor. Apesar de longo, por ser muito bem construído e por atores carismáticos como protagonistas, o filme não cansa. Passa até meio que rápido. No final das contas, essa produção tem uma narrativa clássica, linear e um pouco previsível. Nos surpreende mais apenas no início, mas depois segue uma vertente confortável.

Essa não é uma produção inesquecível, mas é um filme bem feito e bem realizado. Mais uma obra interessante sobre o regime nazista e o pós-guerra, explorando algo que não é comum de ser mostrado no cinema sobre esta época, que é justamente como os artistas se comportavam e trabalhavam nas “duas Alemanhas” que restaram após a derrota de Hitler e seus cães de guerra. Por ter esse toque diferenciado, assim como pela maneira com que a produção encara o fazer artístico e a crítica da arte, Werk Ohne Autor merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Último filme da lista dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, Werk Ohne Autor mostra a força do cinema alemão. Mas não achei o melhor filme da temporada. Particularmente, prefiro Shoplifters (com crítica neste link), Capernaum (comentado por aqui) e até mesmo produções que não chegaram entre as finalistas, especialmente Den Skyldige (comentado neste link) e Beoning (com crítica por aqui). Gostei mais desses filmes todos do que da produção que levou o Oscar para casa, Roma (com crítica neste link). Mas o filme vencedor é melhor que este Werk Ohne Autor? Acho que eles empatam, ao menos nos quesitos direção e fotografia. Em termos de roteiro, me parece que até o filme alemão apresenta elementos mais interessantes e que fazem pensar do que o filme de Cuarón.

Um dos pontos altos de Werk Ohne Autor é a sua direção de fotografia. Assim como outra produção indicada a Melhor Filme em Língua Estrangeira nesse ano, Cold War (com crítica neste link). Em Werk Ohne Autor esse trabalho leva a assinatura de Caleb Deschanel. Também vale destacar a ótima trilha sonora de Max Richter e a edição de Patricia Rommel e Patrick Sanchez Smith. Todos fazem um belo trabalho. O diretor Florian Henckel von Donnersmarck também consegue equilibrar bem todos os elementos em cena, exprimir ótimas interpretações dos atores e valorizar a parte artística da produção. Apenas o seu roteiro achei um tanto previsível e “clássico demais” na segunda parte – após aquele começo potente e impactante. Mas o trabalho dele não é ruim.

Falando nos grandes méritos do filme, além da direção segura de von Donnersmarck, da direção de fotografia de Deschanel e da trilha sonora de Richter, vale destacar o carisma dos protagonistas, especialmente de Tom Schilling e de Paula Beer. A atriz Saskia Rosendahl aparece menos do que gostaríamos, mas também esbanja carisma e beleza. Os três são o ponto alto da produção, sem dúvida. Não exageram nas interpretações e passam a veracidade necessária para nos convencer de seus personagens. O ator Sebastian Koch, veterano, também faz um belo trabalho.

Além deles, vale comentar o bom trabalho de outro veterano, Oliver Masucci, bem como o professor de arte Antonius van Verten; Hanno Koffler bem como Günther Preusser, que se torna amigo de Kurt na escola de arte; Evgeniy Sidikhin como o major russo Murawjow, que acaba protegendo Seeband depois que o médico ajuda no parto de seu primeiro filho; o talentoso Jörg Schüttauf como Johnann Barnert, pai de Kurt e mais uma vítima do regime nazista – mesmo sem apoiar o regime, ele teve que se filiar ao partido e acabou pagando caro por isso; Jeanette Hain como Waltraut Barnert, mãe de Kurt e irmã de Elisabeth; Ina Weisse como Martha Seeband, mãe de Ellie; o veterano Rainer Bock quase em uma ponta como o Dr. Burghart Kroll, comandante do extermínio; David Schütter como o artista Adrian Schimmel/Finck, que acaba “empresariando” o colega Kurt; e os atores jovens que interpretaram os protagonistas quando crianças/adolescentes, a saber: Cai Cohrs interpreta Kurt aos 6 anos de idade e Oskar Müller o interpreta quando ele teria 13 anos; e Mina Herfurth interpreta Ellie aos 6 anos.

Além do elenco e dos aspectos técnicos já comentados, vale citar o bom trabalho de Silke Buhr no design de produção; de Theresia Anna Ficus, Markus Nordemann, Robert Reblin, Marek Warszewski e de Jiri Zavadil na direção de arte; de Julia Roeske e de Yvonne von Krockow na decoração de set; e de Gabriele Binder nos figurinos.

Werk Ohne Autor estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo mês o filme estreou nos festivais de cinema de Toronto e de Zurique. Depois, a produção passaria, ainda, por outros oito festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13, incluindo as indicações para os Oscar’s de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Direção de Fotografia no Oscar 2019. A produção também foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os prêmios que o filme recebeu foram o de Melhor Ator – Nacional para Sebastian Koch no Bambi Awards; o de Melhor Produção no Bavarian Film Awards; o de Melhor Filme em Competição na mostra Arca CinemaGiovani Award e o Leoncino d’Oro Agiscuola Award para Florian Henckel von Donnersmarck, ambos entregues no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Durante o filme, fiquei me perguntando o quanto da história poderia ter relação com alguma história real. Segundo os produtores de Werk Ohne Autor, o filme é “vagamente baseado” na história do artista alemão Gerhard Richter. Parece que foi “levemente” inspirado mesmo, porque Richter reagiu à produção dizendo que ela apresentava “abuso e distorção gritante” da sua biografia.

Procurando mais sobre Richter, vi que ele já rendeu alguns documentários interessantes. Nascido em 1932 na cidade de Dresden, na Saxônia, o artista começou a ser retratado pelo cinema em 1994 com o curta para a TV Gerhard Richter. Em 1999, ele apareceu no documentário Speaking of Abstraction: A Universal Language. Depois, em 2005, foi foco do documentário Gerhard Richter: 4 Decades. Outro documentário focado nele foi lançado em 2011, Gerhard Richter Painting. Segundo a Wikipédia, o pintor alemão viveu mais de 16 anos “debaixo do comunismo” na Alemanha Oriental antes de se mudar para a Alemanha Ocidental em 1961.

Segundo este artigo de 2005 da Deutsche Welle sobre Richter, o “superstar alemão” produzia obras que valiam até US$ 9 milhões e foi considerado, pela Art Newspaper em março de 2002, o “artista vivo mais caro” do mundo – ao menos no início dos anos 2000. Segundo o artigo, em 40 anos de carreira, o estilo de Richter mudou continuamente, passando por pop art, fotorrealismo, arte conceitual e minimalista, chegando até a pintura abstrata. Também criou objetos, fotocolagens e instalações.

Para quem deseja ver mais sobre a obra diversificada do artista que inspirou o filme, vale dar uma conferida na página dedicada para ele do site Artsy.

O professor de arte de Kurt é inspirado no artista Joseph Beuys, que foi chefe do departamento de escultura na Kunstakadamie em Dusseldorf no início dos anos 1960. Foi nessa época, também, que o artista Gerhard Richter se matriculou na escola de arte pela primeira vez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 74 críticas positivas e 23 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,31. O site Metacritic apresenta um “metascore” 69 para Werk Ohne Autor, fruto de 17 críticas positivas, sete medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Werk Ohne Autor faturou cerca de US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos. Pouco, se comparado com um filme americano, mas um resultado razoável para uma produção estrangeira com três horas de duração. Até porque o filme estreou em apenas 122 cinemas do país.

Werk Ohne Autor é uma coprodução da Alemanha com a Itália. Há algum tempo, aqui no blog, vocês votaram pedindo por mais críticas de filmes alemães. Por isso, essa crítica passa a figurar na lista de textos que atendem à votações feitas aqui no blog. 😉

Me desculpem as poucas atualizações aqui no blog nos últimos meses, mas estou em uma correria boa no meu trabalho. Mas prometo, logo que possível, voltar a publicar mais textos por aqui. Com maior frequência, ao menos. Logo voltarei a alguns clássicos do cinema também – até para “reavivar” a seção aqui no blog destinada a isso e que anda meio abandonada.

CONCLUSÃO: Werk Ohne Autor começa de forma impactante. Um drama familiar que acabou sendo o drama de diversas outras famílias é contado de forma vigorosa na parte inicial deste filme. Depois, temos uma quebra de ritmo marcante em Werk Ohne Autor, o que não é difícil de trabalhar. A produção então suaviza bastante, mas acaba transmitindo a sua mensagem de amor à arte e de que o amor vence mesmo a brutalidade. Sempre bacana ver como os alemães olham e refletem sobre o próprio passado. Sem dúvida, uma cultura admirável, apesar de todos os seus equívocos históricos. Um filme longo, de três horas, que não é difícil de assistir. O tempo passa mais rápido do que o previsto. O que é um bom sinal. Vale ser visto, sem dúvidas.

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Gräns – Border – Fronteira

E se tivéssemos, entre nós, outros seres diferentes da gente? Não estou falando de humanos com características diferentes, mas de seres que não são humanos como nós. Como você agiria? Será que os aceitaríamos como eles são ou tentaríamos “moldá-los” à nossa imagem? Gräns é um filme “diferentão” mas que nos faz pensar sobre o quanto estamos realmente preparados para aceitar e conviver com o que é diferente da gente – ou do padrão. O filme também aborda questões como amor, autoconhecimento, definição da própria identidade e fazer o bem independente da sua origem e das suas características. Inusitado e interessante.

A HISTÓRIA: Sons de gaivotas e de uma embarcação. Perto dela, Tina (Eva Melander) está observando o nascer de mais um dia. Ela pega um grilo e o observa atentamente. Depois, o liberta. Em seu trabalho, Tina essencialmente observa. Muita gente passa por ela e por seu colega, mas ela pede para parar, geralmente, quem tem algo a esconder. Ela para um rapaz com boné e pede para ele lhe passar a sua bolsa. Sem mesmo abri-la, ela sabe que ele tem alguns litros de bebida ali. O rapaz diz que comprou as garrafas, mas ela o adverte que ele é jovem e que é proibido ter tantas bebidas. Tina faz o trabalho dela, mas é insultada com frequência. Essa é a sua história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gräns): Minha gente, que mês atribulado esse de abril! Tanto é verdade que, vejam só, esse é apenas o segundo texto que eu consigo publicar aqui no blog. Mil desculpas pela ausência e pelo número pequeno de críticas nesse mês. Espero que maio seja melhor. 😉

Desculpas pedidas, vamos ao que interessa: a crítica sobre Gräns. Assisti esse filme há algumas semanas. Como sempre, não tinha lido nada sobre ele antes e, por isso, fui completamente surpreendida por sua história. Muito interessante como o roteiro de Ali Abbasi, Isabella Eklöf e John Ajvide Lindqvist vai nos apresentando esse conto que, ao mesmo tempo, consegue ser bem realista e cheio de fantasia.

Gostei muito da direção de Ali Abbasi. Ele tem um olhar diferenciado para os personagens e, claramente, volta toda a sua atenção para a protagonista. Vemos a realidade sob a ótica de Tina, e isso é algo fundamental para esta história, que é baseada em um conto de John Ajvide Lindqvist. Se você, como eu, não leu nada sobre Gräns antes de assistir ao filme, certamente você ficará surpreso(a) com esse filme.

Dito isso, a partir de agora, vou conversar com você que já assistiu à produção, beleza? (SPOILER – não leia a partir daqui se você não assistiu ao filme). Descobrirmos quem é a personagem de Tina é um dos grandes processos desta produção. E não somos apenas nós que estamos descobrindo quem ela é. A própria Tina está em uma jornada de autodescoberta – na qual ela entra sem esperar ou desejar.

Por isso Gräns tem a força que tem. Primeiro, porque a descoberta sobre a personagem que fazemos é potente através do trabalho da atriz que vivencia Tina,  a ótima Eva Melander. Inicialmente, ao ver o rosto da protagonista, ela me lembrou a história do Homem Elefante. Ou seja, eu apenas achava que ela tinha alguma deformação no rosto. Mas aos poucos, quando percebemos que ela tem o que parece ser um olfato aguçado e uma capacidade extraordinária de “farejar” o medo dos outros, começamos a nos perguntar a origem deste “super poder”.

Para a protagonista de Gräns, até então, ela deveria ser apenas uma mulher “fora do padrão” que cresceu sendo insultada. Mas isso muda quando ela encontra, em um dia normal de trabalho, um sujeito parecido com ela. Ao conhecer Vore (Eero Milonoff), ela fica intrigada com ele. Deseja saber mais sobre ele e o acaba chamando para a propriedade da família.

Até aí, tudo muito “normal”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tina vive com um sujeito “encostado” e um tanto machista, Roland (Jörgen Thorsson). Ela está com ele para não ficar sozinha, mas claramente ela não gosta de ter contato físico com ele. Quando Vore passa a ficar mais próximo dela, ela descobre o porquê de sempre ter se sentido abusada por Roland: ela é um troll. Como Vore. E o interessante dos trolls é que ela, que inicialmente poderia ser vista como uma fêmea, é quem tem o órgão reprodutor que nós consideramos masculino. Ou seja, ela é quem engravida Vore – que, em teoria, seria o “macho”.

Ou seja, aparentemente, os trolls não tem o sexo definido como o dos humanos. A noção de gênero é diferente. Apenas isso já torna Gräns interessante, porque ele subverte justamente o que caracteriza homens e mulheres. Um órgão reprodutor define um ser ou são outras características que o definem? Esta é uma das questões apontadas por esse filme. Mas existem várias outras em jogo. Como a capacidade das sociedades de terem seres diferentes convivendo nos mesmos espaços.

Tina, mesmo antes de descobrir a sua verdadeira origem, se sentia um bocado desprezada e deslocada na sociedade. O quanto isso não ocorre todos os dias ao nosso redor? O quanto você e eu ajudamos para que os diferentes se sintam integrados ou não nos ambientes nos quais circulamos? Gräns nos faz pensar sobre tudo isso. E, com uma boa dose de fantasia, nos faz pensar sobre como reagiríamos caso encontrássemos seres que não fossem 100% humanos. Conseguiríamos ter uma convivência pacífica com eles ou gostaríamos de “moldá-los”? Quantas pessoas, por medo ou desprezo, tentariam exterminá-los?

Quem nos garante que, por evolução natural ou por avanços da ciência e da manipulação genética, daqui algumas décadas ou séculos não teremos realmente “seres humanos” ou seres não tão humanos convivendo nas nossas sociedades? X-Men está aí para nos fazer pensar sobre isso. Gräns também. Teremos convivência pacífica ou complicada quando isso acontecer? Só nós mesmos e as próximas gerações poderão responder a essas perguntas.

Outra questão interessante levantada por Gräns é a noção da identidade. Até conhecer Vore, Tina realmente não sabia quem ela era. Ao conhecer, finalmente, alguém da mesma espécie, Tina fica fascinada. Se apaixona. Se identifica. Sente-se poderosa ao reconhecer-se no outro e, principalmente, ao verificar, nestas semelhanças e diferenças, quem ela própria era de verdade.

Conhecer-se profundamente é algo muito poderoso. Torna as pessoas mais corajosas, mais seguras de si e mais interessantes. Tina passa por esse processo em Gräns. Mas ao fazer isso, ela percebe também que não é tão parecida de Vore quanto ela poderia inicialmente imaginar. Sim, eles são da mesma espécie. Mas as semelhanças terminam por aí. Enquanto Vore quer se vingar dos humanos, Tina gosta deles e não quer matar ou destruir ninguém por fatos que não tem a ver com ela.

A postura de ambos é muito diferente e, conforme Tina vai conhecendo mais Vore, ela percebe isso. Não apenas a história de vida e a educação de Tina foi diferente da recebida por Vore, como a personalidade dela é outra. Ou seja, desta forma, Gräns está nos dizendo que não é apenas a espécie que nos define. As nossas origens contam, da mesma forma que a nossa criação, a educação que recebemos e, principalmente, as escolhas que fazemos durante a nossa trajetória.

Sem dúvida alguma, Gräns é um filme diferentão. Provocador, nos faz pensar em questões importantes sob uma ótima que mistura fantasia e realidade. Será especialmente interessante para quem não tem preconceito de conhecer uma história que foge do comum. Da minha parte, fui surpreendida pela produção. Original e interessante, acima da média.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho todo um processo para escolher os filmes que eu vou assistir a cada semana – quando o mês ajuda e eu consigo ver ao menos um filme por semana. O que, como vocês viram pela baixa atualização do blog, não aconteceu em abril. Procuro sempre por filmes que estão no cinema ou que vão estrear. Também procura assistir ao filmes que são destaque nos principais festivais de cinema ou recuperar alguma produção de algum diretor de quem eu gosto e que eu perdi. E há ainda os filmes clássicos, que procuro assistir para a sessão Um Olhar Para Trás aqui do blog.

Vendo os filmes que iam estrear em abril, nos principais cinemas do Brasil, encontrei esse Gräns. Como sempre, não busquei informação alguma sobre a história do filme antes de assisti-lo. Ele só entrou para a minha lista porque eu vi que ele apresentava várias críticas positivas. Foi bom ter escolhido ele, porque Gräns foge bastante do meu padrão de filmes e do que tenho comentado aqui no blog nos últimos anos. Bom ver a um filme “diferentão” para variar.

Achei interessante o trabalho do diretor e roteirista Ali Abbasi. Gräns é apenas o segundo longa-metragem dele. Abbasi estreou como diretor com o curta Officer Relaxing After Duty, em 2008, e fez outro curta, M for Markus antes de estrear nos longas com Shelley, em 2016. Fiquei curiosa para ver a Shelley e para acompanhar mais de perto esse diretor. Ele me parece bastante promissor.

Além de apresentar um roteiro e uma direção competente e envolvente, Gräns conta com um elenco pequeno e com um trabalho diferenciado. Destaque, claro, para a protagonista Eva Melander. Ela tem pela frente um papel desafiador, mas se entrega de corpo e alma para ele. Muito bom o trabalho de seu principal companheiro de cena, Eero Milonoff. Ambos estão muito bem e sustentam o filme.

Depois dos protagonistas, há alguns coadjuvantes que fazem um bom trabalho. Vale destacar, nesse sentido, o trabalho de Jörgen Thorsson como Roland, o namorado de Tina e que mora com ela até que ela o expulsa de casa; Sten Ljunggren como o pai de Tina; Ann Petrén como Agneta, policial que chama Tina para ajudar em uma investigação; Josefin Neldén como Esther, e Tomas Ahnstrand como Stefan, casal que tem um filho que vira alvo de Vore e que são amigos de Tina.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a direção de fotografia de Nadim Carlsen; a trilha sonora bastante pontual e um tanto sinistra de Christoffer Berg e Martin Dirkov; a edição de Olivia Neergaard-Holm e Anders Skov; o design de produção de Frida Hoas; os figurinos de Elsa Fischer; a ótima maquiagem feita por uma equipe de 22 profissionais; e o trabalho fundamental da equipe de 39 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais do filme.

Gräns estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, a produção participou, ainda, de outros 34 festivais em diversos países. Nessa sua trajetória, o filme ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros 24, inclusive uma indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Un Certain Regard Award dado para Ali Abbasi no Festival de Cinema de Cannes; Melhor Filme de um Diretor Emergente no Festival de Cinema de Munique; e para os prêmios de Melhor Filme, Melhor Som, Melhor Atriz para Eva Melander, Melhor Ator Coadjuvante para Eero Milonoff, Melhor Maquiagem e Melhores Efeitos Visuais no Guldbagge Awards, considerado o Oscar do cinema sueco.

Essa produção foi a escolhida pela Suécia para representar o país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Mas Gräns não chegou até a lista dos finalistas ao prêmio.

O diretor Ali Abbasi disse que foi inspirado por vários escritores latino-americanos conhecidos por suas obras de realismo mágico, como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Roberto Bolaño para fazer Gräns.

Fui procurar mais informações sobre os trolls. Segundo esse artigo da Wikipédia, os trolls são criaturas antropomórficas imaginárias do folclore escandinavo. E aí temos uma curiosidade interessante sobre uma característica deles em Gräns: a ideia deles serem “perseguidos pelos raios” e de terem medo dos trovões faz relação aos tempos pagãos da Escandinávia, quando o deus do trovão, Thor, caçava gigantes e os matava com um golpe do seu martelo, ou seja, com um relâmpago. No folclore posterior, diversas criaturas “do mal”, como lobisomens e trolls, viviam com medo dos trovões.

Para o diretor e roteirista Ali Abbasi, Gräns não é um filme de “nós contra eles”, e sim a história de uma pessoa que pode escolher a sua própria identidade e que faz isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 109 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,88. O site Metacritic apresenta um “metascore” 75 para Gräns, fruto de 23 críticas positivas e de duas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Gräns arrecadou quase US$ 772 mil nos cinemas americanos. Bilheteria baixa e, certamente, fruto de poucos cinemas que exibiram o filme – além dele ser bem alternativo e estrangeiro, o que nunca atrai muito o público americano.

Gräns é uma coprodução da Suécia com a Dinamarca.

CONCLUSÃO: Uma fantasia que nos faz pensar um bocado sobre “o outro” e sobre nós mesmos. O quanto a nossa sociedade e nós, como indivíduos, estamos preparados para aceitar o que é diferente? Gräns explora esta questão, assim como a sensação de um indivíduo pertencer a um grupo ou local, a definição de identidade e outras questões importantes em qualquer tempo. Produção que vai se revelando pouco a pouco e nos surpreendendo na mesma medida. Bastante original, Gräns vale especialmente para quem gosta de narrativas diferenciadas e nada óbvias.

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Capharnaüm – Capernaum – Cafarnaum

A miséria é complicada e triste. Nem tanto a miséria que significa ausência de dinheiro e de oportunidades. Mas a miséria humana. Para esta, dificilmente há cura. Capernaum é um filme duro, que mostra uma boa parte da miséria e da crueldade que existe neste mundão mas com as quais, geralmente, não temos que lidar. Que filme, minha gente! Um verdadeiro soco no estômago. Um filme para ficar na memória por muito tempo. Capernaum arrepia, emociona, nos deixa com o coração na mão. Por tudo isso e muito mais, é um filme imperdível.

A HISTÓRIA: Um garoto, magro, apenas de cueca e camiseta, espera entre duas mesas. Depois, ele têm a boca examinada. O médico diz que por ele não ter mais dentes de leite, ele deve ter entre 12 e 13 anos de idade. Em seguida, vemos a muitas mulheres juntas. Alguém chama por Michelle, filipina. Pergunta qual é o sobrenome dela. Ela responde que é Sedad.

O interlocutor pergunta se ela tem passaporte ou visto de entrada. Michelle diz que está com o chefe dela. Em seguida, ele pergunta por Lama, que confirma que está grávida de sete meses. Ele diz que a Caritas vai procurá-la. A terceira mulher a ser questionada é Tigest Ailo (Yordanos Shiferaw), etíope. Assim começa a história de Zain (Zain Al Rafeea) e de Tigest/Rahil, duas pessoas que vivem na miséria e que são esquecidas pela lei, até que eles acabam presos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Capernaum): Desde antes do Oscar, quando saiu a lista dos filmes indicados e, depois, finalistas à premiação, eu queria assistir a Capernaum. Mas eu não sonhava que veria a um filme tão impactante. Não apenas por sua história, mas pela escolha das imagens e de todo o significado que esta produção nos passa. Um filme raro, sem dúvida.

Antes de falar dele, quero deixar claro que este não é um filme “passatempo”. Quem assistir a essa produção terá que mergulhar em realidades realmente complicadas e que vão deixar marcas no espectador. O filme roteirizado por Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany começa potente e segue assim até o final. Se você está procurando um filme leve, quer algo para “descontrair” você e não ter que pensar muito, passe longe de Capernaum. Agora, se você não tem problemas em encarar de frente problemas que, de fato, existem mundo afora, questões que envolvem o essencial do ser humano, incluindo a sua face mais cruel, esta é uma grande pedida.

O que achei mais impressionante neste filme são as cenas cuidadosamente orquestradas pela diretora Nadine Labaki. Cada imagem é potente, seja ela próxima dos atores ou mostrando a “arquitetura” das cidades a partir de vistas aéreas. Tudo parece impressionar em Capernaum. E o que dizer daquele começo do filme? Impactante, preciso e um belo cartão de visitas do que veremos pela frente. Ah, e como sempre, indico que você assista ao filme sem saber praticamente nada dele antes – esse é o melhor caminho para experimentar ao máximo essa produção.

Nas primeiras cenas de Capernaum vemos a um menino sendo examinado. Ele não fala, mas não pode ser algo bom um médico ter que examiná-lo para dizer a idade que ele tem. Algo de errado aconteceu ali. Depois, vemos a uma mulher muito emocionada, com muitas lágrimas nos olhos, no que parece ser um grupo de refugiados. Essa introdução abre lugar para uma trilha sonora fantástica e uma edição incrível de um grupo de crianças brincando com armas feitas de madeira e pedaços de plástico ou latas.

Vemos na nossa frente um bando de garotos. Eles parecem estar extravasando a sua energia – talvez a sua raiva. A câmera de Nadine Labaki vai se afastando e vemos uma cidade que parece um tanto caótica. Mas a cena seguinte é ainda mais impactante. Vemos a uma criança algemada. Isso não é fácil de ser visto. Sob circunstância alguma. Perto um do outro estão Zain e Tigest, ambos algemados. O que poderia fazer uma criança ser algemada? Que crime ele pode ter praticado?

Em seguida, descobrimos que todos estão reunidos frente a um juiz porque Zaid, que nunca foi registrado e que teria, segundo um médico, cerca de 12 anos, está acusando os pais. Ele foi condenado a cinco anos por ter esfaqueado “um filho da puta”, segundo as suas palavras, mas agora acusa os pais por ele ter nascido. Não consigo imaginar um começo de filme mais impactante que esse. Mas o mais impressionante desta produção é que não é apenas o seu início que nos impacta, mas todo o seu desenrolar.

O que vemos em cena é muita, muita miséria. Pessoas que vivem de favores, de pequenos crimes e de muito trabalho informal. As crianças não podem ser crianças. Logo que tem tamanho suficiente para carregar peso, elas são colocadas para trabalhar. Os menores, são expostos a situações de risco porque, geralmente, acompanham os irmãos maiores. Capernaum começa com a mãe de Zain, Souad (Kawsar Al Haddad), fazendo o filho comprar remédios com uma prescrição médica em diversos lugares para, depois, envolvê-lo em uma operação de colocar a droga disfarçada em roupas para o irmão mais velho dele, que está preso. E isso é só o começo.

Os pais de Zain, Souad e Selim (Fadi Yosef) estão cercados de filhos e vivem em um local pequeno cedido pelo comerciante Assaad (Nour El Husseini). Em troca do local, os filhos do casal trabalham para Assaad – especialmente Zain. Também está “subentendido” no “contrato” entre eles que, quando a irmã de Zaid, Sahar (Haita “Cedra” Izzam) for grande o suficiente, ela irá se casar com Assaad. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descobrimos, no final da produção, que esse “grande o suficiente” ocorreu quando ela tinha 11 anos de idade.

Em resumo, Souad e Selim não param de ter filhos, mesmo vivendo em uma condição de miséria. Eles não registram nenhum dos filhos, nem se preocupam em colocá-los na escola. Parece que o único propósito dos filhos do casal é ajudá-los a sobreviver. Com tantos filhos, Souad parece passar os dias em função deles – não para lhe dar carinho, mas para alimentá-los e para dar ordem para os maiores trabalharem. Selim, ninguém sabe o que faz da vida.

Capernaum acompanha, de forma muito inteligente, as crianças. O narrador da história é Zain. Assim, vemos como ele trabalha e é utilizado pelos pais para fazer o que eles desejam. Também acompanhamos o amor que ele tem pelos irmãos, especialmente por Sahar, que é a pessoa mais próxima dele. Quando ela menstrua, Zain procura esconder esse fato para que a garota não seja vendida para Assaad. Mas toda a proteção dele resulta ineficiente.

É de cortar o coração quando Sahar é levada contra a sua vontade e os irmãos são separados. Isso acontece pouco antes de Zain conseguir levar a irmã para uma viagem em busca da avó. Após a irmã ser vendida, Zain resolve fazer a viagem por conta própria. Mas no ônibus, ao encontrar Harout, vestido de Homem Barata (Joseph Jimbazian), que desce em um parque de diversões, Zain muda de ideia e resolve seguir o senhor idoso.

Por causa dessa decisão, somos apresentados a um outro cenário de miséria. Zain acaba conhecendo, durante a sua aventura, Tigest, uma mãe que está ilegal no país e que precisa conseguir bastante dinheiro para arrumar novos papéis e ficar mais tempo sem ser presa ou deportada. A exemplo de Zain e de seus outros irmãos, Tigest também não registrou a filha Yonas (Boluwatife Treasure Bankole). Mas as semelhanças terminam por aí.

Para mim, este é uma das grandes “sacadas” do roteiro de Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany, que contaram com a colaboração de Georges Khabbaz e Khaled Mouzanar. Capernaum nos apresentam dois cenários de pura miséria. Tanto a família de Zain quanto Tigest e a filha vivem em realidades em que parece que falta tudo que pode significar segurança, qualidade de vida e dignidade humana.

Falta água encanada, banheiro decente, local confortável para dormir e, muitas vezes, comida. Também faltam registros, documentos básicos que deem ciência para a sociedade que aquelas crianças existem. Consequentemente, elas não tem acesso à saúde ou à educação. Ainda que em uma análise rápida parece que tanto a família de Zain quanto Tigest e Yonas vivam na mesma miséria, com Capernaum aprendemos que existem dois tipos de miséria.

Temos sim a miséria material, toda a falta de recursos que comentei antes e muito mais. Essa miséria pode ser resolvida com uma distribuição de renda mais justa ou com mais oportunidades de estudo e de trabalho para as pessoas. A miséria material pode ser resolvida com a inclusão social. Mas existe a miséria humana, que é muito mais difícil de resolver. Essa miséria é vista na família de Zaid, na falta de consciência, compaixão e amor que os pais dele tem com os seus próprios filhos. O mesmo não pode ser dito da realidade de Tigest e Yonas.

Ainda que Souad diz que ninguém pode julgá-la, e longe de mim fazer isso, mas ela e o marido veem nos filhos sim moeda de troca. Eles não pensam duas vezes em vender a própria filha para Assaad. Para buscar perdão da própria consciência, Selim diz que fez isso para “livrar” a filha da miséria. Ele diz que a culpa é de todos que lhe disseram que, por ele ser um homem, ele deveria ter filhos. Mas ele considera que foi justamente essa decisão, ter casado e ter tido filhos, que lhe “fudeu” a vida.

Curioso como os inescrupulosos e os cruéis, aqueles que machucam os outros e veem nos demais apenas pessoas que eles podem usar para algum proveito próprio, sempre encontram uma desculpa nos “outros”, não? A culpa é sempre do outro, ou da sociedade. Eles nunca percebem a própria responsabilidade. Ninguém colocou uma arma na cabeça de Selim e o obrigou a casar. Ninguém ameaçou Selim e Souad e os obrigou a ter filhos sem parar.

Não me venham com a desculpa de “ah, mas a religião deles diz isso e aquilo”. Me desculpem, mas não importa o que a religião diz. A fim e a cabo, você é responsável pelos seus atos. E você deve sim se perguntar se tem condições de colocar um filho no mundo. E quando digo condições, principalmente as afetivas. Mas também as materiais. Colocar um filho no mundo para que ele não receba amor, afeto, atenção e condições básicas de desenvolvimento, a meu ver, é um crime. Ou, ao menos, um grande, grande erro.

Zain, na altura dos seus 12 anos de idade, mas já tendo visto e sentido mais do que muito adulto que vive 90 anos, está coberto de razão ao dizer que os seus pais deveriam ser proibidos de ter filhos. Eles não deveriam ter esse direito, de gerarem uma vida que depois será jogada na mais profunda miséria – incluindo a pior de todas, de ter pais incapazes de ensinar valores ou algo de bom que seja.

Um grande achado de Capernaum é mostrar que a miséria material não significa, necessariamente, miséria humana. Muito pelo contrário. Tigest, igualmente vivendo em um cenário de grande precariedade, jamais queria abandonar a filha Yonas. Tigest faria tudo para ficar com ela. Quando o “comerciante”, falsificador e traficante de pessoas Aspro (Alaa Chouchnieh) oferece dinheiro para Tigest vender Yonas, ela fica indignada. E mesmo tendo dificuldade de pagar aluguel, levar comida para casa e conseguir o dinheiro exigido por Aspro para ele falsificar os papéis dela, Tigest tem a generosidade de acolher Zain em casa.

Verdade que ela aproveita a chegada do garoto para ele ajudar a cuidar da sua filha. Mas, em troca disso, ela lhe dá abrigo e comida. Claramente Tigest se sacrifica por amor. Palavra essa que parece não fazer parte do vocabulário ou da realidade dos pais de Zain. Então a miséria material pode ser contornada, mas a miséria humana… essa é muito complicada de ser tratada ou resolvida. Zain, mesmo tendo crescido em uma casa tão disfuncional, é um garoto sensível, carinhoso e responsável.

O filme, que já vinha sendo complicado até então, ganha uma outra carga de dramaticidade quando Tigest é presa. Zain, sozinho para cuidar de Yonas, tenta ao máximo ficar e cuidar da menina. Mas para um garoto como ele, sozinho em um local no qual ele não conhece praticamente ninguém, essa vontade se torna praticamente impossível. É de cortar o coração quando Zain deixa Yonas para ver se alguém se apresenta para cuidar da menina, mas ninguém faz isso. Ignoram completamente a criança e Zain acaba deixando ela com Aspro.

Mas ele não faz isso sem ficar com o coração partido. Momentos difíceis do filme, sem dúvida. Sonhando em deixar o país e tudo o mais para trás, Zain volta para casa atrás de seus documentos. Daí ocorre o desespero que faz ele cometer o crime que o leva a ser condenado. Zain não precisa nem saber exatamente o que aconteceu. Mas ele sabe perfeitamente quem é o culpado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Assaad foi o culpado direto pela morte de Sahar, mas tiveram a sua parcela de culpa os pais da menina. Ela poderia ter sobrevivido a vários estupros – porque evidentemente não foi outra coisa que ela teve com Assaad – e a uma gravidez aos 11 anos de idade? Poderia. Mas como ela, muitas meninas que são “vendidas” por seus pais com essa idade, pouco menos ou pouco mais, acabam morrendo por causa dos estupros e da gravidez em idade tão baixa. Um verdadeiro absurdo.

Pode parecer incrível, mas depois de tanta crueldade, de tanta miséria e de tantos absurdos, podemos dizer que Capernaum tem um final feliz. Aspro é preso e as pessoas que ele mantinha em cativeiro foram resgatadas. Inclusive Yonas. Assim, Tigest consegue se reencontrar com a sua filha, e Zain consegue, finalmente, ter uma identidade. No fim, ambos, mesmo com todos os desafios que eles terão pela frente, ganham perspectivas. Isso é, sem dúvida, um final feliz para essa história. Um filme incrível, portanto. Dos melhores que eu assisti nesse ano, até o momento.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nadine Labaki, diretora deste filme, é mais conhecida por seu trabalho como atriz. Ela tem 14 trabalhos como intérprete e quatro como diretora. Mas fiquei tão impressionada com o roteiro e a direção dela nesse Capernaum que eu penso e assistir aos outros filmes que ela dirigiu. Ela estreou como diretor em 2007 com o filme Sukkar Banat, que recebeu cinco prêmios. Depois, em 2011, ela dirigiu Et Maintenant on Va Où?, que recebeu oito prêmios. O terceiro trabalho dela na direção foi o segmento “O Milagre”, no filme Rio, Eu Te Amor. Acho que ela merece ser acompanhada. Eu vou atrás dos filmes anteriores dela, com certeza.

Impressionante o trabalho de Nadine Labaki tanto na direção quanto no roteiro. Ela esteve sempre atenta ao excelente trabalho dos atores, além de focar muito bem a realidade em que eles viviam. Parece até que estamos assistindo a um documentário e não a uma produção que segue um roteiro. Essa sensação é fruto de um ritmo muito bem planejado pela realizadora, que acerta em cada escolha e em cada detalhe da produção que nos envolve, nos angustia e nos emociona.

A cada filme que eu vejo neste ano e que tinha uma chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mais eu fico indignada com a decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Não vejo problema deles quererem bajular e mega premiar o diretor Alfonso Cuarón. Mas é simplesmente injusto um filme como Roma ganhar de uma produção como Capernaum ou como Shoplifters (comentado aqui). Simplesmente injusto. Esses dois filmes, a exemplo de Cold War (com crítica neste link), são muito mais interessantes e inovadores do que Roma. Me desculpem os filmes de Cuarón, mas é isso que eu penso.

Além de uma direção inspirada e de um roteiro magistral, Capernaum se destaca por sua direção de fotografia, assinada por Christopher Aoun; pela excelente edição de Konstantin Bock e Laure Gardette; e pela maravilhosa trilha sonora de Khaled Mouzanar. A trilha sonora, por si só, é uma peça de arte. Colocada em momentos precisos, ela ajuda a contar essa história e a fazer os espectadores mergulharem nela.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho de Hussein Baydoun no design de produção; de Toufic Khreich como diretor assistente; de Nizar Nassar na direção de arte; e da equipe de Ghina El Hachem no Departamento de Casting. Perfeito o trabalho que foi feito com o elenco, boa parte dele formado por crianças.

Todo o elenco está ótimo, aliás. Mas é inevitável não destacar o trabalho de algumas das crianças, com destaque para Zain Al Rafeea como Zain; de Boluwatife Treasure Bankole como Yonas; e de Haita “Cedra” Izzam como Sahar. Alguns adultos também merecem aplausos, especialmente Yordanos Shiferaw como Tigest/Rahil. Outros que merecem ser citados por fazerem um belo trabalho são Kawsar Al Haddad como Souad; Fadi Yousef como Selim; Alaa Chouchnieh como Aspro; Nadine Labaki como Nadine, advogada de Zain; Elias Khoury como o juiz; Nour El Husseini como Assaad; Joseph Jimbazian como o Homem Barata/Harout; Farah Hasno como Maysoun, a menina que ajuda Zain a abrir um refrigerante e se torna uma “amiga” dele na cidade.

Capernaum estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais de cinema e mostras em diversos países. Nessa trajetória, o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para três conferidos pelo Festival de Cinema de Cannes: o Prêmio do Júri para Nadine Labaki, o Prêmio do Júri Ecumênico para a diretora e o Prix de la Citoyenneté para Nadine Labaki e Mooz Films. A produção também ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ficção Estrangeira no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Vale citar ainda 12 prêmios recebidos como Melhor Filme e 3 recebidos por Melhor Jovem Ator/Melhor Ator/Melhor Estreia para Zain Al Rafeea. O filme e o garoto realmente mereceram.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O menino que interpreta Zain, Zain Al Rafeea é, na verdade, um refugiado sírio. Ele viveu no Líbano por oito anos e tinha 12 quando interpretou Zain em Capernaum. A escolha do nome do personagem no filme foi feita após a escolha de Zain para interpretar o protagonista.

Todos os atores que fazem parte de Capernaum são pessoas que tem histórias parecidas com a dos personagens que aparecem no filme. Assim, a vida de Zain se assemelha, até certo ponto, à do seu personagem, assim como a de Rahil/Tigest, que era uma “indocumentada”. Para escrever o papel da mãe de Zain, Nadine Labaki se inspirou em uma mulher que ela conheceu, que tinha 16 filhos em condições semelhantes ao dos personagens de Capernaum. Seis dos filhos dessa mulher morreram, e vários outros estão em orfanatos por falta de cuidados dos pais.

Capernaum é uma ficção baseada em elementos e fatos que Nadine Labaki realmente viu enquanto fazia o trabalho de pesquisa de campo para esta produção. De acordo com a diretora e roteirista, nada no filme foi fantasiado ou imaginado. Pelo contrário, ela gosta de enfatizar, tudo que vemos em cena é resultado do que a diretora/roteirista observou em visita a bairros desfavorecidos, em centros de detenção e prisões juvenis onde ela foi sozinha. Ou seja, o que a gente só pensava ser possível, vendo o filme, se confirma como a mais pura realidade.

Esse mundão é muito grande e muito desigual. E há muita miséria material e humana por aí sim. Ainda que a gente normalmente não conviva com ela, mas não dá para ignorar de que ela existe. Capernaum nos mostra bem isso.

As filmagens de Capernaum duraram seis meses e resultaram em 12 horas de filme. O trabalho de edição, para condensar tudo isso em cerca de duas horas, demoraram dois anos.

Capernaum recebeu uma ovação de 15 minutos após a sua estreia no Festival de Cinema de Cannes. Se eu estivesse lá, certamente aplaudiria também.

Muitos dos atores escolhidos para Capernaum estrearam no cinema com o filme. Nadine Labaki disse que isso era necessário para que ela visse uma “verdadeira luta” na telona. Realmente cada um deles passa muita verdade nos seus papeis.

Capernaum significa “caos”, em árabe. O nome também faz alusão a uma cidade bíblica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 131 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,83. As duas notas bem acima da média que costumamos ver nesses sites. O Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 75 para Capernaum, fruto de 27 críticas positivas, cinco medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Capernaum faturou US$ 1,57 milhão nos Estados Unidos. Não existe informação sobre o resultado do filme em outros mercados.

Capernaum é uma coprodução do Líbano, da França e dos Estados Unidos. Ele teria custado cerca de US$ 4 milhões.

CONCLUSÃO: Pensem em um filme punk. Destes que vai criar desconforto e que vai te deixar “mal” por um tempo. Ainda assim, Capernaum é um filme que, podemos dizer, tem um final feliz. Mas com tudo nessa vida, o que importa é a trajetória, o caminho e o que ele nos ensina. Um filme duro, mas muito necessário. A miséria material não é uma escolha, mas a miséria humana sim. Importar-se com o outro ou ser indiferente, exceto se você sofre de algum transtorno mental, é uma escolha. Crianças deveriam ter o direito de serem crianças. Mas nem sempre é isso que acontece. Mas elas tem muito a nos ensinar. Um filme incrível, potente e imperdível. Um dos melhores do ano.