Rachel Getting Married – O Casamento de Rachel

 

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Eu admiro o Sr. Jonathan Demme. Ele é um destes sujeitos que faz filmes em Hollywood no que se popularizou como sendo o “cinema autoral”. Demme foi o responsável por dois filmes espetaculares: The Silence of the Lambs e Philadelphia. Mas depois deles, parece que o diretor não voltou a fazer nada tão próximo da perfeição. E por mais que Rachel Getting Married seja um filme interessante, ele se mostra, mais uma vez, “menor” dentro da filmografia do diretor. Demme utiliza uma câmera um tanto vertiginosa e uma narrativa que busca o realismo em uma história claramente fictícia. Digo isso porque parece evidente que aquele enredo não aconteceria daquela forma, ainda que seja bem construído e interessante. Mas, na essência, ele é artificial. Alguma engrenagem não se encaixa no processo. O bom mesmo desta história são as interpretações de Anne Hathaway – merecidamente indicada ao Oscar por seu papel – e de Rosemarie DeWitt.

A HISTÓRIA: Kym (Anne Hathaway) espera o pai, Paul (Bill Irwin), do lado de fora da clínica de desintoxicação. Mais uma vez a cena se repete, já que não é a primeira vez que a garota passa pelo mesmo ciclo de descontrole-tratamento-volta para casa. Só que desta vez algo especial está acontecendo na casa da família: Rachel (Rosemarie DeWitt), a irmã mais velha de Kym, vai se casar. A participação de Kym neste momento parece crucial ao mesmo tempo que se mostra bastante conflitiva, despertando sentimentos antigos de rejeição e de conflito entre os familiares, incluindo a mãe das garotas, Abby (Debra Winger). 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rachel Getting Married): Eu queria assistir a este filme há bastante tempo já, mas até ontem eu não tinha conseguido vê-lo. Talvez (e só talvez) a expectativa por assistí-lo tenha contribuído um pouco para que eu o achasse abaixo da média. Ou pode ser que ele realmente seja. 

Gostei da abertura do filme, com aquela forma despretensiosa – e um tanto irônica – do diretor começar sua obra. Mas depois esta “ânsia” de contar a história como se a câmera fosse uma “intrusa imperceptível” nas entranhas daquela família estadunidense me incomodou um pouco. Afinal, vamos ser francos, ninguém acredita que aquilo seria mesmo uma “invasão de privacidade”. Até porque a família retratada parecia não ter muitos pudores em exibir a sua dor – exceto pela mãe, interpretada por uma Debra Winger muito diferente daquela que eu tinha lembranças.

Além do mais, não me pareceu exatamente realista o retrato desta família – muitas vezes me pareceu que eles estavam, todos, encenando uma peça de teatro. E isso, para uma história como esta, é um tiro no pé, uma armadilha. Ou, em outras palavras, é uma forma de desacreditar a história que estamos assistindo. Os culpados disto? Um pouco a roteirista, Jenny Lumet, que escreveu alguns diálogos um bocado difíceis de se encaixar no enredo; um pouco o diretor, que insistiu naquela câmera-na-mão em busca da “verdade” e da essência das interpretações que não chegaram a atingir o nível técnico esperado; e mais um pouco dos atores – especialmente de Tunde Adebimpe, que interpreta Sidney, o noivo de Rachel, e do próprio Bill Irwin, que interpreta o pai das garotas – ele é amável, amoroso e preocupado, mas algumas vezes parece uma peteca parada no solo depois de ter sido jogado de um lado para o outro pelas filhas. Para ser franca, por mais que eu tenha gostado de Rosemarie DeWitt, há momentos em que eu acho a sua interpretação um pouco “over”, exagerada. 

Agora, vamos fazer justiça com Anne Hathaway: ela realmente está perfeita no papel de Kym. Do elenco, ela foi a única que entendeu o “espírito” do trabalho do diretor e assumiu com naturalidade o seu complexo papel. Como li em uma revista há pouco tempo, a atriz parece ter atingido a maturidade interpretativa. Realmente. Aqui ela mostra que pode assumir o papel complexo que quiser e se sobressair. Alguns dos momentos mais importantes do filme se sustentam por causa dela, como em sua “confissão” na reunião dos adictos e no confronto com a mãe em busca de respostas.

A história de Kym é pesada e difícil de ser resolvida – porque passa por uma rejeição que ela mesma ainda não começou a trabalhar. Mas com a ajuda da irmã, que acaba sendo cruel em muitos momentos, ela começa a enxergar que o caminho para sua felicidade é possível, mas que será muito doloroso e difícil. No fim das contas, ainda que se trata de um filme “pesado”, Rachel Getting Married é uma obra esperançosa e que aposta em uma solução para os problemas – sem aforismos ou embelezamentos irreais.

Gostei também do que o filme mostra como “pano-de-fundo” (ainda que seja um tema totalmente presente, do início ao fim): parte do drama de adictos e seus familiares. Realmente não é fácil para nenhuma parte mas, sem dúvida, é muito mais difícil para as pessoas que vivem e que são a “causa” do problema. Ou seja, é muito mais difícil para aquele que tem que se manter equilibrado e, de quebra, evitar o agente que lhe vai desestabilizar fatalmente (e que seu corpo inicialmente exige e depois pede continuamente). Em relações como estas normalmente circulam “ad infinitum” sentimentos de culpa, de carência afetiva, de dedicação exagerada e/ou de desprezo sentimental.

Uma qualidade do roteiro – sim, porque ele não tem apenas defeitos – é mostrar os problemas sem muita maquiagem. Existem quedas no meio do processo, as pessoas passam por mil desafios e provas, e os que resistem, são realmente heróicos. Para ninguém essa situação é fácil, e talvez todos tenham parte da culpa (se é que ela existe) do problema – e da resolução complicada dele. Mas uma reflexão interessante do filme é que algumas vezes a pessoa que parece cruel e egoísta, como é o caso de Rachel, seja justamente a peça que faltava para incentivar uma solução verdadeira para o problema. A preocupação amorosa e muitas vezes superprotetora do pai, Bill, e a indiferença e aparente incapacidade de amar verdadeiramente as filhas da mãe, Abby, certamente não ajudam Kym a sair de seu círculo de autoflagelação. Algumas vezes é preciso realmente fazer o que é preciso, ainda que seja dolorido para todos.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Mather Zickel como Kieran, um dos padrinhos dos noivos que também é adicto e que acaba se envolvendo com Kym (o rapaz realmente tem carisma e merece ser acompanhado); o de Anna Deavere Smith como Carol, a segunda esposa de Paul, que procura se manter um tanto imparcial nos problemas da família (mas ainda assim demonstrando mais preocupação e carinho do que a mãe das meninas); e o de Anisa George como Emma, a melhor amiga da noiva – e um bocado irritante, algumas vezes, em uma competição um tanto ridícula pela atenção de Rachel.

Não sei vocês, mas chegou um momento que eu me irritei um pouco com aquele excesso de música no filme. Certo que as famílias dos noivos eram de verdadeiros amantes da música, mas acho que eles exageraram um pouco na dose… me colocando no lugar de Kym, não sei como ela suportou tudo aquilo. hehehehehehehehe. E até o “nosso” samba caiu na história, não é mesmo? Só as “mulatas” que eles escolheram eram meio fraquinhas. Deviam ser “mulatas made in USA”. 😉

Eu admito que me irritou um pouco o personagem semi-mudo do noivo. Ele podia ter participado um pouco mais da história, não acham? Ainda que se tratasse basicamente de um drama familiar, mas sei lá… O mesmo vale para Andrew, o marido de Abby, interpretado pelo ator Jerome Le Page. Ele praticamente entra mudo e sai calado. Coitados.

Agora, algo que eu tenho que admitir sobre o roteiro também: ainda que em muitas partes ele abra espaço para interpretações um tanto “teatrais”, ele no geral é bastante direto e ácido, com algumas “alfinetadas” entre os personagens realmente porretas. Os “sensíveis” devem se acostumar a muitos “fuck you” e expressões do gênero.

Outro tema que o filme trata e que me parece especialmente interessante: o quanto as pessoas podem assumir o papel de vítima. Certo que não é fácil para Kym sair da clínica e cair em uma realidade da qual ela parece não fazer parte. Este sentimento de “deslocada” é perfeitamente normal. Mas as pessoas podem sempre enfrentar isto até conseguir ver além do seu problema ou assumir todo o tempo a sua condição de “coitadas”. Rachel Getting Married trata um bocado sobre isso, na essência, o que é bem interessante – e deveria ser percebido pelas pessoas que vivem um tanto “isoladas” em seus próprios problemas. A vida, meus caros, é feita deles, mas não – essencialmente não – só deles.

O filme conseguiu uma nota razoável na votação dos usuários do site IMDb: 7,4. Na opinião dos críticos a produção vai melhor. O site Rotten Tomatoes abriga 146 críticas positivas e apenas 23 negativas para o filme, o que lhe dá uma aprovação de 86%. Nada mal.

Mesmo se tratando de um filme difícil, Rachel Getting Married conseguiu uma bilheteria respeitável nos cinemas dos Estados Unidos – levando em conta seu caráter um tanto “independente”: até o dia 8 de fevereiro deste ano ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 11,8 milhões.

Até o momento, a produção ganhou nove prêmios e foi indicada a outros 19. A maioria deles para Anne Hathaway. Entre os prêmios que a atriz levou para casa, estão o de melhor intérprete pelo National Board of Review e pela Broadcast Film Critics Association. Outros premiados foram o diretor Jonathan Demme, pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto; a roteirista Jenny Lumet, que levou o prêmio também da associação de críticos de Toronto e ainda da associação de críticos de Nova York; e Rosemarie DeWitt, que levou para casa o prêmio de atriz coadjuvante no Satellite Awards e na premiação dos críticos de Toronto.

Até ler as notas de produção do filme eu não havia me dado conta que este é o trabalho de estréia da roteirista Jenny Lumet – antes ela havia dedicado seu tempo a carreira de atriz. Como o nome sugere, Jenny é filha do diretor Sidney Lumet e de Gail Lumet Buckley.

Segundo o material de divulgação de Rachel Getting Married, a trilha sonora do filme foi sendo feita pelos músicos profissionais que aparecem nele conforme esta história ia sendo rodada. Não deixa de ser interessante – ainda que me cansei um pouco, como havia dito antes.

Jonathan Demme também comenta, neste material de divulgação, que Rachel Getting Married é um pouco sua homenagem a “mestres” como Robert Altman. Realmente, pensando agora nesta comparação, o cineasta bebeu bastante da fonte de seu homenageado. O que é bacana, neste prisma, porque Robert Altman foi um grande cronista da vida desastrosa de muitas famílias.

Algo curioso desse filme é o seguinte: inicialmente você não sabe a importância de algumas cenas. Como quando Kym entra no quarto do irmão, logo no começo da história. Só muito tempo depois, quando sabemos o que aconteceu realmente com aquela família, sabemos o impactante que são aqueles segundos de silêncio e perplexidade/contemplação. 

Os produtores gostam de ressaltar o trabalho do diretor de fotografia Declan Quinn e sua equipe, que estiveram o tempo todo com câmeras nas mãos captando o que acontecia com aquela família e seus convidados nos dias que antecederam o casamento de Rachel. Através do material de divulgação que eu soube que algumas câmeras foram colocadas realmente na mão dos atores, como Gonzales Joseph, que fazia o primo militar do noivo; Jimmy Joe Roche, o cinegrafista contratado para filmar o casamento (e que acabou contribuindo com imagens, como os demais, para o filme); e dois outros “convidados do casamento” que ficaram registrando acontecimentos sem que a gente se desse conta – ninguém mais, ninguém menos que o genial Roger Corman, um dos mentores de Jonathan Demme, e Charlie Libin. Isso sim eu achei incrível.

Para Anne Hathaway foi incrível a experiência de não saber exatamente onde a câmera estava colocada. Por esta categoria, ela disse que todos os atores tiveram que trabalhar muito focados nos personagens e em suas emoções. Para ela, Rachel Getting Married se trata de uma história sobre a comunicação (entre as pessoas, certamente) e o amor.

Entre os músicos convidados por Demme para participar do filme, estão o jazzman Donald Harrison Jr. e o músico de origem palestina virtuoso Zafer Tawil.

Uma curiosidade: em certo momento, Anne Hathaway estava tentando se concentrar em uma cena complexa dentro da casa enquanto os músicos não paravam de tocar do lado de fora – como havia sido pedido pelo diretor e os produtores do filme. Sendo informado disso, Demme pediu para a atriz fazer algo a respeito. E foi aí que ela, dentro de seu papel, pediu para os músicos “darem um tempo” – cena que está no filme. 

Esta maneira declarada de Demme e da roteirista em deixar a história ser um tanto que “improvisada”, não apenas no quesito dos músicos, mas das próprias atuações, conseguiu alguns bons momentos no filme, na mesma medida em que provocou outras ocasiões em que os atores pareceram um tanto teatrais ou perdidos. Esse é o risco que se corre.

Como eu imaginava, as cenas do programa dos “12 passos” envolvem pessoas reais. No site do filme existe inclusive um mapa das pessoas que fizeram parte daquelas cenas, assim como um plano de onde ficaram as pessoas durante o casamento. Presidia as reuniões o conhecido pastor Melvin Jones e, ao seu lado, Darrell Larson. Curioso que no casamento estava sentada, entre os convidados, a roteirista, Roger Corman, entre outras “celebridades”. 

Não sei vocês, mas eu achei o cartaz do filme bem feinho…

CONCLUSÃO: Um filme que segue a linha de “semi-documentários”, ou seja, produções ficcionais que tem como base o “cinema-verdade”. Neste caso, o diretor colocou na mão de alguns coadjuvantes umas câmeras que registraram cenas que depois entraram no filme e, como pano-de-fundo, convidou amigos músicos para fazerem uma trilha sonora espontânea e original. A experimentação ficou interessante, ainda que algumas vezes o improviso acabou transformando os diálogos em algo um tanto teatral ou deslocado. No geral, é uma história interessante sobre as dificuldades que circulam um adicto e sua família, na busca por respostas e por soluções. Ainda que tenha uma carga de drama potente, este filme não deixa de ser uma peça de esperança com algumas pitadas de sarcasmo – especialmente da personagem de Anne Hathaway, realmente impecável neste trabalho. 

PALPITE PARA O OSCAR: Anne Hathaway mereceu ser indicada ao Oscar. A atriz faz um trabalho verdadeiramente maduro e competente. Através dele, ela garantiu a única indicação do filme ao prêmio máximo de Hollywood. Para mim, ela estaria entre as três melhores do ano – e na disputa. Ficaria um pouco atrás, correndo por fora na disputa Melissa Leo e Angelina Jolie. As favoritas são realmente Kate Winslet, Meryl Streep e Hathaway, nesta ordem. Ainda acho que se for feita justiça nesta premiação, a estatueta ficará mesmo com Kate Winslet, que fez dois grandes trabalhos em 2008 – The Reader e Revolutionary Road.

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Revanche

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Volto a assistir a alguns dos filmes que me faltavam para ver da lista de candidatos deste ano ao Oscar. Agora foi a vez do austríaco Revanche, um dos cinco selecionados para concorrer na categoria de melhor filme estrangeiro. Francamente? Achei a indicação dele supervalorizada. O filme não é tão bom para tirar outros títulos como To Verdener, Gomorra ou mesmo Üç Maymun do páreo. Tecnicamente falando ele é “correto”, tem uma fotografia linda – ainda que pouco complicada de se fazer -, uma direção acertada, interpretações coerentes. Mas nada, absolutamente nada fora do normal.

A HISTÓRIA: Alex (Johannes Krisch) trabalha para um cafetão chamado Konecny (Hanno Pöschl) e mantêm um namoro secreto e proibido com uma de suas prostitutas, Tamara (Irina Potapenko). Ex-presidiário, ele sonha com o roubo de um banco e a consequente fuga dele com Tamara para a Espanha, onde abriria um negócio com um amigo. Sentindo-se cada vez mais pressionada por Konecny para virar uma prostituta de luxo, Tamara decide acompanhar Alex em seu plano de roubo a banco. Quando as coisas saem mal, ele pensa em se vingar do policial Robert (Andreas Lust), mas acaba sendo surpreendido por acontecimentos que ocorrem no interior local, quando passa a viver com o avô (Johannes Thanheiser).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Revanche): Certo que os atores são muito bons e que tecnicamente o filme é bem feito. Mas achei o roteiro do também diretor Götz Spielmann um bocado fraquinho… (SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). No final das contas, o resumo dos 121 minutos do filme é o seguinte: “Ninguém é culpado pelos seus atos a não ser você mesmo”? Porque é isso que me pareceu. Ao mudar para o interior em busca de vingança, Alex acaba conhecendo “de perto” a sua virtual vítima e se dá conta, lá pelas tantas, que ninguém a não ser ele mesmo pode ser culpado pelo que saiu de errado. Certo. Até que conceitualmente essa idéia é boa, mas achei que ela foi pouco explorada – ou que, talvez, o filme poderia ter de 30 minutos a uma hora a menos de duração. 😉

Algo curioso dessa história é que ela é dividida, literalmente, em dois atos. O primeiro mostra a vida suburbana de Viena, capital austríaca, em tudo que ela tem de moderna e suja. Nesta parte, o ambiente que interessa para o diretor e roteirista Götz Spielmann é o da prostituição e o da criminalidade. Ali conhecemos dois dos nossos personagens principais, um casal que se fortalece na esperança de fugir. Através de Tamara, Alex acredita que seja possível recomeçar a sua vida. Apaixonado, ele quer mostrar que pode ser mais do que aquele homem que as pessoas que lhe conhecem e lhe desprezam um dia puderam projetar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O problema é que o tal roubo a banco dá errado e Tamara, que tinha medo do que pudesse acontecer com ele, se torna a única vítima (pelo menos fatal) daquela história. Digo única vítima fatal porque, no fim das contas, Alex e o policial Robert acabam sendo vítimas “colaterais” daquele lance infeliz. E para que não existam dúvidas de que “todos estamos no mesmo barco”, uma das grandes conclusões de Revanche é que as aparências enganam e que nem todos que parecem felizes estão, na verdade, isentos de culpa, de angústia e da infelicidade. Ao aproximar-se de Robert para fazê-lo “pagar” pela morte de Tamara, Alex descobre que o policial já tinha o seu próprio calvário para enfrentar. Não apenas a culpa pela morte da garota não-identificada, mas também o peso de não conseguir dar um filho para a esposa, Susanne (a ótima Ursula Strauss).

No fim das contas, Alex tem uma certa dose de vingança de Robert – Freud explicaria com gosto esse “revide”. E ao conseguir essa vingança ele acaba se dando ainda mais conta do “miserável” que ele se tornou por conta de escolhas erradas que teve. Mas descobre, ao mesmo tempo, que aquela paisagem bucólica do interior austríaco, tão desprezada por ele antigamente, pode ser o lugar perfeito para que este sujeito passe os dias com a mente ocupada no trabalho – e tentando ver beleza onde antes só existia tédio. Um recomeço, afinal de contas. Muito diferente das cores e do calor de Ibiza, na Espanha, mas ainda assim um recomeço.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Revanche é um filme correto, mas que não passa disso. A história não surpreende grande coisa – para não dizer que nada. Ele tem uma direção de fotografia bacana, assinada por Martin Gschlacht e um elenco reduzido que realmente sabe exercer a sua profissão muito bem – até porque todos os atores tem um bom tempo de estrada. Mas perto de outros filmes que estavam concorrendo a uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar, volto a repetir, ele se mostra pequeno. Gostaria de saber de quem foi o mérito de conseguir colocá-lo ali, entre os cinco melhores do ano na opinião da Academia.

Os usuários do site IMDb deram uma nota bastante boa para o filme: 7,5. Acho que este é um dos raros exemplos que os internautas daquele site foram mais generosos do que eu. 😉 No Rotten Tomatoes não existe praticamente críticas sobre o filme – apenas duas. Ambas positivas.

Até agora Revanche abocanhou 14 prêmios conferidos por diferentes festivais e associações de críticos. Entre eles, estão incluídos três prêmios no Festival de Berlim do ano passado: um da mostra Panorama, outro para o design de produção de Maria Gruber e, o terceiro, o “Label Europa Cinemas” para Götz Spielman. Revanche ainda recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

O filme participou da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2008, assim como de vários outros festivais importantes mundo afora no ano passado. A previsão de estréia dele nos Estados Unidos é para o próximo mês.

No material de divulgação desta produção, o diretor e roteirista comenta que Revanche é, mais que tudo, uma história que segue a sua linha de interesse artístico de tocar em questões existenciais. “Essa é a minha paixão, é como fagulhas para a minha curiosidade, o que me motiva: detectar a substância da vida, a essência mais profunda que guardamos”. Segundo Spielmann, em seus filmes ele sempre mostra uma fagulha de otimismo ou, em suas palavras, “a convicção de que a vida não é um erro, e que tudo faz sentido de alguma forma”. Certo. Pena que eu não vi toda essa “profundidade” de sentido ou de narrativa no filme dele.

Ah, e para os sensíveis: sim, o filme tem várias cenas de nudismo e de sexo. E elas não são gratuitas, se justificam plenamente na história.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e com atuações bastante convincentes que trata das escolhas erradas que algumas pessoas tomam na vida e de como elas lidam com as consequências destas ações. Trata também do tema vingança – como parecia óbvio – e da “tomada de consciência” sobre quem são os verdadeiros culpados de grande parte de nossos problemas. É um bom filme, ainda que ele fique bastante abaixo de outras produções muito boas feitas em diferentes países no ano passado. Pessoalmente, acho que ele não deveria ter chegado a ser um dos cinco finalistas ao Oscar. Falta-lhe qualidade de roteiro, mais que tudo.

PALPITE PARA O OSCAR: Como eu acho que já deixei claro logo ali em cima, Revanche não deveria nem estar entre os cinco finalistas ao prêmio máximo da indústria de Hollywood. Mas ok, já que ele chegou até lá… não vejo que esta produção tenha chances de ganhar dos demais concorrentes. Isso porque não vi três dos cinco títulos que estão na disputa. Ainda assim, comparando Revanche apenas com Vals Im Bashir, posso dizer que a animação israelense é a favorita. Mesmo não sendo também um filme excepcional, Vals Im Bashir ainda é melhor que o concorrente austríaco.

DESEMPENHO NO OSCAR: Revanche perdeu na disputa para o filme japonês Okuribito (Departures no mercado internacional). (Atualizado em 28/02/2009).

Etz Limon – Lemon Tree

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Uma parábola de primeira grandeza. Etz Limon pega uma história “simples”, de uma mulher e sua plantação de limões, para falar de uma série de conceitos fundamentais não apenas no conflito entre palestinos e israelenses mas, sobretudo, sobre os valores que fazem tantas guerras, conflitos e pessoas moverem-se mundo afora e por gerações. O direito a propriedade ou a prerrogativa da segurança. O amor à terra e às plantas, a escolha por uma vida simples, contra a sede pelo poder e pela projeção de um cargo público importante. E a solidão que une as pessoas que estão do lado oposto da cerca de segurança. Etz Limon trata de tudo isso e de muito mais. Como uma grande metáfora, ele nos fala um pouco sobre tudo o que poderíamos ser e que, por desperdício do nosso potencial, terminamos por perder pelo caminho.

A HISTÓRIA: Salma Zidane (a magnífica Hiam Abbass, do recentemente comentado The Visitor) vive tranquilamente de sua plantação de limões na fronteira da Cisjordânia com o Estado de Israel. Tudo vai bem até que chega o caminhão de mudanças de Mira Navon (Rona Lipaz-Michael), que ela logo vai descobrir ser a esposa do novo ministro da Defesa israelense, Israel Navon (Doron Tavory). Mais que novos vizinhos, Salma ganha inimigos. Isso porque o serviço secreto israelense considera sua plantação de limoeiros um campo aberto para terroristas tentarem atacar o ministro e sua esposa. Quando é decretada a derrubada de suas árvores, Salma pede ajuda para todos que ela conhece, inclusive os filhos, e acaba encontrando no advogado Ziad Daud (Ali Suliman) um importante aliado para sua luta judicial contra a decisão do Estado de Israel.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Etz Limon): Difícil resumir em uma crítica todas as nuances deste filme. Ele trata não apenas do conflito que parece insolúvel entre palestinos e israelenses. Ele vai muito mais fundo nas questões que separam os dois povos. Certo que entra no meio política, religião, luta pelo poder, costumes seculares. Mas além disso tudo, a mensagem que fica mais forte – ou uma das, pelo menos – é a de que existem mais elementos que unem aquelas pessoas do que os que as separam. 

A solidão, por exemplo. Ou a diferença no trato entre homens e mulheres. Salma e Mira são lados opostos de um conflito que parece sem solução. Ambas são mulheres que, por viverem onde vivem, são tratadas como “seres inferiores”. E ambas vivem solitárias. Salma porque é viúva e porque tem todos os filhos longe de si. E ainda que ela tenha ao seu lado o fiel Abu Hussam (Tarik Kopty), que a ajudou a criar e que trabalhava originalmente com seu pai na plantação de limões, ela está sozinha. Sente falta de afeto, de carinho, de alguém que pareça se importar. Do lado oposto da fronteira e das cercas que separam as propriedades, está Mira, uma mulher que vê o marido ascender socialmente e, cada vez mais, ficar distante. Física e filosoficamente. 

Uma das narrativas mais bonitas do filme – e que acontece paralela a outras – é a da aproximação destas duas mulheres. Salma e Mira não falam o mesmo idioma mas se olham profundamente nos olhos e se reconhecem. Se entendem. De uma maneira que jamais os homens destas história parece serem capaz de um dia fazer. Porque para Israel Navon e para o advogado Ziad Daud só existe espaço para a disputa, para a queda-de-braço para saber quem é o mais forte. Não importam as “boas intenções” de um ou de outro. Ambos querem provar quem é o “animal dominante”. Ninguém parece capaz de ceder ou de deixar espaço para a compreensão do outro.

Assim parece que este filme acaba sendo “feminista”, não é mesmo? Mas acho que em parte ele realmente é feminista. Porque será que se as guerras fossem decididas por mulheres, existiriam tantas barbáries ou tanta disputa pelo poder? Certo que muitas mulheres hoje em dia querem seguir os mesmos passos dos homens e, assim, assumem os mesmos trejeitos deles. Mas acredito que somos muito mais propensas ao diálogo do que a maioria dos homens. Enfim… o filme não trata exatamente disto, mas também sobre.

Um dos outros grandes temas de Etz Limon é a coragem de algumas pessoas em buscar a Justiça, não importa o preço que elas tenham que pagar nesta busca. Salma, por exemplo, acaba sendo bastante critica e praticamente marginalizada pelos demais palestinos daquela comunidade. Não recebe apoio dos filhos – que estão também em situação de lutar para sobreviver – e nem é ouvida pelas autoridades locais (israelenses, é claro). Mira, por sua parte, nunca apoiou a conduta do marido no que diz respeito à vizinha, mas agiu pouco sobre o tema – exceto pela parte final, belíssima.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O filme tem várias sequencias primorosas, como quando Salma vai regar as árvores que estão definhando ou quando ela resolve enfrentar os “ladrões” que estão buscando os raros limões que ainda perduram para a festa do ministro da Defesa israelense. Mas uma cena especialmente bonita e emocionante é aquela que mostra Mira escapando dos agentes de segurança e indo até a casa de Salma para prestar a sua solidariedade. Lindo, realmente maravilhoso. Este filme tem verdadeiramente momentos deliciosos. Outro que me tocou bastante foi aquele do depoimento de Abu Hussam no Supremo Tribunal. Sua declaração de amor aos limoeiros é algo inesquecível, digno de ser publicado e distribuído em praça pública.

Outro ponto curioso do filme é sobre os interesses que movem as pessoas. Salma luta por continuar o legado que recebeu do pai, valorizando o suor e o sacrifício de um homem que lutou para torná-la uma mulher digna depois que a sua mãe morreu. Além disso, ela luta por seu modo de vida, por aquelas plantas que significam muito mais do que uma herança – são seres vivos, como bem afirma Hussam. Por sua vez, o advogado Ziad Daud é motivado inicialmente pela beleza e pela força desta mulher – até acredito que em algum momento ele realmente se apaixonou por ela. Mas, mais que isso, ele é um homem ambicioso e vê neste caso um trampolim para sua vida depois que ele volta da Rússia.

Enquanto isso, o ministro da Defesa Israel Navon encara a situação como uma pedra no seu sapato. Inicialmente, ele vê no campo de limões uma paisagem qualquer que, se o serviço secreto acredita que pode ser uma ameaça, ele deve ser destruído. Quando o tema vai parar na Justiça e, em um segundo momento, vira assunto para a imprensa (inclusive mundial), Navon encara a briga como uma questão de honra. Afinal, ele não pode voltar atrás em um assunto que envolve uma palestina. E não importa se com isso ele se contradiz – maravilhosa a cena em que Mira observa o marido fazendo uma declaração sobre a defesa de oliveiras. O importante é que ele se mantenha firme em suas decisões, não importando o quanto absurdas elas possam ser. Verdadeiramente repugnante.

Não vou falar sobre o final do filme… porque nunca sei quando os meus queridos leitores lêem os SPOILERS mesmo eu avisando para não fazerem isso. hehehehehehehehe. O que eu posso adiantar é que poucas vezes eu vi um final tão emblemático e tão bem sacado. Ele mostra o quão absurdo pode ser o uso de viseiras. O quão absurdo pode ser a cegueira dos extremistas (e que, normalmente, se dizem vítimas da sociedade ou de algum outro grupo). O final é de matar, ao mesmo tempo que é uma das declarações mais bonitas dos últimos tempos sobre como o ser humano é capaz de errar feio e, ainda assim, seguir adiante. Não importar a que custo. Certo que existem dois lados daquele muro e que um deles pode ainda ser muito feliz. Mas tudo que eu vejo ali é um campo desolado. 

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Etz Limon foi filmado, como ele mesmo deixa claro no início da projeção, na fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Sei que a questão de palestinos e israelenses é muito complicada e coisa e tal, mas sinceramente? Estava mais que na hora dos benditos israelenses admitirem que os palestinos tem direito a um território só deles. Neste link da Wikipédia que conta a história da Cisjordânia e de toda aquela região, por exemplo, fica claro que a supremacia monetária e de armamentos de Israel acabou por massacrar os palestinos até agora. E me desculpem a inocência, mas duvido que os ataques contra Israel não diminuiriam radicalmente ou até terminariam se finalmente fosse criado o Estado Palestino como foi determinado pelas Nações Unidas.

O grande mérito deste filme é do brilhante diretor Eran Riklis, que antes havia filmado a The Syrian Bride – muito bom, também. Ele escreveu o roteiro de Etz Limon junto com Suha Arraf e declarou, no material de divulgação do filme, que considera esta sua nova produção como “um passo à frente” no que diz respeito as suas visões sobre aquela parte do mundo. Além do trabalho de Riklis, gostei muito do desempenho do diretor de fotografia Rainer Klausmann. Verdadeiramente maravilhosa a fotografia do filme. 

Segundo uma nota de Eran Riklis no material de divulgação de Etz Limon, o território da Cisjordânia parece estar constantemente em mudança, mas talvez não seja assim. “Esperança, otimismo, pessimismo, avanços, novos horizontes, um novo dia, o futuro, o passado – todas essas palavras são usadas frequentemente para descrever a situação em uma região que já viu de tudo”, ele comenta, para depois complementar que as árvores neste cenário são testemunhas mudas do que a Humanidade anda fazendo. E para mudar ainda mais a ótica do que é contado sobre aquela parte do mundo, ele escolheu limoeiros no lugar das oliveiras, que normalmente são vistas como as árvores daquela região. “(…) essa história fala de uns limoeiros que são considerados uma ameaça para a segurança nacional, algo que os limoeiros não estão acostumados…”. Seriam aquelas árvores o símbolo das pessoas comuns? Eis uma boa questão sem uma resposta clara (ainda bem).

O diretor ainda comenta que pensava ter saciado o seu desejo de falar sobre a loucura que acontece na Cisjordânia com seu filme anterior até que ele percebeu que aquelas questões continuavam a assombrá-lo. Foi então que Riklis decidiu escrever a história da guerra particular de Salma. Ele acredita que este filme “possivelmente acaba com todos os (demais) filmes” no que diz respeito as opiniões dele sobre o tema – ainda que ele não goste de dizer que nunca mais poderá tratar do assunto. Mas, de fato, parece que Etz Limon lhe “desafogou” por um bom tempo. 

Como o diretor e roteirista comenta em seu depoimento no material de divulgação de Etz Limon, por mais que sua declaração anterior pareça pretensiosa, seu filme realmente conta uma história simples. Trata-se de um conto sobre pessoas que combatem por questões que elas acreditam ser importantes enquanto tudo poderia ser resolvido de uma forma simples e calmamente se estes indivíduos apenas “escutassem uns aos outros”. “Mas as expectativas, por muito simples que sejam, sempre são difíceis de cumprir, como já se pode ver em muitas regiões do mundo. Além disso, nessa região em especial, elas se vêm aumentadas pelo peso da história, do sangue, da religião e de outros assuntos eternos que não ajudam as coisas a serem mais simples…”.

Achei curioso que o diretor comenta que, apesar do respeito que ele tem aos temas que comentou antes, seu filme realmenta trata da solidão daquelas duas mulheres… que bacana! E olha que eu li a “carta” dele só depois de escrever o meu texto. 😉 Com isso acho que posso dizer que entendi o filme. hehehehehe. Mas fora a brincadeira, o que eu achei legal da declaração dele é que ele diz que a solidão delas é individual e que representa, ao mesmo tempo, a solidão daqueles dois países que elas representam. Bacana.

A idéia de um novo filme sobre a questão palestina e israelense surgiu para o diretor logo depois que ele terminou The Syrian Bride. Riklis disse que tinha claro que queria fazer outro filme com Hiam Abbass, desta vez como protagonista, e de que precisava ir mais fundo no conflito entre aqueles dois povos – lembrando que ele é israelense. Foi aí que ele começou a buscar histórias de palestinos que haviam levado o Estado de Israel para os tribunais. Para ele, ao mesmo tempo que existe esta idéia de “justiça” pelo fato de que os palestinos podem questionar Israel em seu Supremo Tribunal, existe uma profunda sensação de injustiça depois de tantos anos de ocupação israelense. “Os dois lados fizeram coisas deploráveis, nada é preto ou branco, mas a história de uns limoeiros que se transformaram em ameaça para a segurança nacional apenas porque tiveram a má sorte de estar ao lado da casa da pessoa encarregada de dita segurança, me pareceu o marco perfeito para o que eu queria contar”, comentou o diretor.

O filme é uma co-produção de Israel, da Alemanha e da França, e é falado em árabe, hebraico e inglês. 

O elenco em geral está fantástico. Gostei de todos os atores principais, especialmente das magníficas Hiam Abbass e Rona Lipaz-Michael. Além de mulheres belíssimas, elas tem uma força de expressão e uma interpretação especiais. Ali Suliman também mostrou carisma e talento. Tarik Kopty aparece pouco, mas arrasa em cada momento de interpretação. Também vale citar o trabalho de Amos Lavi como o comandante Jacob; de Amnon Wolf como Leibowitz; de Smadar Jaaron como Tamar Gera; de Danny Leshman como o soldado Itamar, chamado pelo apelido de Quickie; de Makram Khoury como Abu Kamal, o líder palestino local; e de Ayelet Robinson como Shelly, uma suspeita secretária do ministro (suspeita de ser sua amante).

Etz Limon conseguiu uma nota razoável no site IMDb: 7,2. Na opinião dos críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes o filme recebeu uma aprovação de 88% – motivando 14 textos favoráveis e dois negativos. Em sua trajetória o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros oito. Ele garantiu o prêmio de melhor atriz para Hiam Abbass conferido pela Academia de Cinema de Israel e o prêmio Panorama dado pela audiência do Festival de Berlim do ano passado.

CONCLUSÃO: Um filme sobre uma história simples que ganha proporções bastante profundas conforme vai esmiuçando a relação conturbada entre palestinos e israelenses em uma região de conflito. Ainda que Etz Limon não mostre nenhum ataque ou violência, ele trata dos absurdos de uma disputa que parece não ter fim – mas que deixa marcas na vida de pessoas comuns. Além de uma história sobre as diferenças entre os dois povos, ele trata, essencialmente, sobre a solidão e sobre valores que acabam unindo (mais do que separando) as pessoas. Entre eles, a busca pela Justiça e pela dignidade. O filme se destaca também pela importância que ele dá a Natureza como testemunha dos passos em falso dos homens pensantes. Uma história simples e bastante complexa ao mesmo tempo, com uma fotografia e uma direção de primeira linha, assim como atuações bastente convincentes.

Lat Den Rätte Komma In – Let the Right One In – Deixe Ela Entrar

 

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Esqueça o charme dos vampiros de outrora. A imagem de Brad Pitt e de Tom Cruise em Interview with the Vampire ou do Dracula de Bram Stoker na versão de Francis Ford Coppola. Um dos filmes sobre vampiros mais elogiado – com razão – dos últimos tempos mostra o desafio de uma garota com aparência de 12 anos para sobreviver nos dias atuais, em um local tão rude para se viver no Inverno como pode ser a Suécia. Neve por todos os lados e uma frieza no trato da juventude que está mais interessada em brigar com os estranhos do que em entendê-los. Esta é parte da realidade de Låt den Rätte Komma In (Let the Right One In para o mercado internacional), um filme de terror de primeira sobre como seria a realidade de uma jovem vampira na sociedade em que vivemos.

A HISTÓRIA: Oskar (Kåre Hedebrant) tem 12 anos e está vivendo o que acreditar ser uma das piores fases de sua tenra vida. Como todos sabem, crianças e jovens podem ser bem cruéis… e no meio desta “crueldade” vive Oskar, que se tornou o saco de pancadas e de chacotas de Conny (Patrik Rydmark) e seu grupo de amigos/comparsas. A vida de Oskar parece gris e sem amizades, restrita apenas aos pais separados e a um álbum com recortes de jornais sobre crimes até que aparece na vizinhança Eli (Lina Leandersson), uma garota tão “estranha” quanto ele. Os dois se familiarizam logo de cara, mas ela vai logo avisando que eles não podem ser amigos. A razão é muito simples (ainda que ela não lhe revele este fato assim, facilmente): Eli é uma vampira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lat Den Rätte Komma In): Certamente boa parte das pessoas que estão lendo este texto lembraram ou estão fazendo uma comparação dele com Twilight, o filme-sensação de 2008. Quero dizer logo de cara que ainda (reafirmo: ainda) não assisti a Twilight – mas ele está na minha lista para ser visto. Sendo assim, não posso comparar os dois, mesmo sabendo que Twilight seria uns “passos seguintes” a Lat Den Rätte Komma In – pelo menos no que se refere a idade dos protagonistas. Só que mesmo sem assistir a Twilight, algo me diz que ele é mais uma “história de amor” padrão do que o filme sueco dirigido por Tomas Alfredson.

Lat Den Rätte Komma In não tem nada de Hollywood. Pelo contrário. Ele é o avesso dos filmes hollywoodianos que, normalmente, não suportam o silêncio – já notaram que sempre alguém precisa estar falando ou algo precisa estar acontecendo em uma história hollywoodiana, com algumas exceções? Ele segue o “filão” europeu e não tem pudor algum em mostrar personagens “estranhos”, deslocados em suas realidades. Aliás, essa característica é fundamental para que Oskar e Eli se reconheçam logo no início – e cada vez mais. Afinal, os dois são “estranhos” naquela realidade. E nada como o reconhecimento mútuo de marginalizados para unir duas pessoas.

Mesmo se unindo, contudo, fica difícil para Eli contar a Oskar sobre sua verdadeira natureza. Afinal, como alguém hoje em dia admite para outro que é um vampiro e que precisa de sangue humano para sobreviver? Digamos que seria algo realmente sinistro para se confidenciar… 😉 (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme). Pois apenas perto do final Oskar acaba realmente descobrindo, por lógica, que a sua primeira namorada e amiga não é exatamente igual a ele como ele imaginava. Ainda assim, Eli acaba mostrando como, na essência, eles são mais parecidos do que alguns gostariam de admitir – e que por um “controle social” talvez ele não atuasse como ela. Nesta parte o filme abre uma pergunta interessante: quem pode ser considerado um monstro atualmente? Os que praticam um ato reprovado socialmente por necessidade ou por puro prazer? Se matasse fosse necessário para a sobrevivência de alguém, isso seria mais legítimo do que matar pelo desejo de vingar-se? Basta olhar para as leis de vários países para saber a resposta. O que não deixa de ser curioso.

Para muitos, o grande mérito de Lat Den Rätte Komma In é o de mostrar a vida “real” de uma vampira pré-adolescente, com todos seus problemas e pequenas alegrias. Realmente o filme se diferencia dos demais justamente por isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, um dos “dilemas” mais fortes da produção é vivido por Håkan (Per Ragnar), o pai de Eli. Ele ao mesmo tempo sente a responsabilidade de ajudar a filha e a aflição por ter que, para isso, matar pessoas. Não sei ao certo se ele é desastrado por natureza ou se, cansado daquela vida de fugas e de crimes sem chegar a  uma solução para o “problema” (porque ele simplesmente não tem solução), ele simplesmente “dá mole” para ser pego. Acredito que seria mais o caso da segunda opção. As cenas dele atacando jovens para conseguir o sangue que a filha precisa é de matar – algumas das mais fortes e angustiantes do filme. Realmente muito boas.

Aliás, vou avisando aos que tem um certo problema em ver sangue que este filme não chega a ser uma carnificina vampiresca, como outros do gênero, mas que ele também não evita a cor vermelha sobre o branco do gelo daquela paisagem. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E se Håkan é bastante desastroso como provedor da “comida” em casa para a filha, ela mesma tem que partir para o ataque. E dá-lhe mais sangue quando ela parte para cima de Jocke (Mikael Rahm), um dos moradores mais queridos da vizinhança. Como parece ser inevitável, a morte de Jocke desperta muita atenção na comunidade local e, claro, coloca em risco Eli e sua condição vampiresca. 

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do filme tanto pelo ritmo dele – sem pressas ou “fogos de artifício” -, garantido bastante pela direção “naturalista” de Alfredson, quanto pelo roteiro cheio de questionamentos de John Ajvide Lindqvist. O roteirista, aliás, fez com este filme a adaptação de sua obra homônima. Outro fator importantíssimo no filme acaba sendo a trilha sonora de Johan Söderqvist e a direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema.

Os atores em geral estão muito bem – especialmente o trio de protagonistas, os jovens atores que interpretam Eli e Oskar (que conseguem um tom naturalmente estranho para seus personagens nada fácil de conseguir) e o veterano ator que interpreta o pai da vampira. Além deles, vale destacar o trabalho de Peter Carlberg como Lacke, o amigo de Jocke que fica inconsolável depois da morte misteriosa do colega de bebedeiras; o de Ika Nord como Virginia (ou apenas “Ginia”), a namorada de Lacke que acaba sendo mordida e infectada por Eli; e de Karl-Robert Lindgren como Gösta, o homem que vive solitário com seus vários gatos e que acaba sendo testemunha ocular dos acontecimentos estranhos que passam a assolar a vizinhança. Os três realmente fazem um trabalho incrível. Vale citar como uma das cenas mais “porreta” do filme o ataque dos gatos de Gösta contra Ginia… me lembrou os melhores filmes B – ou até mesmo The Birds, do mestre Alfred Hitchcock. Realmente excelente. 😉 Chocante também o “desfecho” dela no hospital. Grandes momentos do filme.

Lat Den Rätte Komma In arrasou no ano passado pela avaliação dos críticos. Até agora o filme acumulou 23 prêmios – além de ter sido indicado a outros três. Entre eles, se destacam quatro prêmios conferidos pelo Fant-Asia Festival: de melhor filme, diretor, fotografia e ainda o de melhor filme na categoria que premia produções do Norte europeu/da América do Sul. Ele levou para casa ainda o prêmio da audiência para o melhor filme no Toronto After Dark Film Festival; o de melhor narrativa no importante Tribeca Film Festival; na mesma categoria pelo opinião da audiência no Woodstock Film Festival, entre outros prêmios em festivais e por diferentes associações de críticos. 

Aparentemente o público também gostou do filme. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para ele. O site Rotten Tomatoes, que divulga críticas de diferentes jornalistas e especialistas dos Estados Unidos e de outros países e que serve de “termômetro” para o que “a crítica” pensa dos filmes, fez reverências para Lat Den Rätte Komma In. Em sua premiação anual, o Rotten Tomatoes conferiu o terceiro lugar para a produção sueca na categoria de filmes estrangeiros – e ainda o sexto lugar no ranking dos filmes “limited release” (ou seja, que tiveram sua estréia nos cinemas dos States limitada a 500 cópias ou menos). Lat Den Rätte Komma In conseguiu uma aprovação de 97% entre os críticos que publicam seus textos no site – ou seja, ele recebeu 98 críticas positivas e apenas três negativas.

Segundo as notas de produção do filme, o diretor se apaixonou pelo livro de Lindqvists em um certo Verão e decidiu que deveria filmá-lo – história similiar a de quase todas as adaptações de um livro para o cinema. Tomas Alfredson chega a comparar Lindqvists com Charles Dickens, ao afirmar que percebe na obra do primeiro a mesma dinâmica entre um pano-de-fundo obscuro e um primeiro plano luminoso que caracterizou o trabalho do segundo. Interessante comparação – ainda que, admito, não conheço Dickens o suficiente para afirmar se ele está certo ou não.

Já o escritor e roteirista elogiado pelo diretor comenta que sua obra fala sobre a capacidade do amor tirar alguém das sombras. Ele complementa: “(a história é) sobre alguém que está por baixo e repentinamente é resgatado por uma mão que lhe auxilia. Uma mão de ajuda totalmente inesperada”. Provavelmente ele se refere aos dois personagens, Oskar e Eli – afinal, ambos são “milagrosamente” resgatados.

Lindqvist também ressalta o título de sua obra e, por consequência, do filme: “O título toca em uma questão que eu acredito ser a mais interessante em se tratando do aspecto moral dos vampiros. Eles precisam ser convidados para estar com você…”. O autor comenta ainda que seu trabalho é uma tentativa, mais que nada, de descrever como as pessoas reagem quando enfrentam o Desconhecido. “Nossa realidade é mutável e frágil. Nós vivemos nossas vidas buscando a felicidade. E ao mesmo tempo… uma vaga sensação de que tudo pode ser tirado de nós, a qualquer momento. Um véu muito fino nos separa da queda, do monstro, da treva definitiva. Ou do amor. Do Desconhecido.  O que acontece quando isso entra nas nossas vidas? O que nós fazemos?”. Fiz questão de reproduzir literalmente o que ele falou porque me pareceram questionamentos muito interessantes – inclusive pelo que o filme nos mostra.

Até ler as notas de produção eu não havia me dado conta que a história de Lat Den Rätte Komma In se passava no subúrbio de Blackeberg, em Estocolmo, no ano de 1982. O livro de Lindqvist foi publicado inicialmente em 2004. O autor, até lançar esta obra e vê-la entrar na lista de bestsellers de seu país, vinha da carreira de comediante, mágico e escritor de roteiros para a TV.

CONCLUSÃO: Um filme europeu sobre uma vampira pré-adolescente que se debruça sobre o cotidiano do que seria a vida de uma criatura que depende de sangue humano na nossa sociedade atual. Bem dirigido, com uma fotografia e uma trilha sonora de primeira, Lat Den Rätte Komma In ajuda a reinventar o gênero do terror com vampiros ao tratá-los sem glamour ou romantismo. Nesta história, a frágil/forte garota vampira que vive sozinha com o pai em um ciclo nômade acaba sendo tratada como mais um indivíduo em busca da sobrevivência – como todos os demais humanos que a circundam. Seres “imortais” e fascinantes, os vampiros aqui se tornam mais “mortais” e solitários do que nunca. Um grande filme, com várias leituras possíveis. Indicado – pela quantidade razoável de sangue que mostra – para os fãs do gênero.

Taken – Busca Implacável

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Toda vez que um filme começa com uma cena antiga de uma festa infantil, é batata: algo de ruim vai acontecer. Não existe outra possibilidade, vamos! Então Taken começa desta forma, óbvia e previsível. E o que nos resta é esperar a hora em que acontecerá algo de ruim com aquela inocente menininha do passado – agora uma adolescente que está perto de completar 18 anos. E, ainda que tenha essa idade, ela continua sendo tratada como a “menininha do papai”, interpretado aqui por um Liam Neeson da pesada. O filme acaba sendo interessante pelo ator e por algumas cenas de ação, mas no demais, é muito óbvio para o meu gosto.

A HISTÓRIA: Bryan Mills (o irlandês Liam Neeson) é o típico homem que dedicou a sua vida à profissão e, lá pelas tantas, descobriu que não consegue manter uma relação próxima com a ex-mulher e, principalmente, a filha do casal. Agora aposentado – antes ele trabalhava para o governo em algo parecido com a espionagem -, ele resolve se aproximar da filha, Kim (Maggie Grace). Mas para isso ele deve enfrentar uma certa resistência da ex-mulher, Lenore (a holandesa Famke Janssen) e a inevitável competição com o rico homem de negócios que é seu atual marido, Stuart (Xander Berkeley). A aproximação dele com a filha vai de forma regular até o momento em que ela pede uma autorização para viajar com uma amiga para Paris. Bryan cede, mesmo a contragosto, e acaba vendo seus temores se tornarem realidade quando Kim é raptada por um perigoso grupo de albaneses especializados no tráfico de mulheres.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – avisos aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Taken): Admito que os filmes de ação não precisam ser, digamos assim, inovadores. Ou mesmo surpreendentes. Talvez 80% deles tem como uma de suas características a previsibilidade. Mas, nem por isso, eu me conformo em ver algo tão óbvio quanto este Taken. Aliás, só não dou uma nota mais baixa para ele justamente porque estou analizando-o como um filme de ação. Se fosse para analisá-lo no “conjunto” dos filmes que pululam por aí, eu seria ainda mais cruel na hora de dar-lhe uma nota.

Sabemos que a filha do herói da história passará por maus bocados. Também sabemos que o pai vai conseguir resgatá-la. Mas o que acontece entre um ponto e outro da história é o que me incomodou um pouco neste filme. Afinal, Bryan podia ser um pouquinho menos Rambo, como um dos amigos lhe chamou uma certa hora, não? Certo que Liam Neeson realmente fica muito bem naquela roupa de “cara-que-faz-tudo-pela-filha-e-mata-quem-aparecer-pela-frente”. Suas linhas expresivas um tanto “duras” dão ainda mais legitimidade para o que ele vai fazendo – extermínio puro e simples. Mas ele podia ser menos “intocável” ou um pouco mais aberto a erros… sei lá, cansei já de ver caras durões, intocáveis e exterminadores – acho que esse é um problema de quem já assistiu a muitos filmes.

Taken também tem alguns elementos, aqui e ali, que me pareceram referências um tanto estranhas. Vejamos: é inevitável não lembrar do líder dos zapatistas quando nosso “herói” está no meio dos bandidões perguntando quem é o tal de Marco. Cada um do grupo responde que é Marco, (o que talvez seja) uma alusão ao anonimato que o Subcomandante Marcos, dos zapatistas, sempre pregou em seus textos (“todos somos Marcos”). Certo. Mas o que isso tem a ver exatamente com albaneses que atuam na Europa sequestrando turistas para depois prostituí-las ou vendê-las como uma mercadoria? Não entendi, eu juro.

Aliás, nunca Paris foi tão perigosa quanto em Taken. hehehehehehehehehehe. Certo que existe o tráfico de mulheres na Europa – e em outras partes. Mas alguém realmente acredita que é feito daquela maneira? Não, né? Pois então… uma forçada de barra do roteiro dos senhores Luc Besson (francês) e Robert Mark Kamen (responsável anteriormente pelo péssimo Bandidas). O mesmo assunto foi tratado antes em Trade, mas de maneira um bocado melhor trabalhada. No mais, a direção do francês Pierre Morel é competente, transforma um roteiro fraquinho em algo que não nos cansa tão facilmente. Se dependesse apenas do ritmo do filme, tudo bem. O problema é o recheio – ou, em outras palavras, o roteiro e o argumento. 

O elenco está bem, ainda que ninguém se saia melhor que Liam Neeson. Sempre pensei nele em um papel mais “intelectual”, mas aqui ele prova que pode ser bom na pancadaria. Maggie Grace e Famke Janssen fazem os seus papéis de forma regular, na média, sem grandes rompantes de talento ou de mediocridade – até porque suas personagens não permitiam muito além do que elas fizeram. Do elenco, vale citar ainda Arben Bajraktaraj como Marko; Katie Cassidy como Amanda, a amiga maluquete que leva Kim para Paris; Nicolas Giraud como Peter, o homem que seleciona as vítimas na saída do aeroporto; Nabil Massad em uma aparição relâmpago como o Sheik Raman, o homem que acaba comprando Kim para o seu harém particular; Olivier Rabourdin como Jean-Claude, o negociante de mulheres parisiense; e principalmente Leland Orser como Sam, o amigo do peito de Bryan que acaba lhe fornecendo informações primordiais para que o pai chegue até a filha.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Resolvi começar a “dar um tempo” naquela sequencia de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Primeiro porque eu já vi todos os principais. Segundo que os que faltam não me atraem tanto assim – como Vicky Cristina Barcelona e Happy-Go-Lucky, entre outros. Vou assistí-los, claro, mas devagarinho. 😉 Aproveito também para começar a ver os filmes todos que eu tenho na minha big lista e, claro, dentre eles, os que os leitores deste blog foram me indicando com o passar do tempo. Passado o Oscar também eu quero ver uma sequência de filmes do país escolhido por vocês, meus bons leitores – aliás, aproveito para incentivá-los a votar!

Algo muito, mas muito estranho nesse filme: Bryan Mills é um cara durão, capaz de matar dezenas de bandidos fuzilados em uma sequência, mas na hora que Peter é amassado por um caminhão, nosso “herói” vira o rosto. Hummmmm… curioso, não? Quer dizer que ele é sensível para acidentes de trânsito? hehehehehehehehe

Se grande parte do filme é previsível – tanto na sequência de fatos quanto em várias das cenas de perseguições e mortes -, devo admitir que um ou outro momento da produção são realmente muito bons. Por exemplo a sequência em que os bandidos invadem o apartamento onde Kim e Amanda estão e a garota começa a narrar tudo para o pai, que lhe ajuda dos Estados Unidos. Vale a pena este momento do filme principalmente no diálogo deles quando ela vai para o quarto e no discurso dele para Marco no final da cena. Também achei bem feita a sequência em que o protagonista contrata um tradutor e coloca uma escuta em um dos integrantes da rede de prostituição – e a subsequente chegada dele no “antro” das prostitutas mantidas como reféns próximas de uma obra. 

Um tema paralelo ao filme é o da espionagem e da contribuição entre as diferentes nacionalidades no trabalho de “vigiar” possíveis inimigos e alvos. Também entra no jogo a corrupção policial – que, convenhamos, não é algo específico de Brasil ou França, certamente existe nos Estados Unidos e em todos os lugares em que a ambição não encontra nos “meios legais” os recursos suficientes de seu desejo.

Taken estreou antes no Brasil e em quase todos os países do mundo – exceto pelos Estados Unidos. O filme chegou apenas no dia 1 de fevereiro para os norte-americanos. E chegou arrasando, conquistando a primeira posição nas bilheterias. Em apenas uma semana ele arrecadou impressionantes US$ 24,7 milhões. Segundo os produtores, Taken custou US$ 30 milhões. Ou seja: vai se pagar rapidinho e começar a lucrar bem.

Até o momento a produção conseguiu uma nota muito boa pela votação dos usuários do site IMDb: 8,0. 

Uma curiosidade: Taken é um filme francês. Pois sim! Isso realmente me surpreendeu. hehehehehehehehehe. Primeiro porque ele tem um elenco essencialmente norte-americano. Depois porque ele literalmente detona a França. 😉 O diretor, talvez para fazer as pazes com os conterrâneos, está trabalhando em um projeto chamado From Paris with Love. E outro detalhe: novamente neste filme um espião americano faz estripulias na capital parisiense. Será alguma obsessão do diretor com este tema e essas nacionalidades? Ou vai ver que é o roteiritas… porque From Paris with Love tem roteiro de Luc Besson (mais uma vez).

CONCLUSÃO: Um filme de ação no melhor estilo pai-ausente-que-vê-a-filha-ser-raptada e que acaba fazendo de tudo para resgatá-la. Uma mistura de Charles Bronson, Duro de Matar e algo mais do gênero. Ainda assim, não deixa de ter algumas qualidades, como uma direção competente e um ritmo muito bom de narrativa – ainda que o roteiro seja bem fraco. Simplifica bastante o papel de “bandidos” e de “heróis”, como geralmente os filmes de ação fazem. Tem uma esforçada interpretação de Liam Neeson, que surpreende pelo pique e pela seriedade com que veste a carapuça do personagem. Podia ser um pouco mais original, mas na falta disso, pelo menos é um filme de ação com boas cenas de pancadaria – bem coreografadas e que misturam técnicas utilizadas por Bruce Lee e por militares ingleses e estadunidenses. E se você pensar: “Eu já assisti esse filme antes?”, posso te dizer que sim.