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Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

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A Walk Among the Tombstones – Caçada Mortal

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Filmes de ação que mostram um longo e doloroso processo de vingança fazem parte da história do cinema. Dezenas deles já foram feitos. Outros tantos também se debruçam no perfil de policiais que tiveram um problema grave em sua trajetória, o que fez eles mudarem de rumo. A Walk Among the Tombstones junta estas duas vertentes de filmes de ação sem reinventar a roda mas, ao mesmo tempo, respeitando a inteligência e o bom gosto do espectador.

A HISTÓRIA: Nova York, 1991. O policial Matt Scudder (Liam Neeson) escuta algumas recomendações do colega policial, Danny Ortiz (Maurice Compte). No puxão de orelha, Ortiz diz que está preocupado com Scudder, e que ele não está afundando apenas a si mesmo, mas colocando o parceiro em risco também. Scudder entra no bar e recebe o de sempre: duas doses de destilado e um café, enquanto lê o jornal.

Mas logo entram criminosos no local, que atiram no dono do bar (Patrick McDade). Scudder persegue os criminosos e acaba matando os três. Cenas de uma mulher. Corta. Nova York, 1999. Scudder está lendo o jornal em uma lanchonete quando chega Peter (Boyd Holbrook), que ele conheceu em uma reunião do AA (Alcoólicos Anônimos). Como detetive particular, Scudder é chamado para ajudar o irmão de Peter, Kenny Kristo (Dan Stevens), que está vivendo um drama pessoal pesado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a produção A Walk Among the Tombstones): Gosto do Liam Neeson. Ele é um ator que soube, pouco a pouco, se especializar em um tipo de papel e de filme bem específicos. A expressão dele é dura, e a seriedade no semblante convence toda vez que ele encarna o personagem de durão. Funciona, em especial, em filmes como este A Walk Among the Tombstones, em que Neeson não é apenas um sujeito durão, mas um homem que tem uma dívida profunda com o próprio passado.

Os primeiros minutos desta produção juntam dois gêneros com filmes bem interessantes: western e os film noir. São momentos eletrizantes e que provocam o espectador, servindo de um belo cartão de visitas do diretor e roteirista Scott Frank. Pouco depois, mergulhamos em alguns lugares-comuns, como o protagonista sendo convidado para investigar um crime que levará ele a confrontar o próprio passado e escolhas equivocadas que ele tomou.

O ex-policial Matt Scudder, há vários anos frequentando encontros de AA, é levado por um colega deste ambiente a encontrar um sujeito com o qual ele jamais trabalharia em conjunto no passado: o traficante Kenny Kristo. No início, achei o ator Dan Stevens muito ruim. Mas pouco a pouco vamos entendendo aquele jeito estranho do personagem – ainda que, na comparação com Neeson, ele fique sempre atrás. O mesmo acontece com o ator que interpreta o irmão dele, Boyd Holbrook. Todos se esforçam, mas nenhum deles consegue realmente convencer em seus papéis. Atores melhor preparados teriam conseguido um resultado melhor com estes mesmos personagens.

Mas voltando para a história: Scudder acaba caindo no enredo de vingança pessoal de Kenny de uma forma um tanto previsível – primeiro ele nega trabalhar para ele, depois acaba cedendo porque percebe que deve contribuir para terminar com uma série de crimes cruéis. A lógica é que se existe alguém pior para ser combatido, por que não se juntar com alguém que você desprezaria normalmente?

Como nos film noirs clássicos, aqui também o limiar entre o herói e o bandido muitas vezes tem a densidade de uma fumaça. Daí que no decorrer da história surge o garoto TJ (Brian “Astro” Bradley). O protagonista encontra ele “vivendo” na biblioteca onde ele começa a investigar crimes similares ao da mulher de Kenny. Volta e meia o garoto surge, principalmente para o protagonista exercer um pouco de sua verve paterna e cheia de conselhos sábios. Daí que eu não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando se essa era realmente a finalidade do garoto: servir de trampolim para um pouco de filosofia contra o crime do ex-policial Scudder.

Muitas vezes o personagem de TJ me parecia uma tentativa do roteirista em dar um lado mais “humano” e um pouco “cômico” para a história, para que ela não ficasse macabra demais. Fiquei feliz quando vi que o garoto tinha um propósito maior e uma participação decisiva na reta final da produção. Desta forma, o personagem de TJ nos faz pensar de como nem sempre percebemos que relações “sem grande importância” aparente podem ser, no fim das contas, decisivas em determinados momentos das nossas vidas.

Quem disse que um filme de ação não pode ter um pouco de filosofia no meio? 🙂 O desenrolar da trama, propriamente dita, ocorre de maneira um tanto previsível e sem nenhuma inovação narrativa. Há um começo, um meio e um fim. Pouco a pouco o experiente Scudder vai montando o quebra-cabeças do perfil dos criminosos até que, de forma inteligente, ele alerta através de Kenny outros bandidos que tinham as características de possíveis futuros alvos dos bandidos.

Não demora muito para que um novo caso ocorra – afinal, o roteirista tinha pressa para deslanchar o filme. Esqueçam o modus operandi normal de uma dupla de serial killers que, normalmente, dão um certo espaço de tempo entre um crime e outro. Em A Walk Among the Tombstones esses tempo não existe. Logo depois de estuprar, matar e esquartejar a mulher de Kenny, os criminosos Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) querem mesmo é atacar a próxima vítima.

Interessante como o filme de Scott Frank, baseado na obra homônima de Lawrence Block, desconfia dos “homens da lei”. Além de termos um protagonista que se arrepende de um ato do passado, quando ele era alcoólatra e acabou matando não apenas três bandidos, mas causando também a morte acidental de uma menina, temos ainda dois criminosos interessados em dinheiro e que tem um gosto macabro por cortar pessoas que trabalhavam para o DEA (Drug Enforcement Administration ou, em uma tradução livre, Órgão para o Combate das Drogas). Ironia e autocrítica pura.

O filme vai bem, especialmente pelo trabalho de Neeson, até que o protagonista começa a negociar com os bandidos. Claro que há diálogos bons ali, mas fica especialmente estranho quando Scudder fala para Ray que conhece ele, que lembra do “maldito degenerado” que ele conheceu há 10 anos e que ele jogou por uma janela. Hein? Essa é a parte comprometedora do roteiro. Porque em nenhum momento da produção, antes, ficamos sabendo dos dois terem se esbarrado ou conhecido. Até aquela troca de diálogos, não há nenhum indício de que eles tiveram algum encontro antes.

Essa é uma lacuna importante da trama que, até então, estava bem amarrada. Ok, alguém pode argumentar que a fala de Scudder era genérica. Que ele não estava falando especificamente de Ray, mas de qualquer maluco com aquele perfil que ele tivesse encontrado 10 anos antes. Com bastante esforço de imaginação, até podemos pensar nisso. Mas francamente, da forma com que os diálogos foram escritos, não é isso que aparenta. E por mais que Scudder seja bom, fica um pouco difícil de acreditar que os bandidos jogariam o jogo dele daquela forma tão facilitada.

Se eles eram, de fato, e como nos quer fazer acreditar o roteirista e diretor, tão cruéis, dificilmente eles dariam margem para o azar para ganhar uma bolada de mais um traficante. Sendo perseguidos da forma com que eles estavam, era muito mais lógico, segundo o pensamento dos criminosos, matar a refém e partir para uma série de novos crimes longe dali. Mas bueno, o filme precisa seguir, e Scott Frank escolhe o caminho mais rápido para terminar essa história.

Na reta final da trama, gostei das perdas que ocorrem na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Kenny era um traficante que vivia bem, mas não tinha vocação para ser um bandido familiarizado com o confronto. E o irmão dele, o pobre Peter, tinha deixado bem para trás a experiência com o rifle – recentemente ele estava mais alucinado com drogas e com a culpa do que afiado no gatilho. Os dois são mortos no confronto com bandidos muito mais experientes e preparados para tudo.

Esta conclusão, junto com outra lição de moral de Scudder para TJ, quando o garoto está com uma arma que pegou em um beco, reforçam as boas intenções do filme – que apesar de cruel, deixam essa mensagem de que o confronto e a busca de vingança contra bandidos nunca é a melhor saída. No fim das contas, Scudder não apenas ajudar a resolver a mais uma série de crimes, como também, através dos cuidados com TJ, ajuda a resolver o próprio passado. Uma trama interessante, bem contada, apesar de uma ou outra falha aqui e ali. E com o grande Liam Neeson.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ajuda bastante na história e funciona muito bem a mudança de visual do personagem de Matt Scudder. Ele começa “sem limites”, com atitude típica de quem vive acima do razoável (leia-se alcoólatra) e com uma pegada de western e, passado aquele momento decisivo na vida e nas certezas do personagem, ele surge sóbrio não apenas na atitude e na forma de falar e caminhar, mas também no visual. Acerto importante auxiliado pelos profissionais responsáveis pelo figurino (Betsy Heimann) e pela maquiagem (Shellie Biviens, Maya Hardinge, Craig Lindberg, Amanda Miller, Kyra Panchenko e Kerrie Smith).

Falando na parte técnica do filme, além da direção bem afinada de Scott Frank, vale citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr., livremente inspirado nos film noir e nos western e que, desta forma, sabe valorizar bastante o jogo entre luzes e sombras.

A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera aparece em momentos pontuais e ajuda a colocar a trama no compasso adequado, que faz o espectador relembrar de filmes de crime de algumas décadas atrás. Outro nome importante para a produção é o de Jill Savitt, responsável pela edição do filme.

A Walk Among the Tombstones estrou no dia 18 de setembro em 13 países, incluindo Dinamarca, Israel, Itália e México. No dia seguinte, o filme estreou em outros nove países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

A produção, que teria custado cerca de US$ 28 milhões, conseguiu nas bilheterias, apenas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 26,3 milhões até o dia 19 de setembro, de acordo com o site Box Office Mojo. No restante dos países do mundo onde já estreou, a produção conseguiu quase US$ 26,9 milhões. Ou seja: a produção conseguiu se pagar e, agora, busca lucrar. Deve conseguir isso.

A Walk Among the Tombstones foi totalmente rodado em Nova York, nos Estados Unidos. A cidade, querendo ou não, acaba sendo uma personagem adicional da trama.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: a atriz Ruth Wilson filmou diversas cenas como Joe Durkin, personagem que na obra original é feita por um homem. Ela deveria atuar como parceria do protagonista, mas acabou tendo todas as cenas deletadas na versão final do filme porque o diretor achou que a história funcionaria com o protagonista em uma cruzada solitária. Cá entre nós, acho que ele teve razão.

De acordo com o site IMDb, graças à popularidade do ator Liam Neeson em outros filmes de ação, A Walk Among the Tombstones já estava no lucro antes mesmo de ser lançado por causa das vendas robustas que a produção conseguiu nos diferentes mercados mundo afora. Interessante. Liam Neeson, de fato, virou uma grife.

Esta é a segunda vez que o personagem de Matt Scudder aparece em um filme. A aparição anterior foi na produção 8 Million Ways to Die, quando o personagem foi vivido por Jeff Bridges.

O personagem de Matt Scudder aparece em uma série de 17 obras do escritor Lawrence Block. Ou seja, há bastante trama ainda para ser explorada no cinema – espero que com Liam Neeson ou atores deste calibre.

Há alguns personagens secundários da produção que ganham certa relevância. Do time de mulheres, geralmente vítimas, estão Laura Birn como Leila Alvarez; Razane Jammal como Carrie Kristo; Marielle Heller como Marie Gotteskind; Liana De Laurent como a mulher do traficante Yuri Landau (Sebastian Roché), e Danielle Rose Russell como Lucia, filha do traficante. Por falar no personagem de Roché, interessante ver a esse ator veterano em ação novamente, ainda que em um papel tão secundário.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 avaliações positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,1. De fato, o filme deve merecer uma nota nesta média, talvez próximo de 7… dei uma avaliação muito melhor, admito, porque sou fã de Neeson. 😉

CONCLUSÃO: Produção dura, com uma pegada obscura e algumas vezes pesada, A Walk Among the Tombstones só é tão bom porque tem Liam Neeson como protagonista. Este ator, a exemplo de Clint Eastwood, se especializou de uma maneira tão profunda que virou grife de certos filmes: os de ação. Ele está perfeito como o protagonista em busca de redenção que ajuda um traficante a buscar vingança. A dupla inusitada acaba se justificando conforme vamos conhecendo mais sobre cada personagem. O desenrolar da história é bom, apesar de uma pequena falha no caminho. Mas nada que comprometa muito a mensagem que o filme quer passar. Envolvente, apesar de alguns atores fracos, esta produção vale o ingresso. Ainda que apenas requente várias premissas já trabalhadas antes em outros filmes do gênero. Só que Liam Neeson está lá para salvar esta e qualquer outra produção.

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The Grey – A Perseguição

O que pode ser pior do que trabalhar em um local inóspito, gelado, cheio de neve por todos os lados e cercado por sujeitos durões, que curtem um bar e uma briga? E se na saída deste local, o avião em que você está cair, em local ainda mais inóspito? The Grey mostra que realidades complicadas podem sempre ficar ainda mais complicadas. No melhor estilo de “nada que está ruim não pode piorar”. Um filme angustiante, com um grande ator à frente do elenco, e que segura a tensão até o final. Belo trabalho do diretor Joe Carnahan, que tem um estilo seco e direto. Como uma história assim exige.

A HISTÓRIA: Cenário com montanhas geladas e trilha sonora composta de uivos. Instalações fumegantes, e a voz grave de Ottway (Liam Neeson) fala sobre um trabalho no fim do mundo. Ele se define como “um matador assalariado de uma grande companhia petrolífera”. No início, você pensa que ele está fazendo uma fina ironia mas, de fato, ele é um matador. De lobos. Ottway cuida da segurança dos funcionários da companhia, eliminando os animais ferozes quando eles se aproximam demais. Sujeito cheio de arrependimentos, Ottway segue o seu caminho meio que por inércia, até o dia em que eles tem que sair às pressas do local antes da chegada de uma tempestade de gelo. Eles embarcam em um avião, que sofre um acidente. A partir daí, Ottway e os sobreviventes terão que enfrentar as piores condições e perigos na busca pela sobrevivência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Grey): Poucos tem a coragem do diretor e roteirista Joe Carnahan para fazer um filme como este. Porque, pela densidade e desesperança convicta desta produção, ela pode ser tudo, menos um projeto que renderá uma grande bilheteria. As pessoas não querem saber de filmes como este. Querem assistir a fantasias, ou comédias escrachadas e repetitivas. Tudo que lhes faça esquecer um pouco da dureza de suas próprias realidades. Prova disso são as últimas grandes bilheterias de Hollywood.

Então é preciso ter coragem para fazer um filme como The Grey. Porque ele não alivia. Pelo contrário. Vai ficando cada vez mais tenso e forte conforme a história se desenvolve. E a beleza desta produção é que ela não é apenas isso. Um filme sobre situações extremas e o choque entre o homem racional e a sua parte irracional e/ou primitiva.

O protagonista, por exemplo, não é apenas uma figura dura, mas também um homem adulto que é capaz de olhar para o passado e citar a poesia do pai, ter foco em saídas corajosas no presente enquanto ele lembra da voz doce da amada perdida. E não é apenas ele que tem a história destrinchada. Outros personagens que o acompanham também tem suas memórias, temores e momentos de valentia. Esses elementos fazem toda a diferença em The Grey.

O cenário do filme parece impossível para qualquer ser humano. E, ainda assim, aquelas pessoas insistem em buscar a vida por lá. Contra todas as adversidades. Essa teimosia mostra a valentia do espírito daquelas pessoas, ou apenas uma falta extrema de alternativas? As duas respostas são válidas.

Porque os personagens de The Grey mostram valentia e ao mesmo tempo desespero. Eles estão naquela parte do mundo porque o homem é ambicioso. Porque aqueles sujeitos “desprezados” em qualquer socidade “desenvolvida” acabam sendo convocados por uma companhia que quer faturar alto explorando o petróleo, esse líquido negro tão valioso. Claro que eles não são, apenas, vítimas. Muitos deles tem um passado de delitos, ou de equívocos. Ninguém para em um lugar como aquele se não tem algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo e pela alma.

Até o nome do filme parece nos dar uma dica sobre a essência da história. Certo que, em certo momento, o “assado” de um lobo explica um pouco do “cinza” do título. Mas não acredito que seja apenas isto. The Grey revela que a vida não é preto no branco, ou simples de elucidar. Homens “brutos” também amam, já revelaria um clássico do cinema. Não apenas Ottway tem memórias calorosas e apaixonadas para revisitar. Cada um daqueles homens teve uma namorada, uma mulher ou filhos que lhes fazem resgatar forças para seguir, ainda que o caminho adiante pareça cada vez pior.

Os personagens desta história podem parecer renegados, brutos, sempre próximos de algum gesto descontrolado – especialmente após alguns tragos. Mas eles também são capazes dos melhores gestos de irmandade, de bravura – além daquele estágio de pura luta pela sobrevivência. Nem sempre, mais uma vez, é possível resumir as situações em preto ou branco. A vida, talvez em grande parte do tempo, esteja mais para tons de cinza.

Além destas questões filosóficas e de “fundo”, The Grey se revela um ótimo filme de ação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas impressionantes, como aquela do acidente de avião, e outras de perseguição e ataque dos lobos. Claro que algumas sequências deixaram a desejar – especialmente algumas envolvendo efeitos especiais relacionados com as feras. Mas, na maior parte do tempo, Carnahan soube equilibar, junto com o roteirista Ian Mackenzie Jeffers, autor do conto Ghost Walker, no qual o filme é inspirado, os momentos de tensão, suspense, ação e de aprofundamento/proximidade em relação aos personagens.

Como argumentei lá no início, incrível como o pior dos cenários pode ficar ainda mais complicado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Trabalhar e viver no ambiente mostrado no início de The Grey já é algo difícil. Para piorar, aqueles homens sofrem um acidente de avião. Estão perdidos no gelo, suscetíveis à tempestades, sem comida, sem perspectiva de serem resgatados. E ainda há a ameaça, não apenas pela noite, mas também durante o dia, de uma matilha de lobos furiosos. Caramba! Este aumento da tensão e as perdas que vão se acumulando, elevam a tensão. O filme acerta ao não aliviar.

Liam Neeson está matador. A voz dele, densa, encorpada, não poderia ser substituída por nenhuma outra. Seu olhar e atitude, que lembram a dos lobos que ele combate desde o início, dão o tom exato para o personagem – criando legitimidade e, ao mesmo tempo, ainda mais tensão para esta história. Brilhante. Os demais atores estão bem, ainda que nenhum tenha o mesmo destaque que Neeson.

O roteiro está muito bem escrito, mas para não dizer que ele é perfeito, ele demora um pouco para engrenar e tem algumas participações um tanto mal construídas. Por exemplo, o personagem de Flannery (Joe Anderson), que morre logo no início. Todos sentem muito a perda dele, mas isso não afeta aos espectadores, porque não sabemos nada a seu respeito. Faltaram umas linhas e/ou um pouco mais de tempo para mostrar a importância dele para aquele grupo. Algo similar acontece com Burke (Nonso Anozie). Um pouco mais de elementos sobre os personagens não faria mal para o filme.

Outros elementos importantes para o filme funcionar bem são a direção de fotografia de Masanobu Takayanagi, a trilha sonora marcante de Marc Streitenfeld e a edição da dupla Roger Barton e Jason Hellmann.

E algo que o filme faz pensar e que vale o ingresso: o que as pessoas normalmente pensariam após sobreviver a uma queda de avião como aquela? Que Deus tem um plano maior para elas, certo? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E eis uma das sacadas do roteiro. Lá pelas tantas, em desespero – e com razões para isso -, Ottway chega a pedir uma explicação sobre o que está acontecendo para Deus. Mas eis a questão, não existe nenhum plano superior. Aqueles homens não foram “poupados” porque vão ajudar a mudar o mundo. Mas no tempo que eles ganharam, eles tem a oportunidade de aprender algumas coisas.

De aprender com o sofrimento e com o medo. Com a dor e a proximidade de pessoas que eles não imaginariam conhecer mais de perto. Assim como com uma rápida olhada para o passado e para o amor que os une a pessoas que não estão ali. Mas Deus não fará um milagre e soltará raios para exterminar as ameaças. Os homens devem lutar por suas vidas, fazer a parte que lhes deve. Talvez essa seja uma das grandes reflexões da história. Viva ou morra hoje. Isto pode acontecer em um dia, para qualquer um de nós. Mas lutar até o fim é que nos faz maiores. The Grey mostra isso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Grey foi totalmente rodado no Canadá. Mais precisamente nas cidades de Edmonton, Smithers, Vancouver e Whistler. Em outras palavras, sim, na neve. Essa era uma dúvida que eu tinha. Se aquela equipe e atores tinha realmente penado no gelo ou a maioria das cenas tinham sido apenas simuladas em estúdio – o que parecia ser difícil de fazer, pela maioria dos cenários serem abertos. Mas nunca se sabe, com a alta tecnologia de efeitos especiais…

De fato, lendo sobre as notas da produção, vi que o ator Liam Neeson comentou que, na maioria das cenas, rodadas em Smithers, a sensação térmica era de – 40ºC. Sim, 40 graus NEGATIVOS. Honestamente, eu nem consigo imaginar como é caminhar, quanto mais trabalhar – leia-se atuar – nesta temperatura. Impressionante.

As cenas de tempestade de neve foram reais – nada forjado com equipamentos do cinema. Incrível. Mais alguns argumentos para que Neeson seja, finalmente, indicado e/ou vencedor de algum prêmio importante, como o Oscar. Interpretar com tanta convicção o personagem dele sob condições reais como aquelas não é para qualquer um. Eu diria que nem 10% dos astros de Hollywood encarariam algo assim.

Para se preparar para este papel, Neeson também consumiu carne de lobo – isso que eu chamo de “entrar” no personagem. 🙂

Há uma cena rápida, após os créditos finais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ela não ajuda muito a “matar a charada”. Nesta imagem final, o lobo alfa aparece ofegante, e a cabeça de Ottway está repousada sobre o estômago do lobo. Não fica claro quem venceu a disputa. Ou se houve vencedor. Claro que a imagem remete a uma cena mais no início do filme, em que Ottway repousa a mão sobre o estômago do lobo que ele abateu. Mas no final, não se sabe se, novamente, ele espera o último suspiro do lobo ou se ele também está dando o último suspiro. Nunca saberemos. E é bom assim. Cada um faz a sua aposta e tem a sua resposta – e todas são válidas.

The Grey teria custado US$ 25 milhões. Não é uma cifra desprezível, mas podemos dizer que os recursos foram bem gastos – levando em conta as condições e locais em que o filme foi rodado. Para a minha satisfação, esta produção não apenas se pagou, mas está dando lucro. Até o dia 25 de março, o filme tinha faturado pouco mais de US$ 51,3 milhões apenas nos Estados Unidos. Vida longa para ele, pois.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme. Eles garantiram a nota 7,1 para The Grey – bela avaliação, para os padrões do site, e especialmente porque este não é um filme para “grandes públicos”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes também aprovaram a produção, dedicando a ela 135 textos positivos e 37 negativos – o que lhe garante uma aprovação de 78% e uma nota média 6,8. Achei a nota dos críticos um pouco baixa, mas paciência.

The Grey estreou nos Estados Unidos em um circuito fechado no dia 11 de dezembro, mas entrou em cartaz pra valer em seis países no final de janeiro. Até o momento, o filme foi indicado apenas a um prêmio, o de melhor filme de terror/thriller na premiação da Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos Estados Unidos.

Este é o sétimo trabalho do diretor Joe Carnahan. Antes ele dirigiu a Narc, Smokin’ Aces e The A-Team.

CONCLUSÃO: Você tem as piores condições possíveis e imagináveis para seguir vivo e, ainda assim, você continua seguindo. Isso porque, não muito tempo antes, você tinha pensado em desistir de tudo. The Grey fala da força da natureza, e do esforço do homem em tentar controlá-la, superar os seus próprios limites e tudo o mais que vem ao seu encontro. O homem também é feito de instinto, e desta vontade incontrolável para seguir vivo. The Grey trata destas forças e desejos, assim como faz um resgate interessante de um grupo de homens que, normalmente, não aparece no centro de uma história de Hollywood. Mais um grande trabalho de Liam Neeson, e de um diretor que não pensa duas vezes em se arriscar em uma história selvagem e dura. Bela surpresa – especialmente se você gosta de filmes diretos e que não buscam uma solução simples para realidades complicadas.

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Chloe – O Preço da Traição

Um filme envolvente, provocante, ousado e, até certo ponto, atrativo. Chloe joga com as palavras e a imagem de forma exata, bem calculada, mas sofre da síndrome de muitas outras produções: derrapa em saídas pouco convincentes perto do final. E o pior: de maneira ligeira e um bocado descuidada. Ainda assim, não deixa de ser um filme interessante por conseguir mexer com certa criatividade em temas como a fidelidade no casamento, crise matrimonial, desejos “proibidos”, bissexualidade e, claro, a libido. Mais conhecido por apresentar uma cena ousada entre as atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried, Chloe tem a sorte de contar com uma direção ajustada e com atores afinados, ainda que seu roteiro deixe a desejar e culmine em um final deplorável.

A HISTÓRIA: Uma garota seminua, de costas para o espectador, sentada em uma cadeira, começa a se vestir. De frente para um espelho envelhecido, ela não parece ter nenhuma pressa. Essa garota começa a dizer que, em sua profissão, as palavras são tão importantes quanto seus atos. Seus gestos lentos, enfocados pela câmera, revelam tanto juventude quanto beleza. Garota de programa, Chloe (Amanda Seyfried) está acostumada a se moldar para cair nos gostos e fantasias de seus clientes. Observada de forma displicente pela médica Catherine Stewart (Julianne Moore), Chloe logo será contratada para colocar à prova a fidelidade do marido de Catherine, o professor universitário David (Liam Neeson).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chloe): A primeira idéia vendida por este filme é que as aparências enganam. E que frases de efeito podem cair no colo do espectador a qualquer momento. Logo nas primeiras linhas, a protagonista nos fala sobre a força das palavras para seduzir. E serão elas, assim como a atuação de uma perspicaz Amanda Seyfried, que irão mexer com a libido do espectador por boa parte desta história.

Achei curiosas as “apresentações” das duas personagens principais de Chloe. Depois daquela introdução sobre o uso das “palavras” para seduzir, ouvimos Julianne Moore, no papel da ginecologista Catherine Stewart, ensinar que o “orgasmo é apenas uma série de contrações musculares”. Sim, o sexo, o desejo, o prazer e a libido são os temas principais desta história. Ainda que a frase dita por Catherine pareça um tanto “deslocada” – assim como várias outras do roteiro -, sem dúvida ela está ali por uma razão: para justificar a idéia central desta história. Por que, por mais que Chloe pareça um filme ousado, na verdade ele é bastante conservador.

O casal Catherine e David vivem uma típica história de crise conjugal. Sua relação, todos os minutos do filme insistem em reafirmar, esfriou. A forma com que este esfriamento é abordado chega a ser exagerada. Afinal, por mais que eles estejam em um momento glacial, difícil acreditar que não haveria momento algum de aproximação entre eles. Mas ok, tudo deve ser potencializado para que o roteiro de Erin Cressilda Wilson, baseado no texto original de Anne Fontaine para o filme francês Nathalie… (de 2003, estrelado por Emmanuelle Béart e Gérard Depardieu), possa caminhar em terrenos “confortáveis” e extremistas. Segundo Hollywood, um filme bom é aquele que não cria muitas dúvidas na cabeça do espectador.

A era glacial para os Stewart tem a ver com a dificuldade que ambos tem em lidar com o filho adolescente Michael (Max Thieriot). Freud e outros psicanalistas explicariam bem a relação vista na telona envolvendo pai, mãe e filho. Mas deixemos as observações psicológicas para lá desta vez – até porque a idéia de atração/repulsa entre mãe e filho praticamente não é explorada por esta história. O que realmente interessa é a insegurança de Catherine em relação ao marido e o que ela resolve fazer para “resolver” essa angústia crescente alimentada pelas dúvidas da infidelidade.

Por grande parte do filme, a forma com que se desenvolve a aproximação de Chloe de Catherine e, depois, de David, prende e excita o espectador. O uso das palavras é fundamental neste processo – tanto que os momentos em que os atos deixam de ser “narrados” para serem “mostrados” tornam o filme um pouco menos interessante. Como quando lemos um livro, a força da imaginação ao escutar as histórias de Chloe as torna muito mais interessantes do que a visualização pura e “simples” do que está “acontecendo”.

Enquanto Catherine sofre com a indiferença do marido e com as dúvidas cada vez maiores sobre se ela está sendo traída, Michael desafia a autoridade da mãe. Catherine, em outras palavras, parece estar na pior fase da sua vida – se sente rejeitada, desprezada, um verdadeiro lixo que esqueceram de colocar para o caminhão levar. Chloe, muito inteligente, cuida para que o primeiro contato que as duas vão ter, pessoalmente, seja feito de maneira que elas se “reconheçam”. Mesmo com todas as diferenças que as separam, o encontro delas no banheiro revela duas mulheres “tristes” e “desprezadas pelos homens”.

Julianne Moore convence como uma mulher naturalmente direta que, ao sentir-se estranhamente insegura, revela medo e insegurança na hora de contratar uma garota de programa para testar o marido. Amanda Seyfried, por sua vez, rouba a cena como uma garota experiente e conhecedora do “gênero humano” na mesma medida em que sabe destilar “inocência” e vulnerabilidade sempre que necessário. Em outras palavras, ela está perfeita. Até certo ponto, Chloe faz lembrar a The Girlfriend Experience, de Steven Soderbergh – pelo menos no quesito de mostrar um pouco da vida “real” de uma garota de programa.

Assim o filme segue bem no caminho de provocar e instigar o espectador. Nos conduz a todos pelas mãos em um caminho um tanto óbvio e convincente – quer dizer, até que a “racional” Catherine resolve dar o “troco” no marido “traidor” justamente com Chloe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo que mulheres com o orgulho ferido, muitas vezes, resolvem partir para o revide puro e simples. Mas a forma com que Catherine decide dividir uma cama com Chloe, digamos assim, ficou um tanto quanto forçada demais. Mas ok, talvez ela quisesse realmente experimentar uma via diferente, mais do que simplesmente “dar o troco” para o maridão. De qualquer forma, a sequência entre as duas ficou realmente quente. Depois deste ponto, contudo, o filme resolve adotar uma política de reviravoltas seguidas que acabam por decepcionar, muito mais que por surpreender, o espectador.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim não foi surpresa alguma a descoberta de que David, na verdade, era fiel. E que todas aquelas histórias de Chloe eram mentira. Até aí, tudo bem. Ainda que a forma com que a história foi contada para que a desconfiança sobre ele fosse potencializada já demonstrava um bocado de exagero e certa “forçada” de barra – desnecessário, vamos combinar. Um pouco mais de sutileza e “dúvida” teria feito bem ao filme. Mas o pior mesmo foi a justificativa para as mentiras de Chloe. Perto do final, tudo o que ela fez fica resumido a uma obsessão da garota por Catherine. Obsessão essa bastante difícil de acreditar – ou, em outras palavras, pouco sugerida pela história.

Vejamos: quem observava quem, antes do primeiro encontro entre as duas? Aparentemente, Catherine estava ciente da existência de Chloe, mas não o contrário – pelo menos o filme não mostra isso em parte alguma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então Chloe é destas garotas que se “apaixonam” à primeira vista e que, rapidamente, ficam obcecadas. Vocês acreditam nisso, de verdade? Porque então não sei como ela sobreviveu tanto tempo… afinal, pela quantidade de pessoas que ela conhecia cotidianamente, por causa de sua profissão, ela deveria se apaixonar perdidamente com bastante frequência. E virar uma louca obcecada, manipuladora e extremista rapidamente. Não, acho bem difícil acreditar em uma história assim. Essa “descambada” no final, transformando toda a atração e interesse de Chloe por Catherine em “loucura” e obsessão, estragam o filme. Sem contar a sua escolha por “reviravoltas” repentinas e pouco convincentes, assim como um final “trágico” bastante dispensável (e, mais uma vez, pouco crível). Uma verdadeira pena.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chloe é dirigido por Atom Egoyan, o egípcio com moral no Exterior que filmou, anteriormente, a produções premiadas como Adoration, Ararat, entre outras. Ele faz um trabalho interessante, mais uma vez, especialmente em seu cuidado com os detalhes e, a todo o momento, em exprimir ao máximo o encantamento e a sensualidade das atrizes principais. Ainda assim, faltou um pouco mais de aposta no “sex appeal” do ator Liam Neeson. Ainda que para muitas ele possa parecer sempre atraente, em Chloe, definitivamente, ele não tem seus “predicados” tão explorados quanto os das atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried. E o jovem Max Thieriot, coitado… fica léguas distante do conceito de alguém provocador da libido alheia.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Paul Sarossy, antigo colaborador de Egoyan. Ele faz um trabalho limpo, bastante claro, que ressalta a luminosidade e a beleza dos protagonistas. A trilha sonora assinada por Mychael Danna, por outro lado, peca por estar, quase todo o tempo, um tom acima do ideal. Em vários trechos do filme ela chega a cansar pelo exagero.

No quesito bilheteria, Chloe foi um fracasso. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 11 milhões, arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3 milhões até o dia 30 de maio. Pouco mais de um quarto do que deveria para, pelo menos, se pagar. Muito ruim.

Na opinião do público e da crítica o filme também não foi bem. Os usuários do site IMDb que, normalmente, são bastante generosos, deram a nota 6,6 para Chloe. Os críticos que tem seus textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram ainda mais duros com a produção: dedicaram 67 críticas positivas e 60 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 53% – e uma nota média de 5,8.

Chloe estreou em setembro de 2009 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, passou pelos festivais de San Sebastian, Vancouver, Santa Barbara, entre outros. Mas, como é meio óbvio, não ganhou prêmio em lugar algum.

Falando em Toronto, esta produção foi toda filmada naquela cidade canadense.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, Chloe poderia ser classificado como “lixo artístico”. Lacey escreveu: “Este é um thriller erótico com tons fortes, criado com estilo e algumas cenas emocionalmente cruas, visando um efeito que é agradavelmente enervante, para não dizer totalmente excitante”. Importante as observações que o crítico faz sobre o trabalho de Egoyan, afirmando que este é o seu projeto mais comercial até o momento, assim como o primeiro filme que ele dirige sem que tenha um roteiro seu como guia.

Achei interessante quando o crítico afirma que Catherine é um “tipo diferente de profissional do sexo” – após referir-se a Chloe como a “profissional” clássica do gênero. Realmente, as duas personagens lidam com o sexo de maneira profissional – ainda que, claro está, utilizando conhecimentos e “ferramentas” muito diferentes para ganhar dinheiro. Achei interessante como Lacey resume a primeira metade do filme, afirmando que a “crueza emocional” de Julianne Moore, assim como o “enigma” da personagem de Chloe seguram bem a história, tornando-a crível. Ele afirma que a “empatia e a tensão” sentidas pelo espectador fazem com que a gente se pergunte se estamos frente a um filme como The Girlfriend Experince ou Fatal Attraction. Boa! 🙂 O crítico finaliza – e acredito que toda a torcida de futebol do mundo deve concordar – dizendo que para um filme “tão inteligente” (pelo menos até a metade), Chloe tem um final muito ruim. Lacey disse que esperava mais do filme e da personagem de Chloe – aos quais chama, categoricamente, de “charlatões”.

Neste texto, o crítico Bill Goodykoontz, do The Arizona Republic, comenta que o filme se mostra interessante durante três quartos de sua duração, mas que no final, ele descamba em direção a um estilo de Fatal Attraction. Ele ressalta o talento e o trabalho das atrizes principais, assim como a escolha do diretor por filmar uma cena, pelo menos, com bastante carga erótica. Para Goodykoontz, a culpa e a confusão que resultam daquela cena são sentidas como verdadeiras por causa do trabalho do diretor e das atrizes. O crítico comenta que o ator Liam Neeson faz pouco em cena – mas lembra que, justamente quando estava filmando Chloe, ele perdeu a esposa, a também atriz Natasha Richardson, em um acidente. No final, Goodykoontz afirma que o problema mesmo foi a história, que terminou de uma forma ridícula.

Encerrando a lista de citações de outros críticos, destaco este texto de David Edelstein, da New York Magazine. Antes de mais nada, gostei do título do artigo dele: “Are you kidding me?!” (ou seja, “Você está brincando comigo?!”, que eu acho que é a pergunta que todos se fazem com o final do filme, hehehehehehehe). Edelstein começa escrevendo: “Poucos filmes se desenvolvem de forma tão obviamente e desconcertadamente errada quanto Chloe, ainda que sua primeira hora seja um potente melodrama em que uma boa, super controlada narração contenha o tema da obsessão incontrolável como uma camisa de força”.

O texto de Edelstein é realmente muito bom – eu recomendo sua leitura. O crítico adentra nas carências e “sentimentos” dos personagens, destacando os contrastes apresentados pela história. Ele ressalta, por exemplo, o talento do diretor Egoyan para “mediar” os seus personagens, ressaltando sempre as formas nas quais eles são enquadrados e, assim, revelar como cada pessoa está isolada uma da outra e do “mundo sem alma moderno”. Como o crítico muito bem observa, Egoyan é um especialista em pessoas e seus isolamentos, mas é menos “seguro de si” quando tem que tratar da forma com que elas se conectam. Isso fica transparente neste filme.

CONCLUSÃO: Um filme menor do que ele poderia ser. Chloe se aprofunda nos desejos humanos, na sexualidade mutante (para alguns) e, especialmente, nos ciúmes e na crise conjugal de um casal, mas acaba descambando para soluções difíceis de acreditar. Provavelmente ele irá provocar indignação em nove a cada dez espectadores. Por isso, se você quiser se arriscar a vê-lo, esteja preparado(a) para um desenrolar de história provocativo, fundado no bom uso de palavras, mas que termina em um baile de “surpresas” que apenas decepcionam. Também é importante dizer que esta produção tem pelo menos uma cena de sexo “ousada” envolvendo as protagonistas. No mais, é um filme bem dirigido e que acerta a mão ao dar o devido valor para as palavras nos jogos de sedução. Assim como uma produção com duas interpretações femininas precisas. Algum acerto ele tem – apesar do final ridículo e decepcionante.

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Five Minutes of Heaven – Rastros de Justiça

O desvio de jovens para causas assassinas é o mote principal de Five Minutes of Heaven, novo filme o diretor alemão Oliver Hirschbiegel – responsável anteriormente por The Invasion e pelo premiado Der Untergang, entre outros. Estrelado por Liam Neeson e pelo surpreendente James Nesbitt, este drama resgata o ambiente vivido por católicos e protestantes na Irlanda do Norte em meados da década de 70.

Escrito de uma maneira bastante interessante, Five Minutes of Heaven conta uma história ficcional que poderia muito bem ser aplicada a Irlanda do Norte e em outros tantos conflitos – inclusive para os morros do Rio de Janeiro. Bem dirigido, com atuações de tirar o fôlego e um roteiro inteligente, é um destes filmes-libelo contra a violência como forma de resolver problemas de convivência. Uma lição sobre o perigo que atos pouco pensados, na adolescência, podem causar na vida de famílias e comunidades inteiras.

A HISTÓRIA: Na cidade de Lurgan, na Irlanda do Norte de outubro de 1975, o jovem Alistair Little (Mark David) prepara-se para dar o mais importante passo da sua vida e, com ele, “tornar-se um homem”. Em busca de respeito entre os “sujeitos importantes” da comunidade protestante local, ele toma fôlego para sair de casa e, na companhia de três amigos, ser o responsável do crime “da vez”.

Integrante do UVF (Força de Voluntários de Ulster) aos 15 anos de idade, Alistair Little vai atacar um comerciante católico que, aparentemente, rivaliza com um membro da comunidade protestante da qual ele faz parte. Desta forma Alistair atira no irmão de Joe Griffen (Kevin O’Neill), que assiste a tudo atônito. Vinte e cinco anos depois deste crime, Alistair Little (Liam Neeson) e Joe Griffen (James Nesbitt) participam de um programa de reconciliação que procura colocá-los cara-a-cara pela primeira vez desde aquela fatídica noite de 1975.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Five Minutes of Heaven): Esta produção com cara de independente dirigida por Oliver Hirschbiegel não faz concessões. Ela não tenta simplificar o papel de vítima e de vilão e nem busca uma solução rápida para os dilemas e para as cicatrizes provenientes de um crime como é aquele mostrado pela história.

O grande mérito por tornar este filme interessante e angustiante do início ao fim é, sem dúvida, do texto do roteirista Guy Hibbert e, para sustentá-lo, as interpretações de seus protagonistas.

A direção de Oliver Hirschbiegel é competente e consegue retratar bastante bem o ritmo, as épocas e a angústia dos personagens desta história. Mas a inovação nesta produção passa pelo texto de Hibbert. O roteirista não apresenta um vilão que pode ser confundido com alguém que foi apenas manipulado – ainda que ele tenha sido, um pouco.

Alistair Little é um assassino que sabia bem (aparentemente) o que estava fazendo e que tinha suas motivações egoístas. O que, no futuro, não impediu que ele chegasse a conclusão de que foi vítima de um período, de um grupo, o que fez ele entender a dimensão exata de seu ato criminoso.

O caminho fácil, para qualquer outro filme, seria o de Little se transformar em “mocinho”, em um sujeito arrependido e que merece perdão – mas não é exatamente isso que acontece em Five Minutes of Heaven.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele desperte uma certa piedade porque, afinal, Little também se mostra uma pessoa presa ao passado na mesma medida – ou quase – que sua vítima indireta, Joe Griffen, sua culpa não desaparece como mágica quando ele passa a ser o alvo da vez. Até porque a “troca de papéis” entre os dois, ou seja, quando Griffen decide matar Little, não coloca os dois no mesmo patamar.

Desequilibrado, Griffen provoca piedade mesmo nas sequências de maior descontrole. Isso porque ele é produto de uma vida de ressentimento. Mas aí reside o texto bem escrito de Hibbert que, mesmo deixando claro que Griffen é uma vítima, não tira dele a responsabilidade por cada um de seus atos – e deixa clara uma violência patente em seu comportamento que nos deixa incômodos e temerosos pelo que pode acontecer. Afinal, a decisão dele sobre o que fazer com Little é o que vai definir o futuro deles e de muitas outras pessoas.

Talvez esta seja uma das grandes lições de Five Minutes of Heaven. A de que é um grande engano pensar que o assassinato de uma pessoa significa apenas um crime, contabiliza somente uma vítima. Não. O texto Hibbert deixa claro que toda a estrutura familiar e, em alguma medida, a estrutura de uma comunidade ficam abaladas por um ato criminoso.

E uma outra mensagem, fundamental, é dita pelo personagem de Liam Neeson: todos devem ser responsáveis por evitar que um jovem se “aliste” a um movimento criminoso – seja ele o IRA, o UVF, o ETA ou o grupo de traficantes que domina a comunidade local.

Achei bacana e importante esta mensagem, porque o centro da questão é este, dar oportunidades e ensinar conceitos morais básicos que impeçam os jovens de cair no tentador caminho do crime – onde eles podem se sentir como verdadeiros rockstars, muitas vezes, como foi o caso de Little.

O curioso deste filme é que ele, por sua dinâmica tradicional – narrativa linear, com pequenos cortes que dão espaço para flashbacks – não surpreende na forma, mas no conteúdo. Não é muito frequente encontrar produções que mexam tão claramente em algumas feridas. Também gostei do fato de Five Minutes of Heaven, desta vez, não mostrar os “assassinos” do ETA.

Ele conta a história do “outro lado” daquela mesma moeda, ou seja, de um grupo de protestantes que queria continuar vendo a Irlanda do Norte atrelada à Inglaterra e que, para isso, praticava atentados terroristas e assassinatos quase na mesma medida de seus opositores. Um bom filme, com mensagens importantes, ainda que parece que lhe falta um pouco mais de “humanidade” – ou, visto de outro ângulo, um pouco menos de frieza.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para o alívio de muita gente – especialmente de quem vive naquele país ao norte da Irlanda -, o IRA declarou o fim da luta armada em 2005. Mas, mais que isso, a Irlanda do Norte deu uma lição ao mundo inteiro ao promover, nos últimos anos, um governo de coalização entre católicos e protestantes – ou entre os que procuravam a independência ou a permanência do país em relação à Inglaterra.

Para quem quiser saber mais sobre este tema, recomendo a leitura deste texto da Veja, que traça, em linhas gerais, o que aconteceu naquele país desde o século XII; e deste texto assinado pelo major John Clark, do Exército Britânico (que, por isto mesmo, deve ser lido com o devido olhar crítico), que explica de forma mais detalhada a questão da anistia, da reconciliação e da reintegração promovida na Irlanda.

Muito interessante o exemplo daquele país – e que deveria servir de farol para outros conflitos que envolvem invasões e religião, como o caso de palestinos e israelenses (guardadas as devidas proporções, é claro) ou mesmo dos bascos do ETA.

Ainda que se trate de uma ficção, Five Minutes of Heaven deixa claro, logo nas informações que disponibiliza em seu início, que aquela história trata de questões de um conflito real. Conflito este que, segundo o filme, teria matado aproximadamente 3.720 pessoas.

No texto do Major John Clark que eu sugeri há pouco, é possível encontrar alguma informação sobre o grupo paramilitar UVF. Mas não encontramos nada a respeito da citada Tartan Gangs, onde o personagem de Alistair Little teria dado os “primeiros passos” em suas intenções criminosas aos 14 anos. Neste texto (em inglês) é possível saber um pouco mais sobre a Tartan Gangs – procure na seção de Ulsters Young Militants.

Outra curiosidade deste filme é que ele não tenta “glorificar” um criminoso que, atualmente, é respeitado, mas que anteriormente cumpriu 12 anos de sua pena. Ou seja: ele pagou pelo seu crime. Ainda assim, e diferente do que Joe Griffen imagina, o vilão desta história vive uma vida bastante miserável.

Ainda que seja um consultor internacional que tem suas opiniões escutadas por líderes mundiais e figuras proeminentes da sociedade, Alistair Little parece viver nas sombras. Na lembrança – e culpa – de um ato que praticou há 25 anos. Ele não busca – e nem deseja – o perdão. Quer apenas que Griffen viva a sua vida, caminhe para a frente e, desta forma, permita que ele mesmo possa se despedir do passado. Nada será esquecido ou perdoado.

Apenas o peso de ter uma outra pessoa vivendo em dor por algo que você fez será amortizado. Five Minutes of Heaven, por este ponto e todos os outros comentados anteriormente, se revela um filme interessante e diferente da média.

Um ponto que não comentei antes, mas que é importante para o filme, é o que trata do programa de reconciliação dos quais acabam fazendo parte Little e Griffen. Achei curioso todo o aparato e a “espetacularização” montada para tal acontecimento, sem a devida preocupação com a segurança de um evento desta natureza.

Neste ponto, o filme questiona o papel da mída, mais especificamente o de alguns canais de televisão, em promover eventos importantes sem o devido cuidado ou, em outras palavras, de maneira pouco responsável. Algo interessante para pensar – o papel da televisão e da mídia em geral em conseguir audiência a qualquer custo, sem preocupar-se, muitas vezes, com os efeitos de seus atos e/ou programas.

Além dos atores já citados, merece um comentário à parte a aparição da ótima atriz Anamaria Marinca como Vika, a garota “pau-para-toda-obra” que acaba se aproximando de Griffen e Little durante a fase de pré-produção do programa de reconciliação do qual eles decidiram participar. Seus comentários, especialmente com Griffen, foram decisivos para o desfecho daquele programa.

Ainda que seu papel seja pequeno para o contexto do filme, a atriz se saiu muito bem. Outras pessoas que merecem ser citadas: Juliet Crawford como Cathy, a esposa de Joe Griffen e mãe de suas duas filhas; Gerard Jordan como Jim, a vítima direta de Little; Matthew McElhinney como Stuart, o amigo de Little que providenciou as máscaras e a roupa utilizada durante o crime; Diarmuid Noyes como Andy, o amigo que dirige o carro no dia do assassinato; Conor MacNeill como Dave, o outro comparsa de Little; e Paula McFetridge como a mãe de Joe.

Na parte técnica do filme, destaque para o trabalho correto do diretor de fotografia Ruairi O’Brien. Ele conseguiu, na medida certa, utilizar um jogo de lentes adequado para diferenciar muito bem a Irlanda do Norte da década de 1970 daquela que pode ser vista atualmente.

Five Minutes of Heaven estreou no Festival de Sundance no dia 19 de janeiro deste ano. Até o momento, o filme concorreu a três prêmios – e ganhou dois deles: os de melhor diretor na categoria “World Cinema – Drama” e o de melhor roteiro na categoria “World Cinema”, ambos no Festival de Sundance. Five Minutes of Heaven concorria também como melhor filme, mas perdeu o prêmio para a produção chilena/mexicana La Nana.

Esta produção inglesa praticamente não teve nenhuma divulgação ou mesmo a confirmação de estréia nos diferentes mercados internacionais. Ainda assim, ela conseguiu uma boa nota no site IMDb: 7,2. O Rotten Tomatoes, outro termômetro de críticas para um filme, abriga links para apenas três textos sobre Five Minutes of Heaven – todos positivos.

Entre os textos linkados pelo Rotten Tomatoes, está este (em inglês) do crítico Dennis Harvey, da revista Variety. Harvey destaca a mudança de rumo do diretor Oliver Hirschbiegel, que desta vez dirigiu um filme intimista centrado em dois personagens.

Harvey destacou a interpretação potente dos protagonistas e o “excelente roteiro” de Guy Hibbert, lapidado após três anos de entrevistas com os que seriam os “personagens reais” desta história, ou seja, os homens que inspiraram a criação de Little e Griffen.

Os tais “cinco minutos no Paraíso” não estavam totalmente claros para mim. Inclusive busquei alguma fonte “religiosa” para esta idéia. Mas a verdade é que o homem que inspirou o personagem de Griffen acreditou, por muito tempo, que conseguiria pelo menos cinco minutos no Paraíso se conseguisse vingar a morte de seu irmão. Se alguém souber de alguma fonte que teria inspirado esta idéia para aquele homem, eu agradeço.

Para os interessados nos conflitos que ocorreram na Irlanda do Norte, recomendo outros dois filmes: o excelente In The Name of the Father, dirido por Jim Sheridan e estrelado por Daniel Day-Lewis; e o “politizado” e interessante Bloody Sunday, curiosamente estrelado por James Nesbitt, e com direção de Paul Greengrass.

CONCLUSÃO: Um filme limpo, sem efeitos especiais ou grandes mudanças narrativas, que discute os conflitos de uma sociedade enfocando os efeitos que eles podem ter na vida de dois homens. O destaque desta produção acaba ficando – de maneira proposital – para o trabalho dos atores e para o texto do roteiro.

Diferente de outras produções ambientadas na Irlanda do Norte em conflito, Five Minutes of Heaven evita contar a história de algum integrante do IRA e destaca, praticamente de maneira inédita, ações de um de seus grupos oposicionistas. Mas o interessante do filme é que ele não pretende validar nenhuma ação terrorista. Pelo contrário. Ele deixa muito claro que qualquer crime, seja de um lado ou de outro, seja motivado por questões políticas, religiosas ou econômicas, não leva a nada.

Apenas a mais crimes. E que os jovens, iludidos por falsos sentimentos de “reconhecimento” ou de pertencer a determinados grupos, servem apenas como “bala de canhão” – igualmente desejáveis e descartáveis. Uma bela história, com atuações impressionantes – especialmente de James Nesbitt e Liam Neeson – e uma direção bastante técnica (e nada fora do comum). Indicado para quem gosta de refletir sobre origens e efeitos da violência e de alguns conflitos conhecidos.