Transsiberian – Expresso Transiberiano


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Transsiberian é um daqueles filmes que eu queria assistir há tempos… ontem, finalmente, tomei coragem e deixei todos os outros filmes da sequência esperando para assistí-lo. E gostei do que vi, ainda que algumas coisas parecem não ter funcionado nesta história. Mas algo bacana no filme, além do roteiro e da direção (geral e de fotografia), foi a atuação do elenco. Todos muito bem – exceto por um ou outro que apenas confirmam a regra. Uma história de suspense destas que começa de um jeito e termina de uma maneira totalmente diferente do esperado. Quer dizer… lá pelas tantas, até você adivinha um pouco qual será o local em que a carruagem vai parar, mas até chegar no fim da linha, o roteiro do diretor Brad Anderson com Will Conroy vai dando várias voltas e mudando um bocado de direção. Um bom passatempo, especialmente para quem curte histórias de suspense em um ambiente como é o da viagem em um trem.

A HISTÓRIA: O casal Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) decidem sair do cotidiano de suas vidas confortáveis nos Estados Unidos para se lançarem em um projeto de ajuda humanitária na China. Involucrados nesta ação através da Igreja na qual frequentam, eles buscam, indiretamente, resolver os problemas que começam a atrapalhar sua união. Na volta para casa, eles resolvem viajar pela famosa linha transiberiana, que percorre parte da China, da Rússia e que chega até o “mar do Japão” – uma verdadeira aventura. O que seria uma viagem curiosa se torna um tanto complicada com a chegada de outro casal, Carlos (Eduardo Noriega) e Abby (Kate Mara), que parecem estar escondendo algum segredo importante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Transsiberian): Os russos são uns sujeitos maus. E os americanos, meio bocós. Essa é a dicotomia que resumiu por muito tempo a visão “estigmatizada” geral sobre as pessoas que integravam os países da antiga Guerra Fria. Transsiberian reproduz este estigma ao contar a história de um casal de estadunidenses um bocado “inocentes” que acabam caindo em duas ciladas em uma mesma viagem. Primeiro, ao se envolverem com um casal suspeito que divide a cabine do trem com eles. Depois, aos se enfiarem em um problema muito maior quando Jessie insiste em mentir para o investigador policial Grinko (Ben Kingsley). Mentir para um policial qualquer já é burrice, pior ainda quando se tratam de russos, não é mesmo? 😉

O que eu achei interessante do filme, além de alguns momentos de “não-sei-o-que-vai-acontecer-agora”, é a idéia de que nada é perfeito no reino da Dinamarca. Ou melhor dizendo, que quando retiramos o verniz que embeleza todas as relações humanas, existem muitos problemas embaixo da superfície. Então o lindo casal de altruístas Roy e Jessie guarda para si uma série de problemas para resolver, incluindo a dúvida se devem seguir uma relação segura – e que parece asfixiar, em muitos momentos, a aventureira Jessie – ou de se lançarem para um mundo de possibilidades (inclusive sexuais) enquanto ainda há tempo. Outra questão do casal é a pergunta fundamental se os dois verdadeiramente confiam um no outro e no relacionamento que eles dizem ter. Por sua vez, Grinko não se mostra tão correto como os fãs de Ben Kingsley gostariam de acreditar, e o papel de “vilã/o” e “mocinha/o” na união de Carlos e Abby não é tão evidente quanto alguns poderiam supor.

Certo que as aparências enganam – aos que odeiam, e aos que amam, já cantava antigamente Elis Regina. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E certo também que, quando aparece em cena Carlos e Abby, todos nós sabemos que algo de muito ruim vai acontecer – provavelmente um homicídio. Mas juro que me surpreendi um pouco com a vítima da história – pelo menos a fatal, porque quase todos acabam sendo vítimas em um momento ou outro. Os russos pegam muito pesado – como praticamente todos os que se envolvem com o tráfico de drogas. e sobra tortura, ameaças e porrada para praticamente todos os lados. Aliás, o filme não explora muito o lado tenebroso do ser humano – exceto por uma sequência em todo o roteiro, a da tortura de Abby. No mais, ele deve passar como bem levinho para o gosto dos fãs do terror. Não adianta, Transsiberian é “apenas” um suspense.

Mas ele tem um bom ritmo. Ainda que clássico. Afinal, claramente acompanhamos a “apresentação dos personagens” e, depois, a “complicação” da trama, com a praticamente inevitável disputa sexual entre os casais, a hora em que a música anuncia um crime e o resultado de algumas decisões erradas dos protagonistas. Ainda que tenha uma ou outra surpresa, na verdade Transsiberian não está na lista de filmes ousados, isso porque ele segue uma linha clássica de suspense. Falando na música… a trilha sonora de Alfonso Vilallonga é bacana, mas anuncia demais as “surpresas” da história – que, claro, com aquela trilha de “agora-vai-acontecer-algo-trágico”, deixam de ser surpresas. Esse é um ponto negativo do filme, e que poderia ter sido evitado.

Outro fator que me incomodou um pouco foi o personagem de Kolzak, interpretado pelo ator Thomas Kretschmann. Coitado… ele acaba tendo o clássico desempenho “entro-mudo-e-saio-calado”. Certo que os roteiristas queriam vender a idéia de “russos maus”, mas podiam ter exagerado um pouco menos a dose com o personagemd e Kolzak, não? Para o meu gosto, Kretschmann poderia ter falado algumas frasesinhas mais. 😉

Falando em russos, achei bacana o filme mostrar um “pouco” da realidade decadente que tomou conta da Rússia e de outros países que faziam parte da antiga União Soviética depois que o grande oponente dos Estados Unidos se diluiu. Não conheço o país e nunca vi o que se passa ali in loco, mas as histórias que chegam por aqui realmente contam que o povo por lá passa por privações e apertos – e que seu passado foi marcado por muitos assassinatos motivados por razões políticas.

Mas vamos ser francos, Transsiberian não é um filme crítico ou com uma verve política. Ainda assim, indiretamente, ele dá suas pitadas de visão crítica um tanto ácida. Vejamos: mesmo sem deixar descarado, mas os roteiristas questionam um pouco o “altruísmo” das pessoas que se envolvem em projetos sociais e de ajuda humanitária em comunidades “desfavorecidas” mundo afora. Os protagonistas Roy e Jessie – mais ela do que ele, na verdade – são motivados essencialmente por um desejo de participarem juntos de algo que nunca fizeram para, quem sabe com isso, voltarem aquele sentimento de que eles são um casal. Ao mesmo tempo, eles fazem um papel de “típicos estadunidenses”, um tanto “frouxos”, bobos – especialmente Roy – e deslumbrados. Uma crítica ao padrão de ignorância norte-americano, certamente. Mas existe também disparos contra os russos, afinal, segundo o filme, eles são brutos, frios, corruptos, e só conseguem resolver os seus problemas com uma certa violência. Tirando esses detalhes, o filme é uma história de ciladas do destino, de crimes – incluindo homicídios e tráfico de drogas – e de uma aventura pouco planejada que quase termina mal para os “inocentes turistas” estadunidenses.

Ainda que não seja nenhum grande achado do cinema, Transsiberian se mostra um filme competente, bem dirigido por Anderson, com um bom ritmo de roteiro e atuações convincentes. A fotografia de Xavi Giménez também impressiona, especialmente por mostrar, com uma certa paciência – mas sem que isso fique evidente, o que é o mais difícil -, parte da paisagem e das pessoas que compõe a rota da ferrovia transiberiana. O importante é que os pequenos defeitos do filme não atrapalham o conjunto da obra.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curioso que Transsiberian é uma co-produção do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da Lituânia. Me chamou a atenção este fato porque, afinal de contas, o elenco é formado basicamente por figuras conhecidas no cenário de Hollywood e o diretor e roteirista Brad Anderson é estadunidense… ou seja, tudo levava a crer que era uma produção hollywoodiana. Ledo engano.

Falando no diretor, é importante citar que ele tem um bocado de experiência, aos 45 anos de idade, com filmes para o cinema e na direção de episódios de séries televisivas como Fringe e The Wire. O filme anterior dele foi El Maquinista, uma produção bastante elogiada com Christian Bale.

Eu gosto do espanhol Eduardo Noriega, mas achei que o papel de “conquistador latino” ficou muito pobre para o ator. Por outro lado, gostei bastante da “complexidade” das personagem de Emily Mortimer – para mim, o principal nome do filme – e da “simplicidade” enganosa do papel vivenciado pela atriz Kate Mara (que tem bastante potencial para despontar no cinema em breve).

Em sua trajetória, Transsiberian foi indicado a 10 prêmios e ganhou outros dois. Os que venceu foram dados “em casa”, no Prêmio Gaudí, onde foram premiados os espanhóis Alain Bainée (pela direção de arte) e Jaume Martí (pela edição).

Segundo as notas de produção do filme, ele foi rodado na China, na Lituânia e na Espanha. E um dado curioso sobre o diretor Brad Anderson: atualmente ele estaria trabalhando em dois projetos, um suspense “paranóico” chamado Lucid e um musical com o sugestivo título Non Stop to Brazil. O que será que virá deste último? Que meda! 😉

Transsiberian conseguiu um feito não muito comum: dividir radicalmente público e crítica. Isso pode ser um pouco medido através do desempenho que a produção teve nas votações dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. No primeiro, em que pode votar qualquer pessoa cadastrada no site – por isso vejo ele sempre como uma medida do “gosto popular”, do público em geral -, o filme conseguiu a nota 6,9. Um pouco baixa, para meu gosto. Mas no segundo site, especializado em abrigar textos de críticos que tem uma certa relevância no cenário internacional, o filme foi alvo de 65 críticas positivas e apenas sete negativas, o que lhe garante uma aprovação de 90%. Bela diferença, não?

Mas se esta produção caiu no gosto da crítica, seu desempenho nas bilheterias também demonstra como faltou para Transsiberian cair no gosto do público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 15 milhões, faturou nos Estados Unidos pouco mais de US$ 2,2 milhões – não tenho os números na Europa, mas pelo visto ele foi bem fraquinho no cômputo geral.

CONCLUSÃO: Um suspense no melhor estilo road movie – mas com um trem como cenário – em que as aparências se mostram bastante enganosas. Forjado por um bom ritmo narrativo e com algumas “surpresas” interessantes no meio do caminho, Transsiberian demonstra que pode ser visto como um competente passatempo. Mostrando cenários tão diferentes como os que emolduram parte da rota de trem transiberiana, ele confronta “estilos de vida” tão diferentes como podem ser os estereótipos dos estadunidenses e dos russos, em uma história de homicídios e tráfico de drogas. Bacana, bem feito e nada revolucionário – e quem disse que os filmes precisam ser assim? Alguns até podem, mas a maioria já faria um grande favor sendo apenas competente.

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6 comentários em “Transsiberian – Expresso Transiberiano

  1. Já tinha visto um outra produção com a Emily Mortimer, uma comédia meio dramática chamada “Lars and the Real Girl” e gostei muito da expressividade e carisma da moça.
    Também gostei do filme Ale, um suspense bem moderado, mas que consegue manter bem o foco, além de abordar temas políticos e sociais como bem cita.
    A única cena patética na minha opnião, foi a cena do crime de Carlos, onde o mesmo parecia uma criança indefeza apanhando de alguém visivelmente bem mais fraca do que ele.
    Bom filme.
    bjão ale

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  2. Oi Mangabeira!!

    A “moça” é realmente muito boa… bem carismática, como você mesmo disse. E esse filme, Lars and the Real Girl, já passou tantas vezes pelas minhas mãos… mas acabei não assistindo ele. Ouvi falar bem. O que achaste dele?

    O filme é bacana sim, mas não é nenhuma “Brastemp”, por assim dizer. E cenas patéticas, ele tem algumas… essa que você citou e, me desculpem dizer (SPOILER – melhor não ler se você não assistiu ao filme), mas o próprio final. Porque alguém vai me convencer que o casal um tanto “tapado” protagonista conseguiria fugir fácil daquela maneira dos russos – que, convenhamos, deram o maior mole. E pior… depois que Grinko ouve a descrição da igreja na qual Carlos “desaparece”, inclusive sabendo que eles chegaram até ela pegando um ônibus que passava perto do hotel, ele não foi capaz de identificá-la?? E olha que ainda ele viu fotos da tal igreja… me poupem!! Que tipo de investigador policial russo era aquele? Essa parte, em especial, achei bastante ridícula.

    No mais, o filme é bacana… hehehehehehehehe. Descontados todos estes “poréns”…

    Um abraço, um beijo grande e até logo mais.

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  3. pois é..é porém demais pra um filme…já to discordando da sua nota pra ele, he he he.

    Sim, o filme “Lars and the Real Girl” é ótimo. Se passar por ele de novo, veja.

    bjão

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  4. Oi Mangabeira!!

    Concordo contigo… são muitos poréns para um único filme. Por isso ele mereceu um 8,5 e, quem sabe, mereceria até um pouco menos.

    Pode deixar que já coloquei o Lars and the Real Girl na minha listinha outra vez. 😉

    Beijos grandes e até logo…

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  5. Olá!! Achei seu blog enquanto procurava uma sinopse do filme pela internet. Gostei do filme e achei a trama muito boa, de um estilo que já há muito tempo não via mais. Gostei do suspenses e da tensão. Eu já estive na Rússia e tive uma visão bem difernte desta daí, talvez por ter estado em cidades extremamente turísticas, como Moscou e St Petersburgo. Confesso que até nutria uma vontade de voltar e fazer a tão misteriosa viagem transsiberiana, mas depois deste filme, já desistí!! rsrs

    Voltando ao filme, se estou certa, o Carlos matou o homem do navio em Vladvostok, roubando a droga e o dinheiro, que no fim, acaba por cair em melhores mãos e permite à namorada readquirir a tão sonhada casa do lago que pertenceu ao seu avô em Vancouver -CA. O casal americano volta às boas e a mulher finalmente aprende a valorizar o marido, mesmo que ele aparente um bobalhão…

    Adorei!! 😉

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  6. Olá Fernanda!!

    Primeiramente, seja muito bem-vinda por aqui!

    Tens razão sobre Transsiberian resgatar um tipo de filme que fazia tempo que não aparecia. Isso é um de seus pontos fortes e do qual eu gostei desde o princípio. Há tempos não assistíamos a uma boa história de suspense em um trem, com um roteiro que lida com diferentes bandidos e o tema do tráfico.

    O filme tem vários acertos, concordo. Durante boa parte dele também senti esse clima de “suspense e tensão” que comentas. Mas o problema é o que acontece com o roteiro lá pelas tantas… eles conseguem, literalmente, estragar o filme.

    Mas não fique impressionada com o filme ao ponto de desistir do teu plano de viajar na linha transsiberiana. Manda ver! Como qualquer ficção, Transsiberian exagera na dose de “brincar” com algumas das idéias pré-concebidas que a maioria tem dos russos e, principalmente, desta longa viagem de trem.

    Bacana que tiveste uma experiência pela Rússia. Certamente encontraste, nestas duas grandes cidades, uma realidade muito diferente da que foi mostrada no filme. 😉

    Olha, sobre o dinheiro ter caído em melhores mãos no final… não estou tão certa disso. Na verdade, pelo meu ponto de vista, o roteiro dá a entender que a Abby não era tão inocente quanto gostaria de fazer todos acreditarem… O que eu entendi é que ela manipulou o Carlos, desde o princípio, para conseguir aquele dinheiro para ela. Mas ele foi, digamos assim, apenas um “instrumento”, um bonequinho neste plano dela. Também acho que a história da tal casa no lago talvez fosse apenas isso, uma história… ou ela nunca existiu ou, se existiu, nem fosse do avô da garota. Não sei, mas o final me fez entender que ela era uma grande manipuladora.

    Mas sim, o casal de americamos “volta às boas”… pelo menos até a Jessie pirar o cabeção novamente com o “palerma” do Roy. hehehehehehehe

    Fernanda, obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Esse blog só tem sentido com essa troca que fazemos.

    Um grande abraço e volte sempre.

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