[rec] – [REC]


rec3

Não é nada simples para um diretor que resolve se dedicar aos filmes de terror verdadeiramente surpreender ao seu público. O mais comum é que as novas produções do gênero garantam alguns sustos, alguma diversão, mas dificilmente alguém “reinventa a roda”. Afinal, quase tudo já foi explorado sobre os temas dos vampiros, zumbis e mortos-vivos, epidemias e demais assuntos que povoam o imaginário dos roteiristas e público dos filmes de terror. Mas, algumas vezes, aparece no mercado um filme excepcional sobre algum destes temas. O espanhol [rec] é um destes filmes.

A HISTÓRIA: A jornalista Ángela Vidal (Manuela Velasco) acompanha, junto com o cinegrafista Pablo (Pablo Rosso), um plantão noturno de um grupo de bombeiros de Barcelona. Simulando uma reportagem para a tevê sem edição com tudo o que ela tem direito, como podem ser erros de gravação, comentários entre os jornalistas e tudo o mais, o filme segue a idéia de “ficção realista/documental” explorada em outras produções. Desta forma, presenciamos desde o teste do vestuário dos bombeiros, feito por Ángela, até a rotina deles no jantar, nas brincadeiras na quadra de basquete, até que soa o alarme e os jornalistas saem junto aos bombeiros Manu (Ferran Terraza) e Álex (David Vert) para atender a um chamado. No local da ocorrência, um prédio residencial, eles se encontram com um grupo de vizinhos assustados por gritos de uma “velha louca” e, pouco depois, acabam ficando isolados sob um risco de surto epidemiológico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a [rec]): Fiquei impressionada com esta produção espanhola. Tinha ouvido falar muito bem do filme mas, ainda assim, a expectativa por ver algo bom não jogou contra a minha impressão final. Pelo contrário. Para mim, [rec] faz pelos filmes de zumbi/mortos-vivos o mesmo que Lat Den Rätte Komma In fez, em 2008, pelos filmes de vampiro. Em outras palavras, ele trouxe um frescor totalmente inesperado para o gênero.

Muitas pessoas, certamente, vão dizer que [rec] segue os mesmos passos que o filme The Blair Witch Project, lançado há exatos 10 anos. De fato, mas apenas em partes. Para começar, [rec] convence mais que o projeto original de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. Há momentos também de câmera tremida, falta de foco, registro de pés, chão e demais imagens “acidentais”, mas na maior parte do tempo [rec] nos mostra cenas que seriam, realmente, produto do trabalho de um cinegrafista profissional. Essa narrativa jornalística do que acontece é um dos grandes achados do filme e o que pode aproximá-lo muito mais do gosto popular do que o “amadorismo” extremo projetado por The Blair Witch Project. Mérito dos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza.

Outro grande acerto de [rec] é o roteiro elaborado pelos dois diretores junto com Luis Berdejo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, nem sonhamos que esta história vai terminar com uma série de assassinatos provocadas por mortos-vivos e que tudo começou com um caso (pouco explorado) envolvendo uma tentativa mal-sucedida de exorcismo. O final do filme, aliás, deixa uma série de perguntas sem respostas – o que vai lhe garantir uma continuação, claro! Mas isso não se torna um incômodo para o espectador em momento algum. Mesmo que [rec] 2 seja uma bomba, o filme original é uma obra que pode ser vista isoladamente. Um produção muito bem acabada e envolvente.

Como um bom filme de terror exige, a narrativa de [rec] vai crescendo em tensão pouco a pouco. O roteiro e a atuação dos atores acabam sendo fundamentais para que a história convença. Quem já assistiu algo da televisão espanhola deve concordar comigo quando afirmo que Ángela Vidal e Pablo atuam como é esperado pelos profissionais do ramo naquele país. Com uma pitada de humor fundamental, [rec] “amacia” o espectador o suficiente para que, na hora que os sustos começam, estejamos realmente vulneráveis a eles. Francamente fiquei tensa e me assustei com este filme em muitos momentos. E o melhor: sem os famosos sustos “gato-pula-na-frente-da-câmera”, e sim com uma tensão construída de forma realista.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bacana o recurso da “câmera da verdade” escolhido pelos roteiristas e diretores como forma de narrativa do filme. A idéia de que o trabalho dos jornalistas Ángela e Pablo deveria servir como testemunho do que estava acontecendo naquele plantão dos bombeiros acaba justificando cada trecho do filme, que se torna bastante rico com a variedade de recursos “jornalísticos” dos protagonistas. Destaque para as entrevistas que eles fazem com os vizinhos do edifício aonde se desenvolve o principal da história, as “passagens” feita pela repórter e, principalmente, a ótima reação de todos os atores e coadjuvantes conforme a história vai se desenvolvendo.

No quesito atuação, todos os participantes estão muito bem, mas merecem uma menção especial pelo carisma e pelo envolvimento de seus atores com a história Manuela Velasco (a repórter Ángela), Ferran Terraza (o bombeiro Manu) e o ator de quem não consegui saber o nome e que interpreta a Miguel, um praticante de enfermaria que mora no edifício para onde os bombeiros são chamados. Outros nomes do elenco são: Jorge Serrano como o policial que fica responsável pela segurança dentro do edifício; o veterano Vicente Gil como o policial que começa na liderança da operação, mas que logo é atacado pela “velha maluca”; Martha Carbonell interpreta a Sra. Izquierdo, justamente a “velha louca”; María Teresa Ortega é a “avó” que gostaria de trocar de roupa, mas que está impossibilitada de ir até o seu apartamento, onde vive com o marido (Manuel Bronchud); Akemi Goto interpreta a japonesa que não sabe falar espanhol direito; Chen Min Kao é o marido da japonesa; e Maria Lanau interpreta a mãe revoltada de Jennifer (Claudia Font).

No material de divulgação de [rec], os diretores comentam que quiseram, com o filme, “encontrar a chave para construir um pesadelo o mais verossímel possível, uma experiência de terror que pudesse ser vivida com uma maior intensidade do que as propiciadas pelas habituais convenções do cinema”. Por isso que eles teriam decidido pela história com cara de reportagem televisiva, “como uma gravação transmitida ao vivo onde o terror acontece na frente dos nossos olhos em tempo real, sem a possibilidade de ser interrompido ou manipulado”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante este “tratado de intenções” dos diretores, mas devo discordar de que o material que vemos seria como uma transmissão ao vivo. Pelas interrupções da narrativa e pelo formato do programa apresentado pelo filme, o mais provável é que a gravação que vemos teria sido recuperada depois do massacre que aconteceu. Aquele tipo de programa não é transmitido ao vivo – e sim gravado para depois ser editado pela emissora.

Os diretores, que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, disseram ainda no site oficial de [rec] que eles se esforçaram em “evitar os mecanismos do suspense e da narração cinematográfica, deixando que a ação se desenvolvesse frente aos olhos do espectador como se ela fosse real, sem possibilidade de ser parada. Como se estivesse viva”.

Da equipe técnica do filme, destaco o trabalho exemplar do diretor de fotografia Pablo Rosso, que interpreta ao personagem do cinegrafista. Ele consegue o tom exato de iluminação artificial, muitas vezes feito apenas pela luz da suposta câmera do canal de tevê ou através da luz de lanternas. Muito bom! Também gostei muito da edição de David Gallart.

[rec] foi um sucesso de público e crítica. Tanto que rendeu, já em 2008, uma refilmagem nos Estados Unidos: Quarantine. É certo que o filme mistura uma série de referências de outras produções – desde o “realismo ficcional” do já citado The Blair Witch Project até a “base para o terror” lançada em clássicos como o de Night of the Living Dead, lançado há 41 anos por George A. Romero (e recriado tantas vezes depois em filmes do próprio diretor ou de outros que o “seguiram”).

O filme de Plaza e Balagueró recebeu 16 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para os de melhor atriz revelação para Manuela Velasco e para melhor edição nos Prêmios Goya; e cinco prêmios no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Cataluña, incluindo os prêmios da audiência, o de melhor atriz e o de melhor diretores.

No site IMDb [rec] registra a nota 7,8, enquanto que o Rotten Tomatoes tem arquivadas 20 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95%.

Não consegui informações sobre a bilheteria que o filme conseguiu mundo afora, mas pude conferir o seu baixíssimo orçamento: esta produção teria custado a “bagatela” de 1,5 milhão de euros.

Como já era esperado depois de um sucesso desses, os diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza estão preparando uma continuação – que desta vez conta com a participação, no roteiro, de Manu Díez. [rec] 2 já tem até o site oficial com um “countdown” que revela que o novo filme deve estrear dentro de pouco mais de dois meses – mais precisamente, na primeira quinzena de outubro. Pelo trailer que podemos assistir neste site, a narrativa de [rec] 2 deve começar logo depois do término do primeiro filme. (SPOILER – não leia se você não quiser saber mais sobre a nova produção). Tudo indica que um esquadrão especial vai invadir o prédio até então isolado para “dizimar” as criaturas que ameaçam a segurança pública da cidade. Como bem resume a frase do final do trailer, “se acabó la comedia”. Ou seja: [rec] 2 não terá espaço para o humor visto no primeiro filme. Parece mesmo que a nova história vai se debruçar sobre a idéia de um ataque de zumbis do início ao fim.

(SPOILER – não leia se você não quiser estragar surpresas do novo filme). Algo certo, pelo menos pelas informações divulgadas no site IMDb, é de que personagens como Ángela, Manu, Álex e a “garota colombiana” voltarão a aparecer nesta nova história – todos, provavelmente, como zumbis. Ah, e um adendo: explorando o site do filme – muito bom, aliás -, descobri a sinopse de [rec] 2 em um quarto do segundo andar do prédio e ela revela que a história começa apenas alguns minutos depois que as “autoridades” da cidade perderam contato com as pessoas que estavam dentro do edifício. E vendo a fotografias do filme, percebe-se que ele terá vários personagens novos. Em um quarto do primeiro andar, no site, é possível consultar a “ficha artística” da nova produção. Por ali sabemos, por exemplo, que aparecerá em cena o pai de Jennifer, interpretado por Pep Molina; e personagens como Dr. Owen (Jonathan Mellor), Larra (Ariel Casas), Martos (Alejandro Casaseca) e Rosso (Pablo Rosso, que no filme anterior interpretava o cinegrafista Pablo e que aqui deve repetir o papel de “cinegrafista” da história). E uma dica para quem vai explorar o site: existe um link para um site chamado Yodecido, criado pela Filmax, que tem alguns trechos do making of do novo filme.

CONCLUSÃO: Um grande filme de terror e suspense. Envolvente, bem dirigido e com um roteiro criativo, [rec] recria um tipo de filme do gênero que carecia de idéias criativas. Lembrando em partes a inovação lançada há uma década por The Blair Witch Project, esta produção reforça a idéia de que um baixo orçamento pode render um belo filme. Indicado especialmente para as pessoas que gostam de narrativas diferenciadas e que podem resistir a sustos dos bons. Além das qualidades já comentadas, o filme se destaca pela ótima interpretação da protagonista, vivida por Manuela Velasco, e por outras pessoas do elenco que sabem dar o tom exato para seus personagens colocados em um situação de altíssima tensão.

SUGESTÕES DE LEITORES: Mais uma vez assisti a um grande filme graças a uma indicação de um leitor deste blog. [rec] estava na minha lista pessoal para ser assistido há tempos, mas ele só passou a frente de tantas outras produções recentes porque estou tentando colocar a minha lista de dicas recebidas por aqui em dia. E foi o Bernardo que indicou [rec] (assim como os primeiros quatro filmes da série Saw) por aqui em novembro do ano passado. Demorei para assistir ao filme, Bernardo, mas finalmente fiz isso e gostei do que vi. Obrigada por tua indicação. Espero que apareças por aqui, inclusive para falar mais sobre este filme, comentar tuas expectativas sobre a continuação dele e, quem sabe, indicar outros filmes bons do gênero.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

6 Respostas

  1. Realmente é um filme surpreendente e que me deixou realmente assustado, sem conseguir dormir… Novamente gostei do que você escreveu, pelo jeito temos gostos bem parecidos… Depois dá uma lida no blog o que eu escrevi sobre o Noite dos Mortos VIvos que você menciona ali… Abraços

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  2. Mangabeira

    ale, suas críticas sempre pontuais como sempre hein..”vai crescendo em tensão pouco a pouco”…sim e vai crescendo e asfixiando os nervos de quem está vendo. Filmaço pra quem gosta também desse gênero.
    Além de “Blair” esse daí me lembrou outro no quesito “competência para fazer suspense”, o filme é françês e se chama “Eles”.
    pesquisa depois um dia quando puder..
    bjão alê !!! mais uma bela crítica.

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  3. luciano

    Sou um dos visitadores assíduos desse blog e gostaria de parabenizá-la pela qualidade dos textos postados e pela quantidade de informações, coisas rara até mesmo em sites “especializados” em cinema. REC é pra mim um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, bastante assustador e com uma narrativa bem interessante. Aproveitando, gostaria de te sugerir um outro filme bastante impactante e de tirar o fôlego: Mártires (Martyrs), excelente filme francês. Tudo de bom e longa vida a esse espaço.

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