De Profundis


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Sempre que um cinema não é acostumado a produzir determinado tipo de filme, o desafio se torna ainda maior para seus realizadores. A Espanha, por exemplo, não tem uma grande tradição em filmes de animação. De Profundis, obra escrita e dirigida por Miguelanxo Prado, por isso mesmo ganha certa importância na filmografia espanhola. Esta produção nasceu cheia de boas intenções e, francamente, com algumas imagens e uma trilha sonora belíssimas. Mas seu principal problema é a sua duração. O trabalho de Prado e do compositor e músico Nani Garcia não sustenta os aproximadamente 70 minutos de duração do filme. De Profundis seria muito mais interessante se durasse metade deste tempo.

A HISTÓRIA: Em uma casa em meio ao mar, existe um estúdio com algumas obras que projetam a vida nas profundezas das águas. Peixes coloridos, sereias e um barco estilizado são alguns dos protagonistas daqueles quadros. Abaixo, nas escadarias da casa que vão dar no mar, uma violoncelista de cabelos vermelhos toca uma música encantadora a espera de seu amado. Ele, o artista dos quadros, passa perto da casa. Viajando junto à pescadores da região, o artista busca na lida dos trabalhadores do mar a inspiração para suas obras. Mas um acidente irá levá-lo para lugares que ele nunca imaginou visitar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Profundis): A intenção dos realizadores deste filme resume bastante o produto final que o espectador pode assistir. De Profundis, claro está, não foi planejado para chegar ao grande público ou para ser um fenômeno nas bilheterias. Miguelanxo Prado tinha claro, quando pensou em um projeto como este, que ele cairia no gosto de poucos. E isso se deve, basicamente, pelo caráter artístico de sua obra.

Para começar, é preciso comentar que De Profundis é um filme sem diálogos e que, basicamente, é narrado por suas imagens e pela música. A intenção de Prado e do compositor Nani Garcia era a de criar um “poema visual”. Para conseguir tal feito, o diretor utiliza técnicas de animação digitais em 3D aplicadas sobre a base de 15 mil desenhos feitos por ele a lápis de cor e também em óleo, aquarelas e pinturas nas quais foram utilizadas técnicas mistas. Para realizar esta produção, uma das únicas do gênero no mundo, Prado levou quatro anos de trabalho – dois para as pinturas e desenhos e outros dois para o restante do processo.

O resultado deste trabalho é um filme envolvente, na maior parte do seu tempo, e que apresenta uma profusão de cores e, principalmente, de nuances de azul para os espectadores. Somos convidados a mergulhar junto com o protagonista desta animação pelas águas mais profundas e misteriosas, conhecendo uma versão muito particular de Prado dos seres que habitam (de forma real ou ficcional) aquele entorno marinho. Como a base do filme são as obras do diretor, para dar “cadência” para a história Prado utiliza técnicas de movimento secundárias e terciárias, como a aproximação de quadros, closes, panorâmicas, entre outros recursos que buscam exprimir movimento de imagens estáticas. Esta característica do filme ganha interesse do espectador durante parte da história – mas, lá pelas tantas, a narrativa da produção fica tão morna e um tanto repetitiva que chega a cansar.

De Profundis conta uma história de amor entre um artista e uma música e, também, um conto de amor do artista para com sua arte e seu objeto de admiração, o mar. Lírico e bem desenhado, o filme merece uma chance – mas é bom que o público esteja preparado para o que irá assistir. Segundo seus produtores, De Profundis é voltado para o público jovem e de adultos – crianças, na verdade, dificilmente aguentariam esta obra de arte sem diálogos. A intenção de Prado, volto a dizer, é muito boa, mas sua história acaba sendo singela demais para sustentar 70 e tantos minutos de projeção. Faltou, talvez, um pouco mais de ousadia ou de surpresas na própria narrativa.

Como qualidades deste filme, destaco o tom onírico de parte da obra de Prado. O artista mistura cenas da vida mais simples, da lida de homens com o mar, com imagens de sonho e de arte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sabemos, por exemplo, até que ponto aquela viagem do artista pelo “fundo do mar” não é, nada mais, nada menos, que sua passagem da vida para a morte. Curiosamente, todas as cenas que ele presencia depois do acidente de barco refletem a sua própria visão do fundo do mar – seria coincidência ou uma projeção de Paraíso que ele próprio criou? Esta talvez seja a reflexão mais interessante que este filme provoca.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Profundis seria perfeito como um curta-metragem. Mas, no caso de seu realizador achar que um curta não seria suficiente para contar esta história, ela deveria ter, no máximo 40 ou 35 minutos de duração.

Esta animação teria custado econômicos 1,5 milhão de euros, desembolsados por uma produtora espanhola e por uma produtora portuguesa. As duas contaram com o apoio de diferentes organismos públicos e privados da Galícia, território limítrofe entre os dois países situado nas terras do Rei Juan Carlos.

Curioso que De Profundis nasceu de uma conversa de seu diretor com Nani Garcia em um restaurante. Prado desenhou, na cobertura da mesa daquele estabelecimento, a imagem de um homem submergindo no mar. Este homem, ao mesmo tempo em que flutuava na água, contemplava uma baleia. A partir desta imagem, Prado começou a criar outros desenhos que contassem a história daquele homem que vivia em sintonia plena com o mar e seus seres.

Miguelanxo Prado nasceu em A Coruña e se tornou, a partir dos anos 1980, um dos nomes mais importantes da Espanha no segmento de histórias em quadrinhos e de ilustrações. Ele acumulou, neste tempo, variados prêmios por seus trabalhos, que incluem ainda incursões em pinturas e desenhos animados para a televisão. De Profundis marca a estréia de Prado na direção de uma animação convencional para os cinemas.

Em entrevistas para diferentes jornais espanhóis, Prado comentou que seu filme, por se tratar de um poema visual, necessita das imagens na mesma medida que precisa da música. Mais que a história, comenta o diretor, para De Profundis o que interessa é são as reações que as imagens e a música podem provocar nos espectadores. “Esta é uma proposta poética, mais que narrativa”, sentencia Prado.

O parceiro de Prado neste projeto, o compositor espanhol Nani Garcia, se formou musicalmente na Suécia. Músico de jazz, produtor musical, compositor e regente, Garcia tem em seu currículo pouco mais de 50 trabalhos feitos para longas, séries de TV, peças de teatro, espetáculos de balé, documentários e exposições. Com o grupo Clunia, na Espanha, ele ganhou vários prêmios.

Criada por Garcia, a trilha sonora do filme é executada pela Orquestra Sinfônica da Galícia e tem participações, em algumas músicas, do Coro Cantabile e da cantora Ainoha Arteta.

De Profundis estreou, oficialmente – antes ele teve uma rápida participação no Festival de Sitges – no Palácio da Ópera de La Coruña, com o acompanhamento, ao vivo, da Orquestra Sinfônica da Galícia. Certamente, foi uma ocasião inesquecível.

Nesta matéria, Prado definiu seu filme como “um passeio onírico de um personagem através de uma história de amor alterada por seu mundo criativo. E é uma homenagem ao mar, nossa reserva de vida e esperança, e símbolo de nossos pesadelos e sonhos”.

Para os interessados em saber um pouco mais sobre o filme e seu autor, recomendo esta entrevista de Miguelanxo Prado para o jornal Público. Nela, ele comenta, entre outros detalhes, como sua obra, que classifica como “pintura animada”, não se aproxima em nada dos filmes da Disney ou da Pixar. Uma de suas intenções com De Profundis, ele comenta, foi a de “manter no filme uma série de coisas que desaparecem na animação tradicional, como é o caso da textura, da matéria, o traço pessoal do autor, o trabalho com a cor completa e não cores planas, etc.”.

Não há informações sobre o resultado nas bilheterias do filme, mas Prado afirma que ele não perdeu dinheiro ao entrar no circuito comercial de algumas salas de cinema na Espanha.

Nesta entrevista para o jornal El País, Prado comenta que havia pensado, inicialmente, no filme como uma obra para adultos, mas que se surpreendeu como crianças de 5 ou 6 anos haviam gostado do filme – mesmo não entendendo todas as suas nuances. Para o autor, sua obra é recomendada para os que não tem pressa. Outros detalhes sobre esta produção podem ser vistos nesta reportagem do jornal El Mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para De Profundis. O Rotten Tomatoes, por enquanto, abriga apenas uma crítica. Positiva, inclusive, e assinada por Jonathan Holland, da Variety.

De Profundis é uma co-produção espanhola e portuguesa.

CONCLUSÃO: Uma animação muito diferente do que estamos acostumados a assistir. De Profundis é uma obra de arte animada, produzida de forma muito autoral por seu criador, roteirista e diretor, o espanhol Miguelanxo Prado. Sem diálogos, este filme foi planejado como um “poema visual” que joga com as noções de amor, sonho, arte e criatividade. Uma grande homenagem ao mar e aos detalhes de um trabalho artístico, no qual ressaltam as texturas, o uso de luz e de variados nuances de cores. Mesmo abrigando imagens belíssimas, é um filme que cansa um pouco por sua duração. Ele poderia, definitivamente, ser mais curto. Recomendado apenas para quem poderá resistir a um ritmo muito diferente das produções comerciais da Disney, da Pixar e de outros estúdios onde predomina o cinema dependente de efeitos de computador. De Profundis nada contra esta corrente e investe em desenhos e pinturas, em um trabalho muito artesanal.

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