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Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

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Phantom Boy – O Garoto Fantasma

Toda criança que enfrenta uma doença grave é uma heroína. Sob qualquer ótica que se olhe, não é nada simples observar uma criança que tem que passar por um longo tratamento, como o para combate a um câncer. Olhar para esta situação com lirismo, criatividade e colocando a criança como protagonista de toda a ação é o que torna este Phantom Boy diferente. Um filme realmente muito bonito, com uma história que não cai no sentimentalismo mas que trata toda a situação da doença e do tratamento com respeito e com um olhar generoso. Belo e interessante.

A HISTÓRIA: Um homem dá com o pé na porta. Ele invade o prédio e corre diversos lances de escada até chegar no andar em que está o bandido. O inspetor avança com atenção e confronta o vilão, mas o Exterminador se joga do prédio em fuga. Lily (voz de Rachel Salvatierra) interrompe aquela queda e pega o bandido pela capa. Ela pergunta para o irmão, Léo (voz de Gaspard Gagnol), o que significa o nome de Exterminador. O irmão explica que o nome significa que ele não é bom, que ele é o vilão.

Na sequência, Lily pergunta para o irmão se ele realmente vai para o hospital no dia seguinte. Ele diz que sim, que precisa ir, e fala que estar doente não é divertido, mas que ele tem um segredo. Leo comenta que algo estranho aconteceu depois que ele foi diagnosticado, mas pede para a irmã não contar o que ele vai falar para ninguém. Esse segredo é o que fará ele ajudar um policial de verdade a resolver um crime.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Boy): O cinema francês é especial. Humano, sensível, atento a cada detalhe do comportamento humano e, consequentemente, social. E mesmo quando estamos falando de um filme de animação, isso não é diferente. Como podemos ver nesta produção dos diretores Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol.

Esta produção, que pode ser vista tanto por crianças, jovens como por adultos, tem a fantasia que se espera de um filme de animação mas sem esquecer da realidade. Muito pelo contrário. Phantom Boy mergulha em uma série de fatos bastante duros da realidade, como pode ser a violência de crimes variados – de assalto até ataques terroristas – e a doença de uma criança, mas sem que estes temas todos se tornem pesados demais.

O roteiro de Alain Gagnol é muito sensível e envolvente. O filme trata de questões importantes, dando espaço para as crianças em cena se expressarem, mas sem que os temas que fazem parte da realidade mostrada – muitos deles presentes no nosso cotidiano – se tornem chatos ou parte de um “discurso” pesado. Não. Gagnol e Felicioli acertam em suas escolhas ao equilibrar a realidade com a fantasia e ao apresentar um enredo policial com requintes de aventura e de humor.

Todos em cena falam francês, mas a história se passa em Nova York. Uma cidade perfeita para uma história policial em que um bandido maluco quer se vingar de todos ao mesmo tempo em que quer contar a sua história triste – ele é caracterizado por um “rosto quebrado” (a voz dele é feita pelo ator Jean-Pierre Marielle). Este bandido, como manda o figurino de uma produção policial, conta com alguns comparsas: dois deles, também criminosos, vivem em suas desventuras com outro aliado do terrorista, um cachorro mal humorado.

Para combater o crime, claro, precisamos sempre de um mocinho. Este papel é desempenhado pelo policial Alex Tannet (com voz de Edouard Baer), um sujeito competente mas um tanto atrapalhado que é punido pelo chefe de polícia, o capitão Simon (com voz de Bill Lobley) e que, desta forma, acaba parando nas docas. É lá que ele enfrenta, sem querer, o bandido que vai colocar a cidade em colapso e sob ameaça. Antes de ser atacado pelo “homem com rosto quebrado”, Tannet consegue chamar reforços e, por causa disso, ele para no hospital ao invés de acabar no cemitério.

Depois de ser socorrido, ele recebe a visita da amiga jornalista Mary (voz de Audrey Tautou), que se considera uma “parceira” de aventuras do policial. Eles se conheceram em uma situação anterior, quando ele salvou o dia em um supermercado e, desde então, se tornaram próximos. Enquanto Mary chora pelo que aconteceu com Tannet, ele fala com ela sem ser visto, e é neste momento que ele conhece Léo.

Os dois estão no corredor do hospital em suas respectivas “projeções fora do corpo”. Para Tannet aquilo é novo, mas Léo já sabe como lidar com este seu “super poder” e como andar pelo hospital e para fora dele de forma consciente. Eis outro aspecto muito interessante de Phantom Boy: mesmo a parte da fantasia do filme tem um pezinho na realidade. Existem muitos textos e estudos sobre projeções/experiências fora do corpo. Vale dar uma olhada nesta matéria da Superinteressante e neste outro texto do Gizmodo.

Claro, existe muita controvérsia ainda sobre a capacidade de uma pessoa de se projetar para fora do corpo de forma consciente, como os textos sitados sinalizam. Mas Phantom Boy explora essa ideia e este “superpoder” de um menino que está passando por uma situação muito difícil, a de ficar em um hospital por um longo período de tempo lutando contra uma doença – e para ficar vivo.

Deste modo, de forma muito criativa e interessante, Felicioli e Gagnol exploram a possibilidade desta projeção fora do corpo para tornar o jovem Léo como o verdadeiro herói da história. Ele ajuda Tannet em sua empreitada atrás do bandido que está colocando a cidade em perigo e, ao mesmo tempo, salva a repórter corajosa Mary de virar uma vítima do criminoso.

A animação do filme é delicada e interessante, mesclando bem a realidade de Nova York e algumas obras que já homenagearam a cidade – desde pinturas, alguns quadrinhos até os filmes policiais de algumas décadas atrás. O visual é muito bacana, e o roteiro acompanha este trabalho com uma história envolvente e que, como comentei antes, equilibra todos os elementos para tornar a experiência divertida.

Ainda que o desenvolvimento do roteiro seja um tanto previsível – não é difícil imaginar como a história vai terminar -, Phantom Boy entrega uma história de qualidade para todas as idades. E o mais bacana de tudo: colocando um garoto que está passando por um desafio realmente complicado como protagonista da produção.

No fim das contas, não importa o quanto do filme é uma fantasia ou tem uma ligação com a realidade. Phantom Boy conta a história de um menino que é um verdadeiro herói por enfrentar uma doença e o seu tratamento com coragem e sem perder a capacidade de admirar um dos heróis da nossa sociedade, que é a figura de um policial/agente da lei.

Os bons valores estão nesta produção, inclusive a capacidade de sonhar e de ajudar o próximo. Léo nos dá diversas lições importantes, e isso é louvável em um filme de animação que não foge de temas espinhosos. Mais uma bela e sensível produção francesa, desta vez de animação. Eu não costumo ver tantos filmes deste gênero, por isso é bom encontrar um exemplar “mais adulto” como este pela frente. Bem dirigido, com uma história envolvente e com uma conexão com a realidade interessante, Phantom Boy é um belo achado. Recomendo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, alguns elementos fazem toda a diferença na condução de um filme de animação como esse. Entre outros elementos, vale destacar a ótima trilha sonora de Serge Besset, bastante envolvente e que casa com perfeição com a narrativa. Também vale destacar a edição feita por Hervé Guichard; o departamento de som com 19 profissionais que fazem um trabalho fundamental; e o departamento de animação com outros 14 profissionais talentosos. Este grupo, junto com os demais profissionais envolvidos no projeto, é que são responsáveis pelo sucesso de Phantom Boy.

Algo interessante desta produção é que ela tem a sinceridade e a “linguagem direta” das crianças. Elas perguntam de forma clara quando tem dúvidas e são sinceras também em seus sentimentos e em suas motivações. É bonito ver o contexto todo ao redor do protagonista. A família dele, com destaque para a irmã mais nova, Lily, e as demais pessoas que o cercam, como a médica do hospital e o novo “melhor amigo” do nosso herói, o policial Tannet.

Em um certo momento da produção, o vilão da história fala sobre as suas motivações: ele quer justiça, vingança e dinheiro. A última parte fica bastante clara e evidente, mas as duas primeiras nem tanto. Isso porque o roteirista Alain Gagnol decide não dar voz para o criminoso, que acaba não explicando realmente as suas motivações doentias – ou a razão dele ter sido desfigurado, algo que ele ameaça contar em mais de uma ocasião.

Esta escolha me pareceu bastante francesa… um país que sofre com atentados terroristas e que diz que vai continuar defendendo a liberdade, a igualdade e a fraternidade apesar dos argumentos contrários dos assassinos (argumentos estes que eles não costumam propagar ou disseminar). Afinal, no final das contas, não existe espaço para dois discursos prevalecerem. Ou você dá espaço para o discurso do criminoso, ou abre frente para o discurso do herói. França, Estados Unidos e este filme deixam claro para qual discurso eles querem dar visibilidade.

Phantom Boy estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2015. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 15 festivais, sendo o último deles o Festival de Cinema de Sidney em junho de 2017.

Não encontrei informações sobre os custos de Phantom Boy, mas vi que esta produção fez pouco mais de US$ 34,3 mil nas bilheterias americanas. Me parece que esta produção fez um caminho realmente de festivais, estreando em uma quantidade reduzida de cinemas em seus pouco mais de dois anos de trajetória.

Falando em festivais, Phantom Boy concorreu a dois prêmios, no Festival de Cinema de Hamburgo e no Festival Internacional de Cinema de Seattle, mas ele não saiu com nenhum prêmio destas competições. Foi apenas indicado.

O diretor Jean-Loup Felicioli e o roteirista Alain Gagnol tem nove trabalhos em parceria – dos 10 que cada um desenvolveu em suas carreiras até o momento. Felicioli tem apenas um curta que ele dirigiu antes de começar a parceria com Gagnol, o curta Sculpture Sculptures, feito em 1989. A partir daí, todos os trabalhos dele como diretor contaram com Gagnol como roteirista e como parceiro na direção. Por sua vez, Gagnol tem apenas um projeto como roteirista que não contou com Felicioli como diretor: HS – Hors Service, escrito por ele e lançado em 2001.

A dupla de diretores tem uma identidade muito própria e se tornou ainda mais conhecida em 2012, quando eles tiveram o longa de animação Une Vie de Chat indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação. Eles perderam a disputa por uma estatueta dourada para Rango, dirigido por Gore Verbinski. Mas, pela trajetória dos dois, dá para perceber que eles tem talento e que vale acompanhar o trabalho de Felicioli e Gagnol.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 41 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média 7. Especialmente a avaliação dos críticos foi bastante positiva, acima da média.

Todos os atores que dão vida para os personagens do filme estão bem, com destaque, claro, para os personagens principais. A conhecida atriz Audrey Tautou dá a voz para a jornalista Mary, enquanto Edouard Baer faz a voz de Alex Tanner e Gaspard Gagnol faz um excelente trabalho como Léo. Além deles, vale citar o bom trabalho de Jean-Pierre Marielle como o vilão com a “cara quebrada”; Brian T. Delaney como o pai de Léo e Eileen Stevens como a mãe do garoto; Rachel Salvatierra como a irmã mais nova, Lily; Bill Lobley como o capitão Simon e Philippe Peythieu como o prefeito.

Phantom Boy é uma coprodução da França com a Bélgica.

CONCLUSÃO: Um filme envolvente e que equilibra de uma forma muito interessante o lado “humano” de um drama muito particular, a fantasia e a criatividade de uma criança, com a aspereza de fatos duros do nosso cotidiano. Phantom Boy trata da dura realidade de um menino que passa por um tratamento angustiante e que consegue, de uma maneira muito particular, sair do próprio corpo para ser o herói da sua cidade. Animação muito bem feita, com um belo visual e uma narrativa surpreendente. O filme consegue ter a sensibilidade francesa e alguns dos elementos mais bacanas do cinema americano – para o qual, parece, esta produção rende homenagem. Vale conferir.

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Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

Olá amigos e amigas do blog!

Faltam poucos dias agora para confirmarmos todas as expectativas sobre o Oscar 2017. O provável é que tenhamos poucas surpresas neste ano. La La Land é o favoritíssimo da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e deverá papar quase tudo.

Como já comentei no blog antes, esta é uma bela safra do cinema americano e de outros países representada no Oscar. La La Land não é o melhor filme do ano, mas deve será o grande vencedor porque esta é a forma que Hollywood encontrou para defender os seus “ideais” e a “fábrica de sonhos” que ela representa frente a um governo de Donald Trump um tanto “ameaçador”.

Como em anos anteriores, aproveito para falar também das três categorias de curtas-metragens que estão na disputa. Ainda que no Brasil o grande público não dê grande importância para este tipo de filmes, é importante sempre falar deles. Afinal, muitos cineastas que vamos admirar pelos seus trabalhos depois começam justamente fazendo curtas.

De acordo com esta matéria da IndieWire, em 2017 houve um recorde de curtas-metragens animados que disputaram uma indicação ao Oscar: 69 produções. A exemplo de outras categorias, nesta também foi divulgada uma lista de pré-indicados de 10 produções e, no final, apenas cinco realmente disputam a estatueta dourada. Vejamos, então, um pouco mais sobre os indicados deste ano na categoria Melhor Curta de Animação:

1. Blind Vaysha

O curta de oito minutos dirigido e escrito pelo búlgaro Theodore Ushev conta a história de uma garota “muito especial” chamada Vaysha. Desde que nasceu, Vaysha tem uma condição diferenciada: pelo olho esquerdo ela vê sempre o passado das pessoas, dos lugares e das situações, enquanto pelo seu olho direito ela enxerga sempre o futuro.

Como vocês poderão ver abaixo, já que o curta está disponível na íntegra no YouTube, Blind Vaysha tem uma proposta diferenciada em todos os sentidos. Ushev teria se inspirado, segundo este site, na arte medieval e na linogravura para contar esta história. A verdade é que o curta, com toques bastante sombrios, parece estar contando esta história com traços de pintura em movimento à frente dos nossos olhos.

Eu gostei tanto dos traços de Ushev quanto da reflexão que ele levanta com a história de Vaysha. Afinal, se a protagonista é cega para o presente e só consegue enxergar o passado ou o futuro, ela não seria uma alegoria de muitas pessoas que vivem nos tempos atuais e que não conseguem viver o que está acontecendo agora, mas apenas se prender em tempos cronológicos para os quais esta pessoa tem pouco controle?

Ah sim, e vale comentar que Blind Vaysha é inspirado em um conto do escritor búlgaro Georgi Gospodinov lançado em 2001. O curta com narração de Caroline Dhavernas é a primeira indicação ao Oscar do experiente diretor Ushev, que tem nesta produção o seu 15º curta. Formado e mestre em desenho gráfico pela Academia Nacional de Finas Artes em Sofia em 1995, quatro anos depois se mudou para o Canadá, onde começou a atuar como artista multimídia, ilustrador e com animação.

 

2. Borrowed Time

O curta dirigido por Andrew Coats e Lou Hamou-Lhadj (animadores da Pixar) tem sete minutos de duração e conta a história de um velho sheriff que retorna para um local marcante. Com uma trilha sonora maravilhosa de Gustavo Santaolalla, o curta resgata a essência dos filmes de western para contar uma história amarga, de redenção e de “fazer as pazes” com o passado.

Interessante como um curta com tão pouca duração pode conter uma história tão interessante. Borrowed Time é uma destas produções que mostram que poucos minutos podem ser o suficiente para contar belas histórias. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao curta). O sheriff deste curta de western acaba voltando para a paisagem onde a carruagem em que ele estava com o pai, então o sheriff da época, foi atacada por bandidos.

O protagonista desta história tenta frear a carruagem, mas ele acaba caindo e o pai dele é jogado precipício abaixo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O jovem se espreita pela borda do precipício e vê que o pai pode ser salvo, mas ao tentar ajudá-lo, o garoto acaba apertando o gatilho da arma sem querer. Agora, envelhecido, ele resolve encarar aquele local novamente e chega a tentar se largar precipício abaixo, mas ele acaba tendo refletido o brilho do relógio que o pai tinha lhe dado. Neste momento, e de forma muito sutil, ocorre a redenção do personagem.

Bem feito, com um bom ritmo e uma história muito honesta e direta, o americano Borrowed Time é um destes curtas que merece ser visto. Ele é menos artístico que o anterior, tem uma história simples, mas é muito bem feito. Gostei tanto do estilo do filme quanto da trilha sonora e de seu tom meio “amargo” mas com mensagem positiva no final.

 

3. Pear Cider and Cigarettes

Com coprodução do Canadá e do Reino Unido, este curta é o mais longo da disputa, com 35 minutos de duração. Infelizmente não encontrei ele disponível na íntegra, mas o trailer abaixo já dá uma bela palhinha da força desta história e do trabalho do diretor e roteirista Robert Valley.

De acordo com a apresentação do curta, Pear Cider and Cigarettes é a “brutalmente honesta” história do relacionamento entre o diretor e o seu autodestrutivo e carismático amigo de infância que pede ajuda para ele após sofrer um acidente e estar confinado em um hospital na China. Tudo o que este amigo do “alter-ego” de Robert Valley quer é que ele vá ao seu socorro e o ajude a voltar para Vancouver.

Segundo o próprio texto de Valley, tudo o que Techno Stypes quer é beber e fumar, mas isso é tudo que ele não pode fazer porque está doente. Após sofrer um acidente de moto na China, ele estava internado lá. O diretor tinha ouvido duas instruções clara do pai dele: fazer com que Techno parasse de beber o tempo suficiente para que ele recebesse um transplante de fígado e levá-lo de volta para a sua cidade-natal.

Pelo trailer, o curta parece ter um estilo muito diferenciado. É um filme de ação com uma grande técnica de desenho e traços interessantes de Robert Valley. Esta é a primeira indicação ao Oscar do diretor que dirigiu, antes, apenas três trabalho para a TV. Algo que me chamou a atenção no trailer de Pear Cider and Cigarettes foi a ótima trilha sonora de Mass Mental? composta por Robert Trujillo e Armand Sabal-Lecco. Gostei também da arte de Valley e do que parece ser um excelente trabalho de edição.

 

4. Pearl

A VR (realidade virtual) está cada vez mais ganhando protagonismo mundo afora, e não apenas nos games ou nas produções jornalísticas, mas também em todo o tipo de ação que envolva produções artísticas e empresas. Não por acaso 2017 marca a primeira indicação de um curta feito em VR da história do Oscar.

Este estreante é o curta Pearl, dirigido por Patrick Osborne e com seis minutos de duração. A produção, que pode ser “vivenciada” através do vídeo abaixo do usuário Nathie, conta em detalhes a relação entre uma garota e o seu pai. O curta começa com ela adolescente reproduzindo um gravador em um carro, o que remete o espectador ao passado dela.

A partir daí o curta reproduz a experiência de um roadie movie, já que pai e filha vivem viajando e tem, basicamente, o carro como propriedade compartilhada. Pearl tem uma trilha sonora muito bacana, assinada por Pollen Music Group, Alexis Harte e JJ Wiesler, e uma estética que lembra a de alguns games.

A narrativa é bacaninha, sensível, e mostra como a relação de pai e filha amadurece com o tempo, além de explorar bem o conceito de que o amor do pai pela música acabou influenciando positivamente a filha. É uma proposta interessante, especialmente por colocar o espectador dentro da experiência com o VR, mas o curta não me parece ter a qualidade para ganhar o Oscar.

Ainda assim, sem dúvida alguma Pearl pode estar sinalizando uma tendência importante. Com um pouco mais de qualidade de produção e com uma evolução de técnica e narrativa, não será uma surpresa se um curta ou filme de VR ainda ganhar um Oscar no futuro.

Vale comentar que este é o segundo curta dirigido por Osborne – ele estreou na direção de curtas após trabalhar como animador em muitos filmes da Disney com Feast – curta que, aliás, ganhou o Oscar. Abaixo eu deixo o curta na íntegra (que deve ser visto, preferencialmente, com o óculos VR da Google ou qualquer outro do gênero) e o vídeo com a experiência de um espectador.

 

5. Piper

Finalmente comento aquele que, para muitos, é o favoritíssimo deste ano nesta categoria. O curta Piper tem seis minutos de duração e conta com roteiro e direção de Alan Barillaro, animador conhecido por diversos trabalhos da Pixar.

A verdade é que o curta surpreende. Inicialmente, você pensa sobre a capacidade de um curta sobre um filhote de passarinho e a sua mãe entreter o grande público. Mas aí que Piper mostra todo o potencial de Barillaro. Ele conta esta singela e bonita história sem diálogos e com muitas cenas graciosas de forma magistral.

Piper conta a história de um filhote de passarinho que enfrenta “o mundo” pela primeira vez. Incentivado pela mãe, ele deixa o ninho e se aventura até a orla, logo descobrindo a razão que faz todos os pássaros correrem quando uma onda se aproxima. Ele tenta “caçar” alguns bichinhos no início, mas depois é levado por uma onda.

No início, o jovem pássaro fica traumatizado. Mas o pavor dele da água logo é superado quando ele demonstra uma grande capacidade de aprendizado. Singelo, bacana, divertido. Vale também comentar que este é o primeiro curta dirigido por Barillaro.

Apesar da Pixar ter um histórico de indicações ao Oscar, desde 2002 o estúdio não ganha a categoria de Melhor Curta de Animação. Piper tem grandes chances de acabar com esta longa ausência de prêmios para o estúdio – derrotado oito vezes desde que venceu pela última vez com For the Birds. Como Piper foi lançado nos cinemas junto com o blockbuster Finding Dory, sem dúvida ele é o curta na disputa mais popular.

 

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Esta é uma safra de curtas com propostas e estilos muito diferentes. Difícil comparar produções tão diversas, mas acho que a disputa tem três produções com maiores chances e duas que correm por fora. As favoritas parecem ser, nesta ordem: Piper, Blind Vaysha e Pear Cider and Cigarettes.

Ainda que eu tenha gostado do estilo de Borrowed Time, acho que o curta é um tanto “simples” demais para o Oscar. O mesmo pode ser dito sobre Pearl, que tem como destaque ser o primeiro curta VR a ser indicado para a premiação. Avaliando o conjunto da obra, ou seja, a história, a criatividade da narrativa e a parte artística, admito que eu estou com os especialistas que apontam Piper como o favorito.

Blind Vaysha é o mais artístico dos curtas na disputa. Pear Cider and Cigarettes me chamou muito a atenção pelo estilo, mas como eu só vi o trailer do curta, não posso opinar realmente com propriedade sobre ele. Então, avaliando todos os outros, aos quais vi na versão integral, realmente Piper parece ser o provável vencedor.

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Kubo and the Two Strings – Kubo e as Cordas Mágicas

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Contar histórias com maestria é um verdadeiro dom. E quando estas histórias, bem contadas, ainda tem algumas mensagens importantes costuradas de forma discreta em sua trama aqui e ali, tanto melhor. Kubo and Two Strings é uma animação que enche os olhos pela beleza de sua arte e que massageia a alma pela beleza de sua história. Um lindo, lindo filme, que eu só descobri porque ele está cotadíssimo para o Oscar. E merece chegar lá, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa em uma tempestade e com o narrador recomendando que ninguém pisque, que continuem olhando mesmo que alguns acontecimentos pareçam estranhos. Quando uma onda gigantesca aparece à frente de uma mulher que está surfando com uma guitarra, ela dá uma nota no instrumento e a onda se abre.

Mas, na sequência, outra onda se forma às costas da mulher e ela submerge, batendo a cabeça em uma pedra. Em terra firme, a mulher acorda com o choro de um bebê. O narrador diz que o herói se chama Kubo (voz de Art Parkinson), e esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kubo and Two Strings): Este é um filme que me surpreendeu. E não foi pouco. Pelo cartaz da produção – como vocês sabem, evito ao máximo de assistir a trailers de filmes ou de ler a respeito da história antes – eu achei que se tratava de um filme de ação, quem sabe com algo de lutas marciais, e bem ao estilo de “produção para meninos”. Eu não poderia estar mais enganada.

Diferente dos filmes da Disney que eu assisti para esta temporada pré-Oscar, Kubo and the Two Strings tem uma forte marca artística. Não apenas pelo estilo e pela técnica utilizada no desenho, que é um stop-motion de tirar o chapéu, mas também pela temática e pela proposta da história propriamente dita.

Kubo and the Two Strings é um filme de animação que segue o estilo aventura e ação, mas ele, diferente de Zootopia (comentado por aqui), tem na tradição de uma cultura, a japonesa, um elemento fundamental. Além disso, o filme rende uma grande, imensa homenagem para os contadores de histórias. O próprio protagonista é um deles. E ele segue uma tradição familiar, já que a mãe dele também era fera em contar histórias.

Uma das mensagens importantes deste filme é justamente esta, da valorização das tradições e da história familiar. Kubo empreende uma aventura de sobrevivência que é, acima de tudo, uma viagem de autodescoberta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo nos primeiros minutos do filme vemos como Kubo sobreviveu a uma fuga desesperada da mãe dele. Conforme o garoto cresce, parece que a sua mãe (voz de Charlize Theron) vai ficando cada vez mais distante, com lapsos importantes de memória.

Como a cultura japonesa preconiza, Kubo tem que seguir uma série de regras para ficar “seguro”. Mas um dia, com a esperança de falar com o pai morto, o samurai Hanzo, seguindo uma tradição do vilarejo em que ele mora próximo com a mãe, Kubo quebra uma destas regras. Ele fica até depois do anoitecer “na rua” e acaba sendo encontrado pelas irmãs malévolas (voz de Rooney Mara) de sua mãe – ele estaria sempre sendo perseguido pelo avô, o Rei Lua (voz de Ralph Fiennes).

Para salvar o filho, a mãe de Kubo se sacrifica para mandá-lo para longe e enfrentando as irmãs. Quando acorda, Kubo está sob a guarda de uma macaca (voz de Charlize Theron) – o amuleto que a mãe dele sempre disse para ele manter por perto. A partir daí, os dois empreendem uma cruzada atrás da armadura e da espada que serão os únicos recursos possíveis para tentar proteger o nosso herói de seu algoz.

Os diferentes lugares pelos quais Kubo, a macaca e, depois, um ex-samurai convertido em besouro (voz de Matthew McConaughey) passam são fascinantes. O visual dos cenários, assim como a técnica de animação mais “artesanal” e o roteiro muito bem escrito por Marc Haimes e por Chris Butler baseados na história criada por Haimes e por Shannon Tindle são o ponto forte da produção.

Algo que me encantou e surpreendeu também neste filme é a forma com que os roteiristas não tratam o público potencial de Kubo and the Two Strings de forma infantil. Crianças podem assistir a este filme sem problemas, é claro, mas elas vão perceber que nem todos os personagens tratam o herói com delicadeza. A macaca, em especial, lhe dá algumas duras muito boas – algo típico de adultos preocupados em ensinar e não apenas em adular os seus filhos.

Como pede um bom filme de ação que é protagonizado por uma criança e que tem um certo senso de realidade, Kubo and the Two String mostra um herói que deve estar preparado para ser perseguido e agredido. Este não é um filme politicamente correto. Apesar de ser, essencialmente, uma fantasia, ele mostra que crianças podem passar por momentos muito difíceis, por solidão, dor e perdas importantes.

Ainda muito jovem Kubo fica órfão e deve ainda lutar por sobreviver. Ele acaba amadurecendo rápido por causa disso, mas ainda assim não perde a leveza de suas criações ou abre mão dos valores que aprendeu da mãe. Desta forma, além de valorizar as tradições e as histórias bem contadas, Kubo and the Two Strings também presta uma bela homenagem para as famílias, para os mortos e seus legados e para a humanidade e toda a sua imperfeição.

Ao contrastar o Rei Lua, que seria sinônimo de retidão e de “perfeição”, com Hanzo e sua pequena família que prefere viver no meio das pessoas e sua realidade imperfeita, Kubo and the Two Strings mostra claramente como é preciso fazer uma escolha entre estes dois mundos. O herói da história não tem dúvidas sobre preferir e defender a humanidade, o amor, a imperfeição, a compaixão e o perdão que são característicos deste contexto – e não de um mundo perfeito.

Com uma trilha sonora fantástica e um roteiro que dá o espaço adequado para os momentos de silêncio e para os diálogos inteligentes, com um texto muitas vezes irônico e uma narrativa envolvente, Kubo and the Two Strings é uma grande surpresa. Um filme muito interessante sobre a força de uma boa história e a valorização de uma cultura.

Depois de assistir a este filme, eu acho que ele pode ser entendido de duas formas diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Exatamente da forma com que ele é apresentado, ou seja, com uma alta dose de fantasia, ou como uma alegoria de uma realidade difícil.

Se observarmos com atenção, na parte inicial do filme, quando Kubo está contando a sua história no festival cultural do vilarejo, na rua, o senhor idoso que aparece no final como sendo o avô dele está na plateia. Ele não parece se envolver na história como os demais – no final da produção, após o embate do Rei Lua com Kubo, o homem aparece “fora da fantasia”, normal, e parece sofrer de Alzheimer.

Ora, se este filme é uma grande alegoria, podemos entender que Kubo e a mãe dele viviam isolados por causa de algum problema familiar e que, após a morte dos pais do garoto, ele volta a tentar resgatar o avô de seu próprio esquecimento, se aproximando do patriarca da família que parecia ter feito muito bem para aquela comunidade mas que depois se perdeu em sua “própria escuridão”.

Olhando sob este prisma, Kubo tem um gesto muito bonito ao tentar “resgatar” o avô e trazê-lo para o contato com a realidade do vilarejo novamente. Ao mesmo tempo, a alegoria da história nos mostraria um menino fantasiando com os pais como animais – macaca e besouro – e vivendo com eles uma grande aventura como forma de conhecê-los melhor e de conviver um pouco mais com eles.

Nos últimos minutos do filme, Kubo and the Two Strings nos deixa mais uma bela mensagem. De que ninguém que morre e “nos deixa” parte de verdade. Como o roteiro de Haimes e Butler bem argumentam, as pessoas continuam vivas enquanto alguém lembrar delas e contar as suas histórias. Além disso, sempre estaremos conectados com as pessoas que partiram. Familiares e amigos que continuam vivos nas nossas memórias, corações, e que estão conectados com a gente em espírito. Belas mensagens. Lindo filme. Desta temporada, a melhor animação que eu vi.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei a direção de Travis Knight de uma delicadeza impressionante. Atento aos detalhes, mas também acertando em dar o ritmo certo para cada sequência, o diretor leva bem para a telona o ótimo roteiro da dupla Marc Haimes e Chris Butler. Além de envolvente, o roteiro acerta ao apostar em um número reduzido de personagens, o que permite que a relação entre eles seja valorizada, e também em equilibrar bem aventura, drama e comédia (com uma boa pitada de ironia).

Este filme marca a estreia do americano Travis Knight, de 43 anos, na direção. No currículo dele havia, até então, oito trabalhos como animador, com ele sempre compondo departamentos de animação. Ele estreou nesta função no ano 2000, no filme feito para a TV Boyer Brothers. Nos últimos anos ele participou de produções como Coraline, ParaNorman e The Boxtrolls. Por este último trabalho ele foi indicado ao Oscar, mas acabou perdendo a estatueta dourada para Big Hero 6.

Interessante como este filme tem alguns astros por trás das vozes dos personagens principais. Destaque para os ótimos desempenhos de Charlize Theron (mãe de Kubo/macaca), Matthew McConaughey (besouro), Ralph Fiennes (Rei Lua) e, claro, o ótimo Art Parkinson (Kubo). Além deles, vale citar o bom trabalho de Brenda Vaccaro, como Kameyo, a senhora idosa que é amiga de Kubo e fala com ele antes de cada apresentação; e de Rooney Mara como as tias de Kubo, ainda que ela tenha poucos diálogos comparado com outros atores. Os atores George Takei e Cary-Hiroyuki Tagawa interpretam a pessoas do vilarejo, sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma um dos grandes destaques é a trilha sonora de Dario Marianelli. Perfeita e muito inspirada. Também achei excelente o trabalho do diretor de fotografia Frank Passingham; do editor Christopher Murrie; e, claro, do excepcional departamento de arte da produção com 34 profissionais e da equipe super talentosa de 90 profissionais do departamento de animação.

Vale citar também o trabalho competente de Daniel R. Casey e Nelson Lowry com o design de produção; de Deborah Cook com os figurinos; dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos especiais e dos 50 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Cada um deles com uma contribuição fundamental para o excelente resultado deste filme.

Kubo and the Two Strings estreou no Festival Internacional de Cinema de Melbourne em agosto de 2016. Depois, o filme participou de outros dois festivais, o de Norwegian e o de Deauville. Até o momento a produção recebeu 15 prêmios e foi indicada a outros 34, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 (que será entregue neste próximo domingo, aliás).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 12 de Melhor Animação entregues pelas associações de críticos de cinema de Atlanta, Austin, Boston, Chicago, Flórida, Indiana, Las Vegas, Nova York, Phoenix, San Diego, Utah e de Washington. O filme também foi reconhecido como a Melhor Animação no Village Voice Film Poll, pela associação de críticos de cinema online e, um dos prêmios mais importantes da temporada, como Melhor Animação pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O Demônio Skeleton, que é inspirado no Gashadokuro do folclore japonês, é o maior boneco de stop-motion já construído para um filme. Ele tinha 16 pés – cerca de 5 metros – de altura. Aliás, vale continuar assistindo ao filme mesmo depois que a história termina, porque após os créditos principais aparecem algumas ilustrações e também a equipe montando o Demônio Skeleton e começando a utilizá-lo em algumas cenas.

Com 1 hora e 41 minutos de duração, Kubo and the Two Strings é o filme de stop-motion mais longo da história. Ele acabou batendo Coraline por um minuto.

Para vocês terem uma ideia da dificuldade de fazer uma produção como esta, apenas a sequência do barco levou 19 meses para ser filmada. O personagem de Kubo rendeu 23.187 protótipos de rostos para satisfazer a todas as necessidades do personagem. Destes rostos, foram mapeadas 48 milhões de possíveis expressões faciais para o personagem.

Esta produção foi possível com a utilização de pelo menos 145 mil fotografias que, depois, foram transformadas em sequências de stop-motion.

Como eu comentei antes, este filme marca a estreia de Travis Knight na direção. Ele é o CEO do estúdio Laika Entertainment, responsável pelo filme. Antes de Kubo and the Two Strings, o estúdio Laika tinha sido responsável por Corpse Bride, pelo curta Moongirl, por vários episódios de Slacker Cats, por Caroline, ParaNorman, The Boxtrolls e por Junior Surveyor/Matchmover.

Kubo and the Two Strings teria custado cerca de US$ 60 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros Us$ 21,9 milhões. No total, pouco mais de US$ 69,9 milhões. Ou seja, até o momento, ele ainda não pagou os custos da produção e da distribuição. Mais uma razão para o filme ser finalista ou até mesmo ganhar o Oscar. Talvez assim ele pudesse ter um “empurrãozinho” para buscar algum lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,4. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção por estarem bem acima da média normal de ambos. Sinal que o filme caiu no gosto da crítica. E eu consigo entender o porquê. 😉

Kubo and the Two Strings é um filme com recursos 100% dos Estados Unidos. Por isso esta produção entra para a lista de filmes que atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo por sua arte e pelas mensagens que vai deixando pelo caminho. O visual da produção é incrível, assim como a maneira com que Kubo and the Two Strings respeita e resgata a tradição oriental. Utilizando muita fantasia, criatividade e arte, este filme nos conta uma trajetória de autodescoberta e de valorização da família e do legado que as pessoas que já partiram desta vida nos deixaram. Para mim, a grande surpresa da animação deste ano. Merece ser descoberto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Kubo and the Two Strings é um dos 27 filmes de animação habilitados para concorrer a uma estatueta dourada no Oscar. Mas observando as bolsas de apostas da premiação as chances da produção avançar na disputa ficam ainda mais evidentes.

De acordo com as pessoas que estão apostando dinheiro nos possíveis vencedores do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Kubo and the Two Strings está concorrendo diretamente com Zootopia. Pois sim. Estes dois filmes seriam os favoritos para levar para casa a estatueta dourada de Melhor Animação.

Francamente, do que eu assisti até agora, Kubo and the Two Strings e Zootopia realmente são os melhores filmes da temporada. Da minha parte, e acho que deixei isso claro com a minha nota, ainda prefiro Kubo. Mas não será também uma grande injustiça se Zootopia levar. Afinal, apesar do primeiro ser muito mais trabalhoso e artístico, preciso admitir que o segundo é um filme muito bem feito e divertido – além de ter o 3D como diferencial em uma disputa com Kubo.

Acho que seria uma grande zebra se Kubo and the Two Strings (assim como Zootopia) ficar de fora do Oscar 2017. Quanto a ganhar a estatueta… ainda que eu torça por ele, acho que será difícil ele vencer da gigante Disney. Veremos quem terá mais bala na agulha. Da minha parte, torço para o “mais fraco” e artístico Kubo and the Two Strings.

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Finding Dory – Procurando Dory

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Alguns personagens marcaram determinados filmes sem que eles fossem os protagonistas da produção. Em Finding Nemo isso aconteceu com a personagem Dory, que roubou a cena. Pois bem, os realizadores resolveram fazer um filme em que ela, finalmente, virou a protagonista. Finding Dory é tecnicamente muito bem feito, além de ser bonito e divertidinho, mas não achei tudo aquilo para fazer deste filme a maior bilheteria dos Estados Unidos em 2016.

A HISTÓRIA: Começa com Dory (voz de Ellen DeGeneres quando adulta e de Sloane Murray na infância) se apresentando. Ela fala o nome e, em seguida, explica que sofre de perda de memória recente. Os pais de Dory, Jenny (voz de Diane Keaton) e Charlie (voz de Eugene Levy), aplaudem a filha e explicam para ela sobre os perigos da correnteza.

Para ajudá-la a lembrar do que eles estão ensinando, eles utilizam a música para ajudar, mas sem muito sucesso. Esta é a infância de Dory antes dela se perder dos pais e acabar encontrando Marlin (voz de Albert Brooks) e Nemo (voz de Hayden Rolence), seus grandes amigos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Finding Dory): Este filme é especialmente interessante para os fãs de Finding Nemo. Afinal, é interessante descobrir mais sobre Dory e perceber, por exemplo, que ela realmente aprendeu a falar “baleiês” na infância.

Como outros filmes que tratam sobre personagens que tem alguma disfunção, Finding Dory ganha um interesse especial por mostrar que a “esquisitona” e engraçada Dory tem uma boa razão para ser “atrapalhada” daquele jeito. Como a personagem aprrece comentando logo nos primeiros minutos deste filme, ela tem uma disfunção na memória que faz com que ela não lembre do que aconteceu no curto prazo.

Os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse, que contaram com o apoio de Bob Peterson e Angus MacLane, acertam ao apostar em uma história linear que começa com a introdução sobre a infância da protagonista, a sua saga por diversos anos tentando encontrar o caminho para casa e, nesta tentativa, o seu encontro com Marlin. Após eles “esbarrarem” na água e Dory ajudar o peixe na saga por resgatar Nemo, aventura vista no filme anterior da grife, logo pulamos um ano no tempo.

Em uma bela manhã, ao ser levada por uma correnteza durante uma aula do Mr. Ray (Bob Peterson), Dory lembra da família e do nome do local onde eles podem estar: Joia do Morro Bay, na Califórnia. Inicialmente Marlin resiste à cruzar novamente o oceano para ajudar Dory, mas ele acaba cedendo por dever de retribuir o favor que foi feito por ela antes.

E assim começa a nova aventura dos personagens. As cenas da equipe envolvida no filme dirigido por Andrew Stanton e Angus MacLane são um verdadeiro deleite e muito bem planejadas para o 3D. As cenas são um esplendor e devem agradar em cheio as crianças, especialmente as mais jovens.

Afinal, tantas cores, texturas e detalhes são mesmo de encher os olhos. Até consigo imaginar os mais jovens com a boca aberta e fascinados por tudo que eles vem. Os personagens, um tanto “infantis”, também ajuda neste processo de identificação das crianças.

Agora, pensando no público adulto, Finding Dory não é tão interessante quanto outros exemplares do gênero. Claro, existe ao menos um personagem mais “complexo” e interessante na produção, que é o polvo Hank (voz de Ed O’Neill).

Ele é o personagem mais complexo, capaz de várias artimanhas para conseguir sair do centro de reabilitação do Instituto de Vida Marinha e ir para um local em que ele não correrá riscos, o aquário de Cleveland. Diferente do mar, onde ele acredita que terá trabalho para sobreviver – no aquário ele terá “vida mansa”.

Bailey acaba sendo um dos grandes parceiros de Dory para achar os seus pais. O filme se resume à procura da personagem, agora alçada à posição de protagonista. Os momentos mais engraçados da produção envolvem o personagem de Bailey, além da sacada da “Sigourney Weaver” com voz gravada logo no início do filme e que a “inocente” Dory acredita que poderá ajudá-la.

Finding Dory tem menos “mensagens” e “moral da história” que Zootopia. O filme é focado, basicamente, na aventura de Dory e de seus amigos para que todos fiquem juntos. As mensagens bacaninhas da história residem na valorização da família que temos quando nascemos, especialmente nossos pais, e da família que “conquistamos” na vida, que são os nossos amigos. Dory ensina que nem uma e nem outra é mais importante, porque ambas ajudam a nos definir e nos enchem de alegria.

A outra mensagem do filme tem a ver com a valorização de cada vida e indivíduo. Em determinado momento Nemo ensina para o pai que Dory lhes inspira, e em um dos melhores diálogos do filme Marlin explica para Dory como a coragem dela, assim como a sua generosidade e desprendimento por ajudar sempre um amigo ou alguém que precisa, faz diferença para a vida deles.

Essa mensagem é bem bacana porque alguns se apressam em classificar as pessoas como “bobas”, “tolas” ou com nomes piores, como poderia acontecer com Dory que, ao ter falta de memória de fatos recentes, podia ser considerada mais frágil mas que, apesar disso, tinha muitas qualidades.

Desta forma muito singela Finding Dory nos mostra que todos tem o seu valor e as suas qualidades, mesmo que elas não sejam padrão ou perceptíveis para todo mundo. São mensagens bacanas para difundir, especialmente para as crianças – quem sabe, assim, teremos menos bullyng e mais aceitação nas escolas e na vida adulta?

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este novo filme com Dory, Marlin e Nemo acerta ao não apostar em muitos personagens. Além dos três personagens já conhecidos pelo filme Finding Nemo, temos os pais de Dory, quase o tempo todo ressurgindo nas memórias de Dory que vão voltando aos poucos, e uma meia dúzia de personagens mais importantes do Instituto de Vida Marinha.

Entre os personagens principais, sem dúvida alguma os destaques são os atores que “dão vida” para Dory e para Marlin, respectivamente Ellen DeGeneres e Albert Brooks. Entre os personagens secundários, o destaque principal é Ed O’Neill como Hank. Merecem aplausos também Kaitlin Olson como a baleia Destiny, amiga de infância de Dory, e Ty Burrell como o tubarão Bailey, que ajuda Dory a se localizar.

Em papéis menores e mais “maduros”, que merecem ser mencionados, estão Idris Elba e Dominic West como as focas-marinhas Fluke e Rudder, respectivamente, que ajudam Marlin e Nemo a procurar Dory e, depois, perto do final, também dão uma forcinha para a missão libertadora da protagonista. Grandes nomes envolvidos na produção e que, certamente, ajudaram a atrair atenção do público para o filme.

Da parte técnica do filme, destaque para a trilha sonora de Thomas Newman, para a edição de Alex Geddes e, claro, para o ótimo trabalho da equipe de 54 profissionais envolvidos no departamento de animação. Foi fundamental para o resultado final da produção também o trabalho de Steve Pilcher no design de produção; de Bert Berry e Don Shank na direção de arte; de Jeremy Lasky na direção de fotografia; dos seis profissionais envolvidos com o departamento de arte e dos 59 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Finding Dory foi lançado 13 anos depois de Finding Nemo, produção de 2003 dirigida por Andrew Stanton e Lee Unkrich que ganhou 47 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Animação em 2004. Faz tempo que eu assisti ao filme, mas a impressão que eu tenho é que o original foi melhor que a sequência focada em Dory.

A première de Finding Dory foi feita em Los Angeles em junho de 2016. Na trajetória do filme até o final do ano estiveram três festivais de cinema. Até o momento, Finding Dory ganhou dois prêmios e foi indicado a outros 26. A produção foi reconhecida como Choice Summer Movie e Choice Summer Movie Star Female para Ellen DeGeneres no Teen Choice Awards. Por outro lado, a produção foi esquecida pelo Globo de Ouro. Sinal de que ela pode chegar um tanto enfraquecida no Oscar 2017.

Finding Dory teria custado cerca de US$ 200 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 486,3 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele faturou praticamente outros US$ 541,5 milhões. No total, pouco mais de US$ 1 bilhão. Ou seja, mesmo custando caro, ele conseguiu ter um bom lucro, além de surpreender por ter terminado 2016 como o filme com a maior bilheteria dos Estados Unidos.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o personagem de Hank tem apenas sete tentáculos porque os animadores perceberam que eles não conseguiam fazer o personagem com oito membros. Desta forma, a solução foi justificar a ausência de um tentáculo no roteiro.

Esta é para os aficionados pelos filmes da Pixar: a placa do caminhão, CALA113, faz referência à sala de Cal Arts onde muitos dos profissionais do estúdio trabalharam, de sigla A113, e que aparece em todos os filmes da Pixar.

Alguns personagens de outros filmes da Pixar podem ser vistos entre os visitantes do Instituto de Biologia Marinha, como as crianças das creches de Toy Story 3, alguns adultos e adolescentes vistos em Inside Out, e alguns dos pacientes do dentista de Finding Nemo.

Além de ser a maior bilheteria de 2016 nos Estados Unidos, Finding Dory também se consagrou como o filme de animação com a maior bilheteria da história do país, desbancando desta posição Shrek 2, de 2004.

Interessante uma ponderação dos realizadores de Finding Dory. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta produção conta a história de Dory procurando os seus pais mas, em última análise, ela está procurando a si mesma, à sua própria identidade – por isso o título de “Finding Dory” seria justificado. Não deixa de ser verdade. Sempre que procuramos as nossas origens estamos procurando mais sobre nós mesmos.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso Finding Dory passa a fazer parte da lista de produções que atende a um votação feita aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 250 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,6. Apesar das notas e do nível de aprovação dos dois sites estarem acima da média para as duas fontes de informação, eles estão abaixo das avaliações de Zootopia.

CONCLUSÃO: Um filme bacaninha, mas nada além disso. Sem dúvida fez diferença eu ter assistido a Zootopia um dia antes de Finding Dory. Como os dois são concorrentes diretos no Oscar 2017, impossível não compará-los. E aí posso dizer sem medo: Zootopia é melhor. Finding Dory vale para um público mais infantil e, sem dúvida, para os super fãs de Finding Nemo. Como eu não faço parte de nenhum destes públicos, achei o filme bacaninha, mas apenas mediano. De qualquer forma, ele é divertido, ainda que fique muito atrás também neste quesito de Zootopia.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Será bem difícil a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ignorar no Oscar 2017 a maior bilheteria de 2016. Provavelmente Finding Dory será indicado – algo que não aconteceu no Globo de Ouro. Até porque os jornalistas responsáveis pelas indicações e pelos premiados tem uma preocupação muito menor com o “mainstream” do que os votantes da Academia.

Assim, pela força das bilheterias de Finding Dory, ele deve chegar à lista dos cinco finalistas na categoria Melhor Animação. Mas sejamos francos: ele não tem as qualidades e a força de Zootopia para levar o prêmio. Seria uma injustiça se ocorresse o contrário. A única maneira de Finding Dory vencer nesta disputa direta com Zootopia seria o lobby e a força do dinheiro contarem mais alto. Espero que isso não aconteça.

Ainda é cedo para dizer que Zootopia é o favorito, porque falta assistir aos outros concorrentes, mas após conferir Finding Dory eu posso dizer com tranquilidade que Zootopia leva vantagem neste confronto direto. E com sobras, ao menos para o meu gosto.