Max Manus


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Os acontecimentos envolvendo a 2ª Guerra Mundial não páram de render filmes – em Hollywood e em outras indústrias pelo mundo. Em 2008, Defiance foi lançado dentro de uma “onda” de revisão histórica ao mostrar um aspecto pouco conhecido da guerra: a resistência de judeus aos nazistas. Max Manus, produção de 2008 que chegou apenas este ano no mercado internacional, segue a mesma linha de revisão histórica. Menos “heróico” que Defiance, o filme norueguês dirigido por Joachim Ronning e Espen Sandberg destaca o heroísmo e a fragilidade de um líder que, ao perder seus amigos, questiona a validade de seus próprios atos. Um filme menos hollywoodiano e mais realista, ainda que ele só cresça realmente muito perto do final.

A HISTÓRIA: Através da reprodução de reportagens em diferentes jornais desde 1923, o filme reproduz alguns dos fatores que antecederam a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. O mesmo recurso é utilizado para mostrar a invasão da Polônia e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido contra Hitler. Mas a ação propriamente dita começa com o protagonista Max Manus (Aksel Hennie) luta do lado dos finlandeses durante a invasão russa no país vizinho. Manus começa sua trajetória na guerra em março de 1940 como um dos voluntários noruegueses na frente de batalha finlandesa. Apenas três meses depois, ele e um grupo de amigos conversam em Oslo, capital da Noruega, sobre a importância de criarem um grupo de resistência em seu próprio país – que havia sido invadido pelos nazistas nos meses precedentes. A partir deste momento, o espectador é apresentado a história deste grupo de resistência que atuou até o final da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Max Manus): Sempre que uma leva de produções trata, basicamente, do mesmo assunto, o espectador fica um tanto “cansado” e com a sensação de “mais do mesmo”. Não sendo o promeiro filme dentro da lógica de “revisão histórica” da 2ª Guerra Mundial, Max Manus sofre um pouco com esta impressão. Mas o filme, pouco a pouco, vai se mostrando diferente dos demais. Para começar, ele se mostra importante para a cultura de seu país de origem.

Apenas o tempo pode nos fazer olhar de maneira diferente para um fato determinado. Lá pelas tantas na história de Max Manus, o protagonista comenta, ao ler uma notícia em um jornal, como os “vitoriosos” em uma guerra podem, rapidamente, transformar “patriotas” em “terroristas”. Seu melhor amigo, Gregers Gram (Nicolai Cleve Broch), confirma que sim, e continua escrevendo um manifesto dos chamados “terroristas/patriotas” em resposta a esta versão oficial nazista. Uma das contribuições interessantes do filme é esta reflexão sobre a importância, na mesma proporção, da ação e do discurso para que um ideal revolucionário tenha êxito. Afinal, quem pretende mudar um sistema ou uma realidade deve saber que, quem está no poder, também utiliza estes meios para conseguir sua supremacia.

Mas a questão da propaganda, seja nazista ou revolucionária, é um dos assuntos secundários do filme. O núcleo narrativo do roteiro de Thomas Nordseth-Tiller gira em torno das ações da 1ª Companhia Norueguesa Independente, treinada na Escócia, e que atuou especialmente em missões de sabotagem contra o comando nazista em seu país invadido. Max, Gregers e outros homens passaram a investir contra os invasores de seu país. A partir de abril de 1943, com o apoio de seu grupo de amigos em Oslo, Max e Gregers deram início a suas missões.

A história do grupo liderado por Max Manus é interessante e, realmente, heróica. Imagino que os noruegueses sentiram uma emoção especial ao assistir a esse filme – o que justifica, também, a sua indicação para a disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Mas além de contar uma história de resistência e que tem importância para os noruegueses, Max Manus se revela um filme muito bem acabado tecnicamente.

O espectador conhece paisagens simplesmente belíssimas através de uma direção de fotografia impecável de Geir Hartly Andreassen. A trilha sonora de Trond Bjerknes também é perfeita e muito bonita, trabalhando todo o tempo para ressaltar os momentos mais dramáticos do roteiro. Através da história do grupo de resistência norueguês o público confere algumas das paisagens mais bonitas daquele país e da Escócia. A narrativa de Max Manus é linear, mas intercalada por alguns flashbacks do protagonista que parece “assombrado” (ou seria “inspirado”?) por sua experiência no campo de batalha finlandês. Merece destaque também o figurino assinado por Manon Rasmussen.

Ainda que centrado em um personagem, o que dá nome ao filme, Max Manus abre muito espaço para os demais participantes do grupo de resistência contra os nazistas. O contraponto ao “herói norueguês” que apenas quer o seu “país de volta” é o oficial nazista Siegfried Fehmer (Ken Duken) que, desde a corajosa fuga de Manus do hospital em que ele estava internado, empreende uma caçada contra o líder da resistência. Como em Defiance, no filme de Ronning e Sandberg há espaço para o romance. Manus conhece, através de seu amigo Gregers, a Tikken (Agnes Kittelsen), uma funcionária do consulado britânico em Estocolmo – para onde os amigos se dirigem sempre que completam uma missão.

Baseado em fatos reais, Max Manus esclarece, nos créditos finais, o que aconteceu com seus principais personagens após o fim da guerra – um recurso conhecido e quase “obigatório” em histórias do gênero. Sabemos, graças a ele, que o romance entre Manus e Tikken foi real – o que não impede, como ocorreu antes com Defiance, que esta história de amor se torne um bocado deslocada do restante da narrativa. Por outro lado, algo importante, como a influência determinante dos ingleses neste movimento de resistência norueguês ganha pouco espaço e é abordado de forma bastante superficial pelo roteiro de Nordseth-Tiller. Algo comprensível, já que estamos falando de um filme que ajuda no resgate do “orgulho norueguês” durante a 2ª Guerra Mundial.

A maior parte do tempo, Max Manus se mostra apenas correto – e envolvente, ao ter sua história bem narrada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas o que torna este filme diferente de outras produções do gênero é a sua reflexão perto do final, quando o protagonista não sabe o que fazer de sua vida depois de ter “vencido” a guerra. Sozinho em um salão de festas, ele percebe que perdeu praticamente todos os seus amigos e que não tem com quem celebrar a queda dos nazistas. A sequência que começa com Manus visitando ao prisioneiro Fehmer e que termina com sua conversa com Tikken é realmente de arrepiar. O grande momento do filme, sem dúvida, e que faz com que o mesmo valha a pena. Afinal, de que serviu tantas batalhas se as pessoas que eram importantes para ele haviam morrido? Claro que a história não termina ali e, com o tempo, Manus perceberá que sim, o esforço teve um significado maior.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante de Max Manus é que ele não procura transformar os seus personagens em heróis instantâneos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Claro que Manus, em especial, é visto como um sujeito valente e destemido mas, desde o início, do outro lado da balança destas suas qualidades, fica muito evidente que ele era um rapaz jovem, descuidado e um tanto inconsequente. Manus tinha menos ideais (e/ou visão política) que seu amigo Gregers Gram. Sujeito simples, sem uma formação intelectual mais densa, Manus queria que tudo voltasse a como era antes da invasão nazista. Empolgado com a insatisfação de seus amigos, ele viu na resistência uma oportunidade de ser útil e, ao mesmo tempo, lutar ao lado dos garotos com quem cresceu. Mas ao mesmo tempo em que ele era capaz do gesto mais heróico, era capaz também de atirar em si mesmo – em um acidente que foi decisivo para seu grupo. O filme mostra, assim, como normalmente os “heróis” de cada país não passam de sujeitos comuns que souberam, sob determinadas circunstâncias, ter uma atitude correta.

Como comentei rapidamente antes, o movimento de resistência à invasão nazista na Noruega recebeu uma influência e um apoio decisivos do Reino Unido. Para os ingleses, a Noruega era um ponto estratégico na guerra contra os nazistas, especialmente devido a sua proximidade com a costa britânica.

Interessante que aqui é possível encontrar várias informações sobre a Noruega, em um portal do país feito para o Brasil por sua embaixada. Por ali é possível saber um pouco mais sobre o Rei Harald, atual líder do país, que segue o regime de monarquia constitucional.

Para os interessados neste capítulo da 2ª Guerra Mundial, deixo aqui um link para um texto interessante de um portal específico sobre aquele período histórico.

Pelo roteiro de Max Manus, parece um tanto “forçada” a relação entre o oficial nazista Siegfried Fehmer e a norueguesa Solveig Johnsrud (Viktoria Winge). Mas a verdade é que ela se mostra condizente com o que ocorreu na época. Segundo esta reportagem da BBC, durante a guerra “os nazistas incentivavam uniões entre soldados alemães e mulheres norueguesas como parte do plano para criar uma raça superior ariana, com bebês de olhos azuis e cabelos loiros para o Reich de Mil Anos”.

Todo o elenco de Max Manus está bem – ainda que, pessoalmente, eu não tenha visto nenhum grande destaque. Além dos atores já citados, vale a pena destacar o trabalho de Mats Eldoen como Edvard Tallaken, um dos envolvidos no movimento de resistência norueguesa e que foi condecorado com a Cruz de Guerra; Kyrre Haugen Sydness como Jen Christian Hauge, o contato de Manus e de seus amigos com o governo inglês; Christian Rubeck como Kolbein Lauring, um dos sobreviventes do grupo inicial formado por Manus; e Knut Joner como Gunnar Sonsteby, participante da resistência como articulista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para o filme. Os críticos foram mais generosos com a produção. O site Rotten Tomatoes, que divulga links para diferentes críticas disponíveis na internet, por exemplo, revela 12 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 86%.

Uma das críticas positivas para Max Manus foi escrita por Peter Brunette, conhecido articulista da Hollywood Reporter. Neste link é possível ler seu texto original, no qual ele comenta que o filme segue uma linha “clichê-normal” de histórias do gênero. Para Brunette, Max Manus consegue, basicamente, duas coisas: se aproximar do padrão de Hollywood em relação a uma qualidade de produção elevada (o que garante cenas de ação interessantes e repetitivas) e, perto do final do filme, apresentar um desânimo profundo de seu protagonista quando, finalmente, ele toma uma pausa em suas ações para dar-se conta de que perdeu todos seus amigos. O crítico avalia que o filme sempre se mostra interessante, e ressalta o interesse na discussão entre a eficácia da propaganda para “ganhar a opinião pública” e as ações diretas contra os nazistas que resultam na morte de vários civis. Brunette resume, no final: “nada disto é novo, mas funciona”.

Outro comentário positivo para o filme (que pode ser lido neste link) foi publicado no The Sun Online. O texto ressalta que Max Manus é um bom filme de guerra à moda antiga no qual se destaca a escolha por uma trama tensa de espionagem em lugar de cenas de batalha em que predomina o recurso da computação gráfica. A crítica destaca ainda o trabalho do ator Aksel Hennie, que dá a profundidade exata para o protagonista – diferente de outros atores que primam por uma interpretação superficial, como Ken Duken e seu nazista Siegfried Fehmer (que acaba ficando estereotipado, segundo o The Sun).

Max Manus estreou na Noruega em dezembro de 2008. Este ano, o filme participou de três festivais, incluindo o de Toronto, e estreou no circuito comercial de três países. Em 2010 ele chegará até a Dinamarca e a Alemanha.

Até o momento, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado ainda a outros quatro – todos no Amanda Awards, o principal prêmio de cinema da Noruega. Max Manus recebeu, no Amanda de agosto deste ano, os prêmios de melhor filme, melhor ator para Aksel Hennie, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor atriz coadjuvante para Agnes Kittelsen e melhor direção de som.

Uma curiosidade da produção: para as cenas em que apareciam soldados nazistas foram utilizados até 1,8 mil figurantes.

Max Manus custou 50 milhões de Krone norueguês – o que equivaleria a quase US$ 9 milhões. Depois de estrear nas salas de seu país, Max Manus se tornou o recordista nas bilheterias em sua semana de estréia: ele foi visto por 184,2 mil espectadores, superando a marca conquistada anteriormente por Kautokeino-opproret.

Pouco depois de Max Manus estreiar na Noruega, o roteirista Thomas Nordseth-Tiller foi diagnosticado com câncer. Ele morreu vítima da doença em maio deste ano.

Ah, e depois de assistir a este filme, me vejo obrigada a diminuir um pouco a nota de Defiance. Para ser mais justa. 😉

Max Manus é uma co-produção da Noruega, da Dinamarca e da Alemanha.

CONCLUSÃO: Inspirado em fatos reais do movimento de resistência norueguês durante a ocupação nazista daquele país, Max Manus é um filme mais realista do que Defiance. Nele, é possível perceber como os “heróis” da história são sujeitos comuns que valorizam a liberdade de seu país na mesma medida em que defendem os laços de amizade de seu grupo. Com belíssimas paisagens, uma trilha sonora envolvente e um roteiro e uma direção corretos, Max Manus contribui para a recente revisão histórica dos fatos envolvendo a 2ª Guerra Mundial. Narrado de forma linear, com algumas inserções de flashbacks do protagonista, o filme só peca por deixa suas reflexões mais importantes restritas aos minutos finais – em uma busca, provavelmente, por seu “grand finale”. Ainda assim, é uma história interessante de ser conhecida.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Sucesso na Noruega, Max Manus dificilmente terá o mesmo apelo em outros países. Por isso mesmo, e por se tratar de uma história um tanto “repetitiva”, dificilmente esta produção conseguirá figurar entre as cinco finalistas para o próximo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, se acaso ela chegar até lá, não acredito que terá a força para vencer a “favoritos” como Un Prophète ou Das Weisse Band.

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5 comentários em “Max Manus

    1. Olá Misrael!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Que bom que você gostou do filme. Eu também achei ele muito interessante e bem feito, e concordo que merece ser assistido.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário, e espero que voltes por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

      Curtir

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