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The Martian – Perdido em Marte

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Dificuldades e desafios sempre vão aparecer pela frente. Algumas vezes eles são tão grandes e decisivos que ameaçam a nossa vida. Nestes momentos, alguns indivíduos parecem crescer e se tornam maiores. Conseguem superar a dificuldade ou o desafio para sobreviver. The Martian é uma ficção, mas ela nos conta uma destas histórias inspiradoras que trata do espírito da superação e da busca pela sobrevivência a qualquer preço.

A HISTÓRIA: Imagens do planeta vermelho. Uma terra ainda inóspita e desabitada. A parte denominada Acidalia Planitia foi utilizada pela missão Ares III da Nasa como local de pouso. Começamos a acompanhar o dia da missão relacionada ao sol 18. Um dos astronautas, Mark Watney (Matt Damon), comenta com a equipe que o solo está mais fino na seção 29, o que deve facilitar as futuras análises.

Ele está recolhendo diversas amostras do solo de Marte. Outro astronauta, Rick Martinez (Michael Peña), tira sarro da descoberta e Watney pergunta o que de importante ele irá fazer no dia, talvez verificar se a VAM (veículo utilizado pela tripulação) segue no mesmo local. Em breve, uma tempestade fará o grupo de astronautas sair de Marte, exceto por um deles que sofre um acidente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Martian): Os leitores que me acompanham aqui no blog há mais tempo sabem que eu tenho algumas manias. Uma delas é não assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los. Outra é de evitar o máximo possível ler qualquer coisa a respeito deles antes de conferir a produção. Segui estas regras mais uma vez ao ver The Martian.

Sendo assim, a minha primeira surpresa foi me deparar, logo nos minutos iniciais, com um elenco tão bom e que parece ter sido reunido à dedo para The Martian. Ainda que grande parte do filme seja focado no solitário personagem de Matt Damon, o elenco de apoio é um verdadeiro deleite. Sem contar que o próprio Matt Damon está muito bem em seu papel – talvez um dos melhores de sua carreira até agora.

A segunda surpresa ao assistir ao filme foi a qualidade das imagens da produção. O diretor Ridley Scott reuniu uma equipe de primeira linha para conseguir fazer um filme impecável de ficção científica com o que há de melhor atualmente em tecnologia para o cinema. E tudo isso a serviço de uma grande história. Drew Goddard faz um belo trabalho no roteiro desta produção – texto baseado no livro homônimo de Andy Weir.

Vencedor da categoria Melhor Filme – Musical ou Comédia no Golden Globes deste ano, The Martian também me surpreendeu por não ser um filme de comédia. Claro que há humor na produção, mas esse humor é inteligente, não é forçado e nem é o ponto forte do filme. Há bastante ação, aventura e drama além da evidente ficção científica. Definitivamente não acho que The Martian pode ser considerado uma comédia pura e simplesmente.

Feitas estas observações, quero dizer que The Martian foi uma grande surpresa. Tanto pela excelência técnica da produção quanto e principalmente pela qualidade do roteiro e da equipe envolvida no projeto. Gostei demais do texto de Goddard. E a direção de Ridley Scott é impecável em cada detalhe. Não teve nenhum momento em que o filme me deu sono ou “preguiça” de assisti-lo. Pelo contrário. Mesmo tendo duas horas e 24 minutos de duração, The Martian tem um bom ritmo e prende a atenção do espectador do primeiro até o último minuto.

Claro que há muitas cenas que são um pouco “forçadas”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o protagonista ter sobrevido aos ferimentos causados por aquele pedaço de antena que ficou enfiado em seu corpo. Se o pedaço tivesse atravessado uma perna ou um braço dele, tudo bem. Teria resolvido o que ele fez – inclusive aqueles grampos. Mas a tal antena atravessou a barriga dele, atingindo, não há dúvida, algum órgão interno. Pelo local de entrada do objeto, provavelmente o intestino. Sério mesmo que ele não teria, sem uma operação, uma hemorragia interna e morreria disso em alguns dias?

Mas aí vale aquela regra de quando assistimos filmes de ação ou de ficção científica: não dá para exigir que tudo que vemos seja lógico. Se pedíssemos isso não existiram produções como Mission Impossible. Então vamos combinar de dar diversos descontos para alguns fatos que acontecem em The Martian – além do citado, acho que chama mais a atenção a viabilidade das “coberturas” com plástico que Watney faz para sobreviver na estação em que ele está vivendo em Marte e depois na cápsula que vai levá-lo para fora do planeta vermelho.

Se tivermos boa vontade e dermos descontos para estes “tropeços” da história, podemos nos centrar no que importa mesmo em The Martian. A grande mensagem do filme é a de não desistir nunca. Você foi preparado, é inteligente e tem diversos instrumentos para encontrar soluções para os seus problemas. Então você tenta, acerta e erra, e quando algo dá errado, volta a tentar. Watney encarna o espírito de todo cientista, especialmente aqueles envolvidos em missões espaciais. E este é um diferencial desta produção.

Como você eu já vi a diversos filmes de ficção científica. Mas nunca, antes de The Martian, assisti a um que tratasse tanto do espírito do astronauta. Como Watney deixa bem claro no final, eles sempre estão em situações extremas e em locais nada amigáveis ou propícios para a vida. Muitas vezes eles tem que lutar para sobreviver. Para isso, devem estar muito bem preparados. Sempre que encontram um problema, devem encontrar uma solução para ele. E, desta forma, tentar sobreviver sempre e completar as suas missões.

Os astronautas são a elite dos cientistas – ou parte dela, pelo menos. Não por acaso é tão difícil e competitiva a seleção de astronautas. Não lembro de ter visto a outro filme que tratasse tão bem do perfil deles e dos bastidores da Nasa. Afinal, lá pelas tantas, Watney consegue se comunicar e a trama se divide entre o que acontece em Marte e o que acontece na Terra. Esse é outro ponto interessante deste filme. Não ficamos assistindo a um homem solitário falando com a câmera (no fundo, o público que está assistindo ao filme) o tempo todo, ao estilo de Cast Away. Não.

O que vemos é uma dinâmica muito interessante entre o que acontece em Marte e na Terra e, em certo ponto, inclusive com uma terceira linha narrativa, a da nave com a equipe de astronautas comandada por Melissa Lewis (Jessica Chastain). Em cada realidade destas há problemas acontecendo e exigindo escolhas dos personagens envolvidos.

Em Marte, Watney dá um banho de como ter uma atitude adequada frente a uma situação complicada. Ele encara as situações com humor e com sabedoria, tentando aprender e se superar a cada momento. Na Terra, o diretor da Nasa Teddy Sanders (Jeff Daniels) lidera uma equipe diversificada e tem diversas questões que analisar, inclusive o orçamento e a política. Ao lado dele, destaque para o ético Mitch Henderson (Sean Bean) e para o supercompetente e preocupado com cada etapa dos planos envolvendo Watney, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor).

E, finalmente no espaço, na viagem de retorno para a Terra, os colegas de Watney estão no escuro por uma parte da viagem até que ficam sabendo que ele sobreviveu. Em certo momento eles devem decidir se voltam para buscá-lo ou não. Eles próprios tem os seus desafios e o risco de perder o que mais amam.

Envolvente e bem escrito, o roteiro deste filme surpreende e convence – descontados aqueles detalhes. O texto tem algumas tiradas muito boas, especialmente as referências nerds. Matt Damon, como eu disse antes, está ótimo, assim como o estrelado elenco de coadjuvantes. Todos estão muito bem e convencem. A produção também é impecável e cheia de detalhes nos três ambientes.

Ridley Scott dá uma aula de direção. Para diferentes momentos da produção ele utiliza distintas técnicas e elementos de filmagem. Todos se justificam e se explicam. Nas cenas no espaço, o filme não deixa nada a desejar para o elogiado Gravity. Aliás, impossível não lembrar da produção de Alfonso Cuarón que ganhou sete estatuetas do Oscar (e que foi comentada aqui). Pessoalmente, prefiro muito mais The Martian – gosto pessoal, evidentemente. Em termos de qualidade técnica e entrega de elenco, The Martian é tão bom quanto Gravity – ou superior.

Honestamente, gostaria de não dar uma nota tão efusiva quanto a abaixo para esta produção. Pensei muito, mas não vi nenhuma grande falha que pudesse ser apontada. Também levei em conta não apenas as qualidades desta produção, mas o efeito que ela teve em mim. Gostei e me surpreendi com a narrativa, assim como com os outros elementos. E quando eu não consigo achar um defeito em um filme e ele me toca por sua mensagem, dá nisso.

NOTA: 10 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que The Martian não chamou a minha atenção antes dele ser indicado e ganhar em diversas categorias do Globo de Ouro e, principalmente, de ser indicado ao Oscar. Como vocês que me acompanham sabe, todos os anos me esforço para assistir ao máximo de filmes que concorrem ao Oscar. Primeiro porque eu respeito e admiro a premiação. Depois porque eu acho que ela nos ajuda a encontrar alguns filmes realmente bons. Qual a minha surpresa, ao ser “obrigada” a assistir The Martian – especialmente porque ele concorre a Melhor Filme -, que ele era tão bom. Merece estar nas listas dos críticos entre os melhores de 2015, sem dúvida.

Ridley Scott é um grande diretor. Um dos grandes de Hollywood. Mas ao mesmo tempo que ele foi capaz de nos apresentar grandes produções como American Gangster, Hannibal e Gladiator – para falar das mais recentes – e clássicos insuperáveis como Blade Runner e Alien, nos últimos anos tive um pouco de preguiça de assistir a produções dele que não foram nada bem na avaliação de crítica e público como Exodus: Gods and Kings, The Counselor ou Robin Hood. Sou franca em dizer que não assistir a nenhum destes. Scott estava me dando uma certa “preguiça” ultimamente. Mas parece que ele voltou à boa forma com The Martian. Que bom! Esperamos que ele siga nesta maré nas próximas produções.

Falando em voltar à boa forma, Matt Damon também está incrível nesta produção. Ele fará uma boa queda-de-braços com Leonardo DiCaprio no Oscar – ainda que, me parece, o protagonista de The Revenant leva uma boa vantagem na disputa. Mas não seria injusto premiar a Matt Damon. Veremos.

Sobre o elenco de The Martian, vale citar os outros nomes envolvidos no projeto e que são fundamentais para dar qualidade para a produção – eles se saem muito bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou quase uma ponta: Kristen Wiig como Annie Montrose, relações públicas da Nasa; Kate Mara como a astronauta Beth Johanssen, especializada em sistemas e a “nerd” da turma; Sebastian Stan como o astronauta Chris Beck, responsável mais pela parte operacional da missão no espaço – ele que sai para fazer manutenções fora da nave, por exemplo; Aksel Hennie fecha o grupo de astronautas da missão de Watney como Alex Vogel; Benedict Wong como Bruce Ng, que lidera o grupo responsável por construir as naves e o módulo que vai levar alimentos para a sobrevivência de Watney; Mackenzie Davis como Mindy Park, a operadora que descobre que Watney está vivo; e Donald Glover como Rich Purnell, o super nerd que faz os cálculos e descobre que a nave que está indo para a Terra pode retornar para Marte e buscar Watney.

Aliás, agora eu vou me dar o direito de fazer um comentário bem nerd. Além de adorar filmes, eu tenho um fraco por séries de TV. Então foi um prazer rever nesta produção quatro atores que eu gostei muito de acompanhar em quatro séries distintas. Jeff Daniels, astro de The Newsroom – série infelizmente cancelada após a terceira temporada; Sean Bean, ator consagrado como o Ned Stark de Game of Thrones; Kate Mara, a Zoe Barnes de House of Cards; e o figuraça Donald Glover, da genial e cancelada Community. Também foi um prazer rever em cena tão bem a ótima Jessica Chastain e o ator Michael Peña.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, The Martian teve cenas na Jordânia, na Hungria e nos Estados Unidos. As cenas de Marte, claro, foram rodadas em Wadi Room, na Jordânia, que tem um deserto de cor vermelha. As cenas da Nasa foram feitas no Johnson Space Center, nos Estados Unidos, e as de interior na Hungria.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O livro que inspirou The Martian tem uma história interessante. Andy Weir publicou a história pela primeira vez, apenas para se divertir, em seu blog. Aos poucos as pessoas pediram para ele colocar a história de alguma forma para download. Até que ele colocou a história para download na Amazon Kindle ao custo de US$ 0,99.

Ridley Scott filmou as cenas individuais com Matt Damon durante cinco semanas seguidas, para que o ator ficasse mais livre após estas filmagens. Desta forma, Damon se encontrou com muitas pessoas do elenco apenas quando o filme foi promovido.

Agora, uma dúvida que eu tive e certamente você teve no final do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção ainda). Matt Damon realmente emagreceu dezenas de quilos para aparecer tão magro na reta final de The Martian? O ator gostaria de ter feito isso, de ter emagrecido para aparecer inclusive nas cenas finais, mas Ridley Scott lhe proibiu. No lugar dele foi utilizado um dublê de corpo na sequência em que ele aparece nu de costas e bem magro.

No livro de Weir, Mark Watney tem dois mestrados, um em botânica e o outro em engenharia mecânica. No filme é citado apenas o PhD dele em botânica – ainda que fique claro, pelos fatos, que ele entende de engenharia, mas isso não fica claro no roteiro como está no livro.

Interessante que durante o filme, quando Watney pensa em plantar batatas, logo de cara eu pensei: “Certo, e a água para isso?”. Na sequência veio a resposta para a minha dúvida – bastante criativa, diga-se. Agora, algo interessante sobre a realidade superando a ficção. Quatro dias antes do filme ser lançado nos cinemas, a Nasa revelou que tinha encontrado provas de que ainda há água salgada em Marte. Ou seja, a questão da água seria ainda mais fácil para um possível Watney no planeta vermelho – bastaria dessalinizá-la para usar em um cultivo ou consumir bebendo.

A missão a Marte mostrada no filme emularia missões reais que a Nasa está planejando para o futuro.

Parece incrível, mas The Martian foi filmado em apenas 72 dias.

Um dia ou “sol” em Marte é cerca de 37 minutos mais longo do que um dia na Terra. O ciclo sono-vigília do ser humano é de 24 horas e 11 minutos, mas experimentados tem mostrado que ciclos que variam entre 23 horas e 30 minutos e 24 horas e 36 minutos não causam problemas de adaptação para as pessoas, por isso um ser humano não teria grandes problemas para se adaptar no “tempo” de Marte.

O abrigo-barraca em que Watney passa a maior parte do tempo é chamado “hab” (abreviação para Mars Lander Habitat). A Nasa já tem protótipos de habs completos para Marte, com oxigenadores, recuperadores de água e sistemas de portas que protegem os astronautas da atmosfera quase sem ar e com frequentes bombardeios de radiação de Marte.

A paisagem e o ambiente de Marte que vemos no filme foram feitos com a combinação de cenas reais do deserto e computação gráfica.

As cenas exteriores em Marte foram rodadas no Korda Studios em Budapeste, na Hungria. Considerado o maior estúdio do mundo, lá o desenhista de produção Arthur Max pode instalar uma tela verde gigantesca, que ocupou quatro paredes. “Era o espaço suficiente para fazer uma paisagem marciana grande”, comentou Max.

De acordo com as notas de produção do filme, há algumas diferenças entre o livro e a produção de Ridley Scott. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Watney teria passado por bem mais dificuldades do que as que vemos no filme, por exemplo, e quem acaba resgatando ele no espaço foi Beck e não Lewis como aparece no filme. No livro também não há aquela sequência final de Watney como professor na Nasa – a obra termina com ele sendo resgatado e eles voltando para a Terra.

The Martian estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participaria, ainda, dos festivais de Nova York e Bergen. Até o momento o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 124. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme – Musical ou Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Matt Damon no Globo de Ouro; cinco prêmios como Melhor Roteiro Adaptado; por ter aparecido em quatro listas como um dos melhores filmes de 2015; e, finalmente, pelos prêmios de Melhor Diretor para Ridley Scott, Melhor Ator para Matt Damon e Melhor Roteiro Adaptado pelo National Board of Review.

Antes falei do elenco, mas é preciso falar da parte técnica do filme – uma parte fundamental da produção. Além do ótimo roteiro de Drew Goddard, se destacam em The Martian a direção de fotografia de Dariusz Wolski; o design de produção de Arthur Max; a trilha sonora de Harry Gregson-Williams; a direção de arte com nove profissionais; a decoração de set de Celia Bobak e Zoltán Horváth; os figurinos de Janty Yates; o departamento de arte com 93 profissionais; o departamento de som com 29 profissionais; os efeitos visuais que contaram com uma equipe de 30 pessoas; e os efeitos visuais com uma equipe interminável – parei de contar em 300. Nunca vi uma equipe tão grande de efeitos visuais envolvida em um filme. Realmente impressionante.

The Martian teria custado US$ 108 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 227 milhões. No restante do mundo, nos mercados em que a produção já estreou, ele fez pouco mais de US$ 370,5 milhões. Ou seja, até agora, faturou cerca de US$ 597,6 milhões. Nada mal. Um belo lucro, apesar do custo bastante alto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção – uma bela avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 262 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9. A avaliação dos críticos, para mim, poderia ter sido melhor – especialmente a nota. Mas gostos são gostos, não é mesmo?

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos melhores filmes de ficção científica que eu já assisti. Verdade que The Martian tem diversos episódios difíceis de acreditar. Mas é como em filmes de ação. Quem pode exigir que tudo seja verossímil? The Martian tem um grande roteiro, é bem contado e tem um ator esforçado em cena. Há humor inteligente, ação e um certo suspense em cena, além de ótimas sequências de pura ficção científica.

Ainda que seja um filme sobre exploração espacial, ele é, principalmente, uma produção sobre a força do espírito humano e o amor pela ciência. Há nesta produção mais testemunhos sobre o que faz homens e mulheres passarem meses ou anos longe de casa e em situações inóspitas e arriscadas do que em qualquer outro filme. Para mim, foi surpreendente o que The Martian me passou. Uma das surpresas desta reta final para o Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Martian é o terceiro filme com o maior número de indicações no prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele só está atrás de The Revenant (com crítica aqui), indicado em 12 categorias, e de Mad Max: Fury Road (com comentário neste link), indicado em 10.

A produção dirigida por Ridley Scott concorre a Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Visuais. Vejamos cada categoria destas. Em Melhor Edição de Som há grandes concorrentes. Vejo que Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens estão liderando nesta categoria. Ainda que The Martian tenha um grande trabalho aqui. Ainda assim, acho que ele concorre por fora.

Em Melhor Mixagem de Som novamente grandes concorrentes para esta produção. Além de Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens está na parada Bridge of Spies (com crítica aqui). Ou seja, nesta duas categorias The Martian concorre por fora. Não seria injusto ele ganhar, mas ele teria que derrotar os favoritos. Em Melhor Ator, sem dúvida, Matt Damon tem como grande rival Leonardo DiCaprio – para mim, o favorito. Mas, como sabemos, DiCaprio já mereceu um Oscar antes, mas até agora a Academia o esnobou. Veremos se neste ano ele leva a melhor. De qualquer forma, novamente, não seria injusto Damon levar a estatueta. E falando em esnobada… desta vez quem a Academia esqueceu foi Ridley Scott, que acabou não sendo indicado a Melhor Diretor.

Na categoria Melhor Design de Produção The Martian tem dois grandes rivais: Mad Max: Fury Road e The Revenant. Parada dura. Ainda acho que Mad Max: Fury Road leva vantagem aqui também. Em Melhores Efeitos Visuais, talvez aquela equipe gigantesca que eu cite antes façam The Martian levar a estatueta. Para isso, ele terá que vencer os fortes Mad Max: Fury Road, Star Wars: The Force Awakens e The Revenant. Outra disputa entre gigantes.

Como Melhor Roteiro Adaptado o filme tem alguma chance. De fato o roteiro é um dos pontos fortes de The Martian. Mas o mesmo pode ser dito de Room (comentado neste link) e Carol (com crítica aqui). Francamente, fico em dúvida entre eles, mas acho que meu voto iria para Room. Nesta categoria tudo pode acontecer, há chances para os três – vejo menos possibilidade para The Big Short (com crítica neste link). Brooklyn ainda preciso assistir.

E, finalmente, Melhor Filme. Acho que The Revenant e Spotlight estão na frente de The Martian na disputa. Ainda que não seria injusto o filme levar o caneco. A safra está boa neste ano – talvez a produção mais “fraca” na disputa seja Bridge of Spies. Todos os outros, de fato, são muito bem acabados – ainda que Mad Max: Fury Road não tenha “feito a minha cabeça”, ele é muito bem acabado. Será um Oscar interessante de ser assistido.

ADENDO (18/01): Pensei melhor e achei que dar um 10 para o filme seria um pouco de exagero. Por isso reduzi a nota um bocadinho. 😉 De qualquer forma, é uma bela produção. Uma das melhores sobre exploração do espaço que eu já assisti.

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Hodejegerne – Headhunters

Quando você acha que já assistiu a todos os filmes sobre ladrões de obras de arte e/ou objetos tão valiosos quanto impossíveis de serem furtados, aparece um filme como Hodejegerne (ou Headhunters para o mercado internacional). A produção norueguesa, co-produzida pela Alemanha, comprova o que todo amante do cinema já sabia: que aqueles países tem um talento especial para subverter histórias já batidas. Com humor refinado, noruegueses e alemães sabem tornar filmes de ação um compêndio bem planejado de violência, suspense, drama, comédia e outros elementos da vida real sem parecerem forçados ou exagerados. Aventure-se com mais esta produção. Vai valer o teu tempo.

A HISTÓRIA: Um sujeito entra por uma porta. Ele usa luvas cirúrgicas, roupa escura e máscara, e prepara o seu procedimento-padrão. Enquanto isso, fala das regras básicas para um ladrão de obras de arte: conhecer bem a pessoa que ele “está visitando”; nunca gastar mais de 10 minutos; não deixar qualquer resquício de DNA; não perder tempo com uma imitação cara e, por último, que mais cedo ou mais tarde ou você encontrará uma obra tão valiosa que fará você se aposentar, ou você será pego. Corta. Roger Brown (o fantástico Aksel Hennie) se apresenta. Diz ser um homem com 1,68 metro de altura que, consequentemente, precisa de compensações. A primeira delas (não admitida por ele, mas subentendida pelas imagens) é a bela Diana Brown (Synnove Macody Lund). A segunda, a casa de 30 milhões. Brown afirma que para ele ter o que ele quer, a única forma é ter dinheiro. Muito dinheiro. E daí que surge a profissão não oficial dele, de ladrão de obras de arte valiosas. Tudo bem, até que ele esbarra com um competidor bastante perigoso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hodejegerne): Os primeiros minutos deste filme dão uma mostra de tudo que virá em seguida. E o melhor: a “capa do livro” não engana quem se aventura em assistir a esta produção. Em outras palavras: tudo o que funciona bem nos primeiros minutos segue pelo restante da produção.

Por isso, basicamente, Hodejegerne é um deleite. Vejamos. Nos primeiros minutos assistimos a uma edição ágil, uma direção que cuida dos detalhes e busca os melhores ângulos, um roteiro inteligente e irônico, uma direção de fotografia que trabalha para que a melhor imagem seja captada, e um ator principal que dá legitimidade para o personagem. O que mais precisamos para que um filme seja maravilhoso? Que tudo isso continue até o final e que nenhum outro elemento, como os atores coadjuvantes, atrapalhem o conjunto da obra.

Para os amantes do bom cinema, tudo que precisa acontecer de fato acontece nesta produção. Então somos rapidamente apresentados para a lógica do bandido carismático, que também reflete a personalidade de tantos homens modernos que pensam que a saída para as suas limitações e/ou carências seja comprar o que lhes agrada. Ter dinheiro, basicamente, para logo mais acessar tudo o demais. Ledo engano.

E o bacana desta produção é que o que parecia ser uma leitura rasa deste ledo engano tão comum acaba evoluindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não haveria problema, claro, na produção justificar-se apenas pelo cara baixinho – para os padrões noruegueses – que compensa a estatura tendo uma mulher belíssima ao lado (a qual, ele acredita, só foi conquistada, justamente, pelo status dele).

Mas não deixa de ser uma delícia – e o que garante a nota abaixo para a produção – que, além de todas as qualidades técnicas do filme, ele ainda avance no cerne narrativo. Nosso personagem, o bandido que somos facilmente induzidos a amar, afinal de contas, não é um idiota. Ele é movido por sentimentos maiores que uma crise de autoestima. A insegurança dele, afinal, está baseada no fundamento da maioria das inseguranças: o medo da perda da pessoa amada. Muito bom! Eis a cereja do bolo que faltava.

Mas antes desta cereja, claro, há várias camadas de massa (trabalho dos atores), recheio (roteiro) e suspiro (direção e equipe técnica) no meio. O diretor Morten Tyldum conseguiu exprimir o melhor do roteiro dos ótimos Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, que trabalharam a história do livro de Jo Nesbo. Ele dá agilidade para a história que, sozinha, já era envolvente. Por suas lentes, acompanhamos o desfile do talento de Aksel Hennie, bem acompanhado da já citada Lund e do ótimo Nikolaj Coster-Waldau, que está dando um show na série Game of Thrones.

Nada sobra ou falta nesta produção. O diretor de fotografia John Andreas Andersen escolheu lentes que potencializam os contrastes, tornando alguns momentos – como o início da produção – bastante claros, com quase um excesso de luminosidade (mesmo efeito aparece perto da “resolução” da história), versus várias sequências em que os tons mais escuros quase predominam (na fase mais pesada de perseguições).

Os diálogos e a linha de “raciocínio” da ação são ágeis. As conversas seguem uma linha racional e que seriam facilmente “identificadas” em momentos similares na vida real. Há legitimidade nas falas dos atores e, claro, nas suas posturas. Especialmente o protagonista. O editor Vidar Flataukan faz um trabalho primoroso, dos melhores que eu assisti nos últimos tempos. E a trilha sonora… ela própria vira um personagem, desde o princípio.

A parceria de Trond Bjerknes e Jeppe Kaas é fundamental para reforçar a ironia e a agilidade da produção, com uma levada cadenciada e divertida na maior parte do tempo – mas com incursões em músicas no velho estilo suspense quando necessário. A trilha, sem dúvida, é um elemento fundamental e de grande qualidade da produção.

Antes eu comentei sobre algumas reviravoltas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A fundamental é a que explica a obsessão de Clas Greve (Nikolaj Coster-Waldau) em eliminar o protagonista. Inicialmente, parece um crime passional. Mas não. Greve é um estrategista, um militar focado nos objetivos e em suas ordens. Alguém, talvez, possa dizer: “mas para conseguir um emprego a melhor forma seria matar o responsável pela contratação que não queria contratá-lo?”. Claro que havia outras formas, do tipo tirá-lo de cena, simplesmente, com um sequestro. Mas essa não parecia ser a natureza de Greve, que tinha planos ambiciosos para aquele emprego – infiltração que valeria muito dinheiro. E ele, o dinheiro, move a todos nesta produção. O mesmo acontece em muitos outros lugares além do cinema.

E assim, tudo funcionando bem e de forma inventiva, é que Hodejegerne se apresenta. A história, propriamente, além de ser ágil e de cuidar de aprofundar-se no personagem principal, ainda nos reservar algumas reviravoltas e surpresas. Sendo assim, nada mais a acrescentar. Eis mais uma bela surpresa vinda da Europa que, de quebra, surpreende aos que já viram a muitos filmes deste gênero específico (de ação e suspense envolvendo um ladrão de obras de arte) com ideias e enfoques diferenciados. O público agradece.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Hodejegerne é apenas o terceiro longa dirigido por Morten Tyldum. A carreira deste diretor começou em 1996 com o curta Lorenzo. Ele demoraria sete anos para lançar o primeiro longa, Buddy, de 2003. Em sua trajetória, Tyldum acumula oito prêmios e sete outras indicações. Nada mal. Ele merece ser acompanhado, pois.

Além dos atores principais, já citados, vale comentar o belo trabalho de dois coadjuvantes: Eivind Sander como o “parceiro de crimes” de Roger Brown, o agente de segurança apaixonado por uma prostituta Ove Kjikerud; e Julie R. Olgaard como a amante do protagonista, Lotte.

Falando nisso, algo me irritou no personagem principal, construído para fascinar ao público. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com uma mulher como Diana em casa, por que Roger a traia com Lotte? Elementar, meus caros leitores. Ele a traia pela mesma razão idiota que faz qualquer outro homem (e parece que eles são muitos) trair a mulher que ama: com medo de perder o que já tem, eles buscam justamente a pior forma de conseguir isto, arriscando-se para suprir, com a outra mulher, a própria carência. Dá raiva? Certamente. Porque haja tanta burrice… mas, parece, é assim mesmo. Muitos homens não sabem lidar com as próprias limitações. Sem contar que, claro, eles acham a traição algo sem importância – afinal, é apenas sexo. Mulheres pensam diferente – pelo menos, a maioria.

Segundo as notas de produção, este filme faz uma série de referências e homenagens para a trilogia Millenium, de Stieg Larssons. Um exemplo é que Diana está assistindo ao segundo filme da trilogia, em casa, quando Roger chega tarde da noite. Além disso, algumas tomadas aéreas que mostram um carro deslizando por estradas, feitas no filme The Girl with the Dragon Tattoo teriam sido utilizadas em Hodejegerne, com o carro original sendo digitalmente substituído pelo de Roger no novo filme.

Hodejegerne passou por uma dificuldade curiosa. A produção penou para encontrar dois gêmeos idênticos para fazerem os policiais que prenderam Roger. Eles deveriam pesar bastante e serem idênticos. No final, eles encontraram uma dupla que se encaixasse no perfil.

Depois de pronto, o filme foi vendido para 50 países – um recorde, tratando-se de produções norueguesas.

Como acontece na maioria dos filmes europeus de grande qualidade, uma produtora de Hollywood comprou os direitos para refilmar esta história nos EUA. A Summit Entertainment fez isso antes mesmo de Hodejegerne ser lançado.

Esta produção foi totalmente rodada na cidade norueguesa de Nittedal.

Hodejegerne estreou no Festival de Cinema de Locarno em agosto de 2011. Depois, a produção passou por outros 11 festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a três prêmios, mas saiu sem nenhum deles – uma pena e, eu diria, um pouco injusto.

Este filme teria custado cerca de 30,3 milhões de coroas norueguesas – cerca de US$ 5 milhões ou R$ 10,2 milhões. Um gasto baixo, especialmente se comparado com a média das produções hollywoodianas. Esta produção arrecadou, nos EUA, pouco mais de US$ 1 milhão. No restante dos mercados, Hodejegerne teria conseguido quase US$ 14,5 milhões. Nada mal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5. Uma boa avaliação, considerando a avaliação média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 78 críticas positivas e apenas sete negativas, o que garante para Hodejegerne uma aprovação de 92% – e uma nota média de 7,6.

Eu sabia que já tinha assistido a outro filme com o ótimo Aksel Hennie. Olhando na filmografia do ator, lembrei qual foi: Max Manus, filme bem interessante e comentado aqui no blog.

Até assistir a este filme eu nunca havia pensado que o ator Nikolaj Coster-Waldau, que eu assisto com gosto em Game of Thrones – ótima série, aliás – era dinamarquês. Pois sim. Como muitos atores do leste europeu, ele tem um inglês perfeito.

CONCLUSÃO: Qualquer pessoa, não importa o que ela faça da vida, sabe que riscos lhe rodeiam. De onde pode vir o tiro, como sugere uma música do Paralamas. Hoje, diz a música, é cada vez mais difícil saber de que parte esse tiro pode partir. Mas fora o imprevisto, você e eu sabemos dos riscos naquilo que fazemos. Hodejegerne mostra um sujeito que também conhece muito bem os riscos de ser um homem rico que tem como principal fonte de renda o crime. O que ele não previa era que ele virasse alvo de um cara muito mais perigoso. Para nossa satisfação, essa história rende um roteiro primoroso, com todos os elementos necessários para embalar os espectadores por pouco mais de uma hora e meia. Ágil no raciocínio, o roteiro cai como uma luva para o trabalho preciso do diretor. E o ator principal dá um banho, tendo uma parceria importante de dois coadjuvantes igualmente talentosos. O resultado é pura diversão, entretenimento inteligente. E, de quebra, uma eficaz releitura de um gênero que já parecia bastante desgastado – o de filmes de ação que focavam um ladrão de obras de arte.

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Max Manus

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Os acontecimentos envolvendo a 2ª Guerra Mundial não páram de render filmes – em Hollywood e em outras indústrias pelo mundo. Em 2008, Defiance foi lançado dentro de uma “onda” de revisão histórica ao mostrar um aspecto pouco conhecido da guerra: a resistência de judeus aos nazistas. Max Manus, produção de 2008 que chegou apenas este ano no mercado internacional, segue a mesma linha de revisão histórica. Menos “heróico” que Defiance, o filme norueguês dirigido por Joachim Ronning e Espen Sandberg destaca o heroísmo e a fragilidade de um líder que, ao perder seus amigos, questiona a validade de seus próprios atos. Um filme menos hollywoodiano e mais realista, ainda que ele só cresça realmente muito perto do final.

A HISTÓRIA: Através da reprodução de reportagens em diferentes jornais desde 1923, o filme reproduz alguns dos fatores que antecederam a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. O mesmo recurso é utilizado para mostrar a invasão da Polônia e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido contra Hitler. Mas a ação propriamente dita começa com o protagonista Max Manus (Aksel Hennie) luta do lado dos finlandeses durante a invasão russa no país vizinho. Manus começa sua trajetória na guerra em março de 1940 como um dos voluntários noruegueses na frente de batalha finlandesa. Apenas três meses depois, ele e um grupo de amigos conversam em Oslo, capital da Noruega, sobre a importância de criarem um grupo de resistência em seu próprio país – que havia sido invadido pelos nazistas nos meses precedentes. A partir deste momento, o espectador é apresentado a história deste grupo de resistência que atuou até o final da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Max Manus): Sempre que uma leva de produções trata, basicamente, do mesmo assunto, o espectador fica um tanto “cansado” e com a sensação de “mais do mesmo”. Não sendo o promeiro filme dentro da lógica de “revisão histórica” da 2ª Guerra Mundial, Max Manus sofre um pouco com esta impressão. Mas o filme, pouco a pouco, vai se mostrando diferente dos demais. Para começar, ele se mostra importante para a cultura de seu país de origem.

Apenas o tempo pode nos fazer olhar de maneira diferente para um fato determinado. Lá pelas tantas na história de Max Manus, o protagonista comenta, ao ler uma notícia em um jornal, como os “vitoriosos” em uma guerra podem, rapidamente, transformar “patriotas” em “terroristas”. Seu melhor amigo, Gregers Gram (Nicolai Cleve Broch), confirma que sim, e continua escrevendo um manifesto dos chamados “terroristas/patriotas” em resposta a esta versão oficial nazista. Uma das contribuições interessantes do filme é esta reflexão sobre a importância, na mesma proporção, da ação e do discurso para que um ideal revolucionário tenha êxito. Afinal, quem pretende mudar um sistema ou uma realidade deve saber que, quem está no poder, também utiliza estes meios para conseguir sua supremacia.

Mas a questão da propaganda, seja nazista ou revolucionária, é um dos assuntos secundários do filme. O núcleo narrativo do roteiro de Thomas Nordseth-Tiller gira em torno das ações da 1ª Companhia Norueguesa Independente, treinada na Escócia, e que atuou especialmente em missões de sabotagem contra o comando nazista em seu país invadido. Max, Gregers e outros homens passaram a investir contra os invasores de seu país. A partir de abril de 1943, com o apoio de seu grupo de amigos em Oslo, Max e Gregers deram início a suas missões.

A história do grupo liderado por Max Manus é interessante e, realmente, heróica. Imagino que os noruegueses sentiram uma emoção especial ao assistir a esse filme – o que justifica, também, a sua indicação para a disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Mas além de contar uma história de resistência e que tem importância para os noruegueses, Max Manus se revela um filme muito bem acabado tecnicamente.

O espectador conhece paisagens simplesmente belíssimas através de uma direção de fotografia impecável de Geir Hartly Andreassen. A trilha sonora de Trond Bjerknes também é perfeita e muito bonita, trabalhando todo o tempo para ressaltar os momentos mais dramáticos do roteiro. Através da história do grupo de resistência norueguês o público confere algumas das paisagens mais bonitas daquele país e da Escócia. A narrativa de Max Manus é linear, mas intercalada por alguns flashbacks do protagonista que parece “assombrado” (ou seria “inspirado”?) por sua experiência no campo de batalha finlandês. Merece destaque também o figurino assinado por Manon Rasmussen.

Ainda que centrado em um personagem, o que dá nome ao filme, Max Manus abre muito espaço para os demais participantes do grupo de resistência contra os nazistas. O contraponto ao “herói norueguês” que apenas quer o seu “país de volta” é o oficial nazista Siegfried Fehmer (Ken Duken) que, desde a corajosa fuga de Manus do hospital em que ele estava internado, empreende uma caçada contra o líder da resistência. Como em Defiance, no filme de Ronning e Sandberg há espaço para o romance. Manus conhece, através de seu amigo Gregers, a Tikken (Agnes Kittelsen), uma funcionária do consulado britânico em Estocolmo – para onde os amigos se dirigem sempre que completam uma missão.

Baseado em fatos reais, Max Manus esclarece, nos créditos finais, o que aconteceu com seus principais personagens após o fim da guerra – um recurso conhecido e quase “obigatório” em histórias do gênero. Sabemos, graças a ele, que o romance entre Manus e Tikken foi real – o que não impede, como ocorreu antes com Defiance, que esta história de amor se torne um bocado deslocada do restante da narrativa. Por outro lado, algo importante, como a influência determinante dos ingleses neste movimento de resistência norueguês ganha pouco espaço e é abordado de forma bastante superficial pelo roteiro de Nordseth-Tiller. Algo comprensível, já que estamos falando de um filme que ajuda no resgate do “orgulho norueguês” durante a 2ª Guerra Mundial.

A maior parte do tempo, Max Manus se mostra apenas correto – e envolvente, ao ter sua história bem narrada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas o que torna este filme diferente de outras produções do gênero é a sua reflexão perto do final, quando o protagonista não sabe o que fazer de sua vida depois de ter “vencido” a guerra. Sozinho em um salão de festas, ele percebe que perdeu praticamente todos os seus amigos e que não tem com quem celebrar a queda dos nazistas. A sequência que começa com Manus visitando ao prisioneiro Fehmer e que termina com sua conversa com Tikken é realmente de arrepiar. O grande momento do filme, sem dúvida, e que faz com que o mesmo valha a pena. Afinal, de que serviu tantas batalhas se as pessoas que eram importantes para ele haviam morrido? Claro que a história não termina ali e, com o tempo, Manus perceberá que sim, o esforço teve um significado maior.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante de Max Manus é que ele não procura transformar os seus personagens em heróis instantâneos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Claro que Manus, em especial, é visto como um sujeito valente e destemido mas, desde o início, do outro lado da balança destas suas qualidades, fica muito evidente que ele era um rapaz jovem, descuidado e um tanto inconsequente. Manus tinha menos ideais (e/ou visão política) que seu amigo Gregers Gram. Sujeito simples, sem uma formação intelectual mais densa, Manus queria que tudo voltasse a como era antes da invasão nazista. Empolgado com a insatisfação de seus amigos, ele viu na resistência uma oportunidade de ser útil e, ao mesmo tempo, lutar ao lado dos garotos com quem cresceu. Mas ao mesmo tempo em que ele era capaz do gesto mais heróico, era capaz também de atirar em si mesmo – em um acidente que foi decisivo para seu grupo. O filme mostra, assim, como normalmente os “heróis” de cada país não passam de sujeitos comuns que souberam, sob determinadas circunstâncias, ter uma atitude correta.

Como comentei rapidamente antes, o movimento de resistência à invasão nazista na Noruega recebeu uma influência e um apoio decisivos do Reino Unido. Para os ingleses, a Noruega era um ponto estratégico na guerra contra os nazistas, especialmente devido a sua proximidade com a costa britânica.

Interessante que aqui é possível encontrar várias informações sobre a Noruega, em um portal do país feito para o Brasil por sua embaixada. Por ali é possível saber um pouco mais sobre o Rei Harald, atual líder do país, que segue o regime de monarquia constitucional.

Para os interessados neste capítulo da 2ª Guerra Mundial, deixo aqui um link para um texto interessante de um portal específico sobre aquele período histórico.

Pelo roteiro de Max Manus, parece um tanto “forçada” a relação entre o oficial nazista Siegfried Fehmer e a norueguesa Solveig Johnsrud (Viktoria Winge). Mas a verdade é que ela se mostra condizente com o que ocorreu na época. Segundo esta reportagem da BBC, durante a guerra “os nazistas incentivavam uniões entre soldados alemães e mulheres norueguesas como parte do plano para criar uma raça superior ariana, com bebês de olhos azuis e cabelos loiros para o Reich de Mil Anos”.

Todo o elenco de Max Manus está bem – ainda que, pessoalmente, eu não tenha visto nenhum grande destaque. Além dos atores já citados, vale a pena destacar o trabalho de Mats Eldoen como Edvard Tallaken, um dos envolvidos no movimento de resistência norueguesa e que foi condecorado com a Cruz de Guerra; Kyrre Haugen Sydness como Jen Christian Hauge, o contato de Manus e de seus amigos com o governo inglês; Christian Rubeck como Kolbein Lauring, um dos sobreviventes do grupo inicial formado por Manus; e Knut Joner como Gunnar Sonsteby, participante da resistência como articulista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para o filme. Os críticos foram mais generosos com a produção. O site Rotten Tomatoes, que divulga links para diferentes críticas disponíveis na internet, por exemplo, revela 12 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 86%.

Uma das críticas positivas para Max Manus foi escrita por Peter Brunette, conhecido articulista da Hollywood Reporter. Neste link é possível ler seu texto original, no qual ele comenta que o filme segue uma linha “clichê-normal” de histórias do gênero. Para Brunette, Max Manus consegue, basicamente, duas coisas: se aproximar do padrão de Hollywood em relação a uma qualidade de produção elevada (o que garante cenas de ação interessantes e repetitivas) e, perto do final do filme, apresentar um desânimo profundo de seu protagonista quando, finalmente, ele toma uma pausa em suas ações para dar-se conta de que perdeu todos seus amigos. O crítico avalia que o filme sempre se mostra interessante, e ressalta o interesse na discussão entre a eficácia da propaganda para “ganhar a opinião pública” e as ações diretas contra os nazistas que resultam na morte de vários civis. Brunette resume, no final: “nada disto é novo, mas funciona”.

Outro comentário positivo para o filme (que pode ser lido neste link) foi publicado no The Sun Online. O texto ressalta que Max Manus é um bom filme de guerra à moda antiga no qual se destaca a escolha por uma trama tensa de espionagem em lugar de cenas de batalha em que predomina o recurso da computação gráfica. A crítica destaca ainda o trabalho do ator Aksel Hennie, que dá a profundidade exata para o protagonista – diferente de outros atores que primam por uma interpretação superficial, como Ken Duken e seu nazista Siegfried Fehmer (que acaba ficando estereotipado, segundo o The Sun).

Max Manus estreou na Noruega em dezembro de 2008. Este ano, o filme participou de três festivais, incluindo o de Toronto, e estreou no circuito comercial de três países. Em 2010 ele chegará até a Dinamarca e a Alemanha.

Até o momento, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado ainda a outros quatro – todos no Amanda Awards, o principal prêmio de cinema da Noruega. Max Manus recebeu, no Amanda de agosto deste ano, os prêmios de melhor filme, melhor ator para Aksel Hennie, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor atriz coadjuvante para Agnes Kittelsen e melhor direção de som.

Uma curiosidade da produção: para as cenas em que apareciam soldados nazistas foram utilizados até 1,8 mil figurantes.

Max Manus custou 50 milhões de Krone norueguês – o que equivaleria a quase US$ 9 milhões. Depois de estrear nas salas de seu país, Max Manus se tornou o recordista nas bilheterias em sua semana de estréia: ele foi visto por 184,2 mil espectadores, superando a marca conquistada anteriormente por Kautokeino-opproret.

Pouco depois de Max Manus estreiar na Noruega, o roteirista Thomas Nordseth-Tiller foi diagnosticado com câncer. Ele morreu vítima da doença em maio deste ano.

Ah, e depois de assistir a este filme, me vejo obrigada a diminuir um pouco a nota de Defiance. Para ser mais justa. 😉

Max Manus é uma co-produção da Noruega, da Dinamarca e da Alemanha.

CONCLUSÃO: Inspirado em fatos reais do movimento de resistência norueguês durante a ocupação nazista daquele país, Max Manus é um filme mais realista do que Defiance. Nele, é possível perceber como os “heróis” da história são sujeitos comuns que valorizam a liberdade de seu país na mesma medida em que defendem os laços de amizade de seu grupo. Com belíssimas paisagens, uma trilha sonora envolvente e um roteiro e uma direção corretos, Max Manus contribui para a recente revisão histórica dos fatos envolvendo a 2ª Guerra Mundial. Narrado de forma linear, com algumas inserções de flashbacks do protagonista, o filme só peca por deixa suas reflexões mais importantes restritas aos minutos finais – em uma busca, provavelmente, por seu “grand finale”. Ainda assim, é uma história interessante de ser conhecida.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Sucesso na Noruega, Max Manus dificilmente terá o mesmo apelo em outros países. Por isso mesmo, e por se tratar de uma história um tanto “repetitiva”, dificilmente esta produção conseguirá figurar entre as cinco finalistas para o próximo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, se acaso ela chegar até lá, não acredito que terá a força para vencer a “favoritos” como Un Prophète ou Das Weisse Band.