Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier – Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio


Um filme para ser interessante não precisa ser complicado. Mas o excesso de simplicidade pode, por outro lado, esvaziar uma boa história. Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier, filme dirigido por Florin Serban e que representa a Romênia no próximo Oscar, fica no meio do caminho entre estes dois extremos. Bastante simples, ele se mostra interessante, envolvente e, ao mesmo tempo, não deslancha como poderia. Nada recomendado para as pessoas que gostam de finais bem acabados e com histórias que tenham uma “razão” de ser. Se o cinema para você só tem sentido se tiver começo-meio-fim e um propósito bem definido, especialmente se trouxer finais claros, fique longe deste filme.

A HISTÓRIA: Um grupo de jovens espera sentado em um banco sob a vigilância de dois guardas. Um deles sai de um prédio, algemado, e se senta em meio aos demais. Ele olha para um amigo e sorri. Depois os jovens vão para a “hora do banho” e para o trabalho, até que aquele jovem sorridente, Silviu (Pistireanu George) é chamado porque lhe espera uma visita. O irmão mais novo surge com a novidade de que a mãe dos garotos (Clara Voda) voltou e quer levá-lo para a Itália. Silviu sairá em liberdade em 15 dias, mas a mãe pretende voltar para a Itália em uma semana. A perspectiva de perder o irmão e a chegada de um grupo de pesquisadores, incluindo a bela Ana (Ada Condeescu) tiram a paz do jovem com perspectivas de sair em liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier): Eis um filme sem começo, com um largo meio e, literalmente, sem fim. Não necessariamente um filme assim é ruim. Afinal, a falta de explicação sobre as razões que fizeram o protagonista ser preso não é algo que tire o mérito da história. Assim como um final aberto pode ser inspirador, curioso, crítico… o problema de ECVSFF (vou abreviá-lo assim) é que mesmo o “miolo” da história se apresenta morno demais.

Concordo que vivemos em uma sociedade violenta. Que os filmes, normalmente, pegam pesado em cenas de agressões – físicas e psicológicas – e que somos condicionados a “esperarmos” por ação em uma história que foca as atenções para um ambiente assim. O sistema prisional, incluído nele os locais que “abrigam” adolescentes, são fundados em princípios de controle, de autoridade, de posições muito marcadas de domínio de uns contra os outros. Falta liberdade, opções de futuro e educação nestes locais.

ECVSFF trata de um local assim e de um momento delicado na vida de um adolescente em particular. Silviu está prestes a deixar aquele local de pressão e abusos – praticados especialmente de uns jovens contra outros – para ganha a liberdade novamente. Inteligente, atento a detalhes, bonito, o garoto tem todos os elementos para conseguir dar a volta por cima. O problema surge quando o irmão menor vai visitá-lo e comenta sobre a chegada da mãe.

O espectador caiu de paraquedas na história e continuará “sobrevoando” os sentimentos e a vida dos personagens até o final. No caminho, ganhamos uma luneta que nos permite ver algum detalhe aqui e acolá. Sabemos, por exemplo, que Silviu guarda um caminhã de rancores da mãe, que teria usado ele como “muleta” enquanto não conseguiu um novo homem para sustentá-la – financeiramente e, principalmente, saciasse a sua carência afetiva.

Os encontros de mãe e filho são alguns dos pontos fortes do filme. São duros, secos, legítimos. Mas o restante da história mostra essencialmente a aflição de Silviu para impedir que o irmão passe pelo mesmo sofrimento que ele. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste quesito, o filme tem o seu mérito. Afinal, conta uma história diferenciada de um jovem que se sacrifica pelo irmão. Que tem a visão clara sobre o que irá acontecer com o garoto caso a mãe consiga vencer essa queda de braços. Só a forma com que o personagem faz isso é um bocado vazia.

As intenções, alguns podem dizer, é o que interessam. E, na verdade, geralmente esta premissa é verdadeira. Especialmente quando falamos das relações humanas. Uma única pessoa não controla toda a comunicação e/ou toda a relação. Ela pode fazer o melhor, se sacrificar e, ainda assim, não conseguir fazer o bem para a outra pessoa. Interagimos, logo nos comunicamos ou não. Ajudamos uns aos outros ou não fazemos diferença alguma – ou quase nenhuma. Estes são os fatos. Ainda assim, claro, as tentativas são importantes – e, muitas vezes, o que realmente interessam, mais que os resultados.

Talvez esta seja a grande mensagem de ECVSFF. As intenções de Silviu são o que interessa, mais do que os resultados práticos de seus atos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Afinal, quem pode garantir que, depois de todo o drama, do “teatro” que ele arma com guardas e a Ana sequestrada, a mãe dele cumprirá a promessa? Ele ficará preso por um longo tempo. Ela pode simplesmente levar o filho mais novo com ela e acabou-se.

A outra relação importante nesta história é aquela desenvolvida pelo protagonista e Ana. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). A menina, impossível para ele por várias razões, representa tudo que ele gostaria e não pode ter. Neste ponto, o filme toca fundo e se torna mais sensível, cuidadoso. Histórias de amor impossíveis sempre são tocantes. Especialmente porque, neste caso, não se trata apenas de um romance, mas porque Ana simboliza uma vida diferente que o garoto não poderá tocar. Pelo menos não em um futuro próximo – e, se ele não acreditar na possibilidade diferente, talvez para sempre.

Acreditar em si mesmo e em uma vida diferente. Estas são algumas reflexões e mensagens que este filme deixa para o espectador. A ideia é boa, só achei a execução bastante abaixo do potencial do filme. Em outras palavras, o roteiro de Catalin Mitulescu, Andreea Valean e do diretor Florin Serban conseguem representar uma história legítima, que se assemelha à realidade, ainda que não chegue a um propósito claro.

O maior problema reside na direção de Serban, que se torna arrastada na maior parte do tempo – ainda que o diretor consiga alguns bons momentos, como os já comentados encontros do protagonista com a mãe, o “clima” de permanente atenção e apreensão do ambiente prisional e a relação do protagonista com Ana. Uma lástima que estes momentos estejam espalhados pela história e não se configurem como a tônica dominante.

Uma qualidade da produção, por outro lado, é a direção de fotografia de Marius Panduru. Um trabalho simples, cru e ao mesmo tempo condizente com a história, valorizando os locais e os personagens. Os atores tem um desempenho bastante irregular, especialmente no momento mais “tenso” da produção. Algumas vezes, não convencem – em certas cenas, esperei “cair o pano”, como sinônimo de evidente teatro sem imersão.

De qualquer forma, pela fragilidade das relações focadas – das familiares, de colegas de detenção até entre os jovens infratores e as autoridades – e pela dedicação em tratar de “realidades possíveis e impossíveis” com delicadeza, este é um filme interessante. Mas incomoda porque deixa claro que poderia ser melhor. Também acho que, ainda que não seja algo inevitável, um pouco de contextualização teria feito bem para a produção. Como sabermos, por exemplo, o que levou Silviu a ser preso.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dos atores principais, além dos já citados, vale comentar o desempenho centrado de Mihai Constantin como o diretor da penitenciária. Aliás, aqui vale um comentário específico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei até que ponto o filme representa o sistema de prisões na Romênia mas, certamente, ele não chega nem perto do sistema que funciona no Brasil. Os banhos frios e os dormitórios que servem de local de pressão entre os garotos podem até ser similares, mas a forma com que o diretor do presídio e os guardas tratam os rapazes, certamente não. Jamais um diretor brasileiro permitiria que o garoto saísse de carro e com uma refém. Assim como duvido muito que um guarda tivesse segurado a onda por tanto tempo e não desse uns tabefes ou sopetões naquela rapaziada. Infelizmente o mais comum por aqui é a violência – alimentada pelas duas partes, é claro.

Interessante que este é um filme sem trilha sonora. Um espectador mais atento acaba sentindo falta do elemento música na produção. O que apenas deixa ainda mais claro como os diferentes artistas que integram a indústria tem a sua relevância específica para tornar uma peça de cinema a junção de muitas artes. Sem um destes elementos com os quais estamos acostumados, como a música, neste caso, parece que sempre está faltando algo.

ECVSFF estreou em fevereiro no Festival de Berlim. Depois, a produção passou ainda por outros oito festivais, incluindo o de São Paulo. Hoje, dia 6 de novembro, ele estréia no último da lista, o Festival de Cinema Arras, na França. Em sua trajetória, ganhou dois prêmios no Festival de Berlim: o Urso de Prata e o Alfred Bauer. O primeiro é classificado como o “grande prêmio do júri” do festival – e o segundo mais importante, perdendo apenas para aquele que leva o Urso de Ouro. O segundo é entregue para filmes que “abrem novas perspectivas para a arte cinematográfica”.

Francamente, por mais diferenciado que ECVSFF possa ser – pela ausência de música, pelo tom “realista” e a naturalidade da história -, não vejo nele elementos tão inovadores assim.

Procurando mais informações sobre a produção, soube que o diretor, Florin Serban, utilizou como atores secundários adolescentes que estavam presos ou tinham passado pelo sistema prisional. Ele disse, na época do Festival de Berlim, que tinha procurado jovens em escolas de interpretação e em colégios, mas que acabou fazendo oficinas em instituições penais e que ali encontrou o que procurava. Algo que diretores brasileiros fizeram em vários outros projetos anteriormente.

O diretor afirmou ainda que trabalhou bastante com o estreante protagonista e com os demais jovens que aparecem no filme, mas que nunca apresentou um roteiro totalmente acabado para eles. Em outras palavras, que incorporou muito das soluções e do linguajar dos jovens na produção. Bacana, mas também algo nada inédito.

Descobri, em uma entrevista do diretor no site oficial da produção, que ECVSFF é uma adaptação modificada de uma peça de mesmo nome escrita por Andreea Valean. Esse material original, contudo, foi bastante modificado pelo outro roteirista do filme, Catalin Mitulescu e, em especial, pelo próprio Serban que, ao entrar em contato com a realidade dos jovens infratores, passou a entendê-los melhor. Segundo o diretor, ele passou a perceber o quanto “de seus atos (destes jovens) são influenciadas pelas famílias, pelo ambiente do qual eles vem e, por último mas não menos importante, por todos nós, os que estão fora dos muros da prisão”.

Elementos que foram preservados da peça, segundo o diretor (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): o espírito corajoso e um tanto inconsequente dos jovens presos e o sequestro da garota. Por outro lado, eles mudaram aspectos como o personagem Silviu, que se tornou “mais humano, mais vulnerável”; e adicionaram os personagens da mãe e do irmão mais novo do protagonista – que acabam sendo a motivação de seus atos. A dinâmica da hierarquia dentro da prisão e o final também foram modificados.

Nesta entrevista, o diretor comenta ainda que trabalhou dois meses com os jovens atores em duas das menores penitenciárias da Romênia. Serban elogiou muito o talento dos jovens que ele escolheu e afirmou, no melhor estilo dos desejos de Babenco envolvendo o jovem ator de Pixote (Fernando Ramos da Silva, garoto que virou estrela com o filme de 1981 e que seria morto em 1987 por policiais), que espera que eles tenham a oportunidade de trabalharem como atores no futuro – a história sempre se repete, mesmo que nunca seja igual.

Interessante que o diretor afirma, em seguida, que foi muito modificado pela experiência e que pretende abrir uma escola de teatro e dar cursos para pessoas que nunca trabalharam com a arte dramática antes. Ele disse ter obtido “satisfação em muitos níveis, profissional e espiritual” com a experiência desenvolvida para o filme. Serban comenta ainda que ele percebeu que o que mais faltou para aqueles jovens foi “amor e atenção” e que eles devem merecer o respeito das pessoas como qualquer outro indivíduo.

Para ele, atuar pode significar um “processo de cura”, ajudando a recuperar a auto-estima e a resolver problemas que a pessoa pode carregar internamente. Além disso, o diretor comentou que pelo menos dois dos jovens com quem ele trabalhou em ECVSFF possam integrar também o próximo projeto dele, El Rumano.

Antes de dirigir ECVSFF, Serban havia filmado um curta-metragem, Mecano, em 2001, e o filme Emigrant, em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para o filme. Achei uma avaliação bastante justa. Era a minha nota original, mas eu melhorei ela um pouquinho ao saber que o diretor teve o “trabalho” de mergulhar um pouco na realidade que ele estava retratando. No site Rotten Tomatoes existem apenas dos comentários sobre o filme – um positivo e o outro negativo.

No primeiro, do Wall Street Journal, o crítico Joe Morgenstern comenta que ficou “muito impressionado” com o filme porque ele mostra um “herói” aparentemente explosivo e desarticulado mas que, na hora de seu maior estresse, se mostra surpreendentemente eloquente.

O outro texto, assinado por Tim Brayton, pode ser encontrado no blog Antagony & Ecstasy. Ele começa contextualizando a forma com a qual o cinema romeno se tornou um fenômeno de festivais. Depois, Brayton afirma que esta produção foi a primeira que lhe deixou realmente entediado. Mais do que seguir o padrão do “novo cinema” romeno, ECVSFF se mostra “um frustrante apanhado de clichês estilísticos e narrativos sustentados em nada em particular” e que, por isso, segundo o crítico, ele ganhou o Urso de Prata em Berlim. hahahaha. Engraçado – e um tanto verdadeiro.

Para Brayton, a única coisa realmente interessante do filme se resume ao trabalho que o diretor teve com não-atores. Ele termina avaliando que este não é pior exemplar da “atual onda euro-arte”, mas que ainda assim ele se mostra um bocado “velho estilo e estático”. Francamente? Ele tem razão.

Este é um filme com co-produção da Romênia e da Suécia.

CONCLUSÃO: Um filme que busca o realismo do sistema prisional de jovens na Romênia. Baseado em uma peça de teatro, mas com um roteiro que reformula boa parte da história original, Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier narra uma história sem começo e sem fim. O espectador cai de paraquedas na vida de um jovem que está prestes a sair em liberdade e que resolve adotar atitudes extremas e desesperadas quando percebe que a sua história pode ser repetida pela trajetória do irmão mais velho. Ainda que tenha algumas cenas bem filmadas e conduzidas com precisão, na maior parte do tema esta produção se mostra “sem sal”, com uma argumentação que não convence. A intenção é boa, tanto do diretor quando do protagonista, mas ambos não atingem os seus propósitos como poderiam. Uma pena.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Francamente? Só mesmo uma decisão “política” e uma vontade de fazer um filme da “nova sensação” do cinema europeu, ou seja, da Romênia, vingar em Hollywood para justificar a escolha desta produção entre os finalistas do próximo Oscar. Como obra de cinema, peça artística, não acho que ele mereça. E isso porque assisti a apenas três candidatos da próxima disputa até o momento. Mas por tudo que eu falei antes, ECVSFF se mostra abaixo da média. Bem fraquinho. Não merece estar entre os cinco finalistas.

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