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Inside Job – Trabalho Interno

Vivemos ainda na sombra de 2008. Não tivemos um ano tão decisivo neste novo milênio do que aquele em que bancos colapsaram e uma crise econômica ainda sem fim ganhou forma e fôlego. Ok, tivemos 2001 e os ataques terroristas nos Estados Unidos, que trouxeram uma onda de medo e represálias. Mas se analisarmos o que teve um efeito multiplicador mais extenso, com a capacidade de afetar a vida de todas as pessoas, direta ou indiretamente, no mundo inteiro, sem dúvida foram os eventos que começaram antes de 2008, mas que naquele ano se mostraram evidentes com todas as suas garras. O documentário Inside Job, ganhador do último Oscar, tenta explicar um pouco do que aconteceu em 2008. As causas da crise financeira e econômica que continua até hoje. Um filme ousado, que dá nome aos bois, mas que nem por isso consegue explicar o quadro inteiro do problema.

A HISTÓRIA: Cenas da Islândia. E dados sobre o país: população, 320 mil; produto interno bruto, US$ 13 bilhões; perdas bancárias, US$ 100 bilhões. Um país que servia como exemplo para o mundo por sua democracia estável, pelo alto padrão de vida dos habitantes e pelo baixíssimo nível de desemprego e dívida pública e que viu este quadro mudar nos últimos anos. O filme começa mostrando como a situação na Islândia foi se deteriorando. Mostra as decisões políticas fundamentais para que isso acontecesse, iniciadas no ano 2000. As políticas de desregulamentação adotadas pelo governo e a privatização dos três maiores bancos do país foram um divisor de águas na história da Islândia. Depois de mostrar cenas com belezas naturais do país, a exploração da multinacional Alcoa de parte destes recursos, o filme mostra manifestações da população indignada de setembro de 2008. O diretor explica que os três bancos privatizados, que nunca tinham operado fora do país, em cinco anos emprestaram US$ 120 bilhões, 10 vezes a economia da Islândia. Criaram novos ricos da noite para o dia, sem critério. Inflacionaram o mercado, criando bolhas de valorização irreal – multiplicando o preço de ações e o valor dos imóveis. O exemplo da Islândia serve de ponto de partida para mostrar a onda que se espalhou por diversas economias, baseada nos mesmo princípios, e que contaminou o mundo, nos levando a maior crise econômica da história desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inside Job): Onde há fumaça, há fogo. Essa parece ser a leitura mais óbvia da primeira cena de Inside Job. O diretor e roteirista Charles Ferguson tenta mostrar o que se esconde por trás da cortina de fumaça. E consegue, mesmo que em parte. Ele dá nome a muitos responsáveis pela crise financeira e econômica desencadeada em 2008, mas senti falta dele aprofundar-se mais. Não apenas entrevistando muitos destes responsáveis ou pessoas próximas a eles, mas também em ampliar um pouco mais o foco. Ficaram de fora deste filme, por exemplo, os especuladores individuais ou corporativos.

Mesmo assim, descontadas estas “ausências”, eis um grande filme. Especialmente por seu caráter didático e pelos entrevistados interessantes que o diretor conseguiu abarcar. Na parte da Islândia, ele entrevista a Gylfi Zoega, professor de Economia da Universidade da Islândia; Andri Magnason, escritor e cineasta; e Sigridur Benediktsdottir, integrante do comitê especial de investigação do Parlamento da Islândia. Eles fazem uma leitura concisa do impressionante o efeito devastador que a crise teve naquele país. Depois que os bancos locais quebraram, no final de 2008, o desemprego no país triplicou em seis meses. Triplicou! Ok que a Islândia é um país com uma população “pequena”, de 320 mil habitantes, mas já imaginaram o desemprego triplicar, seja no coletivo que for, em apenas seis meses? Impressionante.

Mas como afirma Zoega em um trecho de sua entrevista, o que aconteceu na Islândia ocorreu também em outros países. Como Nova York, por exemplo. E a partir daquela introdução islandesa, Inside Job se concentra na crise dos Estados Unidos. Entra na mira de Ferguson entrevistados como Paul Volcker, presidente do Banco Central dos Estados Unidos; Dominique Strauss-Kahn, então diretor geral do FMI; George Soros, um dos maiores investidores (e bilionários) da História; Barney Frank, presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos; David McCormick, sub-secretário do Tesouro da administração Bush; Scott Talbott, lobista chefe para o Financial Services Roundtable; Andrew Sheng, chefe da assessoria da comissão regulatória do Banco Chinês; Lee Hsien Loong, primeiro ministro de Cingapura; Christine Lagarde, então ministra de Finanças da França; Gillian Tett, editora do The Financial Times; Nouriel Roubini, professor da New York University Business School; Glenn Hubbard, conselheiro econômico chefe da administração Bush da Columbia Business School; Eliot Spitzer, governador de Nova York; Samuel Hayes, professor emérito da Harvard Business School; entre outros.

A lista fala por si mesma. O diretor conseguiu entrevistar pessoas de renome e importantes para a história recente da crise econômica. Mas várias outras pessoas ficaram de fora – representantes de alguns dos principais culpados listados pelo diretor, como políticos que fizeram as mudanças de legislação necessárias para que houvesse a possibilidade de uma crise financeira; representantes de bancos que criaram produtos questionáveis e incentivaram os seus investidores a aplicar suas economias neles; responsáveis por empresas de auditoria e agências de classificação de crédito americanas que deram notas de confiança irreais, assim como reguladores do governo que não fizeram bem o seu papel. Impossível não sentir falta desta gente falando – e lembrar do estilo escrachado de Michael Moore em fazer isso, ainda que, muitas vezes, sem o efeito desejado.

Algo positivo em Inside Job é o ritmo do filme. Dinâmico, com uma ótima trilha sonora, o filme vai da Islândia, passando pela apresentação dos principais entrevistados da produção, até as cenas dos noticiários de várias partes do mundo no fatídico dia 15 de setembro de 2008, quando o banco de investimento Lehman Brothers quebrou e o Merrill Lynch foi posto à venda, em apenas 10 minutos. Palmas para a percepção de ritmo e de introdução do diretor, em um trabalho conjunto com os editores Chad Beck e Adam Bolt e a trilha sonora de Alex Heffes. Segundo a narrativa do ator Matt Damon, o resultado imediato da quebra do Lehman Brothers e o colapso da maior companhia de seguros do mundo, a AIG (American International Building) desencadeou a crise financeira global. Que, em outras palavras e de forma mais prática, resultou em uma recessão global “que custou ao mundo dezenas de trilhões de dólares”, deixando “30 milhões de pessoas desempregadas e dobrou a dívida nacional dos EUA”. Como resume Roubini, o custo prático pode significar 15 milhões de pessoas no mundo voltando (ou entrando pela primeira vez) para a linha abaixo da pobreza.

O diretor Ferguson defende – porque todo documentário é a defesa de uma ideia, de uma tese – que esta crise e o seu alto custo que ainda está sendo pago não foi acidental. No documentário, ele tenta explicá-la e, principalmente, encontrar alguns de seus culpados. Acho importante esse tipo de trabalho, mesmo quando ele se mostra parcial – não no sentido de defesa de tese, porque todo filme é assim, mas por não mostrar o quadro completo do problema, e sim apenas parte dele. Isso porque não é sempre que um diretor consegue fazer um trabalho lógico, didático e que tenha também a coragem de expor pessoas, empresas e instituições. Palmas para Ferguson. E também para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que conferiu um Oscar para este filme – colocando-o ainda mais em evidência.

Ferguson argumenta que a crise foi “causada por uma indústria fora de controle”. Ele se refere ao sistema financeiro. Na primeira parte do filme, ele mostra “como chegamos até aqui” e, depois, começa a apontar alguns dos responsáveis por todo esse problema. O bacana desta forma de narrar escolhida por Ferguson é que ela faz um rápido repasse histórico, mostrando como os Estados Unidos avançaram após a Grande Depressão. Apenas por isso, Inside Job é um filme importante e que poderá ser utilizado nas escolas, universidades e similares. Não como ponto final na discussão mas, provavelmente, como um elemento a mais para ela. Algo positivo em Inside Job é o espectador ter acesso a alguns dos melhores especialistas em sistemas financeiros e lógica de mercado do mundo. Além da rápida aula de história, podemos entender um pouco melhor como foram feitas as desregulamentações de mercado e de que forma surgiram os novos produtos oferecidos pelo sistema financeiro – a diferença deles com os anteriores.

Importante também a forma com que Ferguson demonstra as relações de poder e a “contaminação” de diferentes governos dos Estados Unidos por interesses de banqueiros e executivos do sistema financeiro. As “relações perigosas” são colocadas às claras. Com isso, o espectador passa a prestar mais atenção em informativos e estudos divulgados por determinados bancos e agências contratadas por eles, por conglomerados financeiros ou companhias de seguros. Uma mudança fundamental, segundo a tese de Ferguson, que permitiu a crise financeira e global foi a desregulamentação de derivativos e outras inovações financeiras a partir dos anos 2000. O diretor mostra como o sistema financeiro ficou mais “rentável, concentrado e poderoso” a partir dos anos 2001, e lista quem concentrava todo este poder: os bancos de investimento Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch e Bear Stearns; os conglomerados financeiros Citigroup e JP Morgan; as companhias de seguros AIG, MBIA e AMBAC; e as três agências de classificação de risco Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch.

O diretor explica como funciona a “cadeia alimentar da titularização, um novo sistema que ligava trilhões de dólares de hipotecas e outros empréstimos com investidores em todo o mundo”. Com exemplos simples, Ferguson mostra como o sistema financeiro mudou o seu sistema de atuar, tornando o capital muito mais inseguro do que em qualquer outra época histórica. Consequentemente, ele trata da bolha imobiliária nos Estados Unidos – mesma lógica vista na Espanha e em outras partes e que pode continuar acontecendo se não forem estabelecidas regras e limites muito claros. De fato, muita gente ganhou muito dinheiro com toda essa crise e caos, ao custo do emprego e das rendas de tantas e tantas outras pessoas ao redor do mundo – algumas co-responsáveis, por assim dizer, porque aplicaram os seus investimentos em opções de alto risco, mas outras que nunca tiveram nem a possibilidade de fazer isso porque nunca tiveram sobra de capital para tanto.

Muito interessante a forma com que Ferguson nos conta essa história, utilizando de recursos diversos, desde bancos de imagens – fotografias e vídeos – até gravações em áudio e a reprodução de documentos importantes. Boa parte das pessoas, empresas e instituições que ele não conseguiu entrevistar “aparecem” no filme por meio destes recursos. Na verdade, Inside Job é uma aula de como fazer um documentário com poucos recursos – e de que não conseguir todas as entrevistas que se gostaria não é uma justificativa para desistir de um projeto. E mesmo deixando parte dos “culpados” e da lógica econômica mundial de fora, ele faz um bom trabalho. Até porque poucos filmes, até agora, se dedicaram a mostrar as relações de interesse envolvendo o sistema financeiro e os políticos, por exemplo, e de como todo (ou quase todo) o sistema de decisão, que deveria ser democrático e pensar no interesse da maioria, está contaminado pelo interesse de alguns poucos. Eis um importante soco no estômago e que deve fazer as pessoas repensarem algumas lógicas e em quem confiar.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de filmar Inside Job, o diretor Charles Ferguson havia feito apenas um outro trabalho: No End in Sight, de 2007. Sua estréia na direção (a qual eu ainda não assisti) faz um exame crítico da administração Bush no que se refere à invasão do Iraque. Estampando a nota 8,3 no site IMDb, No End in Sight concorreu ao Oscar de 2008 – mas perdeu a estatueta para Taxi to the Dark Side. Na época, Ferguson não apenas recebeu ótimas notas e elogios, mas também conseguiu oito prêmios – incluindo um prêmio especial do júri do festival de Sundance. Uma bela estreia, pois.

O êxito de Inside Job foi diferente. Em sua trajetória, o filme conquistou menos prêmios que a produção anterior de Ferguson, “apenas” seis. Mas levou para casa, diferente do outro filme, o Oscar. E como o mundo inteiro olha para o Oscar, mais que para outras premiações… sem dúvida Inside Job levou vantagem. Além do Oscar, Inside Job ganhou os prêmios do Directors Guild of America (pelo trabalho como diretor de documentário), da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos EUA, do Writers Guild of America (como melhor roteiro para documentário) e dos círculos de críticos de Nova York e Southeastern. Além destes prêmios, Inside Job concorreu a outros 11.

Francamente, e quem acompanha o blog sabe disso, neste último Oscar eu estava torcendo pelo documentário Exit Through the Gift Shop, dirigido por Banksy e Jaimie D’Cruz. Adorei o filme. E ainda que continue tendo uma “quedinha” maior por ele, por sua ousadia, inovação e humor, devo tirar o chapéu para Inside Job. Sem dúvida Ferguson faz um grande e importante trabalho. E como os dois filmes tratam de temas tão diferentes e de forma também diversa, fica difícil escolher entre um ou outro. Ainda assim, acho que pela importância da produção, Inside Job mereceu mais o Oscar do que Exit Through the Gift Shop. Pelo menos, com a estatueta, ele ganhou outra projeção – e provavelmente tenha chegado a muito mais pessoas do que se não tivesse ganho a estatueta.

Curioso que um filme tão detalhista tenha errado no início em dois momentos: na grafia dos nomes de Dominique Strauss-Kahn e Paul Volcker – que aparecem como “Dominque Straus-Kahn” e “Vocker”.

O mérito pelo roteiro competente de Inside Job é de Ferguson. Mas ele não fez o trabalho todo sozinho. Contou com a ajuda de Chad Beck e Adam Bolt. Além deles e dos outros profissionais citados, vale a pena comentar o trabalho competente dos diretores de fotografia Svetlana Cvetko e Kalyanne Mam.

Inside Job estreou em fevereiro de 2010 na Bélgica e, em maio, participou do Festival de Cannes. A produção passou ainda por outros nove festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nos Estados Unidos, a produção acumulou pouco mais de US$ 4,3 milhões nas bilheterias – o melhor resultado entre os documentários que concorreram ao Oscar deste ano. O melhor desempenho, atrás dele, foi de Exit Through the Gift Shop, que acumulou pouco menos de US$ 3,3 milhões nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Inside Job. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos: dedicaram 131 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% – e uma nota média de 8,2, esta sim, similar àquela do IMDb.

CONCLUSÃO: Eis um filme necessário. Inside Job explica alguns conceitos difíceis e importantes da economia. Apresenta nomes, de pessoas, empresas e instituições que participaram do surgimento da crise financeira e econômica global. Por tudo isso, ele tem méritos. Mas ao focar a atenção apenas nos bancos e no sistema financeiro, o documentário não explica todo o quadro. A responsabilidade dos especuladores, de empresas e de outros atores do sistema econômico, assim como dos políticos e gestores de outros países fica de fora do foco do diretor Charles Ferguson. No fim das contas e tornando tudo mais simples, o centro da crise está no excesso de dinheiro entregue para pessoas sem condições de gestioná-lo. O capital descolado do material e do trabalho ganhou nos especuladores – individuais e empresariais – o seu elemento bomba. E o maior problema é que a essência do problema não foi alterada. Continuamos seguindo a mesma lógica. A dúvida é até quando. Inside Job está aí para explicar parte da origem destes problemas. Mas outros documentários serão necessários para explicar o quadro todo.

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Io Sono l’amore – I Am Love – Um Sonho de Amor

Há filmes que inovam na história, com roteiros originais, criativos, diálogos interessantes ou que apenas conseguem romper com as expectativas do espectador. Inovam no conteúdo. Outros, conseguem o mesmo feito, mas na forma, nos ângulos diferenciados para as câmeras escolhidos pelo diretor, na eleição de cenários e vestuários perfeitos/diferenciados, na seleção e na montagem de cenas que fogem dos padrões. Io Sono l’amore é deste segundo tipo. Logo de cara, chama a atenção o apreço estético do diretor e roteirista Luca Guadagnino. Ele se esmera para nos apresentar um filme sem grandes inovações narrativas, mas com muita criatividade estética. Deleite-se com as imagens desta produção que, para tornar tudo mais interessante, conta ainda com um elenco afinado e inspirado. O melhor do espírito, da tradição e do drama italiano apresentado em um pacote forrado de classe.

A HISTÓRIA: Neve sobre monumentos, prédios, ruas, praças, fachadas, caminhos pisados, parques. Estamos em Milão, nos conta algumas letras que ocupam toda a tela. Em uma casa exuberante, uma empregada e a sua patroa, Emma Recchi (Tilda Swinton), arrumam as louças e a prataria. A governanta Ida Marangon (Maria Paiato) avisa a Emma que o filho dela, Edoardo Jr. (Flavio Parenti) vai trazer uma convidada para o jantar. Emma redistribui os convidados na mesa, colocando a convidada do filho entre ele e Delfina (Martina Codecasa). Mais tarde, o marido de Emma, Tancredi (Pippo Delbono) pergunta se Edoardo já voltou. A governanta responde que não, e ele fica sabendo que o filho perdeu em uma corrida. Edoardo chega e cumprimenta a todos os empregados, antes de encontrar a mãe. Para a família, o jantar será muito especial, porque celebra o aniversário do patriarca, pai de Tancredi, Edoardo Senior (Gabriele Ferzetti). Durante a refeição, ele avisa a todos que deixará a empresa da família para o filho e para um de seus netos, mais especificamente Edoardo. O clima fica estranho, e a tensão aumenta quando bate à porta Antonio Biscaglia (Eduardo Gabbriellini), cozinheiro que havia vencido a Edoardo. Os dois começam a desenvolver uma amizade muito forte, e Emma acaba se aproximando cada vez mais de Antonio conforme o clima vai esquentando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Io Sono l’amore): A diferença deste filme em relação a outros similares está nos detalhes. No uso de alguns ângulos menos óbvios para as câmeras, no ritmo cadenciado e fluente da narrativa e das filmagens, na escolha perfeita dos objetos e das roupas utilizadas em cada cena. O diretor e autor da história que rendeu o roteiro deste filme, o siciliano Luca Guadagnino, está atento às minúcias. E justamente é essa atenção que torna Io Sono l’amore interessante.

Porque a história, meus amigos, ainda que bem construída, não é exatamente uma inovação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descontado o apreço estético do filme, o que sobra? Um roteiro que fala sobre como as aparências enganam, como as pessoas mudam junto com as estações, e como nunca é tarde para que busquemos a felicidade ou para desvelarmos que tipo de família e relações temos ao nosso redor. Alguns personagens traem, seja nas relações amorosas, familiares ou nos negócios, enquanto outros descobrem as suas próprias personalidades. É um filme, essencialmente, sobre descobertas. Várias outras produções já trataram sobre isso, especialmente sobre as revelações familiares. Mas Io Sono l’amore não se abate por contar um estilo de história já explorada anteriormente.

Pelo contrário. Guadagnino escreve, junto com Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano um roteiro cheio de convicção. Eles sabem o que querem, em cada detalhe, e escrevem em um estilo de permanente “crescente”. Como em uma ópera, em que o drama vai assumindo contornos cada vez mais graves, até “el grand finale”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas desde os primeiros minutos, nem tanto pela neve e o clima gélido que ela pressupõe, mas principalmente pelas relações tão formais e “encenadas”, que eu fiquei na expectativa pelo que viria de errado. Sim, porque por traz de tanta perfeição, sempre existe algo de podre, ou de muito trágico que apenas está esperando o momento de eclodir. Achei interessante como este clima de “quase-tragédia” perpassa quase toda a produção, criando uma espécie de interesse permanente e/ou curiosidade no espectador.

Os roteiristas foram muito inteligentes em equilibrar os diferentes elementos que compõe uma tradicional família italiana. Os Recchi não apenas tem dinheiro, mas tem nome, status e tradição. Ainda assim, um dos herdeiros do patriarca foi excêntrico e ousado o bastante para buscar na Rússia a sua mulher. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí temos pela frente a personagem principal e mais interessante desta trama: a mulher que abandonou uma situação de pobreza em um país distante mas que, no fundo, nunca deixou de levar aquela antiga realidade consigo. Encontramos Emma em um momento em que ela está apenas esperando a deixa, a desculpa exata para se livrar daquela vida de aparências. Tudo que ela deseja é a oportunidade de viver com os pés no chão, de maneira mais simples, e voltar a amar. E ela encontra isso na figura do inicialmente enigmático e aparentemente errático Antonio.

Outro aspecto que eu achei interessante, nesta produção, é que ela deixa algumas pontas soltas, aqui e ali. Por exemplo, a relação entre Antonio e Edoardo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que os italianos desenvolvem amizades apaixonantes com bastante rapidez. Mas a noite em que Antonio vai levar um bolo para Edoardo, os roteiristas parecem lançar, com astúcia, dúvidas no ar. Afinal, Antonio está aproveitando a posição de Edoardo para se dar bem? Eles já se conheciam antes da competição ou Antonio conhecia a Emma? Ou apenas Edoardo e Antonio desenvolvem uma amizade rápida, porque tem muita afinidade, e Antonio conseguiu fascinar Emma logo na primeira visita? Por um tempo, e não apenas porque Betta (Alba Rohrwacher) se descobre apaixonada por uma linda mulher, mas também por essas dúvidas que ficam no ar, cheguei a pensar se Edoardo e Antonio não teriam tido também algum romance. Mas com o desfecho do filme como ele acabou acontecendo, aparentemente, isso não aconteceu. Eles só eram grandes amigos.

Mas como eu falava antes, Io Sono l’amore se destaca de outros filmes pelos detalhes. Além dos cuidados técnicos, dos quais vou falar depois, esta produção ganha muitos pontos em cada cena em que Guadagnino revela o seu próprio apreço estético. Esse olhar diferenciado do diretor pode ser visto não apenas nas cenas externas, que revelam a beleza de paisagens de cidades e de campos da Itália mas, especialmente, nas sequências que acompanham a protagonista de ângulos diferenciados. Como quando ela percorre um corredor e a câmera desliza, sem cortes, para focar a escada e acompanhá-la em uma descida quase geométrica. Ou quando Edoardo chama a mãe para apresentar-lhe Antonio, e a câmera mostra o contraste da mulher de família caminhando elegantemente em um tapete com marcas de outros passos e que parece transportar-lhe para uma quadra de saibro – ou umas areias mais escuras. Esses ângulos são fascinantes e, me arrisco a dizer, o que há de melhor nesta produção.

Por boa parte da história, somos levados pelas mãos pelo fascinante mundo das descobertas de duas mulheres. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mãe e filha redescobrem – ou o certo seria descobrem pela primeira vez? – o que é o amor. E ambas, cada uma de sua forma, transgridem as normas sociais em que vivem. Betta deixa para trás um namorado que tem nome na alta sociedade após apaixonar-se pela bela amiga Angaharad (Laura Huston). Emma descobre a verdade sem querer, ao encontrar um CD que Betta deixou, com um bilhete contando de sua nova descoberta, no casaco do irmão Edoardo. A coragem de Betta estimula a mãe que, mais tarde, ouviria da própria filha aquela história. Por isso mesmo, no final do filme, Betta fica tão emocionada ao ver a corrida desesperada em busca da liberdade empreendida pela mãe. Ela se identifica. Ou melhor, uma se identifica com a outra – por isso o olhar de cumplicidade inesquecível e emocionado.

Como uma legítima história italiana – porque os italianos sabem viver a vida -, Io Sono l’amore fala de amor e de tragédia. Porque a vida é feita destes elementos. De amor, de felicidade, de morte, de sofrimento e de drama. Tudo está ali, em um pacote bem feito. Um outro detalhe também me agradou neste filme, além do esmero estético: o destaque que a história sempre dá para os empregados da família Recchi. Ida é um dos nomes mais repetidos no início do filme. E ela tem um desempenho crucial no final da história. (SPOILER – não leia… bem, você está cansado/a de saber). Ela percebe, junto com Betta, que Edoardo não estava feliz. E, aparentemente, a tristeza do rapaz não passava apenas pela “morte” da memória do avô, que havia confiado nele e que tinha sido traído pelo próprio filho. Ele parecia triste pela vida que, inevitavelmente, ele teria que seguir a partir dali – com a noiva Eva Ugolini (Diane Fleri) grávida. Aqueles olhos claros pareciam esconder alguma outra tristeza, inominável e gigantesca. Por isso mesmo o final exacerbado se justificou. Porque parecia uma urgência, para quase todos daquela família – e a governanta Ida incluída – que a felicidade fosse procurada com pressa, sofreguidão, antes que a vida esvanecesse de uma vez.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os atores que contracenam neste filme estão muito bem. Mas Tilda Swinton tem uma interpretação de arrepiar. Se existia alguma dúvida sobre o talento desta inglesa, ela terminou com este filme. Sem dúvida ela tem uma personagem difícil de interpretar nas mãos, mas desempenha com perfeição todos os conflitos e nuances de uma Emma dividida entre a mãe de família que adotou a Itália e teve que enterrar a sua Rússia bem fundo na alma daquela que está sedenta por deixar a sua verdadeira personalidade transbordar.

Io Sono l’amore é um destes raros filmes em que todos os aspectos do cinema estão casados com perfeição. Tudo é feito com esmero e é valorizado na produção – diferente de outros filmes, que podem deixar o figurino ou a direção de arte em segundo plano. Aqui não. Desde a linda e cheia de esmero direção de fotografia do francês Yorick Le Saux até a edição atenta do italiano Walter Fasano, passando pelos figurinos propícios de Antonella Cannarozzi, pela ótima trilha sonora de John Adams, pelos lindos design de produção de Francesca Balestra Di Mottola e decoração de set de Monica Sironi, tudo funciona como um relógio suíço inspirado neste filme. Todos merecem ser citados, porque fazem um grande trabalho.

Além da atriz Tilda Swinton, merecem aplausos pelo desempenho acima da média neste filme a sempre ótima Alba Rohrwacher, que aparece pouco, mas rouba a cena cada vez que surge frente às lentes; Flavio Parenti que, a exemplo de Swinton, tem um personagem cheio de nuances para interpretar; e o fascinante Edoardo Gabbriellini, que convence com seu personagem aparentemente frágil e tímido, mas muito seguro de si e provocante. Os quatro se destacam entre os atores principais. Dos atores coadjuvantes, mas que tem um certo destaque e que não foram citados ainda, vale comentar os trabalhos de Marisa Berenson como Allegra Recchi, mulher do patriarca Edoardo Senior; e Waris Ahluwalia como Shai Kubelkian, que acaba comprando a empresa da família e parece trazer um “mau agouro” para eles.

A genial Tilda Swinton aprendeu italiano e russo para interpretar, com mais fidelidade, a personagem central desta história. E outra curiosidade sobre esta produção: a primeira versão do filme tinha 210 minutos de duração – ou seja, três horas e meia. Depois é que o diretor conseguiu deixá-la com duas horas. Realmente, três horas e meia seria demais. O filme ficou com o tempo justo, antes de cansar. 🙂

Io Sono l’amore teria custado US$ 10 milhões. Pelo cuidado que o filme tem com os detalhes, eu diria que foi um dinheiro bem gastado. Mas nas bilheterias ele não foi muito bem. Até o final de novembro de 2010, quando saiu de cartaz no circuito comercial dos Estados Unidos, ele havia acumulado pouco mais de US$ 5 milhões. No restante do mundo, o filme chegou a superar a marca de US$ 10,4 milhões. Ainda assim, pelo quanto ele custou e pelo desempenho nas bilheterias dos Estados Unidos, não podemos considerá-lo um grande sucesso.

Esta produção estreou no Marrocos e no Festival de Veneza em setembro de 2009. Io Sono l’amore participou, no total, de 22 festivais pelo mundo afora. Nesta trajetória, ele ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 16. Entre os que recebeu, estão o de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Boulder; os de melhor atriz para Tilda Swinton no festival de cinema de Dublin e pela avaliação do Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália; assim como os prêmios de melhor filme de língua estrangeira segundo o Círculo de Críticos de Cinema da Flórida e a Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. O filme foi indicado, ainda, ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, mas perdeu a estatueta para Haevnen. No Oscar, ele concorreu na categoria Melhor Figurino.

Aos curiosos de plantão que ficaram, como eu, curiosos para saber onde o filme foi rodado, aí vai a lista de cidades utilizadas como locação: Londres, no Reino Unido, e Dolceacqua, Milão e San Remo, as três na Itália.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o filme. Achei pouco, especialmente pelo esmero de seus realizados com os detalhes. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: eles dedicaram 95 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,1.

Buscando mais informações sobre o diretor e roteirista Luca Guadagnino, descobri que ele está dirigindo o seu 14º filme este ano. E o mais interessante é que a maioria de sua filmografia é composta por documentários. Das 14 produções dirigidas por ele, oito são documentários, incluindo na lista dois curtas e um documentário em video. Io Sono l’amore é, sem dúvida, a ficção mais respeitada dirigida por ele até o momento.

Só buscando o trailer e o assistindo, após publicar este post, é que me lembrei de um trecho interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Io Sono l’amore). Quando Emma comenta que foi para a Itália e aprendeu a ser uma italiana. O curioso é que você não aprende uma outra cultura, verdadeiramente, se não passa a soltar-se completamente naquele ambiente, ousando viver um pouco como aquelas pessoas de um lugar que, antes, você não conhecia. Sim, porque Emma aprende a falar italiano, a se comportar como se espera de mulheres italianas de uma família tradicional, mas apenas com a comida servida por Antonio e com a simplicidade dele, com aquela vivacidade que apenas as pessoas comuns de um país sabem demonstrar, que ela aprendeu a como ser um pouco italiana pra valer. E, mais que isso, soube ser ela mesma, um pouco russa, um pouco italiana. O amor sempre faz essas coisas com as pessoas… tiram as suas amarras, máscaras e armaduras, libertando-as para serem o que quiserem ser. E viva o amor, pois. 🙂

CONCLUSÃO: Quanto a maior a sensação de perfeição, maior o risco das aparências estarem enganando os sentidos. Os cenários cheios de neve não passam apenas a ideia de tempos gelados, mas também uma monotonia que pode ser vista nos jantares da alta sociedade. O frio do inverno e a formalidade dos gestos, palavras e relações dá início à trama de Io Sono l’amore. Mas como nenhuma aparência fundada apenas em imagem forjada dura para sempre, assim como o inverno, logo as formalidades saem de cena e as pessoas começam a revelar o que elas mais desejam ou anseiam. Claro que nem todas. Io Sono l’amore se aproxima de uma família da alta sociedade para revelar como a felicidade não depende de beleza, recursos fartos ou boas maneiras, mas principalmente de ousadia e de escolhas. E mesmo quando todas as janelas e portas parecem se abrir e que a família analisada sinalize apenas motivos para comemorar, a vida ensina que a paixão dos sentimentos pode tanto gerar tragédias quanto novos amores e felicidade. O que frutifica de cada cenário, de cada estação e de cada relação vai depender das escolhas que cada um faz, e de como cada pessoa aproveita as lições aprendidas. Um filme sincero, com uma aposta marcante na estética, no bom uso da fotografia, da música e das ótimas atuações de seu elenco. E para não fugir da tradição, o roteiro vai ganhando corpo com o passar do tempo, assumindo uma ode de ópera com “grand finale” perto do fim. Vale a experiência porque é muito bem acabado e tem momentos de pura beleza.

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Biutiful

Um grande diretor, um ator sempre acima da média e uma Barcelona que poucos conhecem. Biutiful mistura estes três elementos em um drama com toques sobrenaturais, reflexão sociológica ligeira, dureza argumentativa e um leve toque de esperança. No melhor estilo “a vida como ela é”, o diretor Alejandro González Iñarritu presta homenagem aos antepassados com esta produção que busca, de forma bastante inusitada, destacar a importância dos laços familiares e das origens que cada um de nós possui. Sem dúvida um filme diferente, que retrata uma Espanha que não é vista pelos turistas, mas por aqueles que convivem diariamente com diferentes formas de exploração nos bairros e subúrbios de cidades como Barcelona. Vale pela curiosidade e por uma ou outra reflexão, muito mais que por um resultado final realmente arrebatador ou instigante.

A HISTÓRIA: Uma mão diminuta mexe em um anel que ocupa todo o dedo mínimo da mão de um homem. A voz de uma menina pergunta para aquele homem se o anel é de verdade, e ele responde que sim, que a joia foi um presente do pai para a mãe dele. Ela pergunta porque ele está com o anel, e ele responde que é porque o avô da menina deu a joia para a mãe dele antes de sair da Espanha. Depois disso, a mãe dele, que estava grávida, nunca mais teria visto o marido. A menina então pede para colocar o anel no dedo, e ele deixa, antes dela comentar que a mãe sempre usava o objeto no dedo anelar e que afirmava que a joia era de mentira. Corta. Em um bosque cheio de neve, uma coruja aparece estirada sobre o cenário branco. A voz de Uxbal (Javier Bardem) segue contando para a filha, Ana (Hanaa Bouchaib), que a mãe da garota nunca ouviu aquele som, o de mar. Depois destas cenas, passamos a acompanhar a vida de Uxbal e a sua luta para criar Ana e Mateo (Guillermo Estrella), os filhos que ele teve com a instável Marambra (Maricel Álvarez). Faz parte do cotidiano de Uxbal, além da educação e da busca do sustento dos filhos, negociações com imigrantes ilegais e policiais, tratativas para a venda de um espaço no cemitério onde foi sepultado o pai dele e a relação muito próxima que este espanhol tem com a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Biutiful): Curioso que Biutiful sofre, como outros filmes que concorreram ao Oscar deste ano, com um certo problema de “amarra” argumentativa. A exemplo do que aconteceu com Haevnen, que arrebatou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, com este filme de González Iñarritu se percebe uma junção de histórias amarradas de forma meio displicente e/ou forçada como tentativa de montar um quadro de realidades complexas. Algumas vezes essa fórmula pode dar certo, como ocorreu anteriormente com Short Cuts, Magnolia, Babel e outras produções, mas isso não funcionou tão bem com Biutiful e Haevnen.

Certo, não é difícil entender que o diretor mexicano e talentoso Alejandro González Iñarritu não queria, com Biutiful, apenas contar um drama humano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se torna evidente que ele queria transcender da história da proximidade da morte de Uxbal e tudo que essa “trajetória” significou para o personagem e retratar também a doença de uma sociedade em que as pessoas são tratadas como antigamente, em castas muito bem definidas. Biutiful trata, desta forma, não apenas da doença física de uma pessoa, mas da sua enfermidade moral e, junto com ela, da doença de um coletivo.

Beleza. Isso nós podemos entender e achar, talvez, interessante. A intenção é boa. Mas francamente, todas as histórias exploradas pela produção se mostram necessárias? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Francamente, eu acho que não. Como aconteceu com Haevnen, Biutiful sofre com excessos. Os dois filmes teriam sido bem mais interessantes se eles tivessem escolhido o caminho da simplicidade. Não eram necessárias tantas histórias paralelas. Para que, exatamente, explorar tanto a fragilidade da personagem de Marambra ou a sua relação com Tito (Eduard Fernández)? Ou porque debruçar-se sobre a história de infidelidade de Hai (Cheng Tai Shen)?

A razão deve ser a mesma de quando um jornalista tenta contar um pouco mais a história de uma pessoa que foi vítima de um acidente, além do óbvio ululante de contar a história do que aconteceu: tornar aquele fato menos impessoal e mais “humano”. Certo, a razão está clara. Mas sempre é preciso pensar se essa “humanização” da história terá o efeito desejado. Faz diferença, realmente, o que Hai faz longe da vista dos empregados e da família? Interessa, muito, que Lili (Lang Sofia Lin) fosse a babá dos filhos de Uxbal nas horas vagas? Talvez apenas para tornar a culpa do protagonista ainda maior. Mas esse fato, propriamente, não “aprofundou” muito a personagem chinesa ou tornou ela muito diferente dos demais imigrantes de sua etnia que são retratados na produção.

Então para que gastar tanto do tempo do filme traçando estas questões? Não teria sido mais interessante aprofundar em alguns outros aspectos da história? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por exemplo, eu acharia mais interessante sabermos mais sobre o passado de Uxbal, o que aconteceu com ele e com Marambra além do que é sugerido – de que ela, por ser bipolar, tenha passado por tratamentos, sem contar a dependência química. Mas e ele, o que ele fez até ali? Há quanto tempo ele vivia de explorar a fragilidade de outras pessoas – sejam elas imigrantes ilegais ou pessoas que perderam algum ente querido. Aliás, quando e como ele descobriu a “vocação” para lidar com os mortos?

A ótima atriz Ana Wagener é pouco explorada na história como a personagem de Bea, uma medium que é clara em dizer que o dom que eles tem não deve ser utilizado para conseguir dinheiro. Mas esta personagem, por exemplo, que é mais importante na vida do protagonista do que outros que aparecem no filme, tem pouco de sua história explicada. Então a regra de “aprofundar nos dramas humanos” não vale para todos. Na verdade, é usada de maneira bastante desigual – e, volto a repetir, de uma forma um pouco confusa, sem uma real motivação ou mesmo contribuição para que a história se torne mais interessante. Outro personagem que tem um pouco de sua história/perfil explorado, mas sem grande contribuição para o filme, é o do policial Zanc (Rubén Ochandiano).

Bem, se nem todos os personagens e a exploração de seus dramas se justifica como algo que contribua para a história se tornar mais densa ou interessante, isso são falhas do roteiro assinado por Iñarritu, Armando Bo e Nicolás Giacobone. Por outro lado, os temas propostos pela produção se mostram interessantes – ainda que eles sejam explorados de forma um pouco confusa. (SPOILER) Pela ótica dos roteiristas, todos são infiéis, de alguma forma. Algumas vezes, sexualmente – como é o caso de Marambra e Hai. Outra vezes, moralmente – como ocorre com Uxbal, o policial Zanc, o chefão dos esquemas de exploração, inclusive o uso de mão de obra ilegal na construção civil Mendoza (Karra Elejalde), entre outros. A impressão é que todos estão corrompidos, de alguma forma, e que apenas a morte pode trazer algum reconforto. Ainda assim, Uxbal quer manter-se vivo, especialmente porque ele tem medo de ser esquecido – e de não viver o que gostaria de viver com os filhos.

Sem dúvida o peso desta perspectiva torna os dias do protagonista bastante doloridos. Mas mesmo com tanta desgraça, exploração e infidelidade, Biutiful mostra pelo menos algo interessante: o elo que une as diferentes gerações de uma família, e de como nos aproximamos muito mais dos nossos antepassados quando refletimos, com um pouco mais de tempo, sobre nossos próprios sonhos, características e herdeiros. O antigo e o novo se aproxima, desta forma. E torna cada indivíduo mais completo. Esta talvez seja a ideia mais interessante de Biutiful, e a que consegue ser melhor explorada por seus realizadores. Outras questões, como a “crítica à sociedade que explora”, poderia ter sido melhor trabalhada.

Falando nisso, claro que todo o roteiro de Biutiful é construído para que os espectadores simpatizem e se solidarizem – para não dizer que sintam pena – com o personagem de Uxbal. (SPOILER). Mas francamente, acho bastante difícil não indignar-se com ele. Afinal, ele explora as pessoas até o final, capturando até o futuro de Ige (Diaryatou Daff), tornando as escolhas dela quase impossíveis. Injusto. Mais uma exploração feita pelo protagonista – dentre outras tantas. Ok, alguém pode dizer que todos nós somos humanos e, por isso, erramos. Mas quanto mais uma pessoa conhece sobre as coisas – e no caso de Uxbal, ele tinha bastante conhecimento sobre a vida e a morte, sobre certo e errado -, maior a responsabilidade dela ao escolher caminhos equivocados. Claro que o perdão está aí para redimir a todos nós, mas nem por isso é de se bater palma para o que assistimos no filme. A busca pelo caminho do bem é cotidiana, e sempre que nos afastamos dele, nos aproximamos mais das sombras que tanto pertubavam Uxbal. Nada escapa da lógica da vida e da morte. E ainda assim, sempre há reencontros e a possibilidade da redenção. Por isso, mesmo com toda a imperfeição retratada pelo filme – e a convicção errada plasmada na palavra Biutiful -, existe sim beleza e esperança. O resumo está no título, pois.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém pode me perguntar: “Mas e aí, na Espanha as coisas são do jeito que Biutiful mostra? Chineses e africanos são explorados sem dó nem piedade? Os policiais são corruptos? Existe uma máfia que se beneficia dos imigrantes ilegais?”. Vou falar, como sempre, do que eu vi: sim, há redes de exploração de imigrantes. Eles ocupam sempre os espaços marginais em cidades como Madrid. Estão lá, vendendo DVDs com filmes pirata, ocupam ruas e lojas em que comercializam os mais diferentes produtos “alternativos”. Os espanhóis vão lá, compram estes produtos, mas deixam claro que aquelas pessoas são “invasores”.

Não sei como hoje está o clima entre “nativos” e os imigrantes ilegais. Com um nível de desemprego maior, muita gente no “paro” (recebendo seguro desemprego) e pouca oportunidade de trabalho, eu imagino que o clima piorou. Não sei se continuam chegando “bateras” (embarcações pequenas e normalmente precárias) com imigrantes ilegais africanos na costa Sul da Espanha. Imagino que sim. Porque tanto para chineses quanto para africanos, como bem mostra Biutiful, mesmo a exploração na Espanha é melhor do que as condições de vida que eles tem, muitas vezes, em seus próprios países.

Nas ruas de Madrid, à noite, as pessoas costumam recorrer aos “chinos” (como são chamados os chineses) para comer após “salieren de fiesta” (saírem de festa, de bar em bar). Nesta hora, os “chinos” são bacanas. O mesmo nos sábados e domingos, quando muitos comércios tradicionais estão fechados, e há sempre “un chino” aberto para vender fones de ouvido, MP3 e os mais diferentes artigos em lojas espalhadas por quase todos os bairros. Nesta hora, esses imigrantes – muitos legais, outros tantos “sin papeles”/ilegais – são bastante úteis. Assim como os africanos que vendem “paraguas” (guarda-chuvas) nas ruas quando o clima está castigando os desprevenidos. Mas no restante do tempo, para os espanhóis – e acredito que franceses, e outras nacionalidades que se vêem “invadidas” pelos ilegais -, essas pessoas são indesejáveis.

Lamentável o conflito cotidiano entre as pessoas que se sentem donas de uma terra e de uma realidade e aquelas que tiveram que deixar os seus países, suas famílias e raízes para buscar uma melhor oportunidade de vida. No curso que fiz, em Madrid, falamos muito sobre xenofobia e como a mídia tratava esses temas de imigração. Estar atento aos absurdos e responder a eles é algo fundamental. Seja no país que for, com o desenvolvimento e as relações que se forjarem em cada local. Sobre corrupção policial ou “vistas grossas” de autoridades para o problema eu não posso falar, mas eu imagino que exista. E há, sem dúvida, uma rede que explora estas pessoas, seja na construção civil, nas ruas das cidades ou através da prostituição. Há muita gente ganhando dinheiro com a falta de perspectiva e a fragilidade de outras pessoas.

O diretor e os roteiristas misturam drama com um pouco de suspense, carga policial e sobrenatural. O resultado é um filme tenso quase todo o tempo, com algumas “baixadas” de ritmo aqui e ali e uma velocidade constante até o final. Eventualmente ele pode parecer um pouco arrastado, mas consegue manter o interesse do espectador até o final.

Para reforçar o clima “pesado”, um pouco cru e estranhamente “sobrenatural” da história, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto fez uso de lentes que reforçam o azul e o cinza, tornando as imagens mais “agrestes”. O mexicano Prieto é um dos grandes diretores de fotografia atuantes no mercado. Ele foi responsável pela “alma” de filmes como Babel, 21 Grams, Amores Perros, State of Play, Los Abrazos Rotos, Frida, entre outros. Antigo colaborador de Iñarritu, como se pode notar pela lista.

Falando no diretor, quem acompanha a sua carreira sabe que ele gosta de histórias fragmentadas e que questionam algumas “situações dadas” da realidade. Para mim, ele é um dos grandes diretores de origem latina e que souberam manter-se criativos em Hollywood. Biutiful não é o melhor de seus filmes mas, ainda assim, é uma produção com a marca do diretor e com os diferenciais que isso significa. Ele merece todo o respeito, não há dúvidas.

Da equipe técnica de Biutiful, vale destacar o trabalho competente do editor Stephen Mirrione e a trilha sonora bastante pontual e pouco expressiva de Gustavo Santaolalla.

Biutiful é uma homenagem do diretor ao pai, Héctor González Gama, citado nos créditos finais do filme. Em Amores Perros e 21 Grams o pai do diretor tinha sido citado nos agradecimentos.

E uma curiosidade sobre a produção: Iñarritu demorou 14 meses para editar Biutiful. Um prazo bastante longo e que talvez sinalize a dificuldade do diretor em encontrar um resultado satisfatório para a produção.

Biutiful foi rodado em Barcelona, onde se passa a história, e também no Monte de San Donato Berain e na Sierra de Abodi, ambos pertencentes a Navarra, na Espanha.

Essa produção estreou em maio de 2010 no Festival de Cannes. Depois, Biutiful passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Londres, Estocolmo, Oslo, Jacarta e Dubai.

Até o dia 5 de junho deste ano, esta co-produção entre México e Espanha tinha faturado pouco mais de US$ 5,1 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, se levarmos em conta que Biutiful foi indicado a dois Oscar e tem nomes como Javier Bardem e Iñarritu como chamarizes.

Falando em premiações, Biutiful saiu de mãos vazias do Oscar, onde concorreu como Melhor Filme em Língua Estrangeira e com Bardem na categoria Melhor Ator. Mas recebeu 11 prêmios, até agora, e foi indicado a outros 22. Entre os que embolsou, destaque para os prêmios de Melhor Ator para Bardem no Festival de Cannes e no Prêmio Goya, da Espanha. Biutiful também foi considerado o melhor filme estrangeiro de 2010 pela votação das associações de críticos de Washington DC, Phoenix e Dallas-Fort Worth.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Biutiful. Os críticos que tem os textos linkados no site Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 86 críticas positivas e 50 negativas, o que rendeu para a produção uma aprovação de 63% – e uma nota média de 6,4. Interessantes que críticos respeitados, como Peter Howell, Tom Long, Steven Rea e Lisa Kennedy publicaram críticas positivas para a produção – o que dá uma certa moral para Iñarritu.

Sobre o filme, o diretor disse o seguinte: “às vezes nossas vidas são assim: fraturadas, saturadas, emocionalmente eletrizantes e, até nos deixar sem fôlego, belas”. No site oficial da produção, ele ainda fala sobre a necessidade, após filmar Babel, de produzir um filme que tivesse apenas um personagem central e uma linha narrativa direta – e não fragmentada, com idas e voltas no tempo. Iñarritu disse que se Babel pudesse ser comparada com uma ópera, Biutiful seria mais um réquiem, um adágio. O diretor também classifica Biutiful como uma tragédia, a tentativa de “um poema sórdido sobre um homem que está se iluminando enquanto cai no escuro poço da morte”. E o diretor segue com uma longa explicação sobre as suas intenções com este filme. Para quem se interessar, esta lá no site oficial, em espanhol.

Ah sim, e para não dizer que não falei de flores: sim, Javier Bardem mereceu os prêmios que recebeu como melhor ator por este filme. Eis mais uma produção em que ele faz um grande trabalho. Ainda que, pela história ter sido construída totalmente sobre o personagem dele, e com a carga emotiva, dramática e de “doença” que a história abriga, era mais que esperado que o ator que interpretasse a Uxbal se destacasse. Por isso mesmo que eu acho, por exemplo, que foi merecido o Colin Firth ter recebido o Oscar este ano. Bardem está bem, mas ainda prefiro a interpretação de Firth, do James Franco e do Jesse Eisenberg em seus respectivos filmes que concorreram ao Oscar este ano.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho competente dos coadjuvantes Cheikh Ndiaye como o senegalês Ekweme, que acaba sendo deportado e Luo Jin como o chinês interesseiro Liwei.

Entre Biutiful e Haevnen, difícil escolher. Para mim, ambos não chegam ao nível de serem excepcionais. Continuo achando Kynodontas mais original e impactante. Mas se for realmente para escolher, ainda acho que Haevnen é um pouco melhor que Biutiful. Ainda falta assistir às outras duas produções que concorreram como Melhor Filme em Língua Estrangeira este ano mas, avaliando apenas os três que vi até agora, este ano não teve a melhor das safras recentes da premiação nesta categoria.

CONCLUSÃO: Mais um filme meio “existencialista”, meio sociológico, que aborda temas importantes sobre a realidade conflitante de grandes cidades/países. Com uma levada interessante, mas sem a costura adequada para todas as suas histórias, Biutiful soma-se a outras produções do gênero sem grande brilhantismo. Claro que Javier Bardem faz um grande trabalho, assim como o diretor Alejandro González Iñarritu. Mas, francamente? Não há muita novidade nesta história. O maior mérito do filme talvez seja o de mostrar uma parte de Barcelona que poucos conhecem – exceto os que já moraram por lá por algum tempo. Na verdade, o que Biutiful mostra sobre imigrantes ilegais, corrupção policial e explorações desta realidade ocorre em outras partes da Europa, incluindo Madrid, Paris e um bom etcétera. Interessante também a “homenagem” que o diretor faz aos antepassados e a esta linha amorosa que une distintas gerações de uma família. Bacana estas ideias, bem executada a realização delas, mas o filme sofre de excesso de histórias sem muitas amarras. Mediano, apenas.

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Blue Valentine – Namorados para Sempre

O que acontece com o amor quando termina o encanto? Provavelmente existe mais do que uma resposta para esta pergunta. Mas quando o novo estágio, após o encantamento, significa o fim do que era novo, genial e interessante, quando a relação perde o sabor, as cores e aromas, não existe muito espaço para múltiplas escolhas. Blue Valentine fala sobre isso. Sobre um amor que começa surpreendente e que segue em uma trilha de desgaste. É a história de uma família que tem química, mas que é formada por um casal que parece não ter mais paciência e nem oxigênio. Um filme com estilo, uma ótima trilha sonora e dois atores afinadíssimos.

A HISTÓRIA: Uma menina grita desesperada em busca da Megan. Enquanto os grilos cantam e a rua continua deserta, o pai dela, Dean (Ryan Gosling), continua dormindo em uma poltrona. Cansada de buscar sozinha, Frankie (Faith Wladyka) acorda o pai. Ele vai até o lado de fora da casa e descobre que a cadela da família fugiu. Junto com a filha, ele acorda a esposa, Cindy (Michelle Williams). Ela apronta o café da manhã e se cansa com as brincadeiras do marido, que tocava música antes de comer cereais direto da mesa. Cindy leva a menina para a escola, e a relação do casal começa a se revelar desgastada, ao mesmo tempo em que acompanhamos como Cindy e Dean se conheceram e se apaixonaram.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blue Valentine): Interessante como se desenvolve o ritmo naturalista deste filme. Primeiro, o estilo de filmagem do diretor e roteirista Derek Cianfrance que, desde o primeiro até o último segundo da produção escolhe, deliberadamente, os cortes e ângulos de câmera mais naturalistas possíveis. Paisagens, a dinâmica dos gestos e das relações das pessoas sempre estão em primeiro plano e parecem servir como guia para os movimentos das câmeras.

Depois, chama a atenção o desenvolvimento naturalista da trama. Assinado pelo diretor e por Cami Delavigne e Joey Curtis, o roteiro de Blue Valentine evita as frases feitas. E quando elas aparecem, surgem de forma automática, algumas vezes irônica. Mas o mais interessante, no texto, é que por grande parte do filme a personagem de Cindy assume, sozinha, a roupagem de “bandida” da história. Nada mais natural, seguindo os preceitos de nossas sociedades ainda um bocado machistas – ao ponto de colocarem, sobre as mulheres, eternamente a aura de “chatas” e impacientes.

Nesta produção, acompanhamos uma história de amor. Que ainda não terminou, mesmo que do sentimento original reste pouco. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E o interessante é que por grande parte da história – e aposto que, para muitas pessoas, mesmo depois que ela termine – a “vilã” da produção é a personagem interpretada por Michelle Williams. Ela é quem resiste. Parece ser a parte do casal que não cede, que não aceita a falta de ambição do marido. Mas eu vejo algo além disso.

É difícil, para quem ama, aceitar o desperdício de um potencial. Complicado ver alguém que poderia ser muito melhor, fazer muito mais, desenvolver-se plenamente, gastar esse potencial em nada. Esta é uma das maiores dificuldades de Cindy em relação a Dean. Mas há uma cena fundamental na trama, quando eles conversam francamente em um quarto de motel, em que ele desabafa que tudo o que ele quer, e que não sabia que queria, era ter uma família e cuidar dela. E o que fazer, com esta diferença tão brutal de visões de mundo?

Pois eis a questão e o problema fundamental na história do casal de Blue Valentine. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E talvez de tantos e tantos outros casais que não conseguem mais viver juntos. A dificuldade em encontrar um denominador comum, em lidar com as expectativas individuais em prol de um projeto conjunto. No caso de Cindy e de Dean, a convivência foi mostrando também como eles tem algumas visões de mundo e de hábitos bem distintas. Ela não suporta ver o marido dormindo até tarde, tomando uma cerveja as 8h e saindo para trabalhar um dia aqui, outro ali, sem grandes perspectivas de melhorar de vida. Como enfermeira, ela tem mais estabilidade e, claro, está preocupada com o futuro da filha. Mas para Dean, nada mais importante que ajudar a pagar as contas da casa e ter o máximo de tempo livre para curtir a família – ainda que, na prática, nem sempre ele consiga isso.

O desgaste está formado. E apenas cresce. E como lidar com ele? Bem, para dar uma temperada nesta história e torná-la um bocado mais dura, não acompanhamos apenas a derrocada da relação de Cindy e Dean. Sem avisar, e de maneira muito sutil, o diretor e os roteiristas nos levam para alguns anos antes na história, quando o casal se conheceu. Há cenas verdadeiramente encantadoras, nesta parte, como a sequencia impagável em que Dean faz Cindy dançar. Ah, o amor, como ele é lindo. Como a conquista, a fase em que as pessoas se apaixonam e se encantam, é maravilhosa. Mas e depois?

Bem, nunca há regras para o depois. A história dos dois poderia ter dado muito certo. Ou poderia ter acontecido o que nos foi apresentado neste filme. O que chama a atenção em Blue Valentine, em relação a outros filmes, é que aqui há pouco fingimento. Tanto os momentos lindos e encantadores são apresentados de forma precisa para provocar este tipo de sentimento no espectador quanto os momentos de desgaste, de falta de sintonia e de esperança são filmados com a mesma honestidade. Por isso, cá entre nós, imagino que seja impossível passar incólume por este filme. O que faz dele, apenas por isto, uma interessante peça de cinema. Afinal, um dos objetivos da 7Arte não é, justamente, mexer conosco? Pois posso garantir que Blue Valentine mexe com o público. Tanto com os apaixonados inveterados quanto com aqueles que sabem que histórias de amor podem ser bastante complicadas.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada com o belo trabalho da dupla Michelle Williams e Ryan Gosling. De forma precisa, bastante honesta e sem aquelas irritantes “caras e bocas” e forçações de barra que mesmo atores experientes algumas vezes encenam – talvez por cansaço ou por não adotarem os roteiros como dignos de esforço – eles apresentam um trabalho digno de aplausos. Ela é “cruel” e direta sempre que a personagem pede. Ele é dedicado e “avoado” conforme manda o script. E nas cenas de tensão sexual, conquista e encantamento, os dois atores conseguem a química ideal. Sem ter que tirar ou por.

Esse é o primeiro trabalho do diretor Derek Cianfrance que eu lembro de ter assistido. Gostei do estilo dele. Claro que a forma dele em conduzir a trama não é, exatamente, inédita. Mas aí entramos no velho tema: o quanto de ineditismo realmente ainda é possivel no cinema atualmente, depois de mais de 110 anos de história e invenções? Bem, outros cineastas também preferem essa levada “naturalista” de Cianfrance, o que não desmerece, nem um pouco a sua escolha.

Ajudou muito no efeito final da produção dois itens que sempre são fundamentais no cinema: a direção de fotografia de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustadíssima de Grizzly Bear. A fotografia do estadunidense Parekh, que tem descendência ucraniana e indiana, potencializa as cores naturais de cada cena, tornando os tons terrais ainda mais “pesados” e/ou “envelhecidos” e os azuis, de longas cenas de tensão, ainda mais densos. Bacana. Recursos que funcionam sempre muito bem.

O trabalho de Bear é muito pontual, preciso, apresentando uma música ajustada para os momentos mais delicados ou nos quais o autor quer reforçar uma ideia. No restante do tempo, escutamos muitos sons “das ruas”, das casas, vizinhanças, o som natural da vida. Também gostei. Bear assina, realmente, grande parte das composições. Além dele, vale citar a música Smoke Gets In Your Eyes, clássico do The Platters, e You and Me, de Penny & The Quarters.

Merece uma menção especial o trabalho feito com os créditos finais do filme. Uma forma interessante de fechar de uma forma, digamos assim “esperançosa”, uma produção com muitos momentos complicados.  Mesmo porque, mesmo quando o amor termina, os momentos bacanas permanecem. Mesmo que no passado ou, quem sabe, flutuando em algum lugar no cosmos, podendo dar frutos – nem que for como inspiração para outras pessoas. Acho que eu acredito nisso. 🙂

Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho dos editores Jim Helton e Ron Patane. Dos demais atores, a atriz que tem um destaque um pouco maior, em uma produção dominada por Ryan Gosling e Michelle Williams, é a filha deles na trama, interpretada por Faith Wladyka. Ela faz um bom trabalho, ainda que nada excepcional – até porque, cá entre nós, nem era necessário. No mais, vale citar as rápidas aparições dos coadjuvantes John Doman, como Jerry, pai de Cindy; e de Mike Vogel como Bobby Ontario, com quem ela tinha uma relação antes de conhecer Dean.

Blue Valentine estrou no dia 24 de janeiro de 2010 no Festival de Sundance. Depois ele participou dos festivais de Cannes, Toronto, Londres, Vienna, Gijón, Rotterdam e Buenos Aires, entre outros. Em sua trajetória, a produção conseguiu conquistar dois prêmios: o de melhor cineasta revelação para Derek Cianfrance segundo a associação de críticos de cinema de Chicago, e o de melhor atriz para Michelle Williams segundo o círculo de críticos de cinema de San Francisco. Blue Valentine foi indicado, ainda, para outros 16 prêmios, incluindo o prêmio principal em Sundance, duas indicações para os atores principais no Globo de Ouro deste ano e uma indicação para Michelle Williams no Oscar 2011.

Falando em Oscar, Michelle Williams perdeu a estatueta para Natalie Portman, protagonista de Black Swan. Francamente, ainda acho que Natalie Portman mereceu o Oscar. Mas admito que Michelle Williams, ao lado de Annette Bening, tornou a disputa deste ano bastante acirrada. As duas fizeram um grande trabalho em seus respectivos filmes. Mais do que a queridinha – e com razão, porque ela é talentosa – Jennifer Lawrence. O trabalho de Nicole Kidman que concorreu ao último Oscar eu ainda não vi, para poder comentar.

Produção de baixo custo, Blue Valentine teria custado US$ 1 milhão. Uma ninharia para os padrões de Hollywood – onde não é raro encontrar produções custando 80, 100 ou 200 vezes este valor. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu, até o dia 17 de abril deste ano, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias. Pouco, em comparação a outros filmes, mas um belo resultado para uma produção que custou tão pouco.

Para quem ficou interessado em saber onde Blue Valentine foi rodado, ele foi filmado em Nova York, em bairros tradicionais como Manhattan, Queens e o Brooklyn, e em várias partes do estado da Pennsylvania.

Diz a lenda que o US$ 1 milhão gasto com o filme teria sido financiado pelo prêmio de roteiro que Chrysler Film Project ganho em 2006. Por isso mesmo que fico me perguntando se realmente o filme custou isso ou foi o que os produtores justificaram. De qualquer forma, a produção saiu com uma boa alavanca devido à qualidade de seu roteiro.

Interessante que os realizadores decidiram adiar as filmagens de Blue Valentine devido à morte do ator Heath Ledger, com quem Michelle Williams tinha sido casada e com quem ela tinha uma filha. Decidiram esperar o tempo necessário para que ela pudesse se dedicar ao projeto. Valeu a pena, sem dúvida.

Agora, uma curiosidade técnica: as cenas de Cindy e Dean que mostram quando eles se conheceram e seguem até eles se casarem foram filmadas em Super 16mm, enquanto que as cenas deles juntos, casados, foram rodadas em RED.

E outra curiosidade da produção: as cenas do casal na fase “enamorada” foram filmadas primeiro, durante três semanas. Depois desta fase, Ryan Gosling e Michelle Williams viveram juntos em uma casa por um mês, fazendo coisas banais, como indo às compras, cozinhando, jantando, etc., para afinar a técnica de conversarem como um casal e “brigarem” um com o outro. Por isso mesmo tanto realismo em cena.

Michele Williams aceitou fazer o filme porque ela tinha gostado muito do roteiro. Mas quando o projeto começou a ser filmado, o diretor sugeriu que os atores improvisassem mais as falas do que simplesmente seguissem o roteiro. Inicialmente a atriz foi mais resistente à ideia. mas Gosling teria gostado do improviso porque disse que tinha dificuldades de lembrar de todas as falas. Mais uma razão para o filme fluir tão bem. Ainda que, cá entre nós, esse fato me deixou curiosa para saber como seria o roteiro original, sem as improvisações.

Fiquei impressionada com a obstinação do diretor Derek Cianfrance com esta produção. Ele dedicou 12 anos para que o filme fosse concretizado. Além de ter trabalhado em várias versões para o roteiro, ele produziu vários documentários para conseguir dinheiro para que Blue Valentine fosse concretizado. Ser obstinado realmente vale a pena – e nos leva a alguns feitos/lugares.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção. Uma nota boa, considerando a média de notas do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: publicaram 152 críticas positivas e apenas 22 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 87% – e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Este não é um filme simples. Nem fácil de assistir. Isso porque nunca é fácil assistir à crise de um casamento. Essa é a primeira informação que você precisa ter em mente. Além disso, tenha certeza, há muitas sequências incríveis nesta história, de pura sintonia entre os protagonistas. Cenas líricas, bacanas, musicais, encantadoras. Cenas duras, de diálogos ácidos, de choque de expectativas, destas cenas que podem fazer o coração partir. Blue Valentine é isto, um filme sincero sobre conquista e desgaste. De como os sonhos das pessoas e o amor que elas sentem, muitas vezes são incompatíveis. Uma produção com direção e roteiro honestos, sensíveis, e que ainda conta com um casal de atores dedicados. Para quem tem o coração aberto a assistir o pior que a ferrugem e o desgaste podem fazer, é uma grande produção.

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Haevnen – In a Better World – Em Um Mundo Melhor

Realidades cheias de conflitos. A definição da coragem e da covardia. Mesmo tratando deste temas em cenários muito distantes e distintos e buscando um olhar crítico sobre eles, Haevnen, produção vencedora na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar, revela-se também um bocado simplista e simplória. Este não é o melhor filme da ótima diretora Susanne Bier, sem dúvida. Falta-lhe um pouco de coragem e sobra um bocado de discurso pronto e fácil. Ainda assim, não foi totalmente injusta a sua premiação no Oscar porque, afinal, Haevnen é um filme muito bem acabado e visualmente interessante.

A HISTÓRIA: Nuvens pesadas deslizam pelo céu. Um vento constante sacode as vestes e as barracas de mulheres, homens e crianças. Meninos e meninas brincam em meio à poeira e à falta de quase tudo. Um grupo corre atrás de um carro aberto que leva um grupo de médicos e enfermeiros. Um destes médicos é Anton (Mikael Persbrandt), que passa parte da vida tentando salvar pessoas naquele cenário de privações e ameaças, e outra parte lidando com o divórcio da mulher Marianne (Trine Dyrholm) e com as dúvidas e problemas do filho Elias (Markus Rygaard). Anton joga uma bola para as crianças, e isso é tudo o que elas parecem precisar para serem felizes – pelo menos naquele momento. Algo aparentemente impossível para o revoltado Christian (William Johnk Nielsen), que perdeu a mãe e não consegue lidar com esta ausência. Rejeitando o pai, Claus (Ulrich Thomsen), e qualquer sinal aparente de fraqueza, Christian se aproximará de Elias e mostrará como escolhas equivocadas podem disseminar a violência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haevnen): Existem, no mundo, múltiplas realidades. Há cenários de privação e outros de fartura. Verdade. Mas será que para falar sobre a origem da violência, a convicção da busca da paz pela falta de represálias, a importância da família, da vida e da morte, se faz realmente necessário confrontar um ambiente de refugiados na África com a de uma cidade típica da rica Dinamarca? Haevnen tem boas intenções, mas o filme peca por simplificações que tornam questões importantes da vida como quase exceções.

Vejamos: diariamente, nos centros urbanos ou rurais da parte que for do planeta, as pessoas não fazem escolhas? Elas decidem, por exemplo, se respeitam ou não os seus semelhantes. Independente da religião ou da crença que podem seguir. Decidem se tratam os demais como devem ser tratados, ou se não fazem isso. Frente à violência, escolhem o caminho da represália ou do perdão. Alimentam o ódio ou o amor. Sei que estas linhas, para alguns, pode parecer discurso “babaca” ou inocente, mas a verdade – e que muitos tem dificuldade de admitir – é que escolhemos o estilo de vida que temos a cada passo, a cada escolha.

Em Haevnen, o roteirista Anders Thomas Jensen nos apresenta, sempre, uma oposição de realidades. Há dois núcleos familiares muito distintos em cena. Dois países com realidades opostas – um com fartura e vida social muito bem organizada, outro com escassez de quase tudo e cotidiano imprevisível e um bocado caótico. Mas existem também providenciais similaridades. Mesmo muito diferentes, os dois núcleos familiares que acompanhamos foram desfeitos. A história também fica centrada, a maior parte do tempo – exceto quando as atenções estão para a África sob a ótica de Anton -, nas posturas de dois adolescentes.

A primeira questão importante de Haevnen é a ideia do perigo do núcleo familiar desfeito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tanto a casa de Christian quanto a de Elias nunca está completa. No caso de Christian, a figura materna desapareceu. Não chegamos nem a conhecê-la. Com a morte da mãe, o garoto perde, aparentemente, o seu referencial mais amoroso. Ele parece não ter muita intimidade com o pai e se sente, assim, “sozinho no mundo”. O caminho que ele escolhe, para lidar com a dor, é a represália a todo mal que encontra à sua volta. Na leitura de alguns, ele se torna um garoto revoltado e amargurado.

No caso de Elias, a figura paterna está, quase sempre, ausente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas não pela perda maior e irreversível da morte, mas porque o pai dele é um médico dedicado a causas humanitárias. Essa ausência constante termina com o casamento de Anton e Marianne, e Elias deve enfrentar esta situação de “agravamento” da perda da figura paterna. Como ele resolve a questão? De forma pacífica, tentando entender o que está acontecendo, até que é contaminado pela revolta de Elias – que não faz o garoto mudar de atitude, mas que lhe absorve, mesmo assim, em seu redemoinho de sentimentos raivosos e vingativos.

Apenas pelas atitudes dos garotos, temos oposições de “visões de mundo”. E o mais interessante, neste aspecto – e alguns psicólogos podem falar melhor a respeito – é que eles reproduzem ou são “produtos” do ambiente familiar. Mas não apenas dele, é claro. Christian parece seguir um comportamento mais “frio”, distanciado, a síntese da forma com que o pai dele aparece na trama. Mas há poucos elementos para analisar a formação do garoto. Primeiro porque o ótimo ator Ulrich Thomsen, que interpreta a Claus, aparece pouquíssimo na história – e ele nem pode ser taxada muito como “omisso”. Depois, porque não sabemos nada sobre a mãe de Christian.

Mas algo muito diferente acontece com Elias. Sabemos mais da mãe dele do que do pai de Christian. E, como um dos grandes nomes da produção, sabemos muito mais sobre o pai do garoto. Se por um lado, aparentemente, temos a uma família de bons recursos e um tanto “sem diálogo” e com pouco afeto, como parece ser o caso de Christian, por outro temos a uma família preocupada com o caráter humano, com a preservação da vida e com o diálogo, no caso de Elias.

E daí talvez surja um dos poucos elementos realmente interessantes deste filme: por mais óbvia e esquemática que seja uma realidade apresentada, o roteirista Jensen e a diretora Susanne Bier nos mostram, de forma menos escancarada, como nenhuma realidade “perfeita” ou “corrompida” é composta por apenas um destes elementos. A filosofia e convicção pacifista e humanitária de Anton e da mulher tem limites, como comprova a atitude dele com um dos vilões do Quênia. E a indiferença e o pragmatismo do pai de Christian se mostram um argumento fácil de ser comprovado cada vez que ele se aproxima do filho e não consegue romper a armadura que o garoto vestiu desde que perdeu a mãe. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Finalmente, o próprio Christian, tão cheio de razão, percebe que não importa toda a lógica ou senso de “justiça” torto do mundo: a violência nunca dará bons frutos. Quando ele percebe o peso de seus atos, apenas um gesto de perdão pode redimir a todos.

Agora, voltando a um lugar-comum que me irritou um pouco: fica evidente, logo pelas primeiras cenas do filme, a preocupação dos realizadores em contrastar a realidade de miséria pura de um país africano com a da fartura de um país desenvolvido. Fazia falta esta simplificação de propósito? Será que em uma África carente não convivem também pessoas que lutam pela paz com aquelas que buscam semear a violência? E o mesmo não pode ser encontrado na Dinamarca? Por que contrastar crianças de extrema carência com aquelas que parecem “ter tudo”. Talvez foi a forma da diretora e do roteirista fazer o espectador refletir que nem tudo é o que parece. Ou que nem tudo é tão óbvio quanto costumamos pensar. Na miséria da África pode existir mais alegria em coisas simples do que na “fácil” Dinamarca para onde Anton volta sempre. Mas há perigo e pessoas dispostas a semear a violência em todas as partes. Parece que a minoria tenta preservar o direito de não reagir a uma agressão na mesma moeda. Mas mesmos estes tem seus momentos de fraqueza.

Sim, Haevnen é um filme sobre realidades conflitantes e que nunca estão alheias a contaminação de princípios. O que torna o filme, até certo ponto, uma produção sem muita esperança, diferente do que o título possa sugerir. O paraíso não está na “miséria e simplicidade” da África. Nem nas ruas bem organizadas da Dinamarca. Talvez a única chance de termos algo parecido com o paraíso esteja nos gestos finais de Anton e Elias, que representam o amor através do perdão. Defender isto é sempre difícil e exige sacrifícios. Mas é possível. Por estas ideias e pela beleza da direção de Susanne Bier, pelas interpretações dos atores principais e pela direção de fotografia de Morten Soborg o filme, no fim das contas, possa merecer a nossa atenção. Apesar da preguiça que ele desperta, muitas vezes, das simplificações, estigmas e lugares-comum da história.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Haevnen não é um grande papa-prêmios. Pelo contrário. Ele ganhou apenas as duas premiações mais badaladas de Hollywood: o Globo de Ouro e o Oscar deste ano como Melhor Filme Estrangeiro. E só. Pouco para um filme ser consagrado. E cá entre nós, acho que foi bastante, para a qualidade da produção. Gosto da diretora Susanne Bier, mas acho que precisamos ter um ano muito fraco de candidatos para Haevnen ser considerada a melhor produção do ano. Dos outros concorrentes do Oscar deste ano, assisti apenas ao grego Kynodontas e, francamente, achei este último, pelo menos, mais original. E impactante. Se boas intenções ganhassem o Oscar, certamente Haevnen foi o merecedor. Mas se for avaliada a originalidade, Kynodontas merecia mais. Só depois de assistir aos outros três é que poderei dizer, com todas as letras, se houve alguma injustiça este ano.

O elenco de Haevnen faz um belo trabalho. Merece uma menção especial os atores Mikael Persbrandt, Markus Rygaard e William Johnk Nielsen – ainda que este último, algumas vezes, cai tanto no estereótipo que chega a cansar. Além dos outros atores citados, vale a pena citar os coadjuvantes Wil Johnson, como o médico Najeeb; e Odiege Matthew como o asqueroso Big Man. Da equipe técnica, além da excelente direção de fotografia de Morten Soborg, merece menção a trilha sonora de Johan Söderqvist e a edição da dupla Pernille Bech Christensen e Morten Egholm. Pena que o ótimo ator Ulrich Thomsen seja disperdiçado na história, aparecendo pouco no filme.

Esta produção foi filmada no Quênia e em quatro cidades dinamarquesas: Faborg, Rudkobing, Svendborg e Tasinge.

Mesmo ganhando o Oscar e o Globo de Ouro, Haevnen teve um desempenho irrisório nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção, que estreou no dia 3 de abril, arrecadou pouco mais de US$ 512,4 mil dólares até o dia 8 de maio.

Haevnen ganhou poucos prêmios, mas não foi por falta de participação em festivais. Após estrear na Dinamarca em agosto de 2010, o filme passou por 12 festivais mundo afora, incluindo os do Rio, de São Paulo, o de Sundance e o de Toronto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes ficaram muito perto deste número, dedicando 64 críticas positivas e 22 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 74%.

Agora, um momento de confissão: fiquei muito, mas muito tempo mesmo sem publicar um texto novo aqui no blog. Certo que uma parte da justificativa para isso foi o excesso de trabalho no jornal em que atuo como repórter. Mas outro motivo foi também uma certa “decepção” que tive com este filme. Por gostar da diretora, do roteirista e de alguns dos atores da produção, sou franca em dizer que eu esperava mais. E também por ele ter ganho o Oscar. Achei o resultado final muito fraco perto do potencial dos realizadores. E daí me deu um certo “desânimo” em escrever a respeito, nas poucas vezes que tive oportunidade desde o Oscar. Fui adiando, adiando, até que resolvi me “livrar” logo do texto para, finalmente, me lançar em outros filmes. Melhores, piores, só o tempo dirá. Obrigada aos que tiveram paciência de esperar e espero, sinceramente, que textos melhores venham por aí. 🙂

Uma curiosidade sobre o filme: o texto que Christian lê no funeral da mãe é de Hans Christian Andersen, The Nightingale.

CONCLUSÃO: A embalagem é bonita, mas o conteúdo, muito manjado. Haevnen tem um ótima direção de fotografia e boas intenções, mas patina em lugares-comum e na simplificação da dualidade. É realmente necessário comparar um acampamento de refugiados em permanente tensão na África com o ambiente escolar conflituoso de uma cidade na Dinamarca? O único ponto interessante na aproximação destes extremos, para mim, foi a reflexão “ligeira” sobre os contrastes do mundo que podem ser vivenciados por um mesmo indivíduo, personificado pelo médico Anton (Mikael Persbrandt). Através dele, percebemos como a globalização pode aproximar mundos tão díspares e, sem planejar muito, ensinar princípios de humildade, igualdade e de combate à violência para jovens de partes muito diferentes do globo. Esta é a mensagem bacana e necessária do filme. Mas a forma com que estes conceitos são apresentados chegam a cansar, pela previsibilidade do roteiro e a sua simplificação extrema. Nem todos são vítimas na África e nem todos os órfãos de mãe revoltados podem assumir toda a culpa de uma lógica violenta em uma sociedade em que existe fartura. O mundo e as pessoas são mais complexos do que isto. Mas nada, em parte alguma, pode ser tão complicado que não haja solução. E ela reside, sempre, no olhar atento e afetuoso para o outro, na decisão pela não-violência, no amor e no perdão. Talvez por esta mensagem de um paraíso possível, ainda que difícil de alcançar, o filme valha.