The Help – Histórias Cruzadas


Surpreendente. Admito que se este filme não tivesse sido indicado a tantas estatuetas do Oscar e ganho tantos prêmios pelas atuações de suas atrizes, eu dificilmente o teria assistido agora. E The Help merece esta chance de ser visto. Ele conta uma história conhecida, mas sob uma ótica totalmente nova. Por isso a surpresa. E, claro, pelo ótimo trabalho do elenco da produção. O roteiro também é ótimo, junto com a direção de Tate Taylor.

A HISTÓRIA: Alguém escreve à lápis em um caderno comum. A empregada doméstica Aibileen Clark (Viola Davis) começa a contar a própria história, dizendo que nasceu em 1911 em uma fazenda. Ela diz que sempre soube que seria uma empregada, porque a mãe tinha sido uma e a avó, uma escrava doméstica. Skeeter Phelan (Emma Stone) pergunta se Aibileen já sonhou em ser outra coisa, e a mulher assente com a cabeça. Quando ela pergunta sobre o que a empregada sente ao cuidar de crianças brancas enquanto as suas, negras, estão sendo cuidadas por outra pessoa, Aibileen lança o olhar para um retrato na parede. E aí começa a ser contada a história dela, e de várias outras empregadas domésticas que vivem e trabalham em Jackson, uma cidade do Mississippi onde vigora a segregação racial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Help): Histórias bem contadas sempre são fascinantes. Bons textos, com interpretações inspiradas, fazem toda a diferença no cinema. O diretor pode até não fazer um trabalho inovador, inspirado. Pode filmar fazendo o bê-à-bá. Tudo bem. Mas se o roteiro não for bom e os atores não fizerem um trabalho condizente com ele, não há como remediar. The Help, para a sorte dos espectadores, tem ótimas histórias para contar, de um tempo onde as aparências contavam muito e quando a ignorância predominava, e com um plus de interpretações que faz a diferença.

O problema do filme é o que o roteiro, ainda que bem escrito, é simplório em muitos pontos. O diretor Tate Taylor adaptou o romance de Kathryn Stockett para a telona. Não li a obra, mas imagino que ele jogou para o cinema a mesma lógica do livro. E ela incomoda um pouco por duas razões: por estigmatizar as mocinhas e as bandida e pela preocupação da história chocar e, em seguida, suavizar o problema com a mesma intensidade.

Mas antes de falar mais destes deslizes, vou abordar as qualidades da produção. Porque The Help tem muitas. Primeiro, a interpretação impecável de Viola Davis. Cada vez que a atriz entra em cena, ela dá uma aula de como repassar para a telona a profundidade de emoções de uma personagem. Ela convence quando sorri e ensina mais uma menina de quem cuida. Faz o mesmo quando conta suas próprias histórias, ou emociona-se lembrando do filho. Além dela, outras grandes atrizes seguram o interesse na história, com destaque para Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer e Jessica Chastain. E os coadjuvantes também fazem um coro interessante para as ótimas interpretações.

A segunda qualidade da produção é tornar atrativas narrativas de histórias que nem sempre contam com flashbacks. Esse resgate do papel fundamental dos contadores de história, que nos estimulam a ficarmos sentados enquanto viajamos com eles para outros dramas e prazeres humanos, é um dos pontos fortes de The Help. E as histórias das empregadas domésticas negras subjugadas, até então escondidas, se tornam especialmente interessantes pelo ineditismo.

Ando assistindo à muitas séries de TV, e este filme me fez lembrar da premiada e elogiada – com razões – Downton Abbey. É como se o filme destrinchasse as relações de poder e os bastidores entre empregadas negras e suas patroas brancas e ricas da mesma forma – só que com menos profundidade, é claro – com que Downton Abbey destrincha as mesmas relações na sociedade inglesa.

O filme equilibra bem o humor e o drama e, ainda que o desenrolar seja bastante previsível, no meio do caminho temos algumas boas surpresas e sacadas do roteiro. A direção de Taylor não surpreende, mas pelo menos não atrapalha. O diretor acertou ao focar a câmera sempre valorizando o trabalho dos atores – que são, sem dúvida, os grandes responsáveis pela produção manter o interesse do público do início até o final. História de gente sempre atrai, especialmente quando trata de relações conflitantes e que são próximas de quem assiste – de uma forma ou de outra o preconceito racial e/ou com minorias ainda permanece, em contextos diversos.

A grande sacada da história é o filme dar voz para quem nunca tinha tido chance de expressar-se. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta questão me afetou, em especial, porque, afinal, como jornalista, sempre buscamos uma forma de, uma hora ou em outra, dar voz para essas pessoas excluídas e/ou esquecidas. Bacana ver uma personagem como a de Skeeter Phelan fazendo isso, e a repercussão importante que o seu trabalho teve. Neste sentido, The Help é um filme diferenciado, porque ele trilha caminhos antes não explorados. Outras produções já trataram de segregação racial, mas nunca tomando este ponto de vista – de empregadas e suas patroas – de bastidores familiares como tema central.

Mas nem tudo são qualidades. Agora sim, falarei mais do que me incomodou nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ainda que os atores desta produção façam um ótimo trabalho, eles estão baseados em personagens simplistas. Vejamos: será que apenas uma garota sem marido e que deseja ser independente, trilhando o caminho do jornalismo, poderia se incomodar o suficientemente para contribuir para uma mudança naquele cenário de injustiças? E será que apenas outra garota, isolada das demais, poderia também ser tão receptiva a uma empregada negra, a ponto de tratá-la como uma semelhante? Nenhuma mulher branca, casada e com filhos que fizesse parte daquela sociedade poderia, por sua própria conta e risco, se dar conta que aquela exclusão com base na raça era absurda? Curioso que há nuances de mudança na história, e esses indicativos aparecem, justamente, em mulheres mais velhas – como as mães de Skeeter e de Hilly.

Outra fonte de incômodo – ainda que esta reflexão surja depois do filme terminar, muito mais do que durante a exibição da história que, de tão envolvente, provoca pouca reflexão – é a preocupação da história em equilibrar, quase que matematicamente, o drama com a comédia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Será que é preciso realmente assoprar sempre depois de bater? The Help preocupa-se demais em chocar e suavizar ao mesmo tempo. Você espera sempre que algo pesado vá acontecer porque, de fato, episódios muito pesados aconteceram naquele cenário e tempo histórico. Mas a maior violência, a morte de um homem pelas costas, não é mostrada. The Help não deixa de ser um filme duro, mas essa dureza fica restrita apenas às histórias, às palavras e sentimentos. Fora as interpretações estonteantes, The Help parece pouco realista. Claro que ele não precisa ser realista, porque é um filme – antes que alguém diga o óbvio. Ainda assim, todo esse glacê na história faz com que ela não seja perfeita ou exemplar. O bom é que as atrizes estão tão bem que o sentimento que temos, no final, é de que acabamos de ver a um grande filme.

NOTA: 9,4 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um filme de atrizes. Os homens aparecem pouco em The Help e, quando aparecem, estão sempre dando base para o destaque de uma intérprete. Os únicos atores que tem algum destaque são o galã Chris Lowell, que assume a pele do estranhíssimo Stuart Whitworth, que corteja a “solterona” Skeeter Phelan; e Mike Vogel como Johnny Foote, o bom partido que escolheu uma mulher menos óbvia, a engraçada Celia. Vogel tem apenas uma grande sequência de diálogo na produção mas, quando diz as suas falas, se sai muito melhor que o colega Lowell – sem sal, na minha opinião, pelo menos neste filme.

Vários outros filmes trataram da segregação racial nos Estados Unidos, especialmente no Sul do país, onde ela ressistiu muito mais tempo à ceder. Provavelmente o mais famoso deles seja Mississippi Burning, o ótimo filme de Alan Parker, que já pode ser considerado um clássico. Vale também dar uma conferida em Malcolm X, filme estrelado por Denzel Washington e que trata do controvertido líder negro.

Pesquisando para citar aqui alguns textos importantes e interessantes sobre a questão racial no Sul dos Estados Unidos, encontrei uma frase do escritor William Falkner a respeito de seu estado natal, o Mississippi, que eu acho relevante: “eis um lugar onde o passado nunca morre”. O racismo mostrado no filme não terminou. E não apenas no Sul dos Estados Unidos, mas em tantas outras partes, e transvestido de formas muito diversas – e, geralmente, não verbalizadas.

Tenho alguns textos para indicar àqueles que ficaram interessados por este tema da segregação racial. Para começar, indico este, publicado em um especial do portal UOL de Joaquim Nabuco. O texto traz o depoimento de Barbara Carter, uma professora de uma universidade dos Estados Unidos para mulheres negras que viveu a discriminação legalizada naquele país. No final, há a citação de que ainda existiriam, nos Estados Unidos, 762 grupos racistas. Um dos principais, claro, é a Ku Klux Klan. Aqui, um texto que explica o surgimento e o desenvolvimento deste grupo. Para fechar, recomendo este texto, que mostra avanços e retrocessos na discussão da segregação racial nos Estados Unidos, e este outro, sobre o movimento dos direitos civis naquele país.

Além das atrizes já citadas, e que dão um banho, é preciso citar outras que engrossam o time do filme – e mesmo que não façam um trabalho brilhante, elas ajudam a esta história ser contada: Ahna O’Reilly como Elizabeth Leefolt, a patroa de Aibileen; Anna Camp como Jolene French, uma das amigas de Hilly; Cicely Tyson como Constantine Jefferson, a empregada negra que ajudou a criar a Skeeter; e Aunjanue Ellis como Yule Mae Davis, a empregada que entra para substituir Minny na casa de Hilly.

Duas atrizes que fazem papéis secundários, são veteranas e dão um show são Allison Janney como Charlotte Phelan, mãe de Skeeter, e Sissy Spacek como Missus Walters, mãe de Hilly. As duas, mesmo sendo de gerações mais antigas e, teoricamente, mais resistentes às mudanças, são as que revelam uma aceitação maior das mulheres negras como iguais – ou quase isso – do que as gerações mais jovens. Talvez porque elas já sejam capazes de reconhecer tudo que aquelas mulheres fizeram por elas e pelas demais, cuidando de seus filhos e famílias por muito tempo.

O filme é bem acabado. Além da direção que privilegia as interpretações feita por Tate Taylor, vale citar a envolvente trilha sonora do veterano premiado Thomas Newman, a direção de fotografia “aconchegante” e “de época” de Stephen Goldblatt, e a edição precisa de Hughes Winborne. Por ser um filme ambientado nos anos 1960, vale comentar o bom trabalho dos figurinos feito por Sharen Davis, a direção de arte de Curt Beech e o design de produção de Mark Ricker. Sem eles, não teríamos sido transportados com tanta fidelidade para aqueles anos.

The Help é um sucesso de público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 169,6 milhões. Mesmo que ele não sair com muitas estatuetas do Oscar, para o qual ele foi indicado quatro vezes – e tem chance de ganhar, no máximo, três estatuetas -, The Help já pode ser considerado um sucesso.

Este filme estreou nos Estados Unidos e no Canadá no dia 10 de agosto de 2011. De lá para cá, ele participou de seis festivais – sem dúvida, The Help é uma produção muito mais com cara de comercial do que de festivais. Mesmo não participando de muitos festivais, este filme embolsou, até o momento, 29 prêmios – e foi indicado a outros 64, incluindo os quatro do Oscar. Dos prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer; para o prêmio de melhor elenco conferido pelo National Board of Review; e para os prêmios para o elenco e de interpretações impactantes para Viola Davis e Octavia Spencer do prêmio Screen Actors Guild (que representa a categoria dos atores em Hollywood).

Uma curiosidade sobre os bastidores deste filme: as atrizes Emma Stone e Bryce Dallas Howard viveram a personagem de Gwen Stacy em filmes do Homem-Aranha. Outro fato curioso: o livro de Kathryn Stockett, no qual The Help é baseado, foi rejeitado 60 vezes antes de encontrar alguém que acreditasse em seu potencial e decidisse publicá-lo. E algo fundamental para este filme ter sido realizado: o diretor, Tate Taylor, é amigo de infância de Kathryn Stockett.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para The Help. Não está mal, mas está abaixo de outros concorrentes importantes deste filme no próximo Oscar. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais exigentes: publicaram 149 críticas positivas e 47 negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 76% – e uma nota média de 7.

The Help é uma co-produção dos Estados Unidos, da Índia e dos Emirados Árabes – curioso.

Vale lembrar que este é apenas o terceiro filme dirigido por Tate Taylor. Ator com 18 filmes no currículo, ele estreou atrás das câmeras em um curta, em 2003, e cinco anos depois, em 2008, dirigiu o primeiro longa, Pretty Ugly People. Com o sucesso de The Help, ele deve seguir nesta seara.

CONCLUSÃO: Um filme recheado de histórias interessantes narradas com uma ótica diferenciada sobre a segregação racial e a diferença de classes nos Estados Unidos. The Help é destas produções que busca o equilíbrio constante entre o drama e a comédia, com várias pitadas inusitadas e interpretações exemplares. As atrizes deste filme surpreendem pela dedicação e pela força de suas interpretações – não é por acaso que três delas foram indicadas ao Oscar e ao Globo de Ouro. E que duas estejam sendo apontadas como favoritas para levar uma estatueta dourada para casa no próximo dia 26. É um filme bem escrito, mas que falha ao suavizar a própria história, dividindo as pessoas claramente entre “boas” e “más” – quando sabemos que esta divisão é bem mais difícil de ser feita. Ainda assim, The Help é envolvente e deve cair no gosto popular, mais do que outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano.

ATUALIZAÇÃO NO DIA 14/04: Olhando para trás, acho que fui um pouco “bondosa” demais com o filme dando, inicialmente, a nota 9,4 para ele. Um 9 me parece mais justo.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Help foi indicado em quatro categorias do Oscar. Por repetir duas indicações em uma mesma categoria, a de melhor atriz coadjuvante, ele pode receber, na melhor das hipóteses, apenas três estatuetas. Mas deverá ficar com menos que isso. Ele não tem chance como melhor filme – pelo menos não tendo The Artist e The Descendants como concorrentes.

Levará, sem dúvida, na categoria de melhor atriz coadjuvante – provavelmente a ganhadora será Octavia Spencer, ainda que Jessica Chastain tenha se firmado como um dos grandes nomes do ano passado. Viola Davis, para a minha surpresa, está liderando muitas bolsas de apostas para a premiação. Caso ela consiga vencer das favoritas Meryl Streep e Michelle Williams, não será uma injustiça.

Viola Davis é uma das grandes responsáveis pelo êxito de The Help. Além do mais, para muitas pessoas, a Academia tem uma dívida com ela, desde que não a premiou pela interpretação estonteante – ainda que muito curta – de Doubt. Ela merece, pois. Agora é esperar para ver se ela conseguirá desbancar as favoritas e garantir o segundo de três Oscars possíveis para The Help.

2 comentários em “The Help – Histórias Cruzadas

  1. Confesso que gostei até do filme, mas não tanto quanto você. E lendo todo o seu texto não entendi a nota 9,4, parece que, conforme o que você escreveu, ele merecia uma nota um pouco menor.

    Achei um filme muito simplista e “manjadinho” para concorrer ao Oscar de melhor filme, isso me deixou bastante surpreso, quanto as indicações na atuação elas são sim merecidas.

    Curtir

    1. Oi Marcio!

      Legal te “encontrar” novamente por aqui.

      Pois então, admito que o filme deveria ter recebido uma nota menor. Olhando para trás hoje, eu daria menos. Acho que na época em que escrevi o texto eu estava muito “boazinha”. 🙂

      Aliás, vou lá consertar esta falha. Obrigada pelo toque.

      De fato, como alguns já disseram em outras partes, o Oscar deste ano estava fraquinho. Pelo menos na categoria de melhor filme. Acho que faltou ousadia dos votantes, ou um pouco mais de conhecimento “de causa” – leia-se que faltou os votantes conhecerem outros filmes melhores para indicá-los.

      Não acho que ter 10 ou 9 indicados tenha feito bem ao Oscar. Não seria ruim ele voltar a ter apenas cinco na categoria principal.

      Muito obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes!

      Abraços e inté!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s